Fundamentos da intolerância no pensamento ocidental



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Raízes da intolerância


Clodoaldo Meneguello Cardoso



Preconceito

Imaginemos uma cena possível do cotidiano: um garoto vai para a escola levado de carro por seu pai. Ao sinal vermelho do semáforo, surge bem em frente um menino mirrado, com roupas surradas e um nariz de palhaço, fazendo um triste show circense de malabarismo. Outros dois também aproveitam a parada obrigatória para vender balas ou pedir moedas. Rapidamente o vidro do carro sobe depois da ordem e do comentário do pai: “Está vendo, filho, é assim que começa. Daqui a alguns anos esses moleques vagabundos que não querem estudar e trabalhar estarão roubando e matando. Isso não tem jeito de consertar.” Acende o verde e lá vai o garoto para escola um pouco assustado, mas aliviado: “Ainda bem que minha família da turma é do bem.” Está plantada a semente do preconceito social.

Preconceito não é simplesmente um sentimento de estranhamento diante de quem parece muito diferente de nós. É possível que se tenha diante do diferente uma reação de afastamento e até mesmo de defesa. O que é estranho potencialmente nos ameaça. Assim é provável que nossa reação diante de um imaginário encontro com um grupo de aliens não seria nada amistosa e cordial. O ato de afirmar a identidade e a unidade cultural de um grupo humano implica, muitas vezes, na rejeição de culturas diferentes que potencialmente possam ameaçá-la.

Todavia, o preconceito é muito mais do que tudo isso. O preconceito expressa-se em um juízo de valor que considera o outro ou um grupo como inferior a nós em algum aspecto: física, moral, social ou intelectual. O ato preconceituoso, portanto, sustenta-se pela crença na desigualdade natural entre os seres humanos e isso implica em considerar-se como possuidor da verdade absoluta e como padrão de comportamento de referência para todos. Daí porque, na relação de intolerância, o outro não é considerado verdadeiramente um “outro” e sim um alguém semelhante, porém inferior ou um desvio à norma, uma cópia imperfeita de um modelo único. E isso passa a justificar a exclusão, a dominação, a exploração e o extermínio do outro.

Na história, vários fatores conduziram os povos à intolerância: sobrevivência, poder político, acumulação de riquezas, dominação cultural, dogmas religiosos e verdades filosóficas. Sobre este último aspecto, faremos algumas considerações pontuando aqui e ali a história do pensamento ocidental. O propósito deste ensaio é oferecer referenciais teóricos para professores da educação básica, que desenvolvem atividades voltadas para a superação dos preconceitos, em busca da convivência na diversidade e igualdade.
A racionalidade metafísica

Os conceitos de padrão, modelo, de desvio da norma – na civilização ocidental – foram concebidos no interior do pensamento metafísico grego. A metafísica, primeira grande postura filosófica da cultura ocidental, buscou o significado último de todo o universo, um ponto único que explicasse a perfeita ordem do cosmo. Este ser absoluto não poderia estar obviamente em nosso mundo sensível, marcado pela multiplicidade e pela inconstância dos seres em contínua transformação. Estaria sim numa outra realidade meta-física manifesta apenas ao intelecto: o mundo dos conceitos, das idéias, das essências de tudo que existe aqui. Este plano metafísico é a realidade por excelência, pois dela se originam os seres materiais.

A racionalidade metafísica, construída por Platão e Aristóteles, tem uma visão atomística da realidade, ou seja, cada ser tem uma natureza em si independente dos outros seres, que o define enquanto tal. Cada ser identifica-se consigo mesmo. Assim a metafísica tem como eixo central o princípio de identidade: cada coisa é o que é em si mesma. Assim, podemos dizer que Pedro, aquela árvore e este pedaço de ferro identificam-se cada um consigo mesmo, ou seja, cada um é o que é, independente do outro.

Entretanto, ao dizer que A é A, o princípio de identidade da metafísica não estaria indicando apenas a identidade de cada ente (ser particular) consigo mesmo, mas principalmente a identidade de cada ente com sua essência, ou seja, este A com a essência de A. Isso implica, entre outras coisas, que cada ser pertence ou participa de uma natureza, que o define enquanto ente e que é comum a todos os indivíduos da mesma espécie. Este A contém a essência do A, o que garante a unidade de todos os As. Por isso, diz Heidegger, “o que o princípio de identidade, quando ouvido em seu teor fundamental, expressa é exatamente aquilo que todo o pensamento ocidental-europeu pensa, a saber isto: a unidade da identidade constitui um traço fundamental do ser do ente” (1971, p. 50).

Isso quer dizer que, quando o grego antigo perguntava “Que é isto?”, ele não está simplesmente perguntando sobre o ente que se apresenta a ele, mas este “quê” aponta para a qüididade, para a essência, para o ser do ente. Por exemplo, Pedro é um ente que participa da essência de homem, que – por sua vez participa da essência de animal, este - de ser vivo, que pertence a ser físico e que, finalmente, pertence à totalidade do ser, assim como a pedra, a árvore e o pássaro. É deste modo que o princípio de identidade da metafísica grega se configura numa visão essencialista do mundo. E aí foi gestada uma ideologia que justificou muitas atitudes de intolerância e preconceito na história ocidental.

Vejamos.

Na tradição metafísica a essência é algo imutável enquanto ela é ela mesma, o que exclui a teoria da evolução das espécies. Cada ser do universo tem uma natureza própria e distinta dos outros seres. Esta visão da realidade aproxima-se bastante da versão bíblica sobre a criação do mundo na tradição religiosa judaico-cristã. Daí porque, na Idade Média, a religião cristã reforçou e perpetuou muitos aspectos da Metafísica platônica e aristotélica.

Platão, por exemplo, fala de um Mundo das Idéias, onde residem as essências puras de todos os seres que existem no mundo material. São formas perfeitas e imutáveis das quais os seres materiais participam como cópias umas mais e outras menos perfeitas. Desta realidade também o homem participa.

Na dualidade de “animal racional”, essência do ser humano encontra-se na racionalidade, e não no corpo em que residem apenas “amores, paixões, temores, imaginações de toda sorte, enfim, uma infinidade de bagatelas” (Platão, 1979, p.67). Portanto, a forma perfeita de ser humano, está na alma inteligível de origem divina. Aproximar-se ao máximo dessa perfeição é ao mesmo tempo um caminho epistemológico rumo à sabedoria e um caminho ético em direção do bem. Foi o trajeto do prisioneiro que se libertou da caverna. De um lado, busca-se ultrapassar as opiniões fundadas nas sensações em busca da verdade inteligível; de outro a razão procura dominar as paixões e instintos do corpo, como um cocheiro que luta por controlar dois corcéis robustos e desembestados, compara Platão no diálogo Fedro (s/d, p. 247). Todavia, neste caminho de emancipação os homens não são iguais. Por motivos de vidas passadas, os homens não nascem iguais. Uns encontram-se com a alma inteligível mais evoluída, outros estão mais dominados pelas duas almas do corpo (sentimentos e instintos) e assim tendem a atingir graus diferentes pessoais e sociais em suas vidas.

Assim Platão vai conceber como natural a idéia não apenas da diversidade, mas também da desigualdade entre os homens. E num esforço de estabelecer o ideal de justiça entre os desiguais, ele constrói, no diálogo República, sociedade piramidal cuja base seria composta por pessoas que se identificam com o instinto de sobrevivência material (artesãos e agricultores); na camada intermediária estariam aqueles que desenvolveram sentimentos mais nobres como a coragem dos soldados; por fim o topo é o lugar dos mais evoluídos racionalmente (os filósofos) e que, portanto, governam a sociedade com sabedoria e justiça. Todos estariam felizes pela identificação de suas aspirações com a sua diferenciação natural.

A visão metafísica, na esfera social, explicita a ideologia que defende a tese de que a maior parte das desigualdades sociais são conseqüências das desigualdades naturais, ou seja, suas causas estão na esfera do indivíduo, como o caráter, a competência, o esforço, a inteligência etc Este é o campo fértil para germinar a erva daninha não somente do preconceito social, mas da consciência feliz daquele que considera sua posição social privilegiada como conquista pessoal. É este também o álibi filosófico ocidental para valorizar mais o trabalho intelectual do que o físico, esse destinado aos inferiores, aos condenados e àqueles que nem homens propriamente eram, os escravos.

Do seleto grupo de humanos também a mulher estava excluída, uma vez que a racionalidade metafísica identifica-se com o masculino e, portanto, o homem é a expressão mais fiel da forma perfeita de ser humano do que a mulher. A sociedade grega tinha a marca do masculino: somente os meninos recebiam a educação formal, somente os jovens participavam das olimpíadas e somente os homens livres votavam as leis na Ágora. Nas cidades-estado, as mulheres nunca tiveram status de cidadã e muito menos, ocuparam funções públicas.

Outras culturas antigas, também guerreiras, criaram suas justificativas ideológicas para o domínio masculino. Na Grécia a racionalidade foi construída sob a ótica masculina, identificando a mulher com as “almas” dos sentimentos e dos instintos, consideradas inferiores. Essa condição de inferioridade feminina, já constatada abundantemente nos textos filosóficos e literatos da Grécia antiga, foi aprofundada na Idade Média com a presença cultura judaico-cristã.

Em síntese: Na cultura ocidental, fundada no pensamento metafísico, as formas ou essências absolutas constituíram-se referências para justificar filosoficamente a exclusão de todos aqueles que, por motivo físico ou ideológico, não se enquadram nelas. E isso ganha um sentido mais radical quando os padrões de ser e de agir são considerados a expressão da uma vontade divina. Assim, tendo em sua origem o princípio de identidade como fundamento do pensamento e do ser, a cultura ocidental construiu padrões universais de verdade e de ética que engendraram formas de intolerância e violência para com os diferentes povos e culturas.

Estes padrões absolutos estenderam pela história ocidental até a modernidade européia, tendo no século XVII uma expressão exemplar: o iluminismo de Hegel. A mesma razão moderna emancipadora das trevas da ignorância – fonte das violências – paradoxalmente construiu padrões humanos que justificaram ao europeu a dominação, a exclusão e mesmo o extermínio dos povos colonizados.

Em Lições sobre a filosofia da história universal, Hegel desfila uma lista de argumentos metafísicos, buscando justificar a supremacia da civilização européia. Hegel vê o plano das idéias metafísicas e o plano dos fenômenos como interfaces de uma mesma realidade. Idéia e matéria se identificam. Assim, para ele, a trajetória evolutiva da história humana é a marcha do próprio Espírito (racionalidade humana) através dos tempos. E esse processo civilizatório da humanidade seguiu um percurso geográfico que se inicia na Ásia e culmina na Europa, mais especificamente com os povos germânico, francês e inglês. É o curso natural do próprio sol.

A civilização européia moderna é, portanto, a expressão máxima da Razão e a luz do sol, sua grande metáfora. Ficam à margem do caminho “iluminado” o restante da humanidade: os orientais, os povos africanos, os latino-americanos, os povos ao note da Europa e, a rigor a Espanha e Portugal.

Em várias passagens, Hegel deixa explícita a naturalização dessa ideologia ao dizer que “as zonas quente e fria não são o teatro da história. Estas regiões extremas ficam excluídas do espírito livre, deste ponto de vista. Assim, em geral, a zona temperada é a que há de oferecer o teatro para o drama da história universal.” (1953, p. 167).

Em relação ao Novo Mundo, Hegel – sem pudor – chega a identificar o novo como inferior, por ser infantil. Fala da baixa estatura dos indígenas como índice de inferioridade (p. 176), afirma que as feras são “menores, mais fracas, mais impotentes” (p. 175) que as do velho mundo e até refere-se a uma certa “imaturidade e juventude geográfica” (p. 174) de nossas ilhas e rios.

Tendo como base a identificação hegeliana do processo civilizatório com a identidade cultural européia e o contexto histórico do século XVIII, podem-se inferir as características básicas do padrão de ser humano e referência para toda a humanidade. Ele é europeu, branco, masculino, adulto, esclarecido, proprietário e cristão. Daí os preconceitos em relação àqueles que não se encaixam nesta forma: o indígena, o negro, o asiático e mesmo a mulher, a criança, o idoso, o formalmente inculto, o pobre e o não-cristão...

Deste modo a metafísica – de Platão a Hegel – gestou uma infinidade de modelos éticos absolutos de amor, liberdade, honestidade, felicidade etc, construídos na lógica formal abstrata, distante da vida. Sob estas formas metafísicas a educação tradicional buscou enquadrar o educando, premiando aqueles formados e excluindo da escola e da vida social os diferentes. Ensinava-se a convivência na identidade e, no máximo, uma tolerância vertical ao diferente, visto como um desvio da norma que se deveria suportar, mais por virtuosismo pessoal do que pelo reconhecimento da dignidade do outro. Ajudo um deficiente porque sou uma pessoa boa.

Sabe-se que este paradigma educacional foi questionado há mais de meio século e sofreu significativas transformações, todavia a mentalidade metafísica forjada na cultura ocidental durante séculos não desaparece em poucas décadas. O próprio discurso e práticas de aceitação do diferente e de inclusão podem conter resquícios de antigos preconceitos.




Desconstrução dos modelos metafísicos

Faz necessário ao educador atual uma desconstrução dos modelos metafísicos já proposta por filósofos como Marx, Nietzsche e Sartre, dentre outros. Vejamos como. Já em Kant no século XVIII, a realidade metafísica podia ser pensada, porém não conhecida, uma vez que este mostrou os limites do intelecto humano. Como compreender o infinito e o eterno, se nos encontramos encarcerados no espaço e no tempo. Só se pode conhecer e fazer ciência do mundo fenomênico.

Entretanto, foi com o marxismo que Metafísica sofreu seu primeiro grande golpe, depois de ser revigorada por Hegel. Para Karl Marx toda a filosofia (ele referia-se à Metafísica) constituía-se em uma ideologia dos grupos dominantes na história do ocidente, ou seja, uma justificativa de suas posições de dominadores. Daí seu caráter passivo e de conservação do status quo. A filosofia tradicional, dizia Marx, servia para contemplar o mundo e não para transformá-lo. Assim, por exemplo, reduzir a essência humana à alma inteligível, como fez a metafísica grega, é justificar teoricamente a opressão de uma elite intelectual que se considerada livre, porém vive do produto do trabalho braçal das mulheres e dos escravos. Portanto, a valorização do trabalho intelectual em detrimento do trabalho manual, como teorizou a metafísica, vem ao encontro dos interesses dos dominantes.

O que revela Marx no século XIX? O homem se constrói com ser humano na ação de transformação da natureza para sua sobrevivência e na convivência social. “O caráter social é, pois, o caráter geral de todo o movimento; assim como é a própria sociedade que produz o homem enquanto homem, assim também ela é produzida por ele.” (Marx, 1978, p. 9) É, pois, um ser histórico, não possuindo nenhuma natureza metafísica e suas idéias e valores são construídos num tempo-e-espaço histórico. Por conseqüência toda teoria que busca uma realidade trans-histórica ou metafísica aliena homem da história concreta marcada pela luta entre opressores e oprimidos. Neste quadro o sentido ético da vida humana está na ação transformadora, em busca de um mundo igualitário sem estruturas sociais opressoras.

Não é objetivo deste ensaio apresentar ou avaliar o projeto revolucionário marxista. O intuito aqui se resume em mostrar de que modo a filosofia contemporânea distanciou-se da metafísica e, portanto, dos modelos éticos absolutos na educação. Esse é o grande legado de Marx para os educadores contemporâneos.

Na esteira da crítica à tradição metafísica, Nietzsche a radicaliza. Assumindo sua irreverência, ele vai dizer – em Crepúsculos dos ídolos – que Sócrates e Platão se colocaram negativamente diante da vida (1978, p. 329), ao buscar o sentido para ela numa outra vida, no mundo metafísico. E critica a verdade colocada no plano conceitual em Sobre a verdade e a mentira (1978, p. 45-8), mostrando didaticamente que o conceito não representa a realidade, pois “assim como é certo que nunca uma folha é inteiramente igual a outra, é certo que o conceito de folha é formado por arbitrário abandono dessas diferenças individuais...”. E conclui: “O certo é que não sabemos nada de uma qualidade essencial.” A partir desse pressuposto, não se pode chegar rigorosamente a conhecer, a essência do homem como uma aeterna veritas (Humano, demasiado humano, 1978, p. 92). , como propôs a Metafisica. “Tudo o que o filósofo enuncia sobre o homem, entretanto, nada mais é, no fundo, do que um testemunho sobre o homem de um espaço e tempo muito limitado. Falta de sentido histórico é o defeito hereditário de todos os filósofos... (Idem, p. 92). O grande propósito de Nietzsche, ao rejeitar a postura metafísica foi mostrar a necessidade de o homem assumir realmente sua condição humana concreta e histórica sem iludir-se com verdades absolutas.

Por fim, encontramos Jean-Paul Sartre, já em pleno século XX, desconstruindo a Metafísica na esfera da existência humana. Não existe uma essência metafísica pré-estabelecida que determina a vida humana, pelo contrário “o homem primeiramente existe, se descobre, surge no mundo e só depois (...) se define (Sartre, 1978, p. 9) A existência precede a essência; é esse o principio do Existencialismo. Para Heidegger e Sartre não existe artífice superior para conceber a idéia de ser humano antes de ele existir, como ocorre quando um o marceneiro constrói uma mesa. Livre das essências e padrões metafísicos, o homem na perspectiva existencialista, está no mundo livre para fazer suas escolhas e construir seus projetos. E mesmo o Existencialismo cristão de Karl Jasper e Gabriel Marcel rejeitava qualquer determinismo que pudesse fazer desaparecer a singularidade do indivíduo. A crença em Deus não suaviza, pelo contrário, aprofunda a inquietude humana estimulando o homem a reflexões existenciais.

Num primeiro momento pensava-se que Existencialismo desaguava necessariamente no niilismo individualista, porém – em O Existencialismo é humanismo Sartre rebate tais críticas, argumentado que a escolha existencial de um projeto individual, quando ética, é uma escolha para toda a humanidade. Diz Sartre: “... não há dos nossos atos um sequer que ao criar o homem que desejamos ser, não crie ao mesmo tempo uma imagem do homem como julgamos que deve ser” ( Idem, p. 6-7) Assim a universalidade da escolha pessoal não suprime o relatividade de cada época e cultura, todavia garante seu caráter ético e político.




Outra perspectiva

Com a inserção do homem na história pelo marxismo, com o questionamento nietzschiano de toda a verdade absoluta e com a liberdade existencial do indivíduo assumida pelo existencialismo, o século XX foi marcado por uma avalanche de práticas de destruição dos padrões metafísicos de ser e de agir: na arte, na religião, na política e na convivência. Mesmo aquelas grandes narrativas construídas pelo racionalismo moderno foram questionadas.

Derrubados todos os modelos absolutos, fundados nos parâmetros éticos metafísicos, estava aberto o caminho para uma convivência humana menos preconceituosa, com aceitação das diversidades humanas e com possibilidade de inclusão de todos no projeto de felicidade.

Realmente, apesar de toda turbulência, avançou-se um pouco neste caminho: as camadas pobres e outros grupos vítimas de preconceitos têm mais consciência de sua dignidade e de seus direitos; se rejeita mais veemente a imposição do poder e de verdades únicas e enfim descobriu diversidades de toda ordem. Entretanto com a desconstrução dos padrões absolutos da metafísica tradicional, sentimo-nos o vazio de uma crise de referências sem precedência na história humanas. Nela fortaleceu-se o pragmatismo individualista para qual tudo vale, em nome do respeito da diversidade, desvinculada da desigualdade, na visão liberal.

Diante de um futuro com possibilidades catastróficas, devido ao desequilíbrio ambiental, social e psicológico ressurgem com outras roupagens o espectro das verdades absolutas e dogmáticas para solucionar todos os problemas contemporâneos. São práticas religiosas pré-modernas, pseudo-ciências de fácil assimilação, autoritarismos com aparência de democracia, programa rápidos de auto-conhecimento que, pelo canto sereia midiática, realimentam, em muitos, valores conservadores e preconceituosos quase extintos.

A opção única entre uma educação tradicional com padrões absolutos e o caos individualista em nome da liberdade é falsa e cômoda. O século XXI iniciou-se com um grande desafio no campo da ética: construir coletivamente projetos educacionais com novos padrões não mais metafísicos, mas históricos e legitimados em processos democráticos e igualitários.

Se não se aceitam mais as verdades universais e absolutas também não haverá o futuro para as novas gerações com o relativismo individualista. Tendo o chão da história como o campo legítimo de germinação de valores ético-políticos, é preciso acreditar na possibilidade de valores de convivência comum estabelecidos pela racionalidade, pela solidariedade e pela sensibilidade a condição humana de cada um e de todos.

Construir ou legitimar coletivamente valores universalizados pelo consenso temporário a partir do diálogo conflituoso, sem que isso signifique compactuar com desigualdades e opressões, parece ser um pressuposto para a convivência na diversidade com igualdade.



Referências
HEIDEGGER, M. Que é isto – a filosofia? Identidade e diferença. São Paulo: Duas Cidades, 1971. p. 50.
HEGEL, G. W. F. Lecciones sobre la Filosofia de la História Universal. 3a ed., vol. 1. Trad. José Gaos. Madri: Revista de Occidente, 1953.
MARX, Karl. Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1996.
NIETZSCHE, F. Obras incompletas. In: Os pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1978.
PLATÃO. Diálogos. In: Os Pensadores. Trad. José Cavalcante de Souza (O Banquete), Jorge Paleikat e João Cruz e Souza (Fédon, Sofista, Político) 2a ed., São Paulo: Abril Cultural, 1979. 261p.
_____. Diálogos I: Mênon - Banquete - Fedro. Trad. Jorge Paleikat. Rio de Janeiro: Ed. Globo, s.d

SARTRE, J. P. O existencialismo é um humanismo. In: Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1978.

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