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OS MENSAGEIROS

FRANCISCO CÂNDIDO XAVIER


DITADO PELO ESPÍRITO ANDRÉ LUIZ

(2)
Série André Luiz


1 - Nosso Lar

2 - Os Mensageiros

3 - Missionários da Luz

4 - Obreiros da Vida Eterna

5 - No Mundo Maior

6 - Agenda Cristã

7 - Libertação

8 - Entre a Terra e o Céu

9 - Nos Domínios da Mediunidade

10 - Ação e Reação

11 - Evolução em Dois Mundos

12 - Mecanismos da Mediunidade

13 - Conduta Espírita

14 - Sexo e Destino

15 - Desobsessão

16 - E a Vida Continua...

ÍNDICE
Os Mensageiros
CAPÍTULO 1 = Renovação

CAPÍTULO 2 = Aniceto

CAPÍTULO 3 = No Centro de Mensageiros

CAPÍTULO 4 = O caso Vicente

CAPÍTULO 5 = Ouvindo instruções

CAPÍTULO 6 = Advertências profundas

CAPÍTULO 7 = A queda de Otávio

CAPÍTULO 8 = O desastre de Acelino

CAPÍTULO 9 = Ouvindo impressões

CAPÍTULO 10 = A experiência de Joel

CAPÍTULO 11 = Belarmino, o doutrinador

CAPÍTULO 12 = A palavra de Monteiro

CAPÍTULO 13 = Ponderações de Vicente

CAPÍTULO 14 = Preparativos


CAPÍTULO 15 = A viagem

CAPÍTULO 16 = No Posto de Socorro


CAPÍTULO 17 = O romance de Alfredo

CAPÍTULO 18 = Informações e esclarecimentos

CAPÍTULO 19 = O sopro

CAPÍTULO 20 = Defesas contra o mal

CAPÍTULO 21 = Espíritos dementados

CAPÍTULO 22 = Os que dormem

CAPÍTULO 23 = Pesadelos

CAPÍTULO 24 = A prece de Ismália

CAPÍTULO 25 = Efeitos da oração

CAPÍTULO 26 = Ouvindo servidores

CAPÍTULO 27 = O caluniador

CAPÍTULO 28 = Vida social

CAPÍTULO 29 = Notícias interessantes

CAPÍTULO 30 = Em palestra afetuosa

CAPÍTULO 31 = Cecília ao órgão

CAPÍTULO 32 = Melodia sublime

CAPÍTULO 33 = A caminho da Crosta

CAPÍTULO 34 = Oficina de «Nosso Lar»

CAPÍTULO 35 = Culto doméstico

CAPÍTULO 36 = Mãe e filhos

CAPÍTULO 37 = No santuário doméstico

CAPÍTULO 38 = Atividade plena

CAPÍTULO 39 = Trabalho incessante

CAPÍTULO 40 = Rumo ao campo

CAPÍTULO 41 = Entre árvores

CAPÍTULO 42 = Evangelho no ambiente rural

CAPÍTULO 43 = Antes da reunião

CAPÍTULO 44 = Assistência

CAPÍTULO 45 = Mente enferma

CAPÍTULO 46 = Aprendendo sempre

CAPÍTULO 47 = No trabalho ativo

CAPÍTULO 48 = Pavor da morte

CAPÍTULO 49 = Máquina divina

CAPÍTULO 50 = A desencarnação de Fernando

CAPÍTULO 51 = Nas despedidas

Os Mensageiros
Lendo este livro, que relaciona algumas experiências de mensageiros espirituais, certamente muitos lei­tores concluirão, com os velhos conceitos da filosofia, que “tudo está no cérebro do homem», em virtude da materialidade relativa das paisagens, observações, ser­viços e acontecimentos.

Forçoso é reconhecer, todavia, que o cérebro é o aparelho da razão e que o homem desencarnado, pela simples circunstância da morte física, não penetrou os domínios angélicos, permanecendo diante da pró­pria consciência, lutando por Iluminar o raciocínio e preparando-se para a continuidade do aperfeiçoamento noutro campo vibratório.

Ninguém pode trair as leis evolutivas.

Se um chimpanzé, guindado a um palácio, encon­trasse recursos para escrever aos seus Irmãos de fase evolucionária, quase não encontraria diferenças fun­damentais para relacionar, ante o senso dos semelhan­tes. Daria noticias de uma vida animal aperfeiçoada e talvez a única zona Inacessível às, suas possibilidades de definição estivesse justamente na auréola da razão que envolve o espírito humano. Quanto às formas de vida, a mudança não seria profundamente sensível. Os pelos rústicos encontram sucessão nas casimiras e sedas modernas. A Natureza que cerca o ninho agreste é a mesma que fornece estabilidade à mora­dia do homem. A furna ter-se-ia transformado na edificação de pedra. O prado verde liga-se ao jardim civilizado. A continua ção da espécie apresenta fenôme­nos quase idêntico. A lei da herança continua, com ligeiras modificações. A nutrição demonstra os mes­mos trâmites. A união de família consangüínea revela os mesmos traços fortes. O chimpanzé, desse modo, somente encontraria dificuldade para enumerar os pro­blemas do trabalho, da responsabilidade, da memória enobrecida, do sentimento purificado, da edificação espiritual, enfim, relativa à conquista da razão.

Em vista disso, não se justifica a estranheza dos que lêem as mensagens do teor das. que André Luis endereça aos estudiosos devotados à construção espi­ritual de si mesmos.

O homem vulgar costuma estimar as expectativas ansiosas, à espera de acontecimentos espetaculares, es­quecido de que a Natureza não se perturba para satis­fazer a pontos de vista da criatura.

A morte física não é salto do desequilíbrio, épasso da evolução, simplesmente.

Á maneira do macaco, que encontra no ambiente humano uma vida animal enobrecida, o homem que, após a morte física, mereceu o ingresso nos círculos elevados do Invisível, encontra uma vida humana su­blimada.

Naturalmente, grande número de problemas, refe­rentes à Espiritualidade Superior, ai espera a criatura, desafiando-lhe o conhecimento para a ascensão sublime aos domínios iluminados da vida, O progresso não sofre estacionamento e a alma caminha, incessante-mente, atraida pela Luz Imortal.

No entanto, o que nos leva a grafar este pre­fácio singelo, não é a conclusão filosófica, mas a necessidade de evidenciar a santa oportunidade de tra­balho do leitor amigo, nos dias que correm.

Felizes os que buscarem na revelação nova o lugar de serviço que lhes compete, na Terra, consoante a Vontade de Deus.

O Espiritismo cristão não oferece ao homem tão somente o campo de pesquisa e consulta, no qual raros estudiosos conseguem caminhar dignamente, mas, mui­to mais que isso, revela a oficina de renovação, onde cada consciéncia de aprendiz deve procurar sua justa integração com a vida mais alta, pelo esforço interior, pela disciplina de si mesma, pelo auto-aperfeiçoamento.

Não falta concurso divino ao trabalhador de boa vontade. E quem observar o nobre serviço de um Ani­ceto, reconhecerá que não é fácil prestar assisténcia espiritual aos homens. Trazer a colaboração fraterna dos planos superiores aos Espíritos encarnados não é obra mecânica, enqüadrada em princípios de menor esforço. Claro, portanto, que, para recebé-la, não po­derá o homem fugir aos mesmos imperativos. É in­dispensável lavar o vaso do coração para receber a “água viva”, abandonar envoltórios inferiores, para vestir os “trajes nupciais” da luz eterna.

Entregamos, pois, ao leitor amigo, as novas pági­nas de André Luiz, satisfeitos por cumprir um dever. Constituem o relatório incompleto de uma semana de trabalho espiritual dos mensageiros do Bem, junto aos homens e, acima de tudo, mostram a figura de um emissário consciente e benfeitor generoso em Aniceto, destacando as necessidades de ordem moral no qua­dro de serviço dos que se consagram às atividades nobres da fé.

Se procuras, amigo, a luz espiritual; se a anima­lidade já te cansou o coração, lembra-te de que, em Espiritualismo, a investigação conduzirá sempre ao Infinito, tanto no que se refere ao campo infinitesimal, como à esfera dos astros distantes, e que só a transformação de ti mesmo, à luz da Espiritualidade Supe­rior, te facultará acesso da fontes da Vida Divina. E, sobretudo, recorda que as mensagens edificantes do Além não se destinam apenas à expressão emocional, mas, acima de tudo, ao teu senso de filho de Deus, para que faças o inventário de tuas próprias realiza­ções e te integres, de fato, na responsabilidade de vi­ver diante do Senhor.
EMMANUEL
Pedro Leopoldo, 26 de fevereiro de 1944.

1

Renovação
Desligando-me dos laços Inferiores que me prendiam às atividades terrestres, elevado entendi­mento felicitou-me o espírito.

Semelhante libertação, contudo, não se fizera espontânea.

Sabia, no fundo, quanto me custara abandonar a paisagem doméstica, suportar a incompreensão da esposa e a divergência dos filhos amados.

Guardava a certeza de que amigos espirituais, abnegados e poderosos, me haviam auxiliado a alma pobre e imperfeita, na grande transição.

Antes, a inquietude relativa à companheira tor­turava-me incessantemente o coração; mas, agora, vendo-a profundamente identificada com o segundo marido, não via recurso outro que procurar diferentes motivos de interesse.

Foi assim que, eminentemente surpreendido, observei minha própria transformação, no curso dos acontecimentos.

Experimentava o júbilo da descoberta de mim mesmo. Dantes, vivia à feição do caramujo, segre­gado na concha, impermeável aos grandiosos espe­táculos da Natureza, rastejando no lodo. Agora, entretanto, convencia-me de que a dor agira em minha construção mental, à maneira do alvião pesado, cujos golpes eu não entendera de pronto. O alvião quebrara a concha de antigas viciações do sentimento. Libertara-me. Expusera-me o organis­mo espiritual ao sol da Bondade Infinita. E come­cei a ver mais alto, alcançando longa distância.

Pela primeira vez, cataloguei adversários na categoria de benfeitores. Comecei a freqüentar, de novo, o ninho da família terrestre, não mais como senhor do círculo doméstico, mas como operário que ama o trabalho da oficina que a vida lhe de­signou. Não mais procurei, na esposa do mundo, a companheira que não pudera compreender-me e abu a irmã a quem deveria auxiliar, quanto estivesse em minhas forças. Abstive-me de encarar o segundo marido como intruso que modificara meus propósitos, para ver apenas o irmão que necessi­tava o concurso de minhas experiências. Não vol­tei a considerar os filhos propriedade minha e sim companheiros muito caros, aos quais me competia estender os benefícios do conhecimento novo, am­parando-os espiritualmente na medida de minhas possibilidades.

Compelido a destruir meus castelos de exclu­sivismo injusto, senti que outro amor se instalava em minhalma.

Órfão de afetos terrenos e conformado com os desígnios superiores que me haviam traçado diver­so rumo ao destino, comecei a ouvir o apelo pro­fundo e divino, da Consciência Universal.

Somente agora, percebia quão distanciado vi­vera das leis sublimes que regem a evolução das criaturas.

A Natureza recebia-me com transportes de amor. Suas vozes, agora, eram muito mais altas que as dos meus interesses isolados. Conquistava, pouco a pouco, o júbilo de escutar-lhe os ensina­mentos misteriosos no grande silêncio das coisas. Os elementos mais simples adquiriam, a meus olhos, extraordinária significação. A colônia espiritual, que me abrigara generosamente, revelava novas expressões de indefinível beleza. O rumor das asas de um pássaro, o sussurro do vento e a luz do Sol pareciam dirigir-se à minhalma, enchendo-me o pen­samento de prodigiosa harmonia.

A vida espiritual, inexprimível e bela, abrira-me os pórticos resplandecentes. Até então, vivera em “Nosso Lar” como hóspede enfermo de um palácio brilhante, tão extremamente preocupado comigo mesmo, que me tornara incapaz de anotar deslumbramentos e maravilhas.

A conversação espiritualizante tornara-se-me indispensável.

Aprazia-me, antigamente, torturar a própria alma com as reminiscências da Terra. Estimava as narrativas dramáticas de certos companheiros de luta, lembrando o meu caso pessoal e embriagando-me nas perspectivas de me agarrar, novamente, à parentela do mundo, valendo-me de laços infe­riores. Mas agora... perdera totalmente a paixão pelos assuntos de ordem menos digna. As próprias descrições dos enfermos, nas Câmaras de Retifica­ção, figuravam-se-me desprovidas de maior inte­resse. Não mais desejava informar-me da proce­dência dos infelizes, não indagava de suas aventuras nas zonas mais baixas. Buscava irmãos necessita­dos. Desejava saber em que lhes poderia ser útil.

Identificando essa profunda transformação, fa­lou-me Narcisa certo dia:

— André, meu amigo, você vem fazendo a renovação mental. Em tais períodos, extremas dificuldades espirituais nos assaltam o coração. Lem­bre-se da meditação no Evangelho de Jesus. Sei que você experimenta intraduzível alegria ao con­tacto da harmonia universal, após o abandono de suas criações caprichosas, mas reconheço que, ao lado das rosas do júbilo, defrontando os novos caminhos que se descerram para sua esperança, há espinhos de tédio nas margens das velhas estradas Inferiores que você vai deixando para trás. Seu coração é uma taça iluminada aos raios do alvorecer divino, mas vazia dos sentimentos do mundo, que a encheram por séculos consecutivos.

Não poderia, eu mesmo, formular tão exata definição do meu estado espiritual.

Narcisa tinha razão. Suprema alegria inunda­va-me o espírito, ao lado de incomensurável sensação de tédio, quanto às situações da natureza inferior. Sentia-me liberto de pesados grilhões, po­rém, não mais possuia o lar, a esposa, os filhos amados. Regressava freqüentemente ao círculo do­méstico e aí trabalhava pelo bem de todos, mas sem qualquer estimulo. Minha devotada amiga acer­tara. Meu coração era bem um cálice luminoso, porém, vazio. A definição comovera-me.

Vendo-me as lágrimas silenciosas, Narcisa acen­tuou:

— Encha sua taça nas águas eternas daquele que é o Doador Divino. Além disso, André, todos nós somos portadores da planta do Cristo, na terra do coração. Em períodos como o que você atra­vessa, há mais facilidade para nos desenvolvermos com êxito, se soubermos aproveitar as oportuni­dades. Enquanto o espírito do homem se engolfa apenas em cálculos e raciocínios, o Evangelho de Jesus não lhe parece mais que repositório de ensi­namentos comuns; mas, quando se lhe despertam os sentimentos superiores, verifica que as lições do Mestre têm vida própria e revelam expressões desconhecidas da sua inteligência, à medida que se esforça na edificação de si mesmo, como instru­mento do Pai. Quando crescemos para o Senhor, seus ensinos crescem igualmente aos nossos olhos. Vamos fazer o bem, meu caro! Encha seu cálice com o bálsamo do amor divino. Já que você pres­sente os raios da alvorada nova, caminhe confiante para o dia!...

E, conhecendo meu temperamento de homem, amante do serviço movimentado, acrescentou, ge­nerosa:

— Você tem trabalhado bastante aqui nas Câ­maras, onde me preparo, por minha vez, conside­rando o futuro próximo, na carne. Não poderei, portanto, acompanhá-lo, mas creio deve você apro­veitar os novos cursos de serviço, instalados no Ministério da Comunicação. Muitos companheiros nossos habilitam-se a prestar concurso na Terra, nos campos visíveis e invisíveis ao homem, acom­panhados, todos eles, por nobres instrutores. Po­deria você conhecer experiências novas, aprender muito e cooperar com excelente ação individual. Porque não tenta?

Antes que pudesse agradecer o alvitre valioso, Narcisa foi chamada ao interior das Câmaras, a serviço, deixando-me dominado por esperanças di­ferentes de quantas abrigara até então, relativa­mente às minhas tarefas.



2

Aniceto
Comunicando meus novos propósitos a Tobias, verifiquei a satisfação que lhe transpareceu do olhar.

— Fique tranqüilo — disse, bondoso —, você possui a quantidade necessária de horas de traba­lho para justificar o pedido. Temos, por nossa vez, grande número de colegas na Comunicação. Não será difícil localizá-lo com instrutores amigos. Co­nhece o nosso estimado Aniceto?

— Não tenho esse prazer.

— É antigo companheiro de serviço — conti­nuou informando, amável — e esteve conosco na Regeneração, algum tempo. Em seguida, devotou-se a tarefas sacrificiais no Ministério do Auxílio e, hoje, é instrutor competente na Comunicação, onde vem prestando concurso respeitável. Conver­sarei, a respeito, com o Ministro Genésio. Não te­nha dúvidas. Seu desejo, André, é muito nobre aos nossos olhos.

O prestimoso companheiro deixou-me num mar de contentamento indefinível.

Comecei a compreender o valor do trabalho. A amizade de Narcisa e Tobias era tesouro de ina­preciável grandeza, que o espírito de serviço me havia descortinado ao coração.

Novo setor de luta desdobrar-se-ia à minhal­ma. Não deveria perder a oportunidade. “Nosso Lar” estava cheio de entidades ansiosas por aqui­sições dessa natureza. Não seria justo entregar-me, de boa vontade, ao novo aprendizado? Além disso, certo da minha volta à carne, em futuro talvez não distante, a providência constituiria realização de profundo interesse ao meu aproveitamento geral.

Misteriosa alegria dominava-me todo, sublima­da esperança iluminava-me os sentimentos. Aquele desejo ardente de colaborar em benefício dos ou­tros, que Narcisa me acendera no Intimo, parecia encher, agora, a taça vazia do meu coração.

Trabalharia, sim. Conheceria a satisfação dos cooperadores anônimos da felicidade alheia. Pro­curaria a prodigiosa luz da fraternidade, através do serviço às criaturas.

A noite, fui procurado por Tobias, sempre ge­neroso, trazendo-me a confortadora aquiescência do Ministro Genésio.

Com sorrisos afetuosos, convidou-me a acom­panhá-lo. Conduzir-me-ia à presença de Aniceto, para conversarmos relativamente ao assunto.

Emocionadíssimo segui para a residência da nova personagem que se ligaria fundamente à minha vida espiritual.

Aniceto, ao contrário de Tobias, não se con­sorciara em “Nosso Lar”. Vivia ao lado de cinco amigos que lhe foram discípulos na Terra, em edi­fício confortável, encravado entre árvores frondo­sas e tranqüilas, que pareciam postas ali para protegerem extenso e maravilhoso roseiral.

Recebeu-nos com extrema gentileza, o que me causou excelente impressão. Aparentava ele a cal­ma refletida do homem que chegou à idade madu­ra, sem fantasias da mocidade inexperiente. Em­bora lhe transparecesse muita energia no rosto, revelava o otimismo sadio do coração cheio de ideais sacrossantos. Muito sereno, recebeu todas as alegações do meu benfeitor, dirigindo-me, de quan­do em vez, olhares amistosos e indagadores.

Tobias falou longamente, comentando minha posição de ex-médico no plano terráqueo, agora em reajustamento de valores no plano espiritual.

Depois de examinar-me com atenção, o orien­tador aduziu:

— Não há o que embargar, meu prezado To­bias. No entanto, é preciso reconhecer que a solução depende do candidato. Sabe você que estamos aqui na Instituição do Homem Novo.

— André está pronto e disposto — adiantou o amigo, carinhosamente.

Aniceto fixou em mim o olhar penetrante e advertiu:

— Nosso serviço é variado e rigoroso. O de­partamento de trabalho, afeto à nossa responsabi­lidade, aceita sômente os cooperadores interessados na descoberta da felicidade de servir. Comprome­temo-nos, mütuamente, a calar toda espécie de re­clamação. Ninguém exige expressão nominal nas obras úteis realizadas, e todos respondem por qual­quer erro cometido. Achamo-nos, aqui, num curso de extinção das velhas vaidades pessoais, trazidas do mundo carnal. Dentro do mecanismo hierár­quico de nossas obrigações, interessazno-nos tão somente pelo bem divino. Consideramos que toda possibilidade construtiva vem de nosso Pai e esta convicção nos auxilia a esquecer as exigências des­cabidas de nossa personalidade inferior.

Identificando-me a surpresa, Aniceto esboçou um gesto significativo e continuou:

— Nos trabalhos de emergência, destinados àpreparação de colaboradores ativos, tenho um qua­dro suplementar de auxiliares, constante de cinquen­ta lugares para aprendizes. No momento, disponho de três vagas. Há intensa atividade de instrução, necessária a servidores que cooperarão em socor­ros urgentes, na Terra. Orientadores há que se fazem acompanhar, nos serviços da crosta, por todo o pessoal em aprendizado, mas eu adoto processo diferente. Costumo dividir a classe em grupos es­pecializados, de acordo com a profissão familiar aos estudantes, para melhor aproveitamento no preparo e na prática. Tenho, presentemente, um sacerdote católico-romano, um médico, seis enge­nheiros, quatro professores, quatro enfermeiras, dois pintores, onze irmãs especializadas em traba­lhos domésticos e dezoito operários diversos. Em “Nosso Lar”, a ação que nos compete é desdobrada de maneira coletiva; mas, nos dias de aplicação na crosta terrestre, não me faço seguido de todos. Naturalmente, não se negará ao engenheiro, ou ao operário, o ensejo de aquisição de conhecimentos outros, que transcendem a paisagem de realizações que lhes cabem; mas, tais manifestações devem constar do quadro de esforços espontâneos, no tempo vasto que cada qual aufere para descan­so e entretenimento. Considerando, pois, o serviço atual, temos interesse em aproveitar as horas no limite máximo, não só em beneficio dos que neces­sitam de nosso concurso fraternal, como também a favor de nós mesmos, no que toca à eficiência.

Ponderei, admirado, o curioso processo, enquan­to o orientador fazia longa pausa.

Após mergulhar toda a atenção em mim, como se desejasse perceber o efeito de suas palavras, Aniceto continuou:

- Este método não visa apenas a criar obri­gações para os outros. Aqui, como na Terra, quem alcança a melhor porção, nas aulas e demonstrações, não é prôpriamente o discípulo e sim o instrutor, que enriquece observações e intensifica experiên­cias. Quando o Ministro Espiridião me chamou a exercer o cargo, aceitei-o sob a condição de não perder tempo na melhoria e educação de mim mes­mo. Desse modo, não preciso alongar-me noutras considerações. Creio haver dito o bastante. Se está, portanto, disposto, não posso recusar-me a aceitá-lo.

— Compreendo seus nobres programas — res­pondi, comovido —, será honra para mim a possi­bilidade de acompanhá-lo e receber suas determi­nações de serviço.

Aniceto esboçou a expressão fisionômica de quem atinge a solução desejada, e concluiu:

— Pois bem; poderá começar amanhã.

E, dirigindo-se a Tobias, acrescentou:

— Encaminhe o nosso amigo, amanhã cedo, ao Centro de Mensageiros. Lá estaremos em estu­do ativo e providenciarei para que André seja boni­ficado pelas tabelas da Comunicação.

Agradecemos, satisfeitos e, logo em seguida a Tobias, despedi-me, alimentando novas esperanças.

3

No Centro de Mensageiros
No dia seguinte, após ouvir longas pondera­ções de Narcisa, demandei o Centro de Mensageiros, no Ministério da Comunicação. Acompanhava-me o prestimoso Tobias, não obstante os imensos tra­balhos que lhe ocupavam o circulo pessoal.

Deslumbrado, atingi a -série de majestosos edi­fícios de que se compõe a sede da instituição. Julguei encontrar algumas universidades reunidas, tal a enorme extensão deles. Pátios amplos, povoados de arvoredo e jardins, convidavam a subli­mes meditações.

Tobias arrancou-me do encantamento, excla­mando:

— O Centro é muito vasto. Atividades com­plexas são desempenhadas neste departamento de nossa colônia espiritual. Não creia esteja resumida a instituição nos edifícios sob nossos olhos. Temos, nesta parte, tão sômente a administração central e alguns pavilhões destinados ao ensino e à prepa­ração em geral.

— Mas esta organização imensa restringe-se ao movimento de transmissão de mensagens? —perguntei, curioso.

O companheiro sorriu significativamente e es­clareceu:

— Não suponha se encontre aqui localizado o serviço de correio, simplesmente. O Centro pre­para entidades a fim de que se transformem em cartas vivas de socorro e auxílio aos que sofrem no Umbral, na Crosta e nas Trevas. Acreditaria, por­ventura, que tanto trabalho se destinasse apenas a mera movimentação de noticiário? Amplie suas vis­tas. Este serviço é a cópia de quantos se vêm fazen­do nas mais diversas cidades espirituais dos planos superiores. Preparam-se aqui numerosos compa­nheiros para a difusão de esperanças e consolos, instruções e avisos, nos diversos setores da evo­lução planetária. Não me refiro tão só a emissá­rios invisíveis. Organizamos turmas compactas de aprendizes para a reencarnação. Médiuns e dou­trinadores saem daqui às centenas, anualmente. Tarefeiros do conforto espiritual encaminham-Se para os círculos carnais, em quantidade considerá­vel, habilitados pelo nosso Centro de Mensageiros.

— Que me diz? — interroguei, surpreso. — Se­gundo seus informes, os trabalhos de esclareci­mento espiritual devem estar muitíssimo adiantados no mundo!...

Fixou Tobias expressão singular, sorriu tran­qüilamente e explicou:

— Você não ponderou, todavia, meu caro An­dré, que essa preparação não constitui, ainda, a realização prôpriamente dita. Saem milhares de mensageiros aptos para o Serviço, mas são muito raros os que triunfam. Alguns conseguem execu­ção parcial da tarefa, outros muitos fracassam de todo. O serviço legítimo não é fantasia. É es­forço sem o qual a obra não pode aparecer nem prevalecer. Longas fileiras de médiuns e doutrinadores para o mundo carnal partem daqui, com as necessárias instruções, porque os benfeitores da Espiritualidade Superior, para intensificarem a redenção humana, precisam de renúncia e de altruís­mo. Quando os mensageiros se esquecem do espí­rito missionário e da dedicação aos semelhantes, costumam transformar-se em instrumentos inúteis. Há médiuns e mediunidade, doutrinadores e dou­trina, como existem a enxada e os trabalhadores. Pode a enxada ser excelente, mas, se falta espírito de serviço no cultivador, o ganho da enxada será inevitavelmente a ferrugem. Assim acontece com as faculdades psíquicas e com os grandes conhe­cimentos. A expressão mediúnica pode ser riquís­sima; entretanto, se o dono não consegue olhar além dos interesses próprios, fracassará fatalmen­te na tarefa que lhe foi conferida. Acredite, meu caro, que todo trabalho construtivo tem as bata­lhas que lhe dizem respeito. São muito escassos os servidores que toleram as dificuldades e reveses das linhas de frente. Esmagadora percentagem permanece a distância do fogo forte. Trabalhado­res sem conta recuam quando a tarefa abre opor­tunidades mais valiosas.

Algo impressionado, considerei.

— Isto me surpreende sobremaneira. Não su­punha fôssem preparados, aqui, determinados men­sageiros para a vida carnal.

— Ah! meu amigo — falou Tobias sorriden­te —, poderia você admitir que as obras do bem esti­vessem circunscritas a simples operações automá­ticas? Nossa visão, na Terra, costuma viciar-se no círculo dos cultos externos, na atividade religiosa. Cremos, por lá, resolver todos os problemas pela atitude suplicante. Entretanto, a genuflexão não soluciona questões fundamentais do espírito, nem a mera adoração à Divindade constitui a máxima edificação. Em verdade, todo ato de humildade e amor é respeitável e santo, e, incontestàvelmente, o Senhor nos concederá suas bênçãos; no entanto, é imprescindível considerar que a manutenção e limpeza do vaso, para recolhê-las, é dever que nos assiste. Não preparamos, pois, neste Centro, simples postalistas, mas espíritos que se transformem em cartas vivas de Jesus para a Humanidade encarnada. Pelo menos, este e o programa de nossa administração espiritual...

Calei, emocionado, ponderando a grandeza dos ensinamentos. Meu companheiro, após longa pau­sa, prosseguiu observando:

— Raros triunfam, porque quase todos esta­mos ainda ligados a extenso pretérito de erros criminosos, que nos deformaram a personalidade. Em cada novo ciclo de empreendimentos carnais, acreditamos muito mais em nossas tendências in­feriores do passado, que nas possibilidades divinas do presente, complicando sempre o futuro. E’ desse modo que prosseguimos, por lá, agarrados ao mal e esquecidos do bem, chegando, por vezes, ao dis­parate de interpretar dificuldades como punições, quando todo obstáculo traduz oportunidade verda­deiramente preciosa aos que já tenham “olhos de ver”.

A essa altura, alcançamos enorme recinto.

Centenas de entidades penetravam no vasto edifício, cujas escadarias galgamos em animada conversação.

Os aspectos do maravilhoso átrio impressio­navam pela imponente beleza. Espécies de flores, até então desconhecidas para mim, adornavam co­lunatas, espalhando cores vivas e delicioso perfume.

Quebrando-me o enlevo, Tobias explicou:

— As diversas turmas de aprendizes encami­nham-se às aulas. Procuremos Aniceto no departamento de instrutores.

Atravessamos galerias vastíssimas, sempre de­frontados por verdadeiras multidões de entidades que buscavam as aulas, em palestras vibrantes.

— Muito bem! — disse, alegre e bondoso —esperava o novo aluno, desde a manhãzinha.

E em virtude de Tobias alegar muita pressa, o nobre instrutor explicou:

— Doravante, André ficará aos meus cuida­dos. Volte tranqüilo.

Despedi-me do companheiro, comovidamente.

Notando-me o natural acanhamento, Aniceto determinou a um auxiliar de serviço:

— Chame o Vicente em meu nome.

E, voltando-se para mim, esclareceu:

— Até agora, Vicente é o meu único aprendiz médico. Vocês ficarão juntos, em vista da afinidade profissional.

Não haviam decorrido três minutos e tínhamos Vicente diante de nós.

— Vicente — falou Aniceto sem afetação —, André Luiz é nosso novo colaborador. Foi também médico nas esferas carnais. Creio, pois, que ambos se encontrarão à vontade, partilhando a mesma experiência.

O interpelado abraçou-me, demonstrando ex­trema generosidade, e, após encorajar-me com belas palavras de estimulo, perguntou ao nosso orien­tador:

— Quando deveremos procurá-lo para os es­tudos de hoje?

Aniceto pensou um instante e respondeu:

— Esclareça ao novo candidato os nossos re­gulamentos e venham juntos para as instruções, após o meio-dia.



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