Francisco cândido xavier



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SEXO E DESTINO

FRANCISCO CÂNDIDO XAVIER E WALDO VIEIRA

DITADO PELO ESPÍRITO ANDRE LUIZ

(14)
Série André Luiz


1 - Nosso Lar

2 - Os Mensageiros

3 - Missionários da Luz

4 - Obreiros da Vida Eterna

5 - No Mundo Maior

6 - Agenda Cristã

7 - Libertação

8 - Entre a Terra e o Céu

9 - Nos Domínios da Mediunidade

10 - Ação e Reação

11 - Evolução em Dois Mundos

12 - Mecanismos da Mediunidade

13 - Conduta Espírita

14 - Sexo e Destino

15 - Desobsessão

16 - E a Vida Continua...

ÍNDICE

Prece no Limiar

Sexo e Destino
PRIMEIRA PARTE - Médium: WALDO VIEIRA

CAPÍTULO 1

CAPÍTULO 2

CAPÍTULO 3

CAPÍTULO 4

CAPÍTULO 5

CAPÍTULO 6

CAPÍTULO 7

CAPÍTULO 8

CAPÍTULO 9

CAPÍTULO 10

CAPÍTULO 11

CAPÍTULO 12

CAPÍTULO 13


CAPÍTULO 14
SEGUNDA PARTE - Médium: FRANCISCO CÂNDIDO XAVIER

CAPÍTULO 1

CAPÍTULO 2

CAPÍTULO 3

CAPÍTULO 4

CAPÍTULO 5

CAPÍTULO 6

CAPÍTULO 7

CAPÍTULO 8

CAPÍTULO 9

CAPÍTULO 10

CAPÍTULO 11

CAPÍTULO 12

CAPÍTULO 13

CAPÍTULO 14

Prece no Limiar
Pai de Infinita Bondade!

Este é um livro em que permitiste ao nosso André Luis traçar, em lances palpitantes da existência, alguns conceitos da Espiritualidade Superior, em torno de sexo e destino — fotografia verbal de nossas realidades amargas que entremeaste de espe­ranças eternas.

Entregando-o aos companheiros reencarnados no mundo, queremos recordar Jesus — o Enviado de Tua Ilimitada Misericórdia — naquele dia de sol em Jerusalém...

Na praça repleta de acusadores, escribas e fari­seus apresentaram-lhe sofredora mulher que diziam haver apanhado em transgressão, ao mesmo tempo que o inquiriam, experimentando-lhe a conduta:

Mestre, esta mulher foi encontrada em adul­tério... A lei manda apedrejar. Tu, porém, que dizes?



O Mestre contemplou demoradamente os zela­dores de Moisés, e, porque nada mais adiantaria explicar-lhes ao cérebro embotado de preconceitos, disse-lhes, alongando a palavra a todos os moralis­tas dos séculos porvindouros:

Quem estiver sem pecado, atire a primeira pedra!...



Jerusalém, agora, é o mundo!

Na praça extensa das convenções humanas, empenha-se o materialismo na dissolução dos valo­res morais, com escárnio manifesto à dignidade hu­mana, enquanto religiões veneráveis digladiam com a Natureza, tentando, em vão, bloquear a vida, qual se quisessem ilaquear a si próprias. Ao tremendo conflito dessas forças gigantescas que lutam pelo dominio moral da Terra, enviaste, a Doutrina Espí­rita, em nome do Evangelho do Cristo, para assere­nar os corações e comunicar-lhes que o amor é a essência do Universo; que as criaturas te nasceram do Álito divino para se amarem umas às outras; que o sexo é legado sublime e que o lar é refúgio santificante, esclarecendo, porém, que o amor e O sexo plasmam responsabilidades naturais na cons­ciência de cada um e que ninguém lesa alguém nos tesouros afetivos, sem dolorosas reparações.

Este volume pretende afirmar, ainda, que, se não podes subtrair os culpados às conseqüências do erro em que se tornaram incursos, não permites que os vencidos sejam desamparados, desde que te acei­tem a luz retificadora para o caminho. Mostra que, em tua bênção, os delinqüentes de ontem, hoje redi­midos, se transfiguram em teus mensageiros de re­denção para aqueles mesmos que lhes caíram, outro­ra, nas ciladas sombrias.

Abençoa, pois, o presente relato estu ante de verdade e esperança, e, ao confiá-lo aos nossos irmãos do mundo, deixa possamos lembrar-lhes que a existência física, seja na infância ou na mocidade, na madureza ou na velhice, é sempre dom inefável que nos cabe honorificar e que, mesmo detendo um corpo carnal rastejante ou disforme, mutilado ou enfermiço, devemos repetir diante da tua Sabedoria Incomensurável:

Obrigado, meu Deus!


EMMANUEL
Uberaba, 4 de julho de 1963.
(Página recebida pelo médium Francisco Cândido Xavier.)

Sexo e Destino
Sexo e destino, amor e consciência, liberdade e compromisso, culpa e resgate, lar e reencarnação constituem os temas deste livro, nascido na forja da realidade cotidiana.

Entretanto, leitor amigo, após a oração do ben­feitor, que se pronunciou no limiar, nada mais nos compete que não seja entregar-te a narrativa que a Divina Providência nos permitiu alinhavar, não pelo exclusivo propósito de desnudar a verdade, mas sim no objetivo de aprender com a biblioteca da experiência.

Cremos seja desnecessário esclarecer que os nomes dos protagonistas desta história real foram substituidos por óbvias razões e que a presente bio­grafia de grupo não pertence a outras criaturas senão a eles mesmos que no-la permitiram redigir, para a nossa edificação, depois de naturalmente consultados.

Solicitamos, ainda, permissão para dizer-te que não foi retirado um só til das verdades que a entretecem — verdades da verdade, que, fremindo de capítulo a capitulo, carreia consigo, em passagens numerosas, a luz de nossas esperanças e o amargo sabor de nossas lágrimas.
ANDRÉ LUIZ
Uberaba, 4 de julho de 1963.



(Página recebida pelo médium Waldo Vieira.)

PRIMEIRA PARTE

Médium: WALDO VIEIRA

Capítulo 1
Qual acontece entre os homens, no Mundo Espiritual que os rodeia, sofrimento e expectação esmerilam a alma, disciplinando, aperfeiçoando, re­construindo...

Enquanto envergamos a veste física, habitualmente imaginamos o paraíso das religiões encravado para lá da morte. Sonhamos o apaziguamento integral dos sentidos, o acesso à alegria inefável que anestesie toda lembrança convertida em chaga mental. No entanto, atravessada a fronteira de cinza, eis-nos erguidos à responsabilidade inevitá­vel, ante o reencontro da própria consciência.

Uma vida humana, a continuar-se naturalmen­te no Além, assume, assim, a forma de partida, em dois tempos distintos. Diferem campos e ves­timentas; entretanto, a luta da personalidade, de um renascimento a outro na Terra, afigura-se la­borioso prélio em duas fases. Anverso e reverso da experiência. O berço inicia, O túmulo desdobra. Com raríssimas exceções na regra, somente a reencarnação consegue transfigurar-nos de modo fun­damental.

Deixamos no esquife o casulo mirrado e trans­portamos conosco, na mesma ficha de identificação pessoal, para outras esferas, os ingredientes espi­rituais que cultivamos e atraímos.

Inteligências em evolução na eternidade do espaço e do tempo, os Espíritos domiciliados na Moradia Terrestre, em abandonando o invólucro de matéria mais densa, assemelham-se, figuradamente, aos insetos. Larvas existem que se retiram do ovo e revelam-se na condição de parasitas, enquanto que outras se transformam, de imediato, em fale-nas de prodigiosa beleza, ganhando altura.

Encontramos criaturas que se afastam do es­tojo carnal, entrando em largos processos obsessivos, nos quais se movimentam à custa de forças alheias, ao lado de outras que, de pronto, se ele­vam, aprimoradas e belas, a planos superiores da evolução. E entre as que se agarram profunda­mente às sensações da natureza física e as que conquistam a sublime ascensão para estágios edi­ficantes, no Grande Além, surge a gama infinita das posições em que se graduam.

Emergindo na Espiritualidade, após a desen­carnação, sofremos, a princípio, o desencanto de todos os que esperavam pelo céu teológico, fácil de granjear.

A verdade aparece por alavanca renovadora. Padecendo ainda espessa amnésia, relativamen­te ao passado remoto, que descansa nos porões da memória, somos então defrontados por velhos pre­conceitos que se nos entrechocam no íntimo, tom­bando despedaçados. Suspiramos pela inércia que não existe. Exigimos resposta afirmativa aos ab­surdos da fé convencionalista e dogmática que re­clama a integração com Deus para si só, excluindo, pretensiosamente, da Paternidade Divina, os que não lhe comunguem a visão acanhada.

De semelhantes conflitos, por vezes terríveis e extenuantes, nos recessos da mente, muitos de nós saímos abatidos ou revoltados para extensas incursões no vampirismo ou no desespero; a maior parte dos desencarnados, porém, a pouco e pouco se acomoda às circunstâncias, aceitando a conti­nuidade do trabalho na reeducação própria, com os resultados da existência aparentemente encer­rada no mundo, à espera da reencarnação que pos­sibilite renovação e recomeço...

Essas ponderações afogueavam-me o pensa­mento, reparando a tristeza e o cansaço do meu amigo Pedro Neves, devotado servidor do Minis­tério do Auxílio. (1)

Partilhando expedições arrojadas e valorosas em atividade benemérita, ainda não lhe víramos he­sitações quaisquer. Veterano de empreendimentos socorristas, jamais entremostrara desânimo ou fra­queza, por mais opressivo se lhe evidenciasse o peso de compromissos e obrigações.

Advogado que fora, na existência última, ca­racterizava-se por extrema lucidez, no exame dos problemas que as eventualidades do caminho apre­sentassem.

Sempre denodado e humilde; agora, porém, enunciava sensíveis alterações de comportamento.

Soubera-o com breves encargos, na esfera fí­sica, para atender, de modo mais direto, a necessi­dades de ordem familiar, cuja extensão e natureza não me houvera sido possível perceber.

Desde então, mostrava-se arredio e desencan­tado, copiando o feitio de companheiros recém-che­gados da Terra. Isolava-se em funda reflexão. Fu­gia à conversação fraterna. Queixava-se disso ou daquilo. E vez por outra, em serviço, denotava lágrimas que não chegavam a cair.

Ninguém ousava sondar-lhe o sofrimento, tal a fibra moral em que se lhe exprimiam as atitudes.

Provocando, porém, algumas horas de desafo­go, num banco de jardim, busquei habilmente lan­çá-lo à extroversão, alegando dificuldades que me preocupavam. Referi-me aos descendentes que dei­xara no mundo e às inquietações que me causavam.

Pressentia-lhe na tristeza a presença de lutas domésticas a lhe torturarem a alma, quais ulcerações em recidiva, e não me enganei.

O amigo absorveu a isca afetiva e desenovelou os sentimentos.
(1) Organização de “Nosso Lar”. — Nota do Au­tor espiritual.
A principio, falou vagamente das apreensões que lhe assomavam ao espírito agoniado. Aspirava a esquecer, alhear-se; no entanto... a retaguarda familiar no mundo lhe infligia dolorosas reminis­cências difíceis de extirpar.

— É a esposa quem o aflige, assim tanto?

— Aventurei, procurando localizar o carnicão da mágoa que lhe abria as comportas do pranto silen­cioso.

Pedro fitou-me com a postura dolorida de um cão batido e respondeu:

— Há momentos, André, nos quais será pre­ciso biografar-nos, ainda que superficialmente, para vascolejar o pretérito e extrair dele a verdade, so­mente a verdade...

Meditou, algo sufocado por instantes, e pros­seguiu:

— Não sou homem que me deixe governar por sentimentalismos, embora aprecie as emoções pelo justo valor. Além disso, a experiência, desde mui­to, me ensinou a raciocinar. Há quarenta anos, moro aqui e, há quase quarenta anos, a esposa com­peliu-me a absoluto desinteresse do coração. Dei­xei-a quando a mocidade das energias físicas lhe estuava no sangue, e Enedina, compreensivelmente, não pôde sustentar-se a distância das exigências femininas.

E prosseguiu esclarecendo que ela se associara a outro homem, num segundo casamento, entre­gando-lhe seus três filhos por enteados. Esse novo marido, entretanto, arredou-a completamente de sua convivência espiritual. Homem ambicioso, senhoreou os cabedais que ele ajuntara, logrando multiplicá­-los imensamente, à força de astúcia em arrojadas empresas comerciais. E agiu com tanta leviandade que a esposa, dantes simples, se apaixonou pelas comodidades demasiadas, gastando o tempo terres­tre em prodigalidades e tafulices, até que se rojou às derradeiras viciações nos desvarios do sexo. Observando o esposo em aventuras galantes, de modo permanente, na posição de cavalheiro rico e desocupado, quis desforrar-se, estabelecendo para si mesma desordenado culto ao prazer, mal saben­do que apenas se transviava, em lamentáveis de­sequilíbrios.

— E meus dois filhos, Jorge e Ernesto, ludi­briados pelo fascínio do ouro com que o padrasto lhes comprava a subserviência, enlouqueceram no mesmo delírio do dinheiro fácil e se animalizaram a tal ponto que nem de leve guardam qualquer traço de minha memória, não obstante serem atualmente negociantes abastados, em idade madura...

— A esposa, no entanto, ainda se encontra no mundo físico? — arrisquei, cortando a pausa longa, para que a explicação não esmorecesse.

— Minha pobre Enedina voltou, há dez anos, abandonando o corpo pela imposição da icterícia, que lhe apareceu por verdugo invisível, evocado pelas bebidas alcoólicas. Fitando-a, edemaciada, ven­cida, ensaiei alarmado todos os processos de so­corro à minha disposição...

Atemorizava-me a perspectiva de vê-la escravizada às forças aviltan­tes a que se jungira sem perceber; ansiava retê-la no corpo de carne, como quem resguarda uma crian­ça inconsciente em disfarçado refúgio. Entretanto, ai de mim! Colhida por entidades infelizes, às quais se consorciou levianamente, em vão procurei esten­der-lhe algum consolo, porqüanto ela mesma, de­pois de desencarnada, se compraz na viciação, ten­tando a fuga impossível de si própria. Não há outro recurso senão esperar, esperar...

— E os filhos?

— Jorge e Ernesto, hipnotizados pela riqueza material, para mim fizeram-se inabordáveis.

Men­talmente, não me registram a lembrança. Intentan­do captar-lhes cooperação e simpatia, o padrasto chegou a insinuar que não seriam meus filhos e sim dele próprio, através de união com minha es­posa. ao tempo de minha experiência terrestre, o que Enedina, infelizmente, não desmentiu...

O companheiro esboçou um sorriso amarelo e considerou:

— Imagine! Na carne, o medo é comum, àfrente dos desencarnados e, em meu caso, fui eu quem se afastou do ambiente doméstico, sob sen­sações de insopitável horror... Ainda assim, a bon­dade de Deus não me arrojou à solidão, em se tra­tando da ternura familiar. Tenho uma filha de quem jamais me separei pelos laços do espírito... Beatriz, que deixei na flor da meninice, suportou pacientemente as afrontas e conservou-se fiel ao meu nome. Somos, assim, duas almas, na mesma faixa de entendimento...

Pedro enxugou os olhos e acrescentou:

— Agora, com quase meio século de existência entre os homens, presa embora ao carinho que con­sagra ao esposo e ao filho único, prepara-se Bea­triz para o regresso... Minha filha vem atraves­sando os derradeiros dias terrenos, com o corpo torturado pelo câncer...

— Mas, atormenta-se você por isso? A idéia do reencontro pacífico não será, antes, motivo para alegrar-se?

— E os problemas, meu amigo? Os problemas do grupo consangüíneo? Por muitos anos, estive à margem de todas as tricas do navio familiar... Fi­zera-me ao oceano largo da vida... Agora, por amor à filha inesquecível, sou compelido a topar, com espírito de caridade, a irreflexão e o descara­mento. Estou inapto, desambientado... Desde que me postei à cabeceira da doente querida, vejo-me na condição do aluno debilitado pela expectativa de erros constantes..

Dispunha-se Neves a prosseguir, mas urgente chamado de serviço nos impeliu à separação e, con­quanto diligenciando acalmá-lo, despedi-me, sob o compromisso de irmanar-me a ele, nas tarefas de assistência à enferma, de modo mais intenso, a par­tir do dia seguinte.



Capítulo 2
Repousava Dona Beatriz no leito bem-posto, patenteando enorme cansaço.

A doença, decerto, consumia-lhe a forma física, desde muito, porqüanto aos quarenta e sete anos de idade mostrava o rosto singularmente engelhado e o corpo leve.

Refletia, ensimesmada, tristonha... Fácil de se lhe ver a preocupação, ante a crise iminente.

Idéias a lhe fluírem, vivas e nobres, indicavam que se habituara à certeza da desencarnação próxima. Notava-se-lhe fixada no pensamento a convicção do viajante que atingira o término de espinhosa trilha, da qual, por fim, lhe competia sair.

Conquanto tranqüila, inquietava-se pelos vín­culos que a prendiam no mundo. Apesar disso, visualizava as portas do Além, plasmando formosos quadros íntimos, como quem sonha à luz da vigília, e recordava Neves, o pai que perdera na infância, qual se visse prestes a recuperá-lo, em definitivo, tal a extensão do amor que os acolchetava um ao outro.

Observávamos, porém, sem dificuldade, que a alma afetuosa da enferma se dividia mais fortemente, na Terra, entre o esposo e o filho, dos quais se reconhecia em gradativo processo de inevitável separação.

No aposento acolhedor, que alguns adereços ataviavam, tudo transparecia limpeza, reconforto, assistência, carinho.

Ante o leito, encontramos sisudo enfermeiro desencarnado que Neves abraçou, demonstrando guardá-lo à conta de imensa estima.

E apresentou-nos:

- Amaro, temos aqui André Luiz, amigo e médico que, doravante, nos partilhará os serviços.

Saudamo-nos cordialmente.

Neves inquiriu, atencioso:

— O irmão Félix veio hoje?

— Sim, como sempre.

Informei-me, então, de que o irmão Félix, des­de muitos anos, era o superintendente de importante casa socorrista, ligada ao Ministério da Rege­neração, em Nosso Lar (2). Famoso pela bondade e paciência, era conhecido como sendo um apóstolo da abnegação e do bom-senso.

Não dispúnhamos, entretanto, de qualquer tem­po para considerações pessoais.

Dona Beatriz experimentava dores agudas e o companheiro mostrou o propósito de aliviá-la, atra­vés do passe confortativo, enquanto a senhora se via aparentemente a sós. Em grande prostração física, revelava profunda sensibilidade mediúnica.

Oh! os sublimes pensamentos do leito de dor!... De olhos cerrados, a doente, embora não assina­lasse a presença paterna, lembrava a ternura do genitor, que lhe parecia distante e inacessível no tempo. Identificava-se, de novo, com a ingenuidade infantil... Na acústica da memória, ouvia as can­ções do lar, voltava, encantada, às horas da me­ninice... Reconstituindo na imaginação as relíquias do berço, sentia-se no regaço paternal, à maneira da ave de regresso à penugem do ninho!

Dona Beatriz chorava. Lágrimas de enterne­cimento inexprimível perolavam-lhe a face. E sem que a boca enunciasse o menor movimento, clama­va intimamente com toda a alma: «pai, meu pai!...”
2) Organizações no Plano dos Espíritos. Nota do Autor Espiritual.

Meditai, vós que, no mundo, admitis para os desencarnados a indiferença da cinza! Para lá dos túmulos, amor e saudade muitas vezes se trans­formam, no vaso do coração, em pranto comburente!

Neves cambaleou, agoniado... Enlacei-o, con­tudo, a pedir-lhe coragem. A ventania da angústia, porém, sobre o ânimo do companheiro atribulado, perdurou apenas alguns momentos.

Refeito, a re­compor o semblante que o sofrimento transfigu­rara, espalmou a destra na fronte da filha e orou, suplicando o amparo da Bondade Divina.

Chispas de luz, quais minúsculas flamas azu­líneas, evolavam-lhe do tórax, a se projetarem naquele corpo fatigado, revestindo-o de energias calmantes.

Emocionado, observei que Dona Beatriz se aco­modava a suave torpor. E antes que pudesse enun­ciar qualquer impressão, uma jovem, figurando-se nas vinte primaveras da experiência física, entrou cautelosamente no quarto. Renteou conosco, sem perceber-nos, de leve, e tomou o pulso da enferma, verificando-lhe as condições.

A recém-chegada esboçou o gesto de quem re­conhecia tudo em ordem. Encaminhou-se, logo após, na direção de pequenino armário próximo e, mu­nindo-se dos recursos necessários, voltou à cabe­ceira da dona da casa, aplicando-lhe injeção anes­tesiante.

Dona Beatriz não mostrou a mínima reação, continuando a descansar, sem dormir.

O concurso magnético de minutos antes insen­sibilizara-lhe os centros nervosos.

Perfeitamente tranqüila, a moça, na qual ob­servávamos a posição da enfermeira improvisada, retirou-se para um dos ângulos do aposento, a lar­gar-se em acolhedora poltrona de vime. Em seguida, descerrou um dos segmentos da janela qua­dripartida, atraindo a corrente de ar fresco que nos bafejou sem alarde.

Respirando à saciedade, a jovem, com grande surpresa para mim, acendeu um cigarro e passou a fumar distraidamente, dando a idéia de quem diligenciava fugir de si mesma.

Neves fitou-a, deitando-lhe significativo olhar em que se mesclavam piedade e revolta e, indican­do-a, discreto, informou-me:

— Trata-se de Marina, contadora de meu gen­ro, que se dedica ao comércio de imóveis...

Agora, a pedido dele, desempenha funções de assistente...

Evidente sarcasmo transparecia-lhe da palavra reticenciosa.

- Imagine! — voltou a dizer — fumar aqui. numa câmara de dor, onde a morte está sendo esperada!...

Contemplei Marina, cujos olhos denotavam re­côndita inquietude.

Manifestando ainda alguns laivos de respeitosa estima para com a nobre senhora estirada no leito, soprava, para além da janela, as baforadas cinzen­tas que lhe escapavam da boca.

Repartindo a própria atenção entre ela e Ama­ro, o nosso amigo da esfera espiritual, Neves, con­quanto mudo e constrangido, parecia querer falar à vontade e desinibir-se.

Tentei, porém, adquirir mais amplo conheci­mento da posição.

Aproximei-me reverentemente da jovem, no propósito de sondá-la em silêncio e colher-lhe as vibrações mais intimas; contudo, recuei assustado.

Estranhas formas-pensamentos, retratando-lhe os hábitos e anseios, em contradição com os nossos propósitos de socorrer a doente, fizeram-me para logo sentir que Marina se achava ali, a contragosto. A sua mente vagueava longe...

Quadros vivos de esfuziante agitação ressuma­vam-lhe na cabeça... De olhar parado, escutava, adentro de si própria, a música brejeira da noite festiva, que atravessara na véspera, e experimentava ainda na garganta a impressão do gim que sorvera, abundante.

Apesar de surgir-nos, superficialmente, à guisa de menina crescida, sob o turbilhão de névoa fu­marenta, exibia telas mentais complexas, a lhe re­lampaguearem na aura imprecisa.

Trazido pelas circunstâncias a colaborar na solução de um processo assistencial, sem qualquer intuito menos digno, passei a estudar-lhe o compor­tamento isolado. A Medicina terrestre, no futuro, para atender com eficácia, ao doente, examinar-lhe-á, com minúcias, a feição espiritual de todas as peças humanas que lhe articulam a equipe.

Respeitoso, iniciei os apontamentos de ampla anamnese psicológica.

Marina apresentou, a princípio, a figura de um homem amadurecido, cunhada por sua própria ima­ginação, a repetir-se-lhe, muitas vezes, acima da fronte.

Ela e ele, juntos... Percebia-se-lhes, de pron­to, a intimidade, adivinhava-se-lhes o romance...

Fisicamente, semelhavam pai e filha; entretanto, pelas atitudes sentimentais, não conseguiam disfar­çar a estuante paixão um pelo outro. Nos painéis sutis que surgiam e se desfaziam, alternadamente, mostravam-se ambos extasiados, ébrios de prazer, fosse aboletados no automóvel de luxo ou enlaçados na areia morna das praias, conchegados sob a pro­teção de arvoredo tranqüilo ou sorridentes em tu­multuados abrigos de encantamento noturno... Des­lumbrantes paisagens de Copacabana ao Leblon desfilavam por admirável fundo pictórico.

A moça entrefechava as pálpebras para senho­rear, com mais segurança, as reminiscências que lhe empolgavam os sentidos, para, logo após, men­talizar, surpreendentemente, outro homem, tão jo­vem quanto ela mesma, evidenciando-se-nos entre­gue às cenas de um filme interior, diferente...

For­mava novo tipo de palco para exibir a lembrança das próprias aventuras, no qual se destacava igualmente ao pé do rapaz, como se estivesse afeiçoada aos mesmos sítios, desfrutando companhias diver­sas... Ela e ele também juntos, no mesmo carro entrevisto ou na condição de pedestres felizes, sa­boreando refrescos ou repousando em animados entendimentos nos jardins públicos, sugerindo o en­contro de crianças enamoradas, a entretecerem as­pirações e sonhos..

Naqueles rápidos minutos de fixação espiritual, em que se exteriorizava tal qual era, Marina reve­lava a personalidade dúplice da mulher dividida entre o carinho de dois homens, jugulada por pen­samentos de medo e inquietude, ansiedade e arre­pendimento.

Neves, que de algum modo me partilhava a inspeção, quebrou a calma reinante, enunciando, abatido:

— Está vendo? Julga que é fácil para mim, pai da doente, suportar aqui semelhante criatura?

Tratei de consolá-lo e, por solicitação dele pró­prio, passamos a pequeno salão de leitura, contíguo ao aposento da enferma, a fim de que pudéssemos refletir e conversar.



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