Genevieve bouchon vasco da gama



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«A água negra»*
O desconhecimento do regime das monções lançou a esquadra dos arcanjos num mar hostil. A de sudoeste dissipava-se na alternância das tempestades e das calmarias. Os marinheiros do Atlântico não se sentiam desorientados com a «água negra» dos dias de temporal; e, se sabiam cortar as ondas encabrestadas que surgiam no horizonte, ficavam desconcertados com a persistência dos ventos contrários, onde a técnica dos rumos se revelava impotente. Chegavam a preferir o fragor do trovão ao silêncio que se seguia às tempestades, quando as naus ficavam paradas no ar escaldante ou na luz gelada do luar, que chegava a enlouquecer alguns. Ao longo desses dias intermináveis, em que se disputava um lugar à sombra dos paveses ou das velas pendentes, as misérias de bordo tornavam-se insuportáveis. As camisas acabavam por secar, mas a bicharia proliferava. Fartavam-se de se coçar, de catar os percevejos, tão numerosos que podiam ver-se a subir os cordames. Era necessário estar constantemente a molhar as bordagens, que estalavam com a intensidade do calor do sol. Quando se aguardava uma brisa, eis que surgia a tempestade.
Durante três meses, a armada foi presa da inconstância dos elementos, como se lhe tivessem rogado uma praga. A fome e a sede provocavam o exacerbar de fantasmas e de miragens. Recordavam-se as lendas escutadas no Oriente. Era o oceano encantado que armava ciladas aos homens e os tragava. Evocavam-se os barcos indianos feitos de pranchas amarradas para escapar aos recifes magnéticos
Nota: Água negra: ’’ Expressão que designa o alto-mar nos textos sânscritos.

que jaziam no fundo do mar. Equipadas de peças metálicas, não iriam as naus portuguesas ser engolidas? Por vezes, à noite, julgavam ter chegado a terra, quando as nuvens formavam montanhas e cidadelas no céu dourado do horizonte equatorial.


O capitão-mor ouvia os pilotos, interrogava Gaspar, Monsaid e os malabares mediante intérpretes ocasionais. Para melhor poderem comunicar, compunham nas horas vagas uma espécie de léxico português-malaio, do qual subsiste uma cópia. Aí se encontram frases da vida correntes, quase sempre explicadas por gestos, misturadas com alguns termos obscenos. Assim foi elaborado, em circunstâncias difíceis, o mais antigo manual de conversação entre uma língua europeia e uma língua da índia*.
Dez semanas após a partida de Angediva, foram atingidos pelo escorbuto. Trinta homens acabaram por morrer na escuridão dos porões, provavelmente sem o apoio de um capelão. Outros nem por isso estavam melhor, sem forças para entoar as orações dos defuntos nem para lançar os seus corpos ao mar. O desespero aumentava, no meio dos gemidos dos doentes e do estalar dos mastros, que alguns julgavam assombrados pela alma dos mortos. As conversas dos pilotos não eram nada animadoras. Diziam que a alternância de tempestade e calmaria era normal naquela região do mundo. Os reféns malabares não os contradiziam, contando com o desencorajamento dos capitães para os instigar a regressar a Calecute. Muitos deles já tinham morrido, de doença ou inanição, pois as proibições dos costumes brâmanes não lhes permitiam alimentar-se no mar alto. Os que haviam conseguido escapar tinham pressa de regressar à terra sagrada da Índia para aí procederem às purificações necessárias à sua salvação.
Não se sabe se ainda havia pilotos indianos a bordo, mas não parece provável que eles tenham dito que em breve surgiriam ventos favoráveis. Contudo, era o que não parava de afirmar Vasco da Gama, guiado mais pelo bom senso do que pêlos seus conhecimentos meteorológicos. Uma vez que tinham visto navios indianos em Melinde, não era isso uma prova de que tinham conseguido atravessar o oceano? Contudo, o capitão-mor lutava contra o tempo; as reservas de água estavam a esgotar-se, bem como as forças dos homens ainda válidos.
Nota: Cf. Fac-símile em Voyages de Vasco da Gama, p. 36.

«Todos clamavam pelo regresso a Calecute ou a outro porto da Índia, pois preferiam morrer em terra do que no mar.» Era isso também que os pilotos exigiam nos conselhos reunidos pelo capitão-mor.


O Navegador Anónimo não faz qualquer referência a um motim cujos ecos foram tão bem abafados que chega a duvidar-se se terá de facto ocorrido. Um cronista digno de crédito dá-nos dele algumas informações lacónicas. Revoltados com a recusa do capitão-mor, os pilotos conspiram com os mestres e com alguns marinheiros para se apoderarem à força do comando das naus logo que o vento oeste soprasse com força bastante para os conduzir de regresso à Índia. Alertado, Vasco da Gama mandou prender os amotinados e tomou ele próprio o comando das manobras.
A monção acabou por amainar. Calavam-se os murmúrios no balanço das vagas. Na noite de 2 de Janeiro de 1499, avistaram a costa africana. Nicolau Coelho foi ver «onde Nosso Senhor nos fez aportar, pois já não havia piloto nem ninguém que pudesse reconhecer num mapa o local onde nos encontrávamos.» Graças à Estrela Polar, por fim reencontrada, o capitão-mor sabia que estava a norte do equador. Não perdeu tempo. Era necessário chegar a Melinde «por causa dos doentes» e tentar salvá-los com laranjas. Tinha ainda alguns padrões a erigir em memória da passagem das naus portuguesas. Precisava sobretudo de entrar no canal de Moçambique com uma margem de manobra suficiente antes da inversão das correntes que mudavam para norte em Abril.
Rumo a sul, as naus avançaram sem parar em Mogadixo, cujas altas casas em socalco avistaram, nem em Patê, contentando-se em disparar alguns tiros de bombarda ao largo desses dois portos. Em Melinde, fizeram escala apenas durante cinco dias, o tempo necessário para se abastecerem de carneiros, galinhas e legumes e para nomearem um emissário do rei. Este proferiu um discurso amigável e enviou a bordo das naus uma trompa de marfim destinada a D. Manuel e um jovem que desejava conhecer Portugal. O capitão-mor não fez desembarcar o piloto guzarate que lhes fora cedido pelo rei. Quanto ao Navegador Anónimo, só pensava em «divertir-se e descansar dos sofrimentos que tivemos de suportar e que por pouco não nos matava.» Houve mortos ainda durante essa breve escala Melinde, apesar do grande consumo de laranjas.

O capitão-mor contava os seus homens - «sete ou oito por navio», segundo o Navegador Anónimo, mais provavelmente uma dúzia, em todo ocaso muito poucos para se encarregarem das manobras das três naus. Não podia privar-se da Bérrío, bem equipada para sondar os fundos, nem dos talentos de Nicolau Coelho, que prosseguia a sua missão de reconhecimento das costas e das ilhas. Decidiu-se sacrificar a São Rafael, cujo leme se havia quebrado durante uma tempestade, tanto mais que Paulo da Gama, o seu capitão sofria de tuberculose e definhava dia após dia. O navio foi desarmado a 13 de Janeiro e queimado no recife onde havia encalhado no ano anterior. Homens, instrumentos e víveres foram distribuídos pelas outras duas naus. O capitão-mor teve o bom senso de calar os seus ressentimentos, e parece que cada um retomou o seu posto sem que fosse tida em conta a tentativa de motim.


Após a pausa de duas semanas, a pequena armada retomou o seu caminho ao longo das terras avermelhadas franjadas de espuma, e punha-se à capa logo que caía a noite. Nicolau Coelho foi descobrir Zanzibar, os seus jardins e os seus pomares de laranjeiras. Comunicou que os muçulmanos da região eram amáveis, mais comerciantes do que guerreiros. A 1 de Fevereiro, as naus passavam ao largo de Moçambique e penetravam no arquipélago que tinham dedicado a S. Jorge. Desembarcaram na ilha, onde assistiram à missa, e em seguida colocaram o último padrão, mas chovia tanto que não puderam fazer uma fogueira para selar a cruz.
Apesar das correntes favoráveis, passou um mês antes que as naus aportassem a São Brás. É necessário ter em conta o esgotamento da equipagem e os perigos da navegação entre os recifes do canal de Moçambique onde tantos navios naufragaram nos anos seguintes; a ponto de os marinheiros que por lá passavam verem os seus mastros carregados de pássaros, erguendo-se na superfície das águas. Se a nau do Navegador Anónimo parece não ter ido a terra, é possível que a Bérrío, que nunca perdia de vista a costa, tenha recolhido, numa breve escala, informações e algumas pepitas de mina de ouro de Sofala. Ao chegarem às margens do Natal, os ventos começaram a arrefecer;
em seguida tiveram de vencer a turbulência da corrente quente das Agulhas que constantemente se invertia, com grande violência. Aí pescaram anchovas e fizeram uma razia nas focas e nos pinguins que foram salgados e metidos em barricas, para a viagem de regresso.

O cabo da Boa Esperança foi dobrado a 20 de Março, com a perícia que pilotos e capitães já haviam relevado no ano anterior. Facto tanto mais notável quanto dispunham apenas de duas naus destroçadas e de alguns homens esgotados para lutar contra a força constante das tormentas. Alguns não sobreviveram, pois a brisa outonal agravou as doenças contraídas nos trópicos. Pouco faltou para que a armada tivesse o mesmo destino que o das que anteriormente haviam naufragado ao largo da África Austral, sem que nunca se soubesse até onde tinham ido. Foi salva pela corrente sul-norte de Benguela, que num mês a levou até à costa do Rio Grande.


A narrativa do Navegador Anónimo detém-se quando a esquadra chega à zona dos recifes, onde o autor assinala uma profundidade de vinte braças. As naus dirigem-se então para o arquipélago de Cabo Verde. Primeiro navegaram juntas, e em seguida a Bérrio desapareceu numa noite. Terão sido separadas por uma tempestade ou por uma tromba de água, fenómeno frequente naquelas paragens? Teria Nicolau Coelho partido com autorização do capitão-mor? Ou ter-se-á ele afastado, como alguns chegaram a crer, para ser o primeiro a dar a D. Manuel a grande notícia da descoberta do caminho marítimo para a Índia? Tomando a rota tão bem conhecida dos Açores, a única que permitia chegar a Lisboa, levou pelo menos setenta e três dias a alcançar o estuário do Tejo. Esse lapso de tempo merece reflexão, pois se o somarmos aos trinta e cinco dias de navegação que decorreram entre a passagem do cabo da Boa Esperança e a passagem dos recifes do Rio Grande, chegava-se a um total de cento e dez dias sem escala, um número que marca o limite extremo do extermínio de uma tripulação pelo escorbuto. Onde terá Nicolau Coelho feito a paragem necessária para poupar a sua? Terá ele aportado numa outra ilha de Cabo Verde, e não naquela em que a São Gabriel desembarcou? Ou, mais provavelmente, num porto dos Açores? Sabe-se apenas que chegou ao estuário do Tejo a 10 de Julho 1499, desembarcando em Cascais após dois anos e dois dias de viagem.
A São Gabriel chegou sozinha à ilha de Santiago, no arquipélago de Cabo Verde. Chovia tanto que mal conseguia abrir caminho. Se Vasco decidiu abandonar o seu navio, foi porque o seu irmão Paulo ardia em febre. Fretou uma caravela para chegar o mais depressa possível a Portugal confiou a reparação e o comando da capitânia

ao seu escrivão João de Sá, pois o piloto Pêro de Alenquer estava também bastante doente ou talvez já tivesse morrido. Enquanto Paulo da Gama se finava a bordo da caravela, Vasco renunciou a rumar a Lisboa e avançou para os Açores para chegar quanto antes à ilha Terceira, onde Paulo faleceu um dia após a chegada.


A fazer fé nos cronistas, Vasco sentiu a morte do irmão como «uma grande dor». Antes mesmo de o capitão-mor ter sido escolhido, os dois irmãos estavam já intimamente ligados, tanto no espírito do rei como na exigência mútua de não partir um sem o outro. Mais tarde, nada pudera separá-los, nem o serviço do rei quando Paulo se recusou a abandonar Vasco em perigo em Calecute para vir anunciar a D. Manuel a descoberta da Índia, nem a atracção pelas honrarias quando Vasco renunciou a entrar à frente em Lisboa para estar ao lado de Paulo nas suas últimas horas de vida. Era costume na época ver dois irmãos lançados na mesma aventura - como os Corte-Real, os Dias, os Andrade, os Lima -, mas a estreita união entre os Gama parece não ter sido exagerada por parte dos seus turiferários. Vasco não chorava apenas o companheiro fiel de uma juventude «sem zangas nem traições»; sabia bem qual fora o seu papel no êxito daquela missão. É ao comparar o Vasco dessa primeira viagem com aquele que iremos acompanhar noutras aventuras que poderemos avaliar a influência do irmão desaparecido.
Vasco demora-se no caminho de regresso. Se Paulo morrera um dia após a sua chegada - ou seja, o mais tardar em Junho -, porque será que ele esperou pelo fim de Agosto para entrar em Lisboa, quando a travessia demora geralmente duas semanas? Terá sido apenas o desgosto que o manteve afastado dos festejos no obscuro retiro da Terceira? Ou haveria alguma razão misteriosa que o levava a temer uma desgraça? Podemos pensar simplesmente que estava cansado, talvez até doente, que, depois de ter enfrentado tantos mares, depois de tantos encontros insólitos, sentia necessidade da paz agreste dos Açores, dos seus prados verdes e dos seus rebanhos. Nunca fora um homem de corte e desagradava-lhe voltar às suas baixezas, mesmo que aí o esperassem glória e fortuna.
Quando por fim sobe o Tejo detém-se ainda alguns dias junto dos frades da ermida de Belém, os mesmos que abençoaram a sua partida. Informa-se e fica a saber que a Bérrio e a São Gabriel já regressaram

e que dois terços dos homens que haviam embarcado não regressaram.
Disseram-lhe que o haviam julgado morto e que Nicolau Coelho, chegado há cerca de dois meses, não tivera autorização do rei para o ir procurar. Contudo, sabiam que estava nos Açores, nomeadamente através de Gaspar, que ele enviara a Lisboa na primeira quinzena de Agosto. Estranhos rumores, quando os confrontamos com o secretismo que ainda envolve a última escala do capitão da Bérrio.
Pela abundância de notícias, Vasco da Gama avalia a amplitude de dois anos de silêncio e de solidão. A mais importante, sem dúvida, é a do casamento do rei com a infanta Isabel, filha dos Reis Católicos, que acaba de morrer de parto, dando à luz o príncipe Miguel, herdeiro das duas coroas (24 de Agosto de 1499). Se assim se cumpre um dos desejos de D. Manuel, o outro acaba de se concretizar graças ao talento do seu capitão-mor.
Ao saber a chegada de Vasco da Gama, os nobres da Corte acorrem a Belém. D. Manuel envia um dignitário da Coroa, D. Diogo da Silva de Meneses, conde de Portalegre, para o escoltar até ao palácio. O soberano presta-lhe «todas as honras que merece». Mas a glória pertence «a Deus eterno, ao rei bem-aventurado cuja fama é universal».
D. Manuel não esperara pelo regresso de Vasco da Gama para proclamar a descoberta da Índia. Dois dias após o regresso de Nicolau Coelho, escrevia a Fernando e Isabel de Castela e Aragão:
«mui dignos e excelentes príncipes, poderosos senhores, que enviámos por mar Vasco da Gama, fidalgo da nossa casa, e Paulo da Gama, seu irmão, em missão de descoberta, com quatro naus... encontraram e descobriram a índia e outros reinos e senhorias circunvizinhos. Penetraram e navegaram no mar (da Índia) onde encontraram grandes cidades de grandes edifícios, ricas e populosas, nas quais se faz todo o comércio de especiarias e de pedrarias por barco, que foram vistos em grande número, até Meca e daí ao Cairo, de onde (esses produtos) são distribuídos pelo mundo inteiro... canela, cravo, gengibre, noz-moscada, pimenta... e muitas pedras preciosas, rubis e outras».
A 28 de Agosto, véspera da chegada de Vasco a Belém, o rei dirigira três missivas a Roma, uma para o papa Alexandre (Bórgia), outra para o colégio dos cardeais e a terceira - a única que subsistiu - para

D. Jorge da Costa, o «cardeal protector» centenário que defendia os interesses portugueses junto da Santa Sé. As notícias são mais detalhadas, enriquecidas com os comentários de João de Sá, entretanto chegado, e sobretudo de Gaspar, nessa altura já baptizado. Aos Reis Católicos bem como ao cardeal, D. Manuel confirmava a presença de cristãos em Calecute, mas com uma reserva sem dúvida imputável ao céptico João de Sá: «o rei dessa cidade é considerado cristão, bem como a maior parte do seu povo... na verdade, mais como os heréticos, tendo em conta a forma do seu cristianismo...»


Antes mesmo do regresso de Vasco da Gama, D. Manuel completou os seus títulos: já não é apenas «rei de Portugal e dos Algarves de aquém e de além-mar em África, e senhor da Guiné»; a partir de agora é «rei da conquista, da navegação e do comércio da Etiópia, da Arábia, da Pérsia e da Índia». Toma virtualmente posse de Calecute, em virtude das bulas outrora concedidas a D. Henrique.
A proclamação desses títulos nem por isso desarmava os cépticos que, durante os dois últimos anos, sempre haviam afirmado que a descoberta do caminho marítimo para a Índia era algo de impossível. Numa época em que era costume misturar o maravilhoso com a realidade, D. Manuel lançara mão a tudo. Corriam rumores sobre uma profecia da Sibila de Cumas, cuja inscrição em latim fora encontrada em três colunas de pedra numa praia perto de Sintra... «estas pedras serão de novo erigidas com as suas letras alinhadas quando vires, ó Ocidente, as riquezas do Oriente, o Ganges, o Indo e o Tejo. Será uma coisa maravilhosa ver toda a gente a trocar entre si as suas mercadorias.»
Contava-se que o rei soubera dessa descoberta, que ficara perturbado a ponto de pedir conselho, que havia quem acreditasse, que outros pensavam que eram histórias de pagãos a que não devia ser dado nenhum crédito. Se a chegada de Nicolau Coelho dera razão aos primeiros, as notícias estimulantes que ele trazia tinham relegado para segundo plano esses vestígios arqueológicos. Poder-se-ia duvidar da sua existência, se não tivessem sido mencionados em 1505 pelo impressor alemão Valentim da Moravia, que nessa época trabalhava em Lisboa e cujo testemunho parece inquestionável. Na realidade, as colunas existiam, sem dúvida, mas a inscrição, redigida num mau latim medieval, fora expeditamente acrescentada.

Nem a própria chegada da São Gabriel pudera fazer calar aqueles que só acreditavam naquilo que viam, apesar das declarações de Gaspar e da presença de uma meia dúzia de indianos «menos escuros do que os Guineenses, de cabelos lisos.» Quem poderia provar ter ido à Índia, uma vez que ninguém podia mostrar os seus produtos, excepto algumas jóias suspeitas que podiam ter sido compradas em qualquer parte? Os navegadores respondiam que o capitão-mor guardara todos os artigos preciosos, que haviam desaparecido com ele.


Os negociantes toscanos de Lisboa não tinham posto em causa a descoberta da Índia, talvez porque as primeiras informações recolhidas confirmavam aquelas que lhes chegavam por outros meios. Uma recolha de manuscritos conservados na Biblioteca Ricardina de Florença contém a cópia das cartas escritas nessa época. No próprio dia da chegada de Nicolau Coelho a Cascais, Girolamo Sernigi iniciava uma missiva destinada a um dos seus correspondentes florentinos. A profundidade e a qualidade das suas informações é impressionante. Dá a impressão de que tinha um agente a bordo da Bérrio que lhe fornecera informações em primeira mão, ou então que partilhara com o rei as confidências de Álvaro de Braga, o escrivão de Nicolau Coelho, um dos poucos que acompanhara o capitão-mor ao palácio do samorim e que frequentara os meios comerciais de Calecute.
São verdadeiramente extraordinários os dons de observação e a pertinência de Girolamo Sernigi, capaz de distinguir o essencial das suas afirmações. A enumeração das especiarias é acompanhada de comentários sobre a sua origem e o seu preço, que em Calecute subia para o dobro, em relação às regiões produtoras. Sabe que algumas vêm de ilhas distantes difíceis de situar, que é possível extrair uma «enorme quantidade de ouro» na África do Sul, o que seria muito útil, pois nos mercados de Calecute tudo é negociado contra moedas e metais preciosos. As pedrarias são caras, atingindo o quádruplo do preço nas revendedores mouros. Sernigi sublinha o papel e a profusão de têxteis e o êxito inesperado das camisas de linho portuguesas. Quanto ao resto, os negociantes de Calecute pouca importância atribuem às mercadorias lusitanas, pois «há lá de tudo em abundância». Sernigi está consciente do poder incontestável dos mercadores islâmicos: «O samorim é praticamente manipulado por esses mouros...».

O seu interesse pelo comércio não o impede de sentir curiosidade por outras coisas: elefantes e palanquins, costumes, navios e víveres. Analisa os costumes, as crenças dos homens. É surpreendente como nesses primeiros dias que se seguiram ao regresso de Nicolau Coelho a personalidade do mundo indiano foi captada e descrita em breves traços marcantes. Se ainda persiste a ideia de que o rei de Calecute é cristão, observa-se que ele é vegetariano e que o regime alimentar desempenha um papel importante na organização da sociedade: «O rei não come carne nem peixe nem nada que tenha sido morto, e a sua corte faz o mesmo... O povo come carne e peixe, mas não come carne de vaca, pois é um animal sagrado.» A interpretação cristã é dada de imediato: «Dizem que Jesus Cristo afirmou que aquele que mata será morto, por isso não comem os animais abatidos.» O sacrifício da sati não escapou aos portugueses: «... quando um homem morre, metem-no numa cova e queimam o corpo numa grande pira de lenha. Vestida e ornamentada com as mais belas jóias, a esposa lança-se na fossa e morre junto do marido, pois acreditam que se encontrarão logo a seguir no outro mundo...»


Esta primeira imagem da Índia será amplificada por aqueles que irão desembarcar da São Gabriel duas semanas mais tarde, a 29 de Julho. Amplificada, clarificada e por vezes também deturpada pelas declarações de um Gaspar, recém-baptizado, que ligou o seu destino ao dos Portugueses e que lhes conta aquilo que eles desejam ouvir. Afirma que os reis de Coulão, de Choromândel, de Ceilão, de Sião e de Pegu, todos eles cristãos, são aliados potenciais. O piloto guzarate cedido pelo rei de Melinde não se poupa a informações.
Girolamo Sernigi redigiu uma segunda carta em meados do mês de Agosto, na qual as narrativas de Gaspar se misturam com dados económicos cada vez mais precisos. A rota das especiarias ia-se desenhando, tanto mais que Guido di Tommaso Detti, um outro florentino vindo de Compostela, fez uma descrição de uma surpreendente exactidão quando chegou a Lisboa, a 10 de Agosto. Ambos tinham prestado a maior atenção às declarações de Gaspar e do piloto guzarate, sem dúvida porque ambos falavam italiano. De imediato, e antes mesmo da chegada de Vasco da Gama, os florentinos compreenderam a amplitude e as consequências das suas proezas navais: «Eis uma má notícia para o sultão (do Egipto).» Quanto aos Venezianos,

«quando perderem o comércio do Levante, terão de regressar à pesca...», observa Guido di Detti. Sernigi calcula o montante dos custos de transporte e dos direitos pagos aos reis da Índia e ao sultão do Cairo que representam, «feitas as contas, seis vezes o preço da compra»; enquanto que passando pela rota do cabo recém-descoberta «ter-se-ia a possibilidade de suprimir todas essas despesas e todo esse tráfico. Por isso, penso que o sultão, esses reis e esses mouros tudo farão para dissuadir o rei de Portugal desse empreendimento... Mas terão muita dificuldade em fazê-lo».


Onde o rei vê cristãos e os Italianos especiarias, o povo de Lisboa imagina um país de maravilhas. As declarações de Gaspar e as descrições dos marinheiros espalham-se por toda a cidade. Ávido de sensacionalismo, Sernigi faz-se eco dessas novidades. Só se fala da Índia e dos seus estranhos costumes, dessas viúvas que se imolam na fogueira dos maridos, das raparigas desavergonhadas que se passeiam seminuas e que trazem um pendente ao pescoço para anunciar que já não são virgens. Evocam-se os elefantes equipados para a guerra, com guarnição às costas, as serpentes, os licornes, os barcos com pranchas, cosidos sem ferragens, porque «dizem que o fundo do mar é um íman...» Segredam-se também outras coisas assustadoras:
na cidade de Calecute há um templo, e «quem lá entra entre as onze horas e as duas da tarde morre de imediato perante as coisas terríveis que vê e ouve, obras do Diabo. Numa certa noite do ano, as lamparinas e as velas acendem-se por si sós...»
Mais tranquilizadora era a descrição da cama de um rajá, ornada de quatro rubis tão grandes e tão brilhantes que iluminavam a sala inteira, não havendo necessidade de velas à noite. As gentes deixavam-se embalar em sonhos de opulência:

Tem robis, diamantes taes, que nam tem preço, ou contia,

esmeraldas muy reaes, perlas de muy gram valia,

espinellas, e tem mais carbunclos,

ametistas, turquesas, e chisolitas,

çafiras, olhos de gato...

e outras mais que nom sam ditas*.
Nota: * Garcia de Resende. Miscelânia, p. 64.

No passa-palavra, as riquezas da índia recém-descoberta tornavam-se inumeráveis, e cada um aguardava a parte que lhe caberia.


Nos primeiros dias de Setembro de 1499, não há mais que festejos, corridas e jogos. Ao som do repicar dos sinos, ao longo das paredes decoradas com tapeçarias e ramos de loureiro, o capitão-mor faz uma entrada solene na cidade, mas a cidade descobriu a Índia sem ele. Como é que ele poderia descrevê-la, se ficou três meses ancorado em Pandarane? São os outros que as gentes escutam, e o rei sonha já com a próxima expedição.
O capitão-mor vai dar conta a D. Manuel de resultados concretos no plano da geografia e das técnicas navais. O conhecimento das datas da monção permitirá determinar as datas das partidas de Lisboa, que não mais serão entregues aos ditames dos astrólogos. Foram descobertas mais de 1885 léguas de costa, cuja primeira imagem é dada pêlos desenhos e pelas sondagens incansavelmente efectuadas por Nicolau Coelho (Vasco da Gama recomendara-lhe que se instalasse na proa do navio e que fizesse os seus esboços, para que quem viesse a seguir pudesse reconhecer a costa a partir da proa);
o cabo da Boa Esperança foi dobrado junto à costa, uma manobra que tranquiliza a tripulação; o aperfeiçoamento da arte dos rumos demonstrou que a rota do «grande abismo» é a melhor, contrariamente ao que afirmavam os defensores do antigo método que, como Duarte Pacheco, preferiam costear e sondar sistematicamente as margens. O mar é o domínio de Vasco da Gama, e, mais do que dissertar sobre as particularidades da índia, ele vai confiar esses dados ao rei, aos seus pilotos e aos seus cosmógrafos.
D. Manuel não será avaro em recompensas, mesmo que por vezes tardem a chegar. Recompensando-o mais do que a qualquer dos seus companheiros, reconhece nele o capitão-mor, aquele que soube assumir as maiores responsabilidades da aventura. É a primeira vez que um navegador é assim homenageado. Apesar de terem sido recompensados e por vezes armados cavaleiros, os que o haviam precedido não passavam de servidores do rei, frequentemente designados de uma forma misteriosa, como «capitão que foi lá». A 24 de Dezembro de 1499, três meses após o seu regresso, D. Manuel faz de Vasco o senhor de Sines, a vila onde ele passara a sua infância e onde o seu pai era alcaide. E uma doação transmissível aos herdeiros, com

rendimentos e direitos, com excepção do «dízimo de Deus, da terra e do mar, e com a sua jurisdição civil e criminal.» Para gozar dessa regalia, deverá aguardar a dispensa papal necessária à indemnização de D. Jorge, senhor de Santiago e de Sines. Quanto a D. Luís de Noronha, o capitão efectivo, que sucedeu a Estêvão da Gama após a sua morte, deverá ceder Sines a Vasco, assim que a dispensa chegar.


Duas semanas depois, a 10 de Janeiro de 1500, uma carta régia concede-lhe os títulos que a partir de agora lhe daremos. Aquele a quem chamámos familiarmente Vasco, recebe o título de Dom, reservado aos grandes do Reino, bem como o seu irmão Aires, a sua irmã Teresa e todos os seus descendentes. É nomeado Almirante da Índia, com todas as honras e preeminências, poder e jurisdição, rendas, foros e direitos pertencentes ao almirante do Reino. Privilégios que antecipam o futuro, visto que se estendem às terras que devem obediência ao rei de Portugal na Índia.
A D. Vasco e aos seus descendentes é outorgada uma pensão anual de 300 mil reais, pagos sobre a receita dos novos impostos de Sines, de Vila Nova de Milfontes e de Santiago de Cacém e sobre uma parte dos impostos das madeiras de Lisboa. Além disso, poderão enviar todos os anos nos navios do rei 200 cruzados para investir em mercadorias autorizadas, sem pagar direitos, com excepção de 5 por cento reservados à Ordem de Cristo. Finalmente, D. Vasco, almirante da Índia, terá a honra de participar no Conselho Régio e de inscrever no seu brasão as armas de Portugal.
Nicolau Coelho é recompensado depois do seu capitão-mor, a 24 de Fevereiro 1500, quando está prestes a embarcar para a sua segunda viagem à índia sob o comando de Pedro Álvares Cabral. O rei concede-lhe uma tença de 50 mil reais, sendo 30 mil transmissíveis aos seus descendentes, bem como novas armas e brasão. Os pilotos são gratificados com rendas mais modestas que serão dispensadas ao longo dos anos seguintes - 4 mil reais anuais para Pêro Escobar e Afonso Gonçalves, 6 mil para o filho do falecido Pêro de Alenquer

- e isenções fiscais para a sua família e para os da sua casa. João de Sá será nomeado tesoureiro da Casa da Índia, Álvaro de Braga escrivão da alfândega do Porto. Pêro Vaz, Afonso de Melo, Afonso de Selas e o intérprete Fernão Martins tornar-se-ão fidalgos. Os participantes mais modestos receberam também a sua recompensa, transmissível

aos filhos. Mais uma vez, surge uma nova aristocracia que irá ter um papel decisivo nos primórdios da expansão portuguesa na Ásia.
A armada que está já em preparação desencadeia um fenómeno irreversível. A partir de então, todos os anos, e ao longo de quatro séculos, uma frota portuguesa partirá do Tejo para as costas da Índia. Todos os anos, sem excepção, os Portugueses levarão a cabo a terrível viagem, na esteira de Vasco da Gama. O seu domínio dos elementos e a perseverança com que afrontaram os perigos de dois oceanos serão a mais segura garantia da sua presença na Ásia.
TERCEIRA PARTE
GLÓRIAS E MISÉRIAS DE UMA CONQUISTA
CAPÍTULO VIII

Primeiras experiências indianas. A segunda viagem de Vasco da Gama




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