Fichamento



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Fichamento

Antropologia do Ciborgue – As Vertigens do Pós-Humano”



Hari Kunzru

Donna Haraway

Tomaz Tadeu da Silva (organização e tradução)

Editora Autêntica – Belo Horizonte – 2000
Nós, ciborgues: o corpo elétrico e a dissolução do humano

Tomaz Tadeu da Silva


  • a questão não é mais, agora, “quem é o sujeito”, mas “queremos, ainda, ser sujeitos?” (GUZZONI, 1996)




  • retrato canônico do sujeito que posa como abstrato, universal, racional, reflexivo evoca um membro típico de um subconjunto particular do gênero masculino




  • são os processos que estão transformando, de forma radical, o corpo humano que nos obrigam a repensar a “alma” humana




  • uma das mais importantes questões de nosso tempo: onde termina o humano e onde começa a máquina?




  • ciborgue põe em cheque a ontologia do humano




  • a existência do ciborgue não nos intima a perguntar sobre a natureza das máquinas mas sobre a natureza do humano




  • uma das características mais notáveis desta nossa era – a indecente interpenetração, o promíscuo acoplamento, a desavergonhada conjunção entre o humano e a máquina




  • os ciborgues vivem de um lado e do outro da fronteira que separa (ainda) a máquina do organismo







  1. restauradoras: permitem restaurar funções e substituir órgãos e membros perdidos;

  2. normalizadoras: retornam as criaturas a uma indiferente normalidade;




  1. reconfiguradoras: criam criaturas pós-humanas que são iguais aos seres humanos e, ao mesmo tempo, diferentes deles;




  1. melhoradoras: criam criaturas melhoradas, relativamente ao ser humano




  • de um lado, a mecanização e a eletrificação do humano; do outro, a humanização e a subjetivação da máquina. É da combinação desses processos que nasce essa criatura pós-humana a que chamamos de “ciborgue”




  • aquilo que caracteriza a máquina nos faz questionar aquilo que caracteriza o humano: a matéria de que somos feitos




  • a imagem do ciborgue nos estimula a repensar a subjetividade humana; sua realidade nos obriga a deslocá-la




  • imagem da subjetividade humana foi legada pelo cogito cartesiano: a existência do sujeito é idêntica ao seu pensamento




  • ciborgue dissolve a singularidade e exclusividade do humano; coloca em cheque a originalidade do humano




  • os ciborgues nos forçam a pensar não em termos de “sujeitos”, de átomos os indivíduos, mas em termos de fluxos e intensidades, dissolvendo o humano como unidade

Você é um ciborgue”: um encontro com Donna Haraway



Hari Kunzru


  • Donna Haraway declara-se, como sendo, ela própria, um ciborgue




  • um tipo de corpo que representa a quintessência da tecnologia

  • a autora questiona o viés masculinista da cultura científica e vê a si própria como uma modesta e confusa testemunha da revolução genética trazida pela Engenharia Genética




  • ciberfeminismo, de acordo com Sadie Plant, é “uma aliança entre as mulheres, a maquinaria e as novas tecnologias”




  • Haraway é uma mulher que não tem qualquer interesse em ser uma “mãe-natureza” ou retornar a algum passado mítico e pré-tecnológico



  • sua frase “prefiro ser uma ciborgue a ser uma deusa” desafia a tradicional concepção feminista de que a ciência e a tecnologia são pragas patriarcais a assolar a superfície da natureza




  • como ciborgue, Haraway é um produto da ciência e da tecnologia




  • para Haraway, as realidades da vida moderna implicam uma relação tão íntima entre as pessoas e a tecnologia que não é mais possível dizer onde nós acabamos e onde as máquinas começam




  • ser um ciborgue não tem nada a ver com quantos bits de silício temos sob nossa pele ou com quantas próteses nosso corpo contém




  • tem a ver em dar-se conta de que estamos em um lugar que não existiria sem a idéia do corpo como uma máquina de alta performance




  • com drogas ou sem drogas, o treinamento e a tecnologia fazem de todo atleta olímpico um nó em uma rede tecnocultural




  • o mundo de Haraway é um mundo de redes entrelaçadas – redes que são em parte humanas, em parte máquinas; complexos híbridos de carne e metal que jogam conceitos como “natural” e “artificial” no lixo




  • as redes híbridas são os ciborgues e eles não se limitam a estar à nossa volta – eles nos incorporam




  • estamos construindo a nós próprios exatamente da mesma forma que construímos circuitos integrados ou sistemas políticos




  • Manifesto Ciborgue: “irônico mito político” – faz com que o ciborgue se transforme de um ícone do poder da Guerra Fria em um símbolo da libertação feminista




  • no manifesto, Haraway argumenta que o ciborgue – uma fusão entre animal e máquina – joga no lixo as grandes oposições entre natureza e cultura, self e mundo




  • descrição de algo como “natural” significa dizer que “é assim que o mundo é, não podemos mudá-lo”




  • por gerações, foi dito às mulheres que elas são “naturalmente” fracas, submissas, extremamente emocionais e incapazes de pensamento abstrato; se todas essas coisas são naturais, significa que não podem ser mudadas




  • por outro lado, se as mulheres (e os homens) não são naturais, mas construídos, tal como um ciborgue, então, dados os instrumentos adequados, todos nós podemos ser reconstruídos – tudo pode ser escolhido




  • ciberfeminismo está baseado na idéia de que, em conjunção com a tecnologia, é possível construir nossa identidade, nossa sexualidade, até mesmo nosso gênero, exatamente da forma que quisermos




  • as ciberfeministas deleitam-se em uma perversidade polimorfa




  • os modems estão, de certa forma, no centro da política ciborguiana; ser um ciborgue não tem a ver simplesmente com a liberdade de se autoconstruir – tem a ver com redes




  • se começarmos a falar com as pessoas sobre como elas preparam o jantar ou que tipo de linguagem utilizam para descrever problemas em seu casamento, é muito provável que obtenhamos respostas que se expressam em termos de circuitos, de quebra de comunicação, de ruído e sinal







  • o sistema imunológico é um perfeito exemplo da consciência em rede da era do ciborgue




  • a tecnologia não é neutra; estamos dentro daquilo que fazemos e aquilo que fazemos está dentro de nós; vivemos em um mundo de conexões – e é importante saber quem é que é feito e desfeito


Manifesto Ciborgue: ciência, tecnologia e feminismo-socialista no final do século XX

Donna Haraway


  • um ciborgue é um organismo cibernético, um híbrido de máquina e organismo, uma criatura de realidade social e também uma criatura de ficção




  • a ficção científica contemporânea está cheia de ciborgues – criaturas que são, de forma ambígua, tanto naturais como fabricados




  • a medicina moderna também está cheia de ciborgues, de junções entre organismo e máquina, cada qual concebido como um dispositivo codificado




  • o processo de replicação dos ciborgues está desvinculado do processo de reprodução orgânica




  • Haraway argumenta em favor dos ciborgues como ficção que mapeia nossa realidade social e corporal e também como recurso imaginativo que pode sugerir alguns frutíferos acoplamentos




  • somos todos quimeras, híbridos – teóricos e fabricados – de máquina e organismo; somos, em suma, ciborgues



- nas tradições da ciência e da política ocidentais (a tradição do capitalismo racista, dominado pelos homens; a tradição do progresso; a tradição da apropriação da natureza como matéria para a produção de cultura; a tradição da reprodução do eu a partir dos reflexos dos outros), a relação entre organismo e máquina tem sido uma guerra de fronteiras

- este ensaio é um argumento em favor do prazer da confusão de fronteiras, bem como em favor da responsabilidade em sua construção

- é também um esforço de contribuição para a teoria e para a cultura socialista-feminista, de uma forma pós-modernista, não-naturalista, na tradição utópica de se imaginar um mundo sem gênero

- a encarnação ciborguiana está fora da história da salvação

- o ciborgue é uma criatura de um mundo pós-gênero: ele não tem qualquer compromisso com a bissexualidade, com a simbiose pré-edípica, com o trabalho não-alienado

- o ciborgue não é parte de qualquer narrativa que faça apelo a um estado original

- as narrativas de origem, no sentido “ocidental”, humanista, dependem do mito da unidade original, da idéia de plenitude, da exultação e do terror, representados pela mãe fálica da qual os humanos devem se separar

- o ciborgue pula o estágio da unidade original, da identificação com a natureza, no sentido ocidental

- o ciborgue está determinadamente comprometido com a parcialidade, a ironia e a perversidade

- o ciborgue não espera, por meio da fabricação de um parceiro heterossexual, sua complementação em um todo

- o ciborgue não sonha com uma comunidade baseada no modelo da família orgânica

- ele não reconheceria o Jardim do Éden; ele não é feito de barro e não pode sonhar em retornar ao pó

- os ciborgues não são reverentes; eles não conservam qualquer memória do cosmo: por isso, não pensam em recompô-lo

- o principal problema com os ciborgues é, obviamente, que eles são filhos ilegítimos do militarismo e do capitalismo patriarcal; mas os filhos ilegítimos são, com freqüência, extremamente infiéis às suas origens – seus pais são, afinal, dispensáveis

- a fronteira entre o humano e o animal está completamente rompida; a linguagem, o uso de instrumentos, o comportamento social, os eventos mentais: nada disso estabelece, realmente, de forma convincente, a separação entre o humano e o animal

- o ciborgue aparece como mito precisamente onde as fronteiras entre o humano e o animal é transgredida

- longe de assinalar uma barreira entre as pessoas e os outros seres vivos, os ciborgues assinalam um perturbador e prazerosamente estreito acoplamento entre eles

- as máquinas pré-cibernéticas não eram vistas como autônomas: elas não podiam realizar o sonho do homem – só podiam arremedá-lo; elas não eram o homem mas apenas uma caricatura daquele sonho reprodutivo masculinista

- as máquinas do final do século XX tornaram completamente ambígua a diferença entre o natural e o artificial, entre a mente e o corpo, entre aquilo que se autocria e aquilo que é externamente criado

- a fronteira entre o físico e o não-físico é muito imprecisa para nós

- os dispositivos microeletrônicos são, tipicamente, as máquinas modernas: eles estão em toda parte e são invisíveis

- a miniaturização mudou nossa percepção sobre a tecnologia – ela acaba significando poder; o pequeno não é belo: tal como ocorre com os mísseis ele é, sobretudo, perigoso

- as pessoas estão longe de serem fluidas, pois elas são, ao mesmo tempo, materiais e opacas; os ciborgues, em troca, são éter, quintessência

- é precisamente a ubiqüidade e a invisibilidade dos ciborgues que faz com que essas minúsculas e leves máquinas sejam tão mortais; eles são, tanto política como materialmente, difíceis de ver

- o mito ciborgue de Haraway significa fronteiras transgredidas, potentes e perigosas possibilidades

- os recursos analíticos desenvolvidos pelas pessoas progressistas insistem no argumento de que a técnica envolve, necessariamente, dominação; como resposta, elas apelam em favor de um imaginário corpo orgânico que possa organizar nossa resistência

- um mundo de ciborgues significa a imposição final de uma grade de controle sobre o planeta

- de uma outra perspectiva, um mundo de ciborgues pode significar realidades sociais e corporais vividas, nas quais as pessoas não temam sua estreita afinidade com animais e máquinas, que não temam identidades permanentemente parciais e posições contraditórias
Identidades fraturadas
- a consciência da exclusão que é produzida por meio do ato de nomeação é aguda

- depois do reconhecimento, arduamente conquistado, de que o gênero, a raça e a classe são social e historicamente constituídos, esses elementos não podem mais formar a base da crença em uma unidade “essencial”

- não existe nada no fato de ser “mulher” que naturalmente una as mulheres; não existe nem mesmo uma tal situação – “ser” mulher. Trata-se de uma categoria altamente complexa, construída por meio de discursos científicos sexuais e de outras práticas sociais questionáveis

- a “cultura das mulheres” é criada de forma consciente, pelos mecanismos que estimulam a afinidade (afinidade ao invés de identidade)

- a luta teórica e prática contra a unidade-por-meio-da-dominação ou contra a unidade-por-meio-da-incorporação implode, ironicamente, não apenas as justificações para o patriarcado, o colonialismo, o humanismo, o positivismo, o essencialismo, o cientificismo e outros “ismos”, mas também todos os apelos em favor de um estado orgânico ou natural

- estamos dolorosamente conscientes do que significa ter um corpo historicamente constituído

- maior necessidade de unidade política, a fim de enfrentar, de forma eficaz, as dominações de “raça”, de “gênero”, de “sexualidade” e de “classe”

- as feministas-ciborgue têm que argumentar que “nós” não queremos mais nenhuma matriz identitária natural e que nenhuma construção é uma totalidade

- para o feminismo marxista / socialista, a consciência é uma conquista e não um fato natural

- o sistema simbólico da família do homem – e, portanto, a essência da mulher – entra, em colapso no mesmo momento em que as redes de conexão entre as pessoas no planeta se tornam, de forma sem precedentes, múltiplas, pregnantes e complexas



- o que está em jogo, na conexão “ocidental”, é o fim do homem
Informática da dominação


Representação


Simulação

Romance burguês, realismo


Ficção Científica, pós-modernismo

Organismo


Componente biótico

Profundidade, integridade


Superfície, fronteira

Calor


Ruído

Biologia como pratica clinica


Biologia como inscrição

Fisiologia


Engenharia de comunicação

Pequeno grupo


Subsistema

Perfeição


Otimização

Eugenia

Controle populacional

Decadência, montanha mágica


Obsolescência, choque do futuro

Higiene


Administração do estresse

Microbiologia, tuberculose


Imunologia, Aids

Divisão orgânica do trabalho


Ergonomia/cibernética do trabalho

Especialização funcional

Construção modular

Reprodução


Replicação

Especialização do papel social com base no sexo orgânico


Estratégias genéticas otimizadas

Determinismo biológico

Inércia evolucionaria, restrições

Ecologia comunitária


Ecossistema

Cadeia racial do ser


Neo-imperialismo, humanismo das Nações Unidas

Administração científica na casa/fábrica


Fábrica global/trabalho feito em casa por meio das tecnologias eletrônicas

Família/mercado/fábrica


Mulheres no circuito integrado

Salário-familia


Valor comparável

Público/privado

Cidadania do tipo “ciborgue”

Natureza/cultura


Campos de diferença

Cooperação


Reforço na comunicação

Freud


Lacan

Sexo


Engenharia genética

Trabalho


Robótica

Mente


Inteligência artificial

Segunda Guerra Mundial


Guerra nas Estrelas

Patriarcado capitalista branco


Informática da dominação

- os objetos situados no lado direito não podem ser compreendidos como “naturais”, o que nos impede de compreender como naturais também os objetos do lado esquerdo

- não se trata apenas de que “deus” está morto: a “deusa” também está; ou, se quisermos, podemos vê-los, a ambos, revivificados nos mundos das polítcas microeletrônica e biotecnológica

- as estratégias de controle irão se concentrar nas condições e nas interfaces de fronteiras, bem como nas taxas de fluxo entre fronteiras, e não na suposta integridade de objetos supostamente naturais

- as estratégias de controle serão formuladas em termos de taxas, custos de restrição, graus de liberdade

- nenhum objeto, nenhum espaço, nenhum corpo é, em si, sagrado; qualquer componente pode entrar em uma relação de interface com qualquer outro desde que se possa construir o padrão e o código apropriados, que sejam capazes de processar sinais por meio de uma linguagem comum

- o ciborgue simula a política, uma característica que oferece um campo muito mais potente de atividades

- a casa, o local de trabalho, o mercado, o próprio corpo, todos esses locais podem ser dispersados e entrar em relações de interface, sob formas quase infinitas e polimórficas, com grandes conseqüências para as mulheres e outros grupos

- o ciborgue é um tipo de eu – pessoal e coletivo – pós-moderno, um eu desmontado e remontado; esse é o eu que as feministas devem codificar

- as tecnologias de comunicação e as biotecnologias são ferramentas cruciais no processo de remodelação de nossos corpos; essas ferramentas corporificam e impõem novas relações sociais para as mulheres no mundo todo

- as ciências da comunicação e as biologias modernas são construídas por uma operação comum – a tradução do mundo em termos de um problema de codificação

- a tradução do mundo em termos de um problema de codificação pode ser ilustrada pela biologia molecular, pela ecologia, pela teoria evolucionária sócio-biológica e pela imuno-biologia; nesses campos, o organismo é traduzido em termos de problemas de codificação genética e de leituras de códigos

- em um certo sentido, os organismos deixaram de existir como objetos de conhecimento, cedendo lugar a componentes bióticos, isto é, tipos especiais de dispositivos de processamento de informação

- as ciências da comunicação e a biologia indicam, para nós, transformações fundamentais na estrutura do mundo; as tecnologias da comunicação dependem da eletrônica

- a microeletrônica é a base técnica dos simulacros, isto é, de copias sem originais

- as ciências da comunicação e a biologia caracterizam-se como construções de objetos tecno-culturais de conhecimento, nas quais a diferença entre máquina e organismo torna-se borrada; a mente, o corpo e o instrumento mantém, entre si, uma relação de grande intimidade



- “mulheres no circuito integrado” (termo criado por Rachel Grossman – 1980, e utilizado por Haraway): situação das mulheres em um mundo tão intimamente reestruturado por meio das relações sociais da ciência e da tecnologia

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