Genevieve bouchon vasco da gama



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De Cochim a Cananor: os pioneiros (1500-1503)
A alvorada do ano de 1500 representa um sinal da Providência para o rei de Portugal. Não faz emudecer os profetas que anunciavam o fim do mundo na passagem do século? O caminho encontrado nas estrelas veio desmentir as previsões dos astros. D. Manuel rejubila. Sente-se maravilhado por Deus ter escolhido um soberano cristão entre os mais pequenos para melhor proclamar o seu poder. Tem apenas trinta anos, e o seu filho Miguel, criança débil que vive em Granada, já é o príncipe herdeiro de Portugal, Castela e Aragão, de Leão e da Sicília. A missão carismática, de que o rei acredita estar investido, define-se. O caminho marítimo para a Índia é descoberto e ele sonha já em se colocar à frente de um exército para conquistar a África, de uma armada para expulsar os Turcos do Mediterrâneo. De momento, prepara uma segunda expedição a Calecute, que mobiliza já toda a cidade de Lisboa.
No entanto, o entusiasmo de D. Manuel não é compartilhado. Choram-se todos os mortos, sem contar com aqueles que regressaram alquebrados por tudo aquilo que passaram. A São Rafael foi sacrificada, e não se viu grande coisa em termos de riquezas da Índia. Será esse o preço a pagar a partir daí, que conduzirá o País mais à

sua ruína do que ao seu enriquecimento? Quanto aos cristãos de São Tomé, que «não poderão ser considerados com propriedade como cristãos», começa a duvidar-se da sua importância social. Girolamo Sernigi não receia escrever que «aquela gente daquele lugar são pessoas grosseiras.» No entanto, estas atitudes não abalam a vontade de D. Manuel que apenas escuta aqueles que têm tendência em exagerar o número. Mas é suficientemente crédulo para contar com as centenas de milhares de guerreiros nos reinos da Ásia do Sul e do Sudeste como outros tantos aliados potenciais?


A notícia espalha-se pela Europa. Desde Agosto de 1499 que Veneza foi alertada por informações vindas do Cairo. Mas estas novidades, que atribuem a Colombo o comando da expedição, parecem tão mirabolantes que despertam mais cepticismo do que receio. Em Florença repetem-se passagens das cartas de Sernigi: «Considera que os Portugueses encontraram de certeza, e isso não oferece qualquer dúvida, a fonte de todas as especiarias.» Ficam extasiados com o bei trovato, de tal modo se deseja que o principal mercado das especiarias na Europa seja a partir daí o de Porto Pisano, vizinho da cidade de Pisa, que Florença espera conquistar dentro em breve.
É nessa altura em que os rumores se começam a espalhar, que uma grande curiosidade se apodera dos espíritos. Reconstrói-se o universo. Em volta da Índia redescoberta colocam-se os continentes nos seus devidos lugares. D. Vasco e os seus companheiros estabeleceram ligações entre mundos, dos quais se conheciam apenas fragmentos: o do sultão do Cairo, o de Marco Polo, o do Preste João. Confirma-se que este último não é na Índia que reside, mas num reino africano encravado nas montanhas, não muito distante de Melinde; sabe-se que a guerra que lhe fazem os suitões enfeudados ao Cairo o impedem de ter um acesso ao mar. Esboçando o esquema da rota das especiarias, descobrem-se as que são seguidas pelas caravanas do Levante. Conhece-se o ritmo das monções e descobre-se que basta um mês para ir de Melinde a Calecute, desde que se escolha a altura adequada. Já se fala nessa altura de Ceilão e do oceano Índico Oriental, onde se perfilam as ilhas do arquipélago indonésio. Mas afinal, onde é que estão essas ilhas onde se encontra em abundância canela, cravo e noz-moscada?

Os navegadores espanhóis continuam a acreditar que podem ser alcançadas pêlos caminhos desconhecidos do Novo Mundo. Por outro lado, sentem-se ávidos de qualquer informação que possa iluminar a vasta zona de penumbra desde Calecute até ao arquipélago das Antilhas. Cristóvão Colombo retomou a rota em 1498 e estendeu o reconhecimento dos territórios até à actual Venezuela. Em Veneza, patrícios como o conde Zorzi não deixarão de continuar a construir imagens do universo. Quanto a Sernigi, está convencido de que as Antilhas não são mais do que as Maldivas. Convida o seu correspondente florentino a debruçar-se sobre o mapa-múndi, onde se procuram integrar os novos conhecimentos, sem se renunciar no entanto aos traçados de Ptolemeu, que ainda ninguém se atreve a renegar. Ninguém suspeita da existência do Pacífico, o que falseia todas as hipóteses.


Em Lisboa preparava-se com o maior dos cuidados a segunda expedição à Índia. Para reagir contra as primeiras impressões e dissipar os mal-entendidos, era fundamental desmentir a reputação de piratas que os muçulmanos haviam atribuído aos Portugueses, e evitar a todo o custo fazer figura de reino miserável. Debrucemo-nos por instantes sobre uma viagem que iria comprometer o futuro durante longo tempo.
Uma frota de treze velas tripulada por mil e quinhentos homens fez-se ao mar a 9 de Março de 1500, ou seja, uma data favorável para dobrar o cabo da Boa Esperança antes do Inverno austral e entrar no canal de Moçambique antes da inversão das correntes. Tivessem ou não estas decisões sido influenciadas pela experiência de D. Vasco, o que é certo é que este ficou em Portugal, ao passo que Nicolau Coelho, Bartolomeu e Diogo Dias, Pêro de Escobar e João de Sá, sem esquecer o indispensável Gaspar, embarcavam novamente. O comando da armada fora confiado a Pedro Álvares Cabral de Gouveia (1467-1520), cavaleiro da Ordem de Cristo. As peças de artilharia prestavam-se a fazer repelir eventuais agressores, e os porões foram abastecidos para quatro meses.
Absolutamente decididos desta vez a correr riscos, os mercadores florentinos haviam respondido desta vez ao pedido das gentes de Calecute. Haviam reunido os ramos de coral vermelho, o cobre, o mercúrio e os tecidos de linho, os pentes e as lunetas. Chegava-se a

falar de um mercado possível para o vinho, muito apreciado no Malabar desde as expedições do Império Romano. Não tinham os portugueses visto barris de malvasia de Chipre nos entrepostos de Calecute? Quanto aos presentes de joalharia destinados ao samorim, haviam sido fornecidos pelo banqueiro Bartolomeu Marchionni, o rei do açúcar da Madeira, que havia aparelhado a Anunciada juntamente com Girolamo Sernigi. Esboçava-se deste modo o esquema de associação que iria prevalecer no decurso dos anos seguintes:


a Coroa, negociantes de renome, mas igualmente fidalgos, como D. Álvaro, irmão do duque de Bragança, que foi um dos primeiros a investir no comércio da índia.
A frota era composta simultaneamente por naus e caravelas. O facto de a primeira expedição ter sido composta exclusivamente por naus devera-se à opinião de Bartolomeu Dias, que as achava melhor adaptadas aos ventos fortes do Atlântico. A experiência de Vasco da Gama demonstrara que também eram necessárias caravelas, mais manejáveis, capazes de enfrentar as variações dos ventos de terra do hemisfério sul, e sobretudo de fazerem a ligação, graças à sua agilidade, entre os diferentes navios da esquadra. Era vital que não se perdessem de vista. Os fragmentos das instruções de Cabral que chegaram até aos nossos dias insistem com veemência nesse ponto:
inspiradas por D. Vasco, recomendam que sejam acesos dois fogos à popa para virar de bordo, três para navegar à bolina, quatro para ferrar as velas; sinais aos quais cada navio devia responder da mesma maneira. Em caso de nevoeiro, as salvas substituíam os fogos. Mas como é que seria possível mantê-los acesos durante as tempestades, mesmo nas suas lanternas de ferro, quando o uivo do vento cobria o estrondo das bombardas? Cada conselho dos capitães devia escolher previamente um ponto de encontro em caso de dispersão. Do mesmo modo, todo aquele que descobrisse um ponto de abastecimento de água potável devia marcar a sua passagem, o que normalmente era feito cravando três grandes estacas que eram visíveis ao largo e que rodeavam uma marmita ou um sapato onde se deixava uma mensagem.
A 22 de Abril de 1500, o desvio de rumo levou a esquadra de Cabral até às margens do Brasil. É certo que estas margens já haviam sido avistadas tanto pêlos Portugueses como pêlos Espanhóis que levavam cada vez mais longe os seus reconhecimentos. A descoberta

oficial do Brasil por Cabral terá acontecido por acaso ou terá sido calculada para determinar a sua posse pela Coroa portuguesa? De um modo mais simples, não se teria procurado uma escala antes do regresso, para que não fosse ultrapassado o limite fatal do escorbuto, que normalmente se declarava ao fim de cerca de noventa dias de mar alto. O descanso dos navios na costa brasileira constituiu uma escala encantadora, com o tempo passado entre homens e mulheres que surgiam dos bosques povoados de papagaios, sem outra indumentária que não fossem as pinturas que cobriam a sua pele acobreada, e que Diogo Dias fazia dançar ao som das gaitas-de-foles.


Esta agradável pausa foi rapidamente esquecida devido às tormentas do oceano austral. Quatro navios naufragaram nas paragens do cabo da Boa Esperança, entre eles o de Bartolomeu Dias que pereceu sem nunca mais ter sido visto. Cabral demorou-se na África Oriental o tempo mínimo necessário para poder entrar em contacto com as autoridades de Quíloa, a cidade mais importante da região. Diogo Dias havia sido arrastado pelas correntes a leste de Madagáscar, pelo que apenas sete velas fundearam em Melinde, onde uma delas teve de ser abandonada. Da poderosa armada de treze velas sobravam apenas seis para se apresentarem em Calecute.
A 13 de Setembro, Pedro Álvares Cabral entrava nas águas da cidade, com os navios embandeirados e ao som de salvas de artilharia. Mais ainda do que esta parada, os presentes de joalharia e de tecidos preciosos deviam consagrar esta missão. O samorim que recebera Vasco da Gama tinha falecido, pelo que foi o seu sobrinho e sucessor que veio ao encontro de Cabral junto à praia. O capitão-mor entregou-lhe uma carta que fora redigida por Duarte Galvão. Completamente impregnada da ideologia manuelina, dirigia-se a um rei que ainda se acreditava ser cristão. D. Manuel convidava o samorim a louvar a Deus por lhe ter concedido a graça de viver numa época onde se poderiam encontrar e conhecer: as gentes das suas terras, tão afastadas uma da outra desde o começo do mundo, haviam vivido nessa esperança, e Deus queria agora que esse desejo se realizasse. Os fins temporais da expedição eram discretamente expressos. A missiva de D. Manuel havia sido escrita em português e árabe, no intuito de limitar as traduções de intérpretes muçulmanos que se receava serem tendenciosas. No entanto, o conteúdo não lhes escapou de modo nenhum, e

embora não se fizesse nenhuma alusão hostil ao islão, conseguiram mesmo assim pressentir a ameaça de uma aliança que poderia perturbar a situação dos seus negócios.


As posições endureceram-se quando foi instalada a feitoria, apesar das manobras dilatórias que os muçulmanos procuraram tecer por todos os meios. O feitor Aires Correia - um armador de Lisboa - era assistido por um escrivão, um intérprete e alguns amanuenses. Cabral submetera-se escrupulosamente às instruções reais, inspiradas nos conselhos de D. Vasco, insistindo na necessidade de tomar reféns sempre que se deixassem homens em terra. O samorim pedira em vão o seu regresso, alegando que eram hindus e que não podiam beber nem comer em navios estrangeiros, sob pena de se verem excluídos da sua casta. Só aceitara negociar quando esses notáveis - provavelmente naires - fossem substituídos por guzarates de religião islâmica.
Na multidão dos muçumanos, os portugueses conseguiram rapidamente distinguir entre os «mouros de Meca» - ou seja, os árabes e os «mouros da região», e reconhecer nos primeiros os seus verdadeiros inimigos. Os segundos - os mappilas -, que eram minoritários em Calecute, não deixavam de ver com um certo interesse a entrada em cena destes novos clientes, dos quais se dizia que haviam adquirido uma posição em África, não muito distante das fontes do ouro; procuravam por esse motivo fazer amizade com aqueles que poderiam mais tarde vir a ser concorrentes dos mercadores do mar Vermelho. No entanto, a atitude do chefe mappila Koya Pakki, que assumiu o risco de apostar no sucesso da intervenção portuguesa, parece não ter entusiasmado outros membros da sua comunidade. Em termos gerais, esta nunca abandonou uma atitude prudente, que rapidamente provou ser justificada no caso de um incidente no decurso do qual os portugueses se aliaram ao samorim contra um dos seus.
Passava ao largo uma embarcação que se dizia pertencer a um mercador mappila de Cochim. Transportava um elefante de guerra que havia sido recusado ao rei de Calecute, apesar das somas consideráveis que ele oferecera para o adquirir. Pedro Álvares Cabral não teve a menor hesitação quando lhe solicitaram para se apoderar da embarcação. D. Manuel escreverá mais tarde que o capitão-mor quisera desse modo consolidar laços ainda precários e salientar o seu reconhecimento pelo modo acolhedor como era tratado o seu feitor.

Quando a embarcação, que era defendida por um corpo de arqueiros, passou ao largo de Calecute, Cabral enviou apenas uma pequena caravela para se apoderar da embarcação, comandada por um certo Pêro de Ataíde, a quem era dada a alcunha de «O Inferno». A perseguição terminou na baía de Cananor onde a embarcação de Cochim se veio refugiar ao pôr do Sol. Rendeu-se pela manhã, depois de um combate travado perante a multidão que se reunira na praia, e foi rebocada para o largo no rasto da pequena caravela que regressava a Calecute. Tudo indica que as proezas de Pêro de Ataíde tenham impressionado as autoridades de Cananor que viam o poderio do samorim fortalecido pela aliança com os «corsários» portugueses.


O incidente não fora de natureza a desarmar os mercadores de Calecute, inquietos com os favores de que os recém-chegados pareciam finalmente gozar. Favores inúteis sem qualquer dúvida, porque só haviam sido carregados dois navios portugueses em dois meses de estadia. Torna-se difícil ajuizar a respeito do teor das negociações que nessa altura se iniciaram, devido aos problemas linguísticos que obrigavam qualquer texto a uma dupla tradução. Por outro lado, não se tornava possível utilizar os conhecimentos que os malabares trazidos por Vasco da Gama haviam adquirido em Portugal, porque se descobriu que pertenciam todos a castas para as quais o palácio real era interdito. Como é possível afirmar em tais circunstâncias que o rei de Calecute tenha dado aos seus interlocutores a garantia absoluta de que os seus navios seriam carregados antes dos navios do mar Vermelho?
O que é certo é que os portugueses o compreenderam desta maneira e que a sua impaciência levou os muçulmanos a encherem rapidamente os seus porões. Não é possível deslindar a parte dos mal-entendidos, das perfídias e das imprudências que levaram Cabral a apoderar-se de uma embarcação carregada de especiarias, e a população de Calecute a recorrer à violência. Cabral deixara de poder negociar a libertação dos reféns que já aceitara entregar. A 16 de Dezembro a feitoria foi atacada, e o feitor Aires Correia juntamente com quarenta outros portugueses foram massacrados quando fugiam para os seus navios. Como represália, o porto foi posto a «fogo e sangue» e em seguida a armada, fundeada ao longo da margem, bombardeou a cidade durante um dia completo.

Este episódio dramático constituiu durante várias décadas pretexto para rancores e reivindicações. A utilização da artilharia teve um efeito profundamente intimidatório, tanto mais que despertava a recordação dos juncos chineses armados para a guerra que sessenta anos antes havia ameaçado Calecute. Os outros rajás do Malabar, que lutavam contra a hegemonia de Calecute, não deixaram de se regozijar. Originários do antigo império do Querala, os seus reinos encontravam-se mais submetidos a tradições familiares do que a elos de dependência, mas a hegemonia comercial de Calecute tinha uma grande influência sobre as rivalidades locais. O reino de Eli, onde se situava o porto de Cananor, estendia-se a norte da região até ao rio de Telichéri, onde começavam os territórios do samorim, que por sua vez eram limitados a sul pelo rio Periar, que na sua foz banhava a antiga cidade de Cranganor. Mais além, o rei de Cochim reinava sobre o país das lagunas onde vinham desembocar os rios que transportavam os comboios de madeira e os barcos de pimenta. Nos confins da península, os príncipes que reinavam sobre o velho porto de Coulão partilhavam os domínios senhoriais situados de um lado e do outro do cabo Comorim.


Deixando Calecute a caminho de Cochim, Cabral não se dirigia apenas para a região da pimenta mas igualmente para um aliado potencial. Ameaçado pelas pretensões dinásticas do novo samorim, o rei de Cochim acolheu os portugueses com amenidade na véspera de Natal do ano de 1500. Autorizou-os a carregar pimenta e algumas especiarias de menor valor. Para preparar o carregamento do ano seguinte, Cabral decidiu deixar alguns homens numa pequena feitoria. Entre eles ficaram Gonçalo Gil Barbosa e o seu sobrinho Duarte, na altura com quinze anos, que viria a aprender o malaiala, tornando-se no primeiro português a falar esta língua tão bem como os naturais da região.
Tendo tido notícia de um ataque iminente das forças de Calecute, Cabral abandonou precipitadamente a laguna de Cochim em meados de Janeiro, levando com ele dois reféns naires que se desfizeram em lágrimas quando se viram no alto mar. Só ao fim de três dias viriam a aceder às súplicas de Cabral, aceitando alimentar-se com «grande pena e passione» devido à desonra de que eram vítimas. Foi então que Cabral avaliou a gravidade de um acto que o rei de Cochim ainda reprovaria treze anos mais tarde.

Quando Cabral ainda se encontrava em Cochim, Coulão e Cananor, haviam enviado emissários que regressaram com a promessa de uma visita próxima. As ofertas de Cananor foram repetidas quando a armada passou ao largo da cidade, antes de se fazer ao mar alto. A 15 de Janeiro, Cabral entrou no porto para completar a sua carga. Foi imediatamente recebido por um funcionário real e rodeado por uma flotilha de barcas tão carregadas de canela «que já não se sabia onde colocá-la». Os mercadores de Bruges e de Antuérpia que a receberam alguns meses mais tarde acharam-na grosseira; a sua qualidade medíocre talvez explique o zelo com que se apressaram a oferecê-la. O rei de Cananor mandou dizer que, devido às perdas sofridas pêlos portugueses em Calecute, aguardaria a vinda da armada seguinte para receber o pagamento dos 400 quintais já carregados. Cabral pagou a pronto, tendo a preocupação de mostrar ao enviado do rei os seus cofres cheios de ouro. Em seguida comunicou ao rei o seu desejo de levar um embaixador a Lisboa. Dois emissários, escolhidos entre uma categoria social autorizada a viajar, embarcaram no mesmo dia a bordo da esquadra que encetou de imediato o caminho de regresso.


A pressa que foi imprimida a estas negociações não deixa de surpreender; sobretudo quando recordamos os incidentes que se haviam verificado entre os portugueses e o reino de Eli no decorrer das semanas anteriores. Nem o ataque de um barco amigo nas próprias águas do porto, nem a pilhagem de dois barcos carregados de arroz originários da região tiveram peso suficiente para impedir o rei de Eli de procurar a amizade portuguesa. Explicou-se mais tarde e da maneira mais cortês a D. Manuel, afirmando que acolhera os portugueses da melhor maneira que lhe fora possível para corrigir a impressão nefasta com que estes haviam ficado de Calecute, e para mostrar ao mundo que os reis do Malabar não eram todos soberanos sem honra. Podemos deste modo supor que a sua iniciativa tenha sido motivada pelo desejo de se conciliar com um eventual inimigo. O facto de enviar um embaixador a D. Manuel exprimia a sua intenção de estabelecer uma aliança política; nunca teria todas estas preocupações, se se tratasse apenas de um negócio de canela com mercadores de passagem. Os próprios mappilas não levantaram qualquer obstáculo às primeiras negociações; talvez vissem, como se verificara anteriormente com os de Cochim, uma ocasião de se aproveitarem do

eclipse de Calecute para tentarem fazer concorrência aos mercadores do mar Vermelho, e a possibilidade de utilizar em seu proveito a eficácia da frota portuguesa. Quando Pedro Álvares Cabral partiu da terra indiana, os dados estavam lançados, as hostilidades abertas em Calecute, o acordo estabelecido em Cochim, e o interesse despertado em Cananor.


Antes mesmo do regresso de Cabral, D. Manuel havia mandado aparelhar uma pequena esquadra de quatro caravelas. Tomou a rota da Índia a 9 ou 10 de Março de 1501, com uma tão grande discrição que a indicação da sua partida só aparece numa carta do embaixador de Veneza em Lisboa, Domenico Pisani. Era comandada por João da Nova, um dos homens da confiança do rei, que se distinguira pelas suas competências militares e administrativas, tanto em África como em Lisboa. A sua missão é a mais misteriosa destes primeiros anos, só se conhecendo pelas informações que receberam os Italianos.
As expedições de Pedro Álvares Cabral e de João da Nova assentavam num mesmo projecto desenvolvido ao longo dos anos de 1500 a 1502. Ambas se baseavam na experiência de Vasco da Gama. Não eram apenas armadas pelo rei, mas igualmente por todos aqueles que ele associara à exploração da rota do cabo da Boa Esperança:
negociantes, nobres e pilotos, por vezes todos num único conjunto. Os nomes de D. Álvaro e de Bartolomeu Marchionni surgem nos documentos de ambas as expedições. Viagens de negócios ou de descoberta? Longe de serem incompatíveis, os dois objectivos caminhavam a par; mas enquanto a expedição de Cabral representava uma missão política, a de João da Nova parece ter tido por finalidade experimentar as técnicas navais da rota das Índias com um outro tipo de navio, pesquisar a mina de ouro que D. Vasco localizara no Sul do Moçambique, e ir em busca dos reinos asiáticos que tão gabados haviam sido por Gaspar.
Durante esses anos em que Cristóvão Colombo e Américo Vespúcio se encontravam no mar, receava-se que os Castelhanos viessem a encontrar pelo Ocidente as ilhas das especiarias. A imprecisão que rodeara a determinação do meridiano asiático por ocasião do Tratado de Tordesilhas continuava a permitir aos Portugueses colocar os Castelhanos perante um facto irrefutável. Datada de Sevilha a 18 de Julho de 1500, uma carta atribuída a Américo Vespúcio

declarava que os Reis Católicos armavam três navios para «descobrir a ilha da Taprobana» que se acreditava ser Samatra ou Ceilão. João da Nova não tinha qualquer possibilidade de saber que a expedição projectada nunca ultrapassaria a América Austral. Tornava-se também necessário ganhar em velocidade às frotas castelhanas e chegar cada vez mais longe no caminho do Oriente, a fim de dar a Portugal todas as terras das especiarias.


A viagem de João da Nova inscreve-se num período de uma intensa prospecção. Durou mais de dezoito meses, dos quais a maior parte foi passada no mar. Segundo parece a sua equipagem não sofreu o escorbuto, o que permite afirmar que preferiu a exploração das costas e das ilhas à navegação no alto mar. Terá contribuído para o reconhecimento e a sondagem do litoral africano, missão já empreendida por Nicolau Coelho? Terá aportado a Ceilão, onde uma inscrição portuguesa datada de 1501 acrescenta um enigma ao mistério?
João da Nova só fez na Índia breves escalas. Fora avisado sobre os trágicos acontecimentos de Calecute por uma mensagem de Pêro de Ataíde dissimulada num sapato deixado próximo de um dos pontos de água da costa africana. A diferença devida à extensão dos percursos iria a partir daí obrigar os comandantes de esquadra a enfrentarem situações imprevistas e a imaginarem soluções que não figuravam nas instruções recebidas.
O punhado de portugueses que Cabral havia deixado em Cochim acolheram João da Nova «como uma ressurreição», depois de todos os insutos e humilhações que haviam sofrido. O rei não perdoava a Cabral ter libertado os seus reféns, e os mercadores de pimenta, que só aceitavam numerário, tinham recusado os produtos portugueses. Como João da Nova não conseguira descobrir a mina de ouro da África Oriental tão ansiosamente aguardada, faltavam metais preciosos para negociar uma carga. Também se viu obrigado a abandonar os seus companheiros à miséria em que se encontravam, com a única esperança de um próximo regresso. Foi aportar a Cananor, sentindo-se muito feliz em aceitar o gengibre e a canela que o rei lhe forneceu a crédito. Por precaução, deixava em terra Paio Rodrigues, o agente de D. Álvaro, o agente de Bartolomeu Marchionni, dois criados e um degredado, com uma centena de espelhos e de pentes que nem sequer conseguiram vender.



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