Genevieve bouchon vasco da gama



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GENEVIEVE BOUCHON
VASCO DA GAMA
PÚBLICO
Esta edição, foi especialmente produzida pela Terramar para o jornal Público

FICHA TÉCNICA


© Librairie Arthème Fayard, 1997

Título original: Vasco de Gama

Edição original: Librairie Arthème Fayard, Paris 1997

1ª edição portuguesa:



Terramar, Maio de 1998
Tradução: Joaquim A. Nogueira Gil

Revisão: Filipe Rodrigues

Coordenação da edição portuguesa: Carlos Araújo
Capa: Carlos Lains

Ilustração da capa: pormenor de um retrato de Vasco da Gama



(Museu da Marinha, Lisboa)
Fotocomposição e fotolitagem:

Terramar, Lda.

Impressão e acabamento:



Rolo & Filhos, Lda.
Depósito legal: 123108/98

ISBN: 972-710-199-2


Todos os direitos desta edição reservados por
TERRAMAR - Editores, Distribuidores e Livreiros, Lda.
Telefones: 315 68 74 - 316 08 97 - Fax: 314 22 48
E-Mail: edit.terramar@mail.telepac.pt f

Av. António Augusto de Aguiar, 74 - r/c Esq. 1050 LISBOA – PORTUGAL


índice geral
Prefácio............................................................................................... 5
PRIMEIRA PARTE

DO MAR TENEBROSO AO MAR DOS BÁRBAROS


CAPÍTULO I Os mestres de Santiago...................................................................... 9

Uma família ao serviço da Ordem de Santiago............................ 10

O clima da infância....................................................................... 13

«Mundos novos ao mundo»........................................................... 16
CAPÍTULO II Aquém e além-mar............................................................................. 25

Rei de Portugal e dos Algarves ..................................................... 25

Senhor da Guiné............................................................................ 33

Em busca do Preste João............................................................... 39

«O Capitão do Fim..................................................................... 45
CAPITULO III A Boa Esperança............................................................................... 49

«Um grande e fervoroso desejo................................................... 49

A majestade da Espanha, Granada e a América.......................... 52

«O talento de bem-fazer» .............................................................. 59

Capitão-mor................................................................................... 66
SEGUNDA PARTE A ÍNDIA REENCONTRADA
CAPÍTULO IV A volta do largo.................................................................................. 73

D. Manuel: o sonho de um império cristão universal................... 73

O «abismo».................................................................................... 84

O Mar Prasóide............................................................................. 98

A idade de ouro do comércio islâmico.......................................... 104


CAPÍTULO V A grande monção............................................................................... 117
CAPÍTULO VI Calecute. Especiarias, pedrarias e humilhações ............................. 131

Prestígio de um reino..................................................................... 131

Primeiras etapas de uma iniciação............................................... 142
CAPÍTULO VII Tormentos e honrarias do regresso.................................................. 159

As delícias de Angediva................................................................. 160

«A água negra» ............................................................................. 164
TERCEIRA PARTE GLÓRIAS E MISÉRIAS DE UMA CONQUISTA
CAPÍTULO VIII Primeiras experiências indianas. A segunda viagem

de Vasco da Gama........................................................................ 181

De Cochim a Cananor: os pioneiros (1500-1503)........................ 181

O Almirante da Índia. A segunda viagem (1502-1503)................ 192
CAPÍTULO IX Feitorias e fortalezas.......................................................................... 227

O silêncio e a ira........................................................................... 227

A batalha de Cochim..................................................................... 233



Um vice-rei sem reino................................................................... 238
CAPÍTULO X De Ormuz a Malaca........................................................................... 249

A exortação à guerra..................................................................... 249



Albuquerque o conquistador.......................................................... 252

Goa: nascimento de uma sociedade colonial................................ 259

Ecos da Índia no Alentejo ............................................................. 260
QUARTA PARTE A ÚLTIMA VIAGEM
CAPÍTULO XI Os caprichos da fortuna.................................................................... 273

O ferrolho do mar Vermelho........................................................... 273

Uma nova rota para as especiarias............................................... 277

O conde.......................................................................................... 282



A Índia na Europa do Renascimento............................................. 285
CAPÍTULO XII O vice-rei............................................................................................. 289

Capitães da aventura..................................................................... 289

O executor de punições ................................................................. 293

A barca do diabo e a barca do anjo.............................................. 303
ANEXOS Referências cronológicas................................................................... 309
Bibliografia......................................................................................... 315
Glossário............................................................................................. 327
ÍNDICES
Índice Onomástico............................................................................. 331

Índice de mapas.................................................................................. 337
Prefácio
Vasco da Gama é uma das mais célebres figuras da época das Grandes Descobertas. Figura desconhecida, é certo, eclipsada pela fama de Cristóvão Colombo e pela importância da América na história do mundo moderno. Porém, impondo-se a presença da Ásia aos homens de hoje, é já tempo de colocar no seu verdadeiro lugar aquele que abriu as portas deste continente, haja cinco séculos, pelo caminho de dois oceanos.
O rumo de Vasco da Gama traça o primeiro caminho de ligação entre os povos de África, da Europa, da Ásia e da América. Foi ele quem desenhou a imagem de uma Terra onde se estava a construir uma nova era, uma era que foi, tal como a nossa, de conquista do espaço e da comunicação. Vasco da Gama pertence à geração que, em apenas cinquenta anos, mudou as perspectivas do mundo - a geração de Copérnico, Erasmo, Lutero e Miguel Ângelo. No momento exacto em que a Europa renascentista redescobre a herança dos Gregos e dos Romanos, aproximou-a da Índia, da Pérsia e, a breve trecho, da China. À dimensão do passado, acrescenta a do futuro. Depois dele, nunca mais os Europeus deixarão de percorrer o caminho marítimo da Ásia, a ponto de aí se espalharem, reinarem e se perderem: cinco séculos de uma história que serão encerrados pelas comemorações da proeza naval que a impulsionou.

Os homens do mar são misteriosos. Vasco da Gama é daqueles que só aparecem à luz dos seus feitos. A sua vida comporta fases de intensa actividade e longos silêncios, nos quais tentámos ressuscitar a sociedade do seu tempo. Cresceu entre os cavaleiros e os corsários, cujas paixões, rancores e esperanças partilhava. Nos navios do rei, exercita-se nas novas técnicas da navegação que darão a Portugal o domínio do Atlântico. E levar-nos-á para o oceano Índico, onde descobre um mundo marítimo próspero que se estende num espaço imenso onde sobressai o poderio crescente do Islão.
A personalidade de Vasco da Gama foi ocultada por uma glória póstuma incessantemente exaltada pêlos seus descendentes. Teve o seu apogeu no final do século XVI com a publicação da célebre epopeia Os Lusíadas, onde o poeta Luís de Camões faz de Vasco da Gama um herói digno da Odisseia ou da Eneida, bem diferente daquele que tentámos encontrar através dos testemunhos do seu tempo. Um capitão impiedoso, um carácter forjado na violência dos elementos, um homem do mar que só a este sabia fazer frente e cujas competências não conseguiram adaptar-se às realidades da política terrestre.
Para apresentar Vasco da Gama ao público francês, estudámos apenas textos da época, sendo a maior parte deles crónicas, relatos de viagens, documentos dos arquivos. Esta abordagem conduziu-nos à descoberta de outros actores daquilo que foi uma aventura extraordinária, tanto em Portugal como na Ásia. Todos eles foram os iniciadores de uma corrente de intercâmbio que permaneceu irreversível, apesar dos seus tão diferentes destinos.
Quero exprimir a minha gratidão para com todos aqueles que me ajudaram nas minhas investigações, especialmente os professores Jean Aubin, LUÍS Filipe Thomaz, François Guichard e a S. Dejanirah Couto; o Sr. António Coimbra Martins, director do Centro Cultural Gulbenkian de Paris, a S.’ Teresa Salgado, bibliotecária, o Sr. Michel Chandeigne, bem como o Sr. Alberto Costa, bibliotecário do Museu da Marinha, que me esclareceu sobre as técnicas de navegação da rota da índia.
PRIMEIRA PARTE

DO MAR TENEBROSO Ao MAR DOS BÁRBAROS

CAPÍTULO I

Os Mestres de Santiago
Santiago de Cacém. Sobre a vila branca, ainda se ergue a fortaleza, a muralha de pedra cinzenta e ocre, as portas de arcos angulares, a coroa de ameias quadrangulares ao longo das torres. O caminho da ronda está deserto. Para lá de um profundo fosso de duzentos metros, estende-se a planície aluvial, azul e verde como o mar onde ao longe se perde. Dunas baixas onde cintilam lamaçais, colinas cobertas de sobreiros cujas falésias caem a pique sobre o brilho do oceano. Eis a paisagem onde se perfila o cabo de Sines, a terra natal de Vasco da Gama.
Mais do que uma fortaleza, é um símbolo. O seu nome associa o emir Kâsim, que lançou as fundações do castelo, e S. Tiago, o santo evocado pêlos cavaleiros em luta contra o islão. A história do Sul de Portugal está aqui: a dos exércitos muçulmanos vindos do vizinho Magrebe, que aqui desembarcaram, Berberes e Árabes juntos, a partir do século VIII; e também a da «reconquista» de uma terra, outrora cristã, que os reis de Portugal concluíram em meados do século XIII. Mas este nome revela ainda algo mais, pois evoca o antagonismo religioso e as relações de vizinhança do Cristão e do Mouro, o inimigo fiel e familiar.
Na ausência de estruturas feudais, as terras desoladas do Sul, que contavam com mais terras abandonadas do que habitadas, foram

confiadas pêlos reis de Portugal à ordem militar de Santiago. O castelo de Santiago de Cacém, onde parou o ímpeto dos conquistadores, era a última das comendas do Ocidente antes dos desertos malsãos da Marema e do infinito abismo do mar Tenebroso, como se chamava então ao Atlântico.
Uma família ao serviço da Ordem de Santiago
A família dos Gama está situada na categoria dos servidores cuja devoção ao rei e à Ordem de Santiago, cujos interesses eram então indissociáveis, valeu um título de nobreza. Os numerosos ramos do clã teriam como ilustre antepassado Álvaro Anes da Gama, que se distinguiu durante a conquista do Algarve aos Mouros (1250). Os homónimos são uma característica da sociedade portuguesa: no útimo quarto do século XV, viviam em Portugal cinco Vasco da Gama, dois dos quais cavaleiros da casa real e um governador da cidade de Évora. Vinham quase todos da vila de Olivença, unidos ou divididos por laços de parentesco mal definidos. O avô do nosso herói, também originário de lá, chamava-se igualmente Vasco. Como muitas famílias, usavam o nome de um animal, a gama, cuja graciosa silhueta ornava o seu brasão.
Da sua esposa, D.ª Teresa da Silva, o avô teve quatro filhos varões. O primogénito, Estêvão, serviu desde a mais tenra idade o infante D. Fernando, irmão do rei D. Afonso V e mestre da Ordem de Santiago. Nunca mais deixaria de subir os degraus da escala social e de acumular prebendas, sem sair do domínio da Ordem. Nomeado capitão da praça de Sines e alcaide-mor da vila, casaria com Isabel, filha de João de Resende, intendente de Salas, localidade vizinha, e de Maria Sodré. Os Sodré descendem do fidalgo inglês Sudiey, que há muito tempo viera participar na guerra contra Castela. As alianças matrimoniais multiplicam-se nas cercanias, em Santiago de Cacém, Colos, Milfontes, de tal forma que a família se desenvolve num perímetro restrito, exactamente na região onde a implantação das comendas da Ordem é mais densa, entre a costa e a serra do Cercal.
A data e o local de baptismo de Vasco da Gama jazem no segredo de uma capela particular cujos registos, se alguma vez os teve, se

perderam. Ao que tudo indica, nasceu em Sines, em Salas ou numa aldeia próxima, no final da década de 1460 - cerca de 1469, de acordo com a historiografia mais recente. É o terceiro filho de Estêvão e Isabel. Tem uma profunda amizade com Paulo, o irmão mais velho. Nunca fala de João Sodré, que usa o nome da mãe, nem de Pedro da Gama. Aires saírá da sombra em 1511, quando fizer carreira na Índia. Teresa, a mais nova, cresce rodeada pêlos seus tumultuosos irmãos.


Afirmou-se que Vasco teria confiado ao rei que tinha um irmão mais novo, talvez morto após a sua primeira viagem, pois não se encontra o seu rasto em qualquer documento. O que aparece é um outro Vasco, filho bastardo de Estêvão, anterior ao seu casamento. Não pesava então sobre os bastardos qualquer opróbrio, que eram criados no seio da família.

Apesar de ter sangue britânico, Vasco é um filho dos Algarves. Os Árabes designavam assim as suas províncias do Ocidente (al-Gharb), cujo nome só sobrevive na região mais meridional do Portugal de hoje. Sines pertence hoje ao Alentejo - a região «para além do Tejo» -, tão diferente da região aquém-Tejo. No século XV, o Sul contava com poucos domínios senhoriais e municípios. A Ordem era o senhor, com a sua própria hierarquia, que não coincidia com a dos fidalgos do Norte, e possuía imensas propriedades, na sua maior parte incultas, administradas pêlos seus cavaleiros.


Fundada no século XII, a Ordem de Santiago era tão antiga quanto as do Templo e dos Hospitalários de Jerusalém. Para o seu nascimento tinham contribuído confrarias de Castela, Aragão, Leão, Gasconha e Portugal. Inicialmente destinada a vencer todos os inimigos do cristianismo, rapidamente se consagrou à luta contra o Islão, cujos exércitos levaram a Guerra Santa para o coração da Península Ibérica. Em 1175, uma bula de Alexandre III precisou a sua vocação, enquanto o primeiro rei de Portugal, Afonso Henriques, a associou à reconquista das províncias islamizadas.

«Nós e a Ordem» é uma expressão corrente nos documentos régios da época medieval. A aliança do rei e da Ordem de Santiago selaria a unidade do País - a Ordem é o traço de união entre o santuário de Compostela e os Algarves. Desde a lendária Batalha de Clavijo (834), em que o apóstolo Tiago teria vindo combater ao lado dos cristãos,

Mapa:Etapas da Reconquista Cristã na Península Ibérica, séculos IX a XV.

conseguindo assim que os Mouros fossem vencidos, quantos mais exemplos da miraculosa assistência do santo cavaleiro não eram invocados? De resto, a Ordem de Santiago não foi a única a participar na reconquista: a Ordem de Cristo e a Ordem de Avis, entre outras, desempenharam igualmente um papel importante. Mas foi a ela que foi confiada a missão de estabelecer a sul do Tejo as estruturas de uma cristianização rápida e profunda. Em 1217, a Ordem estabelece-se em Alcácer do Sal, cujas salinas passa a explorar, e começa a edificar as suas fortalezas sobre os castelos (al-qasr) abandonados pêlos Mouros em Almada, Palmela, Setúbal e Santiago de Cacém.


«Nós e a Ordem: desde antes da queda dos Templários que a Coroa estava estreitamente associada à gestão das Ordens, o que permitia aos cavaleiros escaparem em parte à autoridade dos papas. Os mestres, inicialmente eleitos, passaram, a partir de 1385, a ser escolhidos entre os filhos mais novos da família real, legítimos ou não. A reconquista de Portugal estava terminada, mas os cavaleiros continuavam a montar uma guarda vigilante. Seria nos confins do Islão do Ocidente que Vasco iria crescer, à sombra destas duas potências.
O clima da infância
Em Sines, onde quer que se esteja, ouve-se o barulho do mar. Mesmo quando não passa de um murmúrio, transpõe as muralhas do castelo. A muralha não envolve o burgo mas sim a falésia que domina a praia. É um amontoado de fragas informes, de rochas erodidas pelo mar que desenham um friso grosseiro aos pés da vila branca. Os rochedos afloram sob a areia do pátio interior. As quatro torres redondas e a torre de menagem quadrada contra a qual se aninha a casa do capitão não encobrem completamente o horizonte. A casa, quadrada e com uma base de pedras de cor negra e ocre, tem apenas um andar. Os degraus e os enfeites dos corrimãos são de mármore cinzento, tal como o arco da grande porta. É o único luxo de uma construção austera, se não mesmo grosseira. As janelinhas caiadas têm vista para as muralhas onde o mar lança os seus reflexos sobre as ameias. A voz do oceano acompanhou Vasco desde os primeiros dias de vida.

Como todos os jovens nobres do seu tempo, andou de uma casa para outra e, como todos os heróis míticos, a sua memória é evocada em vários locais da vila, especialmente na estrada que conduz a Salas, onde viviam os seus avós maternos. As ruas de Sines, com os seus alpendres azuis e verdes, eram estreitas e estavam entregues aos porcos e aos burros. Por vezes, os alpendres davam para a figueira de um jardim, para um pátio pavimentado a azulejo ou para um amontoado de cubículos ligados entre si por escadas tortuosas. Rapidamente, Vasco aprendeu a conhecer os caminhos secretos que cobriam todo o burgo, indo de um terraço para outro. Os rapazes escondiam-se aí para brincarem às guerras contra o único inimigo que conheciam: «ir aos Mouros» era uma expressão corrente no mundo dos corsários e dos combatentes em Marrocos, e os seus filhos faziam-se eco disso. Por vezes, a brincadeira descambava em zaragata, com todos a medirem forças, mas os verdadeiros muçulmanos eram deixados em paz, confinados às suas mourarias ou aos arrabaldes fora de muros. Todavia, tudo evocava o tempo em que eram eles os senhores: as janelas de arcos mouriscos, as lanternas trabalhadas à sombra das abóbadas e as chaminés altas erguendo-se como minaretes.


Dois séculos não bastam para apagar as saudades e os ressentimentos. De geração em geração, as famílias transmitiam uma e outra vez os altos feitos da reconquista do território aos Mouros. O jovem Vasco conhecia bem esses heróis, como o rei D. Afonso Henriques (1140-1185). Castelo a castelo, com a ajuda de escadas e de punhais, de incursões e de emboscadas nocturnas, o rei tinha entregue aos cristãos a terra portuguesa. Era bem sabido como Lisboa havia sido reconquistada (1147), com a ajuda dos cruzados dos mares do Norte, de passagem por Portugal a caminho da Terra Santa. Ainda se evocava a grande invasão sarracena de 1171, as longas campanhas alentejanas (1226-1242), as cidades por várias vezes conquistadas, o Algarve finalmente tomado aos Almóadas.
Ao longo dos anos, o islão tinha-se retirado como uma maré, deixando atrás de si fortalezas arruinadas e as manchas brancas das mourarias, esses bairros onde a fé muçulmana se perpetuava. A língua árabe ainda era compreendida, sendo utilizada por alguns escribas nos documentos oficiais e mantendo-se bem viva sobretudo nas palavras da vida quotidiana: os legumes, os frutos e as flores, os

nomes das cidades, o vestuário e os objectos familiares guardavam a memória de uma presença secular. Mesmo os notáveis cristãos continuavam a usar o título árabe ligado à sua função - o pai de Vasco, alcaide, é disso um exemplo. Como todas as crianças dos portos do Sul, Vasco compreendia o saber do Atlântico onde se confrontavam corsários cristãos e mouros. Livres ou cativos, os muçulmanos participavam nos trabalhos dos campos; as gentes mouriscas serviam nas casas familiares. Vasco cresceu assim num clima de tradições mistas, onde as canções de gesta da reconquista alternavam com os contos infantis e as lengalengas do mundo islâmico, tão próximo.


À sombra de Santiago, Vasco aprendeu a obediência e o respeito pela ordem estabelecida. Estêvão, seu pai, preocupava-se com a sua carreira e fazia tudo o que era necessário para obter benefícios, tanto na exploração de saboarias como nos direitos de portagem, de passagem e de escrituras notariais. Tinha sido nomeado comendador do Cercal e deslocava-se por vezes a Palmela, onde tinha a honra de se sentar entre os treze eleitos da mesa mestral, a mesa do senhor que não era outro senão o príncipe herdeiro, o futuro D. João II. Talvez Vasco tenha acompanhado o pai nas suas idas a este castelo outrora conquistado aos Mouros (1166). A torre de menagem era tão alta que causava vertigens. Lá de cima, avistava-se um domínio imenso, desde a foz do Sado à do Tejo. Viam-se os castelos de Alcácer do Sal, Setúbal e Sesimbra, as marinhas de sal e os moinhos, a flecha da península de Tróia, a serra da Arrábida. Em Palmela, tudo evocava o carácter militar da Ordem, as cruzes em forma de espada, os túmulos dos cavaleiros na igreja dedicada à Virgem Maria, à semelhança de muitas antigas mesquitas.
Vasco saía do universo mineral dos castelos quando a família o levava para a serra do Cercal, na época das colheitas. As oliveiras e os sobreiros cobriam com a sua sombra magras culturas, rebanhos de cabras e vacas e varas de porcos. Todos os ramos dos Gama estavam aí solidamente implantados, e a maior parte das vezes ia-se da quinta para o lagar sobre o dorso de um burro. Parece que os cavalos eram raros, já que, mais tarde Vasco se revelou fraco cavaleiro. Da serra do Cercal, descia-se para se ir caçar com a besta na planície litoral coberta de juncos. Era a altura de se visitarem os castelões de Milfontes, que controlavam uma pequena lagoa onde as naus se abrigavam dos ataques dos piratas. Acima de tudo, porém Vasco amava Sines, a

ponto de, nos seus momentos de glória, reivindicar apenas o governo desta vila. Amava-a, porque aí tinha conhecido uma infância ditosa. Era a única razão da sua predilecção por esse ninho de corsários e pescadores, sem monumentos prestigiosos, longe da corte e dos favores régios. Se saudava a vila ao longe sempre que a sua nau passava ao largo, era porque não tinha esquecido as alegrias e os arrebatamentos dos primeiros anos.


Os retratos de Vasco pintados durante a sua idade madura deixam adivinhar esse rapaz turbulento cujo reino eram as praias e os rochedos de Sines, admirado pêlos seus companheiros que arrastava para aventuras temerárias e selvagens, já temido, talvez querido. Apreciava a vida provinciana do Alentejo onde toda a gente se conhecia, onde ninguém vivia a mais de meio dia a cavalo. Estas vizinhanças criavam estreitas solidariedades, bem como ressentimentos que se resolviam com guerras.


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