Filosofia 10ºAno 2Determinismo e Liberdade na ação humana



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Filosofia 10ºAno

1.2Determinismo e Liberdade na ação humana

O que é o Determinismo?



  • O
    Explicação: Quando um vulcão entra em erupção, dá-se um acontecimento que não poderia deixar de ocorrer sem violar as leis da Natureza e sem ter origem nos acontecimentos que o antecederam (causas).

    Determinismo é a tese de que todos os acontecimentos estão causalmente determinados pelos acontecimentos anteriores e pelas leis da Natureza;

Estas afirmações são feitas pela ciência (a ciência afirma que todos os acontecimentos do universo estão determinados). Se as aplicarmos às ações obtemos o seguinte acontecimento:

Todos os acontecimentos estão determinados.
As ações são acontecimentos.

Logo as ações estão determinadas.

Este argumento levanta perplexidades porque afirmar que as nossas ações estão determinadas parece tornar a liberdade impossível. Significa isso que a impressão de que somos livres é ilusória?

P


Como compatibilizar a crença de que todos os acontecimentos, incluindo as ações, são causalmente determinados, segundo as leis da natureza, com a crença de que o Homem é livre e responsável pelas ações?
roblema do Livre-Arbítrio

Este problema levanta algumas questões:



  • Poderemos ser realmente livres num universo determinista?

  • Ou será que temos de aceitar que a liberdade é uma ilusão porque tudo está determinado?

  • E se o Universo não estiver inteiramente determinado?

O problema do livre-arbítrio consiste em tentar compatibilizar o determinismo que encontramos na Natureza com a perspetiva de senso comum que temos de nós mesmos.

O livre-arbítrio é a capacidade para decidir (arbitrar) em liberdade.

  • Um conjunto de estados de coisas é incompatível quando os estados de coisas do conjunto não podem ocorrer simultaneamente.



  • Um conjunto de estados de coisas é compatível quando todos os estados de coisas do conjunto podem ocorrer simultaneamente.

Quando dois estados de coisas são incompatíveis as proposições que os descrevem são inconsistentes , e vice-versa. Quando são compatíveis, as proposições que os descrevem são consistentes, e vice-versa.

As teorias que respondem ao problema do livre-arbítrio dividem-se em dois grupos:

Teorias incompatibilistas e teorias compatibilistas.


  • As teorias incompatibilistas defendem que o livre-arbítrio não é compatível com o determinismo.

  • As teorias compatibilistas defendem que o livre-arbítrio é compatível com o determinismo.

Há dois tipos de teorias incompatibilistas: O determinismo radical e o libertismo.

Determinismo Radical – Defende que não temos livre-arbítrio e que o universo é determinista.

Libertismo – Defende que temos livre-arbítrio e que só o universo físico é determinista: a vontade e a consciência não são determinadas pelas cadeias causais do universo físico.


Teorias

Há livre-arbítrio?

Tudo está determinado?

Incompatibilismo

Determinismo Radical

Não

Sim

Libertismo


Sim

Não

Compatibilismo (determinismo moderado)


Sim

Sim

Determinismo Radical

Não temos livre-arbítrio e todos os acontecimentos estão determinados. O livre-arbítrio é incompatível com um mundo regido por leis. A liberdade é uma ilusão.

O que distingue o determinismo radical do libertismo? Ao passo que o determinismo defende que há livre-arbítrio, o determinista radical defende que não há livre arbítrio.

O Determinismo Radical é a teoria segundo a qual não temos livre-arbítrio e todos os acontecimentos estão determinados.

Argumentos dos deterministas radicais:

Premissa 1: Se o determinismo é verdadeiro, não há livre-arbítrio.

Premissa 2: O determinismo é verdadeiro.

Conclusão: Logo, não há livre-arbítrio.

Defesa da premissa 1: O determinista argumenta que ter livre arbítrio implica poder agir de maneira diferente, partindo exatamente da mesma situação.(Exemplo: A Ana decidiu dar um chuto numa bola.) Há um conjunto de cadeias causais que conduzem a essa decisão. O determinista argumenta que o livre-arbítrio implica a possibilidade de a Ana decidir ou não dar um chuto na bola, apesar de o conjunto de cadeias causais ser exatamente o mesmo. Mas isso é precisamente a negação do determinismo; o determinismo é a ideia que, dada uma certa cadeia causal, o seu efeito não pode ser diferente do que é. Logo, se o determinismo é verdadeiro, não há livre-arbítrio.

Defesa da premissa 2: O determinista argumenta que sem o pressuposto do determinismo não é possível compreender o mundo. A biologia, a física e a química, por exemplo, são disciplinas centrais sem as quais é impossível compreender adequadamente o mundo. Mas em todas estas disciplinas se pressupõe o determinismo: dadas as mesmas causas, seguem-se os mesmos efeitos. Até no dia a dia nós pressupomos o determinismo: quando damos um chuto numa bola não nos surpreende que a bola se desloque; quando riscamos um fósforo não nos surpreende que acenda. Em todos estes casos, estamos a pressupor que, perante causas idênticas seguem-se efeitos idênticos. Quando riscamos um fósforo e este não acende, procuramos imediatamente a causa adicional que explica esta situação: talvez o fósforo esteja molhado, por exemplo.

Assim, o determinista está obrigado a defender que o livre-arbítrio é uma ilusão. Mas por que razão temos essa ilusão?

Estar causalmente determinado não é como ser obrigado a fazer uma coisa que não se quer nem se decidiu. Estar causalmente determinado é não poder decidir nem poder querer outra coisa além do que efetivamente decidimos e queremos. Por isso, parece-nos que somos livres, desde que ninguém nos impeça de fazer o que decidimos e queremos. (A água poderia dizer a si mesma que tem a liberdade de “fazer” várias coisas – e pode, desde que estejam reunidas as causas apropriadas). O mesmo acontece com os seres humanos: temos a falsa sensação de que somos livres, porque escolhemos fazer uma coisa em vez de outra, desconhecendo as causas que determinam as nossas ações. Mas escolhemos o que escolhemos em função das cadeias causais que antecedem o momento da decisão. Sentimos que agimos livremente quando agimos em função do que escolhemos. Mas o que escolhemos resulta de cadeias causais que não podemos controlar. Logo, o livre arbítrio é apenas uma ilusão.

Duas críticas ao Determinismo Radical:


  • Se o determinismo radical tiver razão, não temos livre-arbítrio.

  • Se não tivermos livre-arbítrio, não poderemos ser moralmente responsáveis.

  • Se não formos moralmente responsáveis, não podemos ser castigados.

  • É absurdo defender que não podemos ser castigados.

  • Logo, o determinismo radical é falso.

As críticas defendem que o determinismo e falso porque a responsabilidade moral não pode existir sem a liberdade e, por isso, não podemos ser castigados, o que é absurdo.

A objeção da responsabilidade moral


  • A experiência de que somos livres é muito forte;

  • Esta crença faz parte do próprio processo de agir;

  • Quando agimos não podemos deixar de sentir que somos livres;

Uma pessoa só é moralmente responsável pelas suas ações se estas estão sobre o controlo do seu livre-arbítrio.

Parece haver uma conexão entre a responsabilidade moral e a nossa liberdade. Aparentemente, se não formos livres, não podemos ser moralmente responsáveis pelo que fazemos. E se não formos responsáveis pelo que fazemos, os tribunais e prisões não fazem sentido.

Libertismo

Temos livre-arbítrio e nem todos os acontecimentos estão determinados. As nossas ações não são causalmente determinadas, resultam das nossas deliberações.

O Libertismo é a teoria segundo a qual temos livre-arbítrio e nem todos os acontecimentos estão determinados.

Argumentos dos libertistas:

Premissa 1: Se temos livre-arbítrio, o determinismo é falso.

Premissa 2: Temos livre-arbítrio.

Conclusão: Logo, o determinismo é falso.
O argumento é válido, mas será sólido?

Defesa da premissa 1: O libertista defende que ter livre-arbítrio é não estar determinado a escolher de uma certa maneira. Por exemplo, ter livre-arbítrio é estar perante uma encruzilhada e poder escolher ir por um caminho ou por outro, sendo as causas anteriores exatamente iguais. Mas o determinismo é a ideia de que, dada uma certa cadeia causal até ao momento presente, a minha decisão está determinada. Posso ter uma sensação de que estou a escolher, mas não é realmente uma escolha. Logo, o livre-arbítrio implica a falsidade do determinismo. (Não estamos determinados a escolher de uma certa maneira. Escolhemos praticar uma ação mas podíamos ter escolhido e agido de forma diferente, por isso o determinismo é falso.)


Defesa da premissa 2: O libertista argumenta que não podemos evitar vermo-nos como seres dotados de livre-arbítrio. No próprio ato de tomar uma decisão, exercemos o livre-arbítrio.

Não é possível aceitar realmente que as nossas decisões estão todas determinadas por acontecimentos anteriores. (Não e possível aceitar que as nossas decisões estão todass determinadas por acontecimentos anteriores. Se decidimos é porque temos livre-arbítrio. O determinismo radical diz o contrário, logo é falso.)




  • O libertista defende que as nossas escolher e ações só são verdadeiramente livres se pudéssemos ter escolhido ou agido de modo diferente.




De acordo com os libertistas uma escolha ou ação só é verdadeiramente livre se desencadear uma nova cadeia causal de acontecimentos. Ora, se o mundo for determinista, a escolha da Diana escolher o caminho 1 em vez do 2 ou do 3 não desencadearia uma nova cadeia causal, seria apenas mais um elo de uma longa cadeia causal de acontecimentos. E nesse caso, a escolha da Diana não resultaria das suas deliberações, não estaria sob o seu controlo, pois seria o resultado de acontecimentos anteriores ao seu nascimento.

Críticas ao Libertismo:



  • O determinismo diz que as deliberações do agente, tal como as suas crenças e desejos são determinadas por acontecimentos anteriores. Mas o libertista não pode aceitar isso, pois defende que o livre-arbítrio é incompatível com o determinismo.



  • O problema dos libertistas é, então, explicar como é que um ato é realmente livre sem ser determinado por acontecimentos anteriores mas que também não é “aleatório”, quer dizer, ao acaso.

Posição Compatibilista (Determinismo Moderado)

  • O determinismo pode coexistir com o livre-arbítrio. Quer o livre-arbítrio, quer o determinismo são verdadeiros. O mundo é regido por relações causais, mas mesmo assim somos livres quando fazemos o que queremos fazer.



  • O compatibilista defende que somos livres quando o que escolhemos e o modo como agimos resulta causalmente do que queremos, e o que queremos não resulta de qualquer coação, doença ou controlo artificial.

Compatibilismo

O compatibilismo é a tese de que o determinismo pode coexistir com o livre-arbítrio.



  • Nem todas as causas são impedimentos à liberdade. É um erro pensar que as ações não são livres simplesmente porque são causadas. As causas que nos levam a fazer o que queremos potenciam a nossa liberdade, enquanto que outras (constrangimentos, por exemplo) impedem a nossa liberdade.



  • A
    O compatibilismo defende que desde que não sejamos obrigados ou forçados a escolher algo, e desde que a nossa personalidade seja formada de maneira natural, a nossa escolha é livre.
    s nossas ações livres são causadas pela nossa personalidade, inclinações e desejos ainda que estes estejam determinados por acontecimentos anteriores. Se as ações não fossem causadas pelo nosso caráter e pelos nossos motivos, não poderíamos ser responsabilizados pelas nossas ações. Não seriam as “nossas” ações.

Críticas ao compatibilismo:

  • Os compatibilistas argumentam que somos livres se agirmos sem constrangimentos ou obstáculos, internos ou externos, que nos impeçam de fazer o que desejamos. Mas, se aquilo que desejamos fazer se encontra determinado por acontecimentos anteriores (determinismo) então as nossas ações estão constrangidas por acontecimentos anteriores.

  • Não temos é consciência de que estamos a ser constrangidos.



  • O compatibilismo não explica porque é que ser constrangido por acontecimentos anteriores é um ato livre e ser constrangido por alguém já não é um ato livre.

Como vimos, não há, sobre o problema do livre-arbítrio uma teoria consensual. Há filósofos que acham que nenhuma destas teorias é plausível. É o caso dos filósofos Searle e Nagel que consideram que não há boas razões para negar o determinismo que encontramos na Natureza pois sem ele as ciências da natureza seriam impossíveis. Por outro lado, não podemos negar o livre-arbítrio, como faz o Determinismo Radical porque a experiência da liberdade faz parte da experiência de agir.



  • O compatibilismo não implica de forma plausível a diferença entre ser constrangido e ser causado a agir de determinada maneira.

Conceitos:

Determinismo: Tese de que todos os acontecimentos estão causalmente determinados pelos acontecimentos anteriores e pelas leis da natureza.

Livre-arbítrio: Capacidade para decidir (arbitrar) em liberdade.

Fatalismo: Tese de que alguns acontecimentos são inevitáveis, independentemente do que possamos decidir ou fazer.

Compatibilismo: No debate sobre o livre-arbítrio, as teorias que defendem que o determinismo e o livre-arbítrio podem coexistir.

Incompatibilismo: No debate sobre o livre-arbítrio, as teorias que defendem que o determinismo e o livre-arbítrio não podem coexistir. O libertismo e o determinismo radical são duas dessas teorias.

Libertismo: No debate sobre o livre-arbítrio, as teorias que defendem que não há determinismo porque temos livre-arbítrio.

Determinismo Radical: No debate sobre o livre-arbítrio, as teorias que defendem que não temos livre-arbítrio, porque tudo está determinado.

Contradição performativa: Quando se afirma algo que é negado pelo ato de afirmar. Por exemplo, alguém que diga “Não estou a falar”.

Má-fé: Na filosofia de Sarte, o ato de autoengano, que consiste em fingir, para nós próprios, que não somos livres.



2.1 Valores e valoração: a questão dos critérios valorativos

Juízos de Valor e Juízos de Facto





Juízos de Facto

Juízos de Valor

Exemplos

  • O João é boa pessoa;

  • A pena de morte é injusta;

Características

  • São descritivos;

  • Têm valor de verdade (V ou F);

  • A sua verdade ou falsidade depende da prespectiva do sujeito;

  • A direção de adequação é de realidade para o juízo;

  • A sua verdade ou falsidade é objetiva;



  • São normativos;

  • Não é certo que tenham valor de verdade;

Se tiverem valor de verdade pode ser que este dependa da prespetiva do sujeito

  • A direção de adequação é do juízo para a realidade;

Juízos de facto: Quando pretendemos descrever alguma coisa.

Juízos de valor: Quando avaliamos positiva ou negativamente alguma coisa.

Extra: Os juízos de valor não se limitam a fornecer informação sobre as coisas. Não são meramente descritivos, pois expressam uma avaliação de certos aspetos da realidade. Muitas vezes a sua função é influenciar o comportamento dos outros e mostrar-lhes como devem olhar para a realidade. Por isso, pelo menos em parte, são normativos.


Quando alguém nos diz que o João é boa pessoa sugere que devemos olhar para o João de determinada maneira, que devemos confiar nele. O que se deseja neste tipo de juízos é que a realidade se adeque ao juízo: a direção de adequação é do juízo para a realidade.

É comum pensar que na ciência só encontramos juízos de facto e nos domínios da ética e da política os juízos de valor ocupam um lugar preeminente. O que fazemos ao certo quando fazemos um juízo de valor? Apresentamos apenas as nossas emoções ou afirmamos algo que é objetivamente verdadeiro ou falso? Esta é a questão dos critérios valorativos. Avaliamos as pessoas e as coisas segundo determinados critérios baseados em valores, como a justiça. Será que essas avaliações podem ser objetivamente corretas?

Concentremo-nos em juízos de valor de caráter moral, como “ Matar pessoas inocentes é errado” ou “ A pena de morte é injusta”. Para compreender a sua natureza, temos de responder a estas perguntas/problemas:


  • Os juízos morais têm valor de verdade?

  • Se têm valor de verdade, são verdadeiros ou falsos independentemente da perspetiva de quaisquer sujeitos?

Quem responde afirmativamente a ambas as perguntas está a dizer que, afinal, não há uma diferença muito grande entre os juízos de facto e os juízos de valor. Está a afirmar que os segundos, como os primeiros, são verdadeiros e falsos de uma forma completamente objetiva. Podemos afirmar que quem pensa assim tem uma perspetiva objetivista dos valores éticos (ou dos valores em geral). Quem aceita esta perspetiva pensa que, se dissermos que a pena de morte é injusta, estamos a fazer uma afirmação verdadeira ou falsa independentemente do que as pessoas pensam sobre a pena de morte. Mas há várias teorias que não respondem afirmativamente a ambas as perguntas. Analisaremos uma perspetiva segundo a qual não existem factos morais que ultrapassem o âmbito dos gostos e preferências pessoais. A perspetiva que analisaremos é o subjetivismo moral.

Valores teoréticos – relativos ao conhecimento

Valores vitais – relativos à saúde

Subjetivismo Moral – (Teoria segundo a qual a ética é subjetiva. Para o subjetivista os fator morais dizem apenas respeito aos sentimentos de aprovação ou reprovação de cada um, e os juízos morais não fazem mais que descrever esses sentimentos pessoais.)

É a teoria segundo a qual, embora existam factos morais, estes não são objetivos. As afirmações acerca do bem e do mal, do que é certo e errado, embora exprimam preposições genuínas, são subjetivas: são verdadeiras ou falsas, mas não o são independentemente dos sujeitos que as fazem. Segundo este perspetiva, na ética só há opiniões pessoais e não verdades universais; cada um tem “a sua verdade”. Para os subjetivistas, os juízos morais descrevem apenas os nossos sentimentos de aprovação ou reprovação acerca das pessoas e daquilo que elas fazem. O certo e o errado dependem, portanto, dos sentimentos de cada um. Assim, quando afirmamos que uma ação é errada estamos apenas a dizer que temos sentimentos negativos em relação a ela. Resumindo, o subjetivista pensa o seguinte:


  • Os juízos morais têm valor de verdade, mas o seu valor de verdade depende da perspetiva do sujeito que faz o juízo.

  • Há factos morais, mas estes são subjetivos, pois só dizem respeito aos sentimentos de aprovação ou reprovação das pessoas.

  • “X é bom” ou “X é moralmente correto” significa “Eu aprovo X”; “X é mau” ou “X é moralmente errado” significa “Eu reprovo X”.

Há duas razões que podem levar-nos a aceitar o subjetivismo moral:

  • O subjetivismo moral torna possível a liberdade. O subjetivista pode alegar que, se as distinções entre o certo e o errado forem fruto dos sentimentos de cada pessoal, então serão imposições exteriores que limitam as possibilidades da ação de cada indivíduo. Pressupõe, portanto, que agimos livremente apenas quando damos voz aos nossos sentimentos e agimos de acordo com eles.



  • O subjetivismo promove a tolerância entre pessoas com convicções morais diferentes. Quando percebemos simultaneamente que as distinções entre o certo e o errado dependem dos sentimentos de cada pessoa, e que os sentimentos de uma não são melhores nem piores que os de outra, tornamo-nos mais tolerantes, mais capazes de aceitar como legítimas as opiniões e as ações que vão contra as nossas preferências.

Críticas ao subjetivismo:

  1. O subjetivismo permite que qualquer juízo moral seja verdadeiro.

Se uma pessoa pensa que devemos torturar inocentes, então para essa pessoa é verdade que devemos torturar inocentes. Se uma pessoa pensa que é errado ajudar os outros, então para essa pessoa é verdade que é errado ajudar os outros. Assim, o subjetivismo parece fazer da ética um domínio completamente arbitrário. À luz desta teoria, nenhum ponto de vista por muito monstruoso ou absurdo que seja, pode ser considerado realmente errado ou pelo menos pior do que pontos de vista alternativos.

Imaginemos que alguém nos diz que maltratar pessoas de raças diferentes da nossa é correto porque somos superiores. Discordamos e afirmamos que isso não é correto. Se aceitarmos o subjetivismo moral, teremos de aceitar que a nossa opinião não é melhor nem pior do que a da outra pessoa. Isto porque na ética não há verdades nem falsidades independentes daquilo que as pessoas pensam. Só há opiniões diferentes. Mas será que estamos dispostos a aceitar isto? Imaginemos que uma pessoa acredita poder sacrificar outra pessoa apesar de estar ser uma pessoa saudável e normal, para salvar o seu filho, que precisa de um transplante de coração. Será que neste caso também estamos dispostos a pensar que é tudo uma questão de opinião, ou, pelo contrário, acreditamos que ela realmente não pode fazer isso? Quem pensa que ela realmente não pode matar para salvar o seu filho tem de rejeitar o subjetivismo. Isto porque está a supor que existem falsidades e verdades no domínio dos juízos morais que não dependem dos sentimentos de aprovação ou reprovação de quem faz o juízo.



  1. O subjetivismo compromete-nos com uma educação moral que consiste apenas em ensinar que devemos agir de acordo com os nossos sentimentos.

Se educarmos as crianças de acordo com a perspetiva subjetivista, teremos de ensinar-lhes apenas a seguir os seus sentimentos, a orientar-se em função daquilo de que gostam. Teremos de lhes dizer que qualquer comportamento que venham a ter é aceitável bastando para isso que estejam de acordo com os seus sentimentos. Se uma criança tiver um sentimento profundamente negativo em relação à escola, provavelmente pensará que não há mal algum em faltar às aulas. E o subjetivista terá de aceitar que, para ela, é verdade que não há mal algum em faltar às aulas.

  1. O subjetivismo tira todo o sentido ao debate racional sobre questões morais.

Para o subjetivista, as noções do certo e errado, bem e mal, são criações dos indivíduos que resultam apenas das suas preferências, desejos ou sentimentos. Assim, um subjetivista terá de acreditar que qualquer tentativa de debater racionalmente uma questão moral é perfeitamente inútil, uma vez que não há qualquer verdade independente dos sentimentos de cada indivíduo que possa ser demonstrada através do debate. Cada indivíduo limitar-se-á a defender as posições que estiverem de acordo com os seus sentimentos. Se o Miguel seguir princípios racistas, de nada servirá tentar mostrar-lhe que está errado, até porque, de acordo com o subjetivismo, nunca é possível que estejamos enganados em questões morais. Se o Miguel disser que devemos tratar os brancos como inferiores, sentindo intensamente que isso está certo, então a afirmação “Devemos tratar os brancos como inferiores” está realmente correta para ele, é “verdadeira para ele”. O Miguel não está nem mais nem menos enganado que alguém que pense o contrário. E, se o Miguel tem razão do seu ponto de vista, então ficamos sem motivos para tentar mudar a sua opinião – não temos motivos para argumentar racionalmente quando se trata de resolver questões morais. O subjetivismo torna absurdo qualquer esforço racional para encontrar os melhores princípios éticos e para os justificar perante os outros.

  1. O subjetivismo não consegue explicar a existência de desacordos morais.

Imaginemos que o João e a Maria estão a discutir o problema de saber se o aborto é moralmente aceitável. O João afirma: “O aborto é profundamente errado”. E a Maria responde: “O aborto não tem nada de errado”. Estamos perante duas afirmações inconsistentes, pois não podem sem ambas verdadeiras. Entre o João e a Maria existe um claro desacordo acerca da permissividade do aborto. Só que, para o subjetivista, cada um dos seus juízos significa, respetivamente o seguinte:

- O João reprova o aborto.

- A Maria não reprova o aborto.

Ora, estas duas afirmações não são inconsistentes. Por isso, parece que não traduzem corretamente as afirmações iniciais do João e da Maria, que são inconsistentes. Aceitando a tradução, teríamos de dizer que não existe qualquer desacordo entre eles. Afinal, o João e a Maria estão de acordo quando ao facto de o João reprovar o aborto e quando ao facto de a Maria não o reprovar. Mas não estão de acordo quando à permissividade do aborto. Deste modo, quando o João diz: “O aborto é profundamente errado” isso não significa “O João reprova o aborto”, pois nesse caso a sua afirmação não seria inconsistente com a da Maria.

Admitindo que existem desacordos morais, parece assim que o subjetivismo é falso, ou seja, afinal não podemos entender os juízos morais como proposições sobre os sentimentos de aprovação ou reprovação de cada indivíduo.

2.2 Valores e cultura: a diversidade e o diálogo de culturas

Relativismo Cultural: Teoria segundo a qual todos os factos morais são relativos a sociedades particulares. Assim, os factos morais resultam daquilo que uma dada sociedade aprova ou reprova, que pode não ser aquilo que outra sociedade aprova ou reprova. Quando uma sociedade aprova uma prática (como o infanticídio, por exemplo) e outra a reprova, não se pode dizer que uma delas tenha razão e outra não.

Interpreta os juízos morais em termos de aprovação social. Segundo este perspetiva a correção dos juízos e das normas morais é sempre relativa a uma dada sociedade e à cultura que nela existe. Para o relativista cultural o certo e o errado variam de sociedade para sociedade. Nada há que esteja certo ou errado independentemente das sociedades particulares, com culturas diferentes, em que as pessoas vivem. Sociedades com culturas diferentes têm uma moralidade diferente e nenhuma está mais certa ou errada do que as outras.

Afirmações como “Matar animais por diversão não tem nada de errado” ou “Devemos educar as crianças com frieza e distanciamento” são verdadeiras numa sociedade quando as pessoas dessa sociedade acreditam que são “verdadeiras”, mas falsas quando essas pessoas acreditam que são falsas.

Para o relativista, há factos morais, mas esses factos são instituídos pela própria sociedade, o que é de facto moralmente certo e errado, bom ou mau, nessa sociedade. E como as convicções morais das pessoas variam de sociedade para sociedade, também os factos morais variam de sociedade para sociedade.

Em suma, o relativista cultural defende as seguintes teses:


  • Um juízo moral é verdadeiro numa sociedade quando os seus membros acreditam que é verdadeiro; falso quando acreditam que é falso.

  • Os factos morais são relativos às sociedades, sendo diferentes consoante as diferentes culturas.

  • “X é bom” ou “X é moralmente correto” significa “A sociedade aprova X”; “X é mau” ou “X é moralmente errado” significa “A sociedade reprova X”.

  • Os juízos morais têm valor de verdade, ou seja, verdadeiros ou falsos. Por isso existem factos morais.

  • O certo e o errado, o bem e o mal morais, são convenções estabelecidas dentro de cada sociedade;

Diversidade Cultural

Argumento: Em culturas diferentes as pessoas têm convicções morais diferentes. Logo, as verdades morais são relativas à cultura.

Será que este argumento é válido? Será que, se a premissa for verdadeira, devemos aceitar a conclusão? Para avaliarmos o argumento da diversidade cultural, comparemo-lo a um argumento semelhante:

Pessoas diferentes têm convicções diferentes acerca da existência de extraterrestres.


Logo, as verdades sobre extraterrestres são relativas às pessoas.

Neste argumento é muito claro que a conclusão não se segue da premissa. A premissa +e verdadeira, pois há um desacordo quando à existência de ET’s, mas a conclusão é falsa. Podemos não saber se há ou não Et’s, mas a sua existência não depende das opiniões que as pessoas possam ter sobre este assunto. O valor de verdade da afirmação “Existem ET’s” não é relativo às opiniões de cada um. Portanto, o argumento é inválido.

O mesmo se deve dizer ao argumento da diversidade cultural: Da observação de que existe desacordo cultural em assuntos morais não se pode concluir que as verdades morais são relativas a cada cultura. Mesmo que exista um desacordo cultural profundo em questões morais, é possível que existam verdades absolutas ou objetivas na moralidade.

Por exemplo: se numa sociedade se pensa que o infanticídio é errado, mas noutra sociedade existe uma convicção geral de que o infanticídio é aceitável, não podemos concluir daí que não há uma verdade objetiva a respeito da moralidade do infanticídio. É possível que os membros de uma das sociedades estejam enganados.

O argumento da diversidade cultural é muito falso visto que:


  • A diversidade moral nas questões morais não é assim tão grande: todas as sociedades têm em comum regras contra a mentira e o homicídio.

Logo é um erro sobrestimar as diferenças entre culturas.

O argumento da diversidade cultural parece, pois, muito fraco. Vejamos agora se existem outras formas de defender o relativismo cultural.



Coesão Social e Tolerância

  • O relativismo cultural promove a coesão social. Esta coesão é fundamental para a sobrevivência da sociedade e assim para o nosso bem-estar.

  • O relativismo cultural promove a tolerância entre sociedades diferentes. Leva-nos a não ter uma atitude destrutiva em relação aos outros povos e culturas.





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