Feliz Ano Velho



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Feliz Ano Velho

Marcelo Rubens Paiva

Marcelo tocava guitarra, jogava futebol e estudava engenharia agrônoma. Aos vinte anos sofreu um acidente que o deixou paralítico. Feliz Ano Velho repensa sua vida.

Dizer que é um relato de vida comovente é fazer pacto com o lugar comum. Mas e daí? Lugar comum também não pode ser uma imagem que bate fundo no coração de todos, que pega, pela emoção, cada um de nós? Que é comum a todos? Coisas da vida, da morte, do amor, quando narradas sem pieguice, são comoventes. Sem embargo do lugar comum.


Prefácio

Marcelo, cara, peguei teu texto para ler em um dia de tremendo baixo astral. Como sempre acontece comigo (desde que te conheço), recebi uma porrada de energia na boca do estômago e o moral subiu dos intestinos para a cabeça.

O teu livro está um barato, especialmente por- que dá pra sentir um gozo aberto tipo poker descoberto. No fundo eu acho que a transa da literatura está ligada à transa da verdade (assim como a revolução, o amor e um montão de coisas ). E é aí que está todo o pique do que você escreveu. A tua história está transada de um jeito putamente terno, bem-humorado, erótico e sedutor, o que, aliás, é a sua maneira de ser.

Agora o seguinte: vou tentar uma contribuição de leitor numas de baixo astral. Ou então porque me sinto um tanto machucado pela vida e sinto vontade de transar a amargura como parte da realidade. Se você achar que as minhas questões não têm nada a ver com teus sentimentos, vê se não é o caso de falar sobre isso com quem transa as coisas desse jeito. Ou então desencana e manda ver no teu texto.

1. O que é que passou pela tua cabeça na hora que você mergulhou estilo Patinhas ?

2. Raiva, revolta contra o fatalismo do acidente (por que logo eu ?) ?

3. Quando você fala em "cagada ", isso expressa sentimento de culpa ?

4. Eu acharia legal que, em alguma parte, viesse um relato personalizado da tua visão do Rubens Paiva e do seqüestro.

Tem uma firmeza no teu texto que espero que você mantenha: é um texto limpo de teorias e com um puta sentimento que expressa e defende suas idéias. Por exemplo, é deliciosa a maneira como na história há elementos críticos sobre as pessoas, comporta- mentos etc. sem nenhuma cagação de regras ou ironias baratas, mas com uma puta firmeza.

Ameaça final: se você não publicar esse livro, juro que vou-me aliar ao pai da sua namorada da BBB e perseguir você até o juízo final.

Abração,

Luis Travassos

Inverno de 81

O Travassos foi presidente da UNE em 68 e morreu na quarta-feira de cinzas de 1982, aos 37 anos. Não leu o final do meu livro, nem escreveu o dele (veado, eu dizia que a história da vida dele era muito mais emocionante que a minha). Não consegui convencê-lo a escrever, mesmo depois de mostrar as minhas primeiras páginas analfabetas. Sinto saudades da gente bebendo cerveja e falando das nossas desgraçadas vidas. Nós, com quem o destino não foi muito generoso, temos um certa cumplicidade com a vida, e procuramos juntos nos defender dela.



É difícil entender porque um rapaz de vinte anos fica paralisado depois de um mergulho mal dado. Assim como é difícil aceitar que um líder estudantil teve que passar toda a sua juventude fugindo de país em país, pois alguns generais não gostavam dele.

Você morreu, Zé, e eu adorava você. Esse livro é dedicado a você, e, quando eu for pro céu, vou levar o que você não leu, e umas folhas em branco pra sua história.

Até mais, garotão.

Marcelo Rubens Paiva

BIIIIIIIN
14 DE DEZEMBRO DE 1979

17 HORAS


SOL EM CONJUNÇÃO COM NETUNO

E EM OPOSIÇÃO A VÊNUS


Subi numa pedra e gritei:

– Aí Gregor, vou descobrir o tesouro que você escondeu aqui embaixo, seu milionário disfarçado.

Pulei com a pose do Tio Patinhas, bati a cabeça no chão e foi aí que ouvi a melodia: biiiiiiin.

Estava debaixo d'água, não mexia os braços nem as pernas, somente via a água barrenta e ouvia: biiiiiiin. Acabara todo a loucura, baixou o santo e me deu um estado total de lucidez: "estou morrendo afogado". Mantive a calma, prendi a respiração sabendo que ia precisar dela para boiar e agüentar até que alguém percebesse e me tirasse dali. "Calma, cara, tente. pensar em alguma coisa." Lembrei que sempre tivera curiosidade em saber como eram os cinco segundos antes da morte, aqueles em que o bandido com vinte balas no corpo suspira...

– Sim, Xerife, o dinheiro do banco está enterrado na montanha azul.

Por que o cara não manda todo o mundo tomar no cu e morre em paz?

O fôlego tava acabando, "devem pensar que estou brincando". Era estranho não estar mexendo nada, não sentia nenhuma dor e minha cabeça estava a mil por hora. "Como é que vai ser? Vou engolir muita água ? Será que vai vir uma caveira com uma foice na mão?"

– Venha bonecão, vamos fazer um passeio para o mundo do além, uuuaaaaaaa!!!

Será que vou pro céu? Acho que não, as últimas missas a que fui eram as de sétimo dia dos tios e avós. Depois, não sei se deus gosta de jovens que, vez em quando, dão uma bola, gostam de rock. Pelo menos não é isso que os seus representantes na Terra demonstram. E, meu negócio vai ser com o diabo, vou ganhar chifrinhos, um rabinho em forma de flecha e ficar peladinho, curtindo uma fogueira.

De repente estava respirando, alguém me virou.

– Você tá bem? Era o Professor Urtiga, que me carregava no colo. Sem saber o que dizer, pedi uma respiração boca a boca. Ele me olhou assustado e foi me levando pra margem fazendo a respiração. Já em chão firme, os bêbados e loucos falavam:

– Êi, Marcelo, levanta!

– Que é isso, Paiva?

– E aí, tinha muito ouro?

– Levanta, que ele fica bom logo, é só dar uma chacoalhada.

– Isso, me levanta, eu devo estar meio bêbado.

Me levantaram, mas não deu em nada. Todos ficaram impressionados, logo começaram a transar uma ida a um hospital qualquer: uma cabeça mágica arrumou uma tábua. Deitaram-me e fomos até onde estavam os carros. Não havia dúvidas de que a Kombi era o melhor deles. Entraram Urtiga, Florência, Marcinha, Gregor e não sei mais quem. Urtiga foi cantando em castelhano, imaginei que fosse algum ritual maia, já que ele é mexicano. Gregor foi cutucando meu pé e chamou seu deus que até hoje não sei quem é, Marcinha apelou pro Pai Nosso e a Florência só chorava. O caminho tava demorando, mas eu nem me importava, tava gostoso ali, deitado, ouvindo o canto maia, com a certeza de que nada de grave havia acontecido. No hospital me dariam uma injeção qualquer e tudo bem. Urtiga começou a passar a mão na minha cabeça. Reparei que ele tava preocupado, olhei pra sua mão e vi que estava toda ensangüentada. Só poderia ser de algum corte da minha cabeça.

Chegando no pronto-socorro, percebi que o negócio era sério: maca, oxigênio, enfermeiros, médicos, maca correndo, teto branco, todo o mundo olhando, mesa de Raio X.

– Sente aqui?

– Não.


– E aqui?

– Só acima do pescoço.

– Ih, meu deus...

Veio uma mulher: disse calmamente meu nome e pedi para avisar minha família em São Paulo.

– Ah! Avisa também o Dr. Miguel aqui em Campinas. O telefone dele é 29045.

Não sei como consegui lembrar o telefone do pai da minha ex-girl. Comecei a pensar nela, doce Lalá, faz quase dois anos e não teve outra paixão igual. Lembrei me de que sempre a gente ia jantar fora, pedíamos vinho e ficávamos tão bêbados que todas as privadas de bares campineiros estavam registradas com meu vômito.

– Não, moça, não corte minha unha, é que eu toco violão e vou fazer uma gravação neste fim de semana. Seria a primeira vez que ia entrar num estúdio profissional.

Guarda esse colar, que ele é muito especial.

– Pô, meu cabelo não, é que eu sou muito vaidoso. Me deixaram carequinha, carequinha. Apaguei.


Do Lado de Cá dos Trilhos
De um lado, sou neto de latifundiários; do outro, comerciante italiano da Rua Santa Rosa. Filho de engenheiro e advogada, tenho quadros bonitos na parede e piso em tapetes persas. O único calo que tenho em minhas mãos é de tocar violão. Não tenho marcas de estilete nem de balas pelo corpo, apenas arranhões devido a uma infância debaixo das traves. Sempre joguei no gol.

Nasci no lado de cá dos trilhos, de marginal somente no colegial, onde os colegas eram príncipes; eu, apenas burguês. Eles calçavam All Star, um tênis todo fresco, americano, que encantava as menininhas, dando um porte de jogador de basquete da Harvard University .Eu usava um Bamba, figurando um goleiro do Vasquinho, meu time de futebol.

O Tietê enche, mas não molha minha casa; o: temporal cai, mas não atola minha rua. Nunca tive que trabalhar. Meu berço não era de ouro, mas era um berço. Só aos dez anos peguei no batente, no Rio de Janeiro. Fora eleito presidente do Vasquinho. Era um cargo glorioso, mas tinha que pôr dinheiro na caixa. Varria quintais e ganhava Cr$ 5,00. Em outras palavras, cinqüenta chicletes. Sempre fui um grande pidão, e, nos jantares que meus pais ofereciam, eu punha uma urna na entrada, escrito:
"DÊ UMA COLABORAÇÃO A UM POBRE GAROTO."
Eles achavam graça e davam. Como os jantares eram freqüentes, já estava-me tornando um milionário. Resolvi investir, capitalizar minhas economias. Virei um sócio fanático da Caixa Econômica Federal. No Natal e no meu aniversário, o bolo era grande. Pensei até em investir no overnight, mas não tinha know-how para tanto. No dia seguinte, ia direto para minha amiga Caixa, onde os caras já me conheciam, e todo o dia 26 de dezembro ou 2 de maio já tinha um comprovante de depósito preenchido em meu nome no valor de Cr$ 500 (cinco mil chicletes), era o bolo da minha avó. Pena que todo ano, até hoje, a ficha continue preenchida em Cr$ 500. Minha avó não entende nada de correção monetária.

A conta crescia, começava a ficar apetitosa. Andava pelas vitrines escolhendo o que poderia e o que não poderia ser meu. Um dia, encheu o saco. Não queria morrer rico sem ter nada em mãos. Primeiro foi uma prancha de isopor, dessas de pegar jacaré. Fiquei bom no mar, passei pruma de surf, mas vim morar em São Paulo, e, até agora, as ondas do laguinho do Ibirapuera não subiram. Tinha de fazer um investimento mais paulistano: comprei um violão. Aos dezessete anos, conheci uma linda paraguaia na Unicamp. Com as férias, veio o convite. Nunca havia saído do Brasil. Então, fechei a conta numa aventura ao Paraguai. Que decepção: ela tinha um namorado paraguaio. Tinha carregado o Fabião comigo, mas ele também levou um fora de uma muchacha. Decidimos então ir à Argentina, mas comemoramos a última noite paraguaia numa boate. Bêbados e mal-amados, uns caras insistiram para irmos pro "quilombo". Quilombo? Deve ser algum gueto de negros, pensei. Que nada, era um puteiro. Bêbados, mas nem tão mal- amados, eu e o Fabião fomos pra Argentina, onde torramos todo o dinheiro em cassinos e mulheres. Que besteira, ficamos duros. Tenho um pouco de vergonha, mas também um pouco de orgulho, pois não era só nos filmes que os caras se estrepavam em Las Vegas. Nós também.

Estávamos com fome e frio em Buenos Aires. Como explicar às nossas famílias que não tínhamos dinheiro para voltar? Apelamos para a criatividade.

– Fomos assaltados.

– Que coisa horrível.

Em dois dias havia dinheiro suficiente para passarmos mais um mês, porém, cinco minutos depois, fomos pra rodoviária, pegamos um Pluma. Quarenta e oito horas de viagem sem abrir a boca. A Argentina e o Paraguai riram de nós como quem diz: "enganamos mais dois trouxas".



UTI

Unidade de Terapia Intensiva
Acordei. De um lado, um caninho com um líquido amarelo que entrava em minha veia; do outro, um com sangue. Na boca, um acoplado, aqueles aparelhinhos de respiração artificial que já conhecia do Fantástico. Muito eficiente, fechava a boca com a língua, mesmo assim o ar entrava. Tinha uma sanfoninha pendurada que enchia e esvaziava. Assoprava e ela nem se tocava, enchia e esvaziava...

Fiquei curtindo o bicho: como é gostoso respirar sem fazer força, enchia e esvaziava... Passei a reparar no ambiente. Era uma sala pequena, com luz fria. Não sabia se era dia ou noite, porque não havia janelas, só paredes brancas. À minha esquerda, um leito com um cara em cima. Também tinha uma sanfoninha. À direita, dois leitos. Tentei me erguer, mas não consegui.

É mesmo, não mexia nada. Lembrei-me do acidente, só podia estar num hospital. "O que aconteceu comigo? Será que fui operado? Será que é por causa da bebida que estou assim ? Algum trauma devido à batida na cabeça?" Ouvi vozes e percebi que havia gente na sala. Comecei a balançar o pescoço pra chamar a atenção. Veio uma enfermeira e perguntou se tava tudo bem.

– Eh, eh, eh...

Perguntou se eu queria tirar o aparelho. Fiz um gesto afirmativo, ela pediu pra esperar um pouco e saiu. Nunca sentira tanta falta da minha voz. Precisava saber se era sério o que tinha acontecido, queria falar, ouvir, e naquela sala não havia nada. A enfermeira voltou com mais dois caras. Perguntaram-me se eu seria capaz de respirar sem a sanfoninha. Era óbvio que podia, afinal de contas eu tava absolutamente acordado. Minha boca livre, perguntei o que havia acontecido. Responderam que eu fora operado e que , estava tudo bem.

– Como assim ?

– Mantenha-se calmo e com um pouco de paciência, que você vai pra casa logo. Tua mãe teve aqui, mas voltou pra São Paulo, porque já é tarde.

– Que horas são?

– Três da manhã.

– Tudo isso? Mas o que aconteceu? Por que acordei só agora ? Quebrei alguma coisa ? Por que é que não me mexo ?

– Calma, amanhã cedo virá o médico que te operou, e você vai saber de tudo. Nós estamos aqui pra te ajudar, tente dormir e descansar, que já, já você fica bom.
Acordei com uma pessoa cantando. Era uma enfermeira. Vinha vindo direto pra mim, como se me conhecesse há muito tempo.

– E aí Marcelo, tudo bem? Eu sou a Elma. Agüenta um pouco que nós vamos te dar um banho.

Ela era baixinha, gordinha, dessas com uma cara simpaticíssima. Não entendi direito aquele banho. Será que vão-me colocar num chuveiro? Mas como? Se eu não me mexo. Imagino que não conseguiria ficar em pé. Podem me pôr numa banheira, mas com esses caninhos vai ser meio difícil. Estava meio confuso, não conseguia pensar direito. Será que vai demorar pra mexer alguma coisa? Pode ser que dê pra mexer alguma coisa, pode ser que dê pra ficar de pé, que merda não entender nada de medicina. Além do que, esse líquido amarelo que entra na veia deve ser algum tranqüilizante, é que eu tô meio de barato, com a boca seca e formigando."

Apesar de sozinho lá deitado, dava pra sacar que a movimentação era intensa. Veio um crioulo com uma bandeja na mão:

– E aí meu irmão, como é que é, tudo firme? Fica frio, não esquenta não, porque se você esquentar a cabeça, caspa vira "mandiopan ".

Fiquei imaginando um cara começando a ficar nervoso, vermelho, a cabeça pipocando ploc ploc ploc...

Até hoje não sei porque comecei a chamar esse crioulo de Ding Dong. Era o nome do percussionista do meu conjunto, só que era branco. Acho que foi uma forma carinhosa de chamar um crioulo de King Kong sem racismo. Lembro-me que ele adorava quando eu o chamava de Ding Dong e, apesar de não ser sua função, ele vinha todo o dia, punha a bandeja e falava:

– Olha, senão caspa vira mandiopan.

Veio outro crioulo, esse se chamava Divino, molhou uma toalha n'água e começou a passar no meu corpo. Perguntei se era aquilo o banho.

– É, meu irmão. É um banho de gato, só que ao invés da língua é essa toalhinha.

Eu não podia ficar de bruços, e, para lavar as costas, ele chamou a Elma. Me viraram de lado, ela segurando e ele lavando. O crioulo ficou esfregando a toalha na minha bunda e depois enfiou a mão numa luva de plástico e pôs o dedo no meu cu, para tirar o cocô. Eu morrendo de vergonha, mas ele nem aí. Já devia estar acostumadíssimo.

Só agora percebi que estava num colchão de água. Enxugaram-me e me cobriram. Elma mandou-me esperar um pouco, porque tinha que dar banho em outros pacientes. Disse que logo depois viria dar o café da manhã e bater um papo.

"Que loucura, o que está acontecendo? Eu aqui deitado, sem poder me mexer. Essas pessoas que nunca tinha visto antes, esse lugar, o que é tudo isto afinal ? A única certeza que tenho é que estou vivo e muito lúcido. Consigo me lembrar perfeitamente do acidente, do meu passado, de tudo, enfim. Minha cabeça está a mil por hora e eu aqui paralisado: não poderia ter acontecido algo tão sério assim, será?"

Senti que só existia uma coisa funcionando em mim. Era como se fosse uma cabeça em cima de uma bandeja. Qualquer balançada que desse, a cabeça cairia da bandeja e sairia rolando como se fosse uma bola. Cairia no chão e continuaria rodando, rodando, rodando, rodando, rodando, rodando...

– Até que você é bonito

– Porra, Elma, o que está acontecendo?

– Nada, vou começar a dar café para você agora.

– Eu preciso falar com alguém .

– Tua mãe ligou e está vindo de São Paulo. Deve chegar daqui a pouco.

E foi me dando com colher um café com leite e pão amassado dentro. Fiquei um pouco mais calmo e imaginei minha mãe preocupadíssima. "Como será que eles reagiram à notícia? Será que minhas irmãs já estão sabendo? E o pessoal de Campinas?"

Finalmente chegou minha mãe, a primeira reação que tive foi a de sentir vergonha pela cagada que havia feito: me atirar num lago de meio metro, bêbado.

– Você quebrou a quinta vértebra cervical e comprimiu a medula.

– Medula?

– Medula é um negócio que liga o cérebro aos músculos por estímulos nervosos: enfim, o cabo que liga o telefone de uma casa à central telefônica. O que aconteceu foi que caiu um poste no meio da rua e todos os telefones de um bairro ficaram sem funcionar, apesar da central telefônica estar inteirinha.

– Quer dizer que os meus braços são o Jardim Paulista e as minhas pernas o Ibirapuera ?

– É, filhinho, mais ou menos isso.

– Eunice, falando sinceramente, eu fico bom? Diga a verdade!

Eu nunca tinha tido contato com a morte na minha vida até os doze anos. De repente, morreu meu pai, o pai do Ricardo (meu tio), uma prima, outro tio, outro tio, meu avô, meu outro avô. Tudo isso em dois anos. Foi um choque, pois, encarando me como uma criança, nunca me contavam direito a verdade. As pessoas não entendem o que é a morte porque a morte não é para ser entendida, é para ser apenas a morte. A morte é para ser vivida, e minha família não queria que as crianças convivessem com ela.

A morte do meu pai eu vou contar mais tarde. A mais chocante delas foi a do pai do Ricardo. Ele estava com câncer no cérebro, mas me diziam que estava apenas doente. Eu pensava que ele estivesse com uma gripe forte, um resfriado ou com tosse, pensava que ele ia ficar bom logo e nem me importava com o fato de ele ter ido aos Estados Unidos fazer uma operação, de voltar careca, com uma cicatriz enorme na cabeça, de aos poucos ir perdendo a memória, os movimentos e, enfim, entrar em coma. Eu pensava que era só tomar tira-tosse para ele ficar bom logo, porque me diziam que ele estava apenas doente.

Um dia o Ricardo me acordou e ficou sentado na cama olhando pra parede. Percebi que ele estava um pouco triste e, para animá-lo, montei a mesa de botão. Começamos a jogar:

– Lá vai Dorval com a pelota: uahah! (barulho da torcida) – entrega para Fio, dribla o primeiro e perde a bola para Clodoaldo.

– Lá vai Clodoaldo galopando pelo campo, faz um passe, em profundidade para Edu, vai pro gol!

– Pode vir.

– Ploc.


– Defende Ubirajara numa sensacional defesa.

Entra Nalu no quarto e, meio assustada, me chama para o quarto dela. Chegando lá ela me diz:

– Fica com o Ricardo, porque tá a maior confusão lá embaixo.

– Mas, por quê?

– Porque Tio Carlos morreu.

Voltei para o quarto, olhei para o Ricardo e não sabia o que dizer. Eu estava chocadíssimo, e, olhando para o Ricardo, comecei a chorar. O que eu ia fazer? Dizer "meus pêsames" para o meu primo?


Nunca perdoei minha família por não dizer que o Tio Carlos ia morrer. Isso me fez sentir um medo tremendo da mentira e, no momento em que vi minha mãe na UTI, sabia que a verdade seria mais saborosa. Eu não queria de jeito nenhum que minha mãe me encapuzasse fazendo o que algumas tias minhas fazem, me dizendo:

– Fica calmo, porque deus vai resolver tudo direitinho. Deus é muito bom, viu? Pode confiar nele.

Um dia eu estava tão de saco cheio que perguntei para a Tia Cida:

– O que é deus? É um novo drops que saiu?


Eu devia estar sendo muito bem dopado, pois apagava com uma facilidade incrível, e, quando acordava, não conseguia pensar direito: hospital, esses caninhos, esse teto branco, por que não mexia nada? Ah é, era a tal de medula.

"E agora? Minha maior preocupação é sair daqui, estudar pra dois exames que ainda faltam na faculdade, fazer a matrícula do próximo semestre, pagar o aluguel e arrumar grana pra passar o carnaval em Olinda, na casa da Nana." Quando entrou no quarto minha mãe de novo, com um baixinho meio careca, todo de branco:

– Esse foi o médico que te operou, Dr. Alex.

Me deu um sorriso, foi até o pé da cama, examinou as minhas fichas, voltou, examinou o meu pescoço.

– Doutor, eu queria te fazer umas perguntas.

– Lógico, eu vou te explicar tudo direitinho.

–Vou ter que ficar ainda muito tempo aqui? Tenho umas coisas importantes pra fazer .

– Agora não posso te responder. Você foi operado e está em estado de observação.


Teto branco. Branco para paz. Limpeza. Repouso. Branco que nem vazio. Tédio. Solidão. Era difícil o tempo passar e não tinha um filme do Marlon Brando com a Maria Schneider na frente, ou mesmo um com Chico Cuoco e Regina "Malu" Duarte pra se distrair. Não dava pra ler um jornal naquela posição horizontal sem levantar a cabeça. Jogar dominó, pôquer, botão. Não dava pra fazer nada a não ser pensar e olhar o teto branco, com três lustres de lâmpadas de mercúrio, oito parafusos em cada e uma rachadura no teto que lembrava o perfil de um cachorro.

Cachorro. Isso me fez lembrar a minha trágica vida com os animais: cachorros atropelados e gatos : fugitivos. Nunca me esqueço do Sig (homenagem ao Sigmund Freud). Eu tava passeando com ele pela praia do Leblon, quando de repente soltei a coleira, e ele, numa demonstração do quanto gostava de mim, se picou. Saiu correndo feito louco, e eu atrás:

– Volta aqui, seu desgraçado.

Ele atravessou a rua e uma decavê passou por cima. Fiquei chocado, arrependidíssimo, com o maior sentimento de culpa. Meu pai, percebendo meu sofrimento, me deu outro: Khe San, nome de uma província bombardeada pelos americanos no Vietnã (meu pai tinha um senso de humor político incrível). Passeando de carro por Copacabana, eu, num instante, abri a janela pra jogar um papel fora e ele pulou, saiu correndo, felicíssimo, latindo.

Pimpão era um gato incrível. Um dia apareceu na casa, foi com a cara do meu pai e passou a morar lá. Passava o dia inteiro na rua e só aparecia quando meu pai estava deitado, fumando charuto e lendo jornal. Ele pulava a janela, subia no encosto do sofá, descia calmamente até a barriga do velho e ficava lendo o jornal. Os dois se amavam silenciosamente. Dizem que quando um gato vai embora é sinal de morte. Pois é, o Pimpão sumiu e, pouco depois, deram sumiço no meu pai.
Por último, veio o mais incrível deles: Biro-Biro, um gato vira-Iata, preto e branco. Esse foi na minha fase adulta, já morando sozinho em Campinas. Peguei-o para criar desde pequenininho, numa época que eu passava muito tempo sozinho. Resolvi que tinha que educá-Io liberalmente, sem repressões sexuais etc. Quando eu estava escrevendo, ele subia na mesa, caminhava pelo meu braço até o ombro e pulava na minha cabeça, para me ver escrever. Então, eu o colocava na mesa e ficava acariciando sua costela. Apertava bem devagarinho sua bunda, ia e voltava. Ele adorava, me olhava bem no fundo, levantava o rabo e se contorcia todo. Todo dia que eu estava escrevendo, ele vinha como quem quer ser acariciado. Já estava virando mania. Eu não queria, mas ele pegava aponta da caneta com a boca e não me deixava escrever. Eu tirava a caneta, ficava lendo, mas ele sentava em cima do papel e só saía se eu o alisasse. Fiquei preocupado. "Esse gato tá virando um sexomaníaco." Resolvi reprimi-Io. Joguei o Biro-Biro numa almofada, como quem diz:

– Vá procurar suas gatas, canalha.

Eu me dava tão bem com ele que até nossos gostos musicais eram parecidos. Quando eu punha uma música que gostava na vitrola, ele vinha correndo, pulava em cima do disco e ficava rodando, felicíssimo. Eu achava um barato, só que isso me custou duas agulhas e uma coleção de discos arranhados.
– Hora do almoço – disse Elma.

Almoço? Você deve imaginar uma mesa no meio de cinco macas com pessoas absolutamente estouradas comendo frango e chupando ossinhos.

– Cuidado, isso é o meu braço.

– Desculpe, é que parecia uma coxinha de galinha.

Mas não. O almoço era um prato de sopa na mão da Elma. Enquanto me dava na boca, a gordinha falava:

– Você é um cara bem conhecido. Tem um monte de gente lá embaixo querendo te ver .

– Ah é? E por que eles não entram?

– Não pode. Aqui na UTI não devem entrar pessoas de fora, pode ser perigoso. Vocês estão em estado de observação, absoluto repouso. Só a tua mãe e...

– Minhas irmãs?

Acabando o almoço, ela me trouxe um copo d'água com um canudinho de plástico.

– Pra que é que servem esses canudinhos aí pendurados?

– Esse amarelo é soro. Tem glicose e alguns medicamentos. O vermelho é...

– Sangue.

– Isso. É por causa da operação, mas hoje mesmo você tira ele. Aqui no pênis é uma...

– Pênis?

– Ah, não dá pra ver, mas tem uma sonda.

– Pra quê?

– Pra você urinar, burro.

Mais uma vez apaguei. Aliás, os três primeiros dias foram na realidade alguns minutos de acordado e o resto dormindo. A vida se resumia em alguns flashes de sopinhas e enfermeiras tirando a pressão. O Dr. Alex, que vinha me ver todas as manhãs, não falava nada além de um :

– Está melhor?


Quando abro os olhos, na minha frente estão duas caras conhecidas: Veroca e Bundão.

– Agora você já pode receber visitinhas, mas por poucos minutos, pra não se cansar .

– E aí, tudo bem ? Viram a cagada que eu fiz?

– Pois é, a gente ficou preocupado.

– No que é que vai dar tudo isso?

– Ninguém sabe dizer mas tá todo o mundo mandando a maior força.

– Vai dar tudo certo – disse o Bundão, que até agora estava quieto.

– Claro que vai. Eu tô ótimo, é só sair daqui e pronto.

Os dois olharam meio desconfiados.

– Está ótimo. Eu estou bem, não estou?

– É... – disse a Veroca.

– Olha o que eu trouxe pra você.

No começo achei graça daquele presente. Um espelhinho e um pente, desses que vendem em banca de camelô. Pude ver como estava horroroso; Careca, cheio de espinhas, a cara inchada. Mexeu com a minha vaidade. Mas olhando pra minha cara, pude ver que realmente era eu que estava ali. O espelho nos dá esta sensação mágica de, subitamente, tomar consciência de si mesmo. É o momento que você se encontra com o que você representa para o mundo. " Ah, então é assim que eu sou." Repare que em frente do espelho, a gente sempre faz uma careta. É porque achamos que somos diferentes daquilo que realmente somos. Então, a princípio, não acreditamos muito naquela imagem. Até achamos graça. Depois a examinamos direito, e viramos de perfil, de costas, mexemos o cabelo e dizemos: "olá, como vai?". Espelho sempre foi uma coisa importante na minha vida. Eu adoro me ver num espelho, apesar de sentir certa vergonha se houver outra pessoa do lado. Em banheiro de rodoviária, por exemplo, sempre finjo que estou espremendo uma espinha, quando quero me olhar por mais tempo no espelho. Sempre que vou a uma festa e estou bêbado ou chapado, me tranco no banheiro e fico horas me cagando de rir na frente de um espelho: "olha lá você, safado. Está doidão". É engraçado , como eu me estudo minuciosamente frente ao espelho. Presto atenção em todos os detalhes: "essa mecha de cabelo está feia, passo ela pra cá, e assim tá melhor". Acontece que ninguém percebe a mecha corrigida, isto é, pra maioria das pessoas tanto faz se ela está de um lado ou do outro.

Mas foi aquele espelho de camelô que o Bundão me deu que me fez acordar. Me deixou consciente de que, agora, meu dia-a-dia ia ser: teto branco, dormir , teto branco, dormir, teto branco, dormir...


De repente começou. Não, não podia ser, não havia mosquito aqui. Mas era. Uma tremenda coceira na cabeça. Calma, tente se concentrar. "Passa, desgraçada!" Mas ela não passava. Era grande, e eu não podia fazer nada. O braço não saía do lugar. Balançava a cabeça e nada. Não teve jeito.

– Elma! Elma!

Veio uma enfermeira bonitinha:

– A Elma só vem de manhã.

– Dá pra você coçar a minha cabeça?

– Claro.

Ah, que alívio. Ao mesmo tempo fiquei preocupado. E agora, será que sempre, quando der uma coceira, terei que chamar alguém? E se não tiver ninguém? Já imaginou que horrível coçar, coçar, coçar... cada vez aumentando mais. Em filmes, essas coisas nunca acontecem: o mocinho é amarrado numa cadeira, enquanto o bandido seqüestra a sua namorada. Ele percebe que o maldoso assassino esqueceu uma faca em cima da mesa (o bandido é sempre burro). Então ele vai arrastando a cadeira até a mesa, encosta a mão na faca e, de repente, sente uma tremenda coceira no nariz. Ele fica desesperado, a coceira vai aumentando, ele não agüenta mais, solta a faca, se joga no chão, arrasta atesta no pé da mesa, mas não adianta nada. Ele, desesperado, grita. Então, joga-se na fogueira, preferindo a morte a se entregar aos domínios de uma terrível coceira.

– Como é o seu nome?

– Ilma.

– Ilma? Tem uma Elma e uma Ilma, vocês são irmãs?

– Não, mas moramos juntas.

E continuava coçando. Muito bonitinha. Me olhava com uma ternura que transmitia uma certa segurança. Achei altamente sensual duas enfermeiras morando sozinhas nessa cidade moralista. Sei que é um tremendo preconceito meu imaginar que todas as enfermeiras tendem a ter mais relações sexuais do que outras profissionais. É o mesmo que imaginar que todos os enfermeiros são bichas. Mas a minha cabeça sexomaníaca não parava de imaginar: "quando estiver bom, vou sair daqui e ficar bastante amigo dessas enfermeiras, para transar com elas". Sacanagem, né? Também acho, mas eu sou assim mesmo. Depois eu desencano e acabo ficando amigo, mas a primeira coisa em que penso é sempre sexo.

– Você mora aqui? – perguntou Ilma.

– Moro. É que eu estudo na Unicamp,

– Ah é? O que você faz?

– Engenharia agrícola.

– Que ano?

– Passei pro quarto.

– Nossa, mas você parece tão moço. Mora em república?

– Mais ou menos..

Eu não gostava de falar que morava em república, porque minha casa era diferente. República lembra uma casa de dois quartos, onde moram dez pessoas, um monte de beliches, uma mesa na sala e uma enorme televisão pifada. Minha casa era mais transada: um quarto pra cada um: Nana, Gureti, Helô, Mariúsa, Cassy e eu. Uma decoração linda, samambaia, som na sala, rede. Meu quarto era um barato. Eu o pintei todo de marrom-claro e, na parede da janela, um verde-óleo bem escuro, com umas árvores desenhadas. O teto azul-claro com o lustre parecendo um sol. Era a fase ecológica que eu estava passando: transando tecnologia alternativa, agricultura orgânica (falando grosso: agricultura homeopática), essas coisas que viraram moda. Era lindo, em um dia de lua, apagar a luz do quarto. Como a parede da janela era escuríssima, a janela ficava bem realçada, parecendo uma tela de cinema. Aquela lua fazia o teto brilhar, parecendo um planetário. Nessa coisa de pintar paredes de cores diferentes, eu imitei o Otaviano. É que ele tinha feito a sala dele toda marrom-escuro, com o teto bem verde, e tinha pendurado umas esteiras de palha na parede. Parecia que você estava no meio da selva. lindíssimo.

– Tico-tico.

Que gracinha, era a Nana que tinha acabado de entrar na UTI. É uma das minhas irmãzinhas campineiras, isto é, mora comigo. Pernambucana, linda. Acho que deve ser descendente de holandês: loira, com a pele bem queimada do sol e olhos verdes. Nos conhecíamos há uns seis meses, mas já éramos amigos pacas. Um dia, eu tava em São Paulo na casa de minha mãe, quando tocou o telefone.

– Queria falar com Marcelo.

– É ele mesmo.

– Oi, tudo bem? Eu sou a Nana, irmã de Zaldo. É que eu tô ligando de Recife, porque eu tô "afins" de morar em Campinas, e meu irmão me falou que tinha um lugar na tua casa.

Ficamos uma hora falando pelo telefone, batendo altos papos. Meu primo, que tinha passado as férias em Recife, já tinha-me falado sobre ela. Mas quando a vi, já em Campinas, não imaginava que fosse tão bonita. Pena que ela me conheceu quando eu tinha acabado de levar uni pé-na-bunda da Ana. Eu estava mal pacas, a ponto de queimar a fotografia dela e jogar tudo o que ela tinha escrito pra mim no lixo. Levei a Nana pra casa, ajudei-a a arrumar seu quarto, e demos uma bola. Já na primeira noite transamos, o que foi a maior cagada. Eu não estava nem um pouco inspirado, ou melhor, estava broxa mesmo. Ia ser difícil desencanar da Ana, paixão das maiores. Uma mulher forte, com personalidade marcante. Taurina como eu. Foi com ela que eu descobri que orgasmo e ejaculação são coisas distintas. Minha relação com a Nana já começou complicada, eu não conseguia tirar a outra da cabeça, estava querendo ficar sozinho e a coitada pagou o pato.

– Estou emocionado, tudo bem se eu chorar?

– Tico-tico.

Ela me deu um beijo na boca e me abraçou. Ficamos um tempo quietos.

– Que loucura que está acontecendo. Estou muito carente, sozinho. Que será que vai acontecer comigo? Esse hospital...

– Você não está sozinho, tem um montão de gente ai embaixo querendo te ver. Tá todo mundo torcendo por você.

– Sabe que me dá umas dores na barriga toda hora.

– Cocô?


– Não, acho que é nervoso. Eu tô muito sensível. Eu vejo vocês e me dá vontade de chorar .

Enquanto isso, entra também a Veroca, a Big (minha irmã caçula) e a Gorda. Todos. fazendo festa, rindo baixinho.

– Trouxemos uns trecos pra escovar seus dentes – disse a Veroca, tirando do saco uma escova, pasta, um liquido, fio dental.

– Tem também um creminho pra sua pele, que tá toda ressecada.

– Deixa que eu limpo – falou a Nana. Sentou na cama e começou a escovar os meus dentes delicadamente. Aliás ela tem um jeito incrível pra essas coisas. Daria uma ótima mãe.

Veroca começou a contar das pessoas que estavam lá embaixo, de gente que havia ligado do Rio, de Brasília, da Bahia. Falou da bagunça em que a minha casa tinha-se transformado. Tava todo o mundo morando lá. Minha mãe trouxera até a empregada. Ia trabalhar de dia e, de noite, voltava. Era férias e todas as minhas irmãs estavam em Campinas. Só Nalu, que tinha que trabalhar, ficava em São Paulo. E a Eliana, que estava incumbida de receber os telefonemas e explicar o acidente. Disse também que não se falava em outra coisa, todo o mundo mandando mil forças, rezando, torcendo, fazendo macumbas.

– Mas afinal, quando é que vou sair daqui?

– Vai demorar um pouco, você não precisa mais da UTI, só que é muito arriscado transferir você. Aqui é um hospital pequeno, só tem um quarto que está ocupado.

– Mas pode deixar, agora você pode receber visitinhas. Nós falamos com o Dr. Alex e ele tá fazendo uma exceção com você. Agora vamos sair que tem mais gente querendo te ver .

Acordei com minha mãe. Ela havia trazido um rádio, mas eu pedi pra não ligar, ia atrapalhar os outros.

– Tudo bem, eu ligo bem baixinho.

– Que bom ver você.

Estava cansado. Minha mãe é dessas figuras fortíssimas, que transmite uma segurança incrível. Sabia que ela estava sofrendo pra burro por ver o filho todo estourado. O que minha mãe já passou na vida afez ter essa cara de segurança em qualquer momento trágico. Você já imaginou uma mãe de cinco crianças ter a sua casa invadida por soldados armados com metralhadoras, levarem seu marido sem nenhuma explicação e desaparecerem com ele? Já imaginou essa mãe também ser presa no dia seguinte, com sua filha de , quinze anos, sem nenhuma explicação? Ser torturada psicologicamente e depois ser solta sem nenhuma acusação? Já imaginou essa mãe, depois, pedir explicações aos militares e eles afirmarem que ela nunca fora presa e que seu marido não estava preso? Procurar por dois anos, sem saber se ele estava vivo ou morto. Ter que, aos quarenta anos de idade, trabalhar para dar de comer a seus filhos, sem saber se ainda era casada ou viúva. É duro, né? Nem Kafka teria pensado em tamanho absurdo. Fora as informações de que:

– Seu marido está em Fernando de Noronha. Eu mesmo o levei até lá.

– Está preso no Xingu e passando bem.

– Está internado num hospício como indigente.

– Está exilado no Uruguai esperando um momento melhor pra voltar .

Ou então ler as declarações de um general supostamente responsável pela prisão do meu pai:

– Pergunte à mulher dele onde ele está, que ela sabe melhor que a gente.

Mais absurdo ainda foi o que uma testemunha, que também fora presa, contou, muito tempo depois:

– Seu marido foi espancado na minha frente até cair no chão sobre uma poça de sangue.

A conclusão é de que seria difícil ele estar vivo depois de passar pelas mãos das nossas heróicas "Forças Armadas".

Essa é mais ou menos a história da minha mãe. Só que, agora, com uma tragédia a mais pela frente: o que dizer a um jovem de vinte anos, quando ele, depois de ter quase morrido, ficou paralítico? Nada. Diga apenas que o ama. E foi isso que ouvi.

– Pode deixar que a gente vai resolver tudo. Você tem uma cabeça boa, vai sair dessa fácil.

– Eu sei que vou, mas agora eu tô mais preocupado em sair daqui.

– Eu já tô transando isso pra você, fique tranqüilo.

Ela nem precisaria ter dito aquilo, tranqüilo era uma coisa que eu ficava só em ouvir a sua voz.

Sabia que era de noite, pois já havia mudado o plantão. Até o almoço, era a gordinha Elma e o que me dava banho, Divino. À tarde, até o jantar, que também era sopa, ficava a bonitinha lIma e uma japonesinha. De noite, até o dia seguinte, João e Maria. Numa UTI não existe noite e dia. A luz de mercúrio fica sempre acesa, não tem janelas, e a movimentação de enfermeiros é de três em três horas. Tirar a pressão, medir a temperatura, abrir a tampinha da tal sonda pra sair o xixi, e o que é pior, os antibióticos e sedativos. Esses remédios me faziam dormir e acordar durante o "dia todo. Chegava de noite, o mesmo. Só que, juntando com o não fazer nada, teto branco, frio na barriga de nervoso, passava a noite inteira acordado. Terrível. Tinha que pensar em alguma coisa. De certa maneira, sentia inveja dos meus colegas de UTI. É que a maioria deles estava mais pra lá do que pra cá, totalmente grogues. Não precisavam enfrentar aquele tédio. O do canto estava com traumatismo craniano. Tomou um pileque e se espatifou na sarjeta. Do outro lado, uma mulher que tinha-se envenenado com mata-ratos. À direita, uma velha gorda, quase morta.

E eu lá, acesão, contando os parafusos. Uma maneira de passar o tempo foi pegar uma determinada pessoa, lembrar todos os momentos que estive com ela, os papos. Aliás, é uma mania que tenho até hoje. Isso me angustia um pouco, pois acabo conhecendo muito mais a pessoa do que ela a mim, e dando um valor que nem sempre essa pessoa merece. Cada palavra que ela tenha dito, o gesto ao acender um cigarro, o beijo de despedida, acabam-se tornando imagens marcantes e importantes no meu dia-a-dia. A velha gorda ao meu lado começou a gemer. Os enfermeiros vieram rápidos, puseram uma espécie de biombo pra ninguém ver. Ela estava morrendo, era óbvio. Entraram alguns médicos, barulho de massagem cardíaca. De manhã já tinha morrido um que eu não vi, pois estava dormindo. Parece que o esforço fora inútil. Eles tiraram o biombo e pude ver a velha quieta. Saíram todos e lá estava eu, deitado naquela cama sem mexer nada além do pescoço, ao lado de uma velha gorda morta. Foi aí que eu descobri o que é uma UTI. É uma espécie de ante-sala do céu ou do inferno. Se você entrou nela, ou morre, ou sai com profundas lesões. Eu não tinha tanta certeza se eu preferia sair ou passar pro outro lado.

Mas uma manhã, que alívio ouvir a voz daquela gordinha:

– Bom dia, Marcelinho, como vai este menininho?

– Vai bem, gordinha, bunduda e fofinha.

– Olha o respeito, senão você não ganha café da manhã.

Já estava-me tornando íntimo das enfermeiras. Também, de hora em hora, um tal de coça aqui, coça ali. Depois do café da manhã, ficou combinado que minha mãe viria de manhã me fazer um pouco de companhia e ler o jornal pra mim, antes de ir pra São Paulo trabalhar. Desde moleque sou viciado em jornal. Leio tudo, até os classificados.

Estava aflito, precisava ver alguém, aquela dor na barriga não me deixava em paz. Tinha medo que ela aumentasse. Procurava me concentrar, mas já estava de saco cheio de ter paciência. Queria me balançar, mexer com o corpo. Fiquei respirando com força pra me cansar, afinal era a única atitude física que poderia ter. Mas nada, já estava desesperado. Me , senti uma planta sendo atacada por um enxame de abelhas africanas. Frágil, só fotossintetizando. Que loucura. Pedi desesperadamente pro Divino me virar de lado, mas ele estava ocupado. Chamei a Elma e disse-lhe para ligar pro Dr. Miguel. Era o único telefone que sabia.

Diga-lhe qualquer coisa, que eu estou precisando urgente.

Enquanto isso, veio uma sombra escura na minha frente.

– Não esquenta a cabeça, que caspa vira mandiopan, falô, meu chapa?

Era o Ding Dong. Incrível, mas todo dia ele vinha, nunca se esquecia. Acho que no cartão dele estava escrito:
NÃO ESQUEÇA DE FALAR PRO MARCELO:

"NÃO ESQUENTA A CABEÇA,

SENÃO CASPA VIRA MANDIOPAN".
Apesar da movimentação, e dos cinco colegas estourados, estava sentindo uma profunda solidão, uma total incapacidade de me controlar. Estava a um passo de enlouquecer. Eu sou touro, ascendente touro. Sol em oposição a Netuno, isto é, o Sol ilumina exatamente as coisas opostas às inftuências de Netuno, planeta da transcendência, do mistério. Minha cabeça doía de tanto pensar. Se ao menos eu erguesse a cabeça para mudar o cenário. Impossível. Uma mulher bonita qualquer. Imagine transar com a Lídia Brondi. Como é mesmo a cara dela ? Cante, isso, cante:
Eu sempre quis muito

Mesmo que parecesse ser modesto

Juro que eu não presto

Eu sou muito louco
(Louco? É, não. Que saco, não agüento mais.)

– Ôi, Dr. Miguel.

– Tudo bem?

– Mais ou menos. Fica um pouco aqui comigo.

– Claro.

– Eu tô de saco cheio de ficar nessa posição.

– É, eu imagino. Mas fica calmo, que é por pouco tempo.

– Mas é esse o problema. Eu sei que vou ficar bom, mas quanto tempo?

– No seu caso é difícil afirmar qualquer coisa.

– Quanto tempo?

– Pode durar dois meses como pode durar um ano. Mas logo que sua vértebra se consolidar, você já poderá sentar numa cadeira de rodas e fazer bastante fisioterapia.

– Por favor, pega na minha mão.

Era um cara ótimo. Pai de uma antiga namorada campineira. Apesar de ser médico de pele, ele entendia de tudo. Ficamos um tempo de mãos dadas. Era estranho, mas pude descansar com ele ao meu lado. A cabeça tinha desacelerado, estava bem mais tranqüilo.

Enquanto isso, entraram na sala minha mãe e o médico, Dr. Alex. Pronto, agora eu estava salvo. Ela tinha trazido uma maçã e um danone de morango. Ótimo, já estava ficando de saco cheio de sopinhas. O médico começou as perguntas de praxe, tirou uma agulhinha da maleta e mediu a minha sensibilidade. Ela tinha baixado, já estava sentindo um pouco o tórax. "Agora vamos ver a movimentação dos braços. Bom... com muita força já pode dobrá-los. Precisa começar a fisioterapia, esses braços têm que receber muito trabalho."

– Concordo, doutor, não agüento pedir pros outros coçarem a minha cabeça.

"Agora as pernas. Vai, concentre-se. Força, mexa. Não, nada ainda. Mesmo assim elas precisam de movimentação para não atrofiarem. Fisioterapia nas pernas é necessário também."

– Será que eu volto a andar, doutor?

"Não sei, não posso lhe dizer nada. Só com o tempo é que se pode fazer qualquer prognóstico. "

Que saco! Eu tenho que imaginar o que esse doutor fala, ele fica quieto o tempo todo.

Realmente, eu nem tinha reparado, mas conseguia dobrar o braço. Só que não o esticava, as mãos ficavam paradas em cima do peito.


Os dias foram passando. A sensibilidade cada vez mais baixa. Já estava atingindo a altura dos mamilos. A fisioterapia havia melhorado um pouco meus braços, mas não o suficiente para coçar a cabeça. O tédio é que era o problema. Não agüentava mais os oito parafusos. A única novidade era o Francisco, o nome que eu tinha dado à rachadura com cara de cachorro. Agora eu batia papo com ele, quebrando um pouco a monotonia. Cada atividade extra era uma sensação. Eu curtia horrores os dois minutos que durava o café da manhã. Dia em que acordava cedo demais, eu ficava perguntando as horas de dez em dez minutos, pra ver se chegava logo a danada da Elma pra me dar café,. Mais tarde um pouco, vinha minha mãe com um danone; já estava viciado, eram cinco copos por dia e o jornal. O Dr. Alex continuava calado. Só soltava um:

– Está melhor?

Dia em que ele estava mais criativo, ouvia um:

– Bom dia, está melhor?

E quando ele estava muito contente:

– Como tem passado, está melhor?

O Ding Dong não mudava nunca. Pressão e temperatura de três em três horas. Adorava, era o maior programão. Almoço, sopinha. Depois vinha a farra. Chegavam a Nana e a Gorda, geralmente chapadíssimas. Ela me dava um beijo na boca e ficava escovando os meus dentes. Primeiro com a escova e a pasta. Cuspia. Depois molhava uma gaze com um líquido e esfregava dente por dente. Próxima etapa, cotonete nas dobras, e, por último, fio dental. O processo demorava uma hora. Era uma viagem. Ficar olhando aquele sorriso carinhoso da Nana e as palhaçadas da Gorda. Ficavam contando a zona que tinha virado a minha casa. Todo o mundo dando uma bola, enquanto minha mãe estava tomando banho. Às vezes, quando a escovada de dente era muito rápida, eu pedia e ela fazia tudo de novo. Depois, vinham as fofocas de quem tinha estado no hospital. A cabeça genial da Veroca bolou que todo mundo mandasse cartas, bilhetes, telegramas.

Mais tarde, vinha a Eliana, ou a Veroca. Ficavam lendo o livro do Gabeira (O que é isso, companheiro?). Na maioria das vezes, eu não conseguia prestar atenção. Aquela infernal dor na barriga me tirava de órbita. Mas era bonito ficar ouvindo uma voz baixinho no ouvido. Às vezes, eu dormia com aquela voz. Então, minha irmã saía, mas ficava na porta, pra que, quando eu acordasse, ela continuasse lendo.

Em compensação, quando eu prestava atenção, as aventuras do Gabeira entravam pelo meu ouvido e me faziam lutar junto. Tinha momentos em que me identificava profundamente com ele. Principalmente numa parte do livro em que ele, perseguido pela polícia, é obrigado a ficar um mês no apartamento de uma pessoa que nem conhecia. Para não dar bandeira pros vizinhos, quando essa pessoa saía pra trabalhar, ele não podia ouvir um som, atender a porta, fazer nenhum barulho, pois podiam desconfiar de algum ladrão e chamar a polícia. Era uma situação muito parecida com a minha, preso num lugar que não conhecia, absolutamente sem fazer nada. Coincidência maior é que tinha sempre um mosquito que entrava no apartamento. Ele tinha posto o nome de Eduardo, servindo-lhe de confidente. Assim como meu cachorro Francisco. O Gabeira nem imagina o quão importante ele foi pra mim. Nunca me esqueci da emoção que ele sentiu, quando, ao sair do apartamento, pegou um ônibus que vai pelo aterro, na praia do Flamengo, abriu a janela e ficou curtindo o vento batendo em seu rosto. Foi aí que eu prometi pra mim mesmo que, quando saísse do hospital, a primeira coisa que faria seria abrir a janela, para receber a brisa da Avenida Paulista no rosto. No final do livro, Gabeira é trocado por um embaixador e posto num avião para fora do país, na condição de exilado. Era mais ou menos a sensação que eu estava esperando sentir, quando saísse daquele hospital. Exilado, sem poder voltar. Alguma coisa ia mudar, isso eu sabia. Mas tinha medo de imaginar o que poderia ser. Afinal, pra onde eu não voltaria? Não, eu não devia pensar nessas coisas. Ia dar tudo certo. Eu tinha uma cabeça boa. Todo mundo diz que o mais importante é a cabeça. Ou não?


Qualquer pessoa que está dentro de um profundo sofrimento, à beira da morte ou de sei lá o quê, fica mística. Nessas horas, a gente apela pra tudo. Não que eu tenha me convertido à religião católica, mas estava acreditando nas simpatias, nas abobrinhas populares. Uma mulher, que tinha entrado pra visitar um paciente, me olhou, ficou com dó de mim e me deu uma medalhinha da Nossa Senhora de Aparecida. Eu nem sabia que ela era a padroeira do Brasil, mas pedi para pendurarem na minha cama e botei a maior fé naquela plaquetinha de metal. Olhava pra ela, e sen- tia uma coisa agradável, uma proteção carinhosa. Foi assim também com o Buda que puseram no criado-mudo. Ele tinha três barbantes amarrados: um azul, . um amarelo, outro laranja. A Veroca fez a maior macumba nesses barbantes. Mas não interessava, o importante é que havia teorias.

O Edu, um amigo que manja de umbanda, filho de santo, coisa e tal, me trouxe uma pulseira com um búzio no meio e três miçangas: uma branca, outra vermelha, outra preta. Deu quinhentas explicações: o búzio era fechado, sinal de proteção; as cores vermelha e preta representavam blá blá blá; a branca, pó pó pó; esse nozinho aqui é uma bi bi bi; essa manchinha é importantíssima, ela solidifica tudo o que os outros detalhes representam.

– Jóia, pode pôr no meu braço, que eu boto fé.

Mais tarde leram o I Ching que a Gorda havia feito pra mim. I Ching , pra quem não sabe, é um livro (dizem que o mais antigo) chinês. Depois de se fazer uma pergunta, joga-se umas varetinhas (ou moedas) e sai uma combinação que é a resposta. A pergunta que fizeram foi óbvia:

– Seu I Ching , o Marcelo vai andar?

A resposta (que não respondeu muito) apenas afirmava que era um acontecimento que, pela segunda vez, iria mexer com as pessoas (o primeiro, imagino que tenha sido o assassinato do meu pai) , que iria mover montanhas, mas só o tempo iria responder .

Não sei se essas coisas dão certo ou não, mas que outra alternativa eu tinha? Se me dissessem que uma vaca daria sorte, pediria para porem uma na minha cama e colocaria um chapéu cheio de margaridas para ficar mais simpática.

Todo mundo me dizia que estava rezando, e eu botava fé.

– A Tia Maricota de Taubaté organizou uma mesa de reza pra você.

– Ótimo.

– Seu primo Sérgio mandou um santinho benzido pelo Papa.

– Pelo Papa ?

– Pelo Papa.

– Ótimo.

Meus amigos eram mais escrachados, mas sinceros. Pedrinhas que davam sorte a eles, pulseirinhas, colares, fotografias do Jimi Hendrix.

Minha mãe teve uma viagem mais interessante. Ela foi numa mesa com parapsicólogos e, depois de. muita concentração, conseguiu enxergar a minha medula, visitá-la e mandar forças nela.

Mais estranho ainda, e disso eu fui testemunha, foi o sonho que a Eliana, minha irmã, teve comigo uma semana antes do acidente. Ela sonhou que eu estava me afogando e não conseguia levantar a ca- beça. E que, depois de eu ser salvo, ela só me via do pescoço pra cima. Isso, numa sexta-feira. Como de costume, cheguei sábado em São Paulo, e ela me abraçou assustadíssima, quase chorando:

– Tive um pesadelo horrível com você, ainda bem que você está vivo.

Um dia, foi internado um paciente que causou sensação na UTI: um delegado do Mato Grosso envolvido com alguma transação de diamantes que ninguém explicava direito. Tinha até saído no Jornal Nacional. Ele recebera um tiro de espingarda na cara e estava totalmente deformado, com o rosto cheio de ferros, para, literalmente, colar o nariz. Respirava por uni buraco na garganta: traqueotomia. Ele estava do meu lado, e eu adorava ficar olhando pra aquele rosto deformado, todo vermelho de mercurocromo. No princípio eu tinha um pouco de nojo, mas depois foi o meu passatempo preferido. Nos primeiros dias, o tal buraco entupia, e ficava aquele barulho de ar passando por um monte de meleca. Coitado, ele esbravejava todo pra respirar, e mal conseguia. Vinham dezenas de enfermeiros. E, quando ele já estava roxo, enfiavam um cano de oxigênio. Era um verdadeiro show. Aquele delegado veio em boa hora, pois já não suportava mais o tédio. No meio da noite, quando eu estava com insônia, torcia para que entupisse a porra do buraquinho, para haver distração. Um dia, entrou um cidadão para visitá lo, e, de repente, ele começou a gemer. Balançou os braços até o cara ir embora. Como não conseguia falar, escreveu para a enfermeira que tinha acabado de ser ameaçado de morte. Pronto: rebu na UTI, e quem saiu perdendo fui eu. Proibiram as visitas e até puseram dois guardas na porta. Mas, afinal de contas, o que tinha feito esse misterioso delegado? A imaginação fértil dos enfermeiros dizia que ele tinha engolido um diamante gigante, e os caras queriam pegar. Um enfermeiro brincava com outro:

– Troco dois plantões de domingo para eu tirar o cocô dele no seu lugar.

O que me deixou mais chocado foi no dia em que ele mudou de quarto. Chegou o médico e falou: vamos. Ele simplesmente se levantou e saiu andando, ,sem fazer nenhum esforço. Será que virá algum médico pra mim, e, depois de me dar alta, vou-me levantar e ir embora? Senti uma tremenda inveja daquele cara sem cara. Ainda mais se eu cagasse um diamantão.

– Entrou um cara que teve a mesma coisa que você.

É mesmo no leito da frente, que eu não conseguia ver, tava um garoto que havia-se atirado do viaduto (pra quem conhece, a rotatória de Campinas). Só que ele, além de quebrar uma vértebra, caiu de pé e quebrou as duas pernas. Fiquei morrendo de vontade de conhecê-lo. Sei lá, quem sabe poderia dar uma força, já que estava há alguns dias na mesma situação. Gostaria de ajudar. Era exatamente disso que eu precisava nos primeiros dias: um cara na mesma situação. É bom pra dividir um pouco mais o sofrimento e angústia do que acontecerá com a gente. De certa maneira, existia ali dentro um espírito de solidariedade. Por exemplo, um senhor que tinha quebrado a perna foi com a minha cara, e, durante os três dias em que lá esteve, pagou um monte de sorvete da Yopa pra mim. No final, disse que rezaria por mim.

– Falô.


Um dia como os outros. Elma e o café. Ding Dong. Banho com Divino. Dr. Alex, minha mãe e o jornal. Nana e a Gorda mais a Big chapadas. Bilhetinhos. A bonitinha Ilma que já estava-me deixando apaixonado. Veroca massageando minha barriga para ver se a dor de nervoso passava.

Mas, de repente, entrou um bando de gente cantando e tocando violão. Foi aí que me dei conta:


Dingo bel, dingo bel

Já chegou Natal

Lá lá lá...

Fiquei contente com as pessoas. Elas queriam, e conseguiram, transmitir uma felicidade, um espírito de Natal, um vamos-nos-dar-as-mãos que me deixou emocionado. Nunca fui muito de Natal, exceto quando criança, óbvio. Mas aquele dia a música me deixara feliz, feliz por saber que jamais teria outro Natal tão triste como aquele. Por saber, também, que, apesar de tudo, ainda existia Natal. E descobri que Natal é isso mesmo. Por que não um momento de ternura e amizade com as outras pessoas, mesmo levando uma vida fodida o ano inteiro? Estamos todos na mesma. Não sejamos tão egocêntricos a ponto de querer, quando estamos mal, que esteja todo o mundo péssimo. Foi o nascimento de um cara incrível, de um revolucionário que lembrou às pessoas que, acima do poder, o amor e a felicidade são mais importantes. E que poderemos construir um mundo melhor. Então, é um dia em que temos a oportunidade de renascermos em nós mesmos. De brilhar, de ser gente. , Lutar por aquilo que desejamos, defender a nossa condição de homem. E como disse o poeta: "Gente é pra brilhar, não pra morrer de fome".

De Cristo eu gosto. Pena que o manipularam pra tanta babaquice. Pra começar, dizer que ele é filho de deus. Que besteira. Será que o homem é tão incapaz de se dar valor a ponto de achar que, quando outro homem é genial, tem que ser do outro mundo? Que nada, Jesus era tão homem quanto eu.

Ganhei um rádio-gravador estéreo do François, mas preferi continuar com meu radinho do lado da cama. Um dos motivos foi o medo de que estragasse naquela UTI cheirando a éter. Mas o motivo mais forte mesmo foi não querer ostentar, já que a maioria não tinha onde cair morto. Sempre fui assim, meio popularesco, fazedor de média com a classe baixa. Mas tudo bem, o pessoal lá em casa foi quem se divertiu com o gravador .

Minha fisioterapeuta chamava-se Rosana. Linda, simpática e falante. Conversávamos muito sobre Campinas. Olhos pretos, rosto bem queimado do sol, cabelo moreno liso. Chegava, me dava um beijo e ia para as pernas. Dava pra ver o quanto curtia a profissão. Pegava nas pernas com delicadeza e, enquanto falava, flexionava o joelho, levantava, dobrava o pé. Às vezes, parava de falar e ficava movimentando a perna com carinho, bem devagarinho. Depois, sentava na cama e punha meu braço sobre sua perna.

– Tente dobrar. Isso! Mais força! Bom!

Fazia uma massagenzinha nas juntas para relaxar e, depois, a mesma coisa. Eu sentia um prazer enorme com aquelas mãos morenas na minha pele. Quando me cansava, encostava ao máximo meu braço em toda a superfície de sua coxa. Estava melhorando, já havia uma certa força nos meus ombros. Ela colocou uma mesa ao meu lado e eu ia abrindo os braços, a posição horizontal. Uma hora de terapia, sessenta minutos de carinho e prazer .

Um dia, ela trouxe suas alunas da PUC para me ver. Um monte de menininhas bonitinhas me examinando, me olhando com olho clínico e, ao mesmo tempo, ternura. Acho altamente sensual estudantezinhas de fisioterapia da PUC, uma mistura de inocência com sacanagem. Puro preconceito machista achar que fisioterapia é o mesmo que massagem erótica. Lembrei-me que, por um bom tempo, não teria uma relação sexual. Primeiro, essa borracha, a sonda, instalada no meu pinto. Não ia ter útero que agüentasse. Também não ia adiantar, não estava sentindo nada, embora o François me dissesse que, já no primeiro dia, meu pau ficara duro. Estranho não mexer nada debaixo do pescoço e o pinto se levantar. Deve ser um órgão independente, autônomo. "Mas como ele se levanta? Quando alguém põe a mão ou quando penso em alguma situação sexy?" É, não entendia nada dessas coisas e estava ficando curioso. Sabia que existem duas coisas que fazem o pinto ficar duro. Uma reflexiva independente de nossa vontade: isto é, quando fica duro mesmo sem a gente querer. Sempre que pego um ônibus em dia de sol, sentado, ele fica duro. O saco é quando chega a hora de descer. Tenho que fazer altas manobras pra ninguém perceber. A outra ligação é psicológica mesmo, dependendo do estado de excitação. Essa, todo mundo conhece.


Paciente novo. Meu xará, Marcelo. Caiu da moto e quebrou a perna: caso simples. Um desses boyzinhos típicos de cidade provinciana.

– Pô, e minha moto, onde é que ela tá?

O cara era um verdadeiro chato. Ele ia ser operado e não podia comer nem beber nada. Como estava com sede, tentava fazer a cabeça da Ilma pra lhe arrumar um pouco d'água. Mas ela, com um espírito de profissional responsável, não lhe dava nada. Não é que o cara começou a berrar?

– Eu quero água.

– Calma, tenha paciência. Já, já você vai ser operado e poderá ir para casa. (Essas enfermeiras têm que aturar cada cara!)

– Eu quero água.

E chorava feito bebê. Garotão mimado, de Limeira, uma das cidades mais babacas que conheci. O papaizinho dele deve ficar orgulhoso do filhinho motociclista, cantando as "minas" e bundando o dia inteiro. O cara não parava de chorar, e eu não suportava mais. Uma tremenda falta de respeito com os quase mortos, simplesmente por um copinho d'água. Quando ele começou a xingar a belezinha da lIma, eu me estourei:

– Ô, meu chapa, você não tá vendo que tem gente morrendo aqui?

– É, mas eu quero água, tô com sede.

– Espere um pouquinho, respeite os outros, senão você pode matar alguém.

A princípio deu certo, mas depois começou de novo. Não agüentei. E como ele não sabia do meu estado físico, gritei:

– Olha aqui, bebê chorão, se você não calar a boca, eu me levanto daqui e te arrebento.

– É que eu queria um pouco d'água.

– Fica quieto.

Ele ficou resmungando baixinho, mas calou a boca. Quem gostou foi um bêbado na minha frente que, enquanto eu falava, me aplaudia. Senti-me como um galo defendendo seu território e suas fêmeas.

Último dia do ano. Grande coisa. Única diferença é que não haveria fisioterapia. Mas, de resto, era um dia qualquer. Passagem de ano é bom pra se fazer um balanço do que passou e prometer a si mesmo que corrigirá os defeitos.

– Este ano, paro de fumar .

– Este ano, vou estudar .

– Este ano, arrumo um emprego.

Claro que nada disso dá certo, mas a tentativa é que vale. Na minha situação, não adiantava nada. Que poderia eu fazer de promessa, se nem ao menos sabia se ia continuar vivo ou não? E também foi o tipo de passagem de ano para pior. Preferiria que o tempo voltasse atrás, até o exato momento em que eu mergulhara naquele lago. Quantas vezes desejei isso. Uma coisa de nada transformou minha vida num pesadelo.

Minha mãe era quem ficava comigo de noite. Ela voltava de São Paulo e dava janta pra mim. Esperava até eu dormir, dava um tempo e ia embora. Mas essa noite, pouco antes da meia-noite, acordei com fogos e gritaria na rua. Era Ano-Novo. E mudança de década: 1980. Não haveria champanhe, serpentinas ou abraços. Eu estava só.

– Feliz Ano-Novo, Marcelo.

– Pra você também, Marcelo.

Admirava a alegria das pessoas na rua, uma alegria da qual não fazia parte. Estava triste e só.
Adeus Ano Velho, feliz Ano-Novo
Não tinha o mínimo sentido. As lágrimas rolaram, chorei sozinho, ninguém poderia imaginar o que eu estava passando. Nada fazia sentido. Todos sofriam comigo, me davam força, me ajudavam, mas era eu que estava ali deitado, e era eu que estava desejando minha própria morte. Mas nem disto eu era capaz, não havia meio de largar aquela situação. Tinha que sofrer, tinha que estar só, tão só, que até, meu corpo me abandonara. Comigo só estavam um par de olhos, nariz, ouvido e boca.
Feliz Ano Velho, adeus Ano-Novo
Foi o que eu prometi a mim mesmo. "Se eu não voltar a andar, darei um jeito qualquer pra me matar." Era bom pensar assim. Eu não tinha medo de morrer. Era muito mais fácil a morte que a agonia daquela situação.

– Parabéns, Marcelo. Foram vinte anos bem vividos. Deixará muitas saudades, alguns bons amigos, umas fãs. Fique tranqüilo, o Cassy sabe tocar algumas de suas músicas. Um dia, quando ele gravar um disco, irão saber que você existiu. Mas também, se não souberem, tanto faz. De que vale a eternidade? Um orgasmo dura poucos segundos. A vida dura poucos segundos. A história se fará com ou sem a sua presença. A morte é apenas um grande sonho sem despertador para interromper. Não sentirá dor, medo, solidão. Não sentirá nada, o que é ótimo. O sol continuará nascendo. A terra se fertilizará com o seu corpo. Suas fotografias amarelarão nos álbuns de família. Um dia alguém perguntará:

– Quem é esse cara da fotografia?

– Ninguém que interesse.

Meu R.G. irá para outra pessoa. Meu violão se desintegrará em algum depósito de velharias. Meu gravador será roubado por um trombadinha. As cuecas, minhas irmãs poderão guardar para seus filhos, mas aconselho jogar fora, pois até lá já estarão fora de moda...

Tchau, mãe. Se cuida, tá? Thais e Ana, vocês são belas mulheres. Cassy, continue tocando, que você chega lá. Virgínia, pena você não ter me amado como eu te amei. Veroca, Eliana, Nalu e Big, juízo, hein? Gorda, você é um cara incrível. Ricardo, meu irmãozinho, o cara que mais me conhece. Nana querida, não fique com raiva de mim, eu tentei gostar de você, mas não dava, eu tava muito chato. Marcinha gracinha, você é uma fofa. Fabião, vá à luta, meu chapa. Mariúsa mãezinha, valeu a força que você me deu. Gureti, vê se fica menos briguenta. Maurão, seu veado, não beba tanto. Bundão querido, cuida bem delas, tá? Zequinha, seu louco, largue um pouco os livros, bata mais punheta. Celso, lindo, você é duca. Nelson e Olaf, cuidem bem da chácara. Betão, Rubão, Max, lembrem de minhas posições políticas. Laurinha fofa, emagreça um pouquinho. Milu, você tá me devendo uma transa, hein? Tchau, pessoal, feliz Ano-Novo pra vocês.

Continuei chorando.
Tive outra crise. Essa foi brava.

– Pelo amor de deus, faça alguma coisa!

– Calma, Marcelo – disse Ilma, de mão dada.

– Mexe comigo, balança esse colchão d'água. Isso, mais, eu não agüento!

– Tenha um pouco de paciência.

– Quanto falta pra tomar o remédio?

– Mas faz uma hora que você tomou. Fique calmo que o tranqüilizante deve estar fazendo efeito agora.

– Merda! Esses remédios já não fazem efeito, devo estar imune.

Precisava descarregar essa energia acumulada. Balançava os braços, virava a cabeça, mas nada. A porra da dor de barriga não pa.rava. Eu tava tonto de tanto ficar na mesma posição. Pedi pra lima inclinar um pouco a cama.

– Aí nessa manivela.

– Não pode, sua coluna não está calcificada ainda.

– Claro que pode. O Dr. Alex falou, hoje de manhã, que agora tem que, de hora em hora, erguer um pouco a cama (sempre fui mentiroso).

– Mas não tem nada prescrito aqui.

– Por favor, levanta logo, só um pouquinho, senão eu vou ficar louco.

– Tá bom, só um pouquinho.

E foi rodando a manivela bem devagarinho. Minha cabeça foi levantando, mas parecia que tinha um FNM me atropelando. Tava tudo duro. Começou a faltar ar .

– Volta, volta, não dá.

Não deu mesmo, era loucura minha. Estava absolutamente proibido de levantar a cabeça. Tinha que agüentar, ter a maldita da paciência, palavra que mais ouvi nestes tempos de UTI.

"Pense em alguma coisa, Marcelo, um dia qualquer de sua vida, um momento de amor ."

Foi aí que me lembrei da Lúcia de Búzios. O sobrinho do dono da casa em que eu estava hospedado em Búzios tinha morrido, e ele deveria voltar imediatamente pra São Paulo. Só que tinha que levar a outra hóspede, já que havia prometido pro pai dela. Mas não tinha lugar no avião. Logo, ele me pediu:

– Eu dô a grana do ônibus e você leva a menina.

– Tâ legal.

Por mim, tudo bem, eu tinha mesmo que voltar, pois entrara na Unicamp e precisava fazer a matrícula. Era uma menina de dezesseis anos que conheci no dia de irmos embora. Lúcia, seu nome.

– Então, você é que é o meu protetor?

– Mais ou menos.

– Por que a gente não faz o seguinte: vamos de carona até o Rio e economizamos dinheiro. Depois a gente gasta em São Paulo.

Gostei da idéia, aventura é comigo mesmo.

Fui com a cara dela. Bonitinha, um cabelo castanho, olhos verdes. Meio peituda, mas eu adoro mulheres peitudas. Fomos para a estrada. O primeiro carro que passou, parou. Era uma Alfa, com um casal de cariocas, jovens, desses ricos que passam o verão em Búzios andando de lancha e cheirando pó. Logo a peituda nos apresentou como marido e mulher .

– Mas tão jovens?

– É, casamos há um ano, já temos até um filho. (Cara de pau essa menina!)

Ficou a viagem inteira só contando mentira. A princípio fiquei desconfiado de que estava protegendo uma paranóica-depressiva-esquizofrênica. Mas cada vez gostava mais do jeito meio sacana dela. Ela contava as besteiras e eu era obrigado a confirmar. Chegou a falar que nosso primeiro beijo fora no ar, já que os dois saltavam de pára-quedas. Que imaginação fértil! O casal se deliciava com as imaginativas histórias. Só porque eu estava com o violão, ela falou que eu era o guitarrista do Raul Seixas. Imaginem só! Eu que não sabia tocar nenhuma música do cara, tive que inventar na hora, já que a mulher pediu.

– Toca aquela da mosca que pousa em uma sopa.

Chegando no Rio, admirado com nossa felicidade conjugal, o casal convidou nos para passar o dia em sua casa na Gávea. A safada da Lúcia topou no ato, mas eu, dando uma de protetor durão, não aceitei.

– Vamos, bem.

– Isso, ficam em casa, tem um quarto pros dois, amanhã eu levo vocês até a rodoviária.

Não, eu já não podia, já que tinha prometido que a levaria ainda aquele dia. Mas fiquei arrependidíssimo. Ia ser interessante um dia de casado, com altas mordomias.

Eu poderia até dormir com essa mentirosa, já que teríamos que representar o papel de felizes "um-ano" de casados. Porém, o meu diabinho não convenceu o santinho, e fomos direto pra rodoviária. Compramos a passagem e ficamos tomando uma coca, na espera. Foi aí que ela perguntou:

– Você gosta de mim?

Subiu uma sensação gelada da barriga, as pernas tremeram. Como é duro ser tímido, e eu era um bocado. Claro que gostava dela, mas era difícil dizer que sim. Eu tinha que dizer, já era um passo adiante pra uma possível transa. Quando consegui reunir forças pra dizer o "G" de gosto, já estava entre a língua e os dentes, ela me pegou pelo braço:

– Vamos logo, senão a gente perde esse ônibus.

Ela sentou na janela, eu na ponta. Estava uma tarde lindíssima, céu aberto, batendo sol na nossa o janela o tempo todo, o que me deu um tremendo sono. Dormi a maior parte do tempo. Quando acordei, quase em São Paulo, ela estava cantando baixinho, com a mão atada na minha. Estávamos tristes. Tinha acabado a fantasia. Agora cada um iria levar a sua vida. Eu sabia que, quando se conhece uma pessoa numa viagem, depois fica um relacionamento hiper-vazio, um saco. Com ela, não seria diferente. Chegamos, pegamos um táxi, levei-a até a sua casa. No caminho, já abraçados, falei em nos encontrarmos mais vezes. Ela me deu o telefone e um delicioso beijo na boca que durou da Consolação até a Avenida Heitor Penteado.

No dia seguinte, tive de ir pra Campinas fazer matrícula na Unicamp e acabei ficando uma semana. Quando voltei, ela não havia ligado. Peguei o telefone dela, fiquei olhando, olhando e imaginando como seria ela num cinema, num boteco, numa festa. Será que ela dança legal? Será que puxa fumo? Estuda? Amassei o papel. Decidi deixá-la na estrada, no fundo da imaginação. Era mais bonita assim. Nunca mais a procurei.

Foi na estrada, um ano depois, voltando de Ubatuba, que cruzei com ela num posto da Dutra. Eu estava imundo, com o cabelo enorme, bem queimado do sol. Eu e mais quatro surfistas, num Opala velho do Cabeção. Um carro engraçadíssimo, quatro portas, cor de abóbora, caindo aos pedaços, que a gente chamava de Lúcio Flávio, pois parecia que íamos assaltar um banco.

Pra contrastar, a menina estava arrumadíssima, com um boyzinho do lado, vindos de São Sebastião num Passat todo bonitinho. Quando ela me viu, abriu um lindo sorriso.

– Como vai, protetor? Estava com saudades.

Peguei um sanduíche e, enquanto todos estavam sentados num balcão eu, como quem está querendo ficar sozinho, fui pra uma mesa. De longe, fiquei encarando. O boyzinho não parava de falar, e ela, de longe, só me olhando. Devia se lembrar da nossa viagem. Pegou sua comida e veio até a mesa, deixando o outro com cara de tacho. Sentou-se e perguntou:

– Ainda gosta de mim ?

Peguei na mão dela e disse:

– Claro que sim.

Ficamos quietos, meio sem assunto. Mas foi melhor assim. O que eu ia dizer? Minha vida? Tava tudo tão diferente, morando sozinho em Campinas, universitário, namorando firme a ciumenta da Marina.

– Você ainda toca violão?

– Toco. Muito mais que antes.

Ela estava mais branca, assim meio burguesa, mas ainda tinha aquele olhão verde e dois peitões gostosíssimos.

– É seu namorado?

– Mais ou menos.

Continua esquizofrênica-paranóica. Como mais ou menos? Odeio gente que responde mais ou menos. Fala que é uma transa, um caso sem interesse, mas nunca mais ou menos .

– Bom, tá na hora de ir embora.

– É, pois é ...

Pensei em dizer o velho "me procura". Mas não ia adiantar, nosso caso é o que se pode chamar de amor das estradas. Ela se levantou, abraçou-me e me deu um beijo delicioso. Virou as costas, pegou o boy e nunca mais vi aquela carinha bacana.

Uma vez no Rio, eu estava de férias passeando no carro da Nesita, quando parou um ônibus ao meu lado. Olhei e tinha uma menina linda me olhando. Dei uma piscada pra ela e ela retribuiu com um beijinho. Então dei uma lambida nos meus lábios e ela me fez uma careta. Depois rimos, e, quando o ônibus partiu, ela mandou um tchauzinho bem íntimo. Fiquei morrendo de vontade de parar o carro, subir no ônibus pra conhecer a garota. Deve ser uma menina legal, pra corresponder assim a uma brincadeira. Mas deixa ela ir embora. Pode ser que uma palavra estrague tudo. Essa cena nunca mais saiu da minha cabeça, nem o rostinho bonito dela. Eu a amei assim como amei a Lúcia. Na minha vida existem lugares, cenas, palavras que eu amo com um grande respeito. Como eu amei um orelhão de esquina que tinha perto da minha casa campineira. Como amei D. Margarida, minha professora de português em Santos, tanto que cheguei a arrancar a tampa da mesa onde ela dava aula, só pra ver as pernas dela. E como dizia Vinícius de Moraes, mais ou menos assim: O amor não é para ser eterno, mas sim infinito enquanto dure .






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