Fragmentos de pensamento e de paixãO



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FRAGMENTOS DE PENSAMENTO E DE PAIXÃO
Autor: Pietro Ubaldi
Tradução:

Rinaldi Rondino

e

Clóvis Tavares
ÍNDICE


Primeira Parte
APRESENTAÇÃO
Apresentação (1934)

Programa ("Ama a teu próximo como a ti mesmo") (1934)

Princípios (1952)

A Verdadeira Religião (1952)

Carta Aberta a Todos (1933)
Segunda Parte
EVOLUÇÃO ESPIRITUAL (1932)

Premissa

A Evolução Espiritual na Ciência e nas Religiões

Os Caminhos da Libertação

O Reinado do Super-Homem

Experiências Espirituais
Terceira Parte
VISÕES
O Canto das Criaturas (1932)

Tríptico (A noite A Aurora O dia) (1928)....

Cântico da Dor e do Perdão (1933)

Tríptico (Novembro - O Sino dos Mortos - Ressurreição) (1934)

Quarta Parte
O PROBLEMA DA EDUCAÇÃO
O Problema da Educação (1939)

A Psicologia da Escola (Impressões) (1933)

A Arte de Ensinar e de Aprender (1934)
Quinta Parte
PROBLEMAS ATUAIS

A Hora de Napoleão (1939)..

O Problema Agrário (1939)..

O Problema Religioso (1939).

Urbanismo e Raça (1939)

A Evolução e a Delinqüência (1939)

Sexta Parte
PROBLEMAS ESPIRITUAIS
Auto-observação da Mediunidade - Desenvol­vimento moral e elevação moral como fa­tores de uma alta mediunidade (1933)....

Consciência e Subconsciência (1930)

Por uma Vida Maior (1930)

A Reconstrução do Túmulo de S. Francisco -

Um grande erro psicológico (1930)

Os Ideais Franciscanos Diante da Psicologia

Moderna (1927)

Os Problema da Vida e do Além no "Fausto" de Goethe (1931)

Gênio e Dor (1935)

Sétima Parte
NOVELAS

EM BUSCA DA JUSTIÇA (TRIPITICO) — 1953


A Justiça Econômica

O Verdadeiro Amor

Encontro Consigo Mesmo




Primeira Parte
APRESENTAÇÃO





APRESENTACÃO

Apresento-me como homem.


A Entidade que me inspira mediunicamente e sobre mim exerce autoridade, no pensamento e na ação deve ter um representante terreno, alguém que assu­ma todo o peso da luta e da responsabilidade; que totalmente se exponha, moral e fisicamente, aos pe­rigos de uma realização novíssima, ao trabalho que toda grande conquista e todo progresso impõem, os necessária tensão para ultrapassar todos os obstáculos.
Tal sou e assim me coloco hoje, ao ingressar nos vida pública.
Nada possuo além do meu trabalho para viver e da minha obra para triunfar no bem. Dentro de mim e acima de mim, porém, vibra uma Voz que infunde respeito, que me arrasta e a todos irresistivelmente arrastará, voz que eu escuto e a que devo obedecer.
Já não á mais o momento de dizer — o tempo virá, mas, sim, de afirmar — o tempo chegou. Chegou a hora da grande ressurreição espiritual do mundo.
Eis o que sou: o servo desta Potência, o servo de todos, a serviço de todos, para o bem de todos. Nada mais me pertence, nem alma nem corpo: pertenço ao bem da humanidade. Deverei ser o primeiro no tra­balho, na dor, na fadiga e no perigo; e o primeiro serei nesse caminho e me esgotarei até a última dose de minha energia, até o último espasmo de meu lamento, até a última explosão de minha paixão.
Sou fraco, culpado e indigno; não tenho, porém, mais força para sufocar 'esta Voz que deseja explodir e falar ao mundo, arrastar os povos, abalar os podero­sos, convencer os doutos e todos conduzir a uma vida de bem e de felicidade. Serei considerado louco, bem o sei. Mas, Sua Voz tem um poder ao qual não mais sei resistir. E eu, o último dos homens, falarei ao mundo com palavras novas, num tom altíssimo, de coisas grandes e tremendas, em nome de Deus.
Estremeço e choro, ao escrever estas palavras. E o sinal positivo de que Ele, o Espírito que me assis­te, esta junto de mim e me faz escrever coisas que são incríveis.
Não obstante, as almas simples sentem, com um sentido que a ciência não tem e nunca terá, sentem por intuição de afetos e por penetração de amor, a completa naturalidade e a perfeita credibilidade des­tas coisas incríveis.
Tão intensamente profunda é essa intuição que a alma juvenil dos povos do outro hemisfério a sen­tiu, rápida, vibrante, espontânea, num reconhecimen­to que dizia: eu sei, em face da demorada, duvidosa e sofística análise científica da velha Europa E que a ciência analisa, toca e mede, mas não tem alma e somente com o cérebro nada se pode "sentir".
Brasil, terra prometida da nova revelação, terra escolhida para a primeira compreensão, terra aben­çoada por Deus para a primeira expansão de luz no mundo! Já um incêndio lá se levanta; instantânea e profunda foi a compreensão. Foi um reconhecimento sem análise, de quem sabe porque sente, de quem tom certeza porque vê. Os humildes, não solicitados compreenderam e se afirmaram os primeiros, sem provas, sem discussões, no terreno em que a ciência que tudo sabe nunca cessa de exigi-las.
A profunda emoção que me invade ao falar-vos o espasmo de paixão que me arrebata, o rasgar-se de meu coração a cada palavra não se podem medir nem calcular; mas, vós o sentis, embora a tão gran­de distância de tempo e de espaço! As lágrimas que me comovem enquanto escrevo, e caem sobre este papel, destas palavras ressurgirão e cobrirão vossos olhos quando as lerdes. E direis, irresistivelmente: "É verdade". E através dos anos convencerão e ar­rastarão outras almas que as vão ler e que, como vós, também dirão, irresistivelmente: "É verdade".
Porque a força que me arrebata também vos ar­rasta, a paixão que me inflama também vos incendeia e nos une a todos, num só esforço, numa tensão e num trabalho comuns, em favor do Bem. Como é grande e bela esta felicidade ilimitada de nos sentir­mos todos irmãos, profundamente irmãos, diante dess­a maravilhosa Voz que do Infinito a todos nos ali­menta! Como é doce, diante Dela, ensarilhar as tristes armas da rivalidade e da competição que pesam sobre nós e nos amarguram a vida Que grandioso e sentirmo-nos todos unidos, numa só Humanidade, num compacto organismo; não mais como pobres se­res solitários num mundo inimigo, mas cidadãos de um grande universo, onde cada ato tem um alvo, on­de toda vida constitui missão.
A Voz me arrebata neste momento e senhoreia-se de minha mão, como o faz sempre que deseja falar por meu intermédio. Eu A sigo, pequenino, confuso maravilhado por imensas visões.
Agora Ela me apresenta o planeta envolto numa faixa de luz e me faz ver uma humanidade mais fe­liz e mais sábia, ressurgindo das ruínas da geração de hoje; mas, também a ela pertenceremos e, quem houver semeado, colherá. Acima de nós que, lutan­do e sofrendo, semeamos, uma falange de Espíritos Puros estende-nos os braços, encorajando-nos e aju­dando-nos. Somos os operários de um grande trabalho, do maior trabalho que o mundo jamais realizou: a fundação da nova civilização do terceiro milênio.
Mãos à obra! Levantai-vos É chegado o momen­to. A palavra de Sua Voz encerra uma força miste­riosa, intrínseca, invisível, mas poderosa; imponderável, mas irresistível, e por ela sozinha avança, sa­bendo por si mesma escolher os meios humanos, so­licitando-os a todos, convidando à colaboração todos os homens de boa vontade. Ela avança e atinge os corações; persuade e convence, possuindo e ofertando a cada momento, de si mesma, uma prova eviden­te, o fato inegável de sua automática divulgação.
Mãos à obra! Espera-me, espera-nos um tremen­do trabalho, mas também uma imensa vitória. So­mente sob a direção de um Chefe sobre-humano o mundo poderia empreender uma obra tão gigantes­ca. Temos um Chefe no céu. Ele não traz senão a paz, o amor, o respeito a todas as crenças. Nada tem Ele a destruir do que seja terreno; a ninguém Ele agride; não toca a forma, que não é o essencial: encara a substância. Nada tem Ele a modificar do que seja terreno neste mundo; tudo quer vivificar com uma chama de fé, quer tudo aquecer com uma nova paixão de amor puro — o amor de Cristo es­quecido.
Nada tem a temer as autoridades nem o organismos humanos. É tão velho e inútil o expediente de modificar as organizações! Não mais criações de sistemas sempre novos e sempre velhos, mas criação do homem novo, que tem origem, no íntimo, onde está a alma e não no exterior. Toda organização e boa quando o homem é bom; é má quando mau é o homem.

O novo Reino não á deste mundo e jamais se tocará no que lhe pertence. Não está surgindo um novo organismo humano, com chefes e subordinados, com cargos e funções, com propriedades e direitos. Não. Absolutamente nada disso. Trata-se, eu vos digo do Reino de Deus, do Reino que o mundo ainda espera, que o mundo ainda invoca: “Veniat Regnum tuum1. É um reino de almas, de amor e de paz; não possui sedes, não tem riquezas, nada possui; não tem senão a tarefa do dever, o amor do bem, a paixão do sacrifício, a grandeza do martírio. E quem for o pri­meiro nesse caminho será o maior nesse Reino de Deus.


Almas distantes, que no Brasil tudo compreendestes, distantes pelo espaço, mas tão perto do cora­ção, que o meu abraço vos chegue forte, profundo, imenso, como eu o sinto agora, nesta solidão montanhosa de Gúbio, no mais alto silêncio da noite, com minha alma nua diante de Cristo, cujo olhar me penetra, me envolve e me vence.
Humildemente, como o último dos homens que sou, eu vos suplico, pela compaixão que pode inclinar-vos para o mais frágil e abatido dos seres: ajudai-me a compreender este mistério tremendo que em mim se processa, ajudai-me a cumprir esta obra imen­sa cujos limites não alcanço.
Gúbio (Itália), na noite de 6 de fevereiro de 1934
PROGRAMA
"Ama a teu próximo como a ti mesmo

Depois do escrito anterior Apresentação im­porta, de imediato, precisar os conceitos para evitar mal-entendidos, falsas interpretações, transposição de metas e de princípios.


O conceito de Sua Voz é claro e exato. Aqui o exponho com o menor numero possível de palavras, cristalino e adamantino qual o sinto explodir em mim, para que resista a todo choque e a qualquer desvio.
O principio e o conteúdo do movimento são es­trita e exclusivamente evangélicos. Tudo aquilo que não pode permanecer no Evangelho de Cristo não pode igualmente permanecer neste movimento. Não é possível distorcer em nenhum sentido estas palavras.
As conseqüências são, de igual modo, simples e evidentes.
O movimento e quantos dele participam devem manter-se dentro do princípio fundamental do Evan­gelho: "Ama a teu próximo como a ti mesmo". Não existe outro caminho possível. Quem não puder as­similar este princípio espiritual naturalmente estará excluído.
O movimento, qual o Evangelho, é apolítico e supernacional. É simplesmente humano em sua universalidade. E interior e espiritual, não externo nem material, a não ser em suas últimas e inevitáveis conseqüências, as quais não tocam, de modo algum, nas normas humanas, absolutamente fora de seus objeti­vos e de qualquer discussão.
Assim sendo, o movimento é também super-religioso, pois não atinge nenhuma expressão religiosa, mas as respeita todas, antes de tudo reconhecendo­-as, tanto que as envolve todas num único amplexo. assim faz do dividido pensamento humano uma potência de concepção unitária, das separadas e multiformes crenças um ímpeto concorde de fé, de espe­rança e de paixão para um Deus que deve ser o mes­mo e uma Verdade que deve ser a mesma, para todos.
Como tal, o movimento a todos convoca para que todos se unam em colaboração. Eis porque não existirão, como já se disse no precedente escrito, nem chefes, nem subordinados, nem cargos, nem funções, nem propriedades, nem direitos, nem sedes, nem ri­quezas. A edificação deve efetuar-se, para cada um, no intimo da própria alma, qual obra e construção sua. Indistintamente, todos são chamados à colabo­ração, para que cada um seja o criador, na próprio coração, do Reino de Deus.
Os meios humanos são, portanto, todos excluídos, porque não necessários. O novo Reino deve nascer, não nas organizações humanas, mas no coração dos homens. E cada um deve realizar essa criação antes de tudo em si mesmo, tornando-se melhor.
Não é, pois, preciso outro Chefe senão Deus, nem outro comando exceto a voz justa da consciência. Dir-me-eis, porém: Isto não basta para fazer uma religião. E eu vos digo: Não se trata de uma religião, mas de uma força que deve reavivar todas as religiões existentes.
Para quem discordar, não existe qualquer dispositivo de coerção como nas normas humanas, senão o perda automática da posição privilegiada de se­guidor de Cristo — a perda da proteção da Lei justa de Deus. Isso significa uma rendição à feroz lei ter­restre da luta e da força sem justiça. A Lei Divina, sempre presente, no interior das coisas e dos seres, não admite mentiras, porquanto é imanente na cons­ciência. Não admite violações nem fugas, por situar­-se no mais íntimo do espírito humano.
Eis a absoluta novidade deste movimento na história de todas as experiências humanas. Dele são excluídos: comando, riqueza, força. Ele é construção eterna e não pode, por isso, usar senão materiais eternos. Cada empreendimento é uma construção cuja durabilidade depende dos materiais utilizados. Quem usar da espada perecerá pela espada; quem usar da violência pela violência perecerá, pois os meios usados como causa recaem depois, por força da Lei Eterna, inexoravelmente, como efeito sobre seu agente.
Se o movimento não atender a estes princípios será ilusório e caduco, como todas as coisas humanas E qualquer elemento humano que nele introduzirdes ser-lhe-á como um caruncho destruidor, uma força lenta continuamente em tensão para a destruição.
Como movimento social, inspira-se, portanto, em princípios nunca usados pelo homem na história do mundo. Por estas características, reconhecereis que ele vem do Alto, de um mundo não vosso, porque nenhum elemento vosso nele é introduzido nem nele está contido; ao contrário é cuidadosamente excluído.
A imediata conseqüência prática desta claríssi­ma tomada de posição diante do mundo é a seguint­e: Se todos são admitidos, contanto que puros e honestos de coração, são automaticamente excluídos aqueles que tais não são. Depuração, portanto, por força intima da realidade.
Vós, da Terra,2 acostumados como sois a mover­-vos constantemente num mundo de imposição e de força, sem nada poderdes obter sem estes meios, di­ficilmente vos inteirais da intervenção de quais forças sutis, invisíveis e íntimas, poderosíssimas e invioláveis, seja feito este movimento. Destes princípios aqui enunciados emana imediatamente esta conseqüência pratica e evidente: não podem tomar parte neste movimento os inaptos.
Por ser ele alicerçado sobre aqueles princípios, os gananciosos de riqueza, de mando, de glória e po­der, sempre prontos e à espera para fazer especula­ção de tudo, até das coisas de Deus, não encontra­rão alimento algum, o mínimo ponto de apoio e por si mesmos se afastarão.
Obtém-se, então, automaticamente, sem demora, sem gasto de energia, o afastamento da primeira ameaça que surge em qualquer movimento humano — a possibilidade de desfrute. Evita-se que o mal possa aninhar-se nele, e obtém-se, ainda, que seja imediatamente eliminado Vede qual potência con­tém o imponderável fator moral, também nas organi­zações humanas. Esse poder é tal que pode substi­tuir esplendidamente, se genuíno, todos os vossos exércitos, as vossas complexas transações econômicas, todo esse tremendo equipamento de obrigações e vínculos que demonstram não vossa força, mas vos­sa fraqueza. E por caminhos assim tão simples con­seguireis vantagens e uma perfeição que nenhuma organização humana pode alcançar. Aqui não exis­tem atritos, pois não há luta nem força, nem pode ha­ver traição, porquanto não existe mentira. O inimigo é externo: o mal; mas, o mal não se vence com outro mal, mas, sim, com o bem.
As rodas sobre as quais avança este organismo são — altruísmo (e não egoísmo), pobreza, dever, amor, sacrifício e, se necessário for, o martírio. Ante o perfume destas grandes coisas as almas perversas fogem e, numa atmosfera assim rarefeita, os indignos sufocam e velozmente se afastam para nunca mais se aproximarem. Eis as bases. Eis o tesouro que vos dará alimento e poder, eis o exército que vos defen­derá.
É esta, pois, uma cruzada de homens honestos, simplesmente honestos. Não importa ciência, nem ri­queza, nem poderio. Disso não temos necessidade. Atras do justo, existe uma força tremenda a Lei Divina, que o protege. Não vos preocupeis se não per­ceberdes essa Lei. Ela é a mais profunda realidade da vida. Não temais se esta realidade permanecer sufocada em vosso baixo mundo de dor, encoberta pela vossa densa atmosfera de culpa. Cada homem a sente no profundo de sua consciência com um ins­tinto incoercível. Mas, o justo, logo haja alcançado os mais altos níveis de vida, de imediato a encontra e a sente com absoluta confiança e por ela se reco­nhece seguramente amparado.
Esta cruzada de homens novos se constitui hoje no mundo para sua salvação. Seus componentes se recrutarão em todas as classes, em todas as crenças, em todos os países.
Não se trata de vãs utopias. São possibilidades lógicas e reais, baseadas sobre forças concretas, em­bora sejam para vós imponderáveis.
Uma só coisa basta: ser honesto E basta sê-lo para sentir-se irmão e unido aos irmãos honestos. Não vos reconhecereis por sinais exteriores, mas so­mente por essa íntima sensação que vos lançará ir­resistivelmente uns nos braços dos outros. Não vos fatigueis, como sempre tendes feito, a escavar abis­mos entre vós em todos os campos, mas lutai para reencontrar-vos todos nesta unidade substancial de espíritos. Ela é urgente, pois que são iminentes e tre­mendos os tempos que a impõem como questão de vida ou de morte.
* * *
Nestas palavras, não minhas, mas de Sua Voz, tudo é construtivo. Nunca atacam e se há alguma coisa para destruir, elas com isso não se preocupam, mas a deixam em abandono para que caia por si: não existe mais ativo agente de destruição do inútil do que um novo organismo vital em funcionamento.
Se um corpo é velho e moribundo, afadigar-vos­-eis em destruí-lo? O que é verdadeiramente inútil cairá por si mesmo, sem necessidade de se acionar uma causa de destruição violenta, que recairia de­pois inexoravelmente sobre quem a movimentou. Acreditais que para demolir aquilo que é inútil, seja mesmo indispensável a intervenção do homem e que ele seja capaz de guiar e escolher com segurança, e que a Lei não contenha em si os meios para afastar aquilo que não tem razão de ser? Como podeis crer seja isso possível num organismo totalmente regido por um perfeito equilíbrio, qual é o universo?
A condição para ser admitido neste movimento é um simples exame de consciência perante Deus. Coi­sa simples, profunda e imensa, fácil e tremenda. Mas, isto nada é, dirá o mundo. Entretanto, isto é tudo, diz o Espírito. Experimentai seriamente e senti­reis que é verdade. É esta coisa simples e tremenda que o homem deve hoje fazer, à margem do abismo onde, se não se detiver, cairá de maneira terrível.
E se vós, almas sedentas de ação exterior, de movimento e de sensações, quereis evadir-vos desta íntima vida do espírito para ingressar em vossa exte­rior realidade humana e trabalhar, clamar, conquis­tar e vencer também com os braços e com a ação, en­tão vos digo: "Saí, saí de casa; ide ao vosso inimigo mais cruel, àquele que mais vos tem traído e torturado e, em nome de Cristo, perdoai-lhe e abraçai-o; ide àquele que mais vos tem roubado e cancelai-lhe o débito, e mais, entregai-lhe quanto possuís; ide aque­le que mais vos insultou e dizei-lhe, em nome de Cristo: Eu te amo como a mim mesmo, porque és meu irmão.
Direis: Isso é absurdo, é loucura, é desastroso; é impossível sobre a Terra esta deposição de armas. Mas, eu vos digo: Vós sereis homens novos somente quando usardes métodos e recursos novos. De outra forma, não saireis nunca do ciclo das velhas conde­nações que eternamente punirão a sociedade das suas próprias culpas. Pela mesma razão pela qual Cristo se ofereceu na cruz, hoje a humanidade deve sacrificar-se a si mesma por esta sua nova, profunda, absoluta e definitiva redenção. Porque sem holocaus­to nunca haverá redenção.

O mundo louco arma-se contra si mesmo, com perspectivas sempre mais desastrosas, de recursos tremendos em face dos atuais progressos científicos. Uma conflagração bélica não deixará mais nenhum homem salvo sobre a Terra, se a loucura humana não se detiver a tempo. Onde o homem assim proce­de não existe senão uma extrema defesa: o abando­no de todas as armas.


Dizeis: Mas, nós temos o dever de viver.
E eu vos digo: Quando vós, com ânimo puro, dis­serdes Em nome de Deus — então, tremerá a Terra porque as forças do Universo se moverão; quando fordes verdadeiramente justos, quando inocentes, se a violência vos ferir, triunfando momentaneamente, o Infinito precipitar-se-á aos vossos pés para dar-vos a vitória e levantar-vos ao Alto, na condição de tri­unfadores na Eternidade, bem longe do átimo de tem­po em que a violência venceu.
* * *
Eis os princípios que Sua Voz me transmite — desta vez não mais sob forma afetuosa, mas feitos de poder e conceito.
Eis o que Sua: Voz pede a alma do mundo. Sua alma coletiva, una e livre como uma alma individual, pode escolher e dessa escolha dependerá o futuro. Sua Voz afasta-se, em silêncio, de quem não A segue.
Eis o que Sua Voz pede, primeiramente ao Bra­sil, escolhido para a primeira afirmação destes prin­cípios no mundo. E esta afirmação deve ser um imen­so amplexo de amor cristão. Será a primeira cente­lha de um incêndio que nos deve inflamar de bonda­de para dissolver o gelo de ódio e rivalidade que di­vide, esfomeia e atormenta o mundo.
Este é o espírito dos novos tempos. Somente quan­do virmos este espírito voltar à vida dos povos, é que poderemos dizer que Cristo voltou outra vez e esta presente entre nós.
Gúbio (Itália), na noite de 12 de fevereiro de 1934

PRINCÍPIOS
(1952)

O primeiro dever de uma revista que nasce é orientar, claramente, seu pensamento e declarar com sinceridade seus objetivos: uma linha de conduta se­gundo princípios aos quais, depois, devera permane­cer fiel.


O escopo desta revista é operar a transformação desses princípios em vida vivida, isto é, ajudar a nas­cer, do homem de hoje, tipo biológico mais evolvido, representado pelo homem novo do Terceiro Milênio.
Este movimento inicia-se no Brasil, tendo lambem em vista sua futura grandeza como nação
Enunciar um princípio, aqui, significa, pois, vivê-lo.
Antes de iniciar o argumento, faz-se necessária uma premissa.
O signatário pede desculpas se algumas vezes tiver de pronunciar a palavra eu. Por essa razão é bom esclarecer e estabelecer desde o princípio que ele nada pede jamais para si e não quer absolutamente ser chefe de coisa alguma. Quis, por isso, que a denominação ABAPU (Associação Brasileira dos Amigos de Pietro Ubaldi) fosse substituída pela de ABUC (Associação Brasileira da Universalidade de Cristo)3, para que a idéia se antepusesse a qualquer personalismo. E este é já um princípio geral para ser vivido.
Outro princípio geral: o que importa não é a pes­soa, mas a idéia. 1
Estes princípios já definem a posição do subscri­tor que deverá ser sempre o primeiro a aplicá-los, vi­vendo-os. Sua posição é de oferecer, apenas oferecer, o produto de sua inspiração. Isto ele já o tem feito ao mundo.
O Brasil, em primeiro lugar, o compreendeu e o aceitou.
O signatário deseja, apenas, uma coisa: que isto seja para a grandeza desta nação que ele agora aprendeu a amar imensamente. Sua posição, ele o quer, deve ser, apenas, esta: a daquele que serve e não a de quem é servido; a de quem se põe a serviço dos outros e não a de quem os subordina ao próprio orgulho, domínio ou egoísmo; é a posição daquele que obedece e não a de quem comanda.
Ele serve ao próximo e obedece a Deus — outro princípio geral para ser vivido.
Cada ato de nossa vida deve ser inspirado por estes princípios e pelos que exporemos depois.
Aquele que está em posição mais elevada, mais deverá vivê-los, mais é responsável diante de Deus e dos homens.
Com tudo isto, estamos recordando que todos nós temos o dever do exemplo, primeiro dever, somente com o qual se podem pregar quaisquer princípios, demonstrando, antes com fatos que com palavras, que eles podem ser vividos. De outra maneira não se tem o direito de pregar — outro princípio geral.
O leitor vê como, desde a primeira enunciação, os princípios aqui se apresentam, não teóricos e abs­tratos, mas numa forma vivida ou para viver.
Quem quiser buscar-lhes a justificação sistemá­tica e racional poderá aprofundar-se em seu estudo nos volumes do subscritor, também oferecidos ao mundo para que os que amam o conhecimento aprendam, saciando a inteligência. Ele apenas oferece, por uma convicção espontânea, sem jamais impor.
Eis-nos diante de outro princípio geral para ser vivido: Oferecer, nunca impor a verdade. Eis o patrimônio espiritual de cada consciência. Nunca in­troduzir-se na alma alheia com a violência da argu­mentação, numa guerra de idéias, para subjugar o semelhante; antes, procurar todos os meios de comu­nicação que conduzem a compreensão.
É lei vital que a época dos absolutismos, dos dogmatismos, dos imperialismos ideológicos hoje, se vá superando e eliminando.
A nova era é a da bondade na compreensão re­cíproca; da convicção de todos no seio de um mesmo Deus: é a era do amor. O princípio é: Procurar o que une e evitar o que divide.
Devendo nós vivermos tudo isto, conclui-se que aqui será sempre evitado o espírito de polêmica, pois este é considerado como expressão da psicologia de um tipo biológico atrasado, que está sendo, cada vez reais, superado pela evolução.
Nosso método é, pois, o de não oferecer nunca aos ávidos de polêmica a resistência de outra polêmica, isto é, o mau exemplo de luta e guerra.
Seja nosso método o do Evangelho.
Este é o método dos evolvidos, ao passo que o outro é o método que logo revela o involuído, biolo­gicamente atrasado. É o único método que vence porque, enquanto na luta ambas as partes se dilaceram, ganhando apenas em ferocidade e perversida­de! com nosso método, o antagonista, não encontran­do alimento para seu espírito de agressão, por si mes­mo se desarma e cai.
Como se vê, os nossos princípios não são uma novidade, pois que são os conhecidíssimos princípios do Evangelho.
Propomo-nos, apenas, a vivê-los seriamente, con­vencidos de que disso pode nascer hoje o homem novo e, com ele, uma nova geração e uma grande nação.
Deve ser o método usado, pois é o que revela a própria natureza, o próprio tipo biológico de evolvi­do ou involvido, a própria superioridade ou inferioridade.
A idéia de vencer esmagando o adversário re­vela imediatamente o involvido.
Ainda quando isto se faça em nome de verdades absolutas e assim se justifique, na realidade exprime biologicamente instintos de agressão.

Compreendamos que a verdade é relativa e pro­gressiva e que nos foge em seu aspecto absoluto. Nós, relativos, não podemos possuí-la senão por pro­gressivas aproximações.


Existe um outro princípio que se segue a este: Sejamos sempre construtivos, isto é, operemos em sen­tido positivo, unitário, como é o bem, e jamais seja­mos destrutivos, isto é, nunca ajamos em sentido negativo, separatista, como é o mal.
Tudo o que é agressividade é satânico; O Evan­gelho não o é nunca.
Seja nossa obra todo um amplexo ao mundo e, unicamente, um amplexo de amor.
Guerra, jamais, a ninguém, por nenhuma razão. A vitória estável e verdadeira obtém-se apenas com a bondade, o amor, o exemplo, a convicção.
Que o Evangelho, tão pouco vivido até hoje, se transforme na forma de vida do homem novo, num novo método de viver, que penetre cada ato nosso, demonstre que somos evolvidos e se manifeste com nosso exemplo a cada momento.
Que no terreno filosófico, político, religioso, isso signifique tolerância. Não, porém, uma tolerância raivosa, na atitude de quem suporta com desdém o erro alheio; ao contrário, uma, tolerância que busca os pontos de contato, os pontos comuns, e se alegra quando pode dizer: "Mas, então, concordamos em muitas coisas! Não estamos, pois, tão distanciados quanto nos parecia. Podemos entender-nos um pou­co e não há necessidade de contenda".
Em sua saudação repetida em quase todas as conferências no Brasil, o signatário afirmou seus dois princípios fundamentais: universalidade e imparcialidade.
Que significam eles?
São o emblema do homem novo.
Sua Voz, já na primeira Mensagem do Natal, em 1931, estabelecia estes princípios fundamentais que são, depois, desenvolvidos em toda a obra:
"Falo hoje a todos os justos da terra e os chamo de todas as partes do mundo a fim de unificarem suas aspirações e preces numa oblata que se eleve ao céu. Que nenhuma barreira de religião, de na­cionalidade ou de raça os divida, porque não está longe o dia em que somente uma será a divisão en­tre os homens: justos e injustos... Minha palavra é universal... Uma grande transformação se aproxima para a vida do mundo..."
Brevemente o mundo se organizará sobre um princípio novo que não será dado por um imperialis­mo religioso, isto é, pela vitória de uma religião que, por absolutismo, se imponha a todas as outras. Não é por este caminho que se chegará a unidade, a sa­ber, um só rebanho e um só pastor.
O único pastor será Cristo e o único rebanho será formado por uma humanidade em que as várias religiões não se combatam e não se condenem mais reciprocamente; ao contrário, se compreendam e co­ordenem, fazendo dos homens todos filhos diante de um único Deus, um só Deus, pai de todos.
Esta compreensão e coordenação é a primeira forma em que se revelará o amor, em sua era que está para surgir — a nova civilização, o reino de Deus.
Como aplicaremos este princípio? Fraternizando. Se os outros condenam, perdoemos e amemos.
Como respondeu Cristo aos agressores? O seu método seja o nosso método. Aos ataques, às polê­micas, as condenações, respondamos com o exemplo da compreensão. Demonstremos com os fatos que e homem novo possui um novo método de vida e abandonemos o velho método ao homem do tipo do passado.
Este vive mais no exterior que no interior. Suas inclinações se dirigem, de preferência, ás manifestações exteriores da fé: seguir determinada escola, igre­ja ou grupo, dar-se a certas práticas visíveis.
Aquele que compreende e tem a força de renun­ciar às manifestações, indispensáveis aos primitivos, recolha-se o mais que puder na religião de substân­cia, que é interior, sozinho quando for necessário, pa­ra eliminar ataques e dissídios da religião de forma que é exterior.
A maioria não sabe pensar senão fisicamente, com movimentos do corpo e da boca. O evolvido, porém, sabe que a religião de substância, mãe de todas as religiões, está acima da forma e de toda manifesta­ção sensória: é uma religião mais profunda, sentida e vivida, feita de alma e de ação, não de práticas materiais, na qual todas as religiões encontram lugar.
Esta, verdadeiramente, é a religião.
As religiões tem três fases. A primeira, a mais antiga, é a terrorística, feita de um Deus vingativo que se faz obedecer inexoravelmente, punindo com a lei de talião. A segunda, mais recente,. é a ético-jurídica, feita de uma codificação de normas de vida.
É o evolver da natureza humana inferior que po­de permitir uma manifestação de Deus, a fazer trans­parecer cada vez mais Sua Bondade.
Somente hoje a maturação humana pode permi­tir que, sem o perigo de abusos, antes temíveis, se possa passar a terceira fase, da compreensão, na qual as religiões são livres e convictas, cada vez mais transformadas da forma, em que lutam os inte­resses, em substância, que é amor.
Elas se sucedem, não porque sejam sancionadas por penalidades (inferno), mas porque se compreen­de que significam o nosso bem.
Nesta fase cai e perde a significação o terror de um Deus vingativo.
Assim, por evolução, do conceito de um Deus to­do força, o senhor com o azorrague, como era o ho­mem com seus escravos, árbitro absoluto de tudo con­forme seu capricho, passa-se ao Deus justo que res­peita completamente a Lei que Ele estabeleceu, como o homem moderno que deve respeitar as leis que ele cria para si mesmo no Estado.
Desse modo, por evolução, passa-se agora ao conceito de um Deus não só justo, mas também bom, que nos ama para a nossa felicidade, como o homem civilizado e compreensivo de amanhã amará seu próximo, nas grandes unidades sociais do futuro. Assim, por lento transformismo, o terror, na progressi­va reabsorção do mal, operada pela evolução, des­faz-se na justiça e esta se aperfeiçoa e se enriquece no amor.
Hoje se passa da segunda a terceira fase. Ainda se funde e se confunde o útil com a verdade. O in­teresse predomina, porque predomina a forma. O re­banho para ser apascentado, a que tanto aspiram as religiões, tem-se transformado muitas vezes em reba­nho para mungir, propriedade do pastor.
Pelo princípio das grandes unidades, a evolução leva à unificação e guia hoje o mundo em todos os campos, logo, também no religioso, a fase orgânica, em que não há luta de rivais, mas colaboração de irmãos. Penetra-se na fase do amor. O mundo se distancia cada vez mais da primitiva fase caótica e a ordem se faz sempre mais compreendida, convin­cente, espontânea.
O Brasil, dentre suas qualidades, tem, sobretudo, a da tolerância recíproca: ausência de intransigência­ de absolutismos, de racismo. É, pois, acima de tudo, a terra do amor, ainda que este esteja, muitas vezes, apenas em suas manifestações mais elemen­tares. Já é, contudo, amor e pode subir.
Como representa a fusão das raças, também re­presenta a capacidade de fusão de idéias. Esta ca­pacidade do Brasil, de amar em todos os níveis, se for desenvolvida em direção ao espírito, poderá ama­nhã fazer do Brasil a Nação mais capaz de compre­ender, representar e divulgar no mundo aquela que aqui chamamos a religião, isto é, religião de substância, que é a religião do exemplo, da bondade e do amor.


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