“Foral dos Usos e Costumes” dos gancares e lavradores da Ilha de Goa e outras anexas, de Afonso Mexia,de 16/9/1526



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Famílias Católicas Goesas:

entre dois mundos e dois referenciais de nobreza
Pedro do Carmo Costa1
Introdução
Muito pouco ou nada se tem publicado sobre a genealogia das famílias dos naturais de Goa2. No entanto, sobre Goa e a presença Portuguesa no Oriente, a bibliografia é extensa e dela extrairemos dados importantes para a realidade que aqui pretendemos caracterizar.

Goa oferece-nos um caso único de encontro de culturas distintas. Neste “encontro”, jogam em contraciclo um fenómeno de assimilação de uma cultura dominadora e, em paralelo, a tentativa de manutenção, em paralelo, da cultura dominada. O Goês católico surge deste processo de síntese cultural, intimamente ligado ao seu passado milenar hindu e à descoberta de novos referenciais do mundo cristão.

Propomos neste espaço, dentro de uma perspectiva histórico-genealógica, caracterizar as formas e modelos com que os Goeses conviveram, nos últimos cinco séculos, entre estes dois referenciais nobiliárquicos: o hindu e o europeu.
I. Goa e os Goeses
Goa
Situada na costa ocidental do subcontinente Indiano, na costa do Concão, o território que hoje corresponde a Goa, pode ser dividido em dois grandes grupos: as Velhas Conquistas e Novas Conquistas. Das Velhas Conquistas fazem parte um núcleo de três concelhos ou províncias: Ilhas de Goa (onde situam-se a Velha Cidade, Panjim, Ilha de Divar e Ilha de Chorão), Bardez (cuja capital é Mapuçá) e Salsete (cuja capital é Margão)3. É neste núcleo que a maior parte as famílias católicas goesas constituem-se e constroem a sua nova identidade. As Novas Conquistas são constituídas pelos concelhos limítrofes às Velhas Conquistas, conquistadas entre 1763 e 1788. Destes concelhos fazem parte Pondá, Perném, Quepém, Sanquelim, Bicholim, Satary e Canácona4. Para além destes territórios, o Estado Português da India contemplava também os territórios de Damão, Diu e Nagar-Avely, todos eles separados geograficamente de Goa.

A 1 de Março de 1510, Afonso de Albuquerque, ajudado por Timoja, um soberano hindu, com uma esquadra de 23 velas, tomou ao Rei de Bijapur, a Fortaleza de Pangim. As províncias de Salsete e Bardez entregam-se pacificamente5. Para a população maioritariamente hindu, este movimento é visto como uma libertação do domínio muçulmano, em Goa representado pelo Sabaio Adil-Khan, o Hidalcão, desde 1481. Para esta população, provavelmente não ciente disso, esta é a data que marca o princípio da sua maior metamorfose.


Os Goeses e o sistema de castas
Na sociedade Goesa vigora, desde tempos imemoriais, o sistema de castas. A conversão e enraízamento do catolicismo não foram suficientes para esmorecer este sistema, mesmo entre os naturais cristãos.

Sobre este assunto de tão grande complexidade Bragança Pereira oferece-nos uma excelente definição para o termo casta: “um agregado social endogâmico, animado do espírito de hierarquia e de isolamento, regulado por normas consuetudinárias, consagradas pela religião hindu 6. Mariano Feio amplia a caracterização: As castas são agrupamentos endogâmicos a que se pertence definitivamente pelo nascimento. Nasce-se numa casta, como de resto numa classe social, mas enquanto no último caso existe possibilidades de mudança, embora difíceis, na casta essas possibilidades são nulas; pode-se quando muito perder a casta, mas neste caso não se cai noutra inferior, fica-se simplesmente sem casta e escorraçado da sociedade7.

A cada casta pertence um certo grau de pureza; os membros de determinada casta só podem casar dentro dela, muitas vezes praticam a mesma profissão e para preservarem a pureza só podem comer com gente de casta mais elevada. O mérito do indivíduo integrado neste sistema não consiste em procurar transferir-se para uma casta mais elevada, mas, pelo contrário, em cumprir as obrigações e preceitos da própria casta. Diz o sacrossanto Bhagavadguitá: A própria obrigação, mesmo que mal realizada, é melhor do que a obrigação dos outros bem feita.

Na origem terá havido certamente um fenómeno social: o sistema de castas foi sancionado pela religião e aparece sem ambiguidade nos livros sagrados posteriores aos Vedas8.

As castas primitivas são quatro: os brâmanes, os kxátrias, os váixias e os sudras. A primeira, são sacerdotes e letrados; os segundos são guerreiros; os terceiros, comerciantes e agricultores e os últimos trabalhadores braçais. Estas quatro categorias são já citadas nos Vedas, mas provavelmente tratavam-se de classes sociais e não de castas com as caracaterísticas das actuais. A causa inicial dos estabelecimento do sistema das castas deve ter sido o desejo dos invasores arianos de preservarem a pureza da raça, de cor mais clara do que a dos habitantes anteriores da Índia. Os descendentes desses invasores, portanto de raça ariana, pertencem hoje às três grandes castas nomeadas em primeiro lugar; sabe-se porém, que etnicamente as castas não correspondem a raças puras, pois antes do século XII houve misturas de sangue entre diversos agrupamentos sociais.

Brâmanes, kxátrias, váixias e sudras são hoje apenas grandes grupos, pois houve uma subdivisão tão intensa que na actualidade contam-se aproximadamente 3000 castas na Índia. A estes grupos de castas há que acrescentar os párias ou intocáveis, que são considerados sem casta; pelo censo da Índia de 1931, constituiam um pouco mais do que um quinto da população hindu9.

Os grandes agrupamentos de castas que existem em Goa são: brâmanes, chardós (kxátrias) e sudras. Os párias ou sem casta são chamado de curumbins, ligados às actividades agrícolas, que pelo seu arcaismo social, constituem um dos grupos sociais mais característicos de Goa. Supõe-se que teriam sido os habitantes mais antigos de Goa, defendendo os antropólogos a tese de que os curumbins são dravídicos10.

A casta ou varna mais elevada, segundo os preceitos hindus, é a dos brâmanes. Segundo a lenda, terão saído da boca de Prajapati, o Senhor dos Seres, identificado mais tarde com Brahma, o Criador11. Os brâmanes-gaud, conhecidos por sarasvats, vieram do norte da India, especialmente da região de Caxemira e Punjab, desceram para o Sul, depois de passar pela região de Katiawar e por mar vieram estabelecer-se no Concão, nos seus dois portos principais, Concão do Norte (Chaúl – Salsete do Norte) e Goa Velha (Concão do Sul). Estes brâmanes sarasvats fizeram várias incursões em Goa. Uma das primeiras foi anterior ao gramático Panini (séc VII A.C.), a que se seguiram outras emigrações de 96 famílias brâmanes, as quais assentaram arraiais em Goa. Uma das últimas foi a dos brâmanes Sinais (ou Shenvis) que já se achavam em Goa antes do século X. Os brâmanes Sinais são também conhecidos pelo nome de Cortalós, visto que a sua aldeia primitiva foi Cortalim (em Salsete). Os últimos, estabelecidos em Cortalim, casaram-se com as mulheres dos brámanes saravats, anteriormente fixados em Salsete12.

Sobre os brâmanes, escreve o Irmão Luís Froes, numa carta de 13/11/1569: “São estes bramenes homens mui delgados e de vivo engenho, fallão os mais delles portugues, amicissimos da honrra, gentis homens, brancos e bem proporcionados, tem muitas outras adições particulares que agora seria largo trataremsse13. Sobre as suas mulheres e filhos, continua o Irmão Froes, “são muy recolhidas e honestas, tem uma natural modestia e sogeição grande; servem como escravas a seus maridos, tem por costumes, sendo gentias, como lhe morre o marido, ainda que foquem muito moças, nunqua mais casarem nem vestirem pano de cor, e andarem sempre rapadas, depois que lhe tirarão que se não queimassem vivas com os maridos, quando morrem. Os filhos são abilissimos, alvos, gentis homens e de boa philosofia; depois de christãos, folgão de nos conversar e de aprender as cousas da fee14

Também sobre os brâmanes, descreve de forma alegórica o notável escritor goês, Francisco Luís Gomes15, no seu romance “Os Brahamanes”: “Os brahamanes são uma dinastia e uma casta. Brahma é o Sol e os brahamanes os seus raios. Os brahamanes sairam da boca de Deus como o mais puro dos seus verbos, e os sudros nasceram dos pés, como o mais vil pó. Não é dado ao sudro nem ao paria tocar nos brahamanes, como não é dado às raízes tocarem nas flores, nem à planta do pé tocar na boca. As mãos do paria que tocarem no brahamane imprimem n’ele o selo indelével do inferno; a pureza do brahmane é como o orvalho pendente na folha, o qual desaparece para sempre quando apenas n’ele se toca


Maria de Jesus Mártires Lopes, em Goa Setecentista, obra incontornável para o estudo de Goa na segunda metade do século XVIII, classifica a sociedade goesa por grupos de influência:

  1. os europeus (ou reinóis) que eram portadores da cultura cristã e ocidental e desempenhavam funções dirigentes. Por isso, consideravam-se superiores aos membros das outras camadas da população;

  2. os brâmanes como um grupo, de certo modo, correspondente ao europeu, mas autóctone; ciosos da sua superioridade social e cultural consideravam o europeu como um homem violento e pouco subtil; os seus preconceitos de casta estão, aliás, bem patentes na Nobiliarchia Brachmana16.

  3. os luso-descendentes, fazendo a ligação entre os europeus e os cristãos naturais, com seus hábitos, modos de vida, alimentação, etc., mas formando também como que uma casta17.

  4. os chardós que se individualizam em relação aos outros grupos sociais, pela assimilação da cultura ocidental.

  5. os curumbins que, apesar de convertidos muito cedo ao cristianismo, se mantiveram fiéis aos seus costumes de antanho.


Desmistificação do cruzamento racial
No imaginário Português existe a ideia de que na génese do Goês está a política de casamentos mistos promovida por Albuquerque.
Afonso de Albuquerque e os seus pares, ao mesmo tempo que empenhavam-se numa luta de extremínio contra as religiões e as culturas autóctones de Goa, punham em prática uma política de integração inteiramente inédita na Europa do seu tempo18. Deste esforço faziam parte as políticas de casamentos mistos, como forma de criar uma nova casta de cristãos-colonos, mestiços, de Portugueses adaptados aos trópicos. No entanto, este intento terá tido pouco ou nenhum sucesso entre os naturais, devido à essência do sistema de castas. Mesmo já sendo católicos, estes eram totalmente adversos à mistura de sangues. Viveram séculos segregados dentro da sua própria sociedade, agora com uma nova raça entre eles, ainda mais relutantes ficaram em se misturarem.

Como consequência de tudo isto, poucos ou nenhuns casamentos entre naturais neo-convertidos e europeus terão havido em Goa, embora alguns cronistas da época, como João de Barros, lancem algumas suspeitas: “os moradores das ilhas de Diuar e Choram19 erão seus parentes, & muitos delles já liados com os Portugueses per via das suas filhas que erão casadas com elles”. No entanto, podemos afirmar que, em toda a investigação que temos desenvolvido neste campo, não conhecemos um único registo ou relato de um casamento misto20.

Houveram, isto é certo, frutos de ligações ilícitas com as bailadeiras do templo, prostitutas ao serviço em templos hindus21. Também terão havido casamentos mistos entre soldados Portugueses e mouras convertidas. Diz Castanheda: Goa “era pouada de mouros mercadores estranjeiros, muy honrrados & ricos todos brancos, & também de gentios naturaes da terra, & doutros filhos de mouros & de gentias que se chamauão neiteàs22

Após a conquista, os mouros que não morreram na luta emigraram, quase sempre deixando as mulheres para trás. Mas, em vez de as escravizar segundos os usos da época, Afonso de Albuquerque casou-as com os seus soldados e distribuiu terras pelos novos matrimónios23.


As Gancarias ou Comunidades
Esta instituição secular da Índia, com forte representação em Goa, é um outro exemplo peculiar na caraterização da sociedade goesa. Na origem das Comunidades ou Gancarias, que são administradas pelos Gancares, estão associações agrícolas fundadas com a constituição das aldeias. É crença que foram os primeiros povoadores e cultivadores das aldeias, quando estas estavam maninhas e desaproveitadas, que as constituiram.

Reside nas Comunidades o domínio das aldeias; e é delas toda a área cultivada ou inculta, com excepção da propriedade privada e terrenos dados a título de um foro. Estas pequenas repúblicas independentes, auto-suficientes e auto-sustentadas, têm cada uma o seu próprio estatuto para a cultura das terras comuns.

Cada comunidade ou gancaria, é constituída por vangores, estirpes, ou famílias dos fundadores da aldeia, conhecidos por gancares. Ser-se gancar de uma determinada aldeia é pois, um título de nobreza. Etimologicamente, a palavra gancar ou gãocar significa Senhor (Kar) da Terra (Grama)24. Os descendentes do sexo masculino dos fundadores da terra são também gancares.

Os gancares recebem um dividendo ou quota anual (chamado juono), resultante do arrendamento das terras pertencentes à comunidade. Assim, a título de exemplo, se uma comunidade tem 100 hectares de terra cultiváveis, e estes são arrendados por 20 rendatários, por um valor de 1000 rupias, este valor, após pagamento dos serviços da comunidade, é distribuído pelos gancares. A família do meu Pai é gancar da comunidade da aldeia de Curtorim, em Salsete. Aos 16 anos foi feita a minha inscrição nessa gancaria tendo, desde então, recebido o meu dividendo anual. Claro que, para aldeias em que os descendentes dos fundadores são muitos, o juono é mais um título que uma fonte de receita. O mesmo não acontece para aldeias em que a maior parte das famílias dos fundadores se extinguiram por via varonil: o “bolo” torna-se menos fragmentado.

Na sua quase totalidade, as gancarias são mono-casta: em cada aldeia a gancaria ou é brâmane, ou chardó ou sudra.

Às Câmaras Gerais – conselho federal de várias comunidades - competia pagar tributos antigos e novos e fazer frente a quase todas as necessidades do serviço real. Estavam-lhe também cometidas obras públicas como a construção de praças, reparação de estradas, etc. Além disso, participavam activamente na vida das paróquias onde tiveram uma função social e espiritual importante, sustentando professores e contribuindo para despesas de culto e obras de assistência. Com efeito, as comunidades de aldeia assumiram vários encargos tais como o vencimento do mestre-capela, o principal agente de ensino da época, que ilustrava as crianças na leitura e na escrita, além do canto e catecismo25.

A instituição das Comunidades foram rapidamente ratificadas pelos Portugueses, no “Foral dos Usos e Costumes dos gancares e lavradores da Ilha de Goa e outras anexas, de Afonso Mexia, em 16/9/152626. Foram as Comunidades aldeanas um dos meios mais efectivos de cobrança de impostos aos naturais de Goa.
II. Conversão ao Catolicismo
Entre a espada e a cruz
Quando, a 25 de Novembro de 1510, Afonso de Albuquerque reconquistou a ilha de Goa ao rei de Bijapur, prometeu aos habitantes não só não aumentar os impostos (na verdade, baixou-os para dois terços) como liberdade de culto. Essa promessa, porém, não se manteria por muito tempo27.

Na segunda metade de 1500 inicia-se a campanha de conversão em massa da população goesa. Terão havido, com certeza, voluntários para o baptismo cristão, mas, na sua maioria os naturais terão sido convertidos pela força do hiduísmo ao cristianismo.

Com o objectivo da envangelização, o Vice-Rei D. Pedro de Mascarenhas (1554-1555), que sucedeu a D. Afonso de Noronha (1550-1554), repartiu entre as Ordens Religiosas, então existentes em Goa, as Velhas Conquistas (Ilhas, Salsete e Bardez). Aos Franciscanos coube Bardez, aos Jesuítas, além de Salsete, as Ilhas de Chorão e Divar e uma parte da Ilha de Goa, ficando a restante parte desta aos Religiosos de S. Domingos28.

Em 1560 é baptizado em Salsete o primeiro natural, brâmane da aldeia de Cortalim. Não se sabe o seu nome hindu mas sabemos que adoptou o nome do sacerdote jesuíta que o baptizou: Pero de Mascarenhas29.

Cada ordem tinha um “Pai dos Cristãos”, português. Era este eclesiástico que vigiava o ensino doutrinal dos catecúmenos e tinha a seu cargo a regência e administração do respectivo instituto. O cargo era considerado de grande importância e interesse, e tinha anexos vários privilégios e funções. Os Pais podiam julgar causas cíveis até à quantia de 50 xerafins, e causas crimes que não fizessem sangue, entre os novos cristãos.

Muitos goeses, encurralados por uma família dividida entre convertidos e não convertidos, “entregavam-se” nas mãos da Igreja para serem convertidos. Isto de forma a não perderem os elos com a família e também a propriedade.

Francisco Pyrard de Laval, descreve os baptismos solenes que se realizavam no princípio dos século XVII30: “Antes do baptismo vi um padre jesuíta fazer-lhe (aos neófitos) um bom sermão sobre a excelência da religião cristã e lhes disse que a não deviam abraçar por força e que se algum deles ali havia que viessem contra a sua vontade, se poderia ir embora e sair logoda igreja, ao que todos responderam a uma só voz que eram muito contentes e que queriam morrer na fé católica” António de Noronha, num dos seus mais interessantes textos31 exclama: “Não deviam abraçar por força...! À piedosa comédia! Como se esses neófitos tivessem vindo por sua livre vontade! Como se eles não tivessem sido arrancados violentamente às suas famílias e internados na casa dos catecúmenos para serem doutrinados a açoite e palmatória.

As conversões não anulam o sistema de castas. Ele persiste após o baptismo. Segundo Bragança Pereira, se as conversões tivessem sido isoladas, as castas tinham desaparecido, quer pela dificuldade de os convertidos contraírem matrimónio com os membros da casta hindu de onde sairam, que pela pressão da nova sociedade indo-cristã, para onde entraram. Mas as conversões foram colectivas, em grupos. O mecanismo da casta não se desconjuntou; a água do baptismo não dissolveu os agregados sociais endogâmicos32.

As castas persistiram e dominaram, e o Cristianismo não tardou, insólitamente, a adaptar-se-lhe. À medida que as várias ordens religiosas entravam em Goa, iam sendo dominadas pelas diferentes castas, principalmente por brâmanes e chardós. Deste modo, os colégios e conventos dos teatinos, dos jesuítas, dos agostinhos e de S. Filipe Nery só aceitavam brâmanes; os carmelitas só aceitavam chardós; e parece que apenas duas ordens, os franciscanos e os salesianos, recebiam praticamente todas as castas, embora fosse altamente improvável que sudras ou curumbis alguma vez tivessem tido tal oportunidade33.
A conversão de Locu Sinai em 154834
Um dos factos mais notáveis, relativos à cristianização de Goa, pelos missionários portugueses foi, sem dúvida, a conversão de Locu Sinai, “o maior gigante da gentilidade Goana35” e um dos três “Brâmanes principais desta Ilha (de Goa)36”. Os nomes deles – Crisná, tanadar-mor37, Locu e Gopu – ocupam o primeiro lugar entre os gancares que, a 28 de Junho de 1541, assinaram a convenção havida entre eles e o vedor da Fazenda e pelo Governador na ausência de D. Estevão da Gama, pela qual os gancaresderam e alargaram” “as rendas das terras dos Pagodes que nestas Ilhas havia.38

Locu era rendeiro-mor dos Estado e, como tal, diz Gaspar Correia que “tangendo bacias e trombelinhas nos recebimentos dos Governadores lhes faz feytiços com que logo lhe os Governadores obedecem a tudo o que elle quer.39

Mas Locu e Crisná sendo funcionários do Estado, gozavam prestígio e exerciam poderosa influência nos gancares para não se converterem ao cristianismo. Eram, por isso, o maior obstáculo à envangelização, em Goa, como escreve Martim Afonso de Melo, Fidalgo da Casa Real ao serviço do exército em Malaca, Molucas e Baçaim, a D. João III, em 6/11/1541:

Nestas ilhas de Goa se fazem muitas almas christãos de jemtios e mouros, e muito mais se fariam se nam fossem algumas pessoas que sostem os jemtios, scilicet, Crisna, Luqu e Anu Synai, e algums parentes destes, que sostem que se nam fação todo estes jemtios christãos...40

Crisná era rendeiro-mor em 1514; em 1520 estava em Portugal, onde “recebeo muitas merces e omrras d’el-rey dom Manuel... e que lhe prometeo de ser christão tamto que tornasse há India, com toda sua familia, por cujo repeito lhe foy feita merce do oficio de tanadar-moor e limgoa do Governador em sua vida, e elle nunqua se fez christão, antes elle e o filho sam is mores adversarios da nossa sancta fee que há em Goa...”41 Foi Criado e Cavaleiro em 1536, confirmado por El-Rei em 1542, por bons serviços prestados aos Portugueses.

Já Locu, após longas discussões que teve com o padre Gaspar Barzeu, S. J., se convenceu ou terá sido convencido a abraçar o cristianismo. É o próprio Padre Barzeu quem, em carta de 13 de Dez. de 1548, descreve a conversão de Locu aos Jesuítas, de Coimbra: “Soube que me ouviria no cárcere o principal dos brâmanes desta terra o qual se chama Locu, e segundo dizem e parece, e uma das principais cabeças da gentilidade. Encontrei-o um dia acompanhado de muitos brâmanes e outra gente e com ele um filho de Crisná. Deu-me nosso Senhor ânimo para os abordar. Discutimos largamente da sua lei e provei-lhe algumas cousas da nossa que ele desejava o provasse, produzi-lhe algumas comparações e razões naturais a seu modo. E, finalmente, depois de os haver, muitas vezes convencido, disse algumas cousas, rogando-lhes que pensassem nelas e pedissem a nosso Senhor que lhes iluminasse o entendimento e lhes desse a entender e conhecer a verdade para a seguir. O filho de Crisná se ria algo tanto de mim, mas achei Locu mais disposto. O qual daí a dois dias mandou dizer ao doutor Antonio Gomes que queria ser cristão. Encomendá-lo ao Senhor dando-lhe graças por este movimento, pedindo-lhe que o confirmasse e fomos logo para ai. E, falando com o Padre Antonio Gomes, se pôs em suas mãos, pedindo-lhe água de baptismo e dizendo-lhe que o ajudasse a salvar a sua alma, porque só a salvação dela o movia a ser cristão, e que nao parecesse que pensando que o podia restituir a liberdade, nem a outras cousas tinha respeito, porque em tudo queria que se guardasse justiça42. Foi o padre Antonio Gomes comunicar ao Governador e a pedir-lhe que o pusesse em liberdade, o qual a concedeu. E levámo-lo logo para o colégio onde em 8 dias aprendeu o que era necessário para lhe dar água do baptismo. E enquanto ali se estava preparando, nos mandou o padre Antonio Gomes a três Padres com cada um o seu destes nossos Irmãos canarins43, para entender na conversão destas almas. Converteram-se três, um sobrinho de Locu e outro homem principal entre eles.44

O baptismo de Locu, que tomou o nome de Lucas, revestiu-se de solenidade extraordinária. Foi baptizado pelo bispo D. Fr. João de Albuquerque, sendo padrinho o Governador Garcia de Sá (1548-1549) que lhe deu o seu apelido. Assistiu a nobreza e o povo e, por oito dias, continuaram as festas na cidade por esse tão grato acontecimento. Da conversão e do baptismo de Locu dá o bispo D. Fr. João de Albuquerque notícia pormenorizada na carta que, em 28 de Novembro de 1548, escreveu a D. João III, a qual reza assim:

O caso he que omtem, dominguo, bautisamos no colegio de Santa Fee a hum jemtio que se soia chamar Loquu, que aguora se lhe pos nome Luquas de Saa. O qual era segumdo Saulo em sostentar a todos os jemtios desta ilha e favorecer em sua seita. Foy mui riquo e abastado, e gramde arremdador d'alfamdegua e das outras remdas de V. A. muito tempo, e mui amiguo e servidor dos governadores, e comtino no paço e favorecido, mui larguo e guastador com os jemtios, damdo-lhes esmolas e fazemdo-lhes mercês porque não se tornassem christãos. E nisto levava vemtagem a Chrisnaa tanador-mor desta ilha, posto que Crisnaa aja sydo de mais credito que ele emtre jemtios: e este Crisnaa é mais symulado, e de socapa é favorecido e favorece a jemtilidade quamto pode. Teve por bem Nosso Senhor a este Loquu, sem pao e nem pedra, que quero dizer, sem preguaçomis, porque a muitos anos que não faziamos senao pilijar nele com preguaçomis particulares. Deixavamo-lo já; vem Deus, derriba-o do cavalo que he de omra em que amdava45, e da-lhe uns açoutes a Deus manifestos e a nós ocultos, de pobreza e mimguoa, e hum as pamquadas interiores em seu coraçao, que lhe cairão as escamas, que são as ydolatryas, paguodes, cerimonias, adoraçomis, comtumacias e toda imfidilidade etc... Com ele se bautisarão symquo pesoas, sua molher, dois guamquares omrados46 e hum seu sobrinho e outra molher. Fez-se gramde festa, acodio toda a cidade aver aquele bautismo, e todos os fidalguos e o Governador. Ouve choromelas e trombetas e atabales, ripicar de synos. Eu o bautisey, hum Padre da Congreguação47 levava o bacio, outro o saleiro, outro os oleos, outro hum cirio na mão, outro os pavios em prociçao pela crasta, omde ouve de muitos omes fartas lagrimas. Gracia de Saa, governador, foy seu padrinho. Preguou o Padre Amtonio Guomez em favor dos christaos da terra e da fee, e quamto custarão as almas a Jesu Christo, mui hem e comsolativamente.”48

O padre Barzeu, na carta supra-mencionada, de 13 de Dezembro de 1548, narra alguns detalhes que escapam ao bispo Albuquerque: “Ordenou-se o seu baptismo dentro do nosso colégio num domingo com uma missa mui solene e sermão. O Governador foi padrinho e o Bispo os baptizou. Puseram o nome a Locu Lucas de Sa e à sua mulher dona Isabel e ao seu sobrinho dom António. Levaram-no a cavalo acompanhados de toda a gente principal que aqui havia, e tambem muitos brâmanes, à casa de Rui Gonçalves (de Caminha), fazendo-se grande festa por toda a cidade, repicando-se os sinos das igrejas: as ruas mui enramadas e por esas postas muitas palmas da maneira como se põe os pinheiros no Rossio de Lisboa no dia da Ressurreição. Durou a festa uma semana inteira para a glória do Senhor. Diziam os gentios que, porque o pai se tornara cristão, os filhos que são todos eles assim o haviam de fazer. Diz ele (Locu) que há-de converter mais do que os cabelos que tem no seu corpo. Espero em Jesus Cristo Nosso Senhor que toda esta ilha mui depressa será convertida.49

Uma última descrição relativa às cerimónias e festividades, é nos oferecida pelo Padre Francisco de Sousa50:

Locu, “acabado o Baptismo, montou sobre um fermoso cavallo Arabio cuberto de ricos jaezes, & cortejado de toda a Fidalguia Portugueza correo as ruas da Cidade ornadas de varias sedas, & ramos de palmas dispostos com aprazivel artificio, dandolhe repetidos vivas o povo miudo entre os alegres repiques dos sinos, & continuos tiros de artelharia. Porèm o som mais jucundo eraõ as vozes dos gentios, que à vista da conversaõ da sua principal cabeça promettiaõ de se fazer Christãos, & muytos cumpriraõ a promessa. Durou este triumpho da Fè oyto dias, para dobrar com estas honrosas demonstrações a pertinacia gentilica, & por remate da festa deo o Governador ao Bramene o officio de Tanadar Mòr, hum dos principaes de Goa na estimação, & na renda, & que sempre andou em Fidalgos de respeyto ...”

A descedência de Lucas de Sá e de sua mulher Dona Isabel é conhecida até aos dias de hoje. Incialmente residentes na Ilha de Chorão, onde tinham jazido perpétuo na Igreja da Graça, passaram em 1762 à aldeia de Calangute quando da epidemia que assolou a referida ilha. É nessa aldeia que existe o solar desta família, hoje denominada de Bráz de Sá, com relacionamentos de parentesco com as principais famílias goesas da casta brâmane. Entre os descendentes de Locu Sinai, encontram-se alguns clérigos, advogados e médicos notáveis.



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