Filho do fogo volume 1



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FILHO DO FOGO

Volume 2

Isabela Mastral

Eduardo Daniel Mastral

Contatos:


Autores:

danielmastral@hotmail.com
Editora Naós:

http://www.editoranaos.com.br

editoranaos@editoranaos.com.br

O princípio da sabedoria é o temor do Senhor. (Pv. 1:7)

O princípio da sabedoria é: adquire a sabedoria; sim, com tudo o que possuis, adquire o entendimento. (Pv 4:7)

Porém a sabedoria habita com a prudência, no coração dos prudentes repousa ela. (Pv. 8:12; 14:33)

Ouça o sábio e cresça em prudência; e o entendido adquira habilidade!

Pois com medidas de prudência faremos a guerra. (Pv. 1:6; 24:6)


Antes de dar início a esta leitura coloque em prática este princípio:

Seja prudente!

Ore a Deus, revista-se completamente com a Sua armadura, peça a cobertura do sangue do Cordeiro.

E que o Espírito Santo, o Espírito da Verdade, lhe acrescente sabedoria, discernimento e a compreensão completa do propósito de Deus neste livro.

Que o nosso Senhor Jesus Cristo nos abençoe a todos!
Esta é uma história baseada em fatos reais.

Nomes de pessoas, empresas e escolas foram modificados.

Houve omissão do nome de algumas cidades.

Apenas o nome das entidades demoníacas é original.


Dedicamos este livro aos muito poucos que permaneceram realmente ao nosso lado.

Índice:

PARTE II 3

Capítulo 8 3

Capítulo 9 17

Capítulo 10 34

Capítulo 11 52

Capítulo 12 66

Capítulo 13 78

Capítulo 14 92

Capítulo 15 103

Capítulo 16 127

Parte III 139

Capítulo 1 139

Capítulo 2 159

Capítulo 3 172

Capítulo 4 190

Capítulo 5 209

Capítulo 6 230

Capítulo 7 255

Capítulo 8 271

Capítulo 9 290

Capítulo 10 303

Capítulo 11 317

Capítulo 12 330

Capítulo 13 362

Capítulo 14 387

Capítulo 15 392

Epílogo 409

Uma Pequena História de um Grande Amor 410

Resposta 423

Alerta 424

Principais Referências Bíblicas 426


PARTE II

Capítulo 8


As semanas passaram sem maiores novidades.

Aquele sábado tinha sido agradável. Treinei Kung Fu e fui direto para a casa de Camila

Vamos comer juntos mais cedo?! — Convidara ela. — Podíamos pedir uma pizza e pegar filme de vídeo, né? O que acha? Você ficou tão sumido no final de semana passado...

Ela estava feliz, descontraída e louca para me agradar. Havíamos retomado o namoro há pouco, após mais uma das nossas tão freqüentes brigas e separa­ções. Havia sido um “Deus-nos-acuda” como sempre.

Camila começou a não querer mais comer, emagreceu terrivelmente, vivia atrás de mim. Foi pressão de todos os lados para que voltássemos. Dona Carminha falava com minha mãe e depois me mandava recados:

— A Camila continua sem comer. Só fala de você. É melhor repensar esta decisão! Você não vai encontrar outra moça como ela. Só fala em morrer, em se matar, em definhar de inanição, coisas assim! — E por aí adiante.

De fato Camila emagreceu muito. Quando a vi de novo até assustei. Ficou abatida, acabada, deixando a todos preocupados. E até tentou “suicídio”. Feliz­mente não foi dos mais inteligentes, tomou apenas algumas cartelas de aspirina. Era o que havia de disponível.

Eu não queria mais manter aquele relacionamento, principalmente depois da Iniciação. Mas a velha “pena” acabou novamente falando mais alto. (Onde que eu estava com a cabeça???...)

Decidi realmente ir comer pizza à noite na casa de Camila, afinal eu a havia visto apenas na última terça-feira. Ela havia estado a me esperar no portão apro­veitando o sol do final da tarde.

— Acho melhor pedir pelo telefone, para entregar! Pode ser meia “frango com catupiry” e meia “portuguesa”, ou você quer toda “portuguesa”? — Camila sabia que eu não dispensava a “portuguesa” e tão logo cheguei ela já me acenava com o panfleto do cardápio.

— Pode pedir meio a meio, como você quiser. — Então, tá!

Entramos em casa conversando. A poodle veio fazer festa. A poodle somen­te, porque os dobermanns continuavam no quintal. Fui direto para o telefone encomendar a pizza.

— Trás também uma coca grande, por favor! — Pedi, antecipando um super copo com gelo e limão para acompanhar o refrigerante.

Depois de cumprimentar Dona Carmem fui atrás da Camila, que estava no quarto.

— Eu peguei aquele filme que você queria ver. — Explicou Camila, sentando sobre a cama.

Preferimos ficar por lá naquele horário — começo da noite — pois o relaciona­mento da família dela comigo não era dos melhores e em breve todos estariam por lá. Entenda-se por “família” a irmã e o Pastor. Não conseguia suportar a Kelly, sempre procurando um motivo para implicar comigo ou com a Camila. Mas o pior de todos era o “Pastorzinho”!!! Deixa estar... eu ia pegá-lo de jeito.

Uma vez no quarto me acomodei no chão, de costas para a parede. Camila sentou-se de frente para mim, contando as novidades do serviço:

— ...e acabou dando a maior confusão; também todo mundo avisou que o controle ia ficar mais rigoroso a partir de segunda-feira, mas ele não quis dar o braço a torcer. Não sei, não... talvez seja despedido!

Ouvi quando o Pastorzinho chegou. Não da Igreja, é claro, afinal sexta-feira era dia de folga. No entanto o carro da Igreja bem que ficava com ele, e com gasolina à vontade! Hum...nada como um dia após o outro.

— Imagine só, que rolo! — Camila dava risada. Eu havia perdido o final da história ao desviar minha atenção para os ruídos na sala e o som de vozes.

Procurei descontrair-me. Acho que só estava um pouco mais irritado do que de costume. Jogamos um pouco de xadrez, mas logo chegou a pizza. Camila, como sempre trouxe pratos, talheres e copos para o quarto. Eu coloquei um peda­ço de pizza sobre o outro fazendo um sanduíche, e dispensei os talheres. Estava com o sanduíche a meio caminho da boca e o copo cheio de borbulhante coca-cola quando...: TUM! Minha mente deu um estalido! Eu não podia comer àquela hora! Haveria um Ritual naquela noite para o qual eu deveria manter-me em jejum por seis horas.

Nem sempre isso era necessário, mas naquele dia sim.

Olhei para Camila, que experimentava o seu pedaço sabor “frango com catupiry”.

— Ah, eu não vou comer, não, tá? — Falei de pronto, sem delongas.

— Não?!! — Ela parecia não compreender. — Mas, por quê? Você não queria pizza?

— Queria, até, mas sei lá... perdi a fome. Não vou comer agora. — Respondi com convicção. — Come você!

— Mas eu não vou agüentar tudo. O que faremos com este monte de pizza?! — Perguntou ela meio brava.

— Ah, não sei! Dá para sua família!

— Agora pode, né?

— Bem, se não quer dar para sua família dê para os cachorros. Você escolhe!

— Não, vou dar para minha família, aproveitar que meu irmão chegou agora.

— Dá este pedaço aqui para ele — Falei rindo. Num momento de “descuido” eu havia cuspido embaixo do queijo.

Ela, estranhamente, concordou. Nem entornou o caldo. Eu achei que Camila não devia estar muito bem. Não era apenas porque o dinheiro saía do meu bolso. Havia algo mais. Situações assim começaram a acontecer com freqüência. Numa outra ocasião, logo depois deste dia, Camila não discutiu diante de outra descul­pa bastante esfarrapada.

Agora eu tinha compromissos em dias pouco favoráveis. Para Camila, é lógico. Porque para mim o dia nunca estava desfavorável. Os Rituais de Celebra­ção eram todas as sextas e sábados à partir das onze e meia. Além das reuniões de estudo no Grupo às segundas e quartas.

Conforme aproximava-se o horário combinado com Marlon, eu procurava sair da casa dela:

— Olha, este tênis aqui está incomodando muito. — Falei para Camila. — Eu vou para casa trocar de sapato, tá bom? Preciso ir agora!

— Tudo bem. — Afirmou Camila. — Eu vou junto com você.

— Não! Não precisa ir junto. — Retruquei. — Eu vou e volto. Você aproveita para tomar um banho enquanto isso, com calma.

Novamente ela concordou, sem discussões e sem insistir mais. Nem parecia a Camila que eu conhecia. Seria só a boa vontade de reconquistar os bons perío­dos de namoro?

Quando cheguei em casa, peguei o telefone e liguei para ela:

— Olha, eu não vou voltar mais. Estou cansado e vou aproveitar para descansar um pouco hoje.

Ela não pareceu se incomodar:

— Descanse bastante, então, amanhã a gente se vê. Tudo bem!

Eu sabia como era difícil convencer uma mulher quando ela faz questão da presença do homem. Ou Camila não estava fazendo questão, ou...?

Mas, a bem da verdade, pouco me interessava estar muito ou pouco tempo com Camila.

“O quê me faz continuar esse relacionamento?”

Fui levando o namoro aos trancos e barrancos. Só que logo depois da Inici­ação eu passei a ter convicção muito clara de uma coisa:

— Eu não vou casar com esta mulher. Não é ela a pessoa certa! Se eu me unir desta forma à Camila estarei prejudicando a mim mesmo, meu desenvolvimento e crescimento na Irmandade. Depois... — Meu semblante sempre ficava carregado nessa altura. — Depois eu vou ter que aturar esta família e isto decididamente não dá!!!

E este era um fator que pesava muito. Camila de fato não me incomodava. Ela levava o Cristianismo no “vai-da-valsa”. E só queria me agradar. Com medo de perder o namorado, acabou domada. E passou a concordar com praticamente tudo, não reclamava das coisas mais absurdas. E com essa submissão toda ficou muito mais fácil ludibriá-la sobre aonde eu estava e o que fazia

Dona Carminha e a avó eram boas... mas estavam eternamente me contando aquelas histórias bíblicas intermináveis, e tentando arrastar-me para a Igreja, e falando de Jesus. E isso era tão insuportável! Eu até evitava dirigir muito a pala­vra para as duas. Não suportava mais escutar aquela pergunta:

— Você leu a Bíblia hoje?

Bíblia! Bíblia! Bíblia! Estava cheio daquela palavra. Eles todos me davam nojo com sua eterna “Bíblia”! Minha vontade era de dar uma respostinha à altura.

— Não li, não! Eu a uso para outros fins!!!

Mas como isso não era possível (tinha que manter uma certa diplomacia por causa de Camila), ficava só na vontade. E que vontade!

Mas suportar o “Pastorzinho”...! Sem dúvida que esse era o “xis” da ques­tão.

Naquela época ainda dava pra agüentar porque eu estava quase o tempo todo ocupado. Estudava; tinha os compromissos com a Irmandade à noite. O tempo que me sobrava era, naturalmente, para treinar Kung Fu. Restava muito pouco para Camila e quase nada para a família dela.

Camila acreditava nas mais tolas desculpas que eu pudesse dar. Os estudos e os Rituais começavam tarde mas eu não tinha carro. Dependia de Marlon — que me levava quase sempre — ou de Thalya, que também tinha carro. Por vezes eu até combinava com eles nas imediações da casa de Camila porque não era muito distante do palacete de Zórdico. A maior parte dos Rituais realmente acontecia lá. E eu, que nem sequer fazia idéia quando estava estudando no Grupo!

Quando começava a dar o horário em que deveria sair sempre acabava tendo que apelar: cansaço, sono, coisas para estudar, dor-de-cabeça, etc. ..etc. ..etc. ...! E quando o argumento estava ficando batido demais eu era obrigado a me utilizar de verdadeiras “pérolas” da invencionice. Era relativamente fácil. Em suma, eu realmente nunca tive o menor problema e Camila nunca desconfiou daquela vida dupla. Nem ela e nem ninguém da família. Isto deixava de ser coincidência, extrapolava as leis da probabilidade e do fato dela querer agradar-me.

Sem dúvida o dedo de “meu pai” estava naquela história. Só que, nessa altura, eu ainda não compreendia este contexto espiritual. Não podia supor que Abraxas ou qualquer outro se daria ao trabalho de influenciá-la de alguma for­ma. Não sabia que também tinham esse Poder. Achava que tudo era apenas fruto da minha capacidade de persuasão. Nem cheguei a questionar muito. Se o tivesse feito acharia estranho que minha namorada concordasse, em pleno fim de semana, com o fato de que eu precisasse, com urgência (inadiável), arrumar as gavetas do armário, por exemplo.

— A gente aproveita melhor uma outra hora. Eu chego mais cedo no outro sábado, tá?

Poucas vezes Camila realmente insistiu para que eu me demorasse mais. Certamente que este não era o feitio dela:

— Ah, Edu! Dorme aqui em casa hoje, vá, amanhã não tem horário. Fica aqui hoje?

— Não dá, Camila. Não tenho nem pijama aqui na sua casa.

— Mas eu te arrumo uma camiseta do meu irmão!

— Nem pensar. Eu só durmo com o meu pijama! — O mais curioso é que Camila era a primeira que deveria saber que eu não usava e nem nunca usei pijama.

Acabei até rindo-me disso mais tarde. Nada do que ela sugeria serviu. E então ela concordou.

Marlon também havia me instruído um pouco acerca dela logo de cara.

— Dá a cartada logo. — Falou ele tão logo comentei que reatara o namoro. — Você quer realmente torná-la maleável a ponto de não ser obstáculo de espécie nenhuma? É muito simples: chega nela e diz que não está mais gostando. Isso é fato, certo?

— Em parte, Marlon. Sabe como é que é, não se trata daquele amor, nada disso. Mas tenho pena e acho que um pouco eu ainda gosto dela. Não vou casar! Mas ela é boazinha, é uma moça direita... é difícil encontrar uma moça direita hoje em dia!

Em momento algum ele me incentivou a romper de vez o relacionamento.

— É importante que você continue com ela enquanto for bom para você. Mas quando você achar que acabou, que não é mesmo ela que você quer... então põe o ponto final sem esta história de ficar com pena. Não aceite imposições de família e nem de ninguém. Decida por você mesmo! Por hora, continue namorando a moça. Mas para que ela não seja um problema para você, faça como eu disse. Diga que seu amor está acabando, que você está com muita dúvida a respeito do relacionamento, dúvidas em relação a ela, por aí adiante. Fala que você vai dar uma última chance para ela te reconquistar, e caso isso não ocorra é “tchau” mesmo! Afinal, se ela tentou até se matar por sua causa...! Te garanto que ela será super compreensiva!

E assim foi mesmo. Ela era muito compreensiva em todos os aspectos. Como Marlon havia dito. E ele também me havia feito entender que era muito bom ter duas mulheres. Ou três. Ou quantas eu desejasse.

— Salomão teve setecentas. — Disse-me Marlon com ar cínico. — Vejam só, o Rei de Israel, o escolhido de Deus. Naturalmente que ele teve que deixar de lado um pouco a lei de Deus, e fez o que tinha vontade. Se teve setecentas é porque o negócio devia ser bom pra caramba! A verdade é que às vezes o homem precisa de mais de uma mulher para se completar. — Ele sorria com malícia no olhar. — Tem mulher que é “boazinha” como você mesmo comentou, mas que para outras coisas não é tão boa assim. Tem outras que são muito carinhosas, meigas... mas também rancorosas. Outras são inteligentes, boas para longas conversas. Por outro lado, independentes demais. Por aí vai! Então uma compensa a outra. A deficiência aqui é suprida pela eficiência ali. O bom mesmo é ter várias. Você aproveita o melhor de cada uma!

Incentivada a poligamia, eu fiquei pensando. Marlon tinha dourado um pou­co as coisas, mas o fato é que todo homem pensava assim mesmo. Só que, apesar disso, eu pensava diferente. Não estava com vontade de fazer coleção de namora­das. Por ora ficava com Camila.

E mesmo porque havia Thalya nessa história toda. Novamente esbarrava nesse pequeno e irrevogável “detalhe”. Mas eu podia estar com ela sempre que assim o quisesse.

Ela era imprevisível e combinava muito com o meu próprio jeito de ser. Intelectualmente falando eu podia manter com ela os diálogos que seriam impos­síveis de ter com Camila. Thalya era linda. Não dava para negar esse fato. E Camila, bem, ela era boazinha, direita, submissa. Bem diferente. De certa forma uma completava mesmo a outra, como dissera Marlon. Pelo sim, pelo não... eu ia deixar como estava.

Thalya compreendia perfeitamente que tipo de aliança tínhamos um com o outro. Era uma aliança de Poder... não um “casamento”!

— A união que nós temos, — Disse ela certa vez. — não implica em “respeito”, esse respeito que a Igreja muito ridiculamente impõe. Nosso elo está acima des­tas efemeridades. Eu posso ter tantos homens quantos eu queira, e você a mesma coisa com as mulheres. Mas ainda assim eu e você somos — e sempre seremos — como um só. Vai muito além de um coito! Lembra-se? O laço de sangue nunca quebra! Isso quer dizer que tem tempo certo para tudo. Por hora se você acha que deve ficar com essa fulaninha, que fique. Se quiser ficar comigo, que fique tam­bém.

Era fato. E ficamos assim combinados. Eu namoraria Camila quanto quises­se e Thalya teria “tantos homens quantos desejasse”, mas fora do contexto da Irmandade. Ficou acertado que, lá dentro, não teríamos “outras” ou “outros”. Pelo menos por enquanto. E não era uma questão moralista, era apenas uma espécie de “pacto” que levava mais em consideração a amizade e o carinho que tínhamos um pelo outro do que qualquer outra coisa.

Fosse como fosse, do lado de fora ela aproveitava do modo dela e eu do meu. Thalya era como o tempo: podia-se “prever”, mas jamais determinar. E eu não podia estar na dependência de alguém assim.

A verdade era que não havia necessidade de escolher... então deixei rolar! Mas acho que se tivesse mesmo que ter escolhido... difícil dizer... qual delas seria? Tal vez... minha “alma gêmea”...?

***

Camila tinha uma vizinha que volta e meia estava lá na casa dela. Seu nome era Tamara. Tanto ela quanto a família eram hippies. O passatempo de Tamara era fazer aqueles artesanatos que se vendem em feirinhas de hippies. Os irmãos dela — bem mais cabeludos do que eu — eram músicos e tocavam “na noite”, em barzinhos. A mãe era professora de piano e o pai — imagine! — um maestro!

A meu ver, eram um bando de loucos! Da casa da Camila podia-se escutar aquele piano martelando o dia inteiro, um entra e sai de alunos da manhã à noite, e guitarras e baterias nos intervalos.

E como se não bastasse tanta esquisitice, como todo bando de malucos, eles eram todos ateus. Eu me divertia com aquela família, e especialmente com Tamara que volta e meia aparecia em casa de Camila. Sempre com suas roupas indianas e seus “papos filosóficos” totalmente sem pé nem cabeça! Não sei como aquela moça podia acreditar em tanta besteira!

O detalhe: naturalmente que o Pastorzinho queria evangelizá-la. E, de que­bra, trazer toda a família dela “para Cristo”.

Depois que fui Iniciado, minha bronca com o Sérgio piorou bastante. Eu não suportava nem ouvir a voz irritante dele e estava louco para confrontá-lo um pouco. Mais ou menos uns dois meses após o Rito de Iniciação eu estava num domingo à tarde pronto para tomar um chá com Camila. E Tamara estava por lá. O Pastorzinho borboleteava aqui e ali, e não levou muito tempo para que ele e Tamara acabassem desembocando numa discussão acerca do Cristianismo.

Vibrei! Eu não via a hora de ter uma deixa qualquer. Afinal, no meu entender eu tinha argumentos de sobra para fazer o Sérgio engolir a sua doutrina vã. Meu problema não era a Tamara e as tolices nas quais acreditava. Eu queria era pegar o Pastor de jeito! Queria vê-lo engolir toda a sua mediocridade e hipocrisia, aquele aproveitador! Minha antipatia parece que tinha se multiplicado tremendamente. E como eu ansiava pelo gostinho de deixá-lo numa situação de constrangimento público!

“Mais dia, menos dia eu vou acabar tendo uma bela oportunidade e vou entupir esses Cristãozinhos de meia tigela!”

Tratei de esperar. E demorou! Estranhamente, muito estranhamente, naque­le último mês a mãe de Camila não me pegou para contar nenhuma história bíbli­ca: nada de Davi, Abraão ou Rute. A avó... nem me perguntou se eu havia lido a Bíblia, ou se ia acompanhá-los à Igreja. Nada acontecia! E eu tinha que me con­tentar apenas em desejar, ironicamente, uma boa “jornada de trabalho” ao Sér­gio. Quando ele saía para pregar eu não perdia a oportunidade:

— Bom serviço!

— Mas isso não é serviço, já te disse.

— Lógico que é. Você ganha pra isso! — Eu era cínico.

Logo depois que comecei a freqüentar a Escola Preparatória com Marlon as coisas mudaram um pouco de figura, sem que eu percebesse. Ir à Igreja, só se fosse para assistir ao “show”! O “show” que o Pastor dava, o “show” da Congregação. E para aprontar pequenas maldades.

Era tudo muito engraçado. Eu morria de dar risada diante da cara vermelha e suada do Pastor titular! E via as pessoas naquele transe coletivo, erguendo as mãos, aplaudindo, chorando. Faziam cada cara... eu não conseguia me conter. E ria, ria, ria compulsivamente!

No fim aquilo acabava contagiando a Camila, e ela entrava na brincadeira:

— Olha! Olha só a cara daquela mulher gorda ali! — Eu a cutucava, apontan­do. — Parece que ela está fazendo cocô.

Eu não tinha o mínimo de respeito por nada e por ninguém. Olhares tortos nem de longe surtiam o menor efeito. Eu devolvia um ar de “não tô nem aí” e continuava com a mesma falta de educação. Afinal, ninguém tinha nada que ver com isso, eu estava falando com Camila, não tinha culpa se escapava alguma coisinha aqui e ali.

Tudo o que eu pudesse fazer para afrontar as pessoas eu fazia. Toda e qual­quer situação de constrangimento que eu pudesse criar... eu criava. Só pensava em fazer pequenas maldades todo o tempo que estava na Igreja. Acostumado ao “senta-levanta” de sempre, aprontava também:

— Levanta pra louvar ao Senhor! Agora ajoelha! Agora senta! Agora levanta para orar! Vire para o seu irmão e diga...

Eu resolvia que ia ao banheiro e, uma vez erguido o povo, colocava tachinhas nos bancos. Longe de onde eu estava sentado, é claro! Acho que volta e meia devia acertar alguém. Pensar naquilo — alguém pulando depois de espetar o traseiro — me enchia de um estranho e sádico prazer!

Outras vezes arremessava chicletes mascados nas cabeleiras mais longas. De preferência enquanto todos estavam de olhinhos fechados para “orar ao Se­nhor”. No banheiro escrevia palavrões nas portas, xingava os Pastores, achincalhava a Bíblia.

Assim, o Culto terminava por ser o momento mais hilariante da semana.

Mas isso... antes! Antes da Iniciação... antes da aliança de sangue... antes do meu comprometimento com Abraxas e a Irmandade.

Ir à Igreja agora seria inconcebível, nem me passava pela cabeça. Era um programa reles demais.

“Ainda que seja o mais engraçado do mundo, para mim... basta!!!”

Volta e meia Camila também deixava de ir a Igreja para ficar comigo, aliás a família toda não era muito assídua! Somente o “Pastorzinho” ia regularmente porque, afinal de contas, se não fosse também não comia. Salário “suado” aque­le!!!

As coisas estavam neste pé quando naquela tarde de domingo, de repente, a Tamara me veio com esta:

— Escuta, Sérgio. — Principiou ela ainda bebendo os últimos goles de chá mate. — Me desculpe, você é Pastor, mas deixa eu te perguntar uma coisa...

O Pastorzinho limpou as mãos no guardanapo, aguardando o que viria:

— Não é por nada, mas você acredita mesmo nesta história de que Maria recebeu um filho do Espírito Santo?! — Perguntou Tamara naquele jeito desleixado de hippie. — Pra mim, o José levou um belo par de chifres e ela quis colocar a culpa no anjo, né? Porque, imagina só, vê se isto tem cabimento! E o José engo­liu essa.

— Não, não! — Começou o Sérgio. — Isto está na Bíblia e é uma coisa muito séria. Não convém brincar com estas coisas.

Eu já acendi os olhos: “Opa!”

Ele continuou falando que a concepção de Jesus havia sido assim mesmo, e blá-blá-blá, porque a Bíblia dizia que era assim, então era assim. Encostado no batente da porta eu simplesmente interrompi a explanação de sopetão:

— E você acredita em tudo que está escrito na Bíblia? — Perguntei com certo mau-modo e à queima-roupa, os olhos chispando na direção dele.

“Que oportunidade esta menina acaba de me criar!”, pensei exultando.

— Sim, acredito! — Respondeu o Pastor com ar sério, balançando a cabeça repetidas vezes.

Hoje reconheço que a pergunta que fiz era básica. Mas ela não soube res­ponder!

— Pois é. Você deve estar lembrado então que Deus criou o tal Adão, né? E pelo que parece a mulher não estava nem nos propósitos da Criação, pois ela só apareceu depois. Deve ter sido porque o coitado do Adão ficou lá no jardim olhando os cavalos... os pássaros... os elefantes... todos se divertindo, tendo seus prazerezinhos, não é? E ficou encafifado, pensando: “Bom, o que será que tem parecido comigo por aqui?”. E Deus colocou a mulher lá pra ele. E daí nasce o Caim e o Abel. Mas me diga... se só havia esta gente por lá, como é — ou melhor, de onde é — que saíram todas as outras pessoas? Só se Caim teve relação com a mãe, né? Explica aí, vai! O que que aconteceu?

Meu tom de falar, meu semblante, meu olhar, tudo expressava um ar de descaso agressivo e debochado.

— Bom... — Começou ele, enrolando os dedos no guardanapo, pressentindo no ar um clima pouco amistoso. — A Bíblia não é muito clara a este respeito, mas parece que eles tinham uma irmã...

Eu nem esperei ele terminar a frase. Ribombei logo:

Irmã!!? — Até para mim aquela era nova! — Mas então houve relação entre irmãos?! Tudo bem, eu entendo que o negócio devia estar feio mesmo se não havia ninguém para o Caim e o Abel darem umas bimbadinhas! Se Deus “gene­rosamente” não lhes deu ninguém... como é que ficavam os pobres coitados? Ou será que Deus criou uma mulher do nada para eles também? Que Deus maluco! Fala mais tarde que incesto é pecado, mas toda a Humanidade principiou como sendo fruto de um tremendo pecado de incesto??? Só podia dar no que deu, né? Sodoma, Gomorra, perdição... só vindo o dilúvio para acabar tudo de vez. — Eu nem esperava resposta. Emendava logo uma idéia na outra. — Então, o pecado só pode ser relativo mesmo! A mesma coisa numa hora é pecado, na outra não é. Não é assim? Para formar a Humanidade valia incesto, mas depois não valia mais. Legal isso aí! Até o coitado do Canaã levou na cabeça com esta do pai dele dar umas e outras em família, né? Gozado é que quem pecou foi o pai... mas quem leva a maldição é o filho. Tudo a ver!

Ele parecia um tanto confuso. Eu continuei, pois acho que ele nem pescou o lance de Canaã! Nem sabia do que eu estava falando.

— Quer ver mais uma? Uma mais fácil, tá? De lambuja! Canaã é muito difí­cil! Em uma época é pecado ter mais de uma mulher, em outra não é! Salomão tinha setecentas mulheres e trezentas concubinas. Depois, no Novo Testamento, faz-se menção ao homem ser “marido de uma só mulher”. Mas este que teve mil mulheres foi “somente” o rei de Israel e o homem mais sábio do mundo?!!!? Este Deus aí da Bíblia é completamente louco.

Aquilo foi demais para ele e para os presentes.

— Não, senhor!! — Exclamou o Sérgio um tanto ou quanto exaltado ao ver tão ostensivamente ofendidos os seus preceitos. — Deus é o mesmo ontem, hoje e sempre!

— Ah, pois é mesmo? — Respondi com pouco caso. — Então me prova isto, me prova com base nesta Bíblia mais confusa que o próprio Deus. Quer ver mais um exemplo das loucuras de Deus, só pra você se conformar? Os profetas de Deus... aqueles que deveriam pregar ao povo de Israel e ser exemplos vivos do próprio Deus... por exemplo, Eliseu. Pediu a “porção dobrada” da unção de Elias. Nem bem recebeu, o que ele faz com sua “porção dobrada”? Causa a morte de quarenta e dois meninos, amaldiçoando-os em nome de Deus. Foram mortos por duas ursas... consegue imaginar a cena? A Bíblia diz que eles foram despedaça­dos!. Sabe como é que é, né? Vísceras pulando para todos os lados, cabeças ro­lando...! E tudo isso porque, brincando, chamaram o profeta de “carequinha”.

Despejei mais alguns argumentos tirados das minhas aulas e vomitei todo o meu desprezo diante deles. Tamara limitava-se a alternar o olhar entre mim e o Sérgio, muda diante da discussão que ameaçava pegar fogo. A expressão do ros­to do Pastorzinho merecia uma foto!

Prova! — Retruquei novamente. — Porque eu não estou vendo lógica ne­nhuma nisso tudo! Ontem Deus pensava de um jeito, hoje de outro, e amanhã... vá saber o que passa na cabeça Dele! — Havia desdém e sarcasmo nas minhas pala­vras. — Hoje, a Igreja se esfola para viver debaixo dos preceitos que considera ser revelação da “vontade” de Deus. Mas vá saber o que Ele vai inventar amanhã para seus “adoráveis filhinhos”! Quer mais um exemplo? Antes Deus mandava o seu Povo escolhido destruir todos os povos diferentes. Morriam mulheres, crianças, ao fio da espada, uma chacina em nome de Deus... hoje, nada de matar ninguém: é pecado! Não parece mudança demais? E, amanhã como é que fica? Será que o que você crê hoje... não vai virar “pecado” amanhã?

Não sei o que houve, se deu um branco na cabeça dele ou se a expressão do meu rosto simplesmente o fez querer deixar por menos. Mas, o fato é que ficou evidente que ele estava enrolado e confuso. Não precisava mais nada. Aquelas idéias acerca da relatividade do pecado e a mutabilidade do Criador, ainda que apenas esboçadas, fizeram com que ele se atrapalhasse todo!

Mérito de meu treinamento. Estava satisfeito! Tinha lavado a alma. Acaba­do com ele em poucos minutos, na frente de todos. Ele e o seu Cristianismo de fachada.

— Bom... — O Pastorzinho ainda tentou esboçar uma reação. O guardanapo jazia todo amarfanhado sobre a mesa. — Você até tem razão no que colocou mas certamente há uma explicação para isso, pois Deus de fato é o mesmo. Sempre. Ontem, hoje e sempre. Deus é fiel e sua Palavra...

Ele não desistia. Ataquei por outro ponto:

— Ah, Deus é fiel?!! — Dei risada. — Me mostra a fidelidade Dele! O que aconteceu com os discípulos de Jesus, os que deram sangue, suor e lágrimas pela divulgação do Evangelho? — Eu quase gritei ao responder, a raiva transparecendo em meu semblante. — Morreram todos de forma horrível! Pedro foi crucificado de ponta cabeça, vários foram decapitados, Estevão foi apedrejado, centenas... crucificados... queimados... devorados por leões... torturados! Aqueles de quem Deus se orgulhava. Aqueles a quem foi prometida “tão grande salva­ção”, os escolhidos a quem “nada poderia causar dano”. Cujas casas estariam “livres de pragas”. A quem se diz, conforme o salmo 91: “Mil cairão ao teu lado, dez mil à tua direita, mas tu não serás atingido...”. Mas simplesmente foram entregues nas mãos do inimigo.

Houve um momento de silêncio. Concluí:

— Bela fidelidade!... Esta aí eu dispenso! Se você crê na Bíblia, crê que ela é cem por cento Verdade, como explica isto? Ela está negando a Si mesma! Você vai ver em sua própria vida no que esta fidelidade vai dar...

Penso hoje que alguém mais compromissado com Deus teria uma boa res­posta para me dar. Eu não era ainda um “expert” em argumentação. Podia ser convincente com alguém menos informado. Mas pelo visto ele estava meio fraquinho em conhecimento de contextos bíblicos.

— Bem... eu nunca tinha pensado nisso que você disse... — Resmungou ele meio atordoado.

Fui implacável:

— Nunca tinha pensado? Mas então você acredita em algo que nem entende? Não sabe dar boas razões para justificar a sua fé? As pessoas falam e você sim­plesmente acredita? Quem te garante que a Bíblia não foi manipulada pelos ho­mens e não passa de uma fajutice?

Foi um vexame total. Ele foi levantando da mesa, resmungando baixo: —Bom...

— Pode ser que a Bíblia tenha sido adulterada! — Continuei. — A Igreja Cató­lica, com todo o seu poderio, mexeu em tanta coisa e mudou tanta coisa. E as pessoas que se dizem donas-da-verdade e que acreditam na Bíblia como sendo um Absoluto cometeram atrocidades. E tudo em nome de um Deus de Amor. E cometeram atrocidades devido às diferentes interpretações do mesmo assunto, do mesmo texto, não?! Porque se Deus é um só, e não muda, você há de concor­dar que a Verdade deveria ser uma só! Como você explica toda esta divergência de interpretações? E — mais ainda — a infinidade de seitas derivadas da Bíblia? Todas crendo terem a interpretação certa! Jesus veio e disse “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida”. Se Ele é o único Caminho, a Verdade também deveria ser uma só. Como então existe este monte de lixo Cristão, um querendo ser mais do que o outro, brigando entre si, discutindo? Cadê o Absoluto? Tudo é relativo! A bondade de Deus é relativa, a Verdade de Deus é relativa... o pecado é relativo! Tudo vai da interpretação!

Ele passou a mão sobre os cabelos e procurou interromper a discussão:

— Bom, talvez fosse mais interessante você marcar um horário com o Pastor Sines. Ele poderá esclarecer todas as suas dúvidas. Ele está acima de mim, co­nhece bastante.

Nem sei que fim deu na Tamara depois disso. Eu só tinha olhos para o Pastorzinho baratinado.

Camila cochichou-me depois, meio que me recriminando:

— Mas, pôxa vida! Você não consegue mesmo fechar esta matraca?

Eu não respondi, mas pensei comigo: “Eles não têm como refutar isto!” E o episódio terminou assim, com todo mundo “deixando passar”. Nunca havia uma contestação mais direta. Nunca houve. Aliás era assim em todos os aspectos, não só no âmbito espiritual. O problema maior deles é que não havia realmente como me criticar. Ninguém tinha moral para me falar nada. Ninguém tinha essa autoridade.

O pai dela às vezes me perguntava sutilmente pelo casamento.

— E aí? Vocês vão ou não vão casar?

— Casar? Com dezoito anos?!

— Tudo bem, é meio cedo mesmo, mas também não vejo vocês fazendo pla­nos para o futuro! Mais de dois anos namorando, a Camila já está com vinte...

— E daí? Casar pra quê? Eu caso quando tiver condições, não vou ficar as­sim que nem você!

Ele tinha que ficar quieto. Seu Augusto sabia muito bem que vivia de favor, estava sempre endividado e não supria as necessidades da família. Uma vez a mãe de Camila teve que mandar arrancar um dente porque não tinha dinheiro para o tratamento. E eu, embora não casado com Camila, era capaz de suprir todas as necessidades dela, em todos os sentidos.

— Vou casar quando puder sustentar a minha casa e minha família numa boa, não vou ficar morando de favor por aí, dependendo dos outros. Isso é bíblico, não é mesmo? “Deixará o homem a seu pai e sua mãe...” e blá, blá, blá, não é assim?!! Né?

E por aí afora.

Sempre que procuravam me dar uma lição de moral eu acabava revidando insolentemente com as armas que eles próprios queriam usar contra mim. Não adiantava vir com “ar caxias” recitando versículos que nem eles cumpriam. Ti­nham mais é que calar a boca e deixar-me em paz! Antigamente eu escutava, por educação. Mas agora até a educação nesse sentido eu havia deixado de lado.

— Vai ser muito fácil desviar a Camila. Ela não tem compromisso nenhum, a base bíblica dela é super frágil. — Normalmente eu derrubava suas argumenta­ções bíblicas com duas ou três rebatidas, nas coisas mais elementares. Ela não tinha firmeza da sua crença e eu, pelo meu lado, estava absolutamente convicto de estar no caminho certo.

A doutrina da Irmandade era muito superior à do Cristianismo.

— Gostaria que Camila pudesse encontrar o mesmo que eu encontrei. Não deixa de ser uma maneira de retribuir o que ela já fez por mim e que, eu sabia, tinha sido de coração. Coitada... o que vai ser dela? — E acabava me condoendo. — Tão dependente de mim, tão limitada... e ainda por cima... Cristã! Acredita nesse besteirol que falam nas Igrejas!

E tudo que ela me dizia sobre a Igreja eu contestava.

— Mas você é cabeça-dura, Eduardo! Você não entende!!! — Ela brigava co­migo. — Está escrito!

— E daí que está escrito? Prova que é assim. Me convença de uma maneira um pouco mais inteligente do que dizer “está escrito”!

Cá comigo eu achava que não seria difícil influenciá-la. Camila não tinha vida de oração, não lia a Bíblia e ia uma vez por semana à Igreja se tivesse carona. Não queria mais saber de ir de ônibus.

— Eu vou convencê-la! E vou trazê-la para a Irmandade! Eu só gostaria que ela fosse bem cuidada. — Refletia. — Na Igreja as pessoas não são cuidadas. Na Irmandade, sim, somos família de fato, sem este cheiro de hipocrisia...

Eu era muito ingênuo para ter idéias tão loucas a respeito de Camila na Ir­mandade! Ela nunca seria aceita pelo Satanismo. Jamais entraria lá. Camila era fraca. Dependente. Sem iniciativa. Sem garra. Nunca saberia pensar daquela ma­neira.

E a Irmandade era a cúpula... o resultado de uma seleção natural... o lugar dos fortes. E ser forte significava muita coisa. Uma delas era poder sobrepujar — sem olhar para trás — a maior parte dos valores impostos pela Sociedade.

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