Funcionamento da sala de aula: uma discussão sobre alguns fenômenos didáticos



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FUNCIONAMENTO DA SALA DE AULA: UMA DISCUSSÃO SOBRE ALGUNS FENÔMENOS DIDÁTICOS
Djário Dias de Araújo

Gabriela Rodrigues Mocelin

Iara Maria da Silva Almeida

Maria Eliana Matos de Figueiredo Lima

Rita Fabiana de Lacerda Jota

Soraya Pedrosa Bezerra



INTRODUÇÃO

A didática da linguagem estuda os fenômenos do ensino/aprendizagem, ou seja, contempla como objeto de estudo situações que respondem ao projeto social de um país e objetiva a apropriação de certos conhecimentos pelos alunos, crianças, jovens ou adultos em formação.


É importante ressaltar a distinção entre ensino e aprendizagem no contexto desta abordagem didática, uma vez que isto permite refletir a diferença entre objetos de um ensino, as intenções do professor e a realidade dos conhecimentos adquiridos pelos alunos. Iremos, neste trabalho, analisar os fenômenos didáticos subjacentes à prática de uma professora alfabetizadora, teorizando a partir de dados apresentados na sua ação docente.

A - SEQÜÊNCIA DE AÇÔES OBSERVADAS DURANTE AULA REALIZADA NO DIA 21 DE JUNHO DE 2005.
CARACTERÍSTICAS GERAIS DA ESCOLA



  • Escola da Rede Particular do município de Jaboatão dos Guararapes.

  • Turma: Jardim I Da educação infantil.

  • Turno: Tarde

  • Faixa Etária dos alunos: 4 anos.

  • Formação da professora: Magistério.



B- ANÁLISE DO CENÀRIO DIDÁTICO




OS CONTRATOS PRESENTES NO UNIVERSO DA EDUCAÇÃO INFANTIL
Analisando as relações contratuais na aula de jardim I, observamos que a construção dos papéis sociais ainda dá os primeiros passos. Como é próprio da faixa etária dessa sala, há uma tendência natural em reproduzir as relações sociais apreendidas durante o convívio familiar para a escola. Sendo assim, a representação social do professor está associada a laços de parentesco, a popularmente conhecida como professora – tia.
A princípio o fato de a professora ser confundia com a imagem de tia, não é um empecilho representativo para que Contrato Escolar e Pedagógico se concretizem. Uma vez que a forma como o ambiente escolar é apresentado ao aluno, já o coloca em uma situação diferenciada, uma relação que exige um pouco mais de formalidade.
Na sala de aula, percebe-se a preocupação em reproduzir um ambiente propício para a demarcação de algumas regras contratuais. Vejamos alguns:
Ambiente 1 : Um lugar destinado à recreação, nesse os alunos devem posicionar-se em cima do emborrachado, diferentemente da professora que pode ficar em pé ou sentada no chão.
Ambiente 2 : Ambiente destinando a atividades de pintura , escrita, colagem e outras atividades. Nesse temos 4 cadeiras, uma para cada aluno, cada uma com etiquetas com os nomes dos alunos demarcando suas respectivas cadeiras. A professora mais uma vez tem liberdade para ficar em qualquer lugar ou ficar em pé.
Outros fatores presentes no âmbito educacional consolidam os papéis sociais dos sujeitos envolvidos, deixando claro qual o papel do professor e qual o papel do aluno. Em vários momentos, a autoridade da professora é evidenciada e validada pelos alunos.Vejamos:

SITUAÇÃO 1 :
Professora: você é beijoqueira é? vai N. pinta N. ... tá bom vamo sentar aqui quem acabou... senta ali nos tapetes para ( ) guarda a cadeirinha... guarde a cadeirinha A. ... vá guardar a cadeirinha... vá guarda a cadeirinha A. ... acabou N.? então pinta LOGO... vai F. que a tia tá esperando você acabar (3s) vamos F. ... pendura no teu nome N. procura ai o teu nome... vamos sentar (3s) guarda a cadeira... agora que todo mundo fez a tarefa bem BO?

Alunos e professora: NITA

Professora: todo mundo fez a tarefa assim? ((gesto de positivo)) ou assim? ((gesto de negativo))...

Alunos: ASSIM

Professora: ASSIM ((gesto de positivo)) não foi? ai a gente vai cantar uma música bem legal a música do JACA?

Alunos:

Professora: bora cantar a música do jacaré?

A.: xô jacaré
Nesses e em inúmeros outros momentos registrados, como: a) na hora da recreação, quando os alunos imitam de forma idêntica os gestos da professora; b) na apresentação do ditado, c) na hora de colocar o nome e a data, c) na hora de pintar os balões e etc. É possível perceber que em todas as situações apresentadas, alunos aceitam tudo o que o professor diz como se fossem verdades únicas que não devem ser questionadas. Podemos afirmar que o Contrato Didático vai sendo constituído no decorrer da prática.
Para melhor analisarmos o Contrato Didático, é interessante observar o discurso da professora . Para isso, baseado em Medeiros (2001), representaremos o discurso didático utilizando o esquema triangular abaixo:

PROFESSOR






CONHECIMENTO ALUNO

Nesse esquema, a posição que o professor, aluno e conhecimento apresenta-se no cenário didático nos revela uma assimetria na relação professor e aluno diferente do que vemos em relação ao conhecimento. Em quase toda a aula, a prática parece estar centrada em consolidar os conceitos das junções das vogais, objeto de estudo da aula. Observou-se um ensino predominantemente baseado na transmissão-recepção de conteúdos com ênfase na aula expositiva.


Ao passarem do chão para as mesas, percebemos uma mudança de postura dos sujeitos envolvidos. Agora, na mesa, parece ser este o momento dedicado para descobrir se os alunos aprenderam ou não o que foi ensinado. A professora entrega as fichas que deverão ser preenchidas pelos alunos e assume uma postura mais impositiva, que é automaticamente reconhecida pelos alunos.
A regra contratual agora é todos devem permanecer sentados e apenas a professora está pé, apenas ela pode caminhar pela sala. Enquanto aplica a atividade, ela passa pelos alunos com a borracha na mão corrigindo os erros.

CONCLUSÕES FINAIS
Como já foi dito nas conclusões parciais as relações entre a professora, os alunos e o saber, representado no triângulo didático não são relações simétricas, pelo contrário, ele mostra a participação extremamente acentuada do papel da professora no cenário didático, enquanto os alunos são conduzidos por esta, seja nos momentos do contrato didático e na determinação do tempo de aprender que se subordina de forma intensa ao tempo de ensinar.

Com relação ao saber a ser ensinado, vemos um entendimento fragmentado da língua escrita geradora, certamente, de acréscimo às dificuldades das crianças nos seus processos de aprendizagem. Fato este manifesta também uma prática pedagógica construída, evidentemente, na solidão da sala de aula, distante das reflexões feitas nos espaços didáticos da atual formação inicial de nível superior, como também da formação continuada vigente.

Como nos demais níveis de ensino, a educação infantil, apresenta fenômenos didáticos, que à luz dos conceitos de transposição didática, contrato didático, tempo didático, avaliação e saber podem ser melhor explicados.
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