Flora rheta schreiber



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FLORA RHETA SCHREIBER

CIRCULO DO LIVRO
Edição integral

Título original: "Sybil"

Copyright 1971, Flora Rheta Schreiber
Tradução de Attilio Cancian
Licença editorial para o Círculo do Livro por cortesia da Nova Época Editorial Ltda.

Grupo Amigos da Leitura – venha nos conhecer

http://ar.groups.yahoo.com/group/amigos_de_leitura/

A meus pais,

Esther e William Schreiber,

cuja memória é

uma morada para todas

as recordações

e ternos pensamentos.

índice


Árvore genealógica........................... 3

Relação das personagens e suas datas de "nascimento" 3

Prefácio ................................... 5

Agradecimentos............................. 9

Primeira parte A EXISTÊNCIA

O relógio incompreensível ................. 10

Guerra interior.......................... 22

O sofá e a serpente...................... 28

A outra moça........................... 41

Peggy Lou Baldwin ...................... 51

Victoria Antoinette Scharleau .............. 68

Por quê?............................... 84

Segunda parte COMEÇANDO A SER

Willow Corners......................... 97

Ontem foi nunca ........................ 104

Usurpadores de tempo.................... 117

A procura do centro ..................... 131

Testemunhas silenciosas................... 143

A risada escabrosa....................... 149

Hattie................................. 157

Criança seviciada ........................ 163

Origem da raiva de Hattie ................ 178

Willard............................... 185

Terceira parte DEIXAR DE SER

Confronto e verificação................... 198

Os meninos............................. 210

A voz da ortodoxia...................... 219

O vinho da ira ......................... 227

O relógio compreensível .................. 239

O avental branco fantasma................ 255

Suicídio ............................... 264

Quarta parte REINTEGRAÇÃO

Começando a lembrar .................... 271

Futuros independentes .................... 279

Prisioneiros no próprio corpo .............. 289

Viagem à unificação ..................... 295

Eles também fazem parte de mim........... 303

O ódio cura ............................ 310

Ramón............................... 324

Uma novamente ......................... 335

Epílogo

O novo tempo da nova Sybil .............. 348


Árvore genealógica: Hierarquia das dezesseis perso­nalidades.

RELAÇÃO DAS PERSONAGENS E SUAS DATAS DE "NASCIMENTO'


Sybil Isabel Dorsett (1923): pessoa exaurida; a persona­lidade atuante.

Victoria Antoinette Scharleau (1926): nome completo de Vicky; uma loura segura de si, sofisticada e atraente; memória das personalidades de Sybil.

Peggy Lou Baldwin (1926): elfo positivo, entusiástico e quase sempre irritado, com nariz arrebitado, corte de cabelos tipo holandês e sorriso maldoso.

Peggy Ann Baldwin (1926): oposto de Peggy Lou, com características físicas semelhantes; costuma ser mais medrosa que irada.

Mary Lucinda Saunders Dorsett (1933): pessoa pondera­da, contemplativa, maternal, caseira; gorda e de ca­belos compridos, castanho-escuros, repartidos de um lado.

Marcia Lynn Dorsett (1927): o sobrenome, às vezes, é Baldwin; escritora e pintora; extremamente emotiva; rosto afilado, olhos cinzentos, cabelos castanhos, re­partidos de um lado.

Vanessa Gail Dorsett (1935): intensamente dramática e extremamente atraente; cabeça grande, com cabelos ruivos e figura esbelta, olhos castanho-claros e rosto oval, expressivo.

Mike Dorsett (1928): uma das duas personalidades mas­culinas de Sybil; construtor e carpinteiro; moreno, cabelos escuros, olhos castanhos.

Sid Dorsett (1928): a outra personalidade masculina de Sybil; carpinteiro e biscateiro; pele bonita, cabelos escuros, olhos azuis.

Nancy Lou Ann Baldwin (data indeterminada): interes­sada em política como cumprimento de profecias bí­blicas e intensamente receosa de católicos romanos; tresloucada, de características físicas semelhantes às das Peggys.

Sybil Ann Dorsett (1928): indiferente, a nível de neurastenia; pálida e tímida, com cabelos louro-acinzentados, rosto oval, nariz adunco.

Ruthie Dorsett (data indeterminada): criancinha; uma das personalidades menos desenvolvidas.

Clara Dorsett (data indeterminada): muito religiosa; hipercrítica em relação à Sybil atuante.

Helen Dorsett (1929): intensamente receosa, mas resol­vida a realizar o que pretende; cabelos castanho-claros; olhos castanhos, nariz adunco, lábios finos.

Marjorie Dorsett (1928): serena, vivaz, ri facilmente; mordaz; moreninha pequena e graciosa, com pele for­mosa e nariz arrebitado.

A Loura (1946): sem nome; eterna colegial; cabelos lou­ros ondulados e voz cadenciada.

A nova Sybil (1965): a décima sétima personalidade; um amálgama das outras dezesseis.

PREFÁCIO
Este livro é lançado a público mais de dez anos de­pois de meu primeiro encontro com a mulher a que dei o pseudônimo de Sybil Isabel Dorsett. Sybil quer ficar no anonimato e, quando tiver lido sua verdadeira história, você compreenderá a razão disto. Mas Sybil Isabel Dorsett é uma personagem real, uma pessoa viva.

Nosso primeiro encontro se deu numa tarde de outono de 1962, num restaurante da Madison Avenue, em Nova York. A Dra. Cornelia B. Wilbur, psicanalista de Sybil, havia combinado o encontro para que eu fosse travando conhecimento com ela.

Sybil dava a impressão de uma criatura coagida e parecia andar com seus pensamentos pelo mundo da lua. Eu sabia que este estado era devido à sua doença. A Dra. Wilbur e ela se tinham empenhado num dos casos mais complexos e estranhos na história da psiquiatria, pois se tratava da primeira psicanálise que se fazia duma persona­lidade múltipla.

Eu já havia tomado conhecimento deste caso há al­guns anos, pois, em minhas atividades de editora de psi­quiatria do Science Digest e como autora de artigos sobre assuntos psiquiátricos, os passos da Dra. Wilbur e os meus muitas vezes se cruzaram. Com efeito, alguns desses arti­gos abordavam casos que haviam passado pelo consultório dela.

O encontro fora combinado com uma finalidade bem determinada: a Dra. Wilbur queria saber se eu estaria interessada em escrever a respeito do caso de Sybil. Este caso, que na opinião da Dra. Wilbur estava destinado a fazer história, não devia ser apresentado somente numa revista de medicina, porque envolvia amplas implicações psicológicas e filosóficas para o público em geral, além do grande significado que tinha para a medicina.

Antes de entregar-me de corpo e alma à tarefa de escrever o livro, desejava aguardar os resultados do caso. Neste meio tempo Sybil e eu tornamo-nos boas amigas. Participamos juntas de muitas atividades intelectuais e unia-nos uma inconfundível afinidade. Sybil visitava-me com freqüência em meu apartamento. Muitas vezes confi­denciava-me o que se havia passado nas sessões de análise e aquilo que se passava em minha casa freqüentemente era ventilado nas sessões.

Aos poucos, a idéia de escrever um livro me atraía com maior constância. Tenho escrito muito sobre psiquia­tria e também possuo vastos conhecimentos de psicologia. Durante o ano de 1962 passaram por minhas mãos casos de muitos psiquiatras. Até mesmo os perfis de políticos — muitos dos quais eu escrevia para revistas de circulação nacional — caracterizam-se por uma forte orientação psi­cológica. Além disto, leciono no curso secundário (atual­mente no John Jay College of Criminai Justice da City University of New York). Minhas cadeiras são inglês e linguagem. O lastro literário de uma e a cultura lingüística e erudição psicológica de outra me proporcionaram pre­paro para abordar o assunto de Sybil. Tenho trabalhado também no teatro, no rádio e na televisão, escrevi contos e peças teatrais, além de ensinar redação na New School for Social Research. Todos estes fatores concorriam para me decidir a registrar os pormenores clínicos do caso de Sybil num livro em que eu pudesse abranger todo o drama dessa história.

Quis também escrever o livro em consideração à ami­zade que me liga a Sybil e à Dra. Wilbur, que desperta minha admiração pela coragem em continuar estudando, por sua própria conta, o curso de uma análise muito espe­cial. Tenho grande respeito pela Dra. Wilbur, uma analista com credenciais impressionantes. Possuía um consultório na Park Avenue, com grande clientela, e ocupava lugar de destaque em várias organizações psiquiátricas, como a Society of Medicai Psychoanalysts e a Academy of Psychiatry. Era presidente da National Association of Private Psychiatric Hospitais e participava do comitê de pesquisas da Society of Medicai Psychoanalysts, que publicou um importante trabalho, intitulado Homossexualismo: uma visão psicanalítica. Tendo abandonado a clínica particular, a Dra. Wilbur atualmente dedica todo o seu tempo à Medicai School da Kentucky University, onde leciona.

Depois de conviver com Sybil e suas outras persona­lidades pelo espaço de três anos, decidi-me a este empreen­dimento e comecei a fazer pesquisas detalhadas para este livro. As conversas que tive com Sybil e a Dra. Wilbur e os meus contatos diretos com os outros egos foram com­pletados por um estudo sistemático do caso como um todo e de toda a vida de Sybil. Li muito a respeito de persona­lidades múltiplas e discuti os aspectos gerais do caso com vários psiquiatras, além da Dra. Wilbur. Reconstituí a odisséia da vida de Sybil, em conversas que mantive com pessoas que a conheceram em sua cidade natal, Willow Corners, em Omaha, e em Nova York. Reconstituí também praticamente as andanças de Sybil, durante algumas de suas estranhas viagens como outra personalidade. Por exemplo, em Filadélfia contei o número de passos que deu em direção à porta social do Broadwood Hotel.

Para tornar conhecida esta extraordinária saga de acontecimentos, desconcertantes e atordoantes, como se estivessem girando dentro dum caleidoscópio fascinante, em primeiro lugar tive que destrinchá-los. As pistas foram localizadas pelo exame minucioso de cada documento re­lacionado com a análise de onze anos feita com Sybil. Nestas pistas estavam incluídas as observações diárias da Dra. Wilbur, anotadas a lápis em blocos de receita no decorrer de 2 354 sessões no consultório, as experiências feitas com Sybil, no processo de tratamento, como também os registros das sessões de análise que foram gravadas. Estudei também os diários de Sybil, escritos na adolescên­cia e durante o primeiro ano de análise; examinei as car­tas; fiz também um levantamento de dados familiares e dos hospitais por onde ela andou e vasculhei os jornais e os registros da cidade de Willow Corners durante os anos em que a família Dorsett viveu lá.

Nestes dez anos — durante sete dos quais trabalhei ativamente no livro — estive intimamente ligada à Dra. Wilbur e a Sybil, que às vezes separadamente e às vezes juntas sempre se prontificaram a "posar" para o retrato. Nossos papéis todavia eram bem distintos: eu estava re­constituindo aquilo que Sybil havia vivido e que a doutora já analisara. Mas duvido que outro autor tenha tido motivações mais palpitantes. Ao responder a cada interro­gatório, elas tiveram a oportunidade de reavaliar muitos aspectos da análise. Tive também a satisfação de poder ir fazendo um confronto das constatações médicas deste caso com um médico que estava sempre ao meu alcance, através do telefone mais próximo.

Depois de ler o livro já concluído, Sybil observou que "todas as emoções são verdadeiras", e a Dra. Wilbur saiu-se com este comentário: "Todo fato psiquiátrico está re­presentado com fidelidade".

A história verídica de Sybil oferece uma rara visão da mente inconsciente e abre caminhos para um maior entendimento do seu mecanismo. Permite, além disso, não somente uma nova observação do misterioso poder da mente inconsciente sobre o comportamento humano, mas também uma visão nova da dinâmica dos relacionamentos que podem ser destrutivos na família, dos efeitos atrofiantes de uma formação religiosa tacanha e fanática, de uma identificação da mulher com os homens de sua família e da negação da auto-realização. A história de Sybil constitui uma lição irrefutável da atitude que nunca se deve ter, ao lidar com as crianças. Neste relato estão também implíci­tas conseqüências relacionadas com perguntas como: o que é maturidade? O que é uma pessoa completa?

A história da vida de Sybil esclarece também o papel da mente inconsciente na criatividade; o sutil inter-relacionamento de lembrança e esquecimento, da coexistência do passado com o presente, além do significado da cena primai em psiconeurose geradora. Acham-se implícitas também certas questões filosóficas como a sutil relação entre realidade e irrealidade e o significado do "eu".

Sob o ponto de vista médico, esta história lança luz na gênese das doenças mentais, em termos de hereditariedade e de meio ambiente, e esclarece também a diferença entre a esquizofrenia — que alguns médicos e o público têm a tendência de usar como causa geral de uma porção de sintomas diversos — e a grande hysterie, doença pouco conhecida de que Sybil padecia.

Mais importante que tudo isso, talvez, é o maior grau de percepção que o leitor experimenta à medida que vai sendo levado pelo fascínio das aventuras interiores de

Flora Rheta Schreiber

Nova York Janeiro de 1973
AGRADECIMENTOS

Devo agradecer a James Palmer por seus comentários, muito úteis, sobre certas partes do manuscrito; à antropó­loga Dra. Valentine Winsey pelas suas valiosas sugestões; ao Dr. Donald H. Riddle, presidente do John Jay College of Criminal Justice, pelo seu constante apoio; a Melvin Herman, secretário executivo da National Association of Private Psychiatric Hospitais, que me apresentou à Dra. Wilbur; ao Reverendo Eric Hayden, da Igreja de St. Andrews, de Newark, por seguir algumas pistas cruciais; ao Prof. Leo C. Loughrey, por sua informação legal para o capítulo 5; a John Schreiber, por seu inquebrantável entusiasmo pelo projeto; a esse leal grupo de traba­lhadores da máquina de escrever que dedicaram um nú­mero aparentemente interminável de horas não apenas a datilografar o manuscrito como também a empatizar com a autora: Natalie Parnass, Margaret Schoppe, Janet Ludorf Küby, Shirley Sulat, Anne Henri e Haydee Davis; também a Haydee que, junto com seu marido George Thomas, afiançaram a autora, carregada de documentos, em Lexington, Kentucky; a Patrícia Myrer, da Mclntosh & Otis, por resistir à tormenta desde 1962; e, principalmente, à Dra. Cornelia B. Wilbur e a Sybil I. Dorsett, que tornaram tudo isto possível.

Também discuti o caso de Sybil com membros notá­veis da classe psiquiátrica, como o Dr. Karl Menninger, o Dr. Murray Bowen, o Dr. Harvey Kay, o Dr. Lawrence Friedman, e o falecido Dr. Nathan Ackerman. O Dr. Herbert Spiegel, que fez regressões de idade com Sybil e a descreveu como "uma histérica brilhante", dedicou várias horas a uma valiosa discussão deste caso, que conhecia em primeira mão. O Dr. Menninger, que nunca havia tratado ninguém com a condição de Sybil, havia, porém, tratado casos de escrita automática, que considera uma subclasse desta situação. O Dr. Bowen, cuja especialidade é a terapia familiar, esteve particularmente relacionado com a constelação familiar na gênese da enfermidade.
Primeira parte

A EXISTÊNCIA

O RELÓGIO INCOMPREENSÍVEL
Sua cabeça vibrou com o ruído de vidro estilhaçado; o recinto dava a impressão de estar rodopiando. Um cheiro acre de produtos químicos impregnou as narinas da moça, mais do que provocariam os produtos existentes no local. O cheiro lembrava-lhe uma experiência há muito tempo vivida e já esquecida. Tão remoto e no entanto tão fami­liar, aquele cheiro recordava-lhe a velha drogaria da sua cidade.

O vidro quebrado na velha drogaria. O vidro quebra­do na sala de jantar. Em ambas as ocasiões ouvira-se a voz recriminadora: "Foi você quem o quebrou".

Sybil Isabel Dorsett enfiou às pressas suas anotações de química na pasta marrom com zíper e dirigiu-se rapi­damente para a porta. Os olhares de todos, do professor de química e dos outros estudantes, cravaram-se nela, sem entenderem patavina.

A porta se fechou atrás dela. Sybil viu-se sozinha no corredor comprido e sombrio do terceiro andar do Havemayer Hall, da Columbia University, aguardando o ele­vador.

"Esperei demais. Esperei demais." Seus pensamentos rodopiavam. Havia esperado demais antes de sair do labo­ratório. Devia ter evitado o que acontecera, saindo no exato momento em que ouvira o barulho do vidro.

Esperara demais. Por sua vez, também aquele raio de elevador estava demorando demais.

Sybil procurou a sua pasta com zíper, mas não a tinha consigo. Também o elevador não estava ali, e tam­pouco o corredor comprido e sombrio. Ela estava andando numa rua comprida e estreita, coberta de neve, ao invés de estar esperando o elevador.

Um vento cortante e penetrante açoitava-lhe o corpo. A seus pés, neve branca, crepitante, rodopiante. Não cal­çava galochas, não calçava luvas nem tinha chapéu; suas orelhas estavam entorpecidas de dor. O casaco de lã cinza-claro, double face, que parecia aquecê-la suficientemente, quando se dirigia do seu apartamento em Morningside Drive ao local de trabalho, no laboratório, infelizmente pouca proteção oferecia contra o frio impiedoso.

Sybil procurou uma placa com o nome da rua, mas não achou nenhuma. Procurou uma casa em que pudesse abrigar-se, mas não havia nenhuma. Um posto de gasolina? Não conseguiu ver nenhum. Uma drogaria? Nada.

A drogaria, o laboratório de química, o corredor som­brio e comprido, o elevador; nada disto havia neste lugar. Aqui havia somente esta rua, pobremente iluminada, de­serta, sem nome, num lugar que não conseguia reconhecer.

Em ambos os lados da rua, construções antigas de madeira, horríveis, sólidas, algumas pintadas de cinza, como os navios de guerra; outras cobertas com folhas de zinco. Na parte superior, entradas enormes; na de baixo, portas grandes e janelas com vidraças muito pequenas.

Não podia ser Nova York. Talvez fosse algum lugar em Wisconsin, onde nascera, e onde em sua meninice fora surpreendida por muitos temporais de inverno iguais a este e aprendera o que significava passar por frio intenso. Bes­teira! Como podia ela ter ido até Wisconsin, num abrir e fechar de olhos, entre a espera do elevador na Columbia University e agora? Mas, assim sendo, ela não fora a parte alguma neste meio tempo, e talvez não tivesse estado em lugar nenhum. Quem sabe tudo isso não passava de um pesadelo?

Enquanto procurava andar mais depressa, enfrentava a dura realidade das construções horríveis e da neve que caía sem cessar, que ela tirava do rosto com as mãos nuas e procurava safar do seu corpo, sacudindo-o de um lado para o outro. Ela não podia ter inventado estas constru­ções, pois nunca antes vira coisa semelhante. As portas eram enormes, não que ela estivesse imaginando-as assim, mas porque eram usadas para estocagem e embarque de mercadorias. A parte realística de sua imaginação voltou a atuar e ela percebeu que se encontrava num bairro de armazéns.

Do outro lado da rua, sobre a neve branca, repenti­namente se desenhou uma silhueta negra, a figura de um homem. Parecia tão intangível, como uma sombra que passa, inanimada, como as construções que se agigantavam dela. Mesmo que esse homem pudesse dizer-lhe com toda a certeza onde é que ela se encontrava, não poderia alcan­çá-lo. De mais a mais, receava que ele interpretasse com segundas intenções a sua pergunta. Então, deixou simples­mente que passasse adiante e se perdesse dentro daquilo que lhe parecia ser noite; ela continuou caminhando, rumo a um mundo que supunha existir atrás dos armazéns.

Sybil tinha a impressão de estar metida num beco sem saída. Os blocos de edifícios aumentavam-lhe os te­mores mais recônditos. Tinha a sensação de estar trancada por dentro e fechada por fora, como uma prisioneira, en­volvida numa armadilha, sem escapatória para nenhum lado.

Será que não havia nenhum meio de safar-se desta situação? Nenhum táxi? Um ônibus? Algo que a levasse a algum lugar? Que a tirasse daquele inferno? Toda vez em que estava para descer dum ônibus urbano de Nova York era assaltada por um sentimento esquisito e obsti­nado, mas agora estava mesmo com vontade de arriscar-se a tomar um ônibus. Mas a hipótese era meramente ima­ginária, uma vez que não havia nenhum.

Agora sua mente começava a fixar-se numa cabina de telefone. Se conseguisse encontrar uma, não somente ficaria sabendo onde se encontrava, como poderia também telefonar para Teddy Eleanor Reeves, sua companheira de quarto, que decerto deveria estar preocupada com a sua ausência. Sybil lembrou, porém, que Teddy fora passar alguns dias com a família, em Oklahoma, logo depois que ela mesma havia saído de casa, para o trabalho no la­boratório.

Como se fosse uma ironia do destino, quando ia sain­do do apartamento, não é que Teddy insistira para que vestisse um casaco mais quente?! Nem dera atenção ao conselho, porque estava num daqueles dias em que não podia dar ouvidos a nada. Durante todo aquele dia, principalmente depois que o tempo começou a esfriar, sentira-se oprimida por sentimentos de intranqüilidade e impulsos estranhos, que se agitavam dentro dela e não lhe permitiam permanecer em seu apartamento, nem mesmo nos minutos a mais de que precisasse para trocar de casaco.

Sybil queria telefonar para a Dra. Cornelia B. Wilbur. Se demorasse muito, certamente também a doutora come­çaria a preocupar-se com ela. Talvez Sybil tivesse perdido a hora marcada com a doutora. Mas, até agora, quantas horas não teria ela perdido?

A palavra "agora" era torturante, evasiva, pois não tinha idéia de quanto tempo havia decorrido desde o mo­mento em que estivera esperando pelo elevador.

Um telefone parecia ser o elo mais evidente que a ligaria com a realidade, embora procurar um fosse o mes­mo que querer apalpar uma miragem. Fosse como fosse, teria que encontrar um e continuaria fazendo tudo para encontrá-lo. Teve o pressentimento de que não conseguiria continuar a busca, mas, também, sabia que não devia atre­ver-se a parar, pois as pernas enregeladas lhe indicavam que sentiria um frio mortal se não continuasse a andar; e já tivera uma grande vivência disto, com os invernos do meio-oeste.

Procurando manter-se em movimento, pôs-se a escutar atentamente, à procura de alguma coisa que denotasse vida. Só ouvia o vento. Quadras e mais quadras, ao longo de ruas, sem um único letreiro. A esperança de um tele­fone tornava-se ainda mais utópica.

Sybil parou perto de um poste de luz, como que para tomar fôlego, ao menos por um momento. Com a ajuda da luz embaçada, abriu a bolsa e remexeu nela. O cartão da Social Security, o da Blue Cross, a licença de motorista, a ficha da biblioteca da Columbia University — todos eles traziam o carimbo de autenticação.

Ao sair do apartamento, na sua carteira havia cin­qüenta dólares e mais uns trocados, e no entanto agora só restavam trinta e sete dólares e quarenta e dois centavos. Fora ao laboratório a pé, e no caminho não tinha com­prado nada. Será que o dinheiro que faltava havia sido gasto com a passagem para chegar a esse lugar? Lembrava-se de que havia esperado em frente ao elevador, e agora estava aqui. Só isto e mais nada.

A chave do apartamento estava em seu lugar de sem­pre. Mas, balançando e presa a uma etiqueta marrom-avermelhada, pendia uma chave que ela nunca vira antes. Remexeu-a e examinou-a com a mão enregelada, olhando-a uma infinidade de vezes, lendo e relendo as letras doura­das: Quarto 1113.

O que estava fazendo aquela chave em sua bolsa? De onde viera? Não havia dúvida de que se tratava de uma chave de hotel, mas, ao contrário da maioria das chaves de hotel, não trazia nenhum nome, nenhum ende­reço, nenhuma indicação da cidade a que pertencia.

Talvez tudo isso não passasse de um pesadelo. Não, a chave era palpável, a etiqueta era sólida, o poste de ilu­minação era real. Reais eram, também, as horrendas cons­truções, que pareciam olhar de esguelha e caçoar dela. Real era também a neve que grudava no casaco e nas pernas. E, apesar dos seus temores, as pernas movimen­tavam-se, não estavam enregeladas. Enquanto ia seguindo depressa, sem destino e sem rumo, sentia prazer com a cruel extravagância de ir correndo a esmo. Sim, ia avan­çando, porque tentava abafar o pânico que nela ia cres­cendo.

- A chave do quarto 1113 era a máquina que a impe­lia, o motor que punha em movimento o seu pânico. Logo, porém, estranhamente, a chave deixou de ser motivo de pânico para se transformar em razão para conforto. Sim, esta chave devia poder abrir alguma porta de quarto de hotel, um refúgio ao abrigo do frio, um lugar onde pudesse descansar. Ali poderia ao menos aquecer-se, comer alguma coisa, repousar.

Continuou andando depressa e em cada cruzamento olhava para ver se alguma condução se aproximava. Sybil começou a sentir raiva de si mesma, por não se ter esfor­çado um pouco mais para encontrar um táxi ou ônibus. Embora se visse numa verdadeira enrascada, tinha a cer­teza de que agora iria encontrar um hotel, fosse ou não o da chave anônima. Atrás desses armazéns, por certo, havia um mundo habitado.

Em seguida, um novo terror se apoderou dela. E se ela tivesse apanhado a chave no meio da rua? Não se lembrava de ter feito isso, mas havia muita coisa de que não se lembrava. E se ela em outros tempos tivesse pas­sado alguns dias, semanas, até meses ou anos naquele quarto e tivesse sido obrigada a desocupá-lo por falta de pagamento? Em ambas as hipóteses, o quarto agora devia pertencer a alguma outra pessoa. Devia jogar fora a chave? Livrar-se de alguma possível incriminação?

Não, não havia chave alguma, nenhum quarto, ne­nhuma proteção, nenhum refúgio, nenhum mundo, mas somente mais um pedaço desta terra sem mulheres onde silhuetas irreais de homens projetavam-se rapidamente na neve, despertando as imagens pretas e brancas que sempre a apavoravam.

Estas ruas compridas e estreitas não tinham fim. Ne­nhuma casa com luz acesa. Como estas janelas com tran­cas faziam despertar velhos temores, que a seguiam onde quer que vivesse e que agora a conduziam a esta terra de ninguém!

De repente surgiu uma luz. Era um posto de gasolina. Finalmente um telefone e uma lista para poder ver como é que se chamava esse lugar.

Segundo a lista telefônica, achava-se em Filadélfia, cidade que havia visitado muitas vezes, mas em nenhuma de suas visitas estivera neste local.

A cabina de telefone lhe acenava, parecia convidá-la para que se aproximasse. Aceitou o convite, mas quando se encontrava lá dentro, espremida nos estreitos limites da cabina, a hospitalidade se transformou em repulsa. Quis ligar para a residência da Dra. Wilbur, e por isso colocou uma ficha na ranhura de níqueis para chamadas interur­banas; mas ouviu somente um som metálico e nada mais. O telefone estava mudo.

Aproximou-se do empregado do posto de gasolina e perguntou se podia usar o seu telefone.

- Sinto muito, senhora - respondeu-lhe. Quando ele se afastou e fechou a porta em seu rosto, a única coisa que ela pôde ver foram as costas do paletó branco que se afastava.

A expressão apavorada de seu rosto enchera-o de medo. Mas o contato com outra pessoa permitiu-lhe pensar em ligar do Broadwood Hotel, onde sempre se hos­pedava quando vinha a Filadélfia.

O pensamento no Broadwood e a certeza de que se encontrava numa cidade que conhecia muito bem dissi­param-lhe um pouco do medo. Aproveitou para dar uma chegada ao banheiro, onde deixou por algum tempo as mãos sob o jato da água quente. Ao retornar à rua, pela primeira vez notou o rio Delaware e, em sua margem oposta, Camden.

O Delaware era-lhe familiar. Certa vez pintara-o numa aquarela de estilo impressionista, enquanto Capri estava sentada a seu lado. A gata ficara observando os movimentos do pincel e num determinado momento em­purrara com sua patinha o cabo do pincel, como para lembrar Sybil de que ela também estava ali presente.

Os letreiros das ruas começavam a ficar visíveis: Front Street. Callowhill Street. Spring Gardens. Na Front Street, entre a Callowhill e Spring Gardens, viadutos se estendiam por sobre a cabeça. Quando se aproximou de uma esquina, Sybil notou uma luz. Aproximava-se um ônibus urbano.

- Espere, espere! - gritou Sybil nervosamente.

O motorista de faces rosadas esperou até que ela subisse.

Sentindo fortes dores nos braços e nas pernas, Sybil deixou-se cair, quase desmaiando, num banco de trás, per­to da janela. Estava disposta a ir a qualquer lugar aonde o ônibus a levasse, a qualquer parte deste mundo afora, onde Deus bem entendesse.

Por que é que aqueles outros passageiros - três ho­mens e uma senhora com um chapéu alto, de pele de castor - estavam ali, numa noite como aquela? Mas, afinal de contas, era mesmo de noite? A cor cinza das nuvens do céu, tremendamente esquisita, não permitia saber se era noite ou se estava amanhecendo. Nem sequer sabia que dia era. Se fosse perguntar aos demais passageiros, haveriam de pen­sar que era uma desmiolada.

Aquela chave enigmática em sua bolsa, sem nenhuma pista sobre a sua procedência, voltou a infernizar-lhe as idéias. Seria uma chave do Broadwood? Não sabia. Nem sequer sabia se estava a caminho do Broadwood Hotel.

Contudo, de qualquer lugar aonde o ônibus a levasse, devia ser fácil chegar até lá. Ansiosa por averiguar, levantou-se do lugar em que estava, aproximou-se do motorista e per­guntou-lhe:

- O senhor passa por algum ponto perto do Broad­wood?

- A três quadras dele - respondeu o motorista.

- Quer que a avise?

Apesar de estar tiritando de frio, pelas janelas do ônibus reconheceu a Benjamin Franklin Parkway, a Lotam Free Library, o Franklin Institute e o Fairmont Park. Com alegria lembrou os dois monumentos graníticos comemo­rativos que há no parque. Num deles, que representa sol­dados, em baixo-relevo, lia-se a inscrição: Um país; uma Constituição. Libertando os escravos, garantimos liberdade para os livres. Ela havia feito uma pintura daquele monu­mento guerreiro. Tinha que estar com a atenção presa a alguma coisa, em tudo menos na chave. "Menos minha vida, menos minha vida", foi o que Hamlet exclamara.

- Seu ponto de saltar - gritou-lhe o motorista. De novo pisava terra firme. Sem firmeza diante das

ruas e calçadas escorregadias, diante da estrutura e solidez dos monumentos familiares tinha a sensação de segurança: a Academy of Fine Arts na esquina da Broad Street com a Cherry Street, o Hahnemann Hospital, e depois, pelo menos uma realidade presente, a cúpula dourada do Broadwood Hotel.

Finalmente, diante dela, erguia-se o Broadwood Hotel com seus dezesseis andares de tijolos vermelhos. Até o terceiro andar havia uma estrutura em forma de losango e uma cornija branca. Do outro lado da rua, em frente ao hotel, a Roman Catholic High School para rapazes e um prédio velho que costumava ser a sede do Philadelphia Morning Record. Em frente ao Broadwood, uma estação do metrô. O metrô havia sido inaugurado em 1927 - ao menos era o que alguém lhe havia dito. O próprio Broad­wood tinha sido construído em 1923, pelos Elk. Foi o ano em que ela nasceu. Que coincidência gozada!

Chateada consigo mesma por estar se demorando do lado de fora, quando já podia estar lá dentro, finalmente assumiu o decisivo risco de entrar. Subir os três degraus que levavam à porta da frente do Broadwood pareceu a Sybil tão difícil como galgar os picos do monte Everest. Sua subida era para o ignoto, para o desconhecido.

No saguão principal parou para olhar as lâmpadas semelhantes a tochas que pendiam do teto e passou a observar o mármore familiar, o assoalho com ladrilhos amarelos, pretos e brancos. Embora conhecesse muito bem o saguão pelas visitas anteriores, observou todos os pormenores como se fosse a primeira vez.

Devia registrar a sua entrada? Hesitou. Devia dirigir-se diretamente ao quarto 1113, na suposição de que este estaria livre e de que ela estava de posse de uma chave de quarto do Broadwood Hotel? Subiu correndo os quinze degraus que levam à rotunda. Aquilo era um desvio se­guro para evitar a portaria e o elevador.

A rotunda possuía uma janela de mármore de apro­ximadamente doze metros de altura, com vidros coloridos e vista ampla para um mezanino. No teto da rotunda, tra­balhado em folhas, via-se a inscrição: Fidelidade, Justiça, Orgulho, Amor Fraternal suas virtudes em placas de afeição e recordação. As faltas de nossos irmãos, escre­vemo-las nos grãos de areia.

Durante alguns minutos fugazes Sybil ficou admiran­do aquela beleza, que lhe dava uma sensação de repouso, mas esse estado de espírito logo passou, quando ela lenta­mente foi relembrando os passos que dera, da rotunda até o corredor principal. Mergulhou de novo em pensamentos estranhos e notou como o lugar tinha mudado desde a última vez em que lá estivera. Os boys já não eram os mesmos, e também nunca tinha visto aquela mulher que estava na mesa da portaria, com cara de coruja e porte de elefanta. Demorou-se uns instantes na vitrina da galeria Persky's Portraits, indecisa sobre se devia registrar-se na portaria ou ir diretamente ao quarto 1113, para onde essa enigmática chave devia supostamente conduzir. Não con­seguiu tomar uma decisão e por isso saiu apressadamente para a Broad Street.

Na banca de jornais, em frente ao Broadwood, comprou um exemplar do Philadelphia Bulletin do dia 7 de janeiro de 1958. Como se não acreditasse naquela data, comprou o Philadelphia Inquirer, que também era do dia 7 de janeiro.

Sete de janeiro. Tinha saído do laboratório de quí­mica no dia 2 de janeiro. Cinco dias perdida. O medo que a invadia por desconhecer que dia era aumentou agora com o fato de estar sabendo.

- Você tem horas? - perguntou ao jornaleiro, pro­curando aparentar um ar de indiferença.

- Nove horas - respondeu ele.

Nove da noite! Quando estava esperando o elevador, no corredor da Columbia University, eram oito e quarenta e cinco da noite. Haviam passado quase cinco dias.

Devagarinho, cheia de medo, Sybil mais uma vez em­purrou e abriu a porta de vidro do hotel. Pânico, e uma sensação de remorso e auto-recriminação suscitados pelo fato de ter perdido cinco dias impeliram-na a apressar-se. Percebeu vagamente que alguém a estava chamando. Era a mulher com cara de coruja e porte de elefanta, na mesa de registro da portaria.

- Ei, você - chamou a mulher, com sua enorme cabeça agitando-se por cima da mesa, para se fazer no­tada, com as sobrancelhas tão salientes que se pareciam com as asas duras de uma coruja. Ao menos foi assim que Sybil a caracterizou logo que a viu.

- Tem um minutinho à disposição? - perguntou a mulher. - Gostaria de ter uma palavrinha com você.

Como se tivesse sofrido uma ação hipnotizante, Sybil parou.

- Olhe, quando você for ao seu quarto, não deixe de tomar um bom banho quente e de saborear um chá. Eu estava tão preocupada com você, lá fora naquele temporal. "Não saia à rua", pedia eu com insistência, mas você não queria atender. Este tempo não é para brinca­deiras, e não devemos arriscar-nos com ele.

- Muito obrigada - respondeu Sybil um tanto se­camente. - Estou muito bem.

A mulher sorriu para Sybil, que se dirigiu aos ele­vadores.

Sybil podia jurar, até mesmo perante a corte de um tribunal, que pelo menos um ano havia passado desde sua última estada no Broadwood. A mulher da portaria, por sua vez, que no ano anterior ainda não trabalhava no hotel, teria jurado, perante a mesma corte, que Sybil estivera no hotel aquele mesmo dia, mais cedo.

Uma das portas dos dois elevadores se abriu e Sybil entrou, ansiosa e profundamente apreensiva. Ela era a úni­ca passageira.

- Onze, por favor - pediu.

- Andou por aí neste temporal? - perguntou o ascensorista.

- Sim - murmurou ela.

- Onze - disse ele, apertando o botão.

A porta do elevador se fechou atrás dela, com um som metálico que entrou misteriosamente pela medula de sua espinha dorsal, conforme acontecera com os olhares dos que estavam no laboratório de química. Entre os dois elevadores não houvera nenhum lapso de tempo, e ao pen­sar nisso seu remorso aumentava.

Será que o quarto 1113 realmente existia? É bem verdade que os números 1105, 1107, 1109 e 1111, nas portas, davam a entender que devia existir o 1113. Ime­diatamente divisou o número 1113, como que iluminado com luzes de néon que se acendiam e apagavam alternadamente.

Sybil abriu a bolsa, retirou a chave e, prendendo a respiração, começou a enfiá-la no buraco da fechadura; girou a chave na mão mais uma vez e ficou imaginando se seria a chave daquela porta.

Devia entrar? Ou ir embora?

Enfiou a chave na fechadura. Era a sua. A porta foi se abrindo. Sybil estava perante o quarto 1113.

Ninguém falou, não se ouviram passos. Será que não havia ninguém lá dentro?

Encostou o corpo no batente da porta e, sem entrar no quarto, esticou a mão à procura do interruptor de luz, na parede mais próxima. Quando o ligou, um jato de luz inundou os seus temores ante a expectativa do que pode­ria ver. Entrou e fechou a porta. Ficou estatelada, imóvel.

Pelo que sabia, nunca estivera naquele quarto. Mas, se esse não era seu quarto, onde é que dormira entre os dias 2 e 7 de janeiro, e como é que aquela chave chegara às suas mãos? Ela não podia ter ficado zanzando pela rua durante todo aquele tempo.

Teria preenchido a ficha de entrada na portaria do hotel? A mulher na mesa lá embaixo agira como se o tives­se feito.

Sybil tirou o casaco molhado e jogou-o numa cadeira, tirou depressa seus sapatos encharcados e aboletou-se na cadeira verde que havia perto da janela.

Não sabia que o quarto era dela, mas pela maneira como a mulher lhe havia falado achou que ele não pertencia também a nenhuma outra pessoa.

Por uns instantes, ficou divagando e olhando pela janela, para a Roman Catholic High School para rapazes e para o edifício que sempre fora a sede do Philadelphia Morning Record. Não conseguindo descansar, pegou os jornais que havia trazido consigo.
THE PHILADELPHIA INQUIRER



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