Genevieve bouchon vasco da gama



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A majestade da Espanha, Granada e a América
«E então o dito bispo, que era muito sábio e versado nas artes da nigromância, encantou as ditas ilhas que nunca mais aparecerão a ninguém enquanto todas as Espanhas não forem entregues à nossa boa fé católica.»

Eustache Delafosse, 1481


Para quem descia os íngremes caminhos da serra Nevada, as muralhas ocres da cidade de Granada assinalavam a capital do al-Andalus, a Andaluzia, último reino muçulmano da Península Ibérica. Desde a sua fundação no século X pêlos príncipes exilados de Damasco, as cidades andaluzas tinham sido o berço de uma das mais brilhantes civilizações do islão. O prestígio de Granada, dos seus sábios e dos seus artistas irradiava bem para além das suas fronteiras. O esplendor de uma civilização sete vezes secular tinha impedido que a marca do islão se apagasse completamente na Espanha cristã e até em Portugal.
Ao longo dos primeiros anos do reinado de D. João II, o cerco dos exércitos de Fernando e Isabel de Castela e Aragão tinha-se apertado em torno de Granada. A guerra endémica que vegetava desde há séculos, pontuada com feitos de armas e compromissos entre cristãos e muçulmanos, reanimara-se bruscamente, como por vezes acontecia quando as divisões de uns e outros recorriam a algum pretexto para

refazerem a sua unidade. Guerra santa ou cruzada, se esta última iria vencer era porque os cristãos tinham ultrapassado os seus diferendos antes dos seus adversários. O casamento de Fernando e Isabel tinha congregado os senhorios e reavivado as tradições cristãs. Enquanto até então Castela estivera voltada para o Atlântico, Aragão dava-lhe uma dimensão mediterrânica, com os portos da Catalunha e os reinos de Nápoles e da Sicília. Uniam-se assim a alguns estados italianos que tinham sido pioneiros da luta contra o islão no Mediterrâneo.


Para Fernando e Isabel, a queda de Granada era o ponto mais importante na sua procura de domínio dos reinos ibéricos. Era uma coutada ciosamente guardada a que os reis de Portugal nunca tinham podido ter pretensões. Contudo, no momento do último assalto, Fernando e Isabel aceitaram a participação de nobres portugueses, embora na sua maioria fossem refugiados na sua corte após a execução do duque de Bragança. Entre eles, encontrava-se o futuro vice-rei da Índia, D. Francisco de Almeida, de quem falaremos adiante.
No Outono de 1491, as tendas e os fogos do acampamento cristão cercavam as muralhas de Granada. Enfraquecido pelas cabalas do palácio, o emir Boabdil já não consegue opor-lhes resistência nem esperar qualquer auxílio do Magrebe. Capitulou nos primeiros dias de 1492. Por este feito, Fernando e Isabel receberam do papa o título de Reis Católicos. Foram assim confirmados na sua missão de defensores da cristandade, no momento exacto em que esta se sentia ameaçada pelo avanço dos Turcos Otomanos na Europa Oriental.
O êxodo provocado pela queda de Granada não deixou de ter consequências para os que realizavam a exploração do mundo. Evocando a tolerância de que tinham beneficiado os cristãos estabelecidos no seu território, os muçulmanos conseguiram preservar os seus bens, as suas leis e as suas mesquitas; mas foram muitos os que emigraram para outros países islâmicos, até para os sultanatos da índia, onde os Portugueses teriam a surpresa de os encontrar. Quanto aos judeus, foram intimados a converter-se ou a abandonar Espanha. O édito de 31 de Março de 1492 afectou não só os do reino de Granada mas também os de todo o país, onde, contudo, tinham ocupado cargos eminentes. Desde há séculos que a comunidade sefardita contava entre os seus membros artesãos especializados em equipamento militar, impressores, médicos e astrólogos. Muitos deles estabeleceram-se

no Império Otomano e nas cidades do Magrebe, tendo também sido muito bem acolhidos em Itália, particularmente pelo papa Alexandre VI (Bórgia). Após o exílio dos letrados de Bizâncio quarenta anos antes, o dos sábios sefarditas espalhou uma segunda vaga de saber na Europa do Renascimento.


Os que aceitaram a conversão foram engrossar o número dos cristãos-novos e permaneceram em Espanha, como Luís de Santangel, supervisor geral de Aragão, que iria apoiar financeiramente Cristóvão Colombo. Em Portugal, refugiaram-se mais de sessenta mil judeus. D. João II sabia apreciar as suas competências, apesar da hostilidade da população. Nomeou «astrónomo real» o matemático Abraão Zacuto, trânsfuga da célebre Universidade de Salamanca. Todos tinham de pagar um imposto de capitação de oito cruzados por oito meses de estada, embora certos artesãos, como os ferreiros e os amieiros, só tivessem de pagar metade. Enquanto os mais ricos pagaram uma quantia importante para ficarem a residir numa grande cidade, outros embarcaram para o Magrebe e algumas crianças, devidamente baptizadas, foram enviadas para povoarem a ilha de São Tomé, ao largo da Guiné. E o cronista Garcia de Resende, que exprimia aqui a opinião geral, escrevia:

«pêra que sendo apartado dos pais e suas doutrinas e de quem lhe podesse falar da ley de Moyses fossem bõos christãos».


O ano de 1492 abre a prodigiosa década que mudará radicalmente a visão do mundo, revelando simultaneamente a América e a Índia, uma descoberta e a outra reencontrada, ambas confundidas num mesmo desejo. Cinco meses após a queda de Granada, os Reis Católicos aceitam finalmente realizar o projecto que Cristóvão Colombo lhes submetia constantemente desde o seu regresso de Lisboa, depois de em vão o ter apresentado a Carlos VIII de França e a Henrique de Lencastre, a quem tinha importunado com as suas pretensões exorbitantes. Na Primavera de 1492, obtém finalmente o título de almirante e de governador das «ilhas e terras firmes» a descobrir pêlos Reis Católicos. A 3 de Agosto, os seus três navios rumam a oeste, onde tem a certeza de que encontrará as margens da Ásia Oriental. Ainda está convencido disso a 11 de Outubro, quando desembarca em terra americana, em Guanahani, actualmente São Salvador.
Nota: Resende, chap. 176.

No momento exacto em que Cristóvão Colombo surge à boca de cena Vasco da Gama está a sair da sombra. É cerca de vinte anos mais novo do que o genovês, mas já tem prática de todas as técnicas da navegação e do combate naval. É fidalgo da Casa Real e tem a confiança do rei. Será a este título que o rei o escolhe para conduzir uma operação de represálias contra os Franceses? Os piratas de Diepa e de Ruão fazem assaltos no mar Tenebroso. Esperam ao largo de Marrocos ou dos Açores e atacam os navios portugueses que regressam da Guiné carregados de marfim, ouro e escravos. Os arquivos da época revelam a dimensão do contencioso que pesa sobre as boas relações entre Portugal e França, contencioso que atinge o auge quando os Franceses capturam uma grande caravela cheia de ouro. D. João lança um embargo sobre dezanove naus francesas ancoradas em Lisboa e encarrega Vasco de capturar todas as que se encontram nos portos do Sul, em Setúbal e no Algarve, o que este faz com prontidão e vigor.


Não são apenas estes talentos que chamam a atenção do rei. O favor de Vasco está ligado ao de outro personagem: D. Jorge, filho bastardo nascido dos amores de D. João II e de Ana de Noronha, que o rei tenta impor como herdeiro do trono, para grande escândalo da rainha D. Leonor. Depois da morte do seu filho legítimo, D. João, pediu ao papa Inocêncio VIII que conferisse a D. Jorge o título de mestre de Santiago e de Avis, usado pelo defunto príncipe. Que Vasco apareça como um protegido do mestre enquadra-se bem na tradição da sua família, tanto mais que este último lhe fará brevemente importantes doações. E no seu círculo que há que situar Vasco na aurora da sua vida pública, nomeadamente no do poderoso prior do Crato, D. Diogo de Almeida, tutor do príncipe, o qual tinha nascido e sido criado no seio da sua família.
Será a estas altas protecções que deve o facto de beneficiar da indulgência real? Nesse mesmo ano de 1492, a sua presença em Setúbal provoca um violento incidente. Uma noite, oculto sob um grande manto, de regresso a casa em companhia de Diogo Vaz, escudeiro do rei e em casa do qual acabou de passar o serão, esbarra com o alcaide da cidade que o intima a descobrir-se e identificar-se. Vasco recusa, e Diogo Vaz, em voz baixa, afirma que o seu companheiro não é um malfeitor, que não é senão Vasco da Gama e que há que deixá-lo passar. O alcaide teima e chama a guarda. Diogo Vaz

desembainha a espada e apronta o seu pequeno escudo de couro. A zaragata e os gritos provocam um ajuntamento, onde se encontram os juizes da cidade. As lacunas do documento relativo a Diogo Vaz não permitem conhecer o resultado da rixa, apenas se sabe que não regressa a casa, com medo de ser encontrado. Os juizes apresentam queixa contra os dois homens, mas o rei perdoa a Diogo Vaz, condenando-o apenas ao pagamento de uma multa de mil reais, com a garantia de que a justiça recebeu ordens para não o prender. Curiosamente, não se encontrou um documento semelhante relativo a Vasco. Terão querido apagar os seus vestígios? Terá desaparecido na noite ou terá corrido em auxílio do seu companheiro?


Podemos interrogar-nos sobre este misterioso acontecimento, sobre as razões que Vasco tinha para dissimular o rosto, sobre o ardor de Diogo Vaz em proteger o embuçado e sobre as razões da clemência real. Talvez o acidente tenha ocorrido nos dias que precederam a operação de captura dos navios franceses, quando a presença de Vasco em Setúbal devia permanecer secreta. Também não sabemos em que medida deu livre curso à brutalidade da sua natureza. Os cronistas, que escrevem meio século mais tarde, são cúmplices de uma desinformação que calou o incidente ou que acusava o seu irmão mais velho, Paulo, de ter ferido um juiz.
Há boas razões para crer que se limitaram a pedir a Vasco que se afastasse e fosse para o mar, o que explicaria o silêncio sobre as suas actividades ao longo dos três anos seguintes. Parece que é nessa altura, tem ele cerca de vinte e cinco anos, que entra para o círculo restrito dos navegantes e dos cosmógrafos que preparam com o rei a descoberta da Ásia.
Aproveitemos o momento em que Vasco emerge da sombra para levantar o manto que lhe dissimulava o rosto. Os retratos que chegaram até nós não datam da sua juventude. A maior parte são cópias de quadros outrora na posse da sua família, à excepção do mais antigo, que pode ser visto no Museu de Arte Antiga de Lisboa. A primeira vista, não se parecem uns com os outros, mas todos têm pontos em comum que permitem evocar Vasco na flor da idade: atarracado, traços regulares, a testa alta, o nariz direito, os olhos castanhos e rasgados sob as sobrancelhas de arco diabólico, um tanto suavizado pela

idade no último retrato. Ainda que o retratista favoreça o modelo, este revela uma certa beleza. O seu aspecto agradável terá certamente contribuído para o ascendente que exercia sobre poderosos personagens, apesar da violência do seu carácter.


No dia 6 de Março de 1493, Cristóvão Colombo entra na barra do Tejo. Terá sido porque uma tempestade dispersou os seus navios ou porque quer anunciar em pessoa a D. João a descoberta desse novo mundo que ainda julga ser Cipango, o Japão de Marco Polo? A corte está em Vale do Paraíso, nos arredores de Lisboa, e o rei convoca-o imediatamente. Colombo não esconde a sua alegria e exibe o ouro, os produtos e os homens das ilhas descobertas, como para lhe censurar ter um dia desdenhado do seu projecto. Ensombra-se o rosto de D. João ao ver aqueles «índios» que não são do tipo africano, antes se parecem com os Asiáticos. Colombo não é modesto no seu triunfo, e a sua insolência e verbosidade são tais que alguns fidalgos propõem assassiná-lo. Colombo partirá em liberdade para a corte dos Reis Católicos, mas permanece fascinado por D. João, de quem dirá que «percebia mais de Descobertas do que qualquer outro».
O rei questiona-se. Terá sido realmente a Índia que este aventureiro descobriu, ele que foi corsário sob pavilhão francês antes de percorrer os domínios marítimos usitanos a bordo dos navios genoveses com base em Lisboa? Não aprendeu tudo o que sabe com os Portugueses, imiscuindo-se entre os navegantes e os cartógrafos, subtraindo-lhes astuciosamente tudo o que pudesse alimentar a sua quimera? Ainda que a descoberta de Colombo se revele rapidamente mais importante do que o seu descobridor, D. João não parece pôr em causa a escolha da rota do cabo da Boa Esperança para atingir o país das especiarias, apesar das exortações dos que procuram convencê-lo do contrário. O seu primo Maximiliano I, imperador da Alemanha, aconselha-o a deixar-se guiar pelo cosmógrafo Martin Behaim (Martinho da Boémia), que se vangloria de tudo saber, e apresenta-lhe Jerónimo Münzer, que o visitará em Évora dois anos mais tarde. É desejo de todos que D. João enverede pela rota aberta por Colombo para encontrar o caminho das Índias. E que o genovês difunde as suas ilusões em toda a Europa: uma carta terminada em Lisboa a 4 de Março de 1493 é impressa em Abril em Barcelona, vertida para latim em Paris e em.Basileia no ano seguinte e depois para italiano, espanhol e alemão.

A natureza de D. João, apreciadora do segredo, nada revela das suas dúvidas, se é que alguma vez as teve. Sabe-se apenas que a exploração do Atlântico se exercia tanto para oeste como para leste. Tudo empurrava os veleiros para as águas americanas, seguissem-se os alísios a partir de Cabo Verde ou a sul dos Açores. As capitanias das ilhas eventualmente descobertas a oeste tinham sido prometidas a Domingos Fernandes do Arco (30 de Junho de 1484) e ao flamengo Ferdinando Van Olm (3 de Março de 1486), partido à procura da ilha das «Sete Cidades», «grande ilha ou terra firme». O que teria sucedido às expedições enviadas pouco antes da partida de Bartolomeu Dias? Quantos navegantes aportaram a novas terras sem nunca terem regressado para descreverem o que haviam visto? Que crédito dar às afirmações de Las Casas, que pretendia que as Caraíbas tinham recebido a visita, muito antes de Colombo, de homens «brancos e barbudos»?


Fosse qual fosse a visão que os Portugueses tinham da América, esta estava fora do campo delimitado pelo projecto régio da descoberta da Ásia. Penetrar naquelas terras é afastar-se demasiado de Portugal e das escalas já organizadas ao longo da costa africana, é aventurar-se fora dos pontos de orientação dos cosmógrafos contemporâneos. Nada justificava então tal perda de tempo e de energia. Mas os dados estavam lançados: era a competição aberta entre Portugal e Castela, tanto mais que as ilhas descobertas por Colombo estavam situadas a sul do paralelo das Canárias, isto é no domínio reservado a Portugal.

D. João II lança o desafio. Prepara uma armada para ocupar essas novas terras e, simultaneamente, envia uma missão diplomática a Barcelona, onde residem então os Reis Católicos. A armada não partirá, mas para partilhar melhor o pomo da discórdia, propõem que o Tratado de Alcáçovas seja renegociado. Não será melhor adoptar a sugestão pontifícia e separar as respectivas áreas de expansão por um meridiano em vez de um paralelo? Assim se abrem os preliminares do Tratado de Tordesilhas.


Estava a preparar-se a partilha do mundo e, ao longo dos anos de

1493 e 1494, as missões diplomáticas iam e vinham sem descanso. As bulas do papa Alexandre (Bórgia) eram favoráveis aos Reis Católicos, como as duas Inter caetera... (Maio de 1493), que fixava a «raia» de separação numa linha que passava a cem léguas de Cabo Verde

e que ia de um pólo ao outro. A bula Du dum sequidem dava aos soberanos espanhóis o direito de se estabelecerem nas Índias no caso de os seus capitães aí aportarem em primeiro lugar.

D. João contestou bula atrás de bula, pois punham em questão as prerrogativas acordadas a Portugal pelo papa Nicolau V, que deixavam aos navios lusitanos o caminho «até às índias» livre. Conseguiu que a linha fosse recuada até trezentas e setenta léguas a oeste de Cabo Verde. As terras e mares ocidentais para além desta linha pertenceriam a Castela, enquanto para aquém dela seriam pertença de Portugal. Esta exigência fazia com que as costas do Brasil, talvez já avistadas, pertencessem a Portugal. E, sobretudo, preservava o espaço da «volta do largo» que permitia dobrar o cabo da Boa Esperança. Castela cedeu os seus direitos sobre o mar Tenebroso em troca das ilhas das especiarias que se julgava estarem perto das Antilhas. Deixava a Portugal o campo livre para a rota da Índia. O acordo foi assinado no Castelo de Tordesilhas no dia 7 de Junho de 1494, à revelia dos outros soberanos europeus.

O rei de França, Francisco I, protestaria mais tarde que o Sol brilhava para ele como para os outros, pedindo para ver o testamento do Todo-Poderoso que o excluía da partilha do mundo. Assim, o direito de desempenhar um papel universal foi atribuído apenas aos soberanos ibéricos.
«O talento de bem-fazer»
Quando hoje nos debruçamos sobre um globo terrestre, sentimo-nos confundidos pela audácia daqueles que partilharam entre si um mundo que em grande parte ainda lhes permanecia oculto. Duas cartas geográficas da época, a de Martellius e a de Juan de La Casa, mostram-nos uma África Oriental muito recortada, uma Ásia informe e as Américas reduzidas a algumas terras emersas. Todos os cosmógrafos da Europa se questionavam sobre estas imagens, elaborando outros esquemas e imaginando eventuais passagens. Ninguém suspeitava da imensidão do Pacífico nem da extensão real da América, o continente ainda sem nome que se julgava ser um arquipélago. Os protocolos do Tratado de Tordesilhas reflectiam estas incertezas.

Mapa: Linha de partilha do Tratado de Tordesilhas (1494)

Castelhanos e Portugueses acordaram numa partilha virtual do mundo a partir de um meridiano do Atlântico sem parecerem preocupar-se com o que se encontrava do lado oposto, ou seja, nas águas do mar da China. Esta omissão permitia que uns e outros tivessem a possibilidade de deixar o adversário perante um facto consumado: as ilhas das especiarias seriam de quem lá chegasse primeiro.

Havia tantos conhecimentos heteróclitos a vir a lume de repente, sem qualquer coerência cronológica - uns provinham da herança mais bem conhecida dos Antigos, outros da experiência dos viajantes e dos marinheiros -, que era muito difícil aos homens da Renascença conciliar os dados de uns e de outros. O que mais contava era a avidez de se conhecerem novos mundos, como o testemunham as publicações da época.

Tinha-se concebido o «globo terráqueo», onde as superfícies dos continentes e dos mares estavam à mesma distância do centro da Terra; daí a possibilidade de se imaginar uma rede de paralelos e de meridianos de acordo com a geografia matemática de Marino de Tiro e de Ptolemeu. Além disso, os cálculos do globo elaborados em Tordesilhas enfermavam de erros grosseiros, nomeadamente no que diz respeito às variações dos meridianos entre o equador e os pólos.

Talvez tenha sido o peso da tradição aristotélica, ainda muito forte em Espanha, que permitiu aos negociadores portugueses obter em Tordesilhas o domínio dos mares austrais, que muitos ainda julgavam desertos. O mapa definitivo obtido por D. João II deveu-se à presença dos seus cosmógrafos, especialmente Duarte Pacheco Pereira.

Duarte Pacheco tornar-se-á ilustre na esteira de Vasco da Gama, nas futuras campanhas da Índia. Realizou os seus primeiros feitos de armas em Marrocos, onde seu pai havia sido morto pêlos Mouros. Depois, fez-se ao mar para conhecer os ventos, as correntes e as constelações do Atlântico. O seu tratado de cosmografia, Esmeraldo de situ orbis, notável pela correcção dos seus cálculos, dá a entender que foi ele o primeiro a descobrir o litoral da América do Sul, do que podemos duvidar, já que o livro foi escrito depois da descoberta do Brasil por Cabral (1500). Foi no decurso dessa incessante exploração do oceano que Bartolomeu Dias o recolheu, doente, na ilha do Príncipe, tendo-lhe relatado em primeiríssima mão as observações feitas perto do cabo da Boa Esperança.

Duarte Pacheco Pereira conhecia bem o castelo de São Jorge da Mina, onde os astrónomos judeus de D. João, mestre Rodrigo e mestre José Vizinho, observavam os céus da Guiné e elaboravam as regras da navegação pêlos astros para além do equador. Mestre José verteu do hebraico para latim o Almanach Perpetum, obra de seu mestre Abraão Zacuto, que deveria ser revista de quatro em quatro anos. Estas efemérides reproduziam o movimento dos astros relativamente a coordenadas astronómicas; permitiam posicionar os navios no mar e conhecer a forma dos oceanos e das terras. Era em São Jorge da Mina que os astrólogos confrontavam os seus cálculos com os testemunhos dos pilotos que aí faziam escala: Álvaro Pires e João de Santiago, Pêro de Escobar e esse tal Pêro de Alenquer que tinha guiado Bartolomeu Dias. Tudo leva a crer que Vasco partilhasse então as aventuras de uns e de outros. Reconhecidos em 1492, os «serviços prestados nas coisas do mar*» cobrem certamente as etapas da sua experiência das técnicas de navegação no oceano austral.

Naqueles últimos anos do século XV, a arte náutica aperfeiçoava-se a cada novo dia. O «talento de bem-fazer» outrora pregado pelo infante D. Henrique, impunha-se mais do que nunca. Já lá ia o tempo em que bastava uma bússola, utilizada desde o século XII pêlos Italianos, Catalães e Maiorquinos. Os marinheiros dispunham ainda de uma espécie de rosa-dos-ventos em forma de roda onde estava representada a imagem de um homem cuja cabeça indicava o Norte, os braços o Leste e o Oeste, enquanto a posição dos ombros determinava o Nordeste e o Noroeste, e os pés o Sul. O número escrito na extremidade de cada um dos oito raios correspondia a um rumo, ou seja, 45 graus. O «Regimento da Estrela Polar» ficou ultrapassado depois de os navegadores portugueses terem perdido os pontos de orientação ao penetrarem no mar equatorial. Tinham então de guiarse pelas tabelas do «Regimento do Sol», estabelecidas antes de 1485 por mestre José Vizinho, medindo a altura daquele astro ao meio-dia e observando depois a sua declinação até se pôr.

Não existindo até aí a astronomia enquanto ciência, os únicos conhecedores do espaço sideral eram os astrólogos cujos instrumentos os navegadores utilizavam. Assim, o seu astrolábio planisférico havia sido adaptado ao mar. Na época, era um círculo de madeira com cerca


Nota: * Garcia de Resende, Crónica de D. João II, cap. 146.

de um palmo de diâmetro, graduado de 0 a 90 e recortado de forma ao observador não ficar encandeado. Estava equipado com uma alidade com dois orifícios. Vasco exercitava-se na sua manipulação, segurando-o por um anel e tentando permanecer bem direito enquanto o navio balançava. De manejo mais fácil, o quadrante náutico era igualmente constituído por uma peça de madeira em secção de um quarto de círculo onde se deslocava um fio de prumo de cem a duzentos gramas. A bússola, longe de ter sido abandonada, permanecia um auxiliar essencial do navegador. Havia várias a bordo, devido à fragilidade do magnetismo da agulha, ainda que regularmente restaurado, esfregando-se para tal a agulha com um íman. Medida de espaço, medida de tempo, duas noções cuja ligação ainda não havia sido desvendada, já que a percepção de «diferença horária» não é fácil de se sentir. Meio-dia era a única hora conhecida, a da culminação do Sol no zénite. A passagem dos dias era marcada pela areia das ampulhetas, esses instrumentos de vidro encastrados em madeira, que o mestre de quarto virava de meia em meia hora, quando o choque das ondas não as desacertava. Quando a noite estava calma e o mar mais negro do que o céu, apenas percorrido pelo tremor fosforescente da espuma, pilotos e marinheiros perdiam-se na contemplação das estrelas. O firmamento era o único elemento estável do seu universo sempre em movimento, e os seus olhos perdiam-se aí, lendo as rotas e os destinos. Descobriram constelações que se tornaram novos pontos de orientação. Assim, Pêro Anes e João de Lisboa iriam dentro em pouco elaborar o «Regimento do Cruzeiro do Sul» (1507).


Através da enxárcia Vasco exercitava-se a desvendar o labirinto das galáxias e a distinguir as estrelas sem nome que os Portugueses eram os primeiros a contemplar no céu do Ocidente. Maravilhava-se ao reconhecer os signos dos astrólogos, a Virgem e a Balança, a cauda do Escorpião e o arco do Sagitário. A descoberta dos astros era ainda mais vital do que a das terras, pois precedia-a e abria o caminho para elas.
Seguindo a manobra dos veleiros e a lenta progressão da mastreação no cintilamento do espaço sideral, media os progressos realizados desde os tempos da sua infância. Recordava a vela triangular das barcas de Sines, as que o tinham transportado durante os anos de aprendizagem. Eram construídas segundo técnicas mediterrânicas,

tão caras a esses genoveses presentes desde há dois séculos nos estaleiros navais portugueses. Fora nestas embarcações, cujo comprimento não ultrapassava os quinze metros, e a capacidade, os trinta tonéis*, que os Portugueses tinham iniciado a exploração da costa africana e que Gil Eanes se tinha aventurado no alto mar para além do cabo Bojador. Ao longo dos anos, foram sendo adaptadas à navegação atlântica. Haviam sido equipadas com velas quadradas como as naus do Norte, velas que se tornavam «redondas» quando o vento as enfunava. Contudo, os Portugueses não tinham abandonado a vela latina, indispensável para navegar contra o vento à bolina e para assegurar a rota do regresso. Haviam assim concebido a caravela de dois mastros com velas bastardas, em breve equipadas com dois tipos de panos, segundo combinações tão variáveis que não se pode estabelecer um protótipo. O mais célebre dos navios portugueses é também o que conhecemos pior.


Nos primeiros anos do reinado de D. João II, a altura do costado e da proa fora aumentada, o número de mastros elevado a três, as velas tornaram-se mais fortes e foram reforçadas com relingas, e a tonelagem duplicou. O casco tornou-se mais fino e longo, atingindo cerca de trinta metros, podendo transportar uma equipagem de mais de cinquenta homens. Havia um castelo à popa, mas nenhum à proa, com medo de dificultar as manobras. Os materiais eram escolhidos com os maiores cuidados. Desde a reconquista do território aos Mouros, os reis de Portugal tinham-no coberto de pinhais, sendo cada espécie escolhida em função das diferentes peças de um navio: pinheiro-nórdico para os mastros, resinoso para a quilha, o cadaste, a roda de proa e o costado, pinheiro-marítimo para o acastelamento. A armação do casco era de carvalho verde ou de sobreiro, sendo a impermeabilização assegurada por uma calafetagem especial. A mesma atenção era dada à qualidade do linho do velame e do cânhamo do cordame. Cascos enegrecidos com breu, velas ocres, estas caravelas, cada vez mais numerosas, navegavam ao longo da costa africana até que se afastavam para fazerem a volta do alto mar.
O «talento de bem-fazer» é também o talento de questionar os traçados dos cartógrafos, sempre enredados nos esquemas ptolemaicos,
Nota: * Trata-se do tonel português, equivalente a uma tonelada.

sempre ultrapassados pelo ritmo das descobertas. Em Nuremberga, em Florença, em Veneza, estão debruçados sobre as suas mesas de trabalho, sempre no encalço das informações que, verdadeiras ou falsas, circulam rapidamente. Usam o seu engenho para conciliarem a geografia clássica e a experiência quotidiana, «a mãe de todas as coisas», segundo Duarte Pacheco. Geralmente, Ptolemeu serve de base para o esquema inicial, que vai sendo modificado à medida que chegam novos dados. Este processo é característico de uma época em que é necessário refutar incessantemente e escolher entre dois caminhos por vezes divergentes: o do estudo da ciência dos Antigos e o que se abre às inesperadas perspectivas de um mundo doravante visível e mensurável.


Em Lisboa, portulanos, roteiros e instruções náuticas estão reunidos numa sala do paço onde os cartógrafos reais elaboram um retrato do Universo, actualizado sempre que o avanço dos navegadores permite precisar o contorno dos continentes. O rei D. João não permite que sejam divulgadas senão as imagens deformadas e pratica a desinformação e não tanto o secretismo. Não deu a Colombo medidas falsas sobre a posição do cabo da Boa Esperança? Estes valores errados encontram-se nos mapas italianos e alemães que circulam então na Europa, como o planisfério elaborado em Florença pelo cartógrafo alemão Henricus Martelius Germanus (1489), onde o ponto extremo da África Austral está desviado seis graus para sul e vinte para leste, embora a comunicação entre os dois oceanos seja, pela primeira vez, irrevogavelmente estabelecida. Martim Behaim, negociante alemão que conhece bem Lisboa, inspira-se neste planisfério para construir o primeiro globo terrestre (1490-1492). Tal como aconteceu certamente com o autor desconhecido dessa carta cosmográfica dourada «enorme e bem feita» que Jerónimo Münzer admira no paço real aquando da sua passagem pela capital (1494).
Vasco da Gama é dos que conhecem os limites exactos das explorações portuguesas, pelo menos através dos relatos dos que regressaram. Serão esses limites os mesmos que os sugeridos no mapa de Martelius, onde o contorno de África cessa bruscamente a leste do cabo da Boa Esperança, para se multiplicar depois em ilhas e penínsulas? As margens da Ásia reproduzem ainda o traçado de Ptolemeu, que já não é mais do que uma hipótese. Mas nem por isso o geógrafo

alexandrino é renegado, ainda que as reedições da sua obra tenham repentinamente cessado. Mas será preciso esperar ainda cinco anos para que as naus de Vasco derrubem as suas imagens.


Capitão mor
Os dois últimos anos da vida de D. João são marcados pela doença e pela suspeição. Desde a morte do príncipe herdeiro e do naufrágio das suas ambições castelhanas que as misérias físicas o assaltam. É invadido pela hidropisia. Parece que agora dois projectos são colocados à frente de todos os outros. O primeiro consiste em assegurar a sucessão ao trono do seu filho bastardo D. Jorge, mestre de Santiago; o segundo é a tentativa de atingir finalmente a índia, terra das especiarias e dos cristãos. Um e outro irão contribuir para que Vasco seja empurrado para os corredores do poder.
A rainha D. Leonor recusa veementemente que um bastardo seja elevado à dignidade real. Não se esqueceu da execução do seu cunhado o duque de Bragança e ainda menos do assassínio do seu próprio irmão Diogo, duque de Viseu, perpetrado pelas próprias mãos do seu real esposo. Assim, quer impor como herdeiro da Coroa portuguesa o seu irmão mais novo, D. Manuel, duque de Beja, pretendente de pleno direito.
D. João tenta afastar o príncipe indesejável, um amável jovem que, embora de sangue real, não lhe parece ter a estatura de um soberano. Incansavelmente, pede ao papa Alexandre (Borgia) a legitimação de D. Jorge, a qual lhe será sempre recusada, a pedido expresso da rainha D. Leonor e sob pressão dos Reis Católicos. O assunto acende os ânimos nas chancelarias. Enquanto o rei de França, Carlos VIII, toma o partido do bastardo régio, Fernando e Isabel fazem valer todo o seu poderio para defenderem os direitos de D. Manuel. Por intermédio de dois monges que enviam a Setúbal, suplicam a D. João que não cometa «uma coisa tão feia e de tão grande pecado». A rainha Isabel não esquece os seus laços de sangue com os duques assassinados. Assim se constitui no seio da corte um partido do estrangeiro apoiado pela nobreza ainda ofendida. D. João esforça-se por reunir em torno de D. Jorge sólidos

partidários, saídos dessa «nova geração de homens» a quem ofertou os despojos dos Bragança e dos seus aliados. Vasco da Gama está entre eles. Homem do rei e homem da Ordem, permanece fiel ao jovem mestre de Santiago.


D. Jorge tem de abandonar o palácio real, onde a rainha já não pode suportar a sua presença. Depois, é a vez de o rei passar também temporadas fora, por vezes em companhia daquele filho de quinze anos, por vezes com a rainha D. Leonor que opõe aos seus «desdenhs e friezas» um humor depressivo e obstinado. Ruma para sul do Tejo, para Évora, Alcáçovas, depois Monchique, no Algarve, onde vai a águas para tentar suavizar a morte que sabe tão próxima. É escoltado pêlos Almeida, fiéis entre os fiéis, que chega ao Alvor e a casa de seus primos Ataíde, cuja filha Vasco há-de desposar. Falece pouco depois, a 25 de Outubro de 1495.
O rei morreu, ao pôr do Sol, estava a maré vazante. Não a maré do declínio, mas a que acompanha a partida das naus. Leva a esperança do rei «para além-mar».
O testamento de D. João II entregava a coroa a D. Manuel, mas nem por isso esquecia D. Jorge, nomeado duque de Coimbra e senhor de Montemor, herdeiro do património dos príncipes de sangue. O jovem mestre de Santiago tornava-se assim o mais rico senhor do Reino. Um dos seus primeiros gestos foi para com Vasco da Gama, «em atenção aos numerosos serviços prestados ao rei meu pai - que Deus guarde a sua alma -, ao rei D. Manuel e a mim mesmo, e na esperança de que continue a prestar-no-los»*. Como recompensa, acordava a Vasco duas comendas, as de Mouguelas e de Chouparria, ambas situadas a sul do Tejo, não longe de Setúbal e de Palmela, sede da Ordem. Dava-lhe ainda todos os benefícios relacionados, dízimas, direitos e tributos. Gratidão pela fidelidade de Vasco, amizade ou admiração pela intrepidez do navegador?
Seja como for, estas liberalidades colocam Vasco da Gama no círculo de D. Jorge e do seu poderoso tutor, D. Diogo de Almeida, prior do Crato, sem o aval do qual não poderiam ter sido acordadas. As escrituras de doação designam também Vasco como fidalgo da
Nota: * Rui de Pina, cap. 81; Garcia de Resende, cap. 212, Torre do Tombo, Lisboa. Chancelaria da Ordem de Santiago, L IV do suplemento, f’”. 34-35 (17-18 Dezembro 1495).

casa de D. João e cavaleiro da Ordem de Santiago, dois títulos que não surgem no processo verbal da rixa de Setúbal. Revelam o caminho por ele percorrido desde essa época, sem nos esclarecer quanto à natureza dos seus serviços. Mas no momento em que o nosso herói vem ocupar o proscénio, o mistério que o rodeia desde sempre desvanece-se subitamente.


Se na documentação do primeiro ano do reinado de D. Manuel não subsiste qualquer menção ao nome de Vasco da Gama, tal parece ser indício de ausência e não de desgraça. A sua fidelidade a D. Jorge não é aqui posta em causa, já qe a rivalidade dinástica que havia colocado os dois príncipes em campos opostos não alterara a sua amizade. Coberto com o burel do «manto de tristeza», D. Jorge fora para Montemor após a morte do pai para prestar homenagem ao primo, que o convidara a viver ao seu lado e a dormir no seu próprio quarto.
Nomeado «capitão mor», Vasco fizera-se novamente ao mar. Não era tanto para fugir das querelas de um início de reinado mas sim para continuar a obra empreendida, aprofundar a ciência da «volta do largo» e encontrar o ponto onde correntes e tormentas empurram as naus para as ilhas das especiarias. Mas por que missões precisas? Subitamente, as informações escapam-se-nos. Será consequência do terramoto de 1755 que provoca a destruição de parte dos arquivos conservados em Lisboa? Ou da desconfiança de D. João, atiçada pelas cabalas que o rodeavam, que fez desaparecer todos os documentos dos anos posteriores a 1492?
O silêncio dos textos deu lugar à lenda, a esse «mistério de Vasco da Gama» que alguns historiadores - entre eles os maiores -julgaram poder esclarecer graças a um texto árabe de Kutub ud-Din Nahrawali (1511-1582), mencionando que «no começo do século X da Hégira [1495], entre os acontecimentos terríveis e extraordinários da época, deu-se a chegada dos Portugueses malditos, uma das nações dos Francos malditos. Um grupo deles havia penetrado no mar Tenebroso. [...] Seguiram para leste e passaram por um local próximo da costa onde [o mar] é estreito. [...] Os seus navios não puderam atracar aí e quebraram-se. Nenhum deles escapou. Os Portugueses teimaram [em enviar navios] durante algum tempo e naufragavam nesse local. [...] Continuaram a procurar informações sobre esse mar*.»

Outro texto, atribuído ao famoso navegador Ahmad Ibn Madjid, é ainda mais explícito, situando o acidente em Sofala, no canal de Moçambique: «Foi aí que os Francos se detiveram, pois, ao que parece, julgavam que a monção viria no dia da festa de Miguel. A vaga caiu sobre eles, lançando-os para o outro lado dos rochedos de Sofala. A água cobriu os barcos [...]. Navegaram durante dois anos inteiros sempre com a intenção de atingir a Índia.»* Se o documento dá a estas navegações a data de 1495-1496 (ano 900 da Hégira), a análise crítica dos textos árabes revela muitas das confusões cronológicas e topográficas que não impediram que alguns tivessem a certeza de que Vasco da Gama tinha levado a exploração do litoral da África Oriental para além de Sofala, o porto do ouro do Monomotapa. Para além de nenhuma fonte vir em apoio de tal hipótese, parece evidente, como veremos adiante, que Vasco não conhecia o canal de Moçambique quando aí se aventurou pela primeira vez em

1498, aquando da sua célebre viagem.
Poder-se-á por isso desmentir os rumores que corriam então entre os marinheiros árabes do oceano Índico?
Se se controlava em Lisboa o regresso dos navios, como poderia saber-se até onde tinham ido os que se tinham perdido? Tudo o que nos ensinam hoje as instruções náuticas para a África Austral é o fruto da experiência dos Portugueses desse tempo. Quantos naufrágios terá custado a ciência das variações da corrente do Atlântico Sul, que a maior parte das vezes se dirigia para leste, lançando as naus no coração do oceano Índico, para lá de Madagáscar e das ilhas Mascarenhas? Havia sido necessário observar o movimento dos icebergues, que por vezes subiam até o cabo entre Julho e Setembro. A entrada do canal de Moçambique era uma passagem perigosa, que a alternância das correntes só tornava acessível alguns meses por ano. Isto implicava um conhecimento empírico das datas favoráveis, que não surgiu de um dia para o outro. Os encontros relatados pêlos nossos dois textos árabes podem ter-se dado no decurso de tais aventuras, sem que possamos conhecer o destino dos extraviados - presas dos tubarões e dos ciclones ou escravos em país muçulmano?

Nada nos permite saber onde acabam as dúvidas e começam as certezas quando Castela e Portugal entram em competição aberta pela conquista do mundo. O ritmo e a extensão das viagens portuguesas tornam-se impossíveis de conhecer. A documentação dos primeiros anos do reinado de D. Manuel apresenta muitas confusões:

mapas falsos, datas alteradas, glorificação de descobertas antecipadas, omissões fortuitas ou voluntárias, mesmo nas cartas oficiais. Sejam as informações verídicas, ocultadas ou dissimuladas, nada permite estabelecer que alguma vez tenha sido definida uma «política do segredo», como por vezes foi afirmado. Mas seria uma grande ingenuidade acreditar que uma empresa tão importante quanto a descoberta do mundo tenha sido jogada com as cartas sobre a mesa e que não tenha comportado segredo algum.
O que parece certo é que, apesar dos males que o assaltam e das traições que o rodeiam, D. João II nunca renuncia a assegurar a rota que levaria para além do cabo da Boa Esperança e a aperfeiçoar as técnicas para o conseguir. Os pilotos haviam constatado que a caravela estava mal adaptada aos ventos regulares da volta do mar largo e que se ganharia em velocidade e em segurança se se lhes colocasse pano redondo e se o casco fosse mais alto, para embarcar mais homens e víveres e, consequentemente, para ir mais longe. A escolha deste tipo de navio era reveladora da experiência do Atlântico Austral, já que a vela redonda só é útil com os ventos de popa, isto é, quando o seu regime é conhecido.
Durante o ano que precedeu a sua morte, D. João tinha mandado vir grandes quantidades de madeira dos pinhais de Leiria e de Alcácer, que se amontoava à beira-Tejo. Corriam rumores da construção iminente de duas naus que iriam ser armadas para a Índia.

SEGUNDA PARTE



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