Futebol e Samba na Cidade Alemã



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FUTEBOL E SAMBA NA CIDADE ALEMÃ:

a formação da Sociedade Recreativa Desportiva Cultural de Samba “Protegidos do Galeão”, em Blumenau, na década de 1970.*


SARA KRIEGER DO AMARAL
RESUMO

O estudo objetiva analisar as relações entre sociedade civil, poder público e membros de um time de futebol que deu origem a uma escola de samba em Blumenau, na década de 1970, além de desvendar os motivos que levaram estes trabalhadores, vindos do litoral catarinense, a se associar. O período é marcado pelo início da redemocratização da política nacional, sendo que, em Blumenau, os governos municipais investiam na restauração das tradições alemãs, objetivando atrair turistas. A industrialização da cidade atraiu trabalhadores de diversas regiões. A não identificação com o associativismo local fez alguns destes migrantes criarem a Soc. Rec. Desp. Cult. de Samba “Protegidos do Galeão”. A entidade extinguiu-se quando os incentivos à cultura alemã se intensificaram. Ainda assim, a criação desta sociedade indica a busca da liberdade de escolha das atividades do tempo livre.


PALAVRAS-CHAVE: Identidade Cultural, Blumenau, Homem do Litoral
ABSTRACT

The study aims to examine the relationship between civil society, public authorities and members of a football team that has led to a school of samba in Blumenau, in the 1970s, and uncover the reasons why these workers, from the Santa Catarina coast, get associated. The period is marked by the start of redemocratization national political, and, in Blumenau, the municipal governments invest in the restoration of German traditions, to attract tourists. The industrialization of the city attracted workers from different regions. The non-identification with the local association has done some of these migrants create a Rec. Soc Exp. Cult. de Samba "Protegidos do Galeão”. The entity is extinguished when the incentives for German culture have intensified. The creation of this society indicates the search for freedom of choice of activities in free time.


KEY-WORDS: Cultural Identity, Blumenau, Man of the Coast.
INTRODUÇÃO
O desenvolvimento das indústrias blumenauenses, na segunda metade do século XX, atraiu diversos trabalhadores para a cidade, porém, após as crises econômicas do final da década de 1970, as vagas de empregos passaram a ficar escassas. A falta de empregos e a não identificação cultural fizeram com que estes migrantes fossem vistos com maus olhos. Mesmo assim, muitos criaram associações objetivando preservar a identidade que lhes agradava.

Após discutir o conceito de identidade, abordando sua formação nas esferas nacional, estadual e local, trabalha-se a contextualização das décadas de 1970 e 1980, considerando os aspectos cultural, político, econômico e social, tendo em vista a dominação política exercida pelo governo militar e, posteriormente, a redemocratização. Concomitante a isto, aprofunda-se o estudo da Sociedade Recreativa Desportiva Cultural de Samba “Protegidos do Galeão”, instituição formada por migrantes vindos do litoral catarinense, historicamente estigmatizados pelos moradores do Vale do Itajaí, pois, desde no início da colonização, são percebidos como preguiçosos e indolentes. Procura-se estudar os motivos que os levaram a fundar tal entidade, para então, analisar a relação desta com a cidade, a população e o poder público local.


IdentidadeS EM CONSTRUÇÃO
O debate em torno da questão da identidade apareceu de forma mais ampla no final do século XIX, quando os nacionalismos tomaram conta das formulações intelectuais e da política mundial. Segundo Hobsbawm “a base dos “nacionalismos” de todos os tipos era igual: era a presteza com que as pessoas se identificavam emocionalmente com “sua” nação e podiam ser mobilizadas” (HOBSBAWM, 1988:204).

Seguindo a tendência européia, o Brasil iniciou seus estudos sobre a sociedade que o constitui, buscando a formação de uma identidade nacional. Em 1938, criou-se o “Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro”, entidade que produzia uma história oficial e limitada aos interesses da corte, pois era financiado pelo imperador e composto pelas elites intelectual e econômica. Pretendia criar uma história brasileira única e homogênea, privilegiando os heróis da nação e os fatos considerados importantes.

Esta homogeneidade pregada pela tentativa de formação de uma identidade é uma construção de quem detém o poder, para excluir quem não atende aos padrões estabelecidos e criados. As identidades podem, ao longo da história, servir como justificativa para excluir o diferente, sendo que, a exclusão e a estigmatização de quem não se enquadra no grupo, podem servir para a afirmação da superioridade de um grupo dominante (ELIAS, 2000:21).

Com a abolição da escravatura o negro tornou-se um trabalhador livre, e, mesmo que menosprezado, a sua existência passou a ser considerada pela elite intelectual. Passou-se a defender a teoria de que o Brasil era formado pela fusão de três raças: o branco, o negro e o índio; porém o branco sempre teve uma posição superior em relação aos demais. Para complementar a dominação branca, a imigração de, entre outros, italianos e alemães foi incentivada pelo governo brasileiro. Santa Catarina foi um dos destinos destes imigrantes, sendo o Vale do Itajaí a região na qual grande parte deles se fixou.

A idéia de que os europeus levariam a civilização para os demais continentes fez com que o autocontrole se tornasse o elemento civilizador, evitando manifestações intensas de sentimentos. As sociedades industrializadas e altamente diferenciadas, como se pretendia tornar o Brasil, exigem das pessoas um autocontrole de sentimentos e ações. Os alemães se encaixavam perfeitamente nessa ideologia, pois afirmava-se que a raça alemã era superior, e tinha uma capacidade inigualável para o trabalho.

Estes imigrantes, que chegaram ao Brasil, não eram alemães, pois a unificação deste País ocorreu apenas em 1871. A união dos vários estados para a formação da Alemanha homogeneizou as culturas dos diversos reinos para a formação de um “povo alemão” e de uma identidade nacional alemã, influenciando, inclusive, as colônias de imigrantes ou de seus descendentes, localizadas em outros continentes. Influenciadas pelos movimentos de identificação alemã, a imprensa e a população de ascendência germânica, no sul do Brasil, buscaram preservar a língua e os costumes trazidos do velho mundo. Os teuto-brasileiros não queriam abrir mão do Deutschtum, justificado pela superioridade alemã, já que as cidades colonizadas por estes apresentavam um grande crescimento econômico; enquanto as cidades litorâneas encontravam dificuldades para se adaptar à ordem capitalista de produção, recebendo uma imagem negativa (FLORES, 1991:151). Por outro lado, os luso-brasileiros exigiam a aculturação e o reconhecimento da brasilidade pelos descendentes de alemães.

A fama de pessoas de má índole vinculada aos habitantes do litoral catarinense, menos favorecidos economicamente, usada como justificativa para o atraso econômico desta região, comparando-se com o restante do País, contrastava com os moradores do Vale do Itajaí, que se afirmavam mais capazes para o trabalho, demonstrando esta aptidão no progresso econômico da região. É esta prosperidade que avalizava a manutenção da cultura alemã.

Esta preservação da identidade aparece, ao mesmo tempo, como uma afirmação e várias negações: a afirmação daquilo que se é e a negação de todas as outras possibilidades de ser. Da mesma forma, a diferença trata-se da afirmação daquilo que o outro é, mas também é a negação de muitas coisas, inclusive da igualdade (SILVA, 2000:74-75). A identidade é, portanto, sempre excludente. “Ela envolve um trabalho discursivo, o fechamento e a marcação de fronteiras simbólicas, a produção de ‘efeitos de fronteiras’” (HALL, 2000:106).

Anos mais tarde, a grande onda do nacionalismo atingiu diversos países do mundo. As décadas de 1920 e 30 foram marcadas por governos ditatoriais e nacionalistas, inclusive no Brasil, através da administração do Presidente Getúlio Vargas. Na tentativa de criar uma identidade nacional brasileira, Vargas proibiu qualquer manifestação diversa da cultura considerada a nacional. A partir de 1935, o governo brasileiro criou uma campanha contra o movimento “germanófilo”, que resultou na proibição de publicações em alemão, na criação de leis de nacionalização do ensino, entre outras ações (FLORES, 1991:156). O Vale do Itajaí foi uma das regiões que mais sofreu repressões neste período. A população, que até então preservava as características trazidas pelos imigrantes alemães teve que, obrigatoriamente, aprender os costumes nacionais. Para assegurar o controle, um batalhão de infantaria do exército foi instalado na cidade.

A imposição de uma língua oficial, que surgiu junto com a imposição das nações, tinha papel fundamental no processo de identificação, pois era uma das possibilidades de ligação com a pátria. Os símbolos como hinos, bandeiras, brasões, e, além destes, os “mitos fundadores”, que surgiram através de histórias heróicas que inauguraram um passado em comum, pouco importando a veracidade dos fatos narrados, apareciam como manifestações culturais e tradicionais que identificam cada nação (SILVA, 2000:85).

Na tentativa de afirmar que a identidade catarinense convergia com a identidade nacional que se estava querendo criar, em 1948, na cidade de Florianópolis, capital do estado, foi realizado o “Primeiro Congresso de História Catarinense”, para comemorar o Segundo Centenário da Colonização Açoriana (FLORES, 1991:139-140).

O congresso fazia parte de um movimento de busca de identidade, procurando afirmar que o homem catarinense era representado pelo homem do litoral. Tentava-se encontrar um passado que unisse a população litorânea em torno de uma mesma cultura trazida das ilhas dos Açores e da Madeira, mesmo que essas tradições já não fizessem mais parte do cotidiano dos moradores da Ilha de Santa Catarina. Percebe-se assim que as identidades são construídas por pessoas com interesses específicos, emergindo “no interior do jogo de modalidades específicas de poder e são, assim, mais o produto da marcação da diferença e da exclusão do que o signo de uma unidade idêntica, naturalmente construída”(HALL, 2000:109).

Essa necessidade de afirmar a identidade açoriana surgiu do processo em que a região litorânea do estado vinha perdendo o status de detentora da história de Santa Catarina para outras povoações catarinenses. Apostava-se na criação de um homem do litoral desprendido do sucesso econômico, pois considerava-se que ele era mais preocupado com a “construção de uma brasilidade em Santa Catarina”(FLORES, 1991:160).
A FORMAÇÃO DA SOCIEDADE RECREATIVA DESPORTIVA CULTURAL DE SAMBA “PROTEGIDOS DO GALEÃO”
Na década de 1970 o Brasil viveu um momento muito marcante em sua história. Neste período, a ditadura militar, instituída em 1964, viu o seu auge e o início de sua decadência. Nesta década, se registrou um expressivo aumento da atividade industrial, principalmente no ramo têxtil, em Blumenau, o que ocasionou um crescimento de vagas no mercado de trabalho. A necessidade de força de trabalho superava a capacidade da cidade de fornecer trabalhadores. Essa alta demanda de empregos somente foi suprida devido à intensa migração de pessoas das diversas regiões do País. Esses migrantes trouxeram para Blumenau outros valores, modificando o modo de vida da população, que ainda se baseava nos resquícios das regras sociais da antiga colônia alemã.

O crescimento das indústrias blumenauenses trouxe diversos turistas para o município. Notando essa oportunidade, o poder público e a iniciativa privada uniram-se para decidir a melhor forma de aumentar, cada vez mais, a atividade turística na cidade. As classes interessadas no desenvolvimento turístico acreditaram que a melhor forma de apresentar um diferencial em Blumenau seria retomar as antigas tradições dos imigrantes alemães, que durante o processo de nacionalização foram ocultadas.

A industrialização e o desenvolvimento do comércio fizeram com que “no decorrer da década [de 1970], a população urbana [subisse] de 86 para 95%. Muitas propriedades rurais deixaram de existir para dar lugar às indústrias que se instalavam no município” (FROTSCHER, 1999:127). Apenas os bairros Fortaleza e Ponta Aguda, levaram ainda, algum tempo para adquirir caráter urbano. Note-se que “estavam isolados, pois não havia ligação com o Centro. [As terras] permaneceram ainda por longo tempo nas mãos de agricultores e proprietários que não tinham interesse em parcelá-las” (CPU/IBAM/Lions Club. apud FROTSCHER, 1999:127).

O bairro Fortaleza aparece como uma das regiões mais tradicionais de Blumenau, pois, até a inauguração da Ponte Wilson Pedro Kleinubing (Ponte do Tamarindo), no final da década de 1990, estava distante do centro, recebendo tardiamente os reflexos da modernidade. Contudo, neste bairro apareceram experiências sociais inusitadas na cidade. É nesta localidade que surgiu, em 1976, o primeiro centro comunitário de Blumenau, que tinha por objetivo o “caráter representativo, reivindicatório, educativo e beneficente”1.

Um dos fatores que revela o interesse do poder público local neste bairro, como um lugar que merece atenção especial quanto aos seus eleitores, é o fato de o terreno desta associação ter sido doado pela prefeitura. Além disso, durante a ditadura, era no Centro Comunitário que as lideranças locais, assim como os políticos municipais, realizavam seus discursos e tinham contato com a comunidade. Este também é o bairro em que surgiu uma escola de samba, justamente quando iniciava-se a restauração da cultura alemã, em Blumenau. Diversos times de futebol faziam suas partidas em terrenos particulares nestes arredores. Com a criação do Centro Comunitário, este passou a ser o local de lazer oficial no bairro.

Dentre os times, um, fundado em 1976, era formado por trabalhadores, predominantemente, negros. Os jogadores eram parentes de um dos membros da primeira diretoria do Centro Comunitário, Astor Davi, ou Sargento Astor, como ficou conhecido. Este time recebeu o nome de Galeão Esporte Clube e, segundo José Nilton, membro do time, foi fundado, não para participar da liga blumenauense, mas para jogar em outras cidades do estado, para passear com a família durante os finais de semana, porém, sendo trabalhadores, tinham sempre a preocupação de estar em condições de trabalhar na segunda-feira.


Quando nós jogávamos [...] sábado em Tubarão, à noite, domingo nós [arrumávamos] um jogo em Laguna ou Imbituba, ou Criciúma. Mas geralmente a gente já fazia o segundo jogo, lá da cidade do primeiro pra cá, pra chegar mais cedo em casa, porque segunda feira a gente trabalhava. O pessoal pegava cinco da manhã na eletro-aço, outros pegavam as sete. Esse era o nosso time (DAVI:2008).
Percebe-se um desejo de sair da cidade onde se mora, e se trabalha. Esta busca por sair do município, nos momentos de tempo livre, aponta para um desejo de quebrar a lógica do trabalho, presente em Blumenau, pois, as cidades, em geral, ao se modernizarem, forçam suas populações a se adequarem de forma mais intensa às regras do capitalismo, transformando as relações de trabalho e intensificando a produção industrial.

Imbituba, citada como um dos destinos do time, é a cidade de origem de José Nilton. Esta cidade localiza-se no litoral sul de Santa Catarina, preservando características da cultura litorânea. Quase todos os demais membros da família também vieram do litoral, sendo que a maioria deles era de Garopaba. Assim, para os blumenauenses, estas pessoas, além de serem negras, portavam as mazelas do homem do litoral, caracterizado como um “tipo específico que seria portador de características essencialmente negativas, como a incapacidade, a indolência, a decadência, o atraso, etc”. (ARAÚJO, apud, FERREIRA, 1998:119).

A relação com os chamados “brasileiros” (como eram designadas as pessoas que não possuíam ascendência européia definida), representados, principalmente, por pessoas naturais do litoral catarinense, era indesejada, pois alguns dos antigos moradores de Blumenau, normalmente descendentes de alemães, julgavam-se melhores, mais aptos ao trabalho, mais limpos que os demais. Um exemplo dessa estigmatização é que a existência de propriedades pertencentes aos antigos moradores de Blumenau permitia que estes, além da fábrica, trabalhassem em seus terrenos, plantando e criando pequenos animais. A escassez e o alto preço das terras impossibilitavam os recém-chegados de realizar as mesmas tarefas, sendo chamados de preguiçosos, por apenas trabalharem na fábrica (HILLESHEIM, 1996:17).

A situação dos membros do time, formado na maioria por negros, era ainda pior, pois os afro-descendentes normalmente são vistos como mais brutos, agressivos, menos capazes para o trabalho livre que os descendentes de europeus, principalmente porque, após a abolição, não admitiram, de forma eficiente, a valoração positiva que se tentou dar à nova ordem trabalhista, pois desde a instituição da República, “desejava-se, na verdade, que os homens livres internalizassem a noção de que o trabalho era um bem, o valor supremo regulador do pacto social” (CHALHOUB, 2005:49).

No ano seguinte da criação do time, decidiu-se formar uma escola de samba, visto que, enquanto não estavam em campo, os jogadores do Galeão tocavam samba. Sociedade Recreativa Desportiva Cultural de Samba “Protegidos do Galeão” foi o nome dado ao grupo que objetivava ações recreativas, esportivas, culturais, musicais e coreográficas2. A diretoria era hierarquizada, contemplando produções voltadas à realização dos objetivos, através das direções de produção social, artística, cultural e de patrimônio. A ““cultura” é entendida aqui como uma espécie de recurso, de formas ou alternativas de conduta ou comportamento historicamente disponíveis aos membros de uma determinada comunidade ou classe social” (CHALHOUB, 2005:255)..

A intervenção política do Sargento Astor certamente influenciou as lideranças locais, que logo perceberam a oportunidade de obtenção de votos, apoiando a nova sociedade e, inclusive, doando instrumentos e trajes para os desfiles. Os empresários da cidade, patrões dos jogadores, também deram a sua contribuição: “Na eletro-aço a gente ganhou apoio, no Figueiras nós ganhamos apoio, inclusive nosso chefe acompanhava os ensaios, o prefeito Félix Theiss acompanhava os ensaios, e, olha, dia de ensaio tinha mais gente do que a festa do padroeiro da igreja (DAVI:2008). Percebe-se que, além de apoiar, o empresariado e o poder público estavam presentes nos ensaios, pois a institucionalização do lazer, mesmo que em uma escola de samba, permitia um maior controle das atividades do tempo livre, principalmente porque, desde a libertação dos escravos, o samba sempre fora visto como o ritmo tocado pelos chamados malandros, considerados vadios e praticantes da ociosidade.

Blumenau sofreu com as crises econômicas da década de 1980. Muitas das pessoas, vindas de outras regiões, passaram a ocupar as áreas da cidade impróprias para moradia. As ações populistas dos governos do MDB, durante a ditadura militar, não garantiram a melhoria das condições de vida da população, que teve que encontrar outros meios para garantir a manutenção de suas necessidades básicas. A luta pela garantia do tempo livre também esteve presente nas lutas dos trabalhadores, durante todo o regime militar, ganhando força no período de redemocratização. O esforço pela possibilidade de escolha das ocupações deste tempo confrontava com o empenho dos empresários e governantes em tutelar as práticas de lazer.

Blumenau contava com cerca de três escolas de samba, que, durante o carnaval, por dois anos, desfilaram na Rua XV de Novembro. O incentivo do poder público, durante o governo do prefeito Félix Theiss (1973-1977), apareceu na organização do desfile, feita pela prefeitura, pela presença do governante durante os ensaios, e pelo espaço cedido para o armazenamento dos instrumentos da escola, no estádio Aderbal Ramos. Mesmo que já se estivesse divulgando características da cultura germânica, ainda foram permitidas manifestações da cultura popular brasileira nas ruas da cidade. José Nilton nos conta que ocorreram desfiles por “dois anos consecutivos. Aí depois, houve uma pessoa que eu nem quero, nem quero mencionar o nome, que disse que Blumenau é lugar de turista descansar, no carnaval” (DAVI:2008).



Infelizmente não se conseguiu identificar a pessoa citada como responsável pelo fim dos desfiles. O fato mencionado acima, no qual o sambista relata que, por interesses políticos e econômicos, os desfiles carnavalescos não foram mais realizados, ocorreu após a troca de governo, na qual entrou o prefeito que mais incentivou as tradições alemãs, na cidade. O último dos dois desfiles aconteceu no ano de 1977, quando Renato Vianna assumiu o governo municipal. A falta de condições econômicas e a pouca importância dada aos sambistas reflete-se inclusive na escassez da documentação sobre a sociedade. O estatuto nos revela muito pouco e a localização de antigos membros foi bastante difícil. No arquivo municipal inexiste documentação a respeito. Enquanto as manifestações culturais organizadas por grupos sociais economicamente dominantes tiveram espaço na agenda festiva da cidade, os sambistas do Galeão foram impedidos de continuar com seus festejos, pois
A escola ficou dois anos esperando uma oportunidade pra voltar, através da administração pública. [Mas] eles achavam que Blumenau era lugar de turista vir descansar e o turista gostou do carnaval de Blumenau. Só que na troca de prefeito, não foi, né (DAVI:2008).
Neste período, o Sargento Astor adoeceu, ficando impedido de auxiliar a sociedade de samba. O grupo, então, continuava se encontrando, para jogar futebol e para tocar, mesmo sem desfilar no carnaval. A situação piorou quando Blumenau sofreu com a enchente de 1983 e todos os instrumentos da sociedade foram perdidos, pois ficaram inundados. Como os participantes eram todos trabalhadores, não tiveram condições de recuperar, ou comprar novos instrumentos. A cidade que, cada vez mais divulgava a cultura alemã, não tinha mais interesses em promover culturas não identificadas com a perspectiva da cultura germânica, como o carnaval e o samba. O carnaval, como festa na qual as extravagâncias e a libertação das sensações reprimidas durante todo o ano, perdeu seu sentido, pois a Oktoberfest, criada logo em seguida, no ano de 1984, assumiu este papel, além de contemplar os objetivos do poder público e do empresariado local..
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A problemática da identidade e de sua criação, aparece, desde as suas primeiras manifestações, como uma construção de quem detém o poder, com o objetivo de atender interesses políticos e/ou econômicos. Este ato de criação de identidades ocorre através dos processos de inclusão dos que parecem iguais, e da exclusão de quem não se enquadra nas regras estabelecidas por um determinado grupo social. Este pensamento parece ter ocupado as opiniões dos governantes de Blumenau, na segunda metade do século XX. Com o intuito de atrair turistas, o poder público local passou a divulgar uma cidade homogeneamente germânica, incentivando todas as manifestações que se pretendessem tradicionais. Neste estudo percebe-se que a construção de uma identidade para a cidade de Blumenau buscou camuflar e fazer com que ficassem social e historicamente esquecidos os grupos que não representavam as manifestações culturais em destaque no período.

No caso estudado, em que os membros da associação eram pertencentes às classes populares, o auxílio público e empresarial ficou restrito às vontades e interesses políticos e econômicos. Mesmo que ocorresse um incentivo inicial, quando os interesses de divulgação de uma determinada cultura aumentaram e da manutenção de outras diminuíram, os governantes optaram por incentivar ações que valorizariam a cultura mais interessante a eles próprios.



Não se trata de uma cisão, na elite, a respeito do modelo apropriado de cultura, o que aparece é uma inflexão interpretativa que priorizou determinadas coisas em detrimento de outras. Não são setores dirigentes diversos que tinham propostas diferentes da cultura que oscilaram entre um germanismo instrumental e um cosmopolitismo moderno. A mesma elite que, por interesses financeiros e eleitorais, apoiou uma determinada manifestação de cultura, como a negra, em outro momento, pelos mesmos interesses, determinou a supremacia perversa de uma cultura economicamente instrumental e excluiu as demais.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CHALHOUB, Sidney. Trabalho, lar e botequim: o cotidiano dos trabalhadores no Rio de Janeiro da belle époque. São Paulo: UNICAMP, 2005.
ELIAS, Norbert. Os estabelecidos e os outsiders: sociologia das relações de poder a partir de uma pequena comunidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000.
ELIAS, Norbert; DUNNING, Eric. A busca da excitação. Portugal: Difel, 1997.
FERREIRA, Cristina. Cidadania e Identidade na Sociedade Teuto-brasileira: José Deeke e os embates culturais interétnicos no Vale do Itajaí. Florianópolis, 1998. Dissertação de Mestrado (Programa de Pós-graduação em História) – UFSC/SC.
FLORES, Maria Bernadete Ramos. Teatros da vida, cenários da história: a farra do boi e outras festas na ilha de Santa Catarina. São Paulo, 1991. Tese de Doutorado (Programa de Pós-Graduação em História) – PUC/SC.
FROTSCHER, Méri; VEDANA, Lea Maria Ferreira. Viagens pela Cidade: o transporte coletivo de Blumenau. Florianópolis: Insular, 1999.
HALL, Stuart. Quem precisa de identidade? In: SILVA, Tomaz Tadeu da (org.) Identidade e Diferença: a perspectiva dos estudos culturais. Petrópolis: Vozes, 2000.
HILLESHEIM, Jaime. O Cenário Citadino de Blumenau: imagens criadas e realidade vivida. São Paulo, 1996. Dissertação de Mestrado (Programa de Pós-graduação em Serviço Social), PUC/SP.
HOBSBAWM, Eric J. A Era dos Impérios. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988.
SILVA, Tomaz Tadeu da. A produção social da identidade e da diferença. In: SILVA, Tomaz Tadeu da (org.) Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais. Petrópolis: Vozes, 2000.
DOCUMENTOS
Estatuto social da Sociedade Recreativa Desportiva Cultural de Samba “Protegidos do Galeão”. Banco de dados estatutários do NEPEMOS da FURB.
Estatuto social do Centro Comunitário Esportivo Fortaleza. Banco de dados estatutários do NEPEMOS da FURB.
ENTREVISTAS
DAVI, José Nilton. Depoimento: outubro, 2008. Entrevistadora: Sara K. do Amaral. Blumenau: FURB, 2008.

* Artigo extraído do Trabalho de Conclusão de Curso, apresentado como requisito parcial para a obtenção do grau de Graduação em História, na Universidade Regional de Blumenau, sob a orientação da Professora Cristina Ferreira.

Graduada em História pela Universidade Regional de Blumenau - FURB.

1Conforme objetivos do Estatuto Social do Centro Comunitário Esportivo Fortaleza, presente no Banco de dados estatutários do NEPEMOS da FURB.

2Conforme objetivos do Estatuto Social da Sociedade Recreativa Desportiva Cultural de Samba “Protegidos do Galeão”, presente no banco de dados estatutários do NEPEMOS da FURB.



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