Genevieve bouchon vasco da gama



Baixar 1.02 Mb.
Página5/16
Encontro15.04.2018
Tamanho1.02 Mb.
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   16

A idade de ouro do comércio islâmico
Os Portugueses nunca tinham dominado senão as águas desertas do Atlântico, onde só os Europeus faziam navegação de alto mar. Ao entrar no oceano Índico, Vasco da Gama irrompe num mundo marítimo organizado desde há mil anos, percorrido por redes comerciais que se desenvolveram num espaço imenso, animado por sociedades mercantis fortemente estruturadas. No momento em que a sua frota penetrou naquelas águas, não será inútil dar uma visão global do que os Portugueses foram descobrindo pouco a pouco. Que acontecimentos precederam a sua chegada? Que homens encontraram; quais eram as suas crenças e as suas tradições? Qual era a origem das mercadorias que tinham acabado de adquirir? A resposta a estas perguntas implica conhecer melhor as suas dificuldades, bem como as condições do seu êxito e as reacções provocadas pela sua presença.
Se a índia deu o seu nome ao oceano que a banha, é porque está no cruzamento das rotas marítimas que ligam os continentes do Velho Mundo entre si. A monção empurra para as suas margens as velas vindas da África Oriental, do Médio Oriente e do mar da China. A do Sudoeste, que dentro em pouco as naus portuguesas iriam seguir, começa em Abril no litoral africano. Nos primeiros dias de Junho, irrompe no Malabar, que é fustigado com rajadas e enxurradas até final de Outubro. Então, os ventos invertem-se, e a monção de nordeste, nascida nos tufões do Pacífico, atinge, já muito enfraquecida, a costa de Choromândel, a qual fecunda de Novembro a Janeiro. Enquanto que este fenómeno foi conhecido e dominado no início da nossa era, os navegadores da Índia Ocidental, mas também do Império Romano,

empreenderam travessias de longo curso. Todos os anos, uma frota carregada de ouro partia dos portos do mar Vermelho para a costa malabarde onde regressava com os porões cheios de pimenta.


Ao longo dos séculos seguintes, o ouro de Roma, depois o de Bizâncio e dos reinos da Abissínia, continuou a acumular-se nos tesouros dos reis e dos comerciantes. O comércio transoceânico estava então nas mãos dos Persas e dos budistas da Índia, que na época estavam espalhados em todo o Sudeste Asiático. Os comerciantes marítimos enxameavam todas as costas. Não veiculavam apenas produtos, mas também ideias, crenças e instituições.
Os movimentos religiosos modificaram profundamente as estruturas económicas e sociais do mundo marítimo. Aos Portugueses chegariam ainda alguns ecos disso, mas nunca compreenderão o seu significado profundo.
No momento em que o islão surgia numa obscura cidade da Arábia (622), os grandes impérios budistas da Índia estavam a dar os primeiros sinais de declínio. Um muito vivo renascimento da religião bramânica iria eliminar o budismo da Índia e reavivar os interditos ligados à navegação de longo curso. Os textos sanscríticos insistem que as viagens no mar são um pecado grave porque expõem os marinheiros à contaminação provocada por uma alimentação e encontros impuros. Esta restrição afastou os membros das castas elevadas das aventuras marítimas e de forma alguma encorajou os das outras. Assim, o comércio exterior da Índia passou em grande parte para as mãos de comunidades estranhas ao hinduísmo. No Malabar, foram as guildas de mercadores judeus e cristãos, estabelecidas pelo menos desde o século V, que foram encarregadas pêlos reis hindus de recolher os lucros. Os «cristãos de São Tomé» tiveram durante muito tempo o monopólio do comércio da pimenta. O que lhes deu grande fama no mundo medieval.
Foi neste contexto que o islão encontrou o seu lugar. A partir do século X, quando os Abássidas de Bagdade lhe deram uma dimensão política, os Árabes infiltraram-se em quase todo o comércio existente. Assim, o renascimento do bramanismo, o declínio do budismo e a expansão do islão marcaram de forma decisiva a constituição das redes comerciais e dos mercados do oceano Índico.

Um texto árabe datado de 851 contém o mais antigo traçado da rota das especiarias, desde o golfo Pérsico até à China do Sul*. Partindo de Siraf (Baçorá), os navios árabes dirigiam-se para os portos da Índia Ocidental e aí esperavam os ventos favoráveis para seguirem viagem até Cantão, onde ainda hoje se encontram vestígios das suas necrópoles e das suas mesquitas. Para permitir que os homens do mar sobrevivessem durante as demoradas escalas, as instituições muçulmanas tinham previsto uma forma de casamento temporária, que lhes permitia encontrar um lar em cada porto. Este costume estava particularmente espalhado no Malabar, onde os estrangeiros eram mantidos à distância pêlos hindus, «que não comiam com eles e não lhes permitiam que entrassem em suas casas»**. Era de acordo com a sua própria lei que os muçulmanos se ligavam a mulheres das castas inferiores, filhas de pescadores e de marinheiros, as únicas que aceitavam preparar-lhes as refeições. As crianças nascidas destas uniões pertenciam à mãe, mas deviam ser educadas na fé islâmica. A sua ligação a uma religião estrangeira poupava-as à rejeição a que a sua casta inferior as teria condenado.


De que forma um grupo social provindo dos bairros de má fama tinha conseguido afirmar-se no mundo dos negócios? O seu conhecimento dos barcos, dos costumes e das línguas locais, a hospitalidade que concedia aos seus correligionários destinavam o muçulmano a tornar-se o interlocutor privilegiado dos mercadores estrangeiros, aos quais oferecia os seus serviços de marinheiro, corretor ou intérprete. Apesar das reticências que a sua baixa extracção inspirava, conseguiu acabar por desempenhar um papel indispensável nas traficâncias do comércio externo, encarregando-se das tarefas que um hindu ortodoxo não podia realizar.
Inicialmente marginais, as comunidades islâmicas foram pouco a pouco suplantando as guildas judias e cristãs. Aos grupos originais, provenientes das regiões do golfo Pérsico, vieram juntar-se, ao longo dos séculos, filhos de egípcios, de sírios, de persas, de magrebinos e de todos aqueles que a expansão do islão em África e na Ásia colocava na rota das especiarias. Os esparsos núcleos de islamização

Nota: Ahbar as-Sin waal-Hind, Relation dde la Chine et de i’inde, Paris, 1948.

Nota: * Ibn Battuta, Voyages, vol. IV, pp. 72-74.

do oceano Índico foram assim o ponto de partida da maior rede de trocas comerciais alguma vez estabelecida entre o Mediterrâneo e o mar da China. Organizados em associações familiares, como a dos Karimi do Egipto, os comerciantes marítimos muçulmanos tinham agentes em todos os portos do litoral. Negociantes e armadores, grandes construtores de mesquitas, a sua fortuna era incomensurável e a sua descendência numerosa.


No final do século XV, o oceano Índico tinha-se tornado o maior mercado do mundo. A artéria designada pelo nome de «rota das especiarias» drenava todo o comércio dos países costeiros. Se as especiarias estiveram na origem da sua fortuna, é porque crescem espontaneamente no litoral. No Malabar, a pimenta cresce sobre as encostas ocidentais da cadeia dos Gates, e o gengibre é colhido na planície costeira. A canela abunda no Ceilão, enquanto a noz-moscada e o cravinho existem em estado selvagem no arquipélago indonésio, das ilhas Banda às Molucas. Desde tempos antiquíssimos que estes produtos eram trocados por víveres que os comerciantes marítimos traziam às populações que os colhiam, distribuindo-os depois pêlos portos do litoral, onde os trocavam por bens mais preciosos. Assim, não podemos dissociar as especiarias das mercadorias com que eram negociadas e transportadas.
Base da alimentação asiática, o arroz era exportado a partir de três grandes regiões produtoras: as planícies fluviais do Decão, que a partir dos seus portos do Leste e do Oeste alimentavam a Índia peninsular, Ceilão e o golfo Pérsico; os deltas do Ganges e do Irrauaddy, que abasteciam a Indochina Ocidental, Samatra e as Maldivas; Java aprovisionava Malaca e as ilhas do arquipélago. A cana-de-açúcar era cultivada no Decão e sobretudo em Bengala, onde a colheita era em parte utilizada para o fabrico de conservas, exportadas em grandes potes de argila negra.
Muito apreciadas no mundo ocidental, as plantas medicinais e aromáticas abundavam na flora tropical: tamarindo e mirobálano, do Malabar; aloés, de Socotorá; cânfora, de Samatra e do Bornéu; ruibarbo, da China. Cultivado no Egipto na região de Tebas, o ópio era exportado a partir de Adem para todo o Oriente em quantidades importantes, a maior parte das vezes passando pêlos portos indianos de

Mapa: O Oceano Índico no século XVI.



Guzarate, que produzia igualmente uma espécie de qualidade inferior. A procura de perfumes era considerável. O incenso da Arábia e a água de rosas do Próximo Oriente eram armazenados nos portos do golfo Pérsico, o âmbar cinzento recolhido nos atóis das Maldivas, o benjoim de Pegu e o almíscar do Sião eram exportados a partir da Indochina Ocidental.
Falucas do mar da Arábia, sampanas do golfo de Bengala, juncos do mundo malaio cruzavam-se por vezes em pleno oceano com barcos-estrebarias, que transportavam animais de guerra. Especialmente treinados em Ceilão para transportarem cargas durante os combates, os elefantes eram vendidos em toda a Índia pêlos comerciantes marítimos do Malabar. Os do golfo Pérsico transportavam todos os anos vários milhares de cavalos da Pérsia e da Arábia para os portos da Península Indiana. Este frutuoso comércio havia sido estimulado pelas guerras incessantes a que rajás e suitões se entregavam e que requeriam grande número de cavalos, cuja criação não podia ser assegurada em clima tropical, já que as éguas só conseguiam dar à luz potros enfezados. Desembarcados nas praias, os cavalos eram conduzidos por terra para as cidades reais, onde eram pagos a peso de ouro - o ouro, honra dos soberanos da Índia, que só dele se separavam com infinitas reticências.
O ouro e ainda a prata e as pedras preciosas acumulavam-se nos tesouros dos rajás e das grandes famílias de mercadores. Alguns reis de Ceilão mantinham ciosamente nas suas mãos o monopólio das safiras, das esmeraldas, dos topázios e de outras gemas de que a sua terra era tão pródiga e que eram engastadas e distribuídas nos mercados do Malabar. No planalto do Decão havia minas de diamantes, nas pedreiras de Guzarate cornalinas, ametistas e ágatas, de que se faziam jóias e pequenos objectos muito apreciados em África. Nas costas meridionais de Choromândel e no golfo de Manar, pescavam-se pérolas. As jóias mais apreciadas eram importadas de paragens mais longínquas, como os rubis de Ava e as pérolas do golfo Pérsico. Entesourava-se ouro e prata, sob a forma de moedas ou não, das mais diversas proveniências: ducados venezianos, açafras egípcias, larins da Pérsia, pó de ouro da África Oriental, anéis de prata do Sião.
Outras espécies naturais eram utilizadas para fins comerciais: o algodão e o índigo da índia, a laca de Pegu, o enxofre de Samatra,

o salitre que se recolhia após a monção das paredes das casas abandonadas. Estes dois últimos produtos possuíam um valor estratégico, pois entravam na composição da pólvora.
Os produtos manufacturados eram sobretudo originários do Médio Oriente, da Índia e da China. Embora a maior parte deles - jóias, armas, couros dourados, tapetes - fosse obra de artesãos locais, o modo de produção dos têxteis prefigurava já a era industrial. Para além da China, cujos damascos com flores e cetins transitavam por todos os portos, tal como as porcelanas, a Pérsia produzia estofos de seda.
O comércio dos têxteis era tão importante quanto o das especiarias. Implantada em três regiões produtoras, a indústria algodoeira indiana era a primeira do mundo. Bengala era reputada sobretudo pelas suas musselinas, exportadas para todo o Médio Oriente e até para a Europa, onde as mulheres gostavam de enfeitar os cabelos com ela, como testemunham os retratos da Renascença italiana. Os tecidos pintados de Choromândel eram distribuídos em Ceilão, Java e nos reinos da Indochina. No Guzarate, manufacturas e oficinas de aldeia asseguravam uma produção em expansão crescente, graças à diversidade das suas técnicas e à eficácia das redes de distribuição. Tecidos de algodão cru, brancos, tingidos com índigo ou estampados eram carregados em grandes quantidades em todos os portos do país, em conjunto com os produtos do artesanato local: jóias de pedras duras, objectos de madeira, de marfim e de concha, armas e perfumes. Estes produtos, de luxo ou de fancaria, eram distribuídos em todos os mercados do oceano Índico e trocados por valores mais preciosos: ouro, especiarias e pedras.
O comércio de escravos era praticado desde tempos imemoriais. Na sua maior parte, eram vendidos nos mercados da África Oriental, como o indica o termo geral de «Abissínios» pelo qual eram designados. O seu número só pode ser apreciado pelas dimensões que por vezes assumiam as suas revoltas. Por exemplo, sabe-se que eram tão numerosos em Bengala que, no final do século XV, conseguiram depor o sultão reinante e fundar a sua própria dinastia. Os mais apreciados eram os escravos brancos, que eram comprados ainda crianças nos Balcãs. Convertidos ao islamismo e a maior parte das vezes castrados, serviam nos exércitos, onde alguns acediam a altos cargos, depois de terem sido libertados pêlos seus proprietários.

Mapa: A Índia do sul nos princípios do século XVI.

O comércio da rota das especiarias organizava-se em torno da Península Indiana, em pleno centro da parte setentrional do Índico. No Médio Oriente, os portos que absorviam especiarias estavam situados no término das rotas terrestres onde os produtos do Levante e do Mediterrâneo eram transportados por caravanas: ducados de Veneza e açafras do Egipto, cobre, chumbo, mercúrio e vermelhão, coral, alúmen e açafrão da Europa, armas e espelhos de Veneza, tapetes, couro dourado, água de rosas e frutos secos do mundo árabe e da Pérsia. A caravana mais importante formava-se na Síria: «Uma vez por ano», relata Girolamo Sernigi no regresso da viagem de Vasco da Gama, «uma grande quantidade de camelos reunia-se em Damasco, e todos juntos formavam uma caravana. Aí, esperam pêlos do Cairo, de Beirute e de Alexandria, bem como de todos os outros locais onde reina o sultão. Depois, deixam Damasco todos juntos, com trinta ou quarenta mil camelos, levando víveres e água para a alimentação e para dar de beber aos animais e aos homens. Entram no deserto, um deserto onde andam três meses sem parar. Passam junto ao monte Sinai, no mar de areia. É frequente serem surpreendidos neste mar por uma tempestade de vento que levanta a areia, e desaparecem, eles e os seus camelos.» Os que chegam a Adem e a Gidá sem novidade descarregam nos navios que partem em Julho.


Alguns dirigiam-se directamente para Calecute, o maior porto do Malabar, onde a pimenta era trocada por ouro, o gengibre por couro, a canela por outros produtos do Ocidente. Estes navios regressavam aos seus portos de origem nos primeiros meses do ano seguinte. Outros comerciantes marítimos empreendiam viagens mais longas e lucrativas. Em vez de irem para o,Malabar, seguiam até Cambaia ou outro porto de Guzarate, onde negociavam uma parte da sua carga, recebendo em troca tecidos de algodão. Estes eram depois descarregados em navios de Guzarate, a fim de serem trocados em Malaca, no sul da Península Malaia, por especiarias da Insulíndia e por sedas e porcelanas da China. Outros navios saíam de Guzarate em direcção aos portos da pimenta de Samatra. Aí, trocavam os seus tecidos de algodão por pimentão, após o que rumavam aos «países sob o vento», subiam a costa da Indochina Ocidental, onde trocavam pimentão, água de rosas e ópio por rubis, benjoim e laca.

Todos estes barcos regressavam ao mar ocidental com a monção de nordeste, seguindo duas rotas diferentes. Uns dirigiam-se a Ceilão, descarregavam as especiarias da Insulíndia e os produtos do Extremo Oriente nos portos do Malabar, voltando depois a Guzarate; outros navegavam pêlos atóis das Maldivas, onde permaneciam durante a monção seguinte. Depois regressavam ao mar pêlos portos do mar Vermelho e do golfo Pérsico, onde as caravanas os esperavam. Do Suez e de Ormuz, milhares de camelos transportavam as especiarias até do Cairo e os portos do Mediterrâneo - Alexandria, Alepo e Beirute -, onde os galeões de Veneza estavam fundeados. Mas a quantidade de mercadorias que aqui chegava não podia comparar-se à que era consumida na Ásia, representando apenas uma ínfima parte de um comércio gigantesco.


É certo que o retrato de tal prosperidade não deverá inspirar conclusões precipitadas. É evidente que as riquezas do mundo indiano pertenciam aos que tinham talento para os negócios ou que sabiam ganhar os favores dos dirigentes. Orientais ou europeus, os viajantes sentiam-se mais inclinados a descrever as insólitas riquezas do que o espectáculo de uma miséria que era então algo comum em toda a parte. Nada nos permite negar a sua presença, tanto mais que nos apercebemos claramente dela, tanto nas referências das esmolas concedidas pêlos príncipes muçulmanos como nos arquivos das primeiras instituições portuguesas de assistência social.
Os negociantes europeus apenas viam as etapas finais de um itinerário cujas dimensões e complexidade não conseguiam abarcar, na ausência de pontos de referência geográficos. Nos mapas medievais, Adem, Ormuz e Calecute eram nomes mal situados sobre costas sem formas. Ninguém suspeitava da existência de Malaca, a sul da Península Malaia, uma cidade tão grande e com tanta população quanto Veneza. Se os Portugueses sabiam que o comércio do Levante estava nas mãos dos muçulmanos, não imaginavam a extensão do seu poderio. Ainda acreditavam na índia cristã, enquanto o islão não cessava de se expandir.
Os comerciantes marítimos do oceano Índico professavam quase todos a fé islâmica. Dependentes dos reis e dos sultões, a quem pagavam impostos, participavam na administração local mas raramente ocupavam cargos governamentais. Ainda que, ao longo do

século XV, tivessem sido incentivados e apoiados pela expansão do poder político do islão nos seus respectivos países, preservavam uma relativa independência em relação a este. Devido a barreiras naturais e ao mau estado dos caminhos, as cidades marítimas estavam mais estreitamente ligadas entre si do que às capitais das regiões a que geograficamente pertenciam. A coesão das redes marítimas animadas por comunidades islâmicas solidárias ocultava situações políticas e religiosas muito diversas que os Portugueses só fragmentariamente iriam descobrir.


Enfrentando a guerra santa que lhe moviam os seus vizinhos muçulmanos, o reino cristão da Etiópia - o do «Preste João» - tentava conquistar uma via de acesso ao mar, em Maçuá ou Suhakim, que por vezes conseguia submeter. Mais a sul, no limiar de um continente impenetrável, a orla marítima da África Oriental fora colonizada por imigrantes árabes e persas que tinham criado pequenos sultanatos teocráticos. De Mogadixo a Quíloa, estavam espalhados ao longo da costa, de acordo com um mesmo modelo urbano: um porto bem abrigado, situado diante dos raros caminhos que penetravam até o interior, palhotas agrupadas em torno de uma fortaleza e algumas belas mansões perto do mar. Quase todos muçulmanos, os habitantes falavam árabe e suaíli, havendo entre eles um número importante de indianos do Guzarate que trocavam os seus tecidos de algodão e os produtos do Extremo Oriente - como as porcelanas da China - por escravos, marfim, peles de animais e sobretudo o ouro do Monomotapa, colocado no mercado através dos portos do litoral.
O centro nevrálgico do mundo muçulmano era então o Cairo, onde o sultão mameluco reinava sobre o Egipto e a Síria. Califa do islão, o seu prestígio permanecia intacto, apesar do declínio do seu poderio. Os xeques que partilhavam entre si a Península Arábica escapavam cada vez mais à sua influência. Na entrada do mar Vermelho, Adem recebia tanto os escravos e o marfim do Corno de África como o incenso, a mirra e os cavalos do lémen, além das especiarias e dos produtos da Índia. A cidade acolhia ainda os navios de peregrinos que eram encaminhados para Gidá, o porto das cidades santas do islão.
Foi nos planaltos do Irão que o mundo muçulmano iria conhecer a sua crise mais grave. O xá Ismael, um príncipe místico ainda adolescente,

desceu das montanhas do Azerbaijão para conquistar o seu

reino, impondo o xiismo em toda a parte. Guerras civis e perseguições provocaram o êxodo dos sunitas, a maior parte das vezes para sultanatos da Índia Central. Para escaparem a qualquer dependência, os reis de Ormuz tinham-se estabelecido na ilha de Jarum, onde o golfo Pérsico se estreita, e de onde dominavam a costa persa à sua frente. As suas alfândegas controlavam as sedas, as pérolas e os cavalos que transitavam pêlos seus portos satélites disseminados pelas margens do golfo.
Na Península Indiana, após um longo período de instabilidade, estava a instaurar-se um novo equilíbrio político. Durante a época medieval, Turcos e Afegãos tinham-se abatido sobre o país em vagas sucessivas. Retrocedendo para o vale do Ganges, os sultões de Deli tinham deixado nas terras conquistadas governadores muçulmanos, a fim de substituírem os rajás destronados. Estes chefes militares não tardaram a libertar-se da longínqua tutela do soberano de Deli, permanecendo fiéis à fé islâmica. Assim nasceram os sultanatos de Bengala e do Guzarate, o qual não cessava de expandir o seu poderio

territorial e marítimo.


A crescente expansão do islão congregara os régulos hindus em torno do rajá de Bisnaga, que ao longo do século XV havia conseguido construir um império imenso, banhado por dois mares, o da Arábia e o de Bengala. A norte do rio Krishna, enfrentava as forças armadas de outro império, o dos príncipes bamânidas, que reunia os senhorios muçulmanos. Limitadas às regiões fronteiriças, as incessantes guerras não impediam que, de um lado e do outro, se desenvolvesse uma civilização brilhante; de facto, contribuíam para a

prosperidade dos portos do Oeste, que importavam os cavalos da Pérsia e da Arábia para a renovação da cavalaria dos combatentes. os últimos anos do século XV, o Império Bamânida fragmentou-se em cinco sultanatos - Berar, Bijapur, Ahmadnagar, Bidar e Golconda -, enquanto Bisnaga, apesar das crises internas, fazia sentir o peso de todo o seu poderio em quase todas as regiões do Sul. Os reinos costeiros do Malabar sofriam a sua influência, embora tivessem conseguido manter a sua autonomia.


Nos confins do mar da China, o século XV tinha sido um período de mutações, que, todas elas, tinham cimentado a hegemonia marítima

dos mercadores islâmicos. No momento exacto em que o sultanato do Guzarate afirmava a sua independência, nascia Malaca, na extremidade da Península Malaia, entre o mar e a floresta equatorial. Os ventos das duas monções vinham morrer nas suas águas calmas, assegurando-lhe uma constante actividade. Em 1403, a conversão do rajá de Malaca expandira o domínio dos comerciantes marítimos muçulmanos para além das Molucas, acabando por lhes dar a hegemonia absoluta da rota das especiarias.


No mesmo ano, o imperador da China armou uma frota de uma centena de juncos, sob o comando do eunuco muçulmano Zheng-he, encarregado de visitar todos os portos do oceano Índico para aí instituir um tributo em nome do soberano Ming. A esta expedição seguir-se-iam outras seis, que durante trinta anos descarregariam as mercadorias chinesas em todo o litoral, até mesmo nas cidades marítimas da África Oriental. Tais expedições tiveram como resultado uma intensificação do comércio, mas não iriam ter futuro. Em 1433, os Ming interromperam bruscamente o envio de frotas para o mar ocidental.
Quatro anos antes (1429), ocorrera um acontecimento que alterou profundamente as estruturas seculares do comércio árabe. O sultão de Egipto, Barsbay, decidiu usurpar o monopólio do comércio das especiarias, o que teve como efeito o desmantelamento da rede dos mercadores karimi, que o dominavam desde o século xi. Os karimi refugiaram-se en Cambaia e em Calecute, onde se associaram aos comerciantes locais. Os

comerciantes marítimos do mar da Índia foram os maiores beneficiários destes acontecimentos, ocupando o campo deixado livre pela retirada dos Chineses e pelo declínio dos Árabes.


Assim, longe de ser algo imóvel e com tradições imutáveis, mundo do oceano Índico estava a alterar-se. A expansão do xiismo na Pérsia, a islamização da Indonésia, o controlo pêlos Guzarates da maior parte das redes comerciais provocaram transformações religiosas, económicas e sociais irreversíveis, as quais iriam, no seu conjunto, reforçar a influência do islão.
A pequena frota dos arcanjos estava igualmente a caminho abrindo uma rota para o futuro de que ninguém poderia então adivinhar as perspectivas.
CAPÍTULO V

A grande monção


Maré Barbaricum: o mais antigo mapa que desenha uma imagem quase exacta de África (1502) dá este nome à parte do oceano Índico que banha o litoral do Quénia e da Somália. Há que procurar o seu significado junto dos autores antigos, para quem os Bárbaros eram os estrangeiros, aqueles cuja civilização e cujas crenças eram diferentes. Não há dúvida de que os cartógrafos portugueses aplicaram esta designação em referência à «Berberia», ou seja, o Magrebe, porque já tinham compreendido que os portos da África Oriental pertenciam ao mundo islâmico.
Ao deixar a embocadura do Zambeze, a frota navegou durante seis dias a fraca velocidade, reduzindo o pano durante a noite. Estava cada vez mais quente, o mar tornava-se mais azul do que o céu, a costa parecia vermelha entre a brancura da espuma e o verde-escuro das árvores que orlavam as margens. Os homens tinham de evitar deslumbrar-se com o seu encanto, devido ao perigo de naufragarem nos recifes e se tornarem presa dos tubarões. Passaram em frente de três das pequenas ilhas Primeiras - duas arborizadas e uma calva. Nicolau Coelho, que ia à frente para sondar o fundo, avistou dentro em pouco um pequeno arquipélago, mais tarde chamado de São Jorge. Não se apercebeu do perigo e encalhou num banco de areia. Enquanto Vasco e Paulo da Gama o ajudavam a sair desta situação, estava uma frota de sete ou oito velas a sair de uma enseada situada

a uma légua dali. À medida que se aproximava, as atalaias anunciaram que os homens tinham a pele de cor de cobre, que pertenciam a um mundo novo. Enquanto os da Bérrio soltavam gritos de júbilo, Nicolau Coelho foi saudar o capitão-mor e perguntou-lhe: «Não vos parece, senhor, que estas são outras gentes?» Contente, Vasco respondeu-lhe que tinha a intenção de fazer escala no porto de onde vinham aqueles barcos, porque julgava poder saber aí novas da Índia.


Outras gentes e também outro mundo. Situada cinco quilómetros ao largo do continente, a pequena ilha de Moçambique era uma escala de abastecimento da rota do ouro. Não tinha água, mas havia porcos, cabras, galinhas e, sobretudo, limões, o remédio do escorbuto, cujas virtudes os portugueses iriam descobrir dentro em pouco. O porto da ilha abrigaria cerca de trinta navios, mas era apenas um satélite de Quíloa, uma das metrópoles fundadas no final do século X por príncipes emigrados da Pérsia e ligadas à grande rede islâmica do oceano.
As naus foram rodeadas por barcas e os seus ocupantes convidaram os portugueses a entrar, numa algazarra de anafis e de címbalos, como se fosse dia de festa. Eram pequenos e bem postos, estando vestidos com tecidos de algodão de faixas coloridas, que usavam como tangas ou enroladas «como capas». Alguns tinham a cabeça coberta por turbantes de seda bordada a fios de ouro e estavam armados com punhais e adagas. Dirigiam-se aos portugueses em árabe como se os conhecessem. Vasco deixou-os subir a bordo da capitânia e deu-lhes de comer e de beber, enquanto o intérprete Fernão Martins não parava de lhes fazer perguntas. Diziam-se súbditos de um «sultão» que na realidade era um governador. Afirmavam que estavam ali fundeados quatro navios de muçulmanos «brancos» - provavelmente guzarates -, com dois indianos cristãos a bordo. Haviam trazido têxteis, pimenta, gengibre, cravinho, rubis e anéis de prata com pérolas engastadas. Tudo isso era colocado sobre cestos, cheios até acima, e não havia regateio. Quanto ao ouro, chegava por outros caminhos.
Ao ouvir aquela língua familiar e a enumeração de tais riquezas, o capitão-mor não se permitia regozijar demasiado. Mas já os seus homens choravam de alegria, suplicando a Deus que lhes concedesse saúde para verem realizados os seus desejos. Os moçambicanos convidaram-nos a entrar no porto. Vasco reuniu o conselho dos seus

capitães, que o animaram a aceitar. Nicolau Coelho partiu para sondar a passagem, mas quebrou o leme no extremo da ilha e teve de se fazer ao largo para lançar âncora a dois tiros de besta do porto.


No dia seguinte, o governador foi visitá-los, convencido de que os portugueses não eram senão os turcos, de quem os marinheiros vindos do mar Vermelho lhe haviam feito uma descrição. Não tinham os recém-chegados também a pele clara, se bem que queimada pelo sol? Não possuíam alguns deles olhos claros? Avançou em direcção da Bérrio com ar altivo, envolto em tecidos de seda, sendo acolhido por Nicolau Coelho com grandes honras. O capitão havia compreendido o seu desprezo, mas evitou mostrá-lo. Ofereceu-lhe um capuz vermelho, ao qual o governador não ligou nenhuma, contentando-se em dar ao português o seu rosário de pérolas negras como penhor de segurança. Na ausência de um intérprete, a recepção foi de curta duração. O governador agradeceu aos marinheiros que conduziram o batel para terra convidando-os a ir à sua própria casa para comerem tâmaras moídas conservadas em cominhos e cravinho. Deu-lhes uma jarra com este preparado para que a entregassem a Nicolau Coelho, manifestando o desejo de ser recebido pelo capitão-mor em pessoa. Vasco mandou que lhe entregassem imediatamente chapéus e capas vermelhas, coral rosa, bacias de latão e colares de contas - tudo coisas que o governador considerou absolutamente desprezíveis, lamentando não lhe terem enviado peças de escarlata. A bordo da capitânia, as auriflamas são içadas nos mastros, prendem-se galhardetes à amurada. Vasco tem o cuidado de esconder os doentes e de trazer para bordo os homens mais vigorosos. Estavam todos secretamente armados, pois o capitão-mor temia uma traição.
A cilada não foi armada nem nesse dia nem nos dias seguintes. O governador visitou a capitânia várias vezes. Dava-se ares de grande importância e exibia as suas túnicas de algodão branco e as suas cabaias de veludo de Meca. Ostentava turbantes de seda e de veludo multicores, com bordados de seda, e adagas e punhais cinzelados. Escoltado por músicos com trombetas de marfim, instalava-se sob a tenda de bordo, e não se ia além de trocas de figos, tâmaras e doces,

tudo bem regado com vinhos portugueses. Enquanto a marinhagem gesticulava nos batéis, negociando bugigangas, os intérpretes afadigavam-se junto dos capitães. A sua tarefa era árdua e sem dúvida não isenta de erros, já que o árabe magrebino

que haviam aprendido em Marrocos era diferente do saber falado nos portos do oceano Índico. Confirmava-se que navegando para norte se encontrariam grandes cidades mercantis, que um soberano cristão vivia não longe dali, mas que o seu reino se situava no interior, sendo acessível apenas viajando de camelo. Estaria pois o Preste João tão próximo? Pêro de Alenquer e os seus companheiros descobriram que os pilotos locais utilizavam bússolas e quadrantes de tela. Surpreendidos, viram grandes barcos de cerca de oitocentas toneladas, com velas de palha entrançada; o casco era calafetado com laca e feito de tábuas ligadas por juntas de fibra de coqueiro, sem peças metálicas; até as âncoras eram de madeira, sendo o leme seguro por cordas. Como conseguiriam navegar as novecentas léguas que os separavam de Calecute, o maior porto do Malabar? Explicaram-lhes que tinham fundo chato para não encalharem nos baixios e poderem subir os estuários; e não havia pregos nem quaisquer peças de metal para não serem arrastados para os abismos do oceano, onde se encontravam rochas magnéticas.
O «sultão» recolhia igualmente informações. Perguntava aos capitães se eram turcos. Vasco retorquia que vinham de um grande reino vizinho do império destes. Não temia exagerar a importância de Portugal, pois conhecia a das relações de força. Quando o governador quis ver os seus arcos e os livros da sua lei, respondeu com uma demonstração de bestas e um desfile de couraças.
O deslumbramento afivelado pelo «sultão» dissimulava uma desconfiança crescente. Teria ele reparado na maldita cruz de Cristo sobre as armas e as velas deslavadas? Quando Vasco da Gama lhe pediu que arranjasse dois pilotos para navegarem entre os baixios, aceitou com a condição de que estes fossem pagos. O capitão-mor ofereceu a cada um trinta meticais de ouro e duas capas, mas exigiu que um deles permanecesse sempre a bordo. Não se sabe quais foram as segundas intenções do «sultão» ao negociar estas disposições, que talvez escondessem móbiles secretos. Alguns indícios de hostilidade mostraram aos portugueses que haviam sido reconhecidos como cristãos e que os rumores já corriam pela cidade. Vasco decidiu não se atardar, temendo que as naus fossem incendiadas.
A frota fundeou a uma légua dali, em frente a outra ilha onde, no dia seguinte, os homens iriam ouvir missa e comungar, coisa que

ainda não tinham feito desde a partida de Lisboa. Na sua precipitação, o capitão-mor deixara um dos pilotos em Moçambique. Confiou a frota a seu irmão Paulo e resolveu regressar ao porto na companhia de Nicolau Coelho, cada um num batel armado com uma bombarda na popa. Atitude sensata, pois depararam com barcas cujos ocupantes iam armados com azagaias e arcos com flechas muito compridas. Estes, por sinais, convidaram-nos a regressar a Moçambique. Vasco levara consigo o segundo piloto muçulmano, que o incitava a aceder ao que diziam, mas o capitão-mor desconfiou que queria fugir e mandou acorrentá-lo. As duas bombardas fizeram fogo e os assaltantes fugiram logo ao primeiro tiro. A chegada da Bérrio, alertada pelo barulho, acabou por derrotar as barcas, que regressaram à margem remando o mais depressa possível.


No dia seguinte, a missa foi dita à sombra das grandes árvores da pequena ilha. A frota começou a aparelhar, com um bom abastecimento de cabras, galinhas e pombos, que haviam sido trocados por contas de vidro amarelo. Carregaram-se cocos, cuja saborosa fibra, com gosto a noz e a amêndoa, tinham acabado de descobrir. As naus viraram a proa para norte, para, passado pouco tempo, entrarem numa zona de calmaria, sem o mais leve vento que animasse as velas, sem sequer o ruído da ressaca quebrando-se contra o casco. Dois dias depois, quando o velame voltou a estremecer, foi com um vento fraco que os empurrava para terra e para a corrente que ia para sul. De tal forma que, a 15 de Março, a frota encontrava-se novamente no ponto de partida, perante a ilhota onda a missa fora dita.
Foi este o início de duas semanas em que andariam à deriva. Tal esteve na origem de incidentes que teriam sido evitados se os pilotos portugueses conhecessem o regime dos ventos e das correntes que comandavam as saídas do canal de Moçambique. A sua ignorância testemunha que Vasco da Gama nunca tinha visitado estas paragens, onde só era possível navegar para o Norte em Abril, nas vésperas da grande monção,
Entretanto, havia que esperar fundeado, em frente do pequeno arquipélago em frente da ilha de Moçambique. Os contratempos impacientavam o capitão-mor, tanto mais que o piloto muçulmano que mantivera a bordo tinha um discurso onde as ameaças se misturavam com mirabolantes promessas. Vasco quis aproveitar esta escala

forçada para reaver o outro piloto que permanecera em Moçambique. O regresso da frota portuguesa não passou despercebido, e as barcas dos emissários não tardaram a aparecer. Primeiro, foi um sharif de tez clara - e também um «grande bêbedo», que parece ter apreciado muito o vinho de Portugal que os seus anfitriões lhe ofereciam, talvez sem suspeitar dos seus efeitos. Afirmou que o «sultão» lamentava não ter podido prosseguir as relações de paz e amizade cujos começos haviam sido tão agradáveis. Ao que Vasco respondeu que tal só seria possível se o piloto lhe fosse entregue. E o sharif despediu-se para não mais voltar.


Não tardou a que outra barca se aproximasse dos navios, desta vez ocupada por um homem e uma criança - um piloto e o filho que tinham vindo da Arábia para Moçambique. O homem ofereceu-se para guiar os portugueses até Melinde, de onde rumaria para Meca para regressar a casa. Foi muito bem recebido, tão ávido de informação sobre os países do mar Vermelho estava o capitão-mor.
Passou-se uma semana e a água começou a faltar. Era necessário voltar a Moçambique para ir à aguada de terra firme onde os habitantes costumavam abastecer-se. Na noite de 22 de Março, a frota aproximou-se do porto. À meia-noite, Vasco e alguns outros desceram aos batéis e aproximaram-se da costa. Um dos pilotos muçulmanos guiava-os, mas parecia mais interessado em conseguir escapar-se do que em mostrar-lhes a aguada. Mostrava-se muito confuso, como se quisesse baralhar as pistas, de tal forma que a busca durou até de madrugada e os portugueses regressaram aos navios de mãos a abanar. Na noite seguinte regressaram em maior número com o mesmo piloto, conseguindo desembarcar em frente da aguada. Ao longo da margem, estavam emboscados cerca de vinte mouros armados de azagaias, como se pretendessem impedir o acesso ao ponto de água. O capitão-mor ordenou que fossem disparados três tiros de bombarda, cujo barulho os fez desaparecer imediatamente na mata. Os portugueses puderam então retirar toda a água que quiseram. Só quando regressaram ao porto, ao pôr do Sol, repararam que um dos negros ao serviço do piloto da Bérrio faltava à chamada.
Não era apenas um homem, era também uma alma. Escravo ou marujo, o fugitivo havia sido baptizado; não deveria perder-se em terras do islão, onde seria tentado a converter-se. Todo o capitão-mor

velava pela salvação dos que lhe estavam confiados. Não era porque temesse a falta de homens que Vasco se sentia lesado. O fugitivo era um dos seus e tudo era um pretexto para o arrancar aos tormentos eternos. A mesma preocupação levá-lo-ia a tentar libertar dois indianos cristãos que se dizia estarem cativos em Moçambique. Os portugueses não suspeitavam que deveriam certamente ser mercadores cristãos do Malabar que se associavam livremente com os muçulmanos. Só tinham o Magrebe como referência e ainda não haviam tomado consciência da diversidade das sociedades islâmicas.


Na manhã seguinte, um mouro apareceu diante da frota. Da sua barca, gritou aos portugueses que fossem buscar água, caso o desejassem, insinuando que encontrariam na aguada algo que os faria mudar de opinião. O capitão-mor não era daqueles que se pudessem desafiar impunemente. Tinha o sangue quente e gostava das acções de vingança, que lhe pareciam ser apenas de justiça. Ordenou aos seus homens que embarcassem nos batéis armados, os quais foram arriados e se dirigiram para a margem. Porém, encontraram o acesso à aguada obstruído por uma paliçada de tábuas tão junta que era impossível ver o que se passava lá atrás. Os mouros deambulavam ao longo da praia com azagaias e escudos, arcos, punhais de ponta curva e fundas que acolheram os intrusos com uma chuva de pedras. Três horas durou o combate, até que foi aberta uma brecha na paliçada pelas bombardas. Os mouros tinham desaparecido entre as árvores, deixando dois mortos no terreno. Outros fugiram em almadias para um ancoradouro da ilha, enquanto os portugueses foram jantar nos seus navios. De noite, regressaram. Como no tempo em que faziam razias nas costas marroquinas, esperavam capturar alguns mouros para os trocarem pelo negro fugitivo e pêlos dois cristãos indianos. Só conseguiram capturar duas almadias. Uma pertencia ao sharife estava carregada com finos panos de algodão, cestos de fibra de palmeira, bocais de vidro cheios de líquidos diversos, cestos cheios de milho miúdo. Havia também uma rede, meadas de algodão, manteiga dentro de um vaso envernizado e livros escritos em árabe. Os quatro mouros que nelas seguiam também foram capturados, mas não foi possível negociá-los, já que não havia vivalma naquelas paragens. Os objectos foram distribuídos pêlos marinheiros e Vasco guardou os livros para os mostrar ao rei D. Manuel.

No dia seguinte, fizeram uma última aguada, o que constituiu ocasião para bombardearem novamente a aldeia vizinha cujos aterrorizados habitantes se escondiam nas suas palhotas. O capitão-mor queria saciar a sua sede de vingança, tal como haveria de fazê-lo tantas vezes. Os ventos, sempre contrários, obrigaram a frota a esperar mais algum tempo. A 29 de Março, rumou a norte, mas o vento mal enfunava as velas, pelo que não podiam ir contra a força das correntes, que continuavam a empurrar as naus para trás. À força de bordejarem, atingiram finalmente o arquipélago de Querimba, onde acostaram na primeira ilha para açoitarem um dos pilotos muçulmanos. Era acusado de ter mentido ao capitão-mor, afirmando que era ali o continente. Foi certamente vítima de uma ilusão de óptica, pois o Navegador Anónimo observa que nesse local «as ilhas são numerosas e muito chegadas umas às outras, de sorte que não podíamos distinguir entre elas.»


Tais ilhas sucediam-se ao longo da costa, verdes e aveludadas num mar de cor turquesa onde finalmente o vento se levantava. Os barcos da região conseguiam navegar a quatro braças do fundo entre terra firme e as ilhas, mas os pilotos portugueses preferiam avançar com prudência, andando às voltas, penetrando por vezes numa passagem, de onde podiam ver uma costa cheia de estuários, num fundo de montanhas cada vez mais altas. Não conseguiram aproximar-se de Quíloa, a maior metrópole da região, porque o vento de oeste os lançavam para o largo. Embora Vasco tenha ficado decepcionado, estava convencido de que os pilotos muçulmanos ainda ficaram mais:
não o tinham eles feito acreditar que Quíloa era terra cristã, para melhor o atraírem para uma armadilha mortal, que os teria vingado dos maus tratos recebidos? Entretanto, não cessavam de falar de outras ilhas e de outras cidades marítimas, onde cristãos e muçulmanos viviam em comunidades separadas, como em Mombaça, um grande porto situado a quatro dias por mar. Seduzido por tais relatos, Vasco, na sua desconfiança, acusava igualmente os pilotos de alimentarem os mais negros desígnios. Contudo, toda a tripulação acreditou quando prometeram para o dia seguinte uma missa numa igreja. Mas iriam os cristãos de Mombaça proporcionar aos seus irmãos de fé os meios para prosseguirem a sua rota? Tinham já morrido muitos homens e outros tantos tremiam de febre sob as pontes tórridas. O conselho dos capitães decidiu que Mombaça seria a escala seguinte.

Ao largo de Zanzibar, um forte vento de oeste lançou as naus para os baixios, onde a São Rafael ficou presa durante a noite, devido à maré baixa. A tripulação das outras duas naus desembarcou na praia, à espera que a maré permitisse a partida. Tiveram tempo para admirar as montanhas de Usumbara, dando-lhes o nome do navio encalhado. Foi uma escala aprazível. Receberam a visita de mouros que lhes levaram laranjas doces. Dois deles desejavam ir para Mombaça e ofereceram-se para os conduzir. Dia 7 de Abril, ao cair da tarde, a cidade surgiu, destacando-se contra o céu vermelho do Poente. As auriflamas voltaram a esvoaçar nos mastros dos navios ancorados no porto, enquanto as sombras das muralhas de uma fortaleza se alongavam sobre a praia. Vasco ordenou que se içassem os estandartes, mas permaneceu prudentemente afastado do porto.



Enquanto a noite caía, as barcas afluíam, rodeando um grande veleiro onde se encontrava uma centena de homens armados com alfanges e escudos. Queriam todos subir a bordo, mas Vasco recebeu apenas alguns, que não perderam pitada do que podiam observar à luz das candeias. No dia seguinte, o sultão de Mombaça mandou entregar ao capitão-mor uma ovelha, laranjas, cidras, cana-de-açúcar e um anel como garantia de que podia ir a terra. Vasco enviou dois mensageiros de paz, sem dúvida degredados, que passearam por toda a cidade e nos pátios do palácio real. Foram conduzidos para uma casa «cristã», onde lhes mostraram uma imagem sagrada na qual jugaram reconhecer a do Espírito Santo. Mas nada de missa. A comunidade cristã era pouco numerosa, provavelmente constituída por mercadores malabares pouco interessados em misturar-se com estrangeiros desconhecidos. Os emissários portugueses regressaram com amostras de especiarias e espigas de trigo primaveris, em jeito de convite para irem carregar no porto. Quando a frota portuguesa levantou âncora para aí entrar, seguiu-se tal confusão à sua volta que os dois pilotos moçambicanos aproveitaram para mergulhar na água. Foram recolhidos por uma grande vela que aí se encontrava.
Este gesto foi sentido pelo capitão-mor como sinal de traição. ] Mandou suspender a manobra e prender dois dos mouros que se ; encontravam a bordo, a fim de os interrogar. Enquanto o azeite ’ quente lhe caía gota a gota na pele nua, um deles confessou que se l tinha armado uma cilada aos portugueses, que iriam ser cercados,

mal entrassem no porto. O seu companheiro não esperou pela tortura:

lançou-se à água com as mãos presas. O outro fez o mesmo durante o quarto da madrugada.

A porta do castelo da popa, Vasco contemplava Mombaça, que despertava na aurora ardente. A chamada dos almuadens recordava-lhe as cidades marítimas de Marrocos, tão longínquas e diferentes. Aqui as casas não eram brancas, apenas algumas casas de pedra que se erguiam entre a massa castanha das palhotas; no horizonte não se via o deserto, mas a savana que subia pelas encostas das montanhas. Em contrapartida, o islão estava bem presente, o islão que reencontrava depois de ter atravessado tantos mares e rios. E se era um prenúncio de que a Índia estava próxima, transportava também em si as ameaças da guerra que seria necessário travar para lá chegar. A meia-noite, as naus foram assaltadas por nadadores, que vinham cortar as amarras; outros conseguiram trepar pêlos cabos da São Rafael, antes de serem repelidos. Tinham actuado com tal discrição que os homens de quarto os tomaram por golfinhos.
A prudência do capitão-mor estava a um passo de se tornar desconfiança. Agora, essa certeza enfurecia-o, e qualquer pretexto servia para justificar toda a violência. O afastamento da pátria e a precariedade da situação aumentavam ainda mais a sua fúria. Quando examinava as velas remendadas, os cascos onde o alcatrão derretia sob o calor do sol, abrindo perigosas fendas, quando observava os seus homens exaustos que jaziam sob a ponte, quando pensava nos outros que o abismo do oceano tragara, a cólera tomava conta dele. As «aleivosias tramadas por aqueles cães» não o afastariam da rota da Índia. Se tinha falta de homens, arranjá-los-ia e obrigá-los-ia a manobrar o navio. No dia seguinte, quando navegava para norte, capturou uma embarcação com dezassete homens, sem contar com um mouro idoso e a sua jovem esposa. Para escaparem aos infiéis, todos se deitaram ao mar. Foi necessário içá-los a bordo um a um para os capturar vivos. Também eles foram torturados para se saber se haveria entre eles um piloto.
Também no outro campo surgia a desconfiança. Doravante, a frota dos arcanjos seria precedida por uma reputação funesta. Almadias e zambucos de Moçambique espalhavam o relato das suas vilanias em todas as cidades costeiras. Demasiadamente pouco numerosos

para serem considerados inimigos, os portugueses eram então vistos como piratas cristãos. Certamente terá sido isto o que o velho mouro explicou a Vasco da Gama. Ofereceu-se para o apresentar ao sultão de Melinde, um porto onde a frota poderia fundear logo ao cair da tarde. Era a escala da última oportunidade.


O talento de Pêro de Alenquer e dos seus émulos para nada servia nestes mares desconhecidos. Como nos primeiros tempos da descobertas, tinham de navegar durante o dia e recolher as velas à noite. Vasco estava tão ansioso por encontrar um piloto para a índia que ouviu o conselho do velho. Mandou que o deixassem num banco de areia em frente da baía de Melinde, onde não tardou que fosse recolhido por uma almadia. Não há dúvidas que soube convencer o sultão das intenções pacíficas do capitão-mor, pois regressou a bordo no dia seguinte acompanhado por dois notáveis, numa grande vela carregada com ovelhas e citrinos. Vasco recebeu um anel como garantia, mas declinou o convite do sultão para ir ao palácio, alegando que o seu rei e senhor não permitia que o fizesse. Enviou-lhe um manto vermelho e um chapéu à moda portuguesa, dois ramos de coral, guizos e três bacios.
Foi enviado outro mensageiro a bordo da capitânia, levando consigo ovelhas e especiarias. Já que o capitão-mor não estava autorizado a desembarcar, poderia ir num batel até à margem, onde o sultão viria ao seu encontro? Assim foi: com um sumptuoso turbante, envolto num manto de damasco vermelho debruado a cetim verde, o sultão foi transportado para a praia num palanquim de bronze, abrigado por um guarda-sol de cetim carmesim. Enquanto o batel engalanado do capitão-mor se afastava da frota, instalou-se com o seu séquito num grande barco onde os músicos já tinham tomado o seu lugar. O toque de duas trombetas de marfim do tamanho de um homem e um conjunto de anafis saudaram o encontro. Vasco era acompanhado pêlos doze gentis-homens mais nobres da frota, tendo Paulo da Gama permanecido no ancoradouro para assegurar a protecção das naus. Tendo o sultão manifestado o desejo de entrar no batel do capitão-mor, «para o ver de mais perto», tiveram ambos «uma longa e boa conversa». Vasco anunciou a libertação dos homens capturados nas águas de Melinde alguns dias antes, para grande satisfação do sultão, que prometeu dar-lhe pilotos para a índia.

A escala em Melinde iria permanecer na memória colectiva portuguesa como um momento privilegiado da história das Descobertas. O acolhimento dado aos portugueses pelo sultão foi imediatamente atribuído à «vontade de Deus», que o tinha inspirado. No dia de Páscoa, depois de tantas infelicidades, a esperança foi reencontrada. Durante os nove dias que a escala durou, os homens da tripulação puderam saciar-se de laranjas doces e deliciar-se com carnes e deleitáveis legumes de que os jardins da vizinhança, irrigados com noras, eram tão generosos. Comparavam a cidade à portuguesa Alcochete, com as suas muralhas, as suas casas caiadas, num fundo de palmeirais que ondeavam aos primeiros ventos do início da monção.


Tudo lhes evocava a Índia, as especiarias, os têxteis e os homens. Pela primeira vez, descobriam a rede existente à sua volta, da qual Melinde era um dos pontos extremos. Os seus habitantes eram maioritariamente bantos, mas quando a cidade se animava ao cair da noite, cruzavam-se no porto com árabes, com turbantes e de tronco nu, a parte inferior do corpo envolta num longo pano de algodão ou seda. Encontravam também mercadores da Índia, a que se dava o nome de guzarates, que dentro em pouco se tornaria familiar aos ouvidos portugueses, pois iriam encontrá-los em toda a parte. Vinham a Melinde buscar ouro, âmbar, marfim, que trocavam por tecidos de algodão, couro e mercúrio.
Havia quatro navios ancorados no porto com cristãos do Malabar a bordo. Os portugueses nem queriam acreditar neste novo sinal da divina providência, depois das falsas alegrias de Moçambique e dos decepcionantes encontros de Mombaça. Mas aqui, parecia tratar-se de verdadeiros cristãos, membros da Igreja do apóstolo S. Tomé. Vieram em pessoa saudar os portugueses, maravilhados por encontrarem homens de pele escura que não eram africanos. Eram pequenos e magros e usavam grandes barbas e longas tranças negras que lhes cobriam as costas nuas. Falavam uma língua com tons metálicos que os intérpretes portugueses não compreendiam. Recusavam-se a comer carne bovina, mas prosternaram-se para rezar diante de um retábulo de Nossa Senhora que o capitão-mor lhes apresentou para pôr à prova a sua fé. Alguns sabiam algumas palavras de árabe e contaram que não vinham de Calecute mas de Cranganor, onde de facto existia uma importante comunidade cristã. Advertiram igualmente o capitão-mor contra a «malícia» das gentes de Melinde.

Entretanto, os recém-chegados pareciam ser para o sultão uma inesgotável fonte de distracção. Para o Navegador Anónimo, a estada em Melinde não foi senão «folguedos e justas a pé com muita música». Os guerreiros africanos faziam paradas ao longo da praia com os seus alfanges de punho de prata cinzelada, com os seus arcos e flechas. A festa atingiu o auge numa noite em que, à luz dos archotes, dois cavaleiros mimaram um torneio à sua moda, enquanto os batéis portugueses, bombardas à popa, deslizavam entre os navios. Os cristãos malabares dispararam salvas à sua passagem, aclamavam-nos gritando «Cristo!», no meio do estrondo do fogo-de-artifício. O sultão desceu num palanquim a escadaria do palácio e reuniu-se a Vasco da Gama no seu batel. Rogou-lhe novamente que fosse visitar o seu pai, que estava paralítico e ansiava por os conhecer. Mas o capitão-mor foi inabalável, tanto mais que os cristãos do Malabar tinham reiterado os seus avisos.


Passaram dois dias sem que o sultão desse qualquer sinal de vida. Finalmente, enviou um dos seus favoritos à capitânia. Mas a desconfiança de Vasco da Gama estava novamente desperta. Tomou o senhor africano como refém, até que o piloto prometido pelo sultão subiu a bordo.
Ainda não se dissolveu o mistério quanto à identidade daquele que conduziu os portugueses para a costa indiana. Tinha os títulos de moualim («mestre da navegação» em árabe) e de kanaka (do sânscrito ganika, «astrólogo»). O Navegador Anónimo afirma que era cristão, os cronistas dizem-no guzarate. As duas versões são aceitáveis, mas uma e outra refutam a crença ainda muito difundida segundo a qual o famoso piloto árabe Ibn Madjid guiou Vasco da Gama, o que foi definitivamente infirmado pêlos trabalhos da mais recente historiografia.
A 24 de Abril, a frota dos arcanjos rumava em direcção à Índia. O vento da monção enfunava finalmente as velas. As naus avançavam pelo oceano cintilante, por vezes escurecido pela sombra das nuvens. No compartimento dos mapas, Vasco da Gama e Pêro de Alenquer tinham longos conciliábulos com o piloto indiano, que compreendia o italiano. Este mostrou-lhes um desenho que supostamente representava o litoral da Índia. Cobria-o uma quadrícula de linhas de latitudes reais e de longitudes virtuais, sem qualquer rosa-dos-ventos. Orgulhoso

Vasco mostrou-lhe o grande astrolábio de madeira e os pequenos de metal, mas o moualim kanaka não ficou surpreendido. Já tinha visto instrumentos semelhantes, feitos de latão e com forma triangular, entre os pilotos do mar Vermelho. Como todos os seus colegas indianos, preferia medir a altura das estrelas com o auxílio do kamal



- três pequenas tábuas de madeira ligadas entre si por uma corda com nós. Ignorava a prática das voltas e navegava de uma costa para a outra correndo pela latitude. A unidade de medida árabe, denominada isba, era diferente dos graus utilizados no Ocidente, como o iria descobrir em 1500 mestre João, o piloto de Cabral.
Com o vento, o mar estava cada vez mais alteroso, o que tornava impossível a utilização dos astrolábios. O moualim kanaka procurou a rota entre as constelações que as nuvens cada vez mais pesadas lhe ocultavam. Nas noites de tempestade, via-se a sua silhueta à luz dos relâmpagos, que subitamente iluminavam os mastros cambaleantes. Quando encontrou a Estrela Polar, o júbilo foi tal que foi disparada uma salva. Depois de já terem descoberto tantos países desconhecidos, capitães e pilotos tinham a certeza de que não estavam perdidos num mundo sem fim. Tinham dado um novo rosto ao Universo, tinham aberto perspectivas que nem Ptolemeu nem nenhum outro homem alguma vez suspeitara desde o começo do mundo.
A monção tinha chegado muito cedo nesse ano. Após três semanas de navegação, o vigia que, sob a chuva, perscrutava o horizonte teve dificuldade em avistar terra, embora se pudesse já aspirar o aroma da sua vegetação. A 18 de Maio de 1498, uma grande falésia surgiu entre os vapores do continente escaldante. Era o monte Eli, o promontório sagrado do deus Xiva, que anunciava a índia aos navegantes.
CAPÍTULO VI

Calecute. Especiarias, pedrarias e humilhações




Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   16


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal