Genevieve bouchon vasco da gama



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«Mundos novos ao mundo»
A reconquista em Espanha ainda não estava terminada. O reino de Granada permanecia nas mãos da dinastia muçulmana dos Nasridas. Era o alvo dos nobres e dos soberanos ibéricos, que reivindicavam para si o direito de conquistá-lo. Os reis de Portugal haviam ambicionado assenhorear-se da região, mas viram-se confrontados com a recusa de Castela, que nem sequer aceitou a sua oferta de aliança. Viraram-se então para Marrocos, onde o infante D. Henrique conquistara Ceuta em 1415.
Herdeiros do reino visigodo conquistado pêlos Árabes, os cristãos ibéricos consideravam a Berberia como sua herança, uma terra para missionação e cristianização. Do lado muçulmano, a guerra santa tinha sido proclamada contra Ceuta desde 1440, respondendo às bulas de cruzadas desde há muito concedidas aos Portugueses pêlos papas. O entusiasmo do infante D. Henrique (1394-1460) inspirara algumas expedições desastrosas. Em 1437, o seu jovem irmão D. Fernando tinha sido tomado como refém, morrendo cinco anos mais tarde num calabouço de Fez. A morte do infante mártir,
Nota: * Camões, Os Lusíadas. 11/45.

o Infante Santo, havia sido chorada em todo o Portugal, alimentando um renascimento do espírito de cruzada. Sob o impulso do rei D. Afonso V (1432-1481), conquistou-se Alcácer Ceguer em 1458 e Arzila e Tânger em 1471, ainda durante a primeira infância de Vasco.

Em grande parte financiadas pela Ordem de Santiago, estas campanhas foram seguidas em Sines com toda a atenção. Mas quando Vasco chegou à idade de compreender a sua importância, o ímpeto já tinha abrandado. Cativado pela esperança de reinar em Castela, D. Afonso V tinha deixado escapar a única oportunidade que jamais teve de se implantar em Marrocos. Contudo, tivera lá vinte mil homens no momento em que a queda dos Merínidas de Fez ateava uma guerra civil propícia às intervenções estrangeiras.


Restavam as praças já conquistadas, as fortalezas encravadas entre o mar e a terra marroquina, onde os jovens portugueses nobres faziam os seus primeiros feitos de armas. Tinha sido assinada uma trégua de dez anos, perturbada aqui e ali por razias e algaradas cujo objectivo não era outro senão obter vacas e cativos. Há já muito que os papas tinham dispensado os Portugueses da proibição de comerciarem com os Mouros, desde que as suas mercancias não incluíssem quaisquer armas. Peles, cobre e cavalos eram negociados nas praças que ocupavam pontos estratégicos para o controlo do mar. Davam para a margem sul do estreito de Gibraltar, defendido ao norte por Sevilha e Cádis, já reconquistadas, e pêlos portos meridionais de Portugal. Este anel de fortalezas corsárias, das quais Sines representava o ponto mais setentrional, tentava entravar o comércio marítimo do reino de Granada e as suas comunicações com Marrocos.
Como todas as crianças de Sines, Vasco vivia ao ritmo dos movimentos dos barcos. O porto abrigava sobretudo barcos de pesca, mas havia ocasiões em que os corsários descarregavam os seus despojos e os cativos aprisionados nos navios mouros. Por vezes, naus e caravelas faziam aí escala antes de seguirem para Lisboa. As tabernas e as casas dos notáveis - e certamente também a do alcaide - eram então animadas com as conversas dos navegantes, que mostravam ouro, leõezinhos e macacos trazidos de terras mais longínquas do que Marrocos. Diziam que, para além daquelas fortalezas vermelhas, daquelas montanhas de cumes nevados, se estendia um oceano de areia de que só se conhecia um limite, aquele onde as dunas se afundam no mar. Os Portugueses tinham construído aí algumas praças.
Páginas 18 e 19

Planisfério: Os descobrimentos marítimos portugueses.

O forte da ilha de Arguim era tristemente célebre. A guarnição tinha por única companhia as garças e por único alimento tartarugas marinhas e algas. A erva do areal era venenosa para os seres humanos e as gaivotas piavam tão alto que ninguém conseguia fazer-se ouvir. Mas agarravam-se àquela sinistra praça porque podiam espreitar as caravanas que por vezes surgiam do deserto. Estas transportavam cabras, peles de serpente e almíscar que eram trocados por peixe e pela água doce da ilha. Certos nómadas vinham também vender escravos e até pó de ouro trazido do longínquo reino de Tombuctu. Vasco conhecia bem as areias do Sara, pois o vento enchia com ela os barcos que passavam ao largo do deserto, permanecendo sempre alguns vestígios. Conhecia também os homens, esses escravos azenegues de longos cabelos encaracolados, de cuja proximidade todos fugiam, de tal forma fediam à gordura de peixe com que cobriam os corpos.
A estas novidades juntavam-se as provenientes do vizinho Algarve, que os cavaleiros da ordem percorriam nas suas idas e vindas. Nas suas comendas de Algezur, Benafatema e Cacela, comentavam-se tanto as notícias de Granada e de Marrocos como as de Lagos, onde afluíam os produtos e os cativos de África, negros, magrebinos ou cristãos comprados pêlos religiosos trinitários. O infante D. Henrique havia outrora estabelecido residência em Sagres, onde aparelhara quase todas as expedições de além-mar. Havia cerca de quarenta anos (1434) que Gil Eanes dobrara o cabo Bojador, onde tantas naus se haviam perdido, arrastadas por correntes que impediam o seu regresso. Foi ele o primeiro que ousou navegar fora de vista de terra e fazer a «volta do mar largo»; aventurou-se no mar Tenebroso navegando perpendicularmente aos alísios, sempre à mesma latitude, até encontrar uma zona de ventos variáveis propícios ao regresso.
Os Portugueses, incessantemente, haviam avançado e sondado a costa africana, apesar dos recifes e das areias movediças. Tinham atravessado o rio Senegal, tão profundo que lhe chamaram o rio Negro. Dizia-se que era o braço ocidental do Nilo, que conduzia ao Paraíso Terrestre. De facto, o Senegal marcava o fim do domínio berbere islamizado e o início da Guiné, nome que designava o país dos homens negros. Estes idólatras eram guerreiros temíveis,

andavam sempre nus fizesse o tempo que fizesse e cobriam as partes vergonhosas com uma tanga de pêlos de cabra. Existiam em Portugal mais de mil escravos negros, comprados aos mercadores árabes ou capturados durante incursões.


Tudo testemunhava a intensidade das relações estabelecidas com a franja marítima africana. Enquanto os escritos dos cronistas reais eram apenas lidos nos círculos próximos da corte, os mais fantásticos relatos corriam as províncias do Sul. Mas como separar o verdadeiro do falso? O que pensar do gigantismo daqueles animais de que por vezes se viam a pele e os dentes - crocodilos e hipopótamos escondidos em rios imensos, dragões tão duros como os mastros das naus, capazes de esmagar um boi nos anéis e de se embriagar com o seu sangue? Haveria realmente sátiros nas florestas? Mas havia uma certeza que fazia esquecer tudo o mais: a África era de facto a região do ouro. Já ninguém acreditava nas lendas segundo as quais na região de origem do ouro viviam homens com cauda e cabeça de cão. Navegando ao longo dos mangues do golfo da Guiné, os Portugueses tinham descoberto há pouco uma mina de ouro (1471).
Encostado aos rochedos da praia, Vasco contemplava as vagas da baixa-mar, as ilhotas de areia fazendo-se e desfazendo-se como a imagem do mundo cujos fragmentos tentava ligar. Aquele de quem mais tarde se diria ser «capaz em todas as coisas» não se cansava de construir uma geografia coerente a partir de noções confusas. Porquê aquelas naus arrastadas pêlos alísios para o mar Tenebroso ou devoradas pelas calmas do golfo da Guiné? Como chegariam elas àquela fronteira tórrida onde até as estrelas eram desconhecidas?
Sonharia já Vasco com o destino daqueles grandes capitães cujos nomes eram repetidos numa ladainha - Gil Eanes, Esteves de Lagos, Nuno Tristão, Dinis Dias, Pêro de Escobar? Ou com as riquezas obtidas por esse Fernão Gomes, homem de negócios de Lisboa a quem D. Afonso V tinha concedido em 1468 poder absoluto sobre o comércio da Guiné, em troca do pagamento anual de algo como dois mil reais em metal sonante? Tinha-se comprometido a descobrir cem léguas de novas terras todos os anos, explorando o litoral para sul. Tinha conquistado um título de nobreza por ter combatido em Marrocos ao lado do rei, sendo nomeado fidalgo e membro do Conselho Régio. No seu brasão figuravam, sobre um fundo de prata,

três cabeças de negros, ornadas com bodes de ouro nas narinas e nas orelhas e com um grosso colar de ouro ao pescoço.


Graças aos talentos dos seus pilotos e à força da legitimidade que as bulas pontifícias lhe conferiam, em 1471, o rei D. Afonso V tinha dado a si mesmo os títulos de «rei de Portugal e dos Algarves, d’aquém e d’alem-mar em África». Mas o que haveria além-mar? As únicas velas que se aventuravam no cintilante Poente eram na sua maior parte grandes barcas de pesca, por vezes caravelas, as únicas capazes de lutar contra a fúria do oceano. Quantas ilhas haviam assim sido descobertas? Sines era uma das escalas da rota dos Açores, arquipélago já conhecido dos Fenícios, explorado por genoveses e flamengos, capitães donatários do rei de Portugal. Em 1439, D. Afonso V acordara ao infante D. Henrique o direito de povoar as sete ilhas mais próximas. Na verdade, as embarcações de passagem largavam aí sobretudo ovelhas e bovinos, destinados a reproduzir-se para o reabastecimento das frotas. Avançando um pouco mais, teria João Vaz da Corte Real atingido o «país do bacalhau»? Teria Fernão Teles encontrado a mítica ilha das Sete Cidades que se tinha proposto descobrir?
O arquipélago de Cabo Verde não estava inteiramente explorado e no meio do Atlântico havia outras ilhas esparsas: as Desertas e as Selvagens, no meio das quais se erguiam a Madeira e Porto Santo. Eram estas as mais antigas terras de povoamento, onde colonos portugueses e italianos exploravam as florestas e cultivavam cana-de-açúcar e trigo, que de vez em quando eram desembarcados em Sines.
Numa época em que as rotas marítimas eram mais seguras do que os caminhos terrestres, o trajecto mais curto para atingir o Mediterrâneo passava pêlos portos de Portugal. Aí se encontravam mercadores e capitães aventureiros vindos da Flandres e de Inglaterra. Flamengos e portugueses tinham embarcado juntos muitas vezes, a caminho da Terra Santa ou das praças marroquinas ou ainda para ir em auxílio dos cavaleiros de Rodes, ameaçados pêlos Mamelucos do Egipto. A rede que ligava Portugal aos portos da Europa do Norte datava dos tempos recuados em que os Fenícios tinham estabelecido as suas feitorias ao longo da rota do estanho e do âmbar. Ao longo dos anos, tinham ido instaurando um clima de aliança. Enquanto os cruzados britânicos tinham ajudado os

Portugueses a conquistar Lisboa aos Mouros, muitos guerreiros portugueses tinham combatido nas fileiras inglesas durante a Guerra dos Cem Anos. Filipa de Lencastre tinha sido a primeira rainha da dinastia de Avis, que reinava em Portugal desde há mais de um século.


Do reino de França, conheciam-se alguns mercadores originários de Ruão, de La Rochelle e de Bordéus, mas temiam-se sobretudo os corsários de Diepa, de Nantes e de Baiona, mais temíveis do que os Mouros. Atacavam incessantemente as naus portuguesas que levavam para Bruges as mercadorias vindas de África.
Terras habitadas, terras desertas, terras desconhecidas — em que parte do mundo se deveria colocar a Índia cuja rota marítima Vasco da Gama haveria um dia de descobrir? Falar-se-ia dela em Sines? As gentes do Algarve eram grandes viajantes. Não receavam tomar os caminhos do Oriente, mas iriam alguma vez além de Jerusalém? Nas suas conversas, a Índia designava certamente a Etiópia. Assim o entendia então o comum dos mortais. Se a abertura de Portugal aos mundos atlânticos podia inspirar a uma criança de Sines o desejo de aí procurar fortuna, é pouco provável que os ecos da Ásia Oriental conseguissem chegar até ela.
Apenas os mais influentes homens de negócios começavam a interessar-se pêlos meios de atingir por via marítima o país das gemas e das especiarias. Em Portugal, o rei D. Afonso encarregou Fernão Martins, cónego da sé de Lisboa, de consultar a este respeito o cosmógrafo florentino Piero del Pozzo Toscanelli, que em 1474 aconselhara a alcançar a Índia pela circum-navegação do globo em vez de pela rota de África. Se se admitisse ser a Terra redonda, aquele que rumasse pelo Extremo Ocidente poderia atingir o Extremo Oriente e a ilha de Cipango descrita por Marco Polo. O relato do veneziano tinha já despertado o interesse da família real graças a uma cópia, se bem que lacunar, entregue ao regente D. Pedro (1392-1449) aquando de uma viagem a Itália.
Ainda que perdida por entre as preocupações mais imediatas impostas pela situação na Península Ibérica, a ideia de ir em demanda das riquezas da Índia já pairava no ar na época em que Vasco da Gama nasceu. Adiante veremos por que caminhos este projecto tomou forma em Portugal. Mas é curioso que o grande sonho da descoberta da Índia tenha surgido no mesmo momento em que nasceu o homem que iria realizá-lo.

O clima em que se desenrola a infância de Vasco em nada nos esclarece sobre a educação por ele recebida. A sua escrita é a de um homem cuja instrução não foi negligenciada mas que nada escrevera até as suas funções a tal o terem obrigado. O único vestígio que resta da sua juventude é um excerto relatando a passagem por Sines do bispo de Safim no início de Novembro de 1480. O prelado deu a primeira tonsura das ordens menores a Vasco e aos seus irmãos, bem como ao jovem tio destes, Vicente Sodré. Esta cerimónia, que lhes permitia aceder à longa cadeia de benesses acordadas aos religiosos, testemunha a preocupação de Estêvão da Gama de assegurar o futuro dos seus descendentes. Mas só este documento tardio, o único a iluminar o mistério da infância de Vasco, nos dá notícias dessa preocupação. Terão seguidamente Vasco e os seus irmãos deixado Sines para se iniciarem no ofício das armas junto de um nobre da vizinhança? Terão acompanhado algum navegante no mar? A aprendizagem dos rapazes das famílias nobres era dura e não era raro encontrá-los em batalhas ou em naus no alto mar.


Terá o ano de 1480 marcado um ponto de viragem na juventude dos jovens Gama? Um ano depois, subiria ao trono um dos maiores monarcas de Portugal. Vasco tinha cerca de dez anos quando D. Afonso V morreu, sucedendo-lhe D. João II.

CAPÍTULO II

Aquém e além-mar
«Que fizeste tu por nós, ó rei, senão descobrir outras terras, outro mar, outros mundos e outras estrelas? Ou melhor, furtaste-os às trevas eternas e trouxeste-os para a luz do nosso universo.»

Angelo Poliziano a D. João II, (Florença, 1454-1494)


D. João II tem vinte e seis anos quando toma o leme de um país que ainda anda à procura de si mesmo. A juventude de Vasco passar-se-á inteiramente no seu reinado: quinze anos cruciais, na esteira de conspirações que perturbam as classes dirigentes e ao ritmo de navegações que rompem os limites do mundo medieval.
Rei de Portugal e dos Algarves
O que representava então Portugal? A sua personalidade é recente, a sua coesão tardia, fragilizada pelas desgraças do século precedente. A Peste Negra, o tremor de terra de 1346, os anos de seca, as invasões castelhanas tinham deixado os campos desertos e as cidades em ruínas. A maior parte destas não tinha mais do que dois mil habitantes. A actividade concentrava-se toda em Lisboa,

Genealogia dos reis de Portugal: Dinastia de Avis.

onde havia apenas treze mil fogos, embora permanecesse a porta aberta para as cristandades atlânticas, as da Flandres e de Inglaterra, cuja aliança ancorava Portugal à Europa.
Em 1383, quando se extingue a dinastia de soberanos borguinhões que tinham expulsado as forças islâmicas a partir de 1109 e mantido o rumo do País, apesar das tormentas, estala em Lisboa uma revolução burguesa. Enquanto os nobres se voltam para Castela, mercadores e artesãos escolhem para defensor D. João, filho de D. Pedro e mestre da ordem militar de Avis. Eleito por aclamação nas Cortes de Coimbra (1385), vencerá depois os exércitos castelhanos em Aljubarrota, afirmando assim a independência de Portugal. Após longas negociações, esta será reconhecida em 1414 e as fronteiras portuguesas serão definitivamente fixadas. Um ano depois, estas alargam-se além-mar: Ceuta é conquistada em terras marroquinas.
«Nasce um mundo novo e também uma nova geração de homens», escreve então o cronista Fernão Lopes. Com maior ou menor êxito, os sucessores de D. João I marcaram o lugar de Portugal, o de um pequeno estado cristão estável, no flanco de uma Península Ibérica fraccionada em reinos rivais, ainda dominada aqui e ali por fortalezas de emires muçulmanos. Pelas suas alianças políticas e pêlos seus interesses económicos e culturais, Portugal estava muitíssimo aberto a uma Europa onde o espírito da cristandade estava sempre acima do de pátria. Desempenhava também um papel particular pelo seu conhecimento real dos países islâmicos e por uma superioridade técnica no domínio da navegação. Mas nem por isso a sua dimensão de além-mar era levada em conta. Portugal vivia em África uma aventura que lhe era própria, uma experiência incomunicável, ainda que os embaixadores estrangeiros ficassem maravilhados ao verem objectos e animais exóticos nos castelos reais.
D. João II nasceu numa família já aliada às maiores casas da Europa. Pela sua bisavó D. Filipa, era primo de um príncipe de Lencastre, um dos protagonistas da Guerra das Duas Rosas, que iria tornar-se o primeiro dos Tudor. Pela sua tia D. Leonor, esposa de Frederico de Habsburgo, era primo de Maximiliano I, o imperador romano-germânico. Portugal manteve-se durante muito tempo afastado da França dos Valões; era a outra França, a dominada pêlos

duques de Borgonha, que era o interlocutor privilegiado da corte portuguesa, graças à influência da duquesa Isabel, irmã do infante D. Henrique, esposa de Filipe o Bom e mãe de Carlos o Temerário. Mas este tinha sido morto em 1477, sendo o ducado anexado pelo rei de França Luís XI.


D. Afonso V tinha posto um travão às alianças longínquas. A sua irmã Joana e ele mesmo haviam-se casado na casa de Castela, uma prática que tendia a perpetuar-se entre as duas Coroas. Os príncipes de Portugal e de Castela não mais abandonariam os casamentos sucessivos, criando um imbróglio dinástico propício à eclosão de maquinações e ao despertar de todas as ambições. A tal ponto que D. Afonso V desistiu dos seus projectos de expansão em África para invadir Castela e fazer valer as suas pretensões ao trono (1475). Venceu a jovem rainha Isabel, a mesma que, pelo seu casamento com Fernando de Aragão, iria realizar com este a unidade de Espanha. Uns e outros tinham os seus partidários, que passavam de um lado para o outro sem razão aparente. Esta confusão de interesses deixou vestígios na sociedade portuguesa e marcou a geração a que Vasco pertencia.
D. João não se deixou arrastar pelas quimeras paternas. Desposou uma princesa portuguesa e decidiu consagrar-se ao seu próprio reino. É ele o rei, o que dispensa terras, títulos e rendas, o juiz supremo que legitima as jurisdições locais e senhoriais. A sua autoridade procede da tradição messiânica da dinastia de Avis, tendo o seu mestre recebido o poder de Deus, porque foi eleito pelo povo.
D. João cresceu numa família de letrados e de místicos, de reis cavaleiros e de príncipes poetas que pintam iluminuras nos manuscritos e não receiam usar cilícios sob os seus trajes corteses. Conhece o latim e as matemáticas, corresponde-se com os humanistas e os sábios do seu tempo. Extremamente curioso, tem longas conversas com os viajantes e mantém-se a par das novas técnicas, especialmente nos domínios da medicina, da astrologia, da cartografia e das artes náuticas. É na corte de D. João que crescem os futuros capitães da Índia.
A corte anda de um palácio para outro, do velho castelo mouro de Lisboa para Sintra, passando por Almeirim, Santarém, Évora e outros locais. Os fidalgos não se demoram aí muito tempo. Gostam da guerra e vão fazê-la a Castela ou em África quando Portugal está em paz.

Exercitam-se na algarada, nas razias e no saque das cidades, onde ganham simultaneamente honra e bens: «honor e proveito», segundo uma expressão que lhes é familiar. A revolução burguesa de 1383 privou-os dos seus direitos feudais. Só o rei pode ter vassalos. As províncias são administradas por conselhos, resultantes de eleições municipais, de que muitas vezes são afastados. Qualquer vilão pode ter um cavalo e armas, desde que possua uma certa quantidade de bens. Os mercenários, numerosos no exército real, introduzem novas técnicas, estranhas aos combates singulares que os cavaleiros tanto apreciam.


Estes nobres frustrados estão prontos a embarcar em todos os conluios. Sentem saudades das aventuras castelhanas do reinado anterior e das esperanças por elas despertadas, tanto mais que a recente fortuna de Castela encoraja as ambições dos seus partidários. Assim, o poderoso duque de Bragança, D. Fernando, que possui mais de cinquenta vilas e castelos e cujos domínios cobrem mais de um quarto das terras portuguesas, conspira a favor de Isabel de Castela, que é também sua sobrinha, arrastando atrás de si os grandes do reino, quase todos parentes ou aliados das duas famílias reais.
Desde a sua subida ao trono que D. João suspeita dos conjurados. O duque de Bragança é preso e decapitado em Évora em 1483. No ano seguinte, o rei acomete novamente, desta vez no seio da sua família próxima. Pêlos seus espiões, sabe que se tramam novas conspirações e que o duque de Viseu, irmão da rainha D. Leonor, pretende assassiná-lo. O rei convoca-o para uma casa em Setúbal, isola-o e apunhala-o com as suas próprias mãos. Os conjurados têm nomes sonantes: Fernão da Silveira, filho do barão de Alvito, D. Guterre Coutinho, comandante de Sesimbra, D. Lopo de Albuquerque e Pêro, seu irmão, D. Garcia de Meneses, bispo de Évora. Todos eles são perseguidos, lançados para calabouços ou no fundo de cisternas, assassinados no estrangeiro; encontraremos os seus descendentes entre os capitães da Índia, onde as querelas de antanho não se extinguirão. O rei não esconde as suas lágrimas. É aos seus próprios pecados que atribui tantos infortúnios. Tal é o destino dos soberanos a quem a inexorável lei do castigo nunca faz recuar.
A corte é austera. D. João veste-se de negro. Proíbe as sedas, os brocados, os canutilhos de ouro e outras vaidades. Gosta de se misturar com a turba dos pobres. Rodeia-se de secundogénitos bem-

nascidos, de cortesãos com títulos de nobreza de fresca data obtidos graças aos seus feitos militares ou à sua lealdade e que têm o cuidado de se integrar em linhagens mais antigas. A mobilidade da nobreza é tal que o cronista João de Barros dirá que «não é senão o esquecimento dos vivos da humilde condição dos seus antepassados». O serviço real é uma promoção, sobretudo quando está associado ao de uma ordem militar. O rei vai buscar o seu apoio a uma classe que tudo lhe deve, à qual confia cargos frequentemente hereditários, que ele une a si pela doação de propriedades fundiárias, de direitos sobre as portagens e o gado e até de poderes de jurisdição.


Os Gama pertencem a este grupo privilegiado, já que são simultaneamente homens do rei e da Ordem de Santiago. Desde o início do reinado, Estêvão da Gama vela pêlos seus interesses, tanto mais que D. João conheceu-o e apreciou-o quando era mestre. Nos registos da chancelaria de D. João II, podem consultar-se algumas das suas petições e a recondução pelo rei dos favores acordados por D. Afonso, seu pai: uma percentagem sobre as portagens e concessões sobre os direitos dos tabeliães de Sines e até sobre as ovelhas, as cabras e os porcos. Assegura-se também dos direitos sobre os serviços dos dois judeus de Santiago de Cacém, Salomão Alpão e Judas Abraão, direitos que lhe são confirmados em Santarém a 6 de Março de 1484.
Qualquer que seja a sua origem, os nobres são tão turbulentos que alguns estão proibidos de ter residência nas cidades. As mais veneráveis linhagens têm o seu rol de esposas degoladas, de violações, de incestos e de rapinas. Quanto aos bastardos, são tão numerosos que nenhuma desonra pesa sobre os seus destinos. Não tem D. João II um filho da sua amante Ana de Noronha, também ela filha de uma casa ilustre? Nomeado mestre de Santiago depois da morte do duque de Bragança, este D. Jorge terá uma estreita ligação com a vida de Vasco.
Esta pesada herança provoca tolerâncias mútuas, mas as violências domésticas têm de ser resolvidas na corte. Antigos e novos nobres reclamam-se das tradições da cavalaria, imitam os heróis dos romances da Távola Redonda, versejam à desgarrada, suspiram e morrem por uns olhos bonitos. Jogam incessantemente as canas e a barra, não se cansam de torneios e touradas. Falcões, gerifaltes e matilhas acompanham

as caçadas; a corte é jovem, dança ao som das violas e das rebecas, das sacabuxas e das charamelas. Ouve as canções de Espanha e de Itália, encanta-se com os ritmos dos tambores e tamborins dos Mouros, que por vezes são mandados chamar aos seus bairros.


Não se sabe se Vasco começou a frequentar a corte a partir da adolescência. Mas certamente que ouviria os seus ecos, nem que fosse por intermédio dos jovens nobres que conheceu ao longo da sua aprendizagem naval e militar. Muitas das atitudes da sua vida de adulto evocam uma juventude ávida de prazeres violentos. Contudo, não era daqueles para quem as mulheres, a caça e os touros dão um sentido à existência. É legítimo acreditar que seguiu a tradição dos homens do Sul e que muito cedo se entregou à guerra de corso. Os processos que a mais tarde recorrerá na Índia revelam uma personalidade de corsário, forjada nos combates contra os Franceses e os Mouros.
Nas praças de Marrocos reina uma trégua armada, rompida aqui e ali por uma razia ou por sangrentas algaradas. É sobretudo no mar que se «vai aos Mouros». De um lado e outro de Gibraltar, no Atlântico como no Mediterrâneo, o corso é tradicional. Nas terras do Islão e nas terras cristãs, as pessoas são capturadas, vendidas, compradas. Tudo serve de pretexto para pilhagens, razias, capturas e represálias. O apelo à cruzada lançado em 1453 pelo papa Calisto III dá uma legitimidade ao ataque sistemático ao litoral magrebino, tal como a guerra santa, sempre invocada pêlos Mouros.
Em Portugal, o cerco a Granada e a indignação sempre viva provocada pela morte do Infante Santo emprestam um ardor ideológico a uma actividade em que cada um procura lucros pessoais. As grandes casas senhoriais têm os seus próprios corsários e cada corsário a sua companhia. Os juristas legislam, pois é muito fácil passar do corso à pirataria! Sobretudo quando se pilha indiscriminadamente as naus dos países cristãos ou se vendem clandestinamente armas aos Magrebinos. Cada capitão corsário tem de obter uma carta de corso, muitas vezes sob caução, ou uma carta de represália, inútil quando se trata dos Mouros, que lhe dá o direito de exercer represálias. O rei recebe a sua parte dos saques, geralmente um quinto; as pedras e os metais preciosos, os navios e suas equipagens e o material naval cabem-lhe por direito.

Os lucros são enormes. O que se mantém a bordo - peles, têxteis, cavalos - constitui somente uma pequena parte. São os homens e as suas almas que um e outro lado mais cobiçam, para remarem nas galés, para penarem nas noras, para serem exportados, uns para os mercados da Europa outros em direcção ao Levante e à Ásia. Não têm todos o mesmo valor: oitenta e oito negros valem dez mouros. Em Portugal, a maior parte dos escravos trabalha nos campos ou no seio das famílias. Quanto ao Magrebe, enriquece com a venda dos escravos cristãos que recusaram converter-se ao islão. Os religiosos trinitários e os alfaqueques negoceiam quantias por vezes consideráveis, quase sempre sujeitas a reavaliações. Não tinha o resgate pedido pela libertação do infante Santo decuplicado, sendo negociado até a sua morte? O proselitismo não está ausente da empresa: há que ganhar almas por conversão ao cristianismo ou ao Islão.


A «boa guerra» e as «boas rapinas» tornam-se feitos de armas para os jovens nobres do Sul que encontram um remédio para a sua pobreza na embriaguez das pilhagens. Há tantos indícios deste modo de vida e das suas leis no comportamento de Vasco e dos seus tios Sodré para com os muçulmanos da Índia que é legítimo suspeitarmos terem realizado os seus primeiros feitos de armas no mundo dos corsários. A aprendizagem dos combates marítimos só podia ser feita aí. Nas ruas de Sines não se falava senão dos feitos dos corsários. Como não teriam pois tentado os adolescentes, alimentados a relatos de represálias que para eles não eram mais do que a expressão da justiça? Ou conheceriam eles as suas sinistras práticas, a tortura e a polé, a infamante merdimboca* e até a graça acordada às crianças que eram baptizadas e depois deportadas?
No entanto, qualquer que tenha sido o envolvimento de Vasco nas actividades de corso, a disciplina da Ordem de Santiago e a preocupação com a respeitabilidade da família Gama não lhe permitiriam ultrapassar os limites das «boas rapinas». A missão de represálias contra os piratas franceses que mais tarde o rei lhe confiaria é disso testemunho.
Nota: Suplício que consistia em encher de excrementos a boca da vítima.

Senhor da Guiné
«E quem vay de foz em fora nam vay por sua nobreza, mas por yr contra proueza, e ancora com amarras na ryqueza.»

Duarte da Gama, Cancioneiro Geral


Até então, a guerra de Marrocos havia sido a caça em coutada real, concedida pelas bulas de cruzada promulgadas pêlos papas. Nos reinados anteriores, a exploração de África e das ilhas do Atlântico tinha sido «arrendada» a capitães donatários e a homens de negócios como Fernão Gomes. Era um empreendimento privado, zelosamente vigiado pela Coroa e ao qual estavam associados mercadores flamengos e italianos. Todos contribuíam para o financiamento dos empreendimentos reais.
Depois da crise que o opusera aos grandes do reino, D. João já nada podia exigir a uma nobreza pronta para a rebelião nem cobrar impostos demasiado pesados aos negociantes, com o risco de imitar a acção destes. Mas o papa Nicolau V tinha declarado que «toda a costa da Guiné até ao Oriente inteiro» seria para sempre propriedade soberana do rei de Portugal. Porque não enviar os próprios navios à fonte do ouro? Mobilizando a «nova geração de homens», o rei iria fazer suas as riquezas de África.
Em nada se aviltava ao fazê-lo. Desde finais do século XIII que os reis de Portugal não desdenhavam abrir negócios em Lisboa; em 1380, D. Fernando criara uma companhia de comércio. Desta vez, é um mercantilismo de Estado que D. João cria. Desde logo, envia as suas naus à mina de ouro localizada havia já dez anos no litoral da actual Guiné. Mal subiu ao trono, encarregou Diogo de Azambuja de construir uma praça forte na foz do rio Benya com o acordo dos chefes locais (1482). Prefabricado nas oficinas de Lisboa, São Jorge da Mina seria o primeiro forte português montado na África Negra. Isolados entre o mar e a selva, assaltados por febres, os soldados da guarnição seriam submetidos a uma severa disciplina e a uma organização minuciosa.
D. João arrasta na sua empresa secundogénitos da nobreza, cavaleiros e escudeiros e até alguns fidalgos. Seguindo as pisadas de

Fernão Gomes, os negociantes de Lisboa participam no desenvolvimento do comércio africano, embora não existam quaisquer tradições burguesas, como em Itália e na Flandres. Assim, são rapidamente ultrapassados pêlos homens de negócios estrangeiros. Uma estranha personagem, Rafael Vives, judeu convertido de origem catalã e embaixador do sultão de Tunes, criou o primeiro banco em 1465.


A nação italiana é numerosa e poderosa em Portugal. Desde finais do século XIV que genoveses e toscanos acompanham a expansão portuguesa: comandantes corsários como o genovês Manuel Pessanha, capitães donatários como Bartolomeu Perestrelo de Placência, colonizador de Porto Santo, navegadores como o veneziano Alvise Cà da Mosto. Banqueiros, mercadores, usurários, todos tomam uma parte cada vez mais activa no financiamento das expedições. A crise económica que castiga a Toscana dos Medici incitou os homens de negócios florentinos a virarem-se para os novos mercados abertos pêlos Portugueses em África. Podemos encontrar nos documentos da época os grandes nomes de Florença: os Vanni, os Sernigi, os Giraldi, os Corbellini e o de Bartolomeu Marchionni, que cultivava cana-de-açúcar na Madeira e que acabaria por desempenhar um papel determinante na exploração do caminho marítimo para a índia. Entre os genoveses, encontramos os Spinola, os Lomellini, os Grimaldi e um certo Cristóvão Colombo, que surge a partir de

1478. Permanecerá dez anos em Lisboa e desposará uma filha de Bartolomeu Perestrelo.


Alguns comerciantes de Bruges instalam-se igualmente em Portugal, atraídos pela malagueta da Guiné, as peles de Marrocos e o açúcar da Madeira que descobriram na feitoria portuguesa da sua cidade. A exploração dos Açores é frequentemente concedida a flamengos, como Josse Van Huertere, nomeado capitão-donatário do Faial e do Pico, que se tornará cunhado do célebre cosmógrafo Martin Behaim (Martinho da Boémia).
Os judeus tomam parte activa no empreendimento. Desde há mais de um século que beneficiam da protecção da dinastia reinante, apesar do anti-semitismo latente e dos surtos de hostilidade que por vezes eclodem em alguns locais. As Cortes de 1490 expressarão a D. João a sua indignação por «em nenhum outro país cristão os judeus gozarem de tanta liberdade e favores como nos vossos reinos».

Embora lhes seja interdito possuírem escravos, mantêm a percentagem sobre os impostos que D. João se recusa a retirar-lhes. Judas Abravanel, mestre Latão e Isaac Barba tinham celebrado muitos contratos com o falecido rei D. Afonso. Ratão e Palaçano animam os negócios da feitoria portuguesa de Bruges. O seu papel não é somente financeiro - interlocutores dos Árabes no Magrebe e em Granada, têm as suas próprias redes de informações. Matemáticos e astrólogos judeus estão associados aos progressos da navegação astronómica. Os reis de Portugal tinham já contactos com os cosmógrafos da escola maiorquina, onde se celebrizou Abraão Cresques que, em 1375, desenhou uma imagem quase exacta da península indiana.


A evolução da sociedade condu-la além-mar: todas as corporações dos diversos ofícios estão mobilizadas para o armamento dos navios, a construção de fortes e fortalezas e o abastecimento dos mercados africanos. Os pobres e os próprios pedintes preferem uma vida errante e empregos precários a um trabalho assalariado. O rei não é muito exigente quanto à sua moralidade: «Um homem leva tanto tempo a crescer e há tantas ilhas a colonizar...»
A medida que o ouro começa a afluir ao Tesouro Real, o reconhecimento da África Austral acelera-se. O Tratado de Alcáçovas (1480) põe fim às tentativas de ingerência castelhanas: o domínio de expansão de Castela fica limitado ao paralelo das Canárias, enquanto o de Portugal se estende até o infinito no Atlântico Sul, sendo tais direitos confirmados pelo papa. A extensão da costa descoberta e explorada a cada novo ano será duas vezes maior durante o reinado de D. João II do que na época de Fernão Gomes e dez vezes superior em relação à do tempo do infante D. Henrique. É um período de intensa prospecção, realizada durante as viagens de Diogo Cão (1481-1487?), homem «cruel e alegre» segundo Eustache Delafosse* que o conheceu na Guiné. Expedições misteriosas, que uma documentação fragmentária não permite reconstituir. Apenas subsistem as cruzes de pedra colocadas na foz dos rios e que marcam até ao vigésimo segundo paralelo austral as etapas da descoberta, isto é, até sul da actual Angola.
Nada nos permite afirmar que Vasco da Gama tenha participado nestas expedições longínquas a partir da sua adolescência, mas certamente
Nota : E. Delafosse, Voyage, p. 31.

terá estado atento aos relatos espalhados pelas gentes do mar. Já não se estava na época do mero reconhecimento costeiro, da navegação diurna e das ancoragens nocturnas, dos breves desembarques nas praias africanas. Já não se estava no tempo em que, para assinalar a sua posse em nome do rei, se gravava a cruz de Cristo e as armas de Portugal no tronco das árvores. Na segunda viagem de Diogo Cão (1483), estes testemunhos rústicos já haviam sido substituídos pêlos padrões. Encimados por uma cruz revestida a chumbo, estes pilares de granito, da altura de dois homens, tinham um capitel quadrado ostentando as armas reais na face principal; do lado oposto, uma inscrição em latim e em português mencionava os nomes do soberano e do capitão e a data da passagem. Erguidos em frente do mar, assinalavam aos que passavam ao largo que a região fora «descoberta» em nome do rei de Portugal.


Foi necessário vencer o terror que tomava conta das tripulações sempre que se passava o Equador, quando a Estrela Polar desaparecia do céu nocturno. Não iria o mar começar a ferver sob o fogo do Sol? Dizia-se que, para sobreviver, tinha de se andar de cabeça para baixo ou que se cairia no abismo do infinito. Os que se diziam do humanismo citavam Lactâncio e a dinâmica dos graves. Ainda não tinha decorrido muito tempo desde que, no Ocidente, se admitira ser a Terra redonda e eram muitos os que se recusavam a acreditá-lo. A recente Conferência de Salamanca (1484) dera muitos exemplos disso. O universo austral estava povoado por monstros saídos dos contos infantis ou de reminiscências da mitologia greco-romana. A memória dos naufrágios somava-se um medo metafísico quando era preciso enfrentar vagas que tocavam o céu acompanhadas por outras que subiam do Inferno. Não era a hostilidade da natureza consequência dos nossos pecados?
Para além destas fantasmagorias, o que sabia então o rei das perspectivas abertas pelo reconhecimento da costa africana? Após a primeira viagem de Diogo Cão, em Dezembro de 1485, D. João dirige ao papa uma «oração de obediência», informando-o que os Portugueses tinham atingido «um local próximo do mar da Arábia». Na verdade, tratava-se da ponta dos Farilhões, a 22° de latitude sul, ainda muito longe do ponto onde as águas do Atlântico e do Índico se encontram. É nesse mesmo ano que recusa as ofertas de Cristóvão

Colombo que sonha levar à prática a teoria de Toscanelli e atingir as riquezas da Ásia navegando para oeste. Doravante, as viagens portuguesas serão rodeadas por uma extrema discrição, de tal forma se desconfia das ambições marítimas de Castela.


Cabe a D. João II e antes dele aos príncipes da dinastia de Avis o mérito de terem dado ao movimento do Renascimento uma dimensão planetária. Não só por terem encabeçado a descoberta de novas terras mas também por terem procurado incessantemente informações cuja síntese era necessário actualizar constantemente. A circulação dos viajantes e dos manuscritos, que se tinha desenvolvido ao longo da Idade Média, fora recentemente ultrapassada pela invenção da imprensa. Pela primeira vez na história dos homens, a Europa era varrida por uma vaga de informações das mais diversas naturezas:

escritos dos Antigos, cosmogonias medievais, relatos de viajantes. A experiência acumulada desde há séculos, todas as épocas misturadas, foi repentinamente revelada.


Não é de surpreender que a vertigem dos conhecimentos tenha criado uma amálgama de conceitos lendários e de dados precisos. Assim acontecia em Portugal, onde se estavam a descobrir os escritos de Ptolemeu e dos geógrafos de Alexandria. A sua representação do mundo revolucionava a de Aristóteles, cuja autoridade não fora discutida durante séculos. Nesta representação, os quatro elementos estavam dispostos concentricamente por ordem decrescente de densidade e por ordem crescente de volume. Tal implicava a imersão completa da terra na água. Perante a evidência do contrário, tinha acabado por admitir-se que uma parte da terra emergira como uma ilha e que a totalidade do hemisfério austral estava coberta pelo mar. Este conceito erróneo, contudo, ocultava uma verdade: a da continuidade dos oceanos.
O mapa de Ptolemeu, transcrito em Florença depois de 1409, era bem conhecido em Portugal, onde uma cópia havia sido adquirida pelo bispo do Algarve. A terra e os mares formavam uma esfera cujo núcleo central era também o do Universo. Cria-se que o limite dos últimos locais habitados se situava a 5°15’ de latitude norte na fachada ocidental de África e a 15° de latitude sul no seu flanco oriental, no ponto denominado Promontorium Prassum, que se julgava ser a extremidade do continente negro. Para além desse ponto, estendia-se

uma terra informe, uma espécie de massa austral que separa as águas do Atlântico das do Índico. A obra de Ptolemeu enfermava assim de um erro fundamental: a terra rodeava sempre as águas, transformando os oceanos em lagos imensos.


Esta imagem do mundo, ainda que respeitada por todos, tinha já desde há muito tempo sido desmentida pela experiência secular dos navegadores árabes. Em 1154, o geógrafo Idrisi apresentou o oceano Índico como um mar aberto. Os Genoveses estavam tão certos disso que, em 1291, Ugolino e Guido Vivaldi, contemporâneos de Marco Polo, se tinham perdido no mar ao tentarem contornar África. Mas se não era de bom tom contestar as conclusões de Ptolemeu, os cartógrafos de D. João II consideravam-nas como meras hipóteses. Ao provarem a existência de terras austrais, os navegantes portugueses tinham já demonstrado o absurdo da tradição aristotélica. Dentro de pouco tempo, iriam desmentir a tradição ptolemaica e provar a comunicação entre os mares.
Esta confluência já nem sequer era posta em dúvida por certos cartógrafos italianos que o rei conhecia bem. O oceano Índico era considerado como um oceano - «e não um mar fechado (stagnon)», como se podia ler no grande mapa-múndi executado em 1459 pelo monge veneziano Mauro a pedido de D. Afonso V. Sem serem tão explícitos, outros mapas italianos da época reflectiam a mesma certeza. O mapa-múndi de Fra Mauro representa a ilha de Madagáscar e vários portos da África Oriental em grande desordem. O ponto de convergência dos dois oceanos é visível, mas situa-se a 15° de latitude sul, muito mais ao norte do que na realidade. Durante a sua segunda viagem, Diogo Cão ultrapassará esse ponto e empurrará para além do paralelo 22 um reconhecimento desesperado. A costa africana apresenta apenas perfis áridos e estende-se para o Sul sem parar.
Que esperança incitaria o rei D. João a prosseguir obstinadamente o reconhecimento dos mares austrais? Num horizonte enevoado por lendas, não se abria nenhuma perspectiva precisa, embora se elaborassem quiméricos projectos.

Em busca do Preste João
Tinham-se passado dois séculos desde o fracasso da última cruzada. Mas a nostalgia não se extinguira. A Europa continuava a sonhar com a conquista da Terra Santa. Mas foi preciso mudar de estratégia, pois o Império Mameluco detinha o Egipto, a Síria e as rotas de acesso ao Mediterrâneo Oriental. Rumores provenientes da Arménia e de Veneza falavam de um misterioso reino cristão que não se sabia onde ficava, em África ou na índia, tão confusos eram os dados geopolíticos. Não seria o rei deste país, a que se dava o nome de Preste João, o aliado providencial para destruir o inimigo muçulmano?
«Extirpar os Sarracenos», tal era o projecto concebido a partir de

1318 por Guilherme Adam, um dominicano inglês cujas peregrinações o tinham conduzido às margens do oceano Índico. Tratava-se de atacar as forças do islão pela retaguarda, atacando-as pelo mar Vermelho, e de conquistar Jerusalém. Este projecto fora lido e comentado na maior parte das cortes da Europa, tendo encontrado um eco favorável junto dos soberanos ingleses e dos duques da Borgonha. Mas não podia ser posto em prática sem primeiro se identificar o Preste João e conhecer o caminho que levava até ele.


O véu, finalmente, foi levantado: o misterioso soberano não era senão o negus. O «senhorio do imperador da Etiópia da terra do Preste João» surge no Alto Nilo no Atlas maiorquino de Abraão Cresques adquirido em 1375 pelo rei de França Carlos V*. Os neguses Yetshaq e Zara Jacob tinham entrado em contacto com Roma, a fim de quebrarem o isolamento que lhes era imposto pêlos seus vizinhos muçulmanos em nome da guerra santa. Cartas e mensageiros foram trocados com o duque de Berri e com o rei de Aragão; monges abissínios tinham participado no Concílio de Florença (1438), tendo alguns deles tomado o caminho de Compostela. D. Afonso V manteve na sua corte durante algum tempo um embaixador etíope antes de o enviar ao seu tio, o duque Filipe de Borgonha. Um ano depois da estada deste emissário, a notícia da tomada de Bizâncio pêlos Turcos Otomanos (1453) deixaria todos os monarcas do Ocidente traumatizados. O papa Calisto III apressou-se a emitir uma bula de cruzada que ninguém tinha meios para levar a efeito.
Nota: Está conservado na Biblioteca Nacional de Paris.

Os navegadores portugueses não se tinham cansado de tentar descobrir o acesso ao reino do Preste João. Mas se se começavam a conhecer bem as margens ocidentais de África, nada se sabia do seu interior.


Julgava-se que o continente era mais estreito e que a Etiópia se estendia mais para sul. Assim, procurava-se incessantemente a passagem que permitiria atingi-la. Foi com este objectivo que os barcos subiram o Senegal, que se cria ser um braço do Nilo. Diogo Cão tinha-se aventurado pelo Zaire até às cataratas de lelala. No início de

1486, João Afonso de Aveiro regressara a Lisboa com uma grande notícia: acabara de descobrir o reino de Benim, onde lhes haviam falado do «Ogané», um poderoso soberano cujo reino se situava a duzentos e cinquenta léguas para leste. Seria ele o Preste João?


A partir de São Jorge da Mina, as missões de exploração multiplicaram-se. Para além dos desertos, das savanas e das florestas, os exploradores portugueses tinham descoberto grandes impérios - o Mali, o Benim, o Congo -, mas eram todos pagãos. A impaciência de se atingir o reino cristão era tal que os Portugueses tinham tentado destruir com pólvora os rápidos dos rios que obstavam à sua progressão. Tudo em vão: a Etiópia permanecia inacessível e o «Ogané» era apenas um chefe ioruba.
O ano de 1487 é decisivo, pois marca os primórdios da descoberta do caminho marítimo para a Índia. D. João decide alargar o campo das suas investigações à vertente oriental de África. O rei possui uma cópia do texto de Marco Polo dada ao seu tio-avô D. Pedro pelo doge Francisco Foscari aquando da sua viagem a Veneza. Talvez tenha já também lido o relato de Nicolau de Conti, um veneziano que, tendo percorrido o mundo indiano durante vinte e cinco anos (1414-1439), havia ditado a relação das suas viagens ao humanista florentino Poggio Bracciolini (1448), em penitência de uma fortuita conversão ao islamismo. Mais certo do que conhecer este relato, é D. João conhecer as notícias por ele inspiradas, como as que figuram no mapa-múndi de seu avô encomendado a Fra Mauro. O mundo indiano é um conjunto de penínsulas recortadas, mas aí se encontram os nomes do Império de «Bisnaga» (Vijaianagar), de Java e de Cipango (o Japão de Marco Polo), Podemos reconstituir o itinerário marítimo dos Árabes pêlos topónimos do Malabar e da África Oriental: estes preciosos indícios dizem por vezes mais do que os traçados enganadores.

O rei permanece atento a todas as informações que chegam do Oriente. Pelo Magrebe, onde por vezes regressam os mercadores de Tunes ou de Tlemcen (Tremecém), após uma longa estada no Malabar ou uma peregrinação a Meca; por Granada, onde se entrecruzam as redes de informações dos Judeus; pêlos cavaleiros portugueses de Rodes e pêlos franciscanos de Jerusalém. E, sobretudo, pêlos Italianos: Genoveses, Venezianos e Toscanos estão presentes nos mercados do Cairo, de Alexandria e do Levante, mas já não conseguem chegar aos outros portos do mundo árabe. Desde que os Turcos atingiram o mar Negro, os Genoveses tiveram de abandonar as sucursais que aí tinham estabelecido, enquanto os conflitos do Médio Oriente barraram a rota da Ásia, outrora percorrida por Marco Polo. Os mercadores cristãos conseguem por vezes introduzir-se nas caravanas, para irem em busca de musselinas e pedras preciosas até às portas da Índia. São mercadorias que ocupam pouco espaço, que trocam por coral e ouro e de que tiram grandes lucros, na condição de sobreviverem à longa viagem que, a maior parte das vezes, os conduz a Tabriz e a Ormuz, por vezes ao Afeganistão.


Os arquivos de Itália conservam as relações manuscritas de peregrinação à Terra Santa que têm em apêndice o relato de uma viagem feita para além dessa zona, em paragens misteriosas que escapam a qualquer identificação. Os seus autores tentavam assim escapar às suspeitas de apostasia que sobre eles pesavam no regresso, mas as suas descrições perpetuavam a memória das riquezas da índia, de um país onde as folhas das árvores estavam sempre verdes, de uma terra onde abundavam as gemas e as especiarias.
Estes viajantes evocavam sobretudo a presença de uma comunidade muito activa no Malabar, a dos «cristãos de S. Tomé», que se reclamavam das prédicas do apóstolo. Havia notícias deles um século antes, quando haviam recebido a visita dos padres da Igreja Romana que se estabeleceram entre eles. Um dominicano francês, Jourdain de Séverac, tornara-se bispo da cidade de Colão (1329). Mas o contacto tinha-se interrompido, e era importante restabelecê-lo.
E vai-se esboçando o plano das índias, nome ainda entendido no seu sentido mais lato, o dos países do oceano Índico. O interesse de D. João II por essas longínquas paragens desperta, ainda que o seu objectivo imediato seja conseguir a aliança com o soberano cristão da Etiópia para conquistar Marrocos.

A exploração desenvolve-se em três direcções. Enquanto as missões para o interior de África se tornam mais numerosas, partindo dos fortes de Arguim e de São Jorge da Mina, D. João envia dois emissários ao Oriente e arma uma nova frota para o Atlântico Sul.


Pêro da Covilhã e Afonso de Paiva partem de Santarém em Maio de 1487. O primeiro deu boas provas no decurso de missões secretas de que o rei o encarregou, enquanto o segundo é um dos seus escudeiros. Ambos falam árabe. Prepararam minuciosamente a sua viagem com sábios, médicos e astrólogos: mestre Moisés, mestre Rodrigo e José Vizinho. Munidos com um mapa do mundo e uma credencial «válida em todas as partes», sabem onde encontrar no Oriente os correspondentes dos Mediei e os agentes secretos de D. João II. A sua missão é muito precisa: ambos devem inquirir sobre o reino do Preste João e seu potencial militar, cabendo ainda a Pêro da Covilhã localizar as redes comerciais do oceano Índico e informar-se dos portos, da natureza das mercadorias asiáticas e da eventualidade de reacções hostis ou favoráveis.
Viajam juntos até Valência e Barcelona, depois embarcam para Nápoles e Rodes, onde recebem o apoio e ouvem os conselhos dos cavaleiros portugueses. Sob pavilhão mouro, aportam em Alexandria e no Cairo, onde se introduzem na caravana que vai de Fez a Adem. É aí que se separam: Afonso de Paiva toma o caminho da Etiópia e Pêro da Covilhã o da índia. Tendo desembarcado em Cananor, descobre Calecute, o grande porto das especiarias. Atravessa o oceano Índico até África para realizar a segunda parte da sua missão:
visitar as margens do mar dos Bárbaros e verificar se nas águas do Preste João haveria informações que confirmassem poder-se passar daí para as águas do Atlântico. Em caminho, aporta em Madagáscar e em Sofala, o porto do ouro da costa oriental. Interroga os navegantes árabes, que nada sabem do oceano Atlântico; dizem apenas que o mar tudo cobre e que se pode navegar para Oeste ao longo do continente cujo fim não se conhece.
Pêro da Covilhã prossegue as suas investigações. Semanas de navegação levam-no às margens do golfo Pérsico e do mar Vermelho, depois ao Cairo, onde encontra o sapateiro José de Lamego e o rabi Abraão de Beja, dois judeus enviados por D. João II. Recebe assim novas ordens do rei e acompanha o rabi Abraão a Ormuz, onde este

embarca para explorar as rotas do Levante no Mediterrâneo. Dirige-se depois à Etiópia, a fim de terminar a missão de Afonso de Paiva, que faleceu há pouco no Cairo. Os neguses jamais lhe permitirão abandonar o país; só será encontrado em 1527 por uma missão portuguesa, que recolherá o relato das suas atribulações.


Antes desta data, «nunca se soube realmente o que eles fizeram», relata sobriamente o cronista Rui de Pina, «pois nunca regressaram». D. João não saberá nada mais do Preste João, embora talvez receba algumas notícias da Ásia, graças a um viajante judeu regressado do Cairo a quem Pêro da Covilhã teria confiado uma carta e um mapa com menção dos locais que visitara. Informação tardia, que não permite afirmar que o rei alguma vez os tenha recebido. Seja como for, D. João pode jogar duas cartas ao mesmo tempo: a da Ásia e a da África Ocidental, de tal forma está convencido de que, se continuar a seguir-se a costa, se atingirá o ponto de confluência dos dois oceanos.
No final de Agosto de 1487, três meses depois de Pêro da Covilhã e Afonso de Paiva terem deixado terras portuguesas, fazem-se ao mar duas caravelas e uma pequena nau sob o comando de Bartolomeu Dias. Terão partido de Lisboa, então deserta devido a uma «epidemia de pestilência», ou do porto de Povos, para onde foi transferida a zona de aparelhamento? Passam despercebidas, pois só há olhos para os trinta navios que, na presença do rei, zarpam em direcção a Marrocos. Ninguém suspeita que a pequena frota realizará uma das maiores proezas navais de todos os tempos. Vasco da Gama tem dezanove anos quando Bartolomeu Dias dobra o cabo da Boa Esperança e lhe abre a rota da índia.

Mapa: A viagem de Bartolomeu Dias.

«O Capitão do Fim»
«É o mais belo cabo que alguma vez vimos em roda a circunferência da Terra.»

Sir Francis Drake


Tanto quanto o permite a confusão dos homónimos, podemos encontrar Bartolomeu Dias entre os escudeiros da Casa Real. Como tantos homens do rei, surge repentinamente da sombra para responder ao seu apelo. A sua missão é ir além de onde chegara a decepcionante exploração de Diogo Cão e seguir teimosamente a costa até o ponto misterioso onde esta dará lugar às águas do outro mar, o que os Antigos chamavam mar Prasóide, pois o julgavam verde como um campo de alhos-porros.
Capitão-mor da expedição, Bartolomeu Dias navega de conserva com o seu irmão Diogo, comandante de uma nau carregada de víveres, e com o capitão João Infante. Os seus pilotos são dois companheiros de Diogo Cão, Álvaro Martins e João Santiago, bem como Pêro de Alenquer, «grande piloto da Guiné», que guiará Vasco dez anos mais tarde. Juntos, não só percorrerão os mil e quatrocentos quilómetros de costa já reconhecidos por Diogo Cão mas ainda descobrirão outro tanto para além do ponto até onde este chegou.
Deixam a nau dos víveres com oito homens da tripulação em escala na baía dos Tigres. E as duas caravelas enveredaram por uma zona de baixios e bancos de areia até à angra das Voltas (Lüderitz Bay,

26° 35’s), assim chamada porque só se pode navegar contra borrascas e correntes navegando constantemente aos êsses em direcção do mar ou da costa. Foi à vista da Terra de São Silvestre (Prince of Wales Bay,

27°s) que Bartolomeu Dias decidiu deixar de ir contra os ventos dominantes de Sudeste, seguindo-os em vez de os combater. Com grande experiência do hemisfério norte, onde os Portugueses sabiam desde há muito seguir os alísios navegando em latitude até apanharem ventos variáveis, Bartolomeu Dias faz a «volta do largo», correndo o risco de não os encontrar. Quando consegue aproar a leste, isto é, na direcção do que julgava ser a costa, ruma para sul, na direcção do Antárctico. Aprisionadas por furiosas tempestades, as duas pequenas caravelas

seguem ao sabor dos elementos durante treze dias a fio, as velas colhidas. Já estão nas águas do oceano Índico, mas a tripulação, aterrorizada, meia morta de frio, ainda não o sabe.


Rumando para norte, chegam finalmente a uma baía de colinas verdes povoadas por bovinos e pequenos homens negros que fogem à sua aproximação, mas não sem antes arremessarem uma revoada de flechas. Em vez dos monstros de que as lendas falavam, descobrem os «lobos-marinhos», que não são senão focas. A 3 de Fevereiro, dia de S. Brás, chegam a uma baía hospitaleira a que dão o nome do santo. Bartolomeu Dias coloca um padrão no ilhéu da Cruz. Perscruta a margem que se inclina para este: será o começo de um imenso golfo que curvará para norte, assinalando a entrada do mar dos Bárbaros por onde se chega à índia e ao país do Preste João?
As duas caravelas prosseguem o seu reconhecimento até a foz de um rio onde João Infante chega em primeiro lugar, dando-lhe o seu nome. A impaciência dos capitães só tem igual na aversão da marinhagem, que não quer avançar mais.Tantos medos e sofrimentos para se verem prisioneiros dos malefícios de um mar hostil e de mudanças de ventos imprevisíveis! Depois de ter dado a assinar aos refractários um documento sobre a sua recusa, Bartolomeu Dias muda de opinião, defendendo o regresso. Ao rever o padrão do ilhéu da Cruz, separa-se dele «com dor, como se abandonasse um filho exilado para sempre». Prossegue para oeste o reconhecimento da costa austral, até ao extremo de África, a que dá o nome de cabo das Tormentas. Resignar-se-á alguma vez que «Deus lhe tenha recusado a principal vitória*»?
Após nove meses de separação, as duas caravelas reencontram a nau deixada na baía dos Tigres. Apenas três homens sobreviveram às febres, ainda que um deles se fine de emoção, na alegria do reencontro.
Em Dezembro de 1488, a pequena frota sobe o Tejo. À vista das velas remendadas e da exaustão da tripulação, toda a Lisboa consegue reconhecer que está de regresso de mares longínquos, mas ninguém suspeita que mudou a imagem do mundo. Nenhum triunfo assinala o regresso de Bartolomeu Dias. Mesmo o cronista da corte se cala. Mais tarde, será chamado o «Capitão do Fim», porque demonstrou que
Nota: * Barros, 1/3-4.

Ptolemeu se tinha enganado, que a África era uma península imensa cujo cabo marcava o fim das terras do Sul. Num círculo restrito, Dias relata a sua viagem ao rei, mostra-lhe a sua carta de navegação, onde figuram catorze novos topónimos. Cristóvão Colombo está entre os assistentes. Presença surpreendente, quando se sabe que o rei, depois de ter desdenhado das suas propostas, lhe tinha recentemente escrito para o encorajar a regressar a Portugal*. Nessa carta de 20 de Março de 1488, expressava o «grande prazer» que teria em revê-lo, assegurando-lhe que não seria levantada qualquer acção judicial contra ele por algumas prevaricações passadas. Teria o rei o genovês de reserva para algum projecto? Ou só o chamou para o enganar? O facto é que Colombo recolhe apenas informações erróneas quanto à latitude do cabo das Tormentas: 45° de latitude sul, embora o rei saiba já que se situa dez graus mais a norte. Assim, o genovês terá a confirmação da sua certeza de que a rota do Poente é mais curta para atingir a terra das especiarias do que a circum-navegação de África.


D. João pondera na sua vitória. O funesto cabo das Tormentas chamar-se-á da «Boa Esperança».
CAPÍTULO III

A Boa Esperança


«Um grande e fervoroso desejo»
Os cronistas da corte, Rui de Pina e Garcia de Resende, testemunham ambos o grande desejo do rei de descobrir a Índia, embora este nome se referisse a um espaço ainda mal definido onde se julgava que houvesse outros cristãos. Assim deve ser entendido o nome dado ao cabo das Tormentas: a «Boa Esperança» é a da expansão do cristianismo, e o domínio das riquezas da Ásia era apenas o meio de o fazer.
D. João não se deixa invadir pela vertigem da descoberta. Melhor do que seguir sempre em frente é consolidar o que está adquirido. Dedica-se a desenvolver o conhecimento dos mares e das margens e a prosseguir a evangelização de reinos africanos que serão outros tantos aliados da política portuguesa. Um mesmo desígnio anima então os chefes negros: se o rei dos Uolofes pede para ser baptizado em 1488 e o do Congo faz o mesmo dois anos mais tarde, é com o objectivo de assegurarem uma ajuda militar portuguesa para intervir a seu favor nas guerras tribais.
Debruçado sobre os mapas, D. João observava o mundo que os seus marinheiros reconstruíam a cada novo dia. Na esteira de Diogo Cão e de Bartolomeu Dias, pequenas frotas portuguesas navegam ao longo da costa africana, que exploram minuciosamente, a fim de

sondarem o litoral, de reconhecerem o vento e as estrelas, de abrirem rotas ao largo do Atlântico Sul. É legítimo pensar que Vasco começava então a sua aprendizagem do mar Tenebroso, já que três anos mais tarde D. João apreciaria os seus conhecimentos de marinheiro. Será uma alusão aos seus talentos de corsário ou antes à sua experiência do alto mar?


Quase nada se sabe destas viagens longínquas cujos únicos ecos que até nós chegaram são as quantidades de biscoito embarcadas, por vezes até mil quintais - o que corresponde a sessenta toneladas métricas -, o que implicava uma navegação de vários meses ou mesmo de dois anos. Até onde foram estes barcos que desapareciam no Poente? Até aos confins da América do Sul, sem se aproximarem o suficiente para suspeitarem que fosse um continente? Até para além do cabo da Boa Esperança, arrastados e perdidos nas tempestades geladas do oceano austral, por desconhecimento das estações das correntes?
Podemos interrogar-nos sobre as razões que levaram D. João II a não continuar no oceano Índico o reconhecimento da costa africana. Com efeito, há um intervalo de nove anos entre o feito de Bartolomeu Dias e o de Vasco da Gama. Tal lapso de tempo deixa o campo livre para a colocação de aventurosas hipóteses; mas basta recordarmo-nos das interrupções que hoje em dia afectam a conquista do espaço para tornar verosímil a hipótese de que as grandes expedições tenham sido suspensas. Entretanto D. João está convencido de que o caminho marítimo para a Índia passa pelo Atlântico Sul, onde Castela não ousa aventurar-se, já que as bulas pontifícias ameaçam de excomunhão os que se imiscuírem no domínio reservado às descobertas portuguesas.
No imediato, o rei é assediado por outras preocupações. Os assuntos de Marrocos ocupam o ano de 1489, bem como as negociações iniciadas para o casamento do príncipe herdeiro D. Afonso com a infanta Isabel, filha primogénita de Isabel de Castela e de Fernando de Aragão. Rica de esperanças de paz e de união para os reinos ibéricos, esta aliança será concluída no ano seguinte.
O casamento do príncipe foi celebrado em Évora com toda a pompa. Era o fim da austeridade que até aí tinha caracterizado a vida da corte. Chegara uma caravela de Itália carregada de sedas e de brocados

de ouro, chegavam outras da feitoria de Bruges, desembarcando nos cais de Lisboa cofres cheios de tapeçarias da Flandres, mantos debruados a marta e arminho provenientes da Alemanha e de Inglaterra. Os cronistas descrevem a profusão de lãs, brocados e tecidos recamados que os fogos de artifício iluminavam. Havia justas, torneios e touradas, bailes de máscaras, jogos de canas e banquetes. Os mouros foram convidados a sair das suas mourarias para juntarem os seus cantos e danças ao barulho das bombardas, dos címbalos e das trombetas. Nos palcos, levou-se à cena o Amadis de Gaula, o Cavaleiro do Cisne e as histórias de outros heróis da cavalaria.


Os festejos duraram seis meses em todo o Reino, do Natal ao Verão. Não eram apenas os príncipes que estavam a ser homenageados, eram também os navegantes. Para mostrar ao mundo que D. João era o rei do mar, montou-se uma frota inteira numa sala imensa. Com as suas âncoras douradas, os seus cordames de seda, as suas velas de tafetá branco com cruzes de ouro, a frota balançava ao som da música, num cenário pintado e com ondas artificiais. O casamento marcou o apogeu do reinado de D. João II. Tudo lhe parecia seguro: o futuro da sua dinastia, o ouro da Guiné, a evangelização de África, tendo dois dos seus reis aceitado recentemente receber o baptismo, a rota da Índia finalmente aberta.
Vasco tinha feito vinte anos há pouco. E bem possível que tenha estado presente nas núpcias reais. Podemos representá-lo vestido à moda do seu tempo, de calção curto e gibão, os cabelos um tanto compridos debaixo do gorro alto com canutilhos de ouro, a capa de escarLate sobre o ombro.
Em Santarém, as festas nupciais terminam brutalmente com a morte do jovem noivo, morto numa queda de cavalo. O júbilo dá lugar à desolação. D. João nunca recuperará da morte do filho. Deixa crescer a barba em sinal de luto e regressa aos seus hábitos austeros Acabou a esperança de unir os reinos ibéricos e de lhes dar a coroa do império cristão universal que os seus monarcas sonham conquistar. Doravante os seus caminhos para o conseguir divergirão.
Nesse final do ano de 1491, a hora não é propícia ao prosseguimento das descobertas no mar asiático. O rei tem de rever toda a sua estratégia, tanto mais que há murmúrios de contestação no seu reino. Não será uma loucura fazer essas expedições longínquas, quando se

podem ganhar honras em Marrocos e auferir lucros com o ouro e os escravos da Guiné? Porquê desperdiçar as forças de um país tão pouco povoado que tem de apelar incessantemente aos estrangeiros, aos judeus e aos escravos? Para quê essa obstinação de percorrer litorais áridos, de morrer de febres na pestilência das florestas, de subir rios onde pululam crocodilos? Tantos navios engolidos pelas águas ou atirados para os recifes, tantas tripulações massacradas por povos de linguajares impenetráveis!
As perspectivas abertas para além do cabo da Boa Esperança não serão esquecidas pelo rei, ainda que surjam outras terras no Ocidente que cobrirão Castela de glória eterna.

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