Genevieve bouchon vasco da gama



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A ÍNDIA REENCONTRADA
CAPÍTULO IV

A volta do largo
«Quantas maravilhas há! Mas nada é mais maravilhoso do que o homem. Pelo mar resplandecente, sob as tempestades do Sul, vai para além das vagas tumultuosas.»

Sófocles, Antígona
D. Manuel: o sonho de um império cristão universal
No início do novo reinado, as índias Orientais eram o objectivo declarado das expedições portuguesas. Os progressos da cartografia, uma maior difusão dos relatos dos viajantes, uma melhor coordenação das redes de informações permitiam que as terras e os mercados das especiarias fossem, pouco a pouco, emergindo das brumas do imaginário medieval. E se a palavra «índia» ainda designava tanto a Etiópia como a nascente do Ganges, o objectivo único de atingir as terras do Preste João estava agora ultrapassado.
A crescente influência dos Italianos não era estranha a este recrudescimento do interesse pelo mundo indiano. A queda dos Médici, acelerada pela ocupação de Florença pêlos exércitos de Carlos VIII (1494), provocara um novo afluxo de homens de negócios a Lisboa, atraídos pêlos mercados que as perspectivas da expansão portuguesa ofereciam. A tal ponto que o embaixador veneziano

Domenico Pisani, quando apresentou a D. Manuel as suas credenciais, ficou admirado por não ver senão genoveses e florentinos entre os residentes estrangeiros - visão errónea, é certo, mas que testemunhava o seu predomínio. Uns e outros não ofereciam ao rei somente uma contribuição financeira mas também uma experiência secular dos mercados da Ásia e uma rede de correspondentes espalhada pêlos portos do Levante. Em Lisboa, os Florentinos tinham uma excelente posição na corte: o banqueiro Bartolomeu di Domenico Marchionni, que explorava o açúcar da Madeira e os mercados de escravos da Guiné, tornara-se uma das personagens mais influentes do Reino.


Os laços privilegiados estabelecidos entre Itália e Portugal não eram apenas comerciais. Desde a viagem do infante D. Pedro a Veneza e à Toscana, havia mais de sessenta anos, que os sábios italianos estavam ligados à corte portuguesa por um contínuo intercâmbio cultural. D. Afonso V e seu filho D. João II tinham ambos recebido o ensinamento de Mateus di Pisani e dos seus émulos. Os dois soberanos nunca cessaram de enriquecer a biblioteca real de manuscritos e de livros preciosos. D. João convidara o escultor florentino Sansovino e o miniaturista Attaventi a trabalharem para si. Tinha igualmente encomendado a Leonardo da Vinci o desenho de um reposteiro de seda e ouro representando as pradarias do Paraíso, que seria tecido na Flandres.
Nas famílias nobres estava na moda dar aos filhos professores italianos, tais como o latinista siciliano Cataldo, que foi preceptor de D. Jorge, de D. Manuel e dos filhos da família Noronha-Meneses. Os futuros juristas iam estudar Direito em Bolonha, enquanto outros adolescentes se iniciavam nas humanidades em Florença, como os dois filhos do chanceler Teixeira, que foram alunos de Angelo Poliziano. As filhas não eram excluídas desta corrente de cultura que ligava estreitamente a aristocracia portuguesa à Itália do Renascimento. O que passava neste intercâmbio não exprimia apenas a mensagem dos Antigos, mas os ecos de uma tradição cultural virada para o Oriente, onde a Índia ocupava uma posição de prestígio.
«As gentes da Índia são o maior povo do mundo {Quelli d’índia sono La maggior gente del mondo)», afirmava já Brunetto Latini (c. 1220-1294), que foi o mestre de Dante. O seu ilustre aluno cantaria as águas do Ganges, um dos rios sagrados do Paraíso, e as quatro estrelas

do Cruzeiro do Sul, que assinalavam o berço da humanidade. Petrarca maravilhava-se com o prestígio dos seus sábios e com a sua luxuriante vegetação. A índia estava bem presente no fervilhar de ideias que tinha tomado conta de Florença no século XIV, muito antes do regresso de Marco Polo. Não cremos de forma alguma que estas referências literárias tivessem sido esquecidas dois séculos mais tarde, nos meios toscanos de Lisboa. Encontramo-las nos lábios dos seus agentes, que as citavam de memória, com um lirismo surpreendente para homens de negócios. De facto, em Florença, um apurado sentido dos negócios andava a par com uma tradição poética florescente.


Os povos de Itália jamais se esqueceram da recordação dessa índia fabulosa descoberta pela primeira vez pêlos seus antepassados romanos, quando os navios do Império iam regularmente, pêlos portos do mar Vermelho, para a costa malabar trocar ouro por pimenta. Também não se haviam esquecido do caminho. Como já referimos, ao longo da Idade Média, mercadores e missionários não tinham nunca cessado de se dirigir para aí por via terrestre, regressando por vezes. Nos últimos anos do reinado de D. João, o veneziano Benvenuto di Abano estabelecera-se aí, como certamente muitos outros, misturados com a multidão dos mercadores orientais, enquanto o bolonhês Ludovico di Vartema e os genoveses Girolamo Adorno e Girolamo da Santo Stefano calcorreavam esses distantes caminhos. A índia era cada vez mais bem conhecida nos meios de negócios de Veneza, Florença e Génova, mas ao inventário já preciso das suas produções sobrepunham-se os dados obsoletos dos textos antigos e medievais continuamente editados. As descrições fantásticas provinham de um conjunto de informações e de reminiscências transmitidas de boca em boca ao longo do imenso trajecto das caravanas. Graças à tradição oral, tais descrições chegavam também do Magrebe e dos portos de escala venezianos dos Balcãs, divulgadas pêlos mercadores judeus e árabes que se encontravam em Marrocos ou que tinham fugido de Granada.
Se a Índia andava nas bocas do mundo nesse final do século XV, a sua imagem era ainda a de um país do qual só há rumores. Existiria aí realmente uma terra cristã? Não seria antes um antro de demónios onde se adoravam ídolos de tripla dentadura e de rosto sangrento? Haveria aí realmente homens com cabeça de javali e homens sem cabeça com

olhos sobre os ombros e a boca no peito, monópodes cujo pé era tão grande que servia de guarda-sol? O que pensar desses seres híbridos do bestiário, metade leões metade cavalos, burros com corpo de veado cujas imagens os gravadores alemães se compraziam em difundir?


Não há dúvidas de que estes sonhos dos letrados, ainda que andassem a par com os mui mercantis projectos dos residentes italianos em Lisboa, permaneciam estranhos ao mundo de Vasco da Gama. Cavaleiros e navegantes não queriam senão encontrar «honra e proveito» no mar oriental. Mas o clima em torno de uma Índia mítica permitia essa fusão dos interesses e dos ideais que dá o seu impulso às grandes empresas. Tanto mais que uns e outros iam ao encontro do grande sonho da cruzada, ainda vivo na Península Ibérica, ainda mobilizado pelo espírito da reconquista e pêlos fugazes surtos da guerra com Marrocos.
A personalidade do rei D. Manuel actuará como um catalisador sobre todas estas tendências difusas. O novo monarca não se deixa ofuscar com o concurso de circunstâncias que o fez ascender ao trono. Vê aí o sinal da vontade de Deus, ainda que um crime de sangue esteja na origem do seu destino. Viu morrer os cinco pretendentes que o separavam da coroa, incluindo o seu irmão mais velho, Diogo, assassinado pela mão de D. João. Não se atribui a um «mistério divino» a obstinação da rainha D. Leonor em afastar o bastardo D. Jorge? D. Manuel vê aí a justificação do seu direito à herança espiritual do «virtuoso infante» D. Henrique, a quem Deus revelou o «maravilhoso mistério» escondido a todas as outras linhagens. Os seus conselheiros íntimos comprazem-se em confirmar as suas convicções. Entre eles está Duarte Galvão, que foi o braço direito de seu avô e de seu pai, antes de se tornar o seu. Este considera-se como o guardião da tradição messiânica da família real.
D. Manuel tem vinte cinco anos e uns braços desmesurados que lhe dão um ar simiesco. O seu reino é minúsculo, mas não será isso um indício do Todo-Poderoso que dá aos mais fracos a força da sua graça? Tudo incita o jovem rei a crer-se predestinado para uma missão excepcional, com que toda a cristandade sonha: o extermínio do poderio do islão e a instauração de um império cristão universal de que será o chefe supremo. E a realização da ordem do mundo a que tinha aspirado a tradição medieval, tradição de universalidade herdada

do Império Romano, avivada pelo proselitismo da Igreja e pela recente difusão dos feitos de Alexandre e de César. Os reis de França e de Inglaterra, que outrora haviam conduzido as Cruzadas, os imperadores romano-germânicos, os duques de Borgonha tinham alimentado essa ambição. Esse sonho era agora ao rei de Portugal que cabia realizá-lo, já que os seus navios tinham atingido a entrada do mar oriental, o mar que banha as margens da Etiópia e dos reinos «cristãos» da Índia.


Para todas estas cabeças coroadas, o domínio do comércio das especiarias não era mais do que o meio de arruinar o ímpio sultão do Cairo e de financiar a nova cruzada. Mas outros viam aí sobretudo uma via aberta para acederem directamente à própria fonte das riquezas da Ásia. Os negociantes italianos de Lisboa não desencorajavam D. Manuel de levar a cabo o seu messiânico desígnio. Em caso de êxito, não se veriam todos os mercadores da Europa afluírem a Portugal e desertarem de Veneza? A Sereníssima República sabia pêlos seus espiões o que estava a preparar-se, mas de forma alguma se inquietava. Era senhora absoluta do mercado das especiarias no Egipto e no Levante, apesar das afrontas que o sultão do Cairo não poupava aos seus agentes, que por vezes eram postos a ferros por não terem aceite os seus preços.
Ninguém reparou em Vasco no decurso do ano de 1496. Talvez tenha embarcado na Primavera depois de ter tomado posse das comendas que D. Jorge recentemente lhe acordara. Talvez não tivesse lugar numa corte onde triunfavam os partidários do novo rei, uma corte da qual tinha sido afastado por ausências demasiado longas e cujas intrigas ocultas conhecia mal. Como todos os seus contemporâneos, não gostava do mar, mas tinha-se acostumado de tal forma ao seu ritmo que se revia nele inteiramente. Não podia passar sem o som das velas, o estalido das madeiras, os aromas das algas e do breu e, sobretudo, sem o esgotante combate pela sobrevivência, pois só ele podia calar a sua impaciência. Devia ter cerca de trinta anos, e a vida era tão curta! «Capitão de frota», iria continuar para sempre a investigar as costas, a perscrutar as estrelas, a domar as correntes, quais cavalos selvagens? Não receberia em troca senão «enfermidades e penas mal pagas», como dizia Duarte Pacheco? Não seria daqueles que haveriam de encontrar a grande rota da Índia?

É provavelmente durante o Inverno de 1496 que Vasco surge novamente no círculo do rei. Já não encontra indícios dos «trajos de nojo» nem dos rostos barbudos e cabeludos que marcaram o luto de D. João, quando o conselho da cidade de Lisboa proibiu que todos os barbeiros fizessem barbas e cortassem cabelos durante seis meses. A corte regressou às suas violas e aos seus mexericos. Fala-se do futuro casamento do rei com uma infanta de Espanha. D. Manuel mandou chamar os seus primos Bragança e os nobres do seu partido exilados em Castela. Denigre-se o defunto monarca, tanto mais que se conhece a pretensão de D. Manuel de atribuir a si a honra das descobertas de maior prestígio, mesmo as que ainda não aconteceram. O defunto rei não explorou senão costas desertas, esparsamente povoadas de miseráveis pescadores negros, apenas preparou expedições que custaram mais do que renderam. Quando muito um pouco de cobre do Congo e um pouco mais de marfim e escravos. O jovem rei demarca-se do seu predecessor e põe em prática o projecto que este último preparava com tanta prudência.


Nos estaleiros do Tejo, crescem a olhos vistos as ossadas de duas naus para as quais D. João mandou vir as melhores madeiras do Reino. Bartolomeu Dias vela pela sua construção. D. Manuel ouve os seus conselhos, consulta matemáticos e cosmógrafos. Diz-se mesmo que convocou em segredo o mais sábio de entre eles, esse Abraão Zacuto que D. João tinha recebido aquando do êxodo dos judeus de Espanha. Tinha acabado de publicar o Almanach Perpetum*, o indispensável guia de navegação para o Atlântico Sul, quando a tempestade desabou sobre ele, tal como aconteceu com todos os judeus de Portugal: o édito de 1496, que expulsava todos os que recusassem o baptismo.
Esta medida imprevisível havia sido tomada apesar das advertências do Conselho Régio e da atitude tolerante do papa Alexandre Bórgia, que permitia que os soberanos cristãos albergassem judeus sem que estes tivessem de renunciar à sua fé e à sua cultura. Os Reis Católicos constituíam uma excepção, mas D. Manuel queria agradar -lhes, a fim de que lhe dessem a mão da infanta Isabel, que só aceitaria entrar em Portugal se todos os judeus tivessem partido.
Nota: * Publicado em Leiria em 1496.

Tinham oito meses para o fazer, com as suas mulheres e os seus bens, mas tinham de deixar em Portugal os filhos menores de catorze anos, que foram dispersos por todo o País para serem educados na fé cristã a expensas da Coroa. Os choros, os suicídios colectivos, a indignação de alguns prelados, nada demoveu D. Manuel. No Quasímodo de 1497, algumas famílias haviam aceite o baptismo, para que os filhos não lhes fossem tirados. É certo que, num compromisso tácito, o rei iria fechar os olhos nos vinte anos seguintes quanto às sobre vivências dos cultos judaicos, não existindo então em Portugal a Inquisição enquanto instituição. Muitos deles embarcaram para a Flandres, o Império Otomano e o Magrebe, como Abraão Zacuto, que depois de muitas atribulações morreria em Damasco em 1522. Muitos convertidos iriam procurar fortuna na índia, onde os encontramos frequentemente. Quanto aos muçulmanos, inicialmente englobados no mesmo édito, viram os filhos ser poupados, por receio de represálias dos países islâmicos.


Os preparativos da esquadra da Índia constituem uma diversão ao clima que reina em Lisboa após estes dramáticos incidentes. Contribuem para engrossar o número daqueles que murmuram ser uma loucura acreditar-se estarem ao alcance as riquezas espalhadas por um mundo oriental do qual nada se conhece. Onde encontrar os braços para tal tarefa, neste povo de um milhão de almas todos os anos dizimado pela peste? No final de 1495, quando as Cortes reunidas em Montemor-o-Novo debateram a oportunidade de procurar o caminho marítimo para a Índia, a maioria dos votantes tinha-se pronunciado contra. É que se para a conquistar eram necessários grandes sacrifícios, para a manter haveria que fazer muitos mais. Ao evocarem-se os problemas que haviam surgido aquando da descoberta das Antilhas, estava a exprimir-se o receio de reavivar as pretensões de Castela sobre todas as novas terras e de excitar a inveja dos outros reinos cristãos. Mas D. Manuel só queria ouvir as opiniões conformes aos seus desejos. Certos grupos opunham-se à vontade do rei por razões diversas onde nem o rancor nem a saudade do reinado anterior estavam ausentes. Vasco mantêve-se à margem de quaisquer conspirações. A sua impaciência conciliava-se bem com a de D. Manuel.
Esperando um sinal do destino, Vasco vagueia pêlos paços reais, por Sintra nas galerias brancas pavimentadas a azulejos, ao longo das

muralhas de pedra calcária do velho castelo de Lisboa. É em Estremoz que D. Manuel o encontra, caminhando pela sala onde a mesa já está posta para o jantar. Ao olhar Vasco, o coração do rei tem um sobressalto. Não será este o capitão-mor de que anda à procura? Faz-lhe sinal e, quando Vasco põe um joelho em terra, diz-lhe:


«Muito me aprouvera encarregar-vos de uma missão onde muito penareis.» Responde-lhe Vasco: «Já tenho a minha paga, pois me quereis ao vosso serviço, pelo que vos ficarei grato toda a vida.» Ao longo da refeição, D. Manuel precisa que a sua tarefa é embarcar imediatamente nas naus que estão quase acabadas. Depois do jantar, chama Vasco à parte e pergunta-lhe se tem um irmão, já que se recorda do que Abraão Zacuto lera nos astros: dois irmãos conduzirão as naus de Portugal para as costas da Índia. Vasco declara que tem três e exalta as qualidades do irmão mais velho, Paulo, que o tornam ideal para comandar a frota. Mas acrescenta - o que é algo de surpreendente - que Paulo está a sofrer uma pena de exílio por ter ferido um juiz em Setúbal*.
Tal é a versão mais romanesca de um encontro que se pretende providencial. Terá sido realmente fruto do acaso ou o resultado de alguma manobra secreta? A alusão ao incidente de Setúbal convida a interrogarmo-nos. É que foi Vasco e não Paulo quem esteve envolvido numa violenta altercação com as autoridades locais, como já referimos. Mas era de mau tom confessá-lo, especialmente para um cronista que escreveu meio século mais tarde, quando Vasco se tornara um herói nacional - um atentado à honra de uma poderosa família.
Uma outra crónica inverte a ordem das propostas, o que parece mais verosímil: D. Manuel teria inicialmente escolhido Paulo, que teria desistido a favor do irmão. Teria alegado uma saúde frágil, que não lhe permitia assumir a responsabilidade de uma expedição demorada, propondo simultaneamente acompanhar e aconselhar Vasco. Destes relatos contraditórios podemos reter um facto. D. Manuel desejava contratar Paulo e Vasco da Gama”, esses fidalgos de fresca data cuja lealdade para com a coroa nunca fraquejara e cujas ligações com a Ordem de Santiago poderiam revelar-se preciosas. Era também
Nota: * Gaspar Correia, Leds. /l, pp. 42-43.

** Castanheda, História, 1/2.

respeitar a vontade de D. João, que outrora havia pensado em Estêvão, pai de Paulo e Vasco, para comandar a primeira frota da Índia, antes de a morte os ter levado a ambos.
Seja como for, D. Manuel sentiu-se atraído, tal como acontecera com D. Jorge, por esse indómito capitão que todos diziam obstinado, «audaz na acção, severo no comando e terrível na sua cólera». Consultado o Conselho Régio, este aprovou a escolha deste «solteiro em boa idade para suportar os rigores de tal viagem». Era também um navegador experimentado, que sabia ter mão sobre a marinhagem, capaz de ir até ao fim de uma aventura. O que importava a rixa de Setúbal? Não tinha Vasco conquistado os favores do rei desde então, graças aos seus serviços no mar, dos quais tinha escrupulosamente dado contas?
Podemos igualmente pensar que a escolha de D. Manuel se deveu a um cálculo político. Ao escolher um capitão que os seus amigos relacionavam com os contestatários, pensava que, em caso de êxito, estes ficariam desarmados e reduzidos ao silêncio. Mas era preciso andar depressa e colocar a oposição perante o facto consumado. Vasco foi solenemente investido como comandante da frota da Índia no castelo de Montemor-o-Novo, com os dois capitães nomeados por D. Manuel para o acompanharem: seu irmão Paulo e o amigo de ambos Nicolau Coelho, cavaleiro da Casa do Rei. De joelhos, prestou juramento sobre a bandeira de seda com a cruz da Ordem de Cristo. Foram-lhe então dadas instruções e algumas cartas, cartas escritas em árabe, destinadas aos príncipes desconhecidos dos mares orientais.
Os três capitães foram imediatamente para Lisboa, para Alcântara, a fim de vigiarem os preparativos da partida. Nas águas cintilantes do Tejo erguiam-se as silhuetas maciças de duas naus de alto bordo e de casco arredondado, o castelo da popa dominando o da proa. Não mediam mais do que vinte metros de comprimento, tendo cada uma capacidade para cem toneladas. Os trabalhadores estavam a terminar a preparação do cordame em torno dos três mastros de cada uma. De acordo com os desejos de D. João, tinham sido postas sob a protecção de dois arcanjos cujas figuras de proa estavam quase pintadas*. Vasco da Gama iria comandar a São Gabriel, e Paulo, a São Rafael. Para completar
Nota: * A da São Rafael está conservada no Museu de Marinha de Lisboa.

a esquadra, D. Manuel comprara uma terceira nau de cinquenta toneladas, a Bérrio, do nome do piloto que a vendera, e que seria comandada por Nicolau Coelho. O rei tinha igualmente comprado a um armador de Lisboa um barco maior, destinado aos víveres, e equipamento para três anos, o qual foi confiado a Gonçalo Nunes, um veterano do Atlântico.


Nas docas atravancadas com tonéis, velas e cabos, o carregamento era supervisionado pêlos amanuenses da Casa da Mina* e pêlos escrivães dos navios: Diogo Dias, irmão de Bartolomeu, da São Gabriel, João de Sá da São Rafael e Álvaro de Braga da Bérrio.
Pouco antes da partida, Vasco demonstrou pela primeira vez esse espírito de família que era um traço marcante do seu carácter. A 15 de Junho, escreveu pelo seu punho a Diogo da Gama, seu primo, que o rei tinha boamente concordado que embarcasse com ele, bem como a outro parente, de nome Bastião. Assim, quatro membros do clã dos Gama participaram na descoberta do caminho marítimo para a Índia.
Nos primeiros dias de Julho, a frota foi equipada com velas quadradas e latinas, de acordo com uma combinação de que documento algum guardou memória. Foram içadas para bordo pequenas peças de artilharia. Seguidamente, a frota ancorou no Restelo, bairro de Lisboa onde se erguem hoje a Torre de Belém e o Mosteiro dos Jerónimos. Aí se lhes juntou a caravela de Bartolomeu Dias, a quem o rei tinha pedido que acompanhasse os irmãos Gama até Cabo Verde, de onde rumaria para São Jorge da Mina. A praia do Restelo era o local tradicional de partida dos navios de descoberta, «praia de lágrimas para os que se vão, local de alegria para os que regressam».
A 7 de Julho, ao fim da tarde, é a vez de Vasco e das suas equipagens - de cento e vinte a cento e setenta homens, consoante as fontes

- se dirigirem para aí, para uma vigília. Oraram toda a noite na Ermida de Nossa Senhora de Belém, fundada pelo infante D. Henrique para administrar os sacramentos aos marinheiros de partida. No dia seguinte, 8 de Julho, dia consagrado à Virgem Maria, mal entra a madrugada, o povo de Lisboa começa a afluir ao local. Os mareantes saem em procissão, vestidos com uma túnica sem mangas e segurando


Nota: * Casa de comércio da Coroa, onde se tratavam dos assuntos da Guiné e do além-mar no geral. Em 1509, passaria a chamar-se Casa da Índia.

na mão um círio aceso. Vasco e os seus capitães vêm na frente, seguidos pela multidão, que responde às ladainhas cantadas pêlos freires da Ordem de Cristo. Chegados aos batéis de embarque, todos se calam e ajoelham na margem para uma confissão geral em voz alta, após o que recebem a absolvição de acordo com as bulas pontifícias que o infante D. Henrique conseguira obter para os que morriam no mar. A mutidão não esconde as lágrimas, de tal forma crê perdidos para sempre os que embarcam.


As velas são desfraldadas. A manobra é longa, ritmada pêlos assobios e pêlos címbalos. De acordo com o costume, os marinheiros gritam «boa viagem», o punho levantado para o céu. A bandeira real é içada no mastro grande, e as cinco embarcações descem lentamente o Tejo, seguidas por uma multidão chorosa que entra dentro de água para ver por mais tempo aqueles cujo regresso ninguém ousa esperar. «Os navegantes, dado que com o fervor da obra e alvoroço daquela empresa embarcaram contentes, também passado o termo do desferir das velas, vendo ficar em terra seus parentes e amigos, e lembrando-lhe que sua viagem estava posta em esperança, e não em tempo certo nem lugar sabido, assim os acompanhavam em lágrimas como em pensamento das cousas que em tão novos casos se representam na memória dos homens. Assim que uns olhando para a terra e outros para o mar, e juntamente todos ocupados em lágrimas e pensamentos daquela incerta viagem, tanto estiveram prontos nisso, até que os navios se alongaram do porto*.»
Pela frente, têm o vento que seca e queima as lágrimas, o Sol ofuscante reflectido na espuma da barra. Nos confins do estuário, a multidão contemplará durante muito tempo a largada a todo o pano da frota dos santos arcanjos.
Nota: * João de Barros. 1/4, cap. 2.

O «abismo»
«Ficava-nos também na amada terra O coração, que as mágoas lá deixavam;

E já despois que toda se escondeu, Não vimos mais enfim que mar e céu.»

Camões, Os Lusíadas, V, 3


Para transpor os baixios da barra havia que esquecer as emoções. Todos se afadigavam, cada um no seu posto. Barretes altos e gibões vermelhos subiam pêlos mastros, qual bando de pássaros. De pé em frente da entrada da alcáçova, o pavimento superior do castelo da popa, Vasco repetia os gestos e as ordens de um itinerário já tantas vezes percorrido. Confiava na sua própria experiência. O seu título de capitão-mor dava-lhe o comando supremo de toda a frota, um direito de justiça absoluto, o encargo da disciplina e da execução dos castigos, tudo coisas cujo exercício lhe aprazia. Responsável pela escolha das rotas e das escalas, pela condução das operações militares e diplomáticas, a sua autoridade era limitada pelo conselho dos capitães que devia ser reunido antes de qualquer decisão.
Os pilotos eram os verdadeiros mestres da navegação, escolhidos entre os mais experimentados do Reino. Pêro de Alenquer, que havia sido o primeiro a dobrar o cabo da Boa Esperança com Bartolomeu Dias, estava a bordo da nau capitânia; Pêro Escobar, o companheiro de Diogo Cão, conduzia a Bérrio, e João Coimbra, a São Rafael. Estas prestigiadas personagens usavam colar e apito de ouro sobre a capa de veludo negro. Cada um deles dispunha ainda da tolda, que era também a maior divisão do castelo da popa, onde se encontravam os astrolábios, as bússolas, os mapas e as tabelas de navegação.
Sob as ordens do piloto, Gonçalo Álvares, o mestre da marinhagem, comandava os marinheiros profissionais, repartidos em quatro grupos, cada um dos quais responsável por um quarto do navio. O lançamento do cordame, o bombeamento e outras tarefas desprezíveis eram realizados por marinheiros improvisados - órfãos, marginais, escravos africanos -, atraídos pela promessa de um bom soldo. Sujeitos às mais duras corveias, eram estes os mais frágeis, desde

logo desesperados pelas náuseas e vertigens de um horizonte em contínuo movimento que só podia assinalar a entrada do Inferno. Eram tão ignorantes das coisas do mar que lhes era proibido subir aos mastros, e tiveram de se colocar réstias de alhos e de cebolas a bombordo e a estibordo para lhes permitir reconhecê-los. Dormiam no convés, sem outra protecção que não algumas peles de cabra. Os homens de armas - arqueiros, bombardeiros e besteiros - eram mantidos em reserva para eventuais combates ou para servirem nas poucas bombardas e falconetes embarcados com os bota-fogos, os escovilhões e os potes de grés onde se preparava a pólvora. Os seus alojamentos situavam-se na coberta e não participavam nas manobras de bordo.


Os companheiros de aventura observavam-se mutuamente. Alguns indivíduos mantinham-se à parte: os intérpretes Fernão Martins e Martim Afonso, sem dúvida mouros convertidos que falavam correntemente o árabe, ou talvez portugueses que o tinham aprendido por terem sido escravos em Marrocos. Mais marginais eram os degredados, uma dezena de condenados de direito comum aos quais se dava uma oportunidade de escaparem ao enforcamento se realizassem missões perigosas.
No total, havia apenas quarenta homens por navio, todos muito jovens, alguns ainda mal saídos da infância. Cada navio era um microcosmo, onde todas as funções vitais tinham de ser realizadas num espaço restrito. Os artesãos eram recrutados em duplicado, para o caso de um deles morrer: carpinteiros, calafates, ferreiros e tanoeiros asseguravam a manutenção do navio. O barbeiro fazia sobretudo as vezes de físico, já que a água doce era tão escassa que só se fazia a barba nas escalas, ainda que tal hábito rapidamente se perdesse;
sangrava e administrava os clisteres, aconselhado pelo capelão que tinha em seu poder o cofre dos remédios e tratava dos ferimentos quotidianos causados pelas quedas, pelas vergastadas e pêlos acidentes provocados por cordas e cabos. Dominicanos ou franciscanos, os religiosos embarcados não só asseguravam a assistência aos doentes e a celebração dos sacramentos, também procuravam distrair as equipagens à beira do desespero. Era também este o papel dos músicos que acompanhavam o canto dos manobreiros tocando címbalos e tambores.

Mapa: Mapa dos ventos estabelecidos a partir do mapa do Almirante Gago Coutinho

O vento norte enfunava as velas, esse vento que todos os anos os navios de África seguiam. A nau capitânia, os mastros rangendo, navegava docemente levada pela ondulação verde-escura, como se sob ela se escondessem florestas naufragadas. Rodeado de imagens familiares Vasco interrogava-se sobre as circunstâncias da sua partida. O rei tinha querido fazer as coisas rapidamente, sem ter em conta o que se sabia das variações sazonais. De facto, embora fosse aconselhável partir em Julho para a Guiné, era necessário calcular o tempo passado no Atlântico para dobrar o cabo da Boa Esperança durante o Inverno austral, a fim de não haver encontros com icebergues que subiam do pólo sul por vezes até Outubro. O que sabia das correntes e dos ventos para além desse local? Vasco ouvira dizer que a data da partida fora escolhida por Deus, que deveria ocorrer o mais cedo possível após a coroação de D. Manuel, «que tudo o que ele queria se situava numa perspectiva que nos permanecia oculta». Cabia ao capitão-mor adaptar-se às condições materiais que permitiriam desvendar aquele mistério.
Vasco não ignorava que a data daquela precipitada partida, ditada pelas exigências de uma missão carismática, devera-se igualmente à preocupação do rei de dominar os contestatários. D. Manuel não assistira à cerimónia da partida. Fora ele quem armara os navios, mas os mercadores italianos nada investiram, numa expectativa prudente dos resultados. Acreditar-se-ia verdadeiramente naquela missão? O clima de cepticismo que tinha acompanhado o encaminhar de um desígnio grandioso sublinhava o lado irrealista da empresa. Vasco não procurava senão «honra e proveito» na descoberta do caminho marítimo para a Índia. E se pedia a Deus que o guiasse, sabia que o «talento de bem fazer» lhe permitiria realizá-lo.
A bordo da São Gabriel, a vida organiza-se. Diogo Dias, o escrivão, acumula as tarefas de secretário e de intendente. É ele que possui a chave do compartimento dos víveres. Na penumbra do porão, gatos e doninhas perseguem os ratos, rodeados por tonéis de vinho e de azeite, de biscoitos e de feijão, potes de mel, caixas de açúcar e de carne seca. Trata-se somente de uma reserva para algumas semanas que, em cada uma das escalas, deverá ser renovada com as provisões do navio de abastecimento. Calculou-se que estas se esgotarão após a passagem do cabo da Boa Esperança. Mas se

Diogo Dias, seguro da experiência de seu irmão, sabe que se encontrará água e gado nas margens da África Meridional, o que sucederá depois disso? Que desventuras do mar, que desertos insuspeitos condenarão então a tripulação a morrer à fome?


Entretanto, há que velar pela distribuição da ração, dada diariamente de uma só vez. Cada homem do mar recebe uma canada de vinho, isto é, um pouco mais de um litro, enquanto os homens de armas têm de se contentar com metade, já que não estão a combater. Os tonéis de água doce estão colocados em torno do mastro grande. A carne foi embarcada viva e cacareja e bale sob a ponte: aves de capoeira, cabras e ovelhas serão degoladas à medida das necessidades. As grandes ondas lavarão o sangue dos sacrifícios. A ração quotidiana é de um arrátel (325 gramas) por homem e igual quantidade de biscoito. Quanto ao resto, cada um recebe mensalmente a sua própria reserva, que gerirá como quiser: um litro de manteiga salgada, um arrátel de açúcar, meia canada de azeite e outro tanto de vinagre. Um apito do mestre indica a hora da refeição, a qual não é regular, devido aos caprichos do tempo. O mar está calmo e os homens apertam-se em torno dos tachos colocados sobre fogueiras que não podem nem lançar chispas nem apagar-se. Cada um cozinha a sua própria pitança, exceptuando os capitães e os notáveis do navio que levaram consigo os seus lacaios. Após alguns dias de viagem, há que estar atento às discussões que não deixarão de eclodir por causa de um pedaço de carne ou das negociatas das rações vendidas por aqueles que sofrem de enjoo àqueles a quem o mar estimula o apetite. Todos os lugares são disputados. Sob o sol abrasador, procura-se a sombra de uma vela, a doce frescura de um recanto ou o melhor abrigo para dormir.
Cai a noite. Aos acordes do Salve Regina, começa o quarto de prima. Vasco conta os navios da sua frota que navegam entre duas linhas de espuma, as velas enfunadas ao vermelho do Sol poente. Têm de navegar de conserva e atirar dois tiros de bombarda, sempre que a areia das ampulhetas chegou ao fim, e estas têm de ser viradas.
A 15 de Julho, uma semana após a partida, a frota avista as Canárias, a oeste de Lançarote. No dia seguinte, pesca-se durante duas horas, depois da oração cantada de madrugada. A bordo da São Rafael, um homem toma notas, primeiro esboço de uma relação de viagem, a única cuja cópia sobreviverá aos séculos para chegar até nós*.

Quem é ele? Como quase todos que relataram as peripécias de uma viagem de descoberta, não revela a sua identidade, sem dúvida porque é então de mau tom assinar o seu relato quando não se recebeu incumbência do rei para tal. Ainda que o número de letrados seja restrito entre os navegantes, nada nos permite identificá-lo. Alguns propuseram o nome do escrivão João de Sá, outros o de um certo Álvaro Velho, cujas funções permanecem desconhecidas, mas que está presente na maior parte das situações em que o autor se coloca em cena. Assim, para maior comodidade, designá-lo-emos pelo nome de «Navegador Anónimo», salientando ainda que também não sabemos a quem se destinava a sua relação. Talvez fosse um degredado, um religioso culpado de um crime e que escrevia a fim de se fazer notar na euforia de um eventual regresso. Vã esperança essa, pois o relato termina no dia 25 de Abril de 1499, muito antes da última escala na ilha de Santiago, em Cabo Verde. Terá o autor morrido ou terá sido incumbido de outras funções?


Por agora, 17 de Julho de 1497 de manhã, a São Rafael está rodeada por nevoeiro. Não se consegue ver nada para além da espuma lívida que fervilha sob a roda de proa. O sinal das bombardas não encontra eco. Os outros navios dispersaram-se durante a noite. Todos têm instruções para esperar no arquipélago de Cabo Verde. Seis dias mais tarde, a São Rafael dobra a primeira ilha, a do Sal, e Paulo da Gama avista imediatamente a Bérrio, a embarcação dos víveres e a caravela de Dias. Procura em vão a nau de seu irmão. O vento caiu sobre um mar imóvel que cintila como uma placa de estanho. Precisará de três dias para se reunir à nau capitânia, que leva cinco léguas de avanço. Só a 26 de Julho, ao fim do dia, é que encontram o seu capitão-mor. Todos rejubilam e fazem-se ouvir os tiros das bombardas e as trombetas.
No dia seguinte, a frota lança âncora, a fim de permanecer uma semana na ilha de Santiago. Na praia de Santa Maria, carrega-se a carne, a água e a lenha e reparam-se as vergas. É graças a esta escala que capitães e pilotos se concertam uma última vez com Bartolomeu Dias. Nomeado para a feitoria de São Jorge da Mina, ocupará o seu
Nota: * Certamente não terá sido a única. O cronista Gaspar Correia afirma ter consultado outra relação de viagem muito deteriorada, que atribui a um certo João Figueira (I/1, p. 134).

cargo dentro de alguns dias. Mas poderá a honra deste cargo alguma vez igualar a da descoberta da rota da Índia? O que venceu em primeiro lugar o cabo da Boa Esperança terá de deixar outro acabar a sua obra e seguir mais além.


A 3 de Agosto, todos se fazem à vela, com Vasco à cabeça Deixam-se levar pêlos últimos ventos de nordeste ao longo da Costa da Malagueta, até encontrarem a barreira dos ventos de sudeste, que nesse mês se encontra no seu mais alto limite setentrional, tornando impossível qualquer avanço para o Sul. A caravela de Bartolomeu Dias, que navega à bolina, separa-se da frota para seguir para Guiné. O velame redondo das naus não pode fazer mais do que seguir o vento e correr pela altura. Vira para sudoeste, descrevendo assim a maior volta da história.
Esta proeza naval é um marco para o futuro da expansão portuguesa, pois abre simultaneamente a rota da Índia e a do Brasil Testemunha o conhecimento que Vasco da Gama, Pêro de Alenquer e Pêro Escobar tinham do mar Tenebroso, esse deserto de água cinzenta onde não sabiam ainda medir a longitude e onde apenas a navegação astronómica os guiava segundo a latitude. É a ciência náutica dos homens de hoje que permite avaliar a dimensão da sua enorme volta. Estudando o regime dos ventos que sopram nesse período do ano, reconstituíram o único itinerário que as naus podiam seguir:
Os textos da época nada nos dizem quanto a este ponto. A relação do Navegador Anónimo é interrompida a 22 de Agosto, sendo retomada apenas a 27 de Outubro, quando a frota atinge as proximidades di cabo da Boa Esperança.
Tal silêncio explica-se pela tradicional discrição das gentes di mar e pela sobriedade dos relatos da época. A moda da história «trágico-marítima» só surgirá mais tarde. Evitava-se assim falar da rota aos Castelhanos, que teimavam em procurar as portas da Ásia através das ilhas das Antilhas, que continuavam a descobrir e a que davam nome de infantes. Indecifráveis pela marinhagem, os segredos da volta do Atlântico Sul foram tão bem guardados pêlos pilotos que Américo Vespúcio, ainda que bem informado, afirmava em 1500 que Vasco da Gama tinha atingido a índia navegando ao longo da costa africana.
Para além da impossibilidade de ultrapassar os obstáculos da

navegação costeira, havia vantagens em fazer-se a volta do largo que

se curvava desde a Serra Leoa até o cabo da Boa Esperança, passando ao largo da costa do Brasil. A rota mais longa no espaço era a mais curta no tempo. Evitava simultaneamente a temível zona de calmaria do golfo da Guiné, que podia imobilizar os navios semanas a fio, e o labirinto das correntes da costa meridional que tinha obrigado Bartolomeu Dias a descrever uma grande curva para dobrar o cabo. A volta do largo permitia também vigiar eventuais incursões castelhanas no domínio marítimo português.
Assim, a frota dos arcanjos deixou o mundo dos vivos para navegar no «grande abismo», como se chamava então ao alto mar. Tal significava viver mais de três meses navegando entre os alísios de um e outro trópico, depois nas gélidas borrascas do hemisfério sul, sem outra paisagem que não a das montanhas de água em movimento, a sombra das nuvens e do velame sobre a água cintilante. Era não ouvir senão o clamor do vento, os rangidos da madeira e as vibrações das velas. Era a atenção constantemente despertada pêlos apitos do mestre, pêlos batimentos do tambor que ritmavam as manobras. Era proteger-se das guinadas, das ondas gigantescas que ultrapassavam a amurada, dos golpes distribuídos por cordas, cabos e vergas e até das vigas baixas do porão.
Quando os dias e as noites se tornavam iguais, parecia que um torpor tomava conta de tudo. Era o momento em que das naus se comunicava casco contra casco, em que víveres e material eram descarregados directamente da nau de abastecimento. Era também o momento em que se avaliavam os estragos. O calor era tórrido, e as bebidas severamente racionadas. Os tonéis vazios eram cheios com água do mar, para que os navios não se desequilibrassem, embora a água doce que depois fosse colocada neles ficasse com um gosto desagradável que os homens só podiam desalterar-se tapando o nariz. No porão onde os gatos miavam, o azeite tinha rançado, o mel fermentava e os vermes pululavam nos tonéis de favas. Um cheiro a podre emanava das caixas de carne salgada, a única que restava para consumo, tendo todas as galinhas e cabras sido já sacrificadas. Do castelo da popa, Vasco observava os seus homens, macilentos, a pele queimada dentro das camisas que o sal tornava rígidas. Alguns tinham já morrido de febre ou de disenteria, tendo os seus corpos sido atirados ao mar. Sabia que as águas prateadas do equador eram a última trégua antes da prova

do Atlântico Sul, quando todos os sofrimentos seriam exacerbados Ainda era possível gozar as raras distracções. Sendo os jogos de cartas proibidos, tantas rixas e dívidas provocavam, jogava-se xadrez. Ao fim da tarde, os homens reuniam-se em redor do cabrestante para

escutarem a vida dos santos ou para cantarem ao som da flauta e dos

tamborins. Os capelães organizavam concursos de orações, sendo ;

recompensa do melhor recitador uma malga de água.
É provável que, no decurso de navegações anteriores, os Portugueses tivessem já entrevisto a costa do Brasil, sem suspeitarem dos

mundos que se escondiam atrás dessas ilhas, que ainda não se sabia

serem um continente. Mas certamente faziam já escalas aí. Se as

datas dadas pelo Navegador Anónimo são exactas, a volta do largo durou oitenta e cinco dias, ao fim dos quais os problemas do escorbuto teriam sido irremediáveis. As carências em vitaminas, que as abóboras, as cebolas e as favas existentes a bordo não bastavam para suprir, tinham consequências mortais. A doença declara-se ao cabo de sessenta e oito dias, começa a declarar-se fatal após oitenta dias e mata toda a tripulação de um navio depois de cento e onze dias.


Estes factos incontornáveis impõem a certeza de que a frota de Vasco da Gama fez escala nalguma ilha americana, onde os homens puderam comer frutos frescos antes de voltarem a fazer-se ao mar. Único indício de uma terra no relato do Navegador Anónimo: a sua observação de que a frota foi sobrevoada por grandes bandos de aves pernaltas. Diziam os velhos marinheiros que tais voos assinalavam a proximidade de ilhas encantadas, as quais só seriam visíveis quando todos os mouros tivessem sido expulsos das Espanhas. Não apareceram algumas delas exactamente no ano da tomada de Granada?
O Navegador Anónimo avaliava em 4736 quilómetros a distância que separava a Serra Leoa da zona em que tinha avistado os pássaros. Distância errónea, certamente, já que não havia outra forma de medir senão alguns quadrantes de latão. O grande astrolábio que havia sido embarcado ocupava demasiado espaço naquelas naus tão pequenas e que baloiçavam tanto. A velocidade era avaliada de forma sumária: lançava-se ao mar um ramo e calculava-se o tempo que demorava a ir da proa à popa.
«Se queres aprender a rezar faz-te ao mar», reza um provérbio português. Depois de ter seguido as correntes que conduziam ao largo do

Brasil, a armada foi ao encontro dos ventos de oeste que a colocariam na rota do cabo da Boa Esperança. As velas vibravam novamente num oceano palpitante de espuma, de onde saíam peixes-voadores. Nas paragens do décimo oitavo grau de latitude sul, a frota virou de bordo, mergulhando na zona das tempestades do hemisfério austral.


De dia para dia, as vagas tornavam-se mais alterosas e o vento mais frio, agravando as doenças que minavam os homens agarrados aos mastros, exaustos de lutar contra as tormentas, de terem as roupas encharcadas e de não conseguirem secá-las. Vasco exortava os mais vigorosos a redobrarem os seus esforços e os outros a bombear incessantemente a água que ondas mais altas do que os mastros lançavam sobre os navios. Na calma que precedia as tempestades, o capelão organizava procissões que percorriam o convés e subiam aos castelos da popa e da proa. Receando que o cálice se derramasse e o seu conteúdo fosse profanado, celebrava as missas sem consagração. Com as vergas baixas quebradas, as velas a meio pano, a pequena frota seguia a sua rota entre as ondas cobertas de espuma, vindas de todo o lado. O estrondo do vento não deixava ouvir os gemidos e as ordens, os tiros de bombarda dos sinais, o toque do sino de bordo. Cuidadosamente acondicionadas, as fogueiras quase não eram visíveis entre a chuva e o nevoeiro, mas os quatro navios conseguiam navegar juntos. Era a única visão de esperança na desordem dos elementos e, juntos, a 27 de Outubro, avistaram baleias, cachalotes e focas, primeiros mensageiros de um continente próximo.
Os pássaros empoleiravam-se nos mastros, as algas enrolavam-se em torno da roda de proa das naus, rodeadas por um relvado flutuante de sargaços. O seu odor mistura-se com os que sopram de terra. A 4 de Novembro, antes da aurora, os prumos tocam o fundo e às nove horas avista-se terra. As naus aproximam-se da capitânia, os estandartes são içados, as bandeiras são presas à pavesada, todas as bombardas disparam salvas para saudar o capitão-mor. Despem-se as roupas sujas e rasgadas, abrem-se os cofres para se retirarem os trajes de festa e dá-se graças a Deus. Terminara a grande volta, esse percurso sem erros de que Vasco pode orgulhar-se e que doravante todas as frotas da Índia seguirão.
A 7 de Novembro, bordejam novamente para alcançar terra, numa grande baía bem abrigada, apesar das margens baixas. Vasco

observa Pêro de Alenquer a afastar-se no seu batel para investigar a cercanias. «Aos que tantas vezes viram a morte diante dos olhos a praia surge como a Terra Prometida, ainda que seja apenas uma escala. O que importa o destino que os espera! A luz é pura, amanhã encontrar-se-á água para matar a sede que os víveres conservados era salga e que apodrecem no porão tornam mais viva. O piloto é aclamado quando anuncia ter encontrado a água doce de um rio a quatro léguas dali, que é colocado sob a protecção de Santiago, em honra da Ordem. Na manhã seguinte, fundeiam na enseada a que Vasco dá nome de baía de Santa Helena. A sua primeira preocupação é determinar as coordenadas. O grande astrolábio de madeira com três palmos de diâmetro é colocado sobre um tripé de madeira. Os cálculos de Pêro de Alenquer revelam que o cabo da Boa Esperança está pelo menos trinta léguas para sul,

Enquanto Nicolau Coelho e os pilotos investigam incansavelmente o litoral próximo, passam-se nove dias a arranjar as velas e

vergas, a substituir o cordame e a lavar os cascos. Na calidez da Primavera austral, os homens vão à água e à lenha e caçam um antílope com as bestas. Todos se maravilham por encontrarem no outro extremo da terra animais semelhantes aos de Portugal, gaivotas alcatrazes, cotovias e rolas e até cães que ladram como os deles. Descobrem também bandos de pinguins e baleotes que se atrevem a procurar alimentos entre os navios.


Quanto aos habitantes da região, começam a sair do mato para dirigirem à praia. Quando Vasco desembarca com uma escolta avista dois homens curvados, com um tição na mão, ocupados a recolher mel ao pé dos arbustos. Um deles é trazido à força para a nau capitânia para ser observado. É pequeno e negro, está vestido com uma pele de animal que usa como se fosse um manto. O seu membro viril está protegido por um estojo peniano que agrada tanto à assistência que alguns homens irão procurá-los em terra. Paralisado pelo medo, o homem não responde à linguagem dos gestos. Vasco pede a dois marinheiros, um dos quais é africano, que se sentem à mesa com ele e o encorajem a comer e a beber. Tranquilizado e barriga cheia, este explica por gestos que a sua aldeia está situada no sopé de uma colina próxima. Vasco oferece-lhe guizos, colares contas e um barrete. Manda que o vistam com algumas roupas à

moda portuguesa, já usadas, e deixa-o ir, certo de atrair assim os seus congéneres. Nessa mesma noite, vem uma dúzia, no dia seguinte mais de quarenta, todos a pedincharem bugigangas e barretes. Vasco mostra-lhes canela, cravinho, um pouco de ouro e pérolas, mas são tudo coisas que lhes são desconhecidas. A comunicação limita-se a trocas insignificantes: brincos prateados em forma de concha, leques de cauda de raposa. São os Khoikhois e a sua linguagem é incompreensível: «Falam como se tivessem soluços*.»


Alguns portugueses querem saber mais, como Fernão Veloso, que insiste junto do capitão-mor e consegue que este lhe dê autorização para seguir os aborígenes até as palhotas. Enquanto a bordo os homens jantam à luz do Sol poente, Fernão Veloso refastela-se com foca assada recheada de ervas e raízes, numa aldeia cujas fogueiras se vêem a arder no sopé da colina. Depois mandam-no embora e perseguem-no até a praia. Ao ouvir os seus gritos de socorro, Vasco grita a Nicolau Coelho que vá em seu auxílio. Estala uma rixa, os capitães interrompem a refeição e saltam para o batel. Os africanos afluem à praia em número crescente. Estão armados com azagaias feitas de chifre endurecido ao fogo e cravado numa estaca. Lançam-nas sobre os portugueses, que não tiveram o cuidado de levar consigo armas. Vasco é ferido na perna, bem como o mestre e dois marinheiros da São Gabriel. Esfregam-lhes as feridas com uma misturas de salmoura e pólvora, enquanto os portugueses recuam apressadamente para os navios, sem poderem vingar-se dos assaltantes, que desaparecem na noite para não mais regressarem.
Na manhã de 16 de Novembro, a armada faz-se novamente ao mar. Pêro de Alenquer não reconhece a costa, pois ladeara-a durante a noite nove anos antes, quando descobrira o cabo da Boa Esperança na companhia de Bartolomeu Dias. Mas sabia que havia que fazer um desvio para su-sueste, a fim de se evitar os temíveis rochedos que o rodeavam. Na noite de dia 18, reconheceu a longa silhueta que se elevava da espuma irrequieta, mas revelou-se impossível contorná-lo devido à existência de ventos contrários. Foi preciso fazer duas tentativas, navegando à bolina. A 22 de Novembro, num mar cavado, a frota, de vento em popa, dobrava o cabo, na alegria da esperança
Nota: * Castanheda, História, 1/2.

reencontrada. A bordo, todos dançavam ao som dos tamborins e de trombetas, os marinheiros cantavam empoleirados nas vergas, os doentes voltavam a acreditar no futuro. Ao largo de um muro de falésias estriadas de amarelo e cinzento salpicadas do verde de erva rasteiras, todos davam graças a Nosso Senhor que os tinha conduzi do ao local que procuravam.


O litoral desfilava diante dos seus olhos. Depois das pirâmides, das agulhas e dos picos que vigiavam o mar como os gigantes imóveis da lenda, o espectáculo das florestas e dos prados onde o gado pastava animava-os e encorajava-os. A 25 de Novembro, dia de Santa Catarina, a frota ancorou na baía de São Brás*, a 370 quilómetros do cabo da Boa Esperança. Com uma boa aguada, estendia-se sobre dez léguas de uma

margem a outra e parecia habitada apenas por bovinos, muito grandes

e mansos porque castrados, por vezes mesmo sem chifres. As aldeias

eram invisíveis, escondidas no interior das terras. Os habitantes que caminhavam ao longo da praia pareciam-se com os da baía de Santa

Helena e falavam a mesma língua, embora parecessem mais evoluídos Tinham ultrapassado o estádio da caça e recolecção para se dedicarem à criação de animais. Montavam os bois mais fortes com a ajuda de albardas de juncos parecidas com as que havia em Castela e encimadas por uma liteira de tábuas à guisa de sela.
Ao explorarem as cercanias, os marinheiros portugueses descobriram outros animais: estranhos pássaros do tamanho de gansos que zurravam como burros e não podiam voar, pois as suas asas não tinham penas. Estas aves parecem muito semelhantes aos dodós das ilhas Mascarenhas, hoje desaparecidos. Encontraram ainda excrementos de elefantes junto de uma aguada, mas não conseguiram descobri-los.
A três tiros de besta da baía havia uma ilhota, onde se aventuraram numa caçada, mas assustaram-se com o aparecimento de focas do tamanho de ursos que «rugiam como leões»**, e mostravam os seus enormes dentes, enquanto os filhotes «baliam como cabritos». O ferro das lanças não conseguia perfurar-lhes a pele e foi necessário carregar a bombarda do barco de serviço para matar alguns. Mereciam sem dúvida o nome de «lobos-marinhos» que lhes dão os textos portugueses da época.
Nota: * Hoje, Mossel Bay.

Nota: * Todas as citações desta primeira viagem foram retiradas do relato do Navegante Anónimo, traduzido por Paul Teyssier, Les Voyages, Ed. Chandeigne.

O capitão-mor partilhava a alegria de viver que os seus homens tinham reencontrado. Não tinha ele conseguido dobrar o cabo da Boa Esperança, evitando os recifes? Não tinha ele conjurado o medo, navegando sempre que possível à vista da costa? Feito notável que raramente seria repetido ao longo do primeiro século da expansão portuguesa e que Vasco realizara logo à primeira tentativa. Quando contemplava o mar, a alegria que o invadia era ainda maior. Parecia-lhe que o mar já não era o mesmo. Era o fim do mar Tenebroso. As águas tinham passado de cinzento a azul-escuro e tomavam a cor das turquesas à volta dos rochedos e das areias. Quando nelas se banhava, sentia-as percorridas por cálidas correntes. Teria chegado ao fim do mar Prasóide de que falavam os Antigos?
A primeira parte da sua missão terminara. De acordo com as instruções recebidas, tinha chegado a hora de queimar o navio dos víveres e de repartir as reservas ainda utilizáveis pelas outras três naus. Quanto aos homens da tripulação, iriam tomar o lugar daqueles que haviam morrido no mar.
Já se tinha passado quase uma semana quando as gentes da região se decidiram a aproximar-se dos navios. Caminhavam em duas filas paralelas, uma na praia e a outra ao longo das colinas que a encimavam. À sua prudência, respondia a dos portugueses que, nesses dias estavam todos reunidos a bordo da capitânia. Vasco mandou descer batéis com homens armados. Não deu ordens para desembarcar, mas lançou guizos aos Khoikhois, que estes se apressaram a apanhar, atrevendo-se mesmo a ir buscá-los à sua mão. Estando o mato demasiado perto, Vasco ordenou que os navios seguissem ao longo da margem, para haver um espaço livre. Os negros seguiram-nos a pé, até que o capitão-mor decidiu fundear e ir a terra com os seus capitães. Recordando a experiência da baía de Santa Helena, tinha uma escolta de besteiros. Por gestos, indicou aos negros que se afastassem e regressassem depois dois a dois. Distribuiu guizos e barretes vermelhos, em troca das pulseiras de marfim que eles usavam.
Vasco tentou encorajar outras trocas e obter bovídeos, que a tripulação, ávida de carne vermelha, tanto cobiçava. No dia seguinte, reuniram-se mais de duzentos indígenas, sempre acompanhados pelo seu gado. Quatro deles começaram a tocar flauta numa escala de quatro tons, para grande surpresa dos portugueses, que não quiseram

ficar atrás. Vasco mandou tocar as trombetas, e todos se puseram a dançar, os Khoikhois na praia e os portugueses nos seus batéis. O capitão-mor dançava com eles. Porém, mesmo depois desta algazarra, não conseguiram trocar mais do que três braceletes por um boi, que foi esquartejado para o jantar de domingo e se revelou tão delicioso como os de Portugal.


Os habitantes da região regressaram ainda em maior número, homens com bois, vacas e ovelhas, e também mulheres e crianças, que se mantinham atrás, num promontório que dominava a margem. Todos dançavam como no dia anterior, mas os portugueses estavam desconfiados e não perdiam de vista os rapazes que, armas na mão, os vigiavam encobertos pelo mato. Vasco enviou somente um homem a terra, um certo Martim Afonso, certamente um degredado, que conhecia o idioma do Congo, muito diferente da língua hotentote. Quando tentava trocar um boi por pulseiras, pegaram-lhe na mão e lavaram-no à aguada, onde lhe indicaram que a água não podia ser levada. Subitamente, o clima enublou-se. Os Khoikhois começaram c soltar os bois. Todos os portugueses foram chamados a bordo, e as naus afastaram-se, sempre ao longo da praia, para um local mais

seguro, seguidas pela multidão em peso. Vasco sentia subir uma febre hostil e decidiu mostrar tanto a sua força como a sua boa vontade Ordenou uma investida em terra com lanças e bestas, estando os

homens de armas protegidos com as suas couraças. Na ameaçadora

desordem que se seguiu, mandou regressar todos os batéis, «para evitar aos seus homens a mínima ocasião de matarem». Era apenas uma manobra de intimidação, mas queria ser ele a ter a última palavr ordenando que duas bombardas fizessem fogo. Prudentemente sentados no limiar do mato, os negros fugiram imediatamente. No seu terror, deixaram cair as armas e as peles com que estavam vestidos.


O Mar Prasóide
A 6 de Dezembro, os portugueses foram buscar água na aguada novamente deserta. Antes de aparelharem, ergueram um padrão encimado por uma cruz talhada num mastro de antimónio, provavelmente o da nau dos víveres queimada alguns dias antes. Na noite

seguinte, foi tombado por uma dúzia de Khoikhois. A 8 de Dezembro, a frota rumou em direcção ao rio do Infante, situado no limite das explorações de Bartolomeu Dias e dos seus companheiros. Três dias mais tarde, véspera de Santa Luzia, a brisa transformou-

-se num temporal que fez correr as naus em árvore seca, de vento em popa. Nicolau Coelho perdeu-se no meio da tormenta, mas foi avistado do cesto da gávea da São Rafael a cerca de cinco léguas para trás. Com o mar mais calmo, os dois outros navios conseguiram pôr-

-se à capa, sustendo assim o seu avanço. Colocaram um pouco de pólvora dentro de caldeirões e deitaram-lhe fogo, conseguindo assim fazer sinais luminosos que permitiram que a nau se reunisse à frota no fim do quarto de prima. A 15, avistaram os ilhéus Chãos - actualmente Bird Islands - e o ilhéu da Cruz, onde se erguia a silhueta familiar de um padrão, o último que Bartolomeu Dias erguera.


A recordação das tempestades não tinha extinguido a capacidade de deslumbramento dos navegantes. Navegavam ao longo de uma costa que, à medida que avançavam para oriente, se tornava cada vez mais aprazível, com árvores cada vez maiores e prados à beira-mar povoados por prósperos rebanhos. Capitães e pilotos eram os únicos a saber que a tormenta já passada não era senão o prelúdio da desordem dos elementos que antes tinha deixado a tripulação de Bartolomeu Dias desesperada. A 19 de Dezembro, o vento parou subitamente e, ao pôr do Sol, começou a soprar de Leste, o que os obrigou a procurar outros ventos, velejando à bolina, ora em direcção do largo ora em direcção de terra. A 20 de Dezembro, encontraram à sua frente o ilhéu da Cruz, de onde tinham zarpado cinco dias antes. O vento rodou para oeste, o que lhes permitiu mudar de bordo e aproar a oriente. Com boa brisa de popa, as naus puderam novamente correr a pano solto, mas não sem enfrentarem as vagas de um labirinto de correntes. Vasco exortava os homens, prostrados pelo choque das ondas, que não conseguiam entravar a progressão da pequena frota:
«Deus, na Sua misericórdia, permitiu-nos avançar e deixar de recuar», escreveu o Navegador Anónimo no seu diário. «Possa Ele fazer que seja sempre assim!»
Determinaram as coordenadas no dia de Natal, dando este nome à costa onde fundearam, nome por que ainda hoje é conhecida. Tinham descoberto sessenta léguas de costa para além do rio do

Infante, mas os navios estavam muito depauperados. O mastro da São Rafael estava partido por cima do cesto da gávea e perdera-se uma âncora. Quando voltaram a fazer-se ao mar, foram empurrados para o largo, onde erraram durante mais de duas semanas, com uma ração de água reduzida a meio litro por dia. Os sofrimentos físicos eram agravados pelo medo dos abismos desconhecidos para onde as correntes os atiravam.


Olhando as estrelas, Vasco e os seus pilotos desconheciam certamente que no mês de Dezembro há uma forte corrente, ao longo da costa oriental de África, que afasta as velas que tentam penetrar no canal de Moçambique. Teve a sorte, ou a habilidade, de não se perder ao sul de Madagáscar, o que o teria arrastado para a zona dos ciclones, talvez como já sucedera a outros. Feliz acaso ou arte da marinhagem, a pequena frota conseguiu apanhar uma corrente costeira que a empurrou para a terra africana.
A 10 de Janeiro de 1498, os portugueses chegam a um outro mundo. Negros de grande estatura correm ao longo da margem e parecem felizes por os acolher. Vasco envia Martim Afonso e um dos seus companheiros num bote. Para grande surpresa do intérprete, um dos idiomas que aprendera no Congo é aqui compreendido. Os seus interlocutores são bantos, cujas línguas são faladas na maior parte da África Austral, do Zaire ao Zimbábue. Martim Afonso não conhece a geografia do interior do continente negro e maravilha-se por encontrar aqui os mesmos homens que encontrara num local que lhe parece situar-se no outro extremo da terra. A possibilidade de comunicar é uma oportunidade para obter algumas informações úteis ao prosseguimento da viagem.
Apresentados ao chefe local, os portugueses oferecem-lhe uma pulseira, um casacão de marinheiro e meias e barrete vermelhos, com que ele se enfarpela, após o que acompanha os visitantes à aldeia. No caminho, pára por diversas vezes para se pavonear com os seus novos tesouros, exclamando: «vejam o que eles me deram!» Na aldeia, vai de cabana em cabana com o mesmo discurso. Os por tugueses são instalados num recinto, onde lhes oferecem uma galinha e uma marmita de milho miúdo. A multidão, desejosa de os ver desfila toda a noite. No dia seguinte, o chefe acompanha-os aos navios com um carregamento de galinhas para o capitão-mor. Anuncia-lhe

a sua intenção de ir mostrar o seu traje português ao senhor de quem depende.


Tudo o que se oferece aos olhos dos portugueses testemunha uma certa riqueza mineral. O cobre brilha em todo o lado, nos braços e nas pernas, nas orelhas e nos cabelos dos homens e das mulheres. As pontas das azagaias não são feitas de chifre, como entre os Khoikhois, mas de lâmina de ferro. Os homens usam grandes arcos e punhais ornados com estanho e com bainhas de marfim. As braceletes de cobre são trocadas por tudo, sobretudo por camisas portuguesas, cujo tecido de linho é especialmente apreciado. A frota não se demora mais do que cinco dias, pois o vento continua favorável e a corrente parece estar a inverter-se. Quando os portugueses fazem aguada no rio Inharrime, que corre não longe dali, são ajudados pêlos negros. Assim, deram ao curso de água o nome de «rio do Cobre»* e ao país o das «Boas Gentes».
A escala reanimou o ânimo dos marinheiros e deu algumas esperanças ao capitão-mor, sem que se possam discernir claramente as razões de tal. Não há quaisquer dúvidas de que Martim Afonso se informou quanto às condições da navegação costeira e aos recursos da região. Neste último ponto, entramos num domínio onde a discrição deveria ser total. Vasco tinha a seu cargo, tal como Pêro da Covilhã antes dele, recolher informações sobre as origens do ouro. Tivera conhecimento das informações que circulavam à boca pequena em Portugal acerca das minas da África Oriental, que ninguém sabia quantas eram nem onde eram. Terá sabido no País das Boas Gentes que estava às portas de Sofala, a cidade do ouro? Poderíamos acreditar que o capitão-mor ignorava tudo quanto à proximidade das minas, se os italianos de Lisboa não tivessem recolhido, depois do regresso daquele, o testemunho daqueles que o sabiam: «[...] dizem-se coisas extraordinárias sobre a nova mina de ouro que encontraram trezentas léguas antes de Melinde* [...]». Afirmações perturbadoras que serão confirmadas por D. Manuel numa carta à rainha de Castela, mas que não bastam para estabelecer onde e quando Vasco teve conhecimento do ouro de Sofala. O diário do Navegador Anónimo
Nota: * Hoje Inharrime.

Nota: * Girolamo Sernigi, Les Voyages.



nada diz sobre o assunto, e tudo leva a crer que a frota passou ao largo, sem sequer tentar fazer escala. Seria por os baixios serem perigosos e o mar estar infestado de tubarões ou porque havia tumultos em Sofala, que tentava sacudir o jugo do sultão de Quíloa, ao qual a cidade estava submetida?
Da poupa da São Gabriel, Vasco observava a floresta escura que cobria a costa. Sobre os bancos de areia e o coral dos baixios, o mar era verde. O mar Tenebroso ficara para trás e a frota encontrava-se no mar Prasóide. O Sol já não se punha sobre a água, mas do lado da terra, atrás de nuvens que talvez fossem montanhas. Debruçado sobre os mapas, o capitão-mor comentava com Pêro de Alenquer os cálculos dos pilotos e o resultado das investigações que Nicolau Coelho efectuava em todas as escalas. Sob os seus olhos, os contornos de África tomavam uma nova forma, mas nada indicava a proximidade do reino do Preste João. A 22 de Janeiro, as âncoras foram lançadas na extensa foz de um braço do Zambeze, obstruído com troncos de árvores e rochas lisas, que rapidamente revelaram ser estranhos monstros, crocodilos e hipopótamos, que os portugueses julgaram ser cavalos-marinhos.
Após reunirem para deliberar, permaneceram no local mais de um mês. Era absolutamente necessário reparar as naus, remendar as velas e pregar telas revestidas com breu aos cascos que ressumavam água do mar. Os três navios foram postos em doca seca, o que não era coisa fácil naquelas margens baixas e pantanosas, percorridas por regatos cuja rede parecia não ter fim. Mais grave ainda era a falta de mão-de-obra, pois o escorbuto começara a provocar as suas devastações. Os homens arrastavam-se sobre as pernas inchadas, os dentes devorados pelas gengivas sangrentas. Desesperados por não conseguirem já alimentar-se, e mais ainda pela repugnância que o seu fedor inspirava, iam morrer em cabanas feitas de ramos. Ao lado dos capelães, Paulo da Gama ia vê-los a todos, prodigalizando cuidados e consolo e até remédios do seu cofre particular.
As pessoas da região tinham adoptado os portugueses. Permitiam-lhes ir buscar água à aldeia e vinham trazer-lhes abastecimentos nas suas almadias, barcas semelhantes às dos Mouros. Andavam nus, «usando somente pequenos panos de algodão para cobrirem as partes vergonhosas». As mulheres jovens eram belas, mas os seus

lábios estavam furados em três sítios, onde colocavam pequenas espirais de estanho. Após dois ou três dias, dois senhores da região foram visitar os navios. Um usava um turbante com ourelas bordadas a seda e ouro, e o outro, um barrete pontiagudo de seda verde. Ambos estavam vestidos com tangas compridas. Mas apenas mostravam desprezo pêlos presentes que o capitão-mor lhes oferecia. O jovem que os acompanhava vinha de longe e só conseguia exprimir-se por sinais. Dava a entender que já tinha visto grandes navios semelhantes aos dos portugueses. Os visitantes ficaram quase uma semana, acampando junto das naus em abrigos feitos de ramos. Apresentavam-se todos os dias nos batéis para negociar tecidos decorados com ocre vermelho. Depois, partiram rio acima.


Tecidos de algodão, sedas, navios. Depois de seis meses passados a percorrer desertos de água e margens desoladas, Vasco reconhecia os indícios da proximidade de um mundo civilizado. Recolhera certamente outras informações para além das que o Navegador Anónimo nos transmitiu. Há razões para crer que a demorada escala na foz do Zambeze não se deveu apenas à necessidade de restaurar navios e homens, mas à espera da grande monção.
Havia já cinco séculos que os marinheiros do Egipto usavam este vento sazonal que levava os navios desde a costa de África até a costa da Índia, pelo que o fenómeno não era desconhecido. É provável que os navegadores portugueses e os seus sábios mestres judeus tivessem dele conhecimento, o que talvez tivesse justificado a escolha de velas redondas, previstas para uma travessia feita com ventos regulares. Ignoravam, porém, o regime destes. Vasco era o primeiro homem do Ocidente a descobrir que havia que enfrentar as turbulências do mar Prasóide e conhecer as datas de inversão das correntes do estreito de Moçambique antes de atingir a zona favorável para se seguir a monção. Tal zona situava-se um pouco a sul do equador, onde os ventos começavam a soprar de sudoeste para nordeste em Abril, atingindo o seu máximo entre Maio e Julho, para morrerem em Setembro. Mas Vasco ainda não o sabia. Embora os seus informadores locais tivessem mencionado a existência da monção, tratava-se apenas de noções vagas, sem datas nem números. A prudência do capitão-mor levava-o a não querer perder mais tempo. Tinha ainda de fazer o reconhecimento de centenas de léguas de litoral, enfrentar os acasos

do mar e talvez também a hostilidade dos Mouros. Fevereiro chegava ao seu fim. Desembarcou-se da São Rafael um padrão de pedra que foi erguido no ponto extremo da foz do Quelimane, colocando-o sob a protecção do arcanjo. Ao rio foi dado o nome de Bons Sinais.


A 24, a pequena frota rumou a norte, abandonando em terra dois degredados, lavados em lágrimas, que teriam de pagar o seu perdão aprendendo a língua do país. A primeira aventura tinha terminado. Todos pensavam já na Índia que iriam descobrir dentro em pouco.

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