Genevieve bouchon vasco da gama



Baixar 1.02 Mb.
Página6/16
Encontro15.04.2018
Tamanho1.02 Mb.
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   16
Prestígio de um reino
Malabar é o nome dado pêlos navegadores à costa sudoeste da índia. Significa o «país das Montanhas», porque são elas que se impõem ao olhar de quem vem do mar. A cordilheira dos Gates Ocidentais estende-se paralelamente ao oceano como uma muralha atravessada por algumas passagens na direcção do Decão e da região tâmi. Nas suas encostas baixas, a pimenta cresce em estado selvagem. Mais de quarenta rios descem dos cumes até à faixa arenosa que guarnece a costa orlada de coqueiros.
As florestas e as montanhas contribuíram para dar ao Malabar uma civilização original. Empurrado para o oceano, abre-se às influências dos países ribeirinhos. Tudo o predispõe para isso: a presença de madeiras de construção imputrescíveis e da fibra de coqueiro necessárias para a construção dos navios; a direcção das correntes de água que transportam para o mar os produtos do interior; uma costa recortada a norte por estuários tortuosos onde se abrigam os portos, a sul pelo labirinto das lagunas; sobretudo a monção, que empurra para as suas costas as velas vindas do mar da Arábia. A monção desencadeia-se geralmente nos primeiros dias de

Mapa: O Querala (Kerala) e a Índia do sul no princípio do século XVI

Junho, terminando em Setembro, e marca o ritmo da vida tanto económica como política da região, impondo aos portos a alternância dos períodos de actividade e dos meses de isolamento.
Querala é o verdadeiro nome do Malabar, o do Império Hindu que o dominou até ao século XII, ao qual quase todos os reis e senhores da região pretendiam ligar a sua linhagem. Naquela época, Calecute não passava de uma aldeola de pescadores, enquanto Cranganor e Coulão atraíam os navios de todos os portos do oceano. Coulão foi destruída no princípio do século XII, quando da invasão dos Cholas do Choromândel, que dividiu o Querala em vários reinos. O porto conseguiu renascer das suas cinzas, mas foi atingido pouco depois pela concorrência de Eli, no sopé do promontório do mesmo nome, onde uma comunidade muçulmana estava firmemente implantada. É em 1343, quando o viajante tangerino Ibn Battuta visita o Malabar, que Calecute surge subitamente como o maior porto do Querala, cuja fortuna eclipsa todos os outros.
As origens de Calecute pem em destaque a posição excepcional de que desfrutariam as comunidades muçulmanas da cidade. Aproveitando as desordens que se seguiram ao desmembramento do império do Querala, o rajá de Ernâd - um pequeno reino do interior instalou-se em Calecute e aproveitou-se da destruição de Coulão para acolher no seu porto os navegadores árabes. Ernâd era um país pobre, o seu rei não tinha o menor prestígio dinástico, apoiava-se em brâmanes de origem suspeita e em templos que lhe eram disputados pêlos seus vizinhos. Foi ao dar uma oportunidade ao islão que os rajás de Calecute conseguiram conquistar o poder temporal. Nunca se converteram à fé do Profeta, mas souberam legitimar a presença dos muçulmanos associando-os a um ciclo de lendas ligadas às tradições do antigo Império Hindu. Na época da chegada dos Portugueses, contava-se que o último imperador recebera em sonhos a revelação mística do islão. Dividira o Querala entre os seus sobrinhos, antes de partir em peregrinação a Meca, donde não regressara. Situado entre os reinos de Eli e de Coulão, o território de Calecute fora deixado ao mais jovem herdeiro, com a missão de acolher e proteger os muçulmanos e a promessa de um futuro prestigioso.
Embora as lendas fossem, na época, um poderoso meio de propaganda, a realidade era muito diversa. Como vimos, as actividades

do comércio transoceânico expunham os mercadores hindus a inevitáveis máculas. As interdições das viagens de longo curso eram particularmente rigorosas no Querala. Por isso, o islão descobriu imediatamente a sua principal função social, tanto mais que beneficiava de uma rede de mercadores marítimos já estabelecidos na maior parte dos portos, desde Quíloa até Cantão. Em Calecute, esta sociedade de muçulmanos das mais variadas origens desenvolvera-se e dinamizara-se porque conseguira ocupar um lugar nas estruturas sociais, enquanto era posta de lado nos outros portos do Malabar.


Os muçulmanos de Calecute fizeram a fortuna da cidade, cujo apogeu pode situar-se na segunda metade do século XV, nas vésperas da chegada de Vasco da Gama. Fenómenos naturais recentes tinham contribuído para impor a sua supremacia: uma inundação do rio Periyar invadira o porto de Cranganor e o avanço de um cordão litoral fechara o de Eli.
Enquanto a costa desfila diante dos olhos do capitão-mor, o moualim kanaka enumera-lhe nomes de cidades e rios com sonoridades estranhas: Matayi, Cananor, Dharmapatam, Mahi, Pantalayini-Coulão. De repente, as montanhas tornam-se mais altas, mais azuis na sombra das nuvens. O litoral está alagado pela chuva, orlado de palhotas e de barcaças puxadas para a areia. Quando o piloto anuncia a entrada nas águas de Calecute, a alegria explode a bordo da capitânia, depois faz-se silêncio para cantar o Salve Regina, em breve repetido pela tripulação das outras duas naus. A costa de Calecute é inóspita, sobretudo quando é fustigada pela monção. Os navios têm de se abrigar nas embocaduras dos rios próximos ou em portos satélites habitados por pescadores e reparadores de velas. O kanaka aconselha Vasco a ancorar em Kappatt, no sopé das falésias que assinalam a foz do rio Elattur.
O perfil insólito das naus não tarda a atrair as barcaças dos pescadores. Logo no dia seguinte, 21 de Maio, escoltam até Calecute a chalupa de um degredado cujo nome caiu no esquecimento. Logo que desembarca, é rodeado pela multidão que solta exclamações e se interroga: Que fato estranho! Será de uma comunidade islâmica desconhecida? O recém-chegado não compreende árabe mas, na dúvida, conduzem-no para uma casa muçulmana. Grande é a sua

surpresa quando ouve uma saudação em castelhano: «Diabos te levem! Quem te trouxe aqui?»


Dois mouros magrebinos estão de pé diante dele. Há seis meses que saiu de Portugal e é a primeira vez que ouve uma língua das Espanhas. De repente, o mundo fica mais pequeno, como se dois oceanos tivessem deixado de o separar da Península Ibérica. Um dos mouros pergunta-lhe: «Que viestes procurar tão longe?» E o mensageiro responde-lhe: «Cristãos e especiarias.»
Os mouros espantam-se então por nem o rei de Castela nem o rei de França nem a senhoria de Veneza terem enviado ninguém. O degredado responde que o rei de Portugal não consentiria em tal coisa e os dois mouros dão-lhe razão. Recebem-no bem, oferecem-lhe mel e pão de trigo candial, que é coisa rara. Dizem-se tunisinos e parecem felizes, tão longe do seu país, por encontrar um homem dos Algarves. Um deles escolta-o até à São Gabriel. O Navegador Anónimo toma nota das suas primeiras palavras: «Buena ventura! Buena ventura! Muitos rubis, muitas esmeraldas! Muitas graças deveis dar a Deus, por vos trazer à terra onde há tanta riqueza!» E o Navegador Anónimo acrescenta: «Estávamos tão assombrados que o ouvíamos falar sem conseguir acreditar que houvesse, tão longe de Portugal, alguém que compreendesse a nossa língua.»
Todos deram graças a Deus, chorando de felicidade. Vasco da Gama abraçou o tunisino e fê-lo sentar ao seu lado. Perguntou-lhe se era cristão, mas ocultou o seu desgosto quando soube que era muçulmano e se chamava Monsaid*. O capitão-mor garantiu-lhe a sua amizade, afirmou-lhe que era o homem mais feliz do mundo por o ter encontrado. Não era o seu aparecimento sinal da vontade divina? Sem ele, que proveito teriam os portugueses, depois de tantos sofrimentos, medos e perigos?
Monsaid declarou que conhecia os portugueses. Não estava ele em Orão quando de uma escala do Rainha, um navio de mil toneladas armado por D. João II? Monsaid exprimia-se em castelhano, por vezes em genovês e dava conselhos que o capitão-mor não desdenhava escutar. Se queria ser bem recebido pelo samorim, devia apresentar-se como embaixador do rei de Portugal e declarar que vinha estabelecer
Nota: Por vezes também chamado Bartaibo.

relações comerciais. Era a única coisa que interessava ao rajá de Calecute, tantos eram os lucros que obtinha com as taxas do comércio.


Espalhou-se a notícia da chegada de navios como nunca tinham visto. O capitão-mor enviou Monsaid e o intérprete Fernão Martins para informar o rajá da chegada de um embaixador do rei de Portugal, portador de credenciais. De acordo com o costume dos soberanos hindus, o rajá vivia longe do porto, com a sua família, os seus adivinhos e os seus brâmanes, num palácio situado no sopé das montanhas. Dispunha, na cidade, de outra residência, onde recebia os embaixadores e os homens de negócios que vinham pagar-lhe o ouro da pimenta de que tinha o monopólio. Recebia-os em quatro salas de audiência diferentes - para os hindus, os muçulmanos, os cristãos e os judeus. Essa residência incluía um mirante donde observava o movimento dos navios. Pois, se a terra era o seu reino, ostentava também o título de Samuttiri («senhor do oceano»), para que ninguém tivesse pretensões de reinar sobre os mares.
Era no seu palácio da cidade que o samorim se propunha receber Vasco da Gama. Pôs-se a caminho, logo que recebeu a sua mensagem, não sem antes ter mandado entregar-lhe algumas fazendas preciosas. Enviou-lhe também um piloto, encarregado de o conduzir a Pandarane*, a norte de Kappatt, onde atracavam então os navios estrangeiros. O porto era melhor, mas mais afastado de Calecute. Prudentemente, o capitão-mor mandou fundear à entrada da enseada.
Ao cair da noite, recebeu uma mensagem do kotwal de Calecute que viera ao seu encontro por via terrestre e o esperava à beira-mar para o conduzir ao palácio real. O capitão-mor reuniu o conselho. Devia ir a terra apesar das instruções de D. Manuel, mesmo sendo acompanhado pelas mais ilustres personagens da esquadra? Paulo da Gama recusou-se e opôs-se energicamente ao irmão; pois, se havia cristãos em Calecute, também havia mouros. Não tinham eles tentado matá-lo em Moçambique e em Mombaça e não viriam eles a ter boas razões para o fazer, ao saber que os Portugueses pretendiam ocupar um lugar no mercado das especiarias? Que outro fosse negociar em seu lugar e que ele se protegesse para acabar de cumprir a sua missão.
Nota: Adoptamos aqui a forma portuguesa de Pantalayini-Kollam.

Todos reiteraram as palavras de Paulo da Gama. Mas Vasco respondeu que correria os seus riscos. Nada o impediria de se encontrar com o samorim, para ver se poderia fazer com ele um tratado de paz, de amizade e de especiarias. Era importante levá-las para Lisboa, com outras mercadorias da região, para apresentar a prova irrefutável de que os Portugueses tinham ido a Calecute. «A honra deste assento, se nosso senhor quizer que o eu tome, não darei eu por nenhum preço, e el rei não o poderá tomar com outrem melhor que comigo... Se por meus pecados me matassem ou prendessem melhor será acontecer-me por fazer o que devia, que ficar vivo sem o fazer. [Mas] se [tal] me acontecesse, vós senhores ficais no mar, e em bom navios como souberdes acolhei-vos e levareis novas de nosso descobrimento.*» Quando o viram tão decidido, deixaram-no ir, não sem escolher os doze companheiros que deviam escoltá-lo. O Navegador Anónimo, os três escrivães - Diogo Dias, João de Sá e Álvaro de Braga - faziam parte do grupo.


Embarcam todos no dia seguinte, 28 de Maio, em chalupas carregadas de artilharia ligeira, de bandeiras e de trombetas que soam sem parar, até terem desembarcado. Rodeado de guardas armados, o kotwal espera-os. O capitão-mor é içado para um palanquim coberto por um guarda-sol que desempenha a função de guarda-chuva. Os outros portugueses terão de seguir a pé.
Baloiçado pelo andar dos seus carregadores Vasco maravilha-se por estar na Índia, mesmo se à sua excitação se junta a ansiedade. O seu olhar detém-se nos guerreiros que o escoltam. São tão escuros como os Africanos, mas os seus cabelos lisos e a as suas feições finas impossibilitam qualquer confusão. São de uma extrema agilidade. Seguem em tronco nu, com uma peça de seda à volta das ancas, uma faixa na testa, armados com uma espada, uma adaga e uma maça vermelha ou preta. Vasco calcula que são mais de uma centena aqueles que o rodeiam de perto. Pertencem à casta dos naires, dedicados até à morte à pessoa do rei. Instruídos desde a mais tenra idade em academias militares, sabem manejar a lança, disparar com arco e por vezes com espingarda.
Nota: * Castanheda, 1/16,

O cortejo avança sob os coqueiros molhados pela chuva, ao ritmo dos tambores que nem sempre cobrem o pipilar de pássaros sem conta. Vasco perdeu de vista os seus companheiros que têm dificuldade em seguir o seu palanquim, de tal maneira os pés se lhes enterram na areia do caminho. Volta a encontrá-los em Kappatt, onde fazem uma paragem para comer uma refeição de peixe e arroz de manteiga acompanhado de jacas, mangas e bananas, mas o capitão-

-mor recusa qualquer alimento. Os indianos eclipsaram-se para comer numa casa próxima. E a primeira experiência que os portugueses têm do sistema de castas, que não permite que comam à mesma mesa com inferiores ou estrangeiros.
Embarcam-nos de novo numa jangada - uma espécie de balsa feita com duas almadias ligadas uma à outra. Ao subir o rio Elattur, o capitão-mor só tem olhos para os grandes barcos puxados para a margem, alguns enfiados dentro de buracos cobertos de esteiras de palma para os proteger das águas da monção. Do outro lado do rio espera-o um palanquim, e o cortejo retoma a sua marcha no calor húmido. À medida que se aproximam de Calecute, as aldeias tornam-

-se mais numerosas, ao ponto de já só formarem uma fila de casebres com as paredes forradas de palmas. Apesar da chuva, a multidão sai de todo o lado, tão densa que parece jorrar «aos milhares a cada passo». As pessoas caminham ao ritmo do cortejo, as mulheres com os filhos nos braços. O capitão-mor crê que são todos cristãos, embora os seios nus das mulheres lhe pareçam pouco conformes ao pudor evangélico.


Param num templo que os portugueses tomam por uma igreja «tão grande como um mosteiro, toda de pedra trabalhada. Na porta principal, há uma coluna de bronze, tão grande como um mastro e rematada com uma ave que parece um galo, e uma outra coluna muito grossa, do tamanho de um homem». O Navegador Anónimo ignora que uma ostenta o emblema de Calecute e que a outra representa o linga, membro viril do deus Xiva. Encostados à parede, alinham-se sete sinos e, no meio do templo, há «um campanário todo em pedra com uma escada... A porta é de bronze e no seu interior está uma pequena imagem, diz-se que é Nossa Senhora». Os portugueses não podem entrar nessa capela onde só podem entrar os brâmanes - «certos homens que usam cordões sobre o ombro esquerdo

e debaixo do braço direito». Aspergem os recém-chegados com «água benta» e dão-lhes «uma lama branca para pôr na testa».


Vasco da Gama lança-se de joelhos e reza diante da porta do santuário interdito, enquanto João de Sá, o escrivão da São Rafael, contempla as paredes em que há «santos» pintados que ostentam «diademas». Acha-os feios como demónios, espanta-se por causa dos seus múltiplos membros, dos dentes que lhes saem da boca e da falta de pudor das «santas». Enquanto o capitão-mor mergulha em oração, a dúvida apodera-se de João de Sá: «Se é o Diabo, diz ele, ajoelhando-se, eu adoro o verdadeiro Deus*.»
O cronista acrescenta que Vasco lhe responde com um sorriso. Devemos daqui concluir que não se deixou enganar pelas aparências? Se é pouco provável que tenha fingido adorar a deusa para comprazer os malabares, como teria ele incorrido no pecado de idolatria, o mais grave de que um cristão pode tornar-se culpado? Podia ter-se deixado iludir por certas semelhanças: as aspersões de água e as centelhas das lamparinas de óleo, o fumo de incenso e a salmodia dos sacerdotes, e até a lama que traziam na testa como os cristãos na Quarta-Feira de Cinzas.

O cortejo retomou a sua marcha, parando noutro santuário, depois encontrou a escolta do irmão do kotwal que o samorim enviara para conduzir os recém-chegados. «Tinha com ele muitos tambores, anafis e flautas de cana, bem como uma espingarda que disparava diante de nós», escreve o Navegador Anónimo. Os naires eram inúmeros, calculados em dois mil à primeira vista. A multidão avançava de todo o lado. Os telhados alagados em chuva estavam apinhados de gente, ao ponto de Vasco não conseguir ver a cidade;


mas estava tão feliz por ser recebido «com mais deferência que a Espanha reservava aos reis» que ria, dizendo aos seus companheiros:

«Quantos teriam acreditado em Portugal que eles nos receberiam com tanta grandeza?»**


Uma hora antes do cair da noite, o cortejo chegou ao palácio real. Os primeiros pátios fervilhavam de gente de tal maneira que os guardas tiveram de abrir caminho à força com uma chuva de bastonadas.
Nota: •! Castanheda, 1/16. ” Castanheda, 1/17.

A última porta dava para uma residência escorada por traves de madeira trabalhada, diante da qual esperava um ancião vestido de branco: era o conselheiro privado do rajá, um brâmane cuja presença lhe conferia uma legitimidade sagrada. Cabia-lhe introduzir os emissários portugueses junto do samorim.


Foi uma visão esplendorosa na penumbra. Ao cimo de um estrado drapeado de veludo verde, o rei de Calecute soerguia-se no seu leito coberto por um pano bordado com rosas de ouro. A sua tiara cintilava de pérolas e pedrarias. Outras brilhavam nos seus braços, nos seus dedos e até nas suas orelhas, mesmo quando se mantinha imóvel. Vasco e os seus companheiros saudaram-no erguendo as mãos unidas. Sabiam que deviam manter-se à distância, abster-se de escarrar e arrotar e só falar ao rei ocultando a boca com a mão esquerda para não o macular com o seu bafo. Observavam os tecidos de seda multicolorida que forravam as paredes, a túnica de musselina branca do rajá, fechada por enormes pérolas em botoeiras de fio de ouro. Também de ouro eram as manilhas que revestiam as suas pernas nuas. Igualmente de ouro era a grande bacia onde um velho brâmane preparava os seus pedaços de bétel e a outra em que os cuspiam.
O samorim fez sinal a Vasco para que se aproximasse, enquanto os seus companheiros tomavam lugar num banco de pedra. Deram-lhes água para refrescarem as mãos e depois jacas e bananas que aceitaram de boa vontade. Os samorim ria a vê-los comer, e o seu contentamento atingiu o auge quando eles pediram de beber. Como lhes tinham dito que os Malabares bebiam de alto com receio de macular os lábios no contacto com um recipiente, quiseram fazer o mesmo, mas não sabiam como. Alguns engasgaram-se e começaram a tossir, outros não acertavam com a boca. A água escorria-lhes pelo rosto e corria pelo peito, com grande satisfação do samorim.
Depois de se ter divertido bastante, retomou uma atitude hierática para ordenar a Vasco que se dirigisse aos notáveis que ali se encontravam. O capitão-mor ressentiu-se da ofensa. Mandou dizer através do seu intérprete que era o embaixador do rei de Portugal e que os reis cristãos não costumavam receber as embaixadas por intermédio de terceiras pessoas. Declarou que, visto que assim era nos países donde vinha, só trataria com o soberano em pessoa. O rajá de Calecute inclinou-se. Mandou passar Vasco para um pavilhão

vizinho, onde estava armado outro estrado e para onde o samorim foi imediatamente transportado com os seus panos e os seus coxins.


A entrevista realizou-se apenas na presença de dois brâmanes, um feitor e dois intérpretes - Fernão Martins para o árabe, o do samorim para o malaiala. Às perguntas feitas pelo rajá, Vasco respondeu que era o embaixador do rei «do cabo do Ocidente», senhor de um reino principal chamado Portugal e de muitos outros ainda, que era muito poderoso e muito rico e tão provido de ouro e de prata que não tinha outra preocupação além de procurar outros soberanos cristãos. Havia setenta anos que os reis de Portugal sabiam que os havia na Índia e que o mais prestigiado era o de Calecute. Tinham-no mandado procurá-lo sem descanso, apesar das provações das viagens, para estabelecer com ele relações de amizade fraterna. Não era porque o rei de Portugal tivesse necessidade de riquezas, tinha tanto ouro e tanta prata, tantas mercadorias de preço nas suas próprias terras! Vasco acrescentou que D. Manuel queria absolutamente chegar a um acordo. Não tinha ele ameaçado de mandar cortar-lhe a cabeça se não cumprisse a sua missão?
A ênfase de tal discurso não revelava apenas o carácter fanfarrão do capitão-mor. Era necessário, de tal maneira se encontrava em situação de sobrevivência e preocupado em assegurar a prioridade de Portugal antes da chegada de eventuais concorrentes. A sua avaliação das riquezas do reino não era exagerada, tinha em conta os bens adquiridos e as expectativas, o domínio de espaços marítimos imensos, o reconhecimento de milhares de léguas de costa e os lucros promissores da mina de ouro de África. O capitão-mor teve a cautela de não entregar as credenciais, que reservava para uma segunda entrevista. O rajá parecia satisfeito e prometeu tudo o que quiseram, mas teve o cuidado de não desmentir a sua pertença à religião cristã, sem dúvida porque lhe repugnava falar das suas crenças a estrangeiros. Perguntou ao capitão-mor se desejava ficar alojado com os cristãos ou os mouros. Vasco declarou que não queria habitar nem com uns nem com os outros e que lhe agradaria ficar sozinho com os seus. Como a noite já ia bastante adiantada, os recém-chegados foram confiados a um notável muçulmano para serem conduzidos ao seu alojamento. Vasco reuniu-se então aos seus companheiros numa varanda onde os esperava a luz de um candelabro de bronze.

«Então pusemo-nos a caminho, narra o Navegador Anónimo, e uma imensa multidão seguia-nos. Chovia tanto que as ruas estavam cheias de água. O capitão estava numa liteira transportada às costas de homens e caminhámos durante tanto tempo através da cidade que o capitão se cansou dela...» Queixou-se com tanta insistência ao mouro que o acompanhava que este levou os portugueses para a sua própria casa. Instalou-os num terraço coberto de tapetes, iluminado por dois candelabros enormes encimados por grandes lanternas de ferro cheias de óleo, com quatro mechas «que davam uma grande luz».


Esta pausa não assinalava o fim de um dia esgotante. As emoções e a fadiga impacientavam o capitão-mor. Recusou o cavalo que lhe ofereciam com o pretexto de que não tinha sela. Foi necessário partir mais uma vez e atravessar a pé a parte da cidade que orlava o porto. A multidão e os naires não deixavam de surgir das profundezas da noite. As armas e os olhos brilhavam na penumbra dificilmente penetrada pela luz das lanternas. O cortejo parou por fim no limiar de uma casa forte para onde já tinha sido transportada a cama do capitão-mor.
No crepitar da chuvada, Vasco deitara-se, ébrio de inanição e de cansaço. Ainda tinha em si o movimento do mar, que tornava irreais as imagens da terra que acabava de descobrir. Contudo, era de facto a índia, o «grande e fervoroso desejo» do rei D. João, a Índia reencontrada passados tantos séculos. Invadia-o uma alegria brutal, imediatamente temperada pela inquietação e pela amargura. Nunca esqueceria a ironia dos olhares, os sorrisos que tinham pontuado as suas palavras e os seus gestos durante a audiência real. Ninguém parecia ter tido em conta o feito daquele que vencera dois oceanos. O capitão-mor adormeceu ao clarão da alvorada azul das manhãs de monção, enquanto o odor do incenso das primeiras fogueiras invadia o ar molhado de chuva.
Primeiras etapas de uma iniciação
A habitação onde tinham sido alojados os emissários portugueses chamava-se Chinakôtta, sem dúvida porque fora atribuída aos chineses durante os trinta anos em que vinham periodicamente levantar

tributo e comprar especiarias (1403-1433). Passados mais de sessenta anos, a cidade ainda era ensombrada pela sua presença, tanto mais que a sua descendência se misturara com a população muçulmana do porto. A chegada dos navegadores com pele clara reavivara essa recordação. Evocavam-se aqueles guerreiros de cabelos compridos, com o seu rosto imberbe e os seus grandes bigodes sob o capacete com correia debaixo do queixo, as suas couraças e os seus juncos de quatro mastros armados com bombardas de cano curto. Os portugueses pensaram que se tratava talvez de alemães ou mais provavelmente de russos.


Quando o kotwal e o intendente do samorim se apresentaram em casa do capitão-mor no dia seguinte à sua chegada, tinham sem dúvida na memória os opulentos presentes e as distinções honoríficas atribuídos pêlos imperadores Ming aos dois chefes muçulmanos da cidade. Grande foi a sua decepção quando pediram, como era costume, para ver os presentes destinados ao samorim. Pareceram-lhes miseráveis: doze hambel do Magrebe, quatro capuchas de escarlate, seis chapéus, quatro colares de coral, uma caixa de açúcar, um barril de azeite rançoso e outro de mel, e uma série de seis bacias de bronze, taças e bispotes. Estes presentes que contentariam os chefes africanos foram considerados indignos do rajá de Calecute. O kotwal declarou que o mais pobre mercador de Meca nem teria ousado propô-los. Recusou-se a levar para o palácio objectos tão vulgares, ofensivos para um rei que apenas aceitava ouro. O capitão-mor tentou salvar as aparências: aqueles modestos presentes eram os seus, não eram os do seu rei que não quisera confiar materiais preciosos ao acaso das tempestades; mas fá-lo-ia por ocasião de uma segunda viagem, agora que a rota da índia estava descoberta.
O kotwal foi inflexível, mesmo quando Vasco propôs levar ele próprio os presentes. Em desespero de causa, o capitão-mor pediu uma audiência real para obter autorização para se reunir à sua esquadra, tanta esperança tinha de cair nas boas graças do samorim por ocasião de uma segunda entrevista. O kotwal anuiu e partiu imediatamente, prometendo regressar para o escoltar. Mas o dia passou sem que Vasco recebesse notícias dele.
«Irritado por se ver no meio de homens tão indolentes e tão pouco dignos de confiança», Vasco teve de se conter para não ir sozinho

ao palácio, enquanto os seus companheiros, entregues à alegria de estar na Índia, cantavam e dançavam ao som das trombetas, «muito decididos a divertir-se».


A desconfiança ancestral dos Portugueses em relação aos Mouros atribuía-lhes negros desígnios que o Navegador Anónimo já propagava. Era sem dúvida atribuir demasiada importância à chegada de alguns «cães cristãos», que foi entendida como um incidente curioso e desagradável e não como um ponto de viragem da história. Se não avaliaram a importância do seu feito, não se privaram de ridicularizar as afirmações de Vasco da Gama. Enquanto este louvava ao samorim a magnificência do seu rei, «mais poderoso e mais rico que todos os outros», é provável que os mercadores magrebinos reduzissem a fortuna e o prestígio de D. Manuel a proporções mais justas. Nem sequer as notícias inquietantes trazidas por algumas chalupas vindas de Moçambique eram de natureza a abalar a omnipotência das comunidades muçulmanas.
Os laços seculares estabelecidos entre Calecute e os países do Próximo Oriente tinham dado aos comerciantes árabes um lugar privilegiado. Desde a tomada do monopólio das especiarias pelo sultão do Cairo em 1429, o porto de Calecute tornara-se a base preferida dos comerciantes do Egipto e da Síria, fossem eles os agentes do comércio oficial do sultão ou trânsfugas das antigas guildas árabes instaladas em Calecute para escapar à sua autoridade. Uns e outros ocupavam o primeiro lugar na sociedade mercantil e viviam à larga nas suas luxuosas moradias. Tinham o estatuto de estrangeiros - pardeshi que partilhavam com os mercadores vindos de outros países da Índia, da África Oriental, da Pérsia ou do Magrebe. A capa do islão protegia indivíduos de diversas origens - refugiados de Granada, fugitivos dos Balcãs, italianos renegados. Alguns residiam na cidade, outros apenas ali passavam a estação das cargas.
A associação realizada entre os samorins e os comerciantes estrangeiros baseava-se no respeito pelas instituições locais e na separação entre os poderes económico e político. «A terra ao rei, o mar aos mercadores» era um dos princípios tradicionais na Índia, embora os seus limites se mantivessem indecisos. Os rajás de Calecute apenas eram reis do mar para salvaguardar os seus direitos sobre os lucros do comércio do oceano e não para nele realizar operações

Em contrapartida, tinham todo o poder sobre a organização do território e da ordem social. Aos mercadores estrangeiros era imposta a obrigação de liquidar escrupulosamente os seus impostos e de participar na defesa do reino.


Hindus e muçulmanos deviam abster-se de comer carne de porco e de bovinos, para respeitar as interdições respectivas. Os residentes estrangeiros deviam venerar e defender as vacas. Em contrapartida, o samorim concedia-lhes liberdade de culto e garantia a inviolabilidade do seu domicílio privado. A administração da cidade mercantil estava-lhes entregue. Assim, o kotwal que acompanhara Vasco da Gama estava encarregado da ordem pública. Responsáveis pelas desordens causadas pêlos seus correligionários, os muçulmanos exerciam a sua própria justiça. Só a pena de morte tinha de ser pronunciada pelo samorim, com o acordo dos seus chefes. Alguns destes notáveis tinham direito ao turbante de brocado, aos palanquins e às liteiras e deslocavam-se precedidos de trombetas de ouro ou de metal vugar, segundo a sua categoria.
Proveniente de amores de passagem ou de casamentos temporários entre os navegadores estrangeiros e indianas de casta baixa, outra categoria de muçulmanos - os mappilas - detinha uma situação mais modesta. Estes «mouros do país», como lhes chamariam mais tarde os Portugueses, especializavam-se no comércio da Índia na Índia. Ainda não tinham conseguido suplantar os comerciantes árabes como nos outros portos do Malabar. Mas a concorrência era intensa e em breve seria explorada pêlos Portugueses.
De momento, os recém-chegados são o motivo de escárnio da cidade. Os notáveis muçulmanos zombam dos rústicos presentes do capitão-mor. A sua mediocridade lança a dúvida sobre as suas origens. Não será um corsário cristão, irmão daqueles que enxameiam por vezes as costas da Berberia? O Navegador Anónimo afirma que os mouros do Magrebe, «que nós conhecemos e que nos desacreditam», se encarregaram de estimular a vigilância dos muçulmanos de Calecute. Conspira-se para reter indefinidamente os portugueses em terra, onde serão pouco a pouco eliminados; pois, se se lhes permite que regressem aos seus navios, revelarão aos seus congéneres as riquezas de Calecute e a rota para lá chegar.

Na manhã de 30 de Maio, apresenta-se uma delegação conduzida por Monsaid para dar alguns conselhos ao capitão-mor. Se pretende encontrar-se com o rei, tem de oferecer um presente, como é costume. Vasco reclama que teria querido fazê-lo, mas que o kotwal não lho permitiu. Apresenta de novo os seus presentes que são imediatamente ridicularizados. Monsaid parece desolado, tanto mais que sabe que o rei de Portugal extrai ouro do seu domínio de África. Recomenda a Vasco que se dirija ao palácio sozinho com ele para pedir ao rei autorização para regressar ao seu navio. Vasco não quer esperar mais e parte imediatamente, apesar do calor do meio-dia. Mas as portas do palácio estão fechadas, guardadas por uma fila de naires. Tem de esperar quatro horas até que se abram para a audiência real.


Só é admitido na companhia de Fernão Martins e de Diogo Pais. O samorim fala-lhe com secura e censura-o por não se ter apresentado na véspera. Vasco alega a fadiga da viagem, o que não comove nada o rajá. Mais que os comentários malévolos dos muçulmanos, é a ausência de presentes que o magoa e o indispõe contra o capitão-mor. Para quê gabar-lhe as riquezas de um rei de Portugal que o enviou de mãos vazias? O samorim não parece ouvir nem os protestos de amizade nem as promessas do seu interlocutor. Veio em busca de pedras ou de homens? E, se foi de homens, porque não lhes trouxe nada? Quando o rajá exige uma imagem da Virgem Maria «de ouro» que sabe que está a bordo da capitânia, Vasco indigna-se por sua vez: a imagem não é de ouro mas de madeira dourada e, mesmo que fosse de metal precioso, não lha daria, porque ela protegeu-o no mar e conduziu-o até ele.
O samorim pede então as suas credenciais. Uma está em português e a outra em árabe, que Vasco se recusa a mandar traduzir para malaiala por um intérprete muçulmano, por receio de que ele altere o seu sentido. Exige que seja um cristão a servir de intérprete. O samorim manda chamar um korram*, que pertence a uma casta cristã. Mas ele não compreende o árabe magrebino, muito diferente do árabe oriental, então língua franca do oceano Índico. Vasco pede a intervenção de Monsaid, mas não pode impedir a de três outros mouros que se põem de acordo antes de apresentar uma tradução que parece amenizar o humor do rajá.
Nota: Korram: Nome de uma comunidade de mercadores cristãos.

Depois de interrogar Vasco sobre as produções do seu país, ouve com bom modo as suas promessas de lhe oferecer presentes dignos da sua grandeza quando de uma próxima viagem. O capitão-mor propõe desembarcar algumas mercadorias e pô-las em venda; mas, para isso, necessita da autorização para regressar a bordo da armada ancorada em Pandarane, que o samorim lhe concede de boa vontade.


Apoiado no palanquim que o levava de novo para o seu alojamento, Vasco observava Calecute que despertava numa melhoria de tempo do fim do dia. Era necessário atravessar toda a cidade mercantil situada entre as plantações de coqueiros e a beira-mar. Estava um pouco mais tranquilo e sentia prazer em contemplar a cidade. Esta não era fortificada e estendia-se sem restrições por extensos jardins. Admirava as residências de madeira ou de pedra caiada, cobertas de olas* e decoradas com baixos-relevos de bronze. Espalhadas em grandes terrenos cobertos de plantações de árvores, eram delimitadas por altas paredes brancas com portas de madeira trabalhada e alojavam as famílias e os bens dos mercadores. A cidade dispunha de cerca de vinte mesquitas. Inúmeros tanques de água brilhavam aqui e ali, em volta dos templos cujos telhados cobertos com placas de cobre tomavam uma cor glauca sob a chuva. Lojas e entrepostos alinhavam-se junto da praia por onde caminhava uma manada de elefantes treinados para as tarefas manobreiras.
Os portugueses não podiam então imaginar que as estruturas da cidade estavam de acordo com as de uma sociedade hierarquizada em castas. As gentes do mar, impuras, eram relegadas para as costas, fora do alcance dos naires, que ficavam maculados apenas por vê-las. As oficinas estavam agrupadas em volta dos entrepostos. Os comerciantes viviam na sua própria cidade, compartimentada segundo a sua origem e a sua fé. Os brâmanes e os naires viviam fora da cidade, em grandes propriedades rurais que rodeavam o palácio de família do samorim, impenetrável para os estrangeiros.
No dia seguinte, um pequeno grupo de naires apresentou-se ao capitão-mor para o acompanhar a Pandarane, onde os seus navios estavam ancorados. Ofereceram-lhe um cavalo não selado que ele se recusou a montar: era de palanquim que queria ser transportado, sem-
Nota: Olas: * Folhas de palmeira secas.

dúvida porque notara que as pessoas importantes se deslocavam assim. Apesar do calor sufocante, ordenou aos carregadores que seguissem depressa, pois queria regressar a bordo nessa mesma noite. Enquanto seguiam sem paragens, meditava na importância dos presentes nas cortes asiáticas e na imprevidência dos que, em Lisboa, não se tinham dignado confiar-lhe objectos preciosos, de tão cépticos que estavam quanto ao êxito da sua missão. Tal inconsequência fizera-o correr o risco de perder a índia no dia seguinte àquele em que a encontrara.


No sussurro dos passos dos seus carregadores, o palanquim seguia a boa velocidade, deixando para trás os homens, as carroças e os elefantes que seguiam de um e de outro lado do caminho. Abandonados muito para trás de si, os seus companheiros tinham de seguir sozinhos e a pé, com água até à barriga das pernas, e em breve perderiam o seu rasto. Mais rápido fora o kotwal, que soubera da sua partida e se esforçava por o alcançar. Quando chegou ao seu lado, criticou-o pela sua pressa, que mais parecia uma fuga. Chegaram finalmente os dois a Pandarane e esperaram pêlos retardatários num abrigo de olas entrançadas. Passaram-se três horas, durante as quais eles não deram sinal de vida. Vasco continha a sua impaciência observando o porto deserto, por vezes atravessado por longas barcaças de proas encurvadas. Interrogava-se sobre a sorte dos seus navios que tinham ficado à entrada da enseada e que permaneciam invisíveis atrás de uma cortina de chuva. Já enfastiado, pediu uma almadia para os procurar e se juntar a eles. Foi-lhe recusada, porque o crepúsculo dos trópicos, demasiado breve, não lhe dava tempo para o fazer sem perigo. Mesmo assim, estaria limitado, pois a descrição das manobras costeiras permite pensar que a primeira monção experimentada pêlos portugueses era fraca.
Agastado, o capitão-mor acusou os naires de não se comportarem como bons cristãos, o que eles não compreenderam. Mas acabaram por ceder, chegando a oferecer-lhe trinta almadias se ele quisesse. Tendo alguns dos portugueses perdidos conseguido alcançá-lo, mandou embarcar três em busca de Nicolau Coelho que devia reconhecer a costa com as suas chalupas. Era preciso avisá-lo para que se escondesse e afastá-lo da armada, com receio de uma emboscada; mas a noite estava escura e regressaram sem nada ver, nem mesmo o

capitão-mor, que tinham levado para longe da costa, para se abrigar em casa de um mouro com um grupo de naires. Os seus homens chegavam um a um, tão esgotados pela longa caminhada que tiveram dificuldade em comer as galinhas com arroz que Vasco ordenara que preparassem.


Apesar de o capitão-mor ainda não querer acreditar numa má vontade calculada dos naires, o Navegador Anónimo não tinha disso a menor dúvida. Foi ele um dos que incitaram Vasco a redobrar a vigilância? Quando este reclamou uma almadia logo ao nascer do dia seguinte, o kotwal exigiu que ele enviasse uma mensagem ao irmão, ordenando-lhe que mandasse entrar todos os navios no porto. O capitão-mor viu uma armadilha onde talvez apenas houvesse uma manobra de conveniência. Exaltou-se imediatamente, recusando-se a dar uma ordem que levaria a crer que estava prisioneiro em terra, o que teria como efeito a partida da armada sem ele. Seguiu-se uma discussão acesa entre os notáveis. Fernão Martins julgou compreender que eles tinham decidido manter os portugueses cativos se as suas condições não fossem aceites. Quando fecharam todas as portas, julgaram-se prisioneiros dos naires. O kotwal já adiantava outras propostas: o capitão-mor poderia ir livremente para bordo se entregasse os lemes e as velas - o que provocou a sua hilaridade. Ainda não sabia que era um costume espalhado por todos os portos do Malabar na época das cargas, devido ao receio de que os navios se esquivassem antes do pagamento das taxas.
As coisas ficaram assim: «Estávamos todos tristes do fundo do coração, escreve o Navegador Anónimo, embora fingíssemos não prestar atenção ao que eles faziam.» Um dos homens que se perdera pelo caminho na véspera mandou que lhe abrissem a porta para informar o capitão-mor de que Nicolau Coelho o esperava na costa com as chalupas. Vasco conseguiu frustrar a atenção dos naires e enviou uma mensagem que advertiu Nicolau Coelho para que se acautelasse e fosse para bordo. As almadias lançadas em sua perseguição não conseguiram alcançá-lo e Vasco ficou em situação favorável para opor à insistência do kotwai a certeza de que o seu irmão e os seus homens nunca aceitariam entrar no porto.
A situação resolveu-se no dia seguinte, depois de uma noite de angústia passada num grande pavilhão rodeado de muros baixos

orlados por uma vedação de naires armados. Tinham deixado entrar uma multidão que se esgueirava pelo meio dos portugueses, não conseguindo estes manter-se juntos. Vasco exortava-os, dissimulando uma inquietação que não tinha o menor fundamento, visto que os notáveis de Calecute lhe pediram no dia seguinte que desembarcasse as suas mercadorias, o que lhe permitiria regressar à sua esquadra. Explicaram que mais não faziam que actuar de acordo com o costume. Qualquer comerciante que chegasse a Calecute devia depor em terra a totalidade das mercadorias, as quais tinham de ser avaliadas e depois confiadas a um corretor para as vender e a um naire para as guardar. Devia, além disso, desembarcar a sua tripulação e só podia abandonar a cidade depois de regularizar todos os seus negócios e despedir-se do samorim. Talvez os portugueses não compreendessem todas as condições que os mercadores marítimos tinham de respeitar. Parece que foi concedido aos recém-chegados um estatuto de excepção, visto que nem os capitães nem as tripulações foram obrigados a permanecer em terra e que não lhes foi imposto nenhum corretor. Foram sem dúvida considerados como marinheiros de pouca importância cuja passagem não teria continuidade.


Vasco escreveu ao irmão para que carregasse alguns balotes na almadia que lhe enviaram. Recomendava-lhe que não tentasse socorrê-lo se ele não regressasse a bordo. Mais valia regressar a Lisboa, onde D. Manuel enviaria, para o libertar, uma armada poderosamente armada. Paulo protestou que não seria capaz de partir sem ele e que o salvaria com a ajuda de Deus, apesar das suas fracas forças. Mas os seus temores eram vãos. A almadia regressou e recolheu o capitão-mor e os seus companheiros Ao contornar uma falésia, avistaram a alta mastreação das suas naus que oscilavam nas nuvens: «Este resultado encheu-nos a todos de alegria, escreveu o Navegador Anónimo, e demos graças a Nosso Senhor por nos ter arrancado das mãos de semelhantes homens que não possuíam mais razão que animais.» Sem partilhar esta opinião Vasco nunca mais voltaria a terra, pois nunca perdoou ao kotwal uma atitude que considerava ofensiva. Tinham ficado dois homens em Pandarane com alguns balotes cujo conteúdo não foi considerado digno de memória, visto que nenhum cronista fez o seu inventário. Tratava-se, sem dúvida, de algumas mantas marroquinas e de quinquilharias de cobre africano que provocaram as zombarias dos transeuntes

e o desdém dos comerciantes que as «depreciaram». Estas mercadorias pareceram-lhes irrisórias, comparadas com as que esperavam.


As naus portuguesas tinham sido as primeiras a fundear naquele ano. Os zambucos do mar Vermelho e do golfo Pérsico só chegariam em Agosto. Os entrepostos ficariam então cheios de barras de cobre e de chumbo, de odres de ópio, de mercúrio e de vermelhão, de tapetes e de couro dourado, de barris de água de rosas, de pentes e de espelhos de Veneza, sem contar os cofres cheios de moedas de ouro e de prata. Já as bateiras de pimenta desciam das montanhas, o gengibre acumulava-se a seco nas reservas, com a canela importada de Ceilão e as preciosas especiarias das Molucas que os mercadores malabares tinham ido buscar a Malaca, bem como os tecidos de seda e as porcelanas da China. Estava tudo pronto para a estação das cargas que se prolongava de Setembro a Janeiro.
Vasco não parava de enviar mensagens ao samorim para se queixar do desprezo com que as gentes de Calecute tratavam as suas mercadorias, sem saber que o rajá pouco poder tinha sobre as transacções comerciais. Responderam-lhe com boas palavras e visitas de comerciantes guzarates tão desdenhosos como os outros. Monsaid servia de intermediário, mas Vasco preferiu comprar os seus serviços em vez de lhe conceder a sua confiança.
O samorim acabou por mandar transportar as mercadorias portuguesas para uma casa da cidade. Estava irritado com as queixas do capitão-mor ou queria acautelar o futuro, tratando com deferência eventuais clientes que poderiam revelar-se mais ricos por ocasião de uma próxima viagem? Dera ouvidos aos adivinhos, que recordavam uma profecia antiga segundo a qual os povos do Malabar seriam um dia submetidos por homens brancos vindos do mar? Seriam eles aqueles estrangeiros chegados com as tempestades?
Em breve foi instalada uma pequena feitoria, tendo Diogo Dias como feitor e Álvaro de Braga como escrivão. Todos os dias, três homens - um por cada navio - saíam da armada e para ali se dirigiam, revezando-se. A população de Calecute depressa se habituou a estes transeuntes de calções e gorro vermelho, como se habituara a tantos outros. Recebia-os de boa vontade, oferecia-lhes descanso no abrigo das palhotas no longo caminho esburacado pelas rodas das carroças que conduzia à cidade; e, quando a noite caía demasiado depressa

sob as nuvens negras, os habitantes davam uma refeição e uma cama. O Navegador Anónimo estava convencido que estes eram cristãos, o que é pouco provável, pois a velha comunidade mantinha—se à distância e não praticava a convivência à mesa. Aqueles que acolhiam os portugueses à sua mesa apenas podiam ser pessoas de casta baixa, muito provavelmente pescadores, que aceitavam partilhar com estrangeiros os peixes e os crustáceos que a monção atirava com profusão para as praias.


Partilhavam as mulheres com igual boa vontade. Posto que a sociedade malabar era matrilinear, elas estavam livres de qualquer interdição sexual. Nuas até à cintura, com uma flor na orelha, ofereciam-se sem rodeios aos viajantes de passagem a partir dos oito anos de idade e suplicavam-lhes que lhes tirassem uma virgindade que as desvalorizava. Se o Navegador Anónimo as achava feias, outros houve que não se privaram de desfrutar delas. Tinham de compensar a castidade que tinham sido obrigados a observar nas escalas africanas. Pois era pecado mortal fornicar com mulheres não baptizadas, uma culpa por vezes punida com a morte. Mas não se acreditava que as malabares eram cristãs, mesmo se os seus hábitos o fossem tão pouco? Os portugueses que tiveram algumas dúvidas aproveitaram-se do equívoco. Foi a primeira e a última vez que puderam folgar livremente com pagãs.
Ficaram mais espantados que escandalizados ao saber que essa licenciosidade se estendia a toda a sociedade. A fidelidade dos casais era uma coisa incongruente, as mulheres naires escolhiam os pais dos seus filhos, com a única condição de não serem de casta inferior. E mesmo essa regra tinha uma excepção quando era preciso desflorar as raparigas, o que macularia os homens da sua classe. Não era raro ver um feixe de armas pendurado à porta de uma naire, o que significava a presença de um eleito que ninguém ousaria perturbar nas suas ocupações. Muito respeitadas, criavam os filhos no seio da sua família, onde mães e tias eram omnipotentes. A família real estava sujeita à mesma lei. Tal como todos os rajás do Malabar, os samorins sucediam-se de tio para sobrinho e os seus próprios filhos não podiam pretender ao trono.
Da sua modesta feitoria, Diogo Dias e Álvaro de Braga observavam o ritual das transacções comerciais e a rigorosa especialização das tarefas. A estação dos negócios ainda não começara e as mercadorias

ainda estavam guardadas ao abrigo da humidade nas residências particulares dos comerciantes. A riqueza e a diversidade das que podiam entrever eram promissoras. O odor das especiarias impregnava os entrepostos, bem como os da cânfora, do benjoim e do sândalo. Admiravam as porcelanas, as lacas, todas as «lindezas» da China, os cobres e os estanhs trabalhados, a infinita gama dos têxteis, o deslumbramento das pedrarias. Na multidão dos mercadores, ainda poucos estrangeiros. Os do Egipto e da Pérsia não tinham chegado e, embora se falasse muito dos Chineses em Calecute, viam-se muito poucos. O crescimento de Malaca, para onde eram encaminhados todos os produtos do Ocidente pêlos bons ofícios dos guzarates, poupava aos comerciantes do Extremo Oriente a longa viagem até ao Malabar, à qual tinham renunciado quando os Portugueses ali acostaram.


Era com os mercadores da índia que Álvaro de Braga e Diogo Dias contactavam. Aprendiam a reconhecê-los pelo aspecto. Todos se cobriam mais de jóias que de roupas: os «mouros do país», com a sua barba e o seu barrete redondo; os malabares de cabeça descoberta e sem sapatos, envolvidos da cintura para baixo em tecidos multicoloridos; os guzarates vestidos de fino algodão branco, com as suas barbas e as suas cabeleiras enfeitadas como as das mulheres; os chettis do Choromândel, com as pernas drapeadas de seda, os cabelos apanhados em compridas redes debaixo de pequenos turbantes. Os dois portugueses tinham notado o papel predominante desempenhado por estes dois últimos grupos. Maravilhavam-se com a competência dos guzarates, com a sua rapidez de cálculo, com o número dos seus agentes na cidade, com a importância do comércio dos têxteis que dominavam. Interrogavam-se sobre a consideração de que desfrutavam alguns chettis cambistas e ourives, que dominavam o mercado das pedras preciosas e que tinham direito ao palanquim e a uma escolta de trombetas de ouro. Mas dizia-se que eram grandes encantadores, que falavam todos os dias com o Diabo. De resto, todos atribuíam considerável importância aos horóscopos e à magia. Todos mascavam o bétele que punha a boca vermelha e os dentes negros. Não paravam de tomar banho, sobretudo antes das refeições.
Entre essas personagens estranhas, os dois portugueses sentiam-se «tão em segurança como em Lisboa». Tinham decerto sido identificados como pertencendo à mesma etnia que os comerciantes italianos

que tinham permanecido recentemente em Calecute. O genovês Girolamo da Santo Stefano tinha ali ficado nove meses, o veneziano Benvenuto del Pan ainda lá devia estar, todos pessoas pacíficas, usando vestuário oriental. Talvez não se tivessem manifestado, com medo de se comprometerem. Testemunhavam que as pessoas se sentiam à vontade em Calecute, tal como todos os que se congratulavam pela probidade dos seus corretores e pela segurança das suas águas facto notável numa época em que os piratas eram uma legião. Os samorins empenhavam a sua honra em preservar uma harmonia que fizera a sua fortuna e a da cidade. Castigos implacáveis atingiam os que ofendiam as suas leis: os ladrões eram empalados e os contrabandistas eram torturados com óleo a ferver.


No seio desta prosperidade, os portugueses tinham-se apercebido de sinais de pobreza. Os navios ancorados em Pandarane acolhiam todos os dias uma multidão de gente que vinha sem receio trocar peixe e nozes de coco por um pouco de biscoito e algumas moedas. «Muitos traziam os filhos pequenos e o capitão-mor mandava dar-lhes de comer... mas eram por vezes tão numerosos que se tornavam incomodativos e, com muita frequência, era noite fechada e não podíamos obrigá-los a sair dos navios. E que este país é muito povoado e os víveres são raros. Se, por vezes, alguns dos nossos homens, quando iam reparar uma vela, levava biscoitos para comer, eram assaltados por tanta gente, pequenos e grandes, que lhos arrancavam das mãos que não conseguiam comê-los.»
Em terra, os tripulantes negociavam tudo o que possuíam, chapéus, manilhas de latão e até a sua própria camisa, para trazer objectos da índia, algum cravinho, rolos de canela e mesmo pedras preciosas. Quanto ao capitão-mor, vendia as suas chávenas e os seus objectos de prata para conseguir arranjar algumas amostras de especiarias.
Julho estava a terminar e passara mais de um ano desde que tinham deixado as margens do Tejo. O capitão-mor congratulava-se pelo clima de confiança que parecia ter-se finalmente instaurado, mas não queria demorar em Calecute, apesar dos ventos ainda contrários. Receava ele a chegada iminente dos zambucos do mar Vermelho e dos poderosos mercadores que lhe seriam hostis?
Depois de reunir o conselho, enviou ao samorim um presente de âmbar e de coral e pediu-lhe que o autorizasse a partir, apresentando

as suas desculpas pela modéstia das suas ofertas. Rogava-lhe que lhe confiasse um embaixador junto de D. Manuel e que deixasse ficar Diogo Dias e Álvaro de Braga em Calecute, como testemunho de paz e de amizade mais que pelo valor das mercadorias que ainda faltava vender. Poderia também levar um bahar de canela e outro de cravinho e algumas medidas de especiarias variadas, que o seu feitor lhe pagaria, logo que tivesse realizado alguns negócios? Implorava também ao samorim que lhe concedesse a graça de erguer um padrão nas suas terras.


Diogo Dias dirigiu-se ao palácio com os presentes e a carta, mas não foi recebido. Regressou em vão três dias seguidos. A 13 de Agosto, foi finalmente admitido junto do samorim que lhe lançou um olhar tão irado que ele pensou ver nele a sua sentença de morte. O rajá nem sequer quis ver os seus presentes e mandou entregá-los ao seu intendente. Acabou por aceitar deixar partir o capitão-mor na condição de que ele lhe pagasse seiscentos ashrafis de ouro, como era costume para todos os mercadores de partida. Esta exigência, que foi entendida pêlos portugueses como o cúmulo da cupidez, estava de acordo com uma tradição secular. Mas Diogo Dias não tinha dinheiro. Teve de regressar à sua feitoria rodeado por uma guarda de naires que ali o encerrou com o seu escrevente.
As autoridades de Calecute mandaram proclamar em toda a cidade que passava a ser proibido ir aos navios de Portugal. Pela noite dentro, Diogo Dias conseguiu despachar um dos seus escravos, um guineense cristão, para avisar o capitão-mor da sua prisão. Monsaid também conseguiu subir à capitania para o prevenir de uma conjura urdida pêlos mouros. Não paravam de espalhar que os portugueses eram ladrões e espiões que era urgente matar para não ver o porto abandonado por todos os que se congratulavam pela sua segurança. Os mouros teriam mesmo dado ouro ao samorim para ele pronunciar a sentença fatal. Alguns malabares arriscaram-se a vir nos dias seguintes e confirmaram estas notícias, não sem as exagerar à sua vontade. Todos aconselhavam os capitães a não pôr os pés em terra, sob pena de lhes cortarem a cabeça.
Estes receios eram vãos. Passados cinco dias de silêncio, aproximaram-se algumas barcaças, trazendo uma delegação de vinte cinco elementos, entre os quais seis notáveis. A partir de então na defensiva,

o capitão-mor voltou ao costume das Espanhas. Tomou dezanove como reféns e devolveu os outros com uma carta para o intendente do samorim, especificando que os reféns seriam restituídos logo que Diogo Dias e os seus companheiros fossem libertados. Não vendo chegar nada, levantou ferro e rumou ao mar alto, como para regressar a Portugal; mas a armada apenas se afastou quatro léguas, com o vento ainda levantado. Tentou aproximar-se da praia de Calecute, sem conseguir ultrapassar a barreira de lama formada pelas tempestades da monção.


Durante esse tempo, Diogo Dias recuperara as boas graças, talvez porque a falsa partida da armada punha fim a qualquer regateio. O samorim convocou-o e deu-lhe a entender que ignorava todas as manobras do seu próprio intendente, o que era sem dúvida verdade. Fora comprado por comerciantes mouros? O rajá recordou que mandara recentemente matar outro intendente que se deixara corromper. De resto, preocupava-se com a sorte dos reféns, fosse qual fosse a sua origem, de tal modo receava que o seu rapto perturbasse a ordem pública. As mulheres das suas famílias já estavam em lágrimas e reclamavam-nos com grandes gritos.
O samorim pediu a Diogo Dias que fosse negociar pessoalmente com o capitão-mor e aceitou mandar ele próprio erigir o padrão comemorativo. Por intermédio dos seus intérpretes, ditou uma carta destinada a D. Manuel que o feitor escreveu por sua mão numa folha de palmeira: «Vasco da Gama, fidalgo da tua casa, veio ao meu país e senti-me feliz por isso. No meu país há muita canela, muito cravo, gengibre e pimenta, e muitas pedras preciosas. E o que quero do teu é ouro, prata e escarlata.»
Em 27 de Agosto, o vigia da São Gabriel assinalou sete barcaças que tinham surgido da costa. Uma delas transportava Diogo Dias e Álvaro de Braga que foram trasbordados para a chalupa que seguia de arrasto à popa da capitânia. Vasco já os julgava mortos e sentiu-se tão feliz por os reencontrar que não quis separar-se mais deles. Que importavam a feitoria e as pobres mercadorias que ficavam em terra! As outras barcaças, que se tinham afastado prudentemente para alguns cabos de distância, esperaram em vão uma negociação. Trouxeram-lhes o padrão talhado com a cruz e as armas de Portugal acompanhado por seis reféns. O capitão-mor ficou com os outros

como testemunho da descoberta da Índia. Mas acreditava ele, como escrevia ingenuamente o Navegador Anónimo, que, «quando regressassem a Calecute, esses homens poderiam arranjar-nos amigos»?


Enquanto a armada começava a aparelhar, continuaram as idas e vindas das barcaças malabares. Emissários tentaram em vão trocar os reféns pelo hambel que os portugueses tinham deixado em terra, O capitão-mor mandou proclamar-lhes que contava regressar a Calecute muito em breve e que lhes provaria que os mouros mentiam ao acusarem os portugueses de ser ladrões.
Monsaid acabou por se refugiar a bordo da capitânia, com o pretexto de que estava comprometido, acusado de ser um espião cristão enviado em reconhecimento pelo rei de Portugal. Havia outra razão para o seu comportamento?
Em 29 de Agosto, tendo encontrado o vento, as três naus levantaram ferro.
CAPÍTULO VII

Tormentos e honrarias do regresso


Vasco deixava Calecute com alegria e pesar. Descobrira o caminho para a Índia mas não conseguira estabelecer laços de paz e amizade com o estranho rajá «cristão» de Calecute. Não sentia saudade dos cem dias que lá passara. Nalguns trajectos em palanquim, apenas pudera entrever a cidade. Guardara na memória uma chuva persistente, uma multidão de homens, de vacas e de elefantes que avançavam como sombras, sob os coqueiros. Tudo se esbatia na bruma que o vento lançava até ao coração da cidade. Três imagens se lhe impunham: a omnipresença dos Naires, a dos notáveis muçulmanos e a presença de um samorim - «Rei do Mar» como D. Manuel

- que em nada se parecia com os outros soberanos cristãos.


Ao longo das semanas passadas a bordo Vasco matutava nos comportamentos imprevisíveis que a sua ignorância das tradições locais tomava impenetráveis. Nunca esqueceria o desprezo com que haviam sido encaradas as mercadorias portuguesas, nem os escarros lançados pêlos transeuntes gritando «Portuga!». Não queria acreditar na má vontade do samorim, mas a animosidade que sentira em relação aos muçulmanos aumentara a partir dos primeiros contactos. Tal como o Navegador Anónimo, atribuiu a sua hostilidade não só às humilhações sofridas mas também a questões respeitantes aos costumes locais - a lentidão com que era tratado qualquer negócio e a curiosidade indiscreta da população oriental, que lhe parecera ávida e maldosa.

Aliviava-o regressar à sua função de capitão, reencontrar o ritmo do mar e os cantos que escondiam as manobras. A monção começava a amainar e os períodos de calmaria tornavam-se mais frequentes. A algumas milhas a norte de Calecute, o vento mudou repentinamente para sul e surgiram várias embarcações movidas a remos. Estavam guarnecidas de lanças e, à medida que se aproximavam, os portugueses podiam distinguir o vermelho dos barretes e as vestes acolchoadas. Era assim que se protegiam os guerreiros muçulmanos que serviam a bordo das frotas mercantes. Os portugueses atribuíam ao samorim de Calecute a iniciativa da operação, quando afinal ela fora desencadeada por negociantes islâmicos, que assim exerciam o seu direito de armar os seus navios em guerra.


Vasco mandou preparar a pólvora e as bombardas assim que as embarcações estivessem a alcance de tiro. A este aviso, os outros responderam com o estrépito dos tambores, dos tímbalos e das cornetas. Eram os preliminares do combate, para excitar os homens e assustar o inimigo. Durante mais de uma hora, choveram insultos. Vasco não queria comprometer o futuro e abstinha-se de atacar. Mandou alinhar as naus de alto bordo, subjugando as embarcações malabares, manobra que, sem dúvida, não escapara ao adversário. Subitamente, rebentou uma tempestade que dispersou os barcos e fez com que a pequena armada se fizesse ao largo.
As delícias de Angediva
A armada avançava lentamente, ao sabor das brisas de terra e mar. Por vezes, era a calmaria que punha a embarcação à capa. O capitão-mor teve todo o tempo de escrever ao samorim uma carta desculpando-se por ter trazido os reféns e prometendo um regresso para breve. Redigida em árabe do Magrebe, sem dúvida por Monsaid, a carta foi confiada a um malabar estrábico que desembarcou no porto de Kumblah, feliz por retomar a rota por terra.
A 15 de Setembro, foi avistado um grupo de ilhotas, a norte. A esquadra aportou na primeira, onde se trocou peixe por camisas. Os naturais pareciam tão pacíficos que Vasco lhes mostrou o padrão que pretendia erigir em sinal de amizade, o que eles aceitaram de bom

grado. Foi dedicado a Santa Maria, nome que o pequeno arquipélago ainda mantém.


Há muito que o monte Eli fora dobrado e a armada vogava ao largo, graças ao vento da terra que por fim começava a soprar. Costeava o vasto Império Hindu de Bisnaga. Quando se bordejava a costa, avistavam-se, por entre clareiras, montanhas verdes manchadas pela sombra das nuvens. Desembarcava-se noutras ilhotas, para ir buscar lenha. Os habitantes vinham trazer limões e pepinos em grandes cestos, mostravam galinhas e água. Todos se afirmavam cristãos pelo menos foi o que se depreendeu.
Na manhã de 21 de Setembro, quando a armada se preparava para dobrar o estuário de um rio, aproxima-se um grupo de quatro homens, que vendiam víveres. Interrogados pelo capitão-mor, revelaram que a região era rica em canela. Dois degredados acompanharam-nos até uma floresta, de onde trouxeram alguns ramos folhosos, Quando convidados a embrenhar-se mais no interior do território, para apanharem plantas secas, o capitão-mor pressentiu uma armadilha e não os deixou seguir No dia seguinte, aproximou-se da margem onde os seus homens cortavam lenha e detectou duas grandes embarcações que lhe pareceram suspeitas. Chamando todos a bordo, mandou um grumete subir à gávea; este avistou oito navios que pareciam à capa. Em breve se aproximaram da armada a toda a velocidade. Mas quando as naus portuguesas vieram ao seu encontro, recuaram de imediato, com a popa virada para terra. Um dos barcos quebrou o leme, os outros afundaram-se e foram colhidos pelo fogo das bombardas, enquanto os ocupantes desapareciam no mato.
Que flotilha seria essa, que o Navegador Anónimo atribuía aos muçulmanos de Calecute, de acordo com um pescador daquelas paragens? Arriscar-se-ia ela a penetrar nos mares de Bisnaga, atentamente patrulhados pêlos seus corsários? Emboscavam-se nos estuários para atacar todos os que não fizessem parte da rede comercial do império.
Ali perto surgia uma ilha com árvores tão altas que a sua sombra incidia no mar. Nicolau Coelho partiu na sua chalupa, em missão de reconhecimento. A ilha fazia parte de um arquipélago de cinco ilhas

- as Panchadio - a que os portugueses chamaram Angediva, nome com que baptizaram aquela em que desembarcaram. Havia lá árvores e cursos de água, e uma grande enseada para calafetar as naus. O

conselho decidiu fazer aí a última escala antes da travessia do mar da Arábia. A Bérrio foi puxada para terra e todos desembarcaram para limpar o casco. A ilha pareceu-lhes paradisíaca. Os nativos vinham vê-los trabalhar, ofereciam-lhes peixe e lagostas. Deleitaram-se com os cocos das palmeiras, parecidos com os espantalhos dos contos de fadas, com os carpelos em forma de olhos. Havia também raparigas vestidas com flores, que deambulavam pelas paragens, raparigas fáceis - «boas cristãs» - que se deixavam arrastar para o mato. Angediva não ficava muito longe do continente, de onde todos os dias chegavam barcas carregadas de homens, mulheres e crianças. Iam fazer as suas orações num pequeno santuário onde adoravam três pedras negras. Era tudo o que restava de um templo em ruínas «uma igreja», segundo o Navegador Anónimo - com duas grandes tinas, onde mergulhavam de corpo inteiro. O sítio fora devastado pêlos navegadores muçulmanos, mas os blocos de pedra sob a vegetação guardavam ainda o cheiro do incenso e das cinzas.
Dois encontros marcaram a primeira estada em Angediva - dois homens que tiveram um papel decisivo no surto da expansão portuguesa na Ásia. O primeiro era um corsário que não se coibia de cometer actos de pirataria por conta própria. Chamava-se Timoji, e actuava na zona fronteiriça entre o Império Hindu de Bisnaga e o reino do sultão Adil Chah de Bijapur, que praticava uma guerra endémica. Timoji era o soberano virtual do porto de Honavar, tal era o seu ascendente sobre o principado local, súbdito do rajá de Bisnaga. O papel essencial do corsário era desviar as caravanas de cavalos destinados aos exércitos do sultão e conduzi-las aos portos do rajá. A sua frota era composta de uma dezena de embarcações a remo que podiam ser armadas para a guerra e de alguns navios de dois mastros e vela latina. Para coordenar as acções, dispunha de emissários brâmanes, que seguiam por terra, e de nadadores capazes de cobrir distâncias consideráveis levando uma mensagem presa nos dentes. Estava assim perfeitamente informado dos movimentos das naus portuguesas, tanto mais que fizera de Angediva o seu feudo pessoal. Foi ele, sem dúvida, o instigador da cilada que precedeu a sua chegada.
Timoji não tardou a apresentar-se ao capitão-mor, ao som de címbalos e de trompetes, em duas fustas engalanadas de auriflamas. Mas Vasco fora alertado contra ele pêlos reféns malabares, que conheciam

a sua fama. Em breve a música foi coberta pelo som das bombardas que puseram Timoji em fuga. Foi perseguido por Nicolau Coelho, com tanto ardor que o capitão-mor teve de hastear o seu pavilhão para o obrigar a regressar à esquadra. Timoji voltou à carga, dissimulando a sua frota sob ramagens, não cessando de observar os actos e os gestos dos portugueses.


A segunda personagem surgiu poucos dias depois. Parecia ter quarenta anos e não se parecia com os habitantes da região. Usava um grande turbante de múltiplas voltas, uma longa túnica de algodão branco e um punhal à cintura. Muito à vontade, dirigiu-se ao capitão-mor e abraçou-o calorosamente, bem como aos outros capitães, como se já os conhecesse. Sem lhes dar tempo ao espanto, pôs-se a falar em dialecto veneziano e explicou-lhes que era um cristão do Levante. Raptado em criança, entrara ao serviço do poderoso Adil Chah. Embora obrigado a fingir-se muçulmano, no íntimo permanecera cristão. Fora em Goa que soubera da chegada de navegadores desconhecidos, de trajes completos e cuja linguagem ninguém entendia. Sob esses sinais reconhecera «francos» - «pois é assim que nos chamam nestas paragens» - e conseguira que o sultão o autorizasse a ir vê-los. Estava encarregado de lhes dizer que, caso estivessem cansados da vida marítima, poderiam fixar-se em Goa, onde seriam muito bem recebidos. Em seguida, chamou de parte o capitão-mor para lhe pedir um queijo. Era o sinal de paz que ele deveria enviar a um dos seus amigos que não ousara vir a Angediva. Divertido, o capitão-mor deu-lhe o que pretendia, bem como dois pães, mas Paulo da Gama estava desconfiado. Não seria o visitante um espião?
Levado para a capitânia e intrrogado, confessou ser um agente secreto do sultão de Goa e revelou que havia quarenta grandes embarcações emboscadas nos estuários para atacar a frota portuguesa. Vasco decidiu levá-lo para Portugal para testemunhar dos assuntos da Índia. Foi no alto-mar que o prisioneiro confessou ao capitão-mor que era muçulmano e que fora encarregado pelo sultão de os conduzir a Goa para os recrutar como mercenários. À sua chegada aos Açores, pediu o baptismo e deram-lhe o nome de Gaspar, em homenagem aos reis magos. Segundo o costume da época, adoptou o patronímio do padrinho Vasco da Gama. Mais tarde, soube-se que era judeu. Um pogrom expulsara os seus pais da Polónia, onde

nascera. As suas atribulações tinham-no levado de Alexandria à Índia, onde casara com uma judia de Cochim.


A 5 de Outubro, despediam-se das delícias de Angediva. Aparelharam no meio da azáfama das chalupas, dos apitos e dos estalidos dos mastros. As velas desdobravam-se aos sacões como asas de pássaros maléficos. Subindo à gávea, cada um regressava ao medo e à insegurança, mas também à esperança de fortuna e honrarias que o aguardaria em Lisboa.

Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   16


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal