Gabriel delanne o fenômeno espírita



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GABRIEL DELANNE

O FENÔMENO ESPÍRITA




Salvador Dali

PARTE PRIMEIRA
HISTÓRICO
A ANTIGÜIDADE

CAPITULO I – ANTIGUIDADE
O Espiritismo é tão velho quanto o mundo. - Provas tiradas dos Vedas. - A iniciação antiga. - Fenômenos de evocação entre os egípcios e entre os hebreus. - Na Grécia: as pitonisas. – As mesas giratórias entre os romanos. - As feiticeiras da Idade Média. - Perpetuidade da tradição através dos séculos

CAPITULO II - OS TEMPOS MODERNOS
Na América: A família Fox; o primeiro Espírito batedor. - As perseguições em Rochester. - Desenvolvimento considerável do fe­nômeno; seus múltiplos aspectos. - Os sábios. - O professor Mapes. - O juiz Edmonds. - Robert Hare; suas experiências. - Robert Dale Owen. - O Espiritismo atualmente. - Na Inglaterra. - As investigações de Crookes. - A Sociedade Dialética de Londres. - Os testemunhos de Alfred Wallace, Varley, Morgan, Oxon, Dr. Sexton, Dr. Chambers, Dr. Gully. - Na França. - Tra­balhos do Barão de Guldenstubbé. - A obra de Allan Kardec. - Os adversários do Espiritismo. - Agénor de Gasparin, Thury, Des Mousseaux, Chevillard, etc. - Adesões de homens célebres. - Estado atual. - Na Alemanha. - As pesquisas do Dr. Kerner; os fatos de Mottlingen; as experiências de Zollner, Fechner e Ulrici. - Enumeração dos espíritas ilustres no resto da Europa. - Os principais jornais que tratam da Doutrina. - Importância do movimento. - Resumo.

PARTE SEGUNDA
OS FATOS

CAPITULO I - A FORÇA PSÍQUICA

O Espiritismo em casa de Victor Hugo. - Primeiras objeções. - Erguimento da mesa sem contacto. - Sociedade Dialética de Lon­dres. - Medição da força psíquica. - A mediunidade. - A levitação humana.
CAPÍTULO II - A INTELIGÊNCIA DA FORÇA PSÍQUICA
Os fenômenos não são devidos a uma força cega. - Algumas expe­riências provam-no. - As objeções dos incrédulos. - A transmis­são do pensamento. - Investigações da Sociedade Psíquica de Londres. - Discussão. - Prova absoluta da existência dos Es­píritos. - As crianças mortas na India. - Um telegrafísta de além-túmulo. - As pranchetas clarividentes. - O caso Abraham Florentine. - O alfaiate esmagado. - O Capitão Wheatcroft.
CAPITULO III - MEDIUNIDADES DIVERSAS
Os médiuns escreventes. - Algumas comunicações notáveis. - Fábulas, versos e música. - Incorporação ou encarnação. - Um caixeiro. - A filha do juiz Edmonds. - Anestesia durante o transe. - As objeções. - O Sr. Binet. - As experiências do Sr. Janet. - Me­diunidade vidente. - Mediunidade auditiva. - Escrita direta e psicografia. - Experiências de Wallace. - Oxon. - Zollner. - O Dr. Gibier. - Na América do Norte. - Observações.
CAPITULO IV - O ESPIRITISMO TRANSCENDENTAL

O Espiritismo transcendental. - Ação dos Espíritos. - Desagregação da matéria. - Experiências de Crookes e de Zollner. - O fenô­meno de transportes. - Aparições luminosas na obscuridade. - Aparições de mãos luminosas por si mesmas, ou visíveis à luz ordinária. - Formas e figuras de fantasmas. - As materializa­ções. - Experiências de Crookes com Katie King. - Formação lenta de uma materialização. - A fotografia espirita. - Fotogra­fias de Espíritos reconhecidos por parentes. - Mediunidade vidente e fotografias de Espíritos. - As experiências de Aksakof. - Fotografias transcendentais em pleno dia. - Fotografia do médium e de uma forma materializada à luz do magnésio. - Observações do Sr. Aksakof. - Impressões e moldagens de formas materializadas. - Experiências em Nápoles, na América e na In­glaterra. - O Espiritismo e a Psiquiatria. - Experiências de Lombroso em Nápoles. - A explicação do célebre professor. - Refutação. - Resumo.


PARTE TERCEIRA

CONSELHOS AOS MÉDIUNS E AOS EXPERIMENTADORES
Recolhimento. - Homogeneidade de pensamentos. - Regularidade. - Paciência. - Circunspeção em relação aos Espíritos que se ma­nifestam. - Identidade dos Espíritos. - Desconfiar dos grandes nomes. - Razão pela qual os Espíritos chamados não se mani­festam.

PARTE QUARTA
A DOUTRINA ESPIRITA
Materialismo e Espiritismo. - O Espírito no Espaço. - As vidas su­cessivas. - Provas da reencarnação. - Conclusão.

Notas de Rodapé





PREFÁCIO

O Espiritismo é uma ciência cujo fim é a demonstração experimental da existência da alma e sua imortalidade, por meio de comunicações com aqueles aos quais impropriamente têm sido chamados mortos.

Há quase meio século foram empreendidas as primei­ras investigações sobre esse assunto; homens de ciência da mais alta notoriedade consagraram longos anos de estudos para certificar os fatos que formam a base desta doutrina, e foram unânimes em afirmar a autenticidade dos fenômenos que pa­reciam produto da superstição e do fanatismo.

Na França, conheciam-se imperfeitamente essas pesquisas, de sorte que, aos olhos do grande público, o Espiritismo não passava de farsa de mesas girantes.

Contudo, o tempo desempenhou o seu papel, e essa doutrina apresenta hoje ao experimentador imparcial uma série de expe­riências rigorosas, metodicamente conduzidas, que provam, com segurança, a sobrevivência do eu humano à desagregação corporal.

São esses fatos que queremos expor, a fim de que eles im­plantem em todas as consciências a convicção da imortalidade, não mais baseada somente na fé ou no raciocínio, mas solida­mente firmada na Ciência e no seu método severo e positivo.

A geração atual está fatigada de especulações metafísicas; recusa crer naquilo que não está absolutamente demonstrado, e, se o movimento espírita, que já conta milhões de adeptos no mundo inteiro, não ocupou ainda o primeiro lugar, deve-se isso a que seus adeptos negligenciaram, até então, pôr sob os olhos do público fatos bem averiguados.

A maior parte das publicações periódicas contém comuni­cações de Espíritos, as quais podem ser interessantes sob certos pontos de vista; todavia, como sua autenticidade não está absolutamente provada, não produzem o efeito desejado.

As obras francesas aparecidas desde Allan Kardec sobre este assunto são repetições, com exceção dos livros de Eugène Nus, Louis Gardy e Doutor Gibier, ou, então, não apresentam origi­nalidade alguma sobre a questão, de modo que o movimento tem sido retardado. É preciso que se lhe dê novo impulso.

Para tal, é mister caminhar com o século e saber curvar-se às necessidades da época.

O materialismo triunfa por toda parte, mas já se pressente ser de pouca duração o seu reinado; basta servirmo-nos de suas próprias armas e combatê-lo em seu próprio terreno.

A escola positivista encerra-se na experimentação; imite­mo-la: nenhuma necessidade temos de apelar para outros mé­todos, porque os fatos são obstinados, como diz o sábio Alfred Russell Wallace, e deles não é fácil desembaraçar-se.

Em vez de apresentar aos incrédulos toda a doutrina formu­lada pelos Espíritos e codificada por Allan Kardec, demos-lhes, simplesmente, a ler os trabalhos de mestre, como Robert Hare, Crookes, Wallace, Oxon, Zollner, Aksakof, pois que não pode­rão recusar os testemunhos desses grandes homens, que são, por títulos diversos, sumidades intelectuais no vasto domínio das ciências.

Não esqueçamos que Crookes fez a Física dar um passo gigantesco com a demonstração do estado radiante. Wallace é, com certeza, neste momento, o primeiro naturalista do mundo, pois, ao mesmo tempo que Darwin, achou e formulou a lei da evolução. Os trabalhos de Zollner, em Astronomia, são univer­salmente conhecidos; os de Fechner, sobre a sensibilidade, são ensinados em toda parte; e, quanto aos professores Mapes, Robert Hare, temos a dizer que eles gozam de indiscutível auto­ridade na América do Norte.

Eis aí os principais campeões do Espiritismo; mas o leitor encontrará, no fim deste volume, uma lista de numerosas no­tabilidades que afirmam categoricamente a realidade dos seus fenômenos.

E tempo de reagir contra os bonzos oficiais que tentam abafar as verdades novas, afetando uma desdenhosa indiferen­ça. Se temos respeito e admiração pela Ciência sem prevenções, pela que imparcialmente encara todos os fenômenos, estuda-os e explica-os friamente, fornecendo boas razões, também nos sentimos cheios de indignação contra a falsa ciência, rebelde a todas as novidades, encerrada em convicções adquiridas e crendo, orgulhosamente, ter atingido a meta do saber humano.

Foram homens desta classe, diremos como Wallace, que fizeram oposição a Galileu, a Harvey, a Jenner. Foram esses ridículos teimosos que repeliram a maravilhosa teoria das on­dulações luminosas de Young; que zombaram de Stephenson, quando este quis fazer correr locomotivas sobre as linhas férreas de Liverpool e Manchester. Atiraram todos os sarcasmos possíveis contra a iluminação a gás, e repeliram Arago no pró­prio seio da Academia, quando este quis discutir a telegrafia; seres ignaros que classificaram o magnetismo como embuste e charlatanice, e que, ainda ultimamente, qualificaram de grande peta a descoberta do telefone.

Não foi por vão prazer de mostrar quanto o espírito huma­no, mesmo nas classes mais esclarecidas, está sujeito ao erro, que citamos alguns dos mais frisantes exemplos de obstinação nas corporações sábias e o seu horror pelas novidades. Nosso intuito é suscitar um sério movimento em prol dessas investi­gações, que têm considerável alcance, tanto no domínio mate­rial quanto no domínio psicológico.

Se realmente a alma não morre e pode agir sobre a ma­téria, achamo-nos em face de forças desconhecidas, cujo estudo é interessante; pela mesma forma verificaremos modos novos de energia, que podem conduzir-nos a resultados grandiosos; o mesmo sucede com a personalidade, que, conservando-se de­pois da morte, nos pôs em presença de um outro problema: a produção do pensamento sem os órgãos materiais do cérebro.

Deixemos de parte os rotineiros obstinadamente encerrados em seus sistemas, abramos bem os nossos olhos quando homens probos, sábios e imparciais nos falem de recentes descobertas, e fechemos os ouvidos ao alarido de todos os eunucos do pen­samento, impotentes para saírem da órbita das idéias preconcebidas.

Diremos, como um sábio que não teme desviar-se dos ca­minhos trilhados, o Sr. Charles Richet, que uma boa e com­pleta experiência vale por cem observações, e acrescentaremos:

Vale dez mil negações, ainda mesmo quando essas negações emanassem de sumidades da maior notoriedade, se estas não se dignassem repetir as experiências e demonstrar-lhes a falsidade.

Este simples resumo não tem outras pretensões além da de expor aos olhos do público as experiências feitas por ho­mens eminentes, por mestres nesta arte tão difícil da observação exata; resultará disso a prova evidente da imortalidade do ser pensante, porque ela afirmar-se-á cada vez mais nítida, cada vez mais evidente, à medida que se desenvolver o magní­fico encadeamento dos fenômenos, desde o movimento das mesas até as aparições visíveis, tangíveis e fotografadas dos Espíritos.

Tal é o nosso fim escrevendo esta pequena obra de pro­paganda.

Depois de um histórico sucinto das origens do Espiritismo, passaremos em revista os trabalhos dos sábios, salientando o que eles têm de convincente e incontestável. Em seguida, consagraremos um capítulo à exposição dos métodos pelos quais se podem evocar os Espíritos; enfim, terminaremos pelas conse­qüências filosóficas que resultam dessas pesquisas.

Esperamos que este demonstrativo consciencioso e imparcial produza a convicção no espírito de todos os que souberem desprender-se dos preconceitos vulgares e das idéias preconcebidas, para friamente encararem esta ciência nova, cujos frutos são muito importantes para a Humanidade. É em nome do livre pensamento que convidamos os investigadores a se ocuparem com os nossos trabalhos; é com instância que lhes pedimos não repelirem sem exame esses fatos, tão novos e tão imperfeitamente conhecidos, pois estamos persuadidos de que a ,luz bri­lhará a seus olhos, como brilhou para os homens de boa-fé que, há cinqüenta anos, quis estudar os problemas do Além, tão perturbadores e tão misteriosos antes dessas descobertas.


GABRIEL DELANNE


PARTE PRIMEIRA
HISTÓRICO
CAPITULO I
A ANTIGÜIDADE

O Espiritismo é tão velho quanto o mundo. - Provas tiradas dos Vedas. - A iniciação antiga. - Fenômenos de evocação entre os egípcios e entre os hebreus. - Na Grécia: as pitonisas. – As mesas giratórias entre os romanos. - As feiticeiras da Idade Média. - Perpetuidade da tradição através dos séculos.

As crenças na imortalidade da alma e nas comunicações entre os vivos e os mortos eram gerais entre os povos da Antigüidade.

Mas, ao contrário do que acontece hoje, as práticas pelas quais se conseguia entrar em relação com as almas desencar­nadas, eram o apanágio exclusivo dos padres, que tinham cuidadosamente monopolizado essas cerimônias, não só para fazerem delas uma renda lucrativa e manterem o povo em absoluta ignorância quanto ao verdadeiro estado da alma depois da morte como também para revestirem, a seus olhos, um caráter sagrado, pois que só eles podiam revelar os segredos da morte.

Encontramos nos mais antigos arquivos religiosos a prova do que avançamos.

Os anais de todas as nações mostram que, desde épocas remotíssimas da História, a evocação dos Espíritos era praticada por certos homens que tinham feito disso uma especialidade.

O mais antigo código religioso que se conhece, os Vedas, aparecido milhares de anos antes de Jesus-Cristo, afirma a existência dos Espíritos. Eis como o grande legislador Manu se exprime a respeito: Os Espíritos dos antepassados, no esta­do invisível, acompanham certos brâmanes, convidados para as cerimônias em comemoração dos mortos, sob uma forma aérea; seguem-nos e tomam lugar ao seu lado quando eles se assen­tam. (1)

Um outro autor hindu declara: Muito tempo antes de se despojarem do envoltório mortal, as almas que só praticaram o bem como as que habitam o corpo dos sannyassis e dos vayzaprastha (anacoretas e cenobitas) adquirem a faculdade de conversar com as almas que as precederam no Swarga; é sinal que, para essas almas, a série de suas transmigrações sobre a Terra terminou. (2)

Desde tempos imemoriais, os padres iniciados nos mistérios preparam indivíduos chamados faquires para a evocação dos Espíritos e para a obtenção dos mais notáveis fenômenos do magnetismo. Louis Jacolliot, em sua obra - Le Spiritisme dans le monde - expõe amplamente a teoria dos hindus sobre os Pitris, isto é, Espíritos que vivem no Espaço depois da morte do corpo. Resulta das investigações deste autor que o segredo da evocação era reservado àqueles que pudessem ter quarenta anos de noviciado e obediência passiva.

A iniciação comportava três graus: No primeiro, eram formados todos os brâmanes do culto vulgar e os ecônomos dos pagodes encarregados de explorar a credulidade da multidão.

Ensinava-se-lhes a comentar os três primeiros livros dos Vedas, a dirigir as cerimônias e a cumprir os sacrifícios; os brâmanes do primeiro grau estavam em comunicação constante com o povo: eram seus diretores imediatos. O segundo grau era composto dos exorcistas, adivinhos, profetas evocadores de Es­píritos que, em certos momentos difíceis, eram encarregados de atuar sobre a imaginação das massas, por meio de fenômenos sobrenaturais.

Eles liam e comentavam o Atharva-Veda, repositório de con­jurações mágicas.

No terceiro grau, os brâmanes não tinham mais relações diretas com a multidão; o estudo de todas as forças físicas e naturais do Universo era a sua única ocupação, e, quando se manifestavam exteriormente, faziam-no sempre por meio de fenômenos aterrorizadores, e de longe.

Desde tempos imemoriais, o povo da China entrega-se à evocação dos Espíritos dos avoengos. O missionário Huc refere grande número de experiências, cujo fim era a comunicação dos vivos com os mortos, sendo que, em nossos dias, essas práti­cas estão ainda em uso em todas as classes da sociedade. Com o tempo e em conseqüência das guerras que forçaram parte da população hindu a emigrar, o segredo das evocações espalhou-se em toda a Ásia, encontrando-se ainda entre os egípcios e entre os hebreus a tradição que veio da índia.

Todos os historiadores estão de acordo em atribuir aos padres do antigo Egito poderes que pareciam sobrenaturais e misteriosos. Os magos dos faraós realizavam estes prodígios que são referidos na Bíblia; mas, deixando de parte o que pode haver de legendário nessas narrações, é bem certo que eles evocavam os mortos, pois Moisés, seu discípulo, proibiu formal­mente que os hebreus se entregassem a essas práticas: Que entre nós ninguém use de sortilégio e de encantamentos, nem interrogue os mortos para saber a verdade. (3)

A despeito dessa proibição, vemos Saul ir consultar a pito­nisa de Endor e, por seu intermédio, comunicar-se com a sombra de Samuel. É o que em nossos dias denomina-se mate­rialização. Veremos, mais adiante, como se podem obter essas manifestações superiores.

Apesar da proibição de Moisés, houve sempre investigado­res que foram tentados por essas evocações misteriosas; insti­tuíam uma doutrina secreta a que chamavam Cabala, mas cercando-se de precauções e fazendo o adepto jurar inviolável segredo para o vulgo. Qualquer pessoa que - diz o Tamuld -, sendo instruída nesse segredo (a evocação dos mortos), o guarda com vigilância em um coração puro pode contar com o amor de Deus e o favor dos homens; seu nome inspira respei­to, sua ciência não teme o olvido, e torna-se ele herdeiro de dois mundos: aquele em que vivemos agora e o mundo futuro.

Na Grécia, a crença nas evocações era geral. Todos os tem­plos possuíam mulheres chamadas pitonisas encarregadas de proferir oráculos, evocando os deuses; mas, às vezes, o consul­tante queria, ele próprio, ver e falar à sombra desejada, e, como na Judéia, conseguia-se pô-lo em comunicação com o ser ao qual desejava, interrogar.

Homero, na Odisséia, descreve, minuciosamente, por meio de que cerimônias Ulisses pôde conversar com a sombra do divino Tirésias. Este caso não é isolado; tais práticas eram freqüentemente empregadas por aqueles que desejavam entrar em relação com as almas dos parentes ou amigos que tinham perdido. Apolônio de Tiana, sábio filósofo pitagórico e tauma­turgo de grande poder, possuía vastos conhecimentos referentes às ciências ocultas; em sua vida, há abundância de fatos ex­traordinários; ele acreditava firmemente nos Espíritos e em suas comunicações com os encarnados. As sibilas romanas, evocando os mortos, interrogando os Espíritos, são continuamente consultadas pelos generais, e nenhuma empresa importante foi deci­dida sem se receber previamente aviso dessas sacerdotisas.

Na Itália sucede o mesmo que na índia, no Egito e entre os hebreus. O privilégio de evocar os Espíritos, primitivamente reservado aos membros da classe sacerdotal, espalhou-se pouco a pouco entre o povo e, se crermos em Tertuliano, o Espiritismo era exercido entre os antigos pelos mesmos meios que, hoje, entre nós.

Se é dado - diz ele - aos magos fazer aparecer fantas­mas, evocar as almas dos mortos, poder forçar a boca das crianças a proferir oráculos; se eles realizam grande número de milagres, se explicam sonhos, se têm às suas ordens Espíritos mensageiros e demônios, em virtude dos quais as mesas que profetizam são um fato vulgar, com que redobrado zelo esses Espíritos poderosos não se esforçarão por fazer em próprio pro­veito o que eles fazem em serviço de outrem?(4)

Em apoio das afirmações de Tertuliano, pode-se citar uma passagem de Amiano Marcelino sobre Patrício e Hilário, leva­dos perante o tribunal romano por crime de magia, acusação esta de que eles se defenderam referindo que tinham fabrica­do, com pedaços de loureiro, uma mesinha (mensulam) sobre a qual colocaram uma bacia circular feita de vários metais, tendo um alfabeto gravado nas bordas. Em seguida, um homem ves­tido de linho, depois de ter recitado uma fórmula e feito uma evocação ao deus da profecia, tinha suspendido por cima da bacia um anel preso a um fio de linho muito fino e consagrado por meios misteriosos. O anel, saltando sucessivamente, mas sem confusão, sobre várias letras gravadas, e parando sobre cada uma, formava versos perfeitamente regulares, em resposta às questões propostas.

Hilário acrescentou:

Um dia, ele tinha perguntado quem sucederia ao impera­dor atual, e o anel, designando as letras, deu a sílaba: Theo. Nada mais inquiriram, persuadidos de que se tratava da pala­vra Theodoro.

Os fatos, diz Amiano Marcelino, desmentiram os magos, mais tarde, porém não a predição, porque esta foi Theodósio. A interdição de evocar os mortos, que vemos estabelecida por Moisés, foi geral na antigüidade.

O poder teocrático e o poder civil estavam muito intima­mente ligados para que esta prescrição fosse severamente obser­vada. Não convinha que as almas dos mortos viessem contra­ dizer o ensinamento oficial dos padres e lançar a perturbação entre os homens, fazendo-os conhecer a verdade.

A Igreja Católica, mais do que qualquer outra, tinha ne­cessidade de combater essas práticas, para si detestáveis, e, portanto, durante a Idade Média, milhares de vitimas foram queimadas sem piedade, sob o nome de feiticeiros e mágicos, por terem evocado os Espíritos. Que sombria época essa em que os Bondin, os Delancre, os Del-Rio assanhavam-se sobre as carnes palpitantes das vítimas para aí encontrarem o ves­tígio do diabo! Quantos miseráveis alucinados pereceram no meio das torturas, cuja narração causa arrepios de horror e desgosto, e isto para maior glória de um Deus de amor e de misericórdia!

A heróica e casta figura de Joana d'Arc, a grande lorena, mostra como as comunicações com os Espíritos podem dar re­sultados tão grandiosos quão inesperados. A história dessa pastora expulsando o estrangeiro de seu país, guiada pelas potên­cias espirituais, pareceria maravilhosa ficção, se a História não a tivesse recolhido sob seu pálio inatacável.

Apesar de todas as perseguições, a tradição conservou-se; é possível segui-Ia na História com os nomes de Paracelso, Cor­nelius Agripa, Swedenborg, Jacob Bcehm, Martinez Pascalis, Conde de Saint-Germain, Saint-Martin, etc. Às vezes, as ma­nifestações eram públicas e atingiam desenvolvimento extraor­dinário. Não é sem terror que se lêem as narrações relativas aos possessos de Loudun, os fatos estranhos atribuídos aos convulsionários de Cevenas e aos visionários do cemitério de Saint­-Médard, mas essa demonstração levar-nos-ia muito longe.

É suficiente termos demonstrado que, em todos os tempos, a evocação dos mortos foi praticada universalmente, e que todos esses fenômenos, na realidade, são tão velhos quanto o mundo.

Chegamos agora, por conseguinte, ao estudo do movimento es­pírita contemporâneo e vamos mostrar a importância consi­derável que ele conquistou em nossa época.

CAPITULO II

OS TEMPOS MODERNOS

Na América: A família Fox; o primeiro Espírito batedor. - As perseguições em Rochester. - Desenvolvimento considerável do fe­nômeno; seus múltiplos aspectos. - Os sábios. - O professor Mapes. - O juiz Edmonds. - Robert Hare; suas experiências. - Robert Dale Owen. - O Espiritismo atualmente. - Na Inglaterra. - As investigações de Crookes. - A Sociedade Dialética de Londres. - Os testemunhos de Alfred Wallace, Varley, Morgan, Oxon, Dr. Sexton, Dr. Chambers, Dr. Gully. - Na França. - Tra­balhos do Barão de Guldenstubbé. - A obra de Allan Kardec. - Os adversários do Espiritismo. - Agénor de Gasparin, Thury, Des Mousseaux, Chevillard, etc. - Adesões de homens célebres. - Estado atual. - Na Alemanha. - As pesquisas do Dr. Kerner; os fatos de Mottlingen; as experiências de Zollner, Fechner e Ulrici. - Enumeração dos espíritas ilustres no resto da Europa. - Os principais jornais que tratam da Doutrina. - Importância do movimento. - Resumo.

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