Filosofia em portugal II



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FILOSOFIA EM PORTUGAL II

- Trabalho de reflexão pessoal -

Da Solidão como Presença-a-Si
Pensar a solidão é fazer um exercício de procura na interioridade mais pura do homem e esforçar-se por extrair o significado que este estado pode assumir humana e universalmente. Ademais, estamos certos de que assumimos para isso uma atitude reflexiva, racional, sempre árdua quando o objecto de pensamento é o próprio homem na sua dimensão sentimental e existencial profundas. É por isso que propomos apenas ensaiar.

A solidão ergue-se como momento constitutivo de todo o ser. Não existe, cremos, uma solidão exclusivamente humana. Todo o ser é, na sua pureza e origem primordiais, um ser só. A unidade e unicidade de todo e cada ser podem ser entendidas como fenómenos primitivos, pelo menos numa acepção metafísica. Antes de estar inserido na multiplicidade da cadeia dos seres, cada ente - animado ou inanimado- representa por si uma entidade e identidade única e irrepetível. Pensemos, pois, a multiplicidade como derivação da simplicidade do ser em si e por si.

Produto de uma infinidade de seres de existência própria, o Todo é assim perspectivado como conjunto unificador da totalidade de unidades básicas. Cremos numa existência solitária imanente a todo o ente.

Num tempo em que são emergentes o pensar e o sentir de valores como o individualismo, a alienação do homem e refúgio deste em si mesmo, pensamos todavia que este fenómeno social e psicológico não se identifica com a realidade intensa e violenta da solidão.

O verdadeiro sentimento de “estar só” não é atingível necessariamente pela procura de isolamento físico, no afastamento da comunidade ou do mundo da multiplicidade, digamos. Este pode, sim, constituir um degrau da ascese que culminará na pura solidão. Cremos que o momento do atingir da mais genuína solidão assenta essencialmente em instantes involuntários e não intencionais em que, repentinamente, o Eu se encontra em harmonia consigo mesmo.

A solidão originária não é fruto de uma procura voluntária, mas “aparece”: o sujeito depara-se com a sua súbita existência. Se aceitarmos postular um paradigma de solidão, este surgirá em condições ou num cenário peculiares: no seio da multidão, da agitação -exterior e interior-, da dança, da festa, da alegria e estaremos a elevar a solidão ao nível da manifestação de um eu que se encontrava latente e que de súbito se mostra e se revela a si. Mais, é uma sobreposição e confluência perfeitas entre o eu que mascarado observa o espectáculo da realidade e aquele eu que escondido e ausente é convertido agora em presença e actualidade. Aqui imaginamos formar-se uma unidade entre os dois eus: o latente e o manifesto. A condição de “estar só” ergue-se pois de modo súbito e desencadeia um momento de paragem no sujeito. Este apercebe-se de que para além do carnaval a que assiste, existe um eu que por mais relação e envolvimento que mantenha com o mundo exterior, fonte de estranheza, ele pertence a uma esfera subjectiva peculiar- só- e não menos estranha.

A solidão é lucidez. Entendamos esta caracterização não apenas como clareza da razão, nitidez do pensamento, mas como espontâneo acto de consciencialização do Eu. Este tem agora acesso ao facto de ser uma esfera inserida noutra esfera ainda maior- o universo. Não obstante, é solitário. Será que o homem- na sua condição de existente fragmentado pelo tempo e pelo espaço- poderá envolver-se e dissimular-se de forma plena no Universo; camuflar-se na unidade da Natureza da qual é parte?

Há uma dinâmica inerente ao eu que parece impedir que o homem veja, oiça, cheire, sinta- simplesmente. A dualidade fatigante sujeito-objecto parece impor-se por toda a parte onde haja homem. A presença humana é por si só geradora de fragmentação no mundo. Pensar os objectos é já distanciar-se deles. Por conseguinte, o facto de o homem pensar a sua própria solidão, tal como arriscamos fazê-lo agora, é já um distanciamento deste estado ou sentimento originais. Problema eterno e indissociável do veículo linguagem, é certo que a palavra jamais esgotará a plenitude da coisa sentida.

É nossa proposta de reflexão que a solidão funda um momento ínfimo de presença de si a si mesmo. Solidão nunca conseguida na sua nudez primitiva enquanto vivida e experienciada numa existência finita e contingente. A solidão vive eternamente acompanhada: há um Eu que aspira à omnipresença. Todavia, fragmentado em duas formas de existência fundamentais: a manifesta e a oculta; e o desenrolar da cena quase teatral da união desta àquela, consagra-se como momento efémero e transformar-se-à novamente em fragmentação.

A solidão é uma carência de si mesmo. É despertada por uma saudade de ser só, de reencontro com o eu totalizado. É preciso estar só, sentir o vazio e o abandono; mas no homem isso é apenas possível na existência da realidade exterior a nós; que funciona, no limite, como instrumento para alcançar um fim: a unidade do Eu.

A solidão originária não pode dar-se na existência, na con-vivência. Mas podemos erguer um sentido transconceptual, trans-vivencial da solidão. Este reevia-nos para um qualquer momento anterior à própria existência, onde, por hipótese, na ausência de eus fragmentados e distintos do real, per se, sem reflexão ou auto-reflexão, aí se “vive” a total solidão.

O ensaio de uma solidão total é tentativa de despojamento material e espiritual; é libertação. Mas como libertar-me de mim? Somos construtores, afinal, deste Eu e é como se nesta dependência doentia não conseguíssemos já respirar sem o consumo selvagem do Eu. Carecemos dele e desejámo-lo como garante da unidade e integridade de ser.

O Eu, como sombra, impossibilita a verdadeira e translúcida solidão. Estamos perpetuamente acompanhados por nós mesmos e libertarmo-nos desta condição de prisioneiros não será mais do que negar a própria existência, aspirar a mergulhar no

não-ser ou, pelo menos, no ser Nada.



A existência humana condena o nascimento do pleno estar só e torna a Solidão coisa aparente.

Patrícia Ponte Bastos









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