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FÁBIO RÉGIO BENTO

TÓPICOS DE SOCIOLOGIA

E ÉTICA SOCIAL

Estudar para mudar a sociedade

JULHO 2008

Sumário
Introdução
Capítulo 1 – Sociologia geral
Capítulo 2 – Campo como utopia da cidade
Capítulo 3 – Realismo, pessimismo e reformismo
Capítulo 4 – A questão social e a construção democrática no Brasil
Capítulo 5 – Televisão, publicidade e liberdade
Sobre o autor
Nesta coletânea de ensaios sobre sociologia e ética social insistiremos no caráter não somente descritivo, mas, também, prescritivo da sociologia. A prescrição de tratamentos, precedida pela cognição descritiva dos problemas, é uma característica da sociologia crítica que não deve ser perdida.

Pensadores revolucionários como Karl Marx, e reformistas como Eduard Bernstein e Carlo Rosselli tinham em comum o desejo de estudar a sociedade para transformá-la.

O trabalho de cognição acompanha o desejo de mudanças na sociologia crítica. Renomados sociólogos latino-americanos concluíram que “o percurso feito pelas Ciências Sociais da América Latina esteve sempre fortemente ligado à análise dos problemas concretos – macro ou micro, segundo os períodos e países – assim como à vontade dos cientistas sociais de incidir sobre tais problemas”1.

Propostas revolucionárias de mudanças sociais entraram em crise a partir dos eventos de 1989 (crise do socialismo real e das utopias revolucionárias), mas não deveríamos permitir a perda pelo ralo da história do ardor pelas mudanças que animou as pesquisas de tantos sociólogos críticos, reformistas ou revolucionários.

Este livro destina-se, principalmente, aos professores de Sociologia (no ensino médio e cursos de graduação) e aos movimentos sociais e partidos políticos de orientação reformadora.

CAPÍTULO 1

SOCIOLOGIA GERAL

1.QUESTÕES METODOLÓGICAS

A análise dos fatos sociais pela sociologia é um estudo que se faz a partir dos pés do observador, que estão fixados no tempo (história) e no espaço (geográfico).

A cabeça do observador pensa as informações captadas no ambiente onde os seus pés estão fixados. Ou seja, se faz sociologia com a cabeça, mas por meio dos pés: observação do ambiente onde o pesquisador está inserido.

A sociologia é prática, ou ao menos têm uma intenção prática. Não gosta de ser confundida com a filosofia social porque utiliza métodos de estudo diferentes.

Não estamos afirmando que a sociologia seja melhor que a filosofia social. Estamos afirmando que as duas são diferentes, mesmo se tantos alunos, não habituados às discussões metodológicas, freqüentemente as confundem.

A sociologia, ao contrário da filosofia social, precisa ser física, baseada em fatos, em experiências; e a filosofia pode ser metafísica, pensamento situado além do físico, sem a necessidade de se sustentar nos fatos (físicos), nas experiências (físicas). A filosofia social pode prescindir do físico, mas a sociologia não.

Metafísica é palavra grega que significa para além do físico. A filosofia metafísica prescindia dos fatos (do físico) e se concentrava no além do físico. Mas não devemos confundir metafísica (além do físico) com espiritualidade. Metafísica não se refere à religião, mas ao mundo das idéias. Não é o mundo dos espíritos, mas um modo característico de pensar.

Os fatos (físicos) são obrigatórios para a sociologia, que cria suas construções racionais a partir dos dados obtidos pela observação das experiências.

Para a filosofia social os fatos não são obrigatórios. Pode ser suficiente a capacidade de especulação (racional) do filósofo.

A sociologia estuda sociedades reais, grupos sociais reais, experiências vividas e não imaginadas. Estuda o mundo real e não o que gostaríamos que existisse.

Pode parecer supérfluo escrever o que estamos escrevendo, mas vários sociólogos já constataram que tendemos a tratar mais sobre o mundo que gostaríamos que existisse do que sobre o mundo que realmente existe.

E quando adotamos tal metodologia ao avesso nossa compreensão dos fatos fica comprometida.

Há quem goste mais de falar sobre como será um dia sua vida do que sobre como ela é de fato hoje. Claro que sonhar com uma vida melhor é louvável (idealismo), mas sem negligenciar a necessidade da descrição detalhada da situação real (realismo). A distinção entre o que é o real e o que seria o ideal é importante na compreensão dos fatos.

O sonho (futuro) pode atrapalhar a descrição da situação real (presente) e, por sua vez, impedir a realização do próprio sonho. O sonho, quando mal-sonhado, pode atrapalhar a realização do próprio sonho. É o que chamamos de metodologia ao avesso.

Tal atitude metodológica equivocada corresponde à expressão popular “colocar a carroça na frente dos bois”.

Para a sociologia, num primeiro momento a realidade deve ser descrita (o boi) para somente num segundo momento serem feitas avaliações e indicações de decisões para o futuro (a carroça). O problema é que na ânsia de serem obtidos resultados imediatos, a análise descritiva dos fatos é mal feita, feita pela metade, incompleta, e, assim, são indicados remédios errados para doenças mal identificadas.

Portanto, antes de pensarmos qualquer coisa sobre o futuro, deveríamos pesquisar com clareza a situação real dos fatos no presente.

Tal preocupação metodológica é negligenciada pelos sonhadores idealistas, mas não pelos sonhadores realistas.

O sonhador realista sonha e prepara um futuro melhor para si e sua comunidade atravessando corajosamente o túnel às vezes doloroso da realidade. Ele sonha com os pés-no-chão, fincados no tempo presente e no seu território específico.

Realista é a postura de quem analisa o real como condição prévia para qualquer raciocínio ideal.

Pelo realismo descrevemos o real; e pelo idealismo julgamos os fatos e prescrevemos soluções ideais com base em nossos valores morais.

Realismo e idealismo podem conviver juntos, mas a descrição do real deve PRECEDER a avaliação moral dos fatos e a prescrição de soluções.

Somos rápidos demais nos julgamentos e negligentes na descrição.

Julgamos sem conhecer o que estamos julgando. Olhamos para o Corcunda de Notre Dame e dizemos que ele é ruim porque é feio. A postura realista exige o contrário: julgar somente após conhecer, independentemente das aparências.



Método indutivo e método dedutivo

A sociologia é uma ciência nova, com cerca de 200 anos de vida. Antes da Revolução Francesa e da Revolução Industrial existia a filosofia social, mas ainda não existia a sociologia.

O vocábulo sociologia foi criado pelo francês Augusto Comte, que nasceu em 1798 (09 anos após a Queda da Bastilha-1789) e morreu em 1857. Augusto Comte é o pai da sociologia e o pai do método positivista.

Mas qual a diferença entre sociologia e filosofia social?

A diferença principal é metodológica.

A sociologia estuda a sociedade com o método indutivo e rejeita o método dedutivo da filosofia social.

Dedutivo é o método cujo ponto de partida do seu sistema cognitivo (ou sistema de conhecimento) está numa idéia pré-concebida que, depois, é aplicada aos fatos. É como se primeiro escolhêssemos a luva para depois tentarmos ajustá-la às mãos, à realidade.

Indutivo é o método cujo ponto de partida do seu sistema de conhecimento é a observação sistemática dos fatos e a análise e interpretação dos fatos observados. Neste caso, primeiro é estudada a mão, que corresponde à realidade, aos fatos, para depois ser elaborada uma luva adequada à mão. O método indutivo parte dos fatos para somente depois chegar a uma idéia sobre ele.

Pelo método dedutivo há quem afirme que os seres humanos são livres.

Pelo método indutivo os seres humanos não são considerados de forma abstrata e geral, mas concreta e particular: há homens e mulheres, de idades diferentes, de lugares diferentes, de épocas diferentes, de profissões diferentes. E não existe “liberdade” em sentido abstrato, mas liberdade interior ou exterior, política, econômica, religiosa, cultural, artística, etc. Há quem seja livre para poder dizer o que pensa, mas só no seu quarto e com a porta bem fechada, para não ser preso ou demitido. Tal pessoa teria liberdade interior, mas não liberdade exterior.

O método indutivo usado pela sociologia é o mesmo método caracterizado pela observação dos fatos, das experiências, que utiliza o biólogo, só que aplicado ao estudo das sociedades humanas.

O método indutivo aplicado ao estudo das sociedades humanas pela sociologia rejeita suposições a priori, pré-conceitos, pré-noções.

Método dedutivo: pré-noções, pré-conceitos aplicados aos fatos.

Método indutivo: noções, conceitos, idéias que derivam da observação e interpretação dos fatos.

Em geral, ao terminarmos um discurso, procuramos convencer quem nos escuta sobre a veracidade do que dizemos citando alguns exemplos. Os exemplos servem para confirmar nossas idéias. Este procedimento é típico do raciocínio dedutivo.

No método indutivo o que ocorre é o contrário. O exemplo é o ponto de partida do raciocínio indutivo.

Método dedutivo: exemplos para confirmar idéias – exemplo como ponto de chegada.

Método indutivo: idéias que derivam do estudo dos exemplos – exemplo como ponto de partida do sistema de conhecimento.

No método indutivo os exemplos condicionam as idéias; e no dedutivo os exemplos são usados para confirmar determinadas pré-noções.

O método dedutivo gerou até algumas vítimas na sociedade.

Vejamos duas:

1.Charles Darwin (1809-1882) observando a vida sobre a terra (biologia) afirmou que haveria um processo de evolução e que tal processo teria envolvido o próprio ser humano, que derivaria do macaco.

Os “dedutivistas” se irritaram com ele e o incomodaram bastante porque Darwin estaria contrariando uma pré-noção não verificada de que o ser humano teria sido criado por Deus do jeito que hoje o conhecemos.

Hoje, muitos teólogos críticos afirmam que a teoria da evolução não rejeita o criacionismo, e identificam em Deus o ponto de partida inteligente de um processo (histórico) de criação que pode ter sido evolucionário (desígnio inteligente de Deus).

2.Galileu Galilei (1564-1642) afirmou aquilo que hoje todos sabemos: a terra gira ao redor do sol e ao redor de si mesma. Mas na época em que confirmou tal observação, já era aceita por quem usava metodologias indutivas (ou científicas), teve que se retratar porque alguns “dedutivistas” afirmaram que ele estaria contrariando uma pré-noção não verificada segundo a qual a terra estaria parada e o sol giraria ao redor dela.

A ciência não é contra a religião, como alguém poderia pensar, mas contra interpretações religiosas preconceituosas. A ciência não é contra a bíblia, mas contra a manipulação fundamentalista da bíblia para a justificação de determinados pré-conceitos de pessoas e grupos.



Metodologia positivista

O método indutivo é chamado também de método positivista. Referimo-nos ao positivismo como intenção metodológica não-dedutiva.

Positivismo não significa otimismo.

Uma vez ouvi uma pessoa dizer que seu filho estava muito “positivista” em relação à possibilidade de conseguir um novo emprego. Positivismo não tem nenhum parentesco com pensamento positivo nem com otimismo.

Positivismo também não significa legalismo: apego excessivo a leis e procedimentos normativos.

A palavra positivismo foi usada por Augusto Comte para designar o método indutivo aplicado ao estudo da sociedade.

O método indutivo já existia. É o método típico da medicina. O médico (positivista) primeiro estuda os fatos – os pacientes – para depois elaborar uma idéia sobre a situação do paciente. Ele primeiro DESCREVE a situação do paciente após observá-la inclusive com a ajuda de exames. Somente assim ele poderá dizer como está o paciente.

O médico não pode fazer uma “metafísica médica” (mesmo se sabemos que alguns o fazem). Ele não pode aplicar “luvas” (idéias pré-concebidas) ao paciente (que seria a mão). Ele só pode dizer qual é a melhor luva para aquela mão após analisar o estado real do paciente. PRESCREVE um remédio ao paciente somente depois de ter DESCRITO a situação real dele.

A prescrição e intervenção supõem a descrição da situação real do paciente.

O método indutivo parte daquilo que é real, vigente, sentido da palavra “positivo”, de onde nasceu a corrente metodológica de pensamento denominada pensamento positivista.

Positivo, portanto, significa real, vigente, fático, observável. É positivo aquilo que pode ser estudado pela razão prática.

O contrário da palavra “positivo”, neste caso, não é negativo, mas abstrato. A intenção do positivismo era a de romper com a filosofia metafísica, dedutiva.

O método positivista elabora idéias sobre os fatos (experiências), a partir da observação, descrição e interpretação dos próprios fatos sociais.

Para tentar ser mais claro, mesmo se mais forte, podemos dizer que o positivista é um materialista. E aqui também podemos começar dizendo o que não é materialista.

A palavra “materialismo” não equivale a consumismo: aquele que está sempre comprando, “apegado às coisas materiais”, como normalmente se diz, é um comprador consumista. E materialista aqui também não significa ateísta, que é aquele que nega a existência de Deus.

Empregamos a palavra materialista em sentido metodológico: postura metodológica de quem prioriza os fatos (materiais) como ponto de partida de seus estudos sociais. Um sociólogo pode ser materialista do ponto de vista metodológico, e cristão do ponto de vista religioso.



Neutralidade absoluta e neutralidade relativa

O método indutivo sugere que os estudiosos dos fatos devem se desapegar de suas pré-noções em relação aos fatos estudados.

Trata-se de importante discussão na sociologia a que diz respeito à neutralidade (valores políticos, morais, religiosos) dos pesquisadores em relação aos fatos pesquisados.

Evidentemente, cada pessoa é condicionada por pré-noções específicas, e as carrega sempre, mesmo quando está estudando. Não é que começamos do zero nossos processos de conhecimento quando nos encontramos diante de uma nova ou antiga situação a ser estudada.

Se você fosse convidado a estudar a comunidade das Testemunhas de Jeová, teria que saber lidar com seus valores e pré-conceitos (favoráveis ou contrários) em relação a eles. Pensaria que são ótimos cristãos ou que são fanáticos porque rejeitam a transfusão de sangue. Ora, condicionamentos são inevitáveis, mas a objetividade deve ser buscada no estudo dos fatos.

A sociologia discutiu tal questão e, em resumo, podemos dizer que a posição de neutralidade absoluta do estudioso em relação aos valores morais contidos nos fatos que estão sendo por ele estudados é impossível e desnecessária, mas a neutralidade relativa é importante, possível e necessária, mesmo se difícil.

Qual a diferença entre elas?

Pela neutralidade absoluta o pesquisador não deveria pensar em nada de próprio nem sentir nada de pessoal em relação aos fatos observados. Ora, isso é impossível nas ciências humanas e sociais, pois, ao contrário de outras ciências, estamos envolvidos efetiva e afetivamente com as coisas que estamos estudando. Todos nós temos nossas idéias e nossos gostos sobre fatos religiosos, políticos, etc.

Ao contrário da química e da física, nas ciências humanas e sociais estamos muito mais envolvidos do que pensamos com as coisas que estamos estudando. A neutralidade absoluta seria possível somente se estivéssemos dormindo, ou mortos.

A neutralidade relativa indica que o pesquisador pode buscar maior objetividade no estudo dos fatos pelo DESAPEGO METODOLÓGICO em relação às próprias pré-noções e gostos pessoais que condicionam sua compreensão dos fatos observados e analisados.

A neutralidade relativa sugere o desapego metodológico de nossas pré-noções e pré-juízos.

Os pesquisadores devem identificar suas simpatias e antipatias por determinadas experiências específicas estudadas. Eles podem ter suas posições, mas não deveriam se tornar reféns dos próprios julgamentos de valores.

Enquanto cidadão, o pesquisador pode e deve julgar os vários fenômenos sociais; mas enquanto profissional ele tem o dever de se desapegar das próprias posições éticas e políticas, para que as opiniões de ontem não impeçam a elaboração de uma visão mais atualizada.

A neutralidade relativa (desapego metodológico) é necessária e a neutralidade absoluta é impossível.

Se um médico for operar um amigo, sua amizade poderá ser benéfica ou não à operação. Ele pode operar melhor ou perder a objetividade e deixar que a emoção esconda alguma coisa. A emoção envolvida pode ajudar ou atrapalhar na cirurgia que ele deve realizar.

A Lei dos Três Estados

Augusto Comte, assim como Weber e Durkheim, estava com um pé na sociedade tradicional (pré-industrial e monárquica) e outro na nova sociedade forjada pelas Revoluções Francesa e Industrial.

A compreensão das características principais desta sociedade nascente, e das mudanças que estavam transformando a sociedade tradicional numa nova sociedade urbana, industrial e orientada para a democracia, foi objeto dos estudos de Max Weber, Augusto Comte, Émile Durkheim e Karl Marx.

Para Augusto Comte, a sociedade que estava desaparecendo era ao mesmo tempo teológica e militar: os valores sociais, a cola que cimentava existencialmente as comunidades humanas vinha da religião (poder teológico) e da disciplina militar. Os homens de guerra, juntamente com as autoridades religiosas, ocupavam as primeiras posições neste modelo de sociedade que estava sendo substituído por um outro, científico e industrial.

Na sociedade científica e industrial emergente, o modo de pensar dos teólogos e sacerdotes foi substituído pelo modo de pensar dos cientistas, que teriam herdado o poder espiritual e moral dos sacerdotes. Por outro lado, os industriais (empreendedores, diretores de fábricas, banqueiros) passam a assumir o lugar dos militares.

Assim, o pensamento científico ocupa o lugar de destaque antes ocupado pelo pensamento teológico. Não que o pensar teológico tenha sido eliminado. Ele foi deslocado a um nível inferior em relação ao pensamento científico, da mesma forma que a atividade industrial passou a ocupar uma posição de superioridade em relação à atividade militar.

Os militares e os clérigos foram substituídos pelos cientistas e pelos industriais.

A industrialização gerou mudanças de papéis sociais e impôs também uma nova forma de pensar.

Com a Lei dos Três Estados Augusto Comte explicou tal mudança na forma de pensar. A forma mentis (forma de pensar) típica da atividade industrial e, conseqüentemente, das sociedades modernas industrializadas é o pensamento científico, positivista que, como vimos, significa real, empírico, prático, experimental.

Os três estados da teoria de Comte equivalem a três etapas diferentes da história do pensamento humano, três diferentes tipos de saber, três diferentes métodos de compreensão.

O primeiro estado é o estado teológico ou fictício, onde os fenômenos são explicados de forma sobrenatural, com a invocação de forças ou seres religiosos.

A segunda fase ou etapa do pensamento humano é o estado filosófico ou metafísico. Trata-se de uma etapa intermediária, de ligação entre a primeira e a terceira, onde as explicações não são mais de caráter sobrenatural. As explicações já são racionais, mas ainda se trata de razão metafísica e não de razão científica.

Por último, o terceiro estado do pensamento humano, que é a etapa positiva ou científica, onde as explicações não são mais de caráter sobrenatural (estado teológico) ou de caráter natural metafísico (estado filosófico), mas de caráter técnico-científico. No terceiro estado as explicações são elaboradas a partir da observação empírica, sistemática dos fenômenos.

Vejamos dois exemplos:

1.Uma pessoa cai por terra e começa a se contorcer e babar. Pelo primeiro estado, ela poderia estar possuída pelo demônio. Pelo terceiro, estaria tendo uma crise convulsiva.

2.Uma enchente destrói casas numa cidade. Pelo primeiro estado, poderia ser castigo dos deuses. Pelo terceiro, efeito do desmatamento.

Comte constatou de forma objetiva que o pensamento positivo começava a se tornar o estilo de pensar predominante nas sociedades modernas. O problema é que os positivistas - entusiasmados com as promessas de progresso anunciadas pela ciência - acabaram desvalorizando outras formas de pensar. Todas as formas de pensar são importantes. E uma pode complementar ou mesmo corrigir a outra. A ciência pode corrigir a religião, e a religião a ciência.

Todavia, houve uma supervalorização do pensamento científico-positivista e, ao mesmo tempo, desqualificação do pensamento teológico-tradicional e do pensamento filosófico-metafísico, considerados ultrapassados. Excessos que talvez estejam sendo corrigidos.

A forma mentis positivista passou a ser não somente o estilo de pensar da indústria, mas o estilo de pensar geral, como se religião fosse sempre superstição.

Por meio da indústria, o raciocínio positivista passou a ser o estilo de raciocínio típico do homem moderno. O saber científico, positivo, técnico tornou-se quase onipotente.

Hoje, há positivismos mais moderados, caracterizados pela interpretação aberta dos fatos sociais e não pela pretensão de verificações exatas (não existe certeza matemática nas ciências humanas e sociais).

Para o positivismo tradicional, sócio-matemático, na hipótese de uma cidade acordar um dia sem os seus 50 principais filósofos, esta cidade choraria os seus mortos, mas continuaria vivendo normalmente. Da mesma forma, se esta cidade acordasse sem os seus 50 principais teólogos, ela choraria tal perda, mas continuaria vivendo normalmente. Todavia, se ela acordasse sem os seus 50 principais técnicos, ela choraria e, ao mesmo tempo, pararia, pois não conseguiria continuar vivendo normalmente.

O que valeria seria somente o saber técnico-científico, enquanto que o saber teológico e o saber filosófico seriam apenas decorativos, dispensáveis ou, no máximo, complementares em relação ao saber científico.

Para os positivistas dos primeiros tempos os cientistas seriam os novos sacerdotes da humanidade, o novo clero da modernidade, que libertaria o mundo dos resíduos de uma mentalidade teológica e feudal por meio da força espiritual do saber científico.

O entusiasmo com o método positivista foi tão grande que os primeiros positivistas acabaram criando até mesmo uma religião positivista.

Hoje tal debate está mais tranqüilo, e o positivismo voltou a ser apenas o que é: uma importante postura metodológica.

A sociedade necessita do saber dos técnicos, dos teólogos e dos filósofos.

As sociedades humanas são sociedades vivas, orgânicas, o que impede que a sociologia seja confundida com matemática social, já que a matemática estuda objetos inorgânicos.



Sobre o caráter prescritivo da Sociologia

A sociologia tem como objetivo a realização de tarefas cognitivas, mas objetivos avaliativos e prescritivos também acompanham direta ou indiretamente o sociólogo no exercício de suas atividades de pesquisa.

Há conclusões (explícitas ou implícitas) de caráter avaliativo e prescritivo também nas pesquisas sociológicas que pretendem ser apenas cognitivas.

Valorações mal-feitas e prescrições descabidas são inoportunas e contraproducentes, mas nem todas as valorações são mal-feitas assim como nem todas as prescrições são descabidas.

A sociologia não é incompatível com valorações e prescrições.

Valorações e prescrições são etapas possíveis na pesquisa sociológica, posteriores à cognição do real.

Uma ciência que estudasse problemas rejeitando a busca de valorações e soluções, como se isso a desmerecesse, seria uma ciência difícil de ser justificada quanto à sua plena utilidade pública. Seria como se a medicina se dedicasse somente à compreensão (cognitiva) das doenças sem indicar nenhum tratamento ao paciente e, pior, considerando a indicação de tratamentos como defeito metodológico grave a ser evitado.

A sociologia é uma ciência descritiva e interpretativa que sugere, também, avaliações e prescrições bem fundamentadas.

A cientificidade da sociologia não exclui valorações e prescrições. Problemas sociais devem ser estudados e, também, resolvidos, ou ao menos amenizados.

A sociedade necessita de uma ciência do social que explique os problemas e apresente também valorações sólidas e prescrições caracterizadas pela eficácia, dentro dos limites de prazo de validade de todas as prescrições: não existem soluções definitivas, mas soluções válidas por determinado período de tempo.

Não estamos autorizados a abandonar o caráter prescritivo da sociologia somente porque algumas prescrições do passado não foram bem sucedidas. Afinal, também na medicina há revisão de tratamentos, e as prescrições de ontem são substituídas por prescrições mais atualizadas.

Se prescrições de ontem fracassaram, elas devem ser modificadas, mas isso não significa que o caráter prescritivo da ciência deva ser abandonado.

Se um tratamento não produz os efeitos desejados, o que deve ser abandonado (ou modificado) é o tratamento específico anteriormente recomendado, e não a lógica metodológica da descrição, avaliação e indicação de medidas (prescrição de tratamentos).



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