Fundamentos para ensinar e aprender com facilidade



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PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO

DISCIPLINA: Teorias da Educação e processos pedagógicos

Prof. Dr. José Carlos Libâneo

TEXTOS SELECIONADOS DE COMÊNIO, ROUSSEAU, PESTALOZZI E KANT

I - COMÊNIO

FUNDAMENTOS PARA ENSINAR E APRENDER COM FACILIDADE

Examinamos os meios, graças aos quais o educador da juventude pode atingir com a segurança o seu objetivo. Vejamos, agora, de que modo aqueles mesmos meios devem ser aplicados às inteligências, pára que o seu emprego se faça com facilidade e com prazer.

Se observarmos as pegadas da natureza, torna-se-nos evidente que a educação da juventude se processará facilmente se:

I. Começar cedo, antes da corrupção das inteligências.

II. Se fizer com a devida preparação dos espíritos.

III. Proceder das coisas gerais para as particulares.

IV. E das coisas mais fáceis para as mais difíceis.

V. Se ninguém for demasiado sobrecarregado com trabalhos escolares.

VI. Se em tudo se proceder lentamente.

VII E se os espíritos não forem constrangidos a fazer nada mais que aquilo que desejam fazer espontaneamente, segundo a idade e por efeito do método.

VII. Se todas as coisas forem ensinadas, colocando-as imediatamente sob os sentidos.

IX. E fazendo ver a sua utilidade imediata.

X. E se tudo se ensinar sempre com um só e o mesmo método.

Assim, repito-o, tudo se processara segundo um an­damento suave e agradável. Mas regressemos de novo às pegadas da natureza.



FUNDAMENTO I

3. A natureza não começa senão partindo do estado de virgindade (a privatione),

Uma ave, com efeito, toma para chocar, ovos frescos que contenham uma matéria puríssima; se já antes tivesse começado a formar-se uma outra avezinha, em vão se esperaria um bom resultado.

4. Igualmente, o arquiteto que quer construir uma casa tem necessidade de um pedaço de terreno desimpedido; ou então, se a quer construir no lugar de uma outra, deve necessariamente, em primeiro lugar, demolir a velha.

5. Também o pintor pinta muito bem numa tela que nunca serviu. Mas se ela esta já pintada, ou manchada, ou apresenta rugas, e necessário primeiro que a raspe e a limpe.

6. De igual modo, quem quer 'guardar ungüentos preciosos, temi necessidade de frascos novos ou, ao menos, bem limpos do liquido que anteriormente continham.

7. Também o jardineiro planta muito bem as plantazinhas jovens, e, se acaso planta algumas que já são adultas, é necessário que primeiro lhes corte os ramos e lhes tire todas as ocasiões de desperdiçar a seiva. Foi por esta razão que Aristóteles colocou 'o estado de virgindade' (privatio) entre os princípios das coisas, pois via que era impossível infundir uma nova forma na matéria, antes de suprimir a primeira.

8. Daqui se segue: primeiro, que as mentes jovens, ainda não habituadas a distraírem-se com outras ocupações, se embebem bem dos estudos da sabedoria. E que, quanto mais tarde começa a formação, tanto mais embaraçada procede, pois a mente já está ocupada com outras coisas.

Segundo, que uma criança não pode ser instruída, com fruto, por vários mestres ao mesmo tempo, pois é quase impossível que todos empreguem o mesmo método; daí se segue a distração dos espíritos juvenis e os embaraços da formação. Terceiro, que agem como inexperientes aqueles que, encarregando-se da formação de crianças já crescidas e de adolescentes, não começam pela educação moral, para que, domando-lhes as paixões, os tornem aptos para as restantes coisas. É bem sabido que os domadores primeiro domam o cavalo com o freio e tornam-no obedien­te, e só depois lhe ensinam a tomar esta ou aquela posição. Sêneca disse com razão: "Primeiro aprende a moral e depois a ciência, pois esta aprende-se mal sem aquela". E Cícero escreveu: "A filosofia moral prepara os espíritos para receber a boa semente".

9. Portanto:

I. Que a formação da juventude comece cedo.

II. Que, para um mesmo aluno e na mesma matéria, não haja senão um só professor.

III. Que, antes de tudo, se eduquem os costumes das crianças, de modo que obedeçam com prontidão ao menor sinal do professor.

FUNDAMENTO II

10. A natureza predispõe a matéria de modo a tornar-se ávida de forma.

Assim, a avezinha já formada no ovo, sendo ávida de uma perfeição maior, agita-se naturalmente e rompe a casca com as patas e com o bico. Liberta daquela prisão, sente prazer em ser aquecida pela mãe; sente prazer em que ela lhe dê de comer e, por isso, abre o bico e engole a bicada; sente prazer em olhar o céu; sente prazer em ser treinada no voo e, pouco depois, em voar; numa palavra, apressa-se avidamente em pôr em ação todas as suas funções naturais, mas gradualmente.

11. Também o jardineiro deve necessariamente ter a preocupação de que a planta, provida de umidade e do calor vital necessário, cresça fresca e vigorosa.

12. Portanto, cuidam mal dos interesses das crianças aqueles que as obrigam aos estudos pela força. Efetivamente, que podem eles esperar? Se o teu estômago não recebe os alimentos com apetite e tu o queres atulhar, não podem vir-te senão náuseas e vômitos, ou, pelo menos, uma ma digestão e dano para a saúde. Ao contrário, qualquer que seja o alimento que metas num estômago famélico, ele digere-o bem e transforma-o cuidadosamente em quilo e sangue. Por isso, dizia Isócrates: “Se gostas de aprender, aprenderás muito". E Quintiliano escreveu: "A paixão de aprender depende da vontade, que não pode ser forçada".

13. Portanto:

I. Deve inflamar-se, de qualquer modo, nas crianças, o desejo ardente de saber e de aprender.

II. O método de ensinar deve diminuir o trabalho de aprender, de modo que nada magoe os alunos e os afaste de prosseguir os estudos.

"O desejo ardente acende-se e favorece-se nas crianças, pelos pais, pelos professores, pela escola, pelas próprias coisas, pelo método e pelas autoridades civis".

É NECESSÁRIO, AO MESMO TEMPO, FORMAR A JUVENTUDE E ABRIR ESCOLAS

Demonstrado que as plantas do Paraíso, ou seja, a juventude cristã, não podem desenvolver-se como numa selva, mas que necessitam de cuidados, vejamos agora de quem é essa incumbência. Naturalissimamente, isso compete aos pais; já que foram autores da vida natural, devem também sê-lo da vida racional, honesta e santa. (...)

Mas, tendo-se multiplicado tanto os homens como os afazeres humanos, são raros os pais que ou saibam, ou possam, dedicar-se à educação dos seus filhos; sendo assim, desde há muito, por salutar conselho, se estabeleceu que pessoas escolhidas, notáveis pelo conhecimento das coisas e pela pureza de seus costumes, se encarregassem de educar, em conjunto, os seus filhos. A estes formadores da juventude se deu o nome de preceptores, mestres, professores; e os locais destinados a esses exercícios comuns foram denominados de escolas, institutos, auditórios, colégios, ginásios, academias, etc. (...)

E é de grande interesse para toda a Cristandade não apenas conservar este santo costume, mas aumentá-lo, afim de que em toda e qualquer comunidade de homens bem ordenada de homens (seja uma cidade, vila ou aldeia) se abra uma escola para a educação comum da juventude. (...)

Em segundo lugar a necessidade. Porque, com efeito, raramente os pais estão preparados para educar bem os filhos, ou raramente dispõem de tempo para isso, daí se segue como consequência que deve haver pessoas que façam apenas isso como profissão e desse modo sirvam a toda a comunidade.

E mesmo que não faltassem pais a quem fosse possível dedicar-se inteiramente à educação dos seus filhos, seria, todavia, muito melhor educar a juventude em conjunto, num grupo maior, porque, sem dúvida, o fruto e o prazer do trabalho são maiores quando uns recebem exemplo e incitamento de outros. Com efeito, é naturalíssimo fazer o que fazem os outros, ir onde vemos ir os outros, seguir os que vão à frente e ir à frente dos que vêm atrás. (...) Além disso, a idade infantil conduz-se e governa-se muito melhor com exemplos do que com regras. Se se lhe ordena alguma coisa, pouco se interessará; se se lhe mostra os outros a fazer alguma coisa, imitá-los-á, mesmo que lho não ordenem. (...)

Toda juventude de ambos os sexos deve ser enviada às escolas. Devem ser admitidos nas escolas das cidades, praças, aldeias e vilas não apenas os filhos dos ricos ou dos cidadãos principais, mas todos por igual, nobres e plebeus, ricos e pobres, meninos e meninas. (...)

Não existe nenhum motivo válido pelo qual o sexo fraco deva ser excluído em absoluto dos estudos científicos (seja em língua latina ou em língua materna). Com efeito, as mulheres são igualmente imagens de Deus, igualmente participantes da graça e do reino dos céus, igualmente dotadas de uma mente ágil e capaz de apreender com sabedoria (muitas vezes até mais do que o nosso sexo), igualmente para elas está aberto o caminho dos ofícios elevados (...). Porque é que teríamos que admiti-las às primeiras letras e depois afastá-las dos livros? Temos medo de que cometam temeridades? Mas quanto mais lhes tivermos ocupado o pensamento, tanto menor lugar encontrará a temeridade, a qual, normalmente, é originada pela desocupação da mente. (...)

Importa demonstrar agora que, nas escolas, deve-se ensinar tudo a todos. Isso não quer dizer, todavia, que exijamos a todos o conhecimento de todas as ciências e todas as artes (sobretudo se se trata de um conhecimento exato e profundo). (...) Pretendemos apenas que se ensine a todos a conhecer os fundamentos, as razões e os objetivos de todas as coisas principais, das que existem na natureza como das que se fabricam, pois somos colocados no mundo não somente para que façamos de espectadores, mas também, de atores. Deve, portanto, providenciar-se e fazer um esforço para que a ninguém, enquanto está neste mundo, surja qualquer coisa que lhe seja de tal modo desconhecida que sobre ela não possa dar modestamente o seu juízo e dela se não possa servir prudentemente para um determinado uso, sem cair em erros nocivos.

SOBRE O MÉTODO DE ENSINO

Vamos agora reunir, em um só lugar, as observações que vimos fazendo aqui e ali acerca do modo de ensinar metodicamente as ciências, as artes, as línguas, a moral e a piedade. Dissemos “metodicamente”, isto é, de modo fácil, sólido e rápido. (...)

Para que um espelho reflita com fidelidade os objetos é necessário, em primeiro lugar, que os objetos sejam sólidos e evidentes e, em segundo lugar, que esses mesmos objetos sejam apresentados aos sentidos. Com efeito, a neblina e outras coisas semelhantes, de escassa consistência, não brilham e refletem-se muito debilmente no espelho; e as coisas afastadas de maneira alguma podem refletir-se. Assim, pois, tudo quanto se queira fazer conhecer à juventude devem ser coisas reais, não sombras das coisas; e coisas, repito, sólidas, verdadeiras e úteis, que produzam boa impressão nos sentidos e na imaginação. Certamente os impressionarão quanto mais se aproximem.

Por tudo isso, deve ser regra de ouro para os que ensinam que cada coisa seja apresentada ao sentido que convém, ou seja, as coisas visíveis à vista, as audíveis ao ouvido, as cheirosas ao olfato, as saborosas ao gosto, as tangíveis ao tato; e se alguma coisa puder ser percebida por diversos sentidos, que seja colocada, ao mesmo tempo, diante de vários sentidos.

A razão deste preceito é tripla:

1. É necessário que o conhecimento comece sempre pelos sentidos (uma vez que nada há na inteligência que antes não tenha passado pelos sentidos). Porque, pois, há de se começar o ensino pela exposição verbal das coisas e não mediante uma observação real dessas mesmas coisas? Somente depois dessa observação das coisas é que virá a palavra, para explicar mais profundamente.

2. Em segundo lugar, a verdade e a certeza da ciência também não dependem senão do testemunho dos sentidos. Efetivamente, as coisas imprimem-se primeiramente e imediatamente nos sentidos e, depois, por meio deles, na inteligência. Prova disso é que o conhecimento sensitivo se presta assentimento por si mesmo, ao passo que, no raciocínio e na afirmação de outrem, para se ter a certeza, recorre-se ao testemunho dos sentidos. (...) Em resumo, se queremos que os alunos saibam as coisas com verdade e com certeza, há que procurar que o ensino todo se dê por meio da ação direta da vista e da percepção sensível.

Posto que os sentidos são os mais fiéis provedores da memória, esta demonstração sensível de todas as coisas tem por resultado a perpetuidade do conhecimento; isto é, que o que cada um saiba, o saiba para sempre. Efetivamente, com uma só vez que tenha provado a cana de açúcar, ou visto um camelo, ouvido cantar o rouxinol ou estado em Roma e a tenha percorrido (com tanto que preste a tudo atenção), ficarão tão indelevelmente gravadas estas sensações em minha memória que não poderão apagar-se (...)

Se porventura faltarem os objetos, podem ser utilizados modelos ou representações, feitos especialmente para o ensino, como é a prática constante na botânica, na zoologia, na geometria, na geodésica e na geografia, que costumam apresentar suas descrições ou demonstrações acompanhadas de imagens. Igualmente deve fazer-se em física e outras ciências. (...)

O que termos dito refere-se à apresentação dos objetos aos sentidos. Vamos agora tratar da luz, pois, se ela falta de nada nos serve por os objetos ante os olhos. Esta luz do conhecimento é a atenção, graças à qual o aluno com a inteligência presente e ambiciosa, percebe todas as coisas. Assim, como nada se vê no escuro e com os olhos fechados, embora tenha todas as coisas junto à sua vista. Assim também, escapará a seus sentidos o que falarmos ou mostrarmos a quem não nos presta atenção, como acontece àqueles que têm sua imaginação preocupada em outras coisas, que não se dão conta do que acontece em sua presença. Do mesmo modo, que aquele que quer ensinar algo a outro al à noite tem necessidade de trazer a luz e o reacendê-la com freqüência para que emita maior claridade, o Mestre também, ao querer iluminar com o conhecimento das coisas um aluno envolto nas trevas da ignorância, tem, em primeiro lugar, que despertar nele a atenção para que receba o ensino com inteligência ávida e ambiciosa.



AS REGRAS DO MÉTODO

Para observar o que antecede, damos nove regras muito úteis aos que ensinam as ciências:

1. Deve-se ensinar tudo o que é preciso saber. Se ao discípulo não se oferece o que ele deve saber, como virá a saber? Cuidem, pois, os que ensinam, de não ocultar nada aos discípulos, seja intencionalmente, como costumam fazer os invejosos e os desleais, seja por negligência, como aqueles que fazem suas coisas descuidadamente. Aqui, é indispensável a boa fé e o zelo.

2. Tudo o que se ensina, deve ser ensinado como coisa do presente e de utilidade certa. Assim, o discípulo verá que aquilo que lhe é ensinado não são utopias nem idéias platônicas, mas coisas que, efetivamente, nos rodeiam e cujo conhecimento tem aplicação real à vida. Com isto, a mente será mais estimulada e porá maior atenção.

3. Tudo o que se ensina, deve ser ensinado diretamente, sem rodeio algum. Isto consiste em conhecer as coisas diretamente e não de lado, pois neste caso não só não se vêem as coisas como também as aparecem confusas e obscuras ante nossa vista. Cada objeto deve ser oferecido aos olhos de quem aprende em sua essência própria, desnudamente, sem o subterfúgio das palavras, metáforas, alusões e hipérboles, que se usam para exagerar, diminuir, louvar ou rebaixar as coisas já conhecidas, mas não para fazê-las conhecer. Nestas, trata-se de proceder diretamente.

4. Tudo o que se ensina, ensine-se tal qual é e acontece, isto é, pelas suas causas.

É perfeito o conhecimento que nos faz compreender as coisas tais quais são, pois, se são conhecidas de modo diverso do que são, não haverá conhecimento, mas erro. Todo objeto é tal como foi constituído, e se aparece de modo diferente de como foi feito, deve entender-se que foi alterado. (...)

5. Tudo o que se oferece ao conhecimento deve apresentar-se primeiramente de um modo general e, depois, por partes. Apresentar uma coisa de um modo geral ao conhecimento, é explicar a essência e os acidentes dessa coisa. A essência explica-se por meio destas perguntas: Que? Qual é? Por quê? A pergunta Que é, refere-se ao nome, ao gênero, à missão e à finalidade da coisa. À pergunta Qual é, corresponde à forma ou o modo em virtude do qual esta coisa está adequada a seu fim. À pergunta Por quê? refere-se à eficiência, ou seja, aquela força pela qual a coisa se torna apta para seu fim. (...)

6. Devem ser examinadas todas as partes do objeto, mesmo as mais insignificantes, sem omitir nenhuma, respeitando a ordem, a posição e as relações que têm uma com as outras.

Nada existe sem motivo, e às vezes, a utilidade do mais importante reside na menor de suas partes. É sabido que, no relógio, uma só rodinha partida, torcida ou deslocada pode fazer parar toda a máquina; e, se a um corpo vivo se tirar um só membro, pode tirar-se-lhe toda a vida; e muitas vezes, no contexto de um discurso, a menor palavra (como uma preposição ou uma conjunção) modifica e até inverte todo o sentido. E assim acontece em todas as coisas. O conhecimento perfeito de uma coisa se obtém pelo conhecimento de todas as suas partes e sabendo o que é e para que serve cada uma delas.

7. As coisas devem ser ensinadas sucessivamente, em cada tempo uma só coisa.

Assim como a vista não pode atender ao mesmo tempo a duas ou três coisas, senão dispersamente e confusamente, também a mente não pode entender a não ser uma só coisa em cada momento. Portanto, convém passar claramente de uma coisa para outra, para que não se confunda a mente.

8. Há que se deter em cada coisa até que ela seja perfeitamente compreendida.

Nada acontece num instante, porque tudo o que se faz acontece graças ao movimento e este se realiza sucessivamente. Portanto, deve-se demorar com o aluno em cada parte da ciência até que a conheça bem e se dê conta de que a sabe. Conseguir-se-á isso explicando, examinando e repetindo, até ter total segurança.

9. Expliquem-se bem as diferenças das coisas para obter um conhecimento claro e evidente de todas.

Há uma grande verdade nesta famosa máxima: quem sabe fazer distinções, ensinará bem. A multidão das coisas perturba aquele que aprende; e a variedade induz a confusão, a não ser que se utilizem remédios: no primeiro caso, o remédio será a ordem para que se ensine uma coisa após outra; no segundo caso, será a consideração atenta das diferenças de modo que apareça com clareza em que umas coisas se diferenciam de outras.

Mas, porque não é dado a todos poder exercer o ofício de professor com tudo o que ele exige de destreza, é necessário submeter todas as ciências que se ensinam nas escolas a estas regras do método, a fim de que o ensino não descarrilhe e não falhe no seu objetivo.

(Trechos da obra Didáctica Magna, de Comênio. Tradução da versão em espanhol de Lorenzo Luzuriaga em Antología Pedagógica, Buenos Aires: Editorial Losada).

II - ROUSSEAU

NECESSIDADE DA EDUCAÇAO

Não se conhece a infância; com as falsas idéias que dela se tem, quanto mais longe se vai, mais se extravia. Os mais sábios se fixam no que importa aos homens saber, sem considerar que as crianças se encontram em estado de aprender. Eles buscam sempre o adulto na criança, sem pensar no que ela é antes de ser adulto. (…) Começai, estudando melhor vossos alunos, pois seguramente não os conheceis. (...)

Tudo está bem ao sair das mãos do Autor das coisas; tudo degenera nas mãos do homem. Ele obriga uma terra a alimentar as produções de outra, uma árvore a produzir frutos de outra; mistura e confunde os climas, os elementos, as estações; mutila seu cão, seu cavalo, seu escravo; perturba tudo, desfigura tudo; ama a deformidade, o monstruoso; não quer nada como o fez a natureza, nem mesmo o homem; acha necessário ensina-lo, como a um cavalo de picadeiro; necessita moldá-lo a seu modo, como a uma árvore de seu jardim.

Sem isso, tudo estaria pior ainda, e nossa espécie não quer ser formada pela metade. No estado em que se encontram atualmente as coisas, um homem abandonado desde seu nascimento entre os demais, seria o mais desfigurado de todos. Os preconceitos, a autoridade, a necessidade, o exemplo, todas as instituições sociais em que nos encontramos submersos, afogariam nele a natureza e nada deixariam em seu lugar. Ela seria como um arbusto que o acaso fez nascer no meio de um caminho e que os transeuntes logo o fariam perecer pisando-o por todas as partes, curvando-o em todos os sentidos.

É a ti que me dirijo, terna e previdente mãe, que soubeste afastar-te do caminho trilhado e proteger o arbusto nascente do choque das opiniões humanas! Cultiva, rega a jovem planta antes que morra: seus frutos farão um dia tuas delicias. Forma, desde cedo, um cinturão em torno da alma de tua criança; outro pode indicar o circuito, mas somente tu podes colocar a barreira.

Moldamos as plantas pelo cultivo, os homens pela educação. Se o homem nascesse grande e forte, seu porte e suas forças lhe seriam inúteis enquanto não houvesse aprendido a servir-se delas; ser-lhe-iam prejudiciais, impedindo aos demais de assisti-lo; e abandonado a si mesmo, ele morreria de miséria antes de ter conhecido suas necessidades. Não se compadece da infância; não se vê que a espécie humana teria perecido se o homem não começasse sendo criança.

Nascemos débeis, temos necessidade de força; nascemos desprovidos de tudo, necessitamos assistência; nascemos estúpidos, temos necessidade de juízo. Tudo o que não temos ao nascer e que necessitamos quando adultos, nos é dado pela educação.

TIPOS DE EDUCAÇÃO

Esta educação nos vem da natureza ou dos homens ou das coisas. O desenvolvimento interno de nossas faculdades e de nossos órgãos é a educação da natureza; o uso que aprendemos a fazer deste desenvolvimento é a educação dos homens; a aquisição de nossa própria experiência sobre os objetos que nos afetam é a educação das coisas.

Cada um de nós é, pois, formado por três tipos de mestres. O aluno em quem as diversas lições desses mestres contrariam-se fica mal educado e não se encontra nunca de acordo consigo mesmo; aquele em quem todas coincidem nos mesmos pontos e tendem aos mesmos fins, vai sozinho a seu fim e vive consequentemente. Somente este resulta bem educado.

Ora, dessas três diferentes educações, a da natureza não depende de nós; a das coisas depende apenas em certos aspectos. A dos homens é a única da qual somos realmente os donos, e ainda assim somente por suposição; porque, quem pode esperar dirigir inteiramente as palavras e as ações de todos os que rodeiam uma criança?

Se a educação é, pois, uma arte, é quase impossível que triunfe dado que o concurso necessário ao seu êxito não depende de ninguém. Tudo o que se pode fazer, à força de cuidados, é aproximar-se mais ou menos do objetivo, mas é necessário ter sorte para alcançá-lo.

NATUREZA DA EDUCACÃO

Qual é este objetivo? É o mesmo da natureza, como se acaba de provar. Posto que seja necessário o concurso das três educações para sua perfeição, é para aquela sobre a qual nada podemos que se devem dirigir as outras duas. Mas talvez esta palavra natureza tenha um sentido demasiado vago; temos que tentar fixá-lo aqui. (...)

Na ordem natural, sendo todos os homens iguais, sua vocação comum é o estado do homem, e quem quer que esteja bem educado para este estado, não pode ser mal realizado no que se refira a ele. Que meu aluno seja destinado ao exército, à igreja, ao fórum, pouco me importa. Antes da vocação, a natureza chama-o à vida humana. Viver é o oficio que quero ensinar-lhe. Ao sair das minhas mãos não será, concordo nisto, magistrado, nem soldado, nem sacerdote; será antes de tudo um homem; tudo o que um homem deve ser saberá sê-lo sempre, que necessário, tão bem como qualquer outro; e por mais que a sorte possa trocá-lo de lugar, ele sempre estará no seu. Occupavi te, Fortuna, atque cepi; omnesque aditus tuos interclusi, ut ad me aspirare non posses. “Te tenho e te aprendi, oh Fortuna, e fechando todas as portas para que não possas chegar até mim. (Cicero, Tuscul, V. Cap. IX.).

Nosso verdadeiro estudo é o da condição humana. Aquele de nos que saiba suportar melhor os bens e males desta vida é, em minha opinião, o melhor educado; donde se segue que a verdadeira educação consiste menos em preceitos do que em exercícios. Começamos a nos instruir quando começamos a viver; nossa educação começa conosco; nosso primeiro preceptor é nossa ama de leite. Por isso esta palavra educação tinha entre os antigos outro sentido, diferente do que lhe damos: significava alimento. Educit obstetrix, — diz Varrão — educat nutrix, instituit pegagogus, docet magister. 1 Assim, pois, a educação, a instituição, a instrução, são três coisas tão diferentes em seu objeto como a aia, o preceptor e o professor. Mas, estas distinções são mal compreendidas; e para que seja bem orientada a criança não deve seguir mais do que um guia. (...)

Pensa-se apenas em conservar a criança; não é o bastante. Deve-se ensinar-lhe a conservar-se sendo homem, a suportar os golpes do destino, a enfrentar a opulência e a miséria, a viver, se necessário, nos gelos da Islândia ou sobre as rochas quentes de Malta. É belo que tomeis precauções para que não morra, no entanto, será necessário que morra; e mesmo que a morte não seja obra de seus cuidados, ainda assim estes seriam mal entendidos Trata-se menos de impedir que morra do que de fazê-lo viver. Viver não é respirar, é agir, é fazer uso de nossos órgãos, de nossos sentidos, de nossas faculdades, de todas as partes de nós que nos dão o sentido de nossa existência. O homem que mais viveu não é aquele que tem mais anos de vida contados, mas aquele que mais sentiu a vida. Há quem seja enterrado aos cem anos e quem morra ao nascer. Ganharia de ir ao túmulo na sua juventude, se vivesse pelo menos até à este tempo.

A VIDA DA CRIANÇA E A EDUCAÇÃO

O que pensar, pois, desta bárbara educação que sacrifica o presente a um futuro incerto, que carrega uma criança de grilhões de toda espécie e começa por torná-la miserável visando prepará-la para o distante, para não sei que pretensa felicidade, que provavelmente jamais desfrutará? Ainda que se suponha que essa educação é razoável em seu objeto, como ver sem indignação a pobres infortunados submetidos a um jugo insuportável e condenados a contínuos trabalhos forçados, sem ter a certeza de que tantos cuidados lhes sejam alguma vez úteis? A idade da alegria transcorre em meio a prantos, castigos, ameaças, escravidão. Atormenta-se o infeliz para seu bem, e não se vê que se chama a morte que vai apoderar-se dele em meio a este triste aparato. (...)

Homens, sejam humanos, é seu primeiro dever; sejam humanos para todos os estados, para todas as idades, para tudo o que não seja estranho ao homem. Que sabedoria há para vós fora da humanidade? Amem a infância, favoreçam seus jogos, seus prazeres, seu amável instinto. (...)

A natureza quer que as crianças sejam crianças antes de serem homens. Se queremos inverter esta ordem produziremos frutos precoces que não terão maturação nem sabor, e não tardarão em corromper-se; teremos jovens doutores e crianças velhas. A infância tem maneiras de ver, de pensar e de sentir que lhe são próprias; nada tão insensato como querer substituí-las pelas nossas; seria o mesmo que exigir que uma criança tivesse cinco pés de estatura, assim como juízo, aos dez anos de idade. Com efeito, para quê lhe serviria a razão nessa idade? É o freio da força e a criança não necessita desse freio. (...)

Têm sido experimentados todos os instrumentos menos um, o único que, precisamente, poderia ter êxito: a liberdade bem regulada (...)

Não deis a vosso discípulo nenhuma espécie de lição verbal; ele as deve receber somente da experiência. Não lhe inflijais nenhuma espécie de castigo, porque a criança não no sabe o que é cometer falta; jamais a obrigue a pedir perdão, por que não sabe ofender-vos. Desprovida de toda moralidade em seus atos, nada pode fazer que seja moralmente mau e que mereça castigo ou repreensão. (...)

A primeira educação deve ser, pois, puramente negativa. Consiste não em ensinar a virtude ou a verdade, mas em proteger o coração contra o vício e o espírito contra o erro. (...)

Outra consideração que confirma a utilidade deste método é a do gênio particular da criança, que é necessário conhecer bem para saber qual é o regime moral que lhe convém. Cada espírito tem sua forma própria segundo a qual necessita ser dirigido; o êxito depende de que seja dirigido nessa forma e não em outra. Homem prudente espie longo tempo a natureza, observe bem seus alunos antes de dizer-lhes a primeira palavra, primeiramente deixe que se mostre o gérmen de seu caráter em plena liberdade, não exerça sobre ele nenhuma coerção, a fim de vê-lo melhor todo inteiro. (...)



A EDUCAÇÃO ATIVA

A busca dos melhores métodos para se ensinar a ler converteu-se num grande assunto; inventam-se carteiras, cartazes; converte-se o quarto da criança em uma oficina de tipografia. Locke quer que aprenda a ler com dados. Não credes que é um invento bem encontrado? Que piedade! Um meio mais seguro que todos estes, e que se esquece sempre, é o desejo de aprender. Dai a uma criança esse desejo, e esqueça as carteiras e os dados; todo método será bom.

O interesse presente, eis o grande móvel, o único que leva longe. (...)

Torne vosso aluno atento aos fenômenos da natureza e cedo o tornarás curioso; mas para alimentar-lhe a curiosidade não os apresse jamais a satisfazê-la. Ponha os problemas a seu alcance e deixa-os resolver. Que não saiba nada porque hajas dito, mas porque ele mesmo o haja compreendido; que não aprenda a ciência, que a invente. Se por acaso substituir alguma vez em seu espírito a razão pela autoridade, não tornará a raciocinar; não será mais que o joguete da opinião dos demais.

Quereis ensinar geografia a essa criança e vais buscar globos, esferas, mapas? Para quê tantas máquinas? Para quê tantas representações? Por que não começais por ensinar-lhe o objeto mesmo a fim de que saiba ao menos do que lhe fala? (...)

Não gosto das explicações em discurso; os jovens prestam pouca atenção a elas e muito menos as retêm. As coisas! As coisas! Nunca repetirei o bastante que concedemos demasiado poder às palavras; com nossa educação charlatã não fazemos mais que charlatães. (...)

Não haveria um modo de aproximar tantas lições repartidas em tantos livros, reuní-las em um objeto comum que possa ser visto com facilidade, interessante de seguir e que possa servir de estimulante, mesmo nessa idade? Se podemos inventar uma situação em que todas as necessidades naturais do homem se mostrem sensíveis ao espírito de uma criança, e todos os meios de poderem estas necessidades se desenvolver sucessivamente com a mesma facilidade, é pela pintura viva e ingênua dessa idade que se há de dar-lhe o primeiro exercício à imaginação.

(Trechos da obra Emilio ou Da Educação, de Rousseau. Tradução da versão em espanhol de Lorenzo Luzuriaga em Antología Pedagógica, Buenos Aires: Editorial Losada).



III - PESTALOZZI

O círculo do saber – pelo qual o homem é agraciado em seu estado – é restrito, e começa próximo, ao redor do seu ser, em volta de suas mais próximas relações; daí se estende e tem que reger-se em cada expansão por este ponto central, fecundador da verdade.

O puro sentido da verdade se forma em círculos restritos, e a pura sabedoria humana descansa no firme fundamento do conhecimento de suas relações mais próximas e na educada capacidade para proceder nas questões mais imediatas.

Esta sabedoria humana, que se revela pelas necessidades de nossa condição, fortalece e forma nossa capacidade de ação, e a direção espiritual que provoca é simples e visa firmemente as coisas; está formada pela força total das disposições naturais dos objetos, firmemente estabelecida em suas uniões efetivas, e por isto, é fácil de conduzir a todas as direções da verdade.

Sua expressão é a força, o sentimento e a aplicação precisa.

Caminho sublime da natureza, a verdade à qual conduzes é a força e o fato, a causa, a formação, a realização, a disposição do ser completo da humanidade.

Não educas o homem com um desenvolvimento rápido e brilhante, e teu filho, oh natureza! é limitado; seu discurso é expressão e efeito do conhecimento realizado sobre as coisas.

Porém, quando os homens aceleram a marcha de tua ordem, perturbam em si mesmos sua força íntima e descompõem o equilíbrio e o repouso no mais íntimo de seu ser.

Fazem isto quando, antes de ter educado seu espírito docilmente na verdade e na sabedoria pelo conhecimento preciso dos objetos reais, aventuram-se no caos infinito das palavras vãs e das opiniões, e põem como fundamento de seu caráter e como primeira educação de suas forças, sons, discursos e palavras, ao invés das verdades dos objetos científicos.

Este caminho artificial da escola que coloca a série das palavras antes da natureza livre, lenta, cuidadosa, educa o homem no brilho falso, que dissimula a carência de força natural interior.

Orientação da vida, destino do homem, és o livro da natureza. Em ti está contida a força e a ordem desta sábia condutora; a educação escolar que não se construa sobre este fundamento se desencaminha (...).

A elevação destas forças da natureza humana à pura sabedoria da verdade é o fim geral da educação dos homens, até dos mais humildes. O exercício, a aplicação e o uso de sua força e de sua sabedoria constituem a educação profissional e especial, que há de estar subordinada ao fim geral da educação humana.

(Trechos da obra Velada de un solitario, de Pestalozzi, 1779. Tradução da versão em espanhol de Lorenzo Luzuriaga em Antología Pedagógica, Buenos Aires: Editorial Losada).

EDUCAÇÃO E INSTRUÇÃO

Assim, também, sem ter uma consciência exata do princípio de que partia, comecei então a ater-me nos objetos que ensinava às crianças, à proximidade ou distância com que costumam impressionar seus sentidos: e seguindo até seus últimos limites os princípios do ensino, tratei também de investigar o tempo inicial da instrução da criança até mesmo em seus primeiros momentos, e logo me convenci de que a primeira hora de sua instrução é a hora de seu nascimento. A natureza o instrui desde o instante em que seus sentidos chegam a ser sensíveis a suas impressões. A nova vida não é outra coisa a não ser a capacidade inteiramente amadurecida de receber estas impressões; não é nada senão o amanhecer dos germens físicos já ultimados que tendem com todas as suas forças e com todos os seus impulsos a desenvolver sua própria configuração; não é nada senão o despertar do animal, já completo, que quer chegar a ser homem e que deve chegar a sê-lo.

Toda a instrução do homem não é, pois, outra coisa que a arte de auxiliar a este anseio da natureza por seu próprio desenvolvimento, e esta arte descansa fundamentalmente na proporcionalidade e harmonia das impressões que devem ser comunicadas à criança com o grau preciso de suas forças. Nas impressões que lhe devem ser transmitidas por meio da instrução há, pois, necessariamente, uma gradação cujo princípio e processo devem marchar exatamente ao mesmo passo que o princípio e processo das forças da criança que vão se desenvolver.

O CURSO DA EDUCAÇÃO’

Somente pela arte o homem chega a ser homem; porém, por mais longe que vá este nosso condutor que temos em nós mesmos, há de ir unido firmemente, em toda sua ação, ao curso simples da natureza. Por muito que faça, e por mais ousadamente que nos eleve da condição, e até mesmo da lei, de nossa existência animal, não pode acrescentar nem um átomo à essência da forma mediante a qual se eleva nossa espécie das intuições confusas aos conceitos exatos. Tampouco deve fazê-lo. Ela alcança essencialmente seu objeto, nosso aperfeiçoamento, somente quando nos desenvolvemos desta e não em outra forma, e se o fizermos de qualquer outra forma, isso nos retorna sempre à uma situação não humana, da qual ela deve nos tirar porque foi destinada a isso pelo criador da natureza. A essência da natureza de onde emana a forma do desenvolvimento necessário à nossa natureza é em si mesma eterna e imutável. Ela aparece, também, em seu supremo esplendor, aos olhos do investigador profundo não de outro a não ser como um edifício majestoso, que por uma imperceptível adição de partes pequenas se elevou sobre uma grande rocha, eternamente subsistente, sobre a qual descansa inabalável, desde que permaneça intimamente unido a ela, mas que se derruba estrondosamente e se esfacela em nada quando a união com a rocha se rompe, embora não seja mais do que em um pequeno segmento. É tão imenso em si mesmo e em toda sua extensão o efeito da educação, que é pequeno e imperceptível o que a arte acrescenta ao curso da natureza, ou melhor, o que edifica sobre seus alicerces. Suas prescrições no desenvolvimento de nossas forças se limitam essencialmente a reunir em um círculo mais estreito e em gradações coordenadas o que a natureza nos apresenta disperso, distante e em relações confusas, e a por nossos cinco sentidos em relações mais próximas, que facilitem nossa memória e ajudem nossos próprios sentidos a representar os objetos do mundo de um modo cada vez mais numeroso, duradouro e exato. Toda a sua força repousa também na conformidade de sua influência e de seus efeitos com os efeitos essenciais da natureza física; toda sua atuação é uma e a mesma com a desta natureza. (...)

O mecanismo da natureza humana sensível está submetido, em seu ser, às mesmas leis pelas quais a natureza física desenvolve suas forças. Conforme estas leis, toda instrução deve gravar de um modo invariável e profundo no íntimo do ser humano o essencial da matéria de seu conhecimento; depois, encadear lentamente, mas com uma força ininterrupta, o menos essencial ao essencial, e manter todas as suas partes até o término de sua matéria em uma relação viva, mas proporcional à mesma.

FUNDAMENTOS DA EDUCAÇÃO

Tratei de descobrir as leis a que, conforme a sua natureza mesma, há de submeter-se o desenvolvimento do espírito humano; sabia que tinham que ser as mesmas da natureza físico-sensível e acreditava encontrar seguramente nelas o fio com o qual pudesse tecer a trama de um método de instrução psicológico. Homem — disse-me a mim mesmo na busca febril deste guia — assim como reconheces em cada amadurecimento físico o resultado do fruto inteiramente terminado em todas as suas partes, também não consideres como maduro nenhum juízo humano que não se apresente à tua vista como resultado de uma intuição completa em todas as suas partes do objeto que se há de julgar; pelo contrário, o juízo que apareça maduro antes de uma intuição completa não o aprecies a não ser como uma fruta desprendida da árvore, roída pelos vermes e, por conseguinte, só aparentemente madura.

1. Aprende, pois, primeiro, a ordenar tuas intuições e a terminar o simples antes de avançar ao complicado. Trata de estabelecer em cada arte uma gradação de conhecimentos em que cada novo conceito seja somente uma adição pequena, quase imperceptível, aos conhecimentos anteriores, impressos profundamente e tornados indeléveis para ti.

2. Ordena, além disso, em teu espírito todas as coisas essencialmente conexas na precisa relação em que realmente se encontram na natureza; subordina em tua representação todas as coisas não essenciais às essenciais especialmente a impressão que te produz a visão artificiosa à da natureza e a de sua verdade real, e a nenhuma coisa dês em tua representação maior importância da que tem relativamente para tua espécie na natureza mesma.

3. Fortalece e clareia as impressões dos objetos mais importantes, aproximando-os a ti por diferentes sentidos. Para este fim, reconhece, antes de tudo, a lei do mecanismo físico, que faz depender a intensidade relativa de todas as impressões da proximidade ou distância, a teus sentidos, do objeto que as fere. Não esqueças nunca: esta proximidade ou distância física determina o decisivo em tua intuição, em tua educação profissional e também em tua virtude.

4. Considera todas as ações de natureza física como incondicionalmente necessárias e reconhece nesta necessidade o resultado de sua arte, com a qual reúne para a consecução de seu fim, mediante a proporção, todos os elementos de seu domínio aparentemente heterogêneos, e opera de modo que eleves a arte com que influis em tua espécie, por meio da instrução, à necessidade física, que é precisamente o resultado que ela persegue; de igual modo, eleva tua atividade à consecução do mesmo fim, ainda que com meios aparentemente heterogêneos.

5. A riqueza e variedade em estímulos e jogos fazem com que os resultados da necessidade física tragam geralmente em si o selo da liberdade e independência. Opera também de modo que os resultados da arte e da instrução, elevados a necessidade física tragam impresso o selo da liberdade e independência mediante a riqueza e variedade em estímulos e jogos.

6. Todas estas leis, às quais está submetido o desenvolvimento da natureza humana, giram, em toda sua extensão, em torno de um ponto central, isto é, do ponto médio de nossa existência inteira; e esse ponto somos nós mesmos. Amigo, tudo o que sou, tudo o que quero e todo o que devo procede de mim. Não deve meu conhecimento proceder de mim também?

(Trechos da obra Como Gertrudes ensina a seus filhos, de Pestalozzi, 1801. Tradução da versão em espanhol de Lorenzo Luzuriaga em Antología Pedagógica, Buenos Aires: Editorial Losada).

REGRAS DO MÉTODO

Toda arte dos homens é, pois, essencialmente, uma conseqüência de leis físico-mecânicas, das quais as mais importantes são as seguintes:

1. Traga ao seu espírito todas as coisas essencialmente relacionadas na precisa conexão em que se encontram realmente na natureza.

2. Subordina as coisas não essenciais às essenciais e em particular a impressão da visão artificial de ti mesmo à da natureza e a de sua verdade real.

3. Não dê a nenhuma coisa mais importância em tua representação da que tem relativamente para tua espécie na natureza mesma.

4. Ordena, também, segundo sua semelhança todos os objetos do mundo.

5. Fortifica a impressão dos objetos importantes em ti mesmo, fazendo-lhes operar sobre ti por diferentes sentidos.

6. Trata de ordenar uma seriação em toda arte do conhecimento, na qual cada novo conceito seja só uma adição pequena, apenas perceptível a conhecimentos anteriores profundamente impressos e, para ti, tornados indeléveis.

7. Aprende a completar o simples até à maior perfeição antes de avançar ao complexo.

8. Reconhece em cada amadurecimento físico o resultado da plenitude completa do fruto em todas as suas partes, e atente que cada juízo exato há de ser um resultado de uma intuição realizada em todas as partes do objeto a julgar.

9. Todas as ações físicas são absolutamente necessárias, e esta necessidade é um resultado da arte da natureza, à proporção com a qual reúne entre si os elementos aparentemente homogêneos de sua matéria para a consecução de um fim. A arte que a imite deve, por isto, tratar de elevar os resultados que persegue a necessidade física, reunindo os elementos da arte ao seu fim, por meio da proporção ou harmonia.

10. Produz riqueza e pluralidade em estímulos e jogos, de modo que os resultados da necessidade física tragam em si mesmo o selo da liberdade e da independência. Aqui também a arte deve imitar o curso da natureza e tratar pela riqueza e diversidade de estímulos e jogos, que tragam em seus resultados o selo da liberdade e da independência.

11. Reconhece, antes de tudo, a grande lei do mecanismo físico, a saber: o encadeamento geral e firme de suas ações às relações da proximidade ou distância física de seu objeto a teus sentidos. Não te esqueças nunca: esta proximidade ou distância física de todos os objetos que te rodeiam determinam o decisivo de tua intuição, do desenvolvimento de tua vocação (e ainda de tua virtude).

(Trechos da obra O Método, de Pestalozzi, 1800. Tradução da versão em espanhol de Lorenzo Luzuriaga em Antología Pedagógica, Buenos Aires: Editorial Losada).



IV - KANT

A EDUCAÇÃO COMO HUMANIZAÇÃO

O homem é a única criatura que precisa ser educada. Entenda-se por educação os cuidados (trato, conservação), a disciplina e a instrução, juntamente com a formação. Conforme este entendimento, o homem é infante, educando e discípulo.

Os animais, tão logo sentem suas forças, empregam-nas regularmente, de modo que não lhes sejam prejudiciais. É admirável ver, por exemplo, as andorinhas pequenas que, recém saídas da casca do ovo e ainda cegas, sabem fazer com que seus excrementos caiam fora do ninho. Os animais, pois, não necessitam cuidado algum; no máximo, serem aquecidos, guiados, e receber certa proteção. Sem dúvida, a maior parte dos animais necessita alimento, mas não cuidado. Entende-se por cuidado as precauções dos pais para que os filhos não façam um uso prejudicial de suas forças. Se um animal, por exemplo, gritasse ao nascer, como fazem as crianças, infalivelmente seria presa dos lobos e outros animais selvagens, atraídos pelos seus gritos.

A disciplina transforma a animalidade em humanidade. Um animal já é animal completo por seu próprio instinto; uma razão que lhe é externa proveu-lhe de tudo. Mas o homem necessita de uma razão própria; não tem nenhum instinto, necessita construir ele mesmo o plano de sua conduta. Entretanto, não possui capacidade imediata para fazê-lo, pois vem inculto ao mundo, esta capacidade deve ser construída nele pelos outros.

O gênero humano deve obter pouco a pouco de si mesmo, por seu próprio esforço, todas as capacidades naturais da humanidade. Uma geração educa a outra. Pode-se presumir o estado primitivo da humanidade como rude ou em um grau de perfeita civilização. Admitindo o último caso, o homem deve ter se tornado selvagem e caído na barbárie.

A disciplina impede que o homem, levado por seus impulsos animais, se afaste de seu destino, da humanidade. A disciplina tem que sujeitá-lo, por exemplo, para que não se lance ao perigo como um animal selvagem ou como um estúpido. Mas a disciplina é puramente negativa, porque é a ação que tira do homem sua animalidade; a instrução, pelo contrário, e a parte positiva da educação. (...)

Unicamente pela educação o homem pode tornar-se homem. Não é por sorte que a educação o faz ser homem. Observe-se que o homem só é educado por homens que, igualmente, também foram educados. Portanto, a falta de disciplina e de instrução os torna, também, maus educadores de seus alunos. Se um ser superior algum dia cuidasse de nossa educação, então poderíamos ver o que o homem poderia tornar-se. Mas a educação, por um lado ensina algo ao homem e, por outro lado, não faz mais que desenvolver nele certas qualidades, não se pode saber até onde nos levariam as nossas disposições naturais. Se ao menos fosse feita uma experiência com o apoio dos poderosos e com a união da força de muitos, isso nos esclareceria a questão de saber até onde o homem pode chegar por esse caminho. Mas é tão importante para um espírito especulativo e tão triste para um amigo da humanidade ver como os poderosos frequentemente não cuidam senão de si próprios e não contribuem para as importantes experiências sobre a educação, para que se avance um pouco mais rumo à perfeição da natureza humana.

Não há ninguém que, tendo sido descuidado na juventude, não compreenda, quando na idade madura, em que aspecto foi descuidado, seja na disciplina, seja na cultura (assim pode ser chamada a instrução). O que não tem cultura de nehuma espécie é um bruto, quem não tem disciplina ou educação é um selvagem. A falta de disciplina é um mal maior que a falta de cultura, pois esta pode ser adquirida mais tarde, enquanto que o estado selvagem não pode ser corrigido nunca. É provável que a educação vá melhorando continuamente e que cada geração futura dê um passo a mais para o aperfeiçoamento da humanidade, pois o grande segredo da perfeição da natureza humana está na educação. A partir de agora pode acontecer isto porque se começa a julgar acertadamente e a ver claramente o que, de fato, convém a uma boa educação. É encantador pensar que a natureza humana se desenvolverá cada vez melhor por meio da educação e que isto pode ser realizado de uma forma que convém à humanidade. Descobre-se aqui a perspectiva de uma felicidade futura para a espécie humana.

O projeto de uma teoria da educação é um ideal nobre e em nada prejudicial, mesmo que não tenhamos condição para realizá-lo. Uma idéia não pode ser tida por quimera e desacredita, como se fosse apenas um belo sonho, mesmo que se encontrem obstáculos à sua realização. (...)

Na educação, o homem deve, portanto:

1) Ser disciplinado. Disciplinar quer dizer: procurar impedir que a animalidade prejudique o caráter humano, tanto no indivíduo como na sociedade. Portanto, a disciplina consiste em domar a selvageria.

2) Deve o homem tornar-se culto. A cultura abrange a instrução e vários conhecimentos. A cultura é a criação da habilidade e esta é a posse de uma capacidade condizente com todos os fins que almejemos. Ela, portanto, não determina por si mesma nenhum fim, mas deixa esse cuidado às circunstâncias.

Algumas formas de habilidade são úteis em todos os casos, por exemplo, o ler e o escrever; outras são boas só em relação a certos fins, por exemplo, a música, para nos tornar queridos. A habilidade é de certo modo infinita, graças aos muitos fins.

3) A educação deve também cuidar que o homem se torne prudente, que ele permaneça em seu lugar na sociedade e que seja querido e tenha influência. A esta espécie de cultura pertence o que se chama propriamente civilidade. Esta requer certos modos corteses, gentileza e a prudência de nos servirmos dos outros homens para os nossos fins. Ela se regula pelo gosto mutável de cada época. Assim, prezavam-se, faz já alguns decênios, as cerimônias sociais.

4) Deve, por fim, cuidar da moralização. Na verdade, não basta que o homem seja capaz de toda sorte de fins; convém também, que ele consiga a disposição de escolher apenas os bons fins. Bons são aqueles fins que são aprovados necessariamente por todos e que podem ser, ao mesmo tempo, os fins de cada um.

(*) Extraído do livro “Sobre a Pedagogia”, de Kant, Editora UNIMEP.



A TEORIA E A PRÁTICA DA EDUCAÇÃO

A educação é uma arte cuja prática deve ser aprimorada por muitas gerações. Cada geração, provida dos conhecimentos das anteriores, pode realizar constantemente uma educação que desenvolva, de modo proporcional e adequado a uma finalidade, todas as disposições humanas naturais. A Providência quis que o homem extraísse de si mesmo o bem e o disse assim: “Entra no mundo. Eu o provi de todas as capacidades para o bem. A ti cabe desenvolvê-las e, portanto, depende de ti tua própria felicidade ou desgraça”.

O homem deve desenvolver suas disposições para o bem: a Providência não as pôs nele já formadas; são meras disposições e sem a distinção da moralidade. O homem deve fazer-se melhor, educar-se por si mesmo e, quando for mau, extrair de si a moralidade. Na reflexão a esse respeito se percebe que isto é muito difícil: a educação é maior e mais difícil problema que pode ser proposto ao homem. A inteligência depende da educação e a educação, por sua vez, da inteligência. Consequentemente, a educação não pode avançar senão pouco a pouco; não é possível ter um conceito mais preciso da educação a não ser pela transmissão que cada geração faz à seguinte, de seus conhecimentos e experiências; e esta, por sua vez, acrescenta-lhes algo e os transmite à geração seguinte. Que cultura e que experiência tão grandes este conceito supõe? Não poderia nascer senão muito tarde; nós mesmos não o podemos obter em toda sua pureza. Deve a educação reproduzir no indivíduo a cultura que a humanidade em geral recebe de suas diferentes gerações?

Podem ser consideradas como as duas descobertas humanas mais difíceis: a arte do governo e arte da educação. Entretanto ainda se discute sobre isto. (…)

Toda educação é uma arte porque as capacidades naturais do homem não se desenvolvem por si mesmas. A natureza não lhe forneceu para isso nenhum instinto. Tanto na sua origem como em seu processo, esta arte é mecânica, sem planejamento, sujeita às circunstâncias dadas, não pensada. A arte da educação se origina mecanicamente nas variadas ocasiões em que aprendemos se algo é útil ou prejudicial ao homem. Toda arte da educação que se realiza mecanicamente contém erros e falhas porque carece de planejamento e fundamento. Para desenvolver a natureza humana a fim de que possa cumprir seu destino, a arte da educação, ou pedagogia, necessita ser pensada. Os pais já educados são exemplos tomados como modelos conforme os quais se educam seus filhos. Se estes haverão de tornar-se melhores é necessário que a pedagogia seja uma disciplina; do contrário, nada há que se esperara deles e os mal educados educariam mal os outros. Na arte da educação há que se pro a ciência no lugar do que é mecânico, pois se assim não será um esforço incoerente e uma geração derrubará o que outra construiu.

Os homens que planejam a arte da educação, particularmente estes, deveriam considerar um princípio desta arte: as crianças não devem ser educadas conforme o estado presente mas conforme um estado melhor da espécie humana, possível no futuro; isto é, conforme a idéia de humanidade e de seu inteiro destino. Este princípio é da maior importância. (...)

Há que se instalar escolas experimentais antes de se fundar escolas normais. A educação e a instrução não devem ser meramente mecânicas, devem basear-se em princípios. Todavia, não devem fundamentar-se na razão pura, devem ter certo mecanicismo. (...). Acredita-se que os experimentos não são necessários à educação e que só pela razão se pode julgar se uma coisa será boa ou má. Mas aí reside um grande equívoco e a experiência ensina que frequentemente se tem obtido de nossos ensaios efeitos completamente contrários aos que se esperavam.

(Trechos do texto Sobre Pedagogia, constante das “Obras Completas” de Immanuel Kant, 1786 Tradução da versão em espanhol de Lorenzo Luzuriaga em Antología Pedagógica, Buenos Aires: Editorial Losada).




1 Dá à luz a parteira, alimenta a ama de leite, instrui o pedagogo, ensina o professor.



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