Genevieve bouchon vasco da gama



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O Almirante da India. A segunda viagem (1502-1503)
«As aves de rapina sabem que os seus guerreiros, quando encontram o inimigo, são também aves de rapina.»

Abu Amir al-Achjai (992-1036)


Durante este período D. Vasco permanece em Portugal, repleto de honrarias e de riquezas. Passa perfeitamente despercebido. O seu nome não é citado por ocasião das grandiosas manifestações que assinalam o ano de 1500, nem na altura da partida solene de Cabral em Março, nem na transferência das cinzas de D. João II para o Mosteiro da Batalha em Maio, num cortejo à luz das tochas, em que seguia «uma multidão de fidalgos e cavaleiros». Também não se encontra presente no séquito do rei quando este se desloca a Granada em Julho para as exéquias do seu filho, o príncipe Miguel, falecido com vinte e dois meses, e levando com ele a esperança da união das duas coroas ibéricas. D. Manuel demonstra «pouco sentimento», de tal modo conta com o seu próximo casamento com a infanta Dona Maria, uma outra filha dos Reis Católicos, que não pode no entanto ser pretendente à sua sucessão. Desposa-a em Alcácer do Sal a 30 de Outubro, mas o Almirante das índias não se encontra presente nas festividades. Procuram-no em vão nos combates que se reacendem em Marrocos, onde a presença de uma personagem tão importante teria sido notada. D. Vasco encontra-se sem dúvida em Sines, de onde ainda espera vir a ser o senhor.
D. Vasco conhece a família dos Almeida, a de D. Diogo, o prior do Crato, tutor do príncipe bastardo D. Jorge. Virá a desposar dentro em breve a sua prima Catarina, a filha de Álvaro de Ataíde, alcaide-mor de Alvor, em casa de quem o rei D. João II havia entregue a alma ao Criador. Deste modo, passa a ser aparentado com personagens importantes - D. Diogo Lobo da Silveira, barão de Alvito, o conde de Abrantes, o bispo de Coimbra, o grande comendador da Ordem de Avis, e D. Francisco de Almeida, irmão do prior, que será dentro em breve vice-rei da índia. Alguns dos irmãos de Catarina serão mais tarde capitães na Ásia: Álvaro, Tristão e Lopo Mendes de Vasconcelos, que virá a desposar Teresa, a irmã de Vasco, ricamente dotada pela

Coroa. A maior parte deles são cavaleiros de Santiago, constituindo um clã poderoso, com base no Alentejo e no Algarve, em Sines, Crato e Alvor. Ao longo dos caminhos poeirentos do Sul, Vasco e Catarina vão de fortaleza em convento, e juntam-se à Corte nos castelos onde o rei mantém o seu conselho.


D. Manuel não associa o Almirante à sua glória. Encontra-se obcecado pelo seu papel de campeão da cruzada universal, na qual ele se julga confirmado pela descoberta do caminho da Índia. Troca a velha fortaleza mourisca que domina Lisboa pelo Palácio de Santos, na parte ocidental da cidade, onde se encontrava em vias de conclusão o hospital que D. João II mandara construir segundo o modelo do hospital de Florença, relativamente perto dos edifícios da Casa da Mina, que trata ao mesmo tempo dos negócios da Guiné e da Índia. Encontra-se muito perto dos estaleiros navais, e pode contemplar a margem de Belém onde projecta a construção do Mosteiro dos Jerónimos e da torre que todos os navios deverão saudar com um tiro de canhão.
Os soberanos da Europa não manifestam qualquer pressa em seguir D. Manuel nos seus desígnios messiânicos, de tal modo acreditam que a aventura da Índia não terá futuro. Só a República de Veneza pensa em obter lucro com a situação. Na Primavera de 1501, Piero Pasqualigo é designado embaixador em Lisboa para organizar uma expedição naval no Mediterrâneo, onde o sultão otomano Bayezid II se tem apoderado uma a uma das praças venezianas. Nesse ano D. Manuel só enviou quatro caravelas à Índia, mas arma trinta e cinco, transportando três mil e quinhentos guerreiros, que se fazem ao mar em meados de Junho na direcção do Mediterrâneo, sob o comando de D. João de Meneses. Ninguém sabe onde é que se encontra D. Vasco, mas não existe qualquer dúvida de que apoiou D. Diogo de Almeida, inicialmente proposto para esta prestigiosa missão. D. Manuel não tem receio de infligir uma afronta ao clã do Almirante, recusando-lhe esta missão. Despeitado, o prior do Crato exilou-se junto dos cavaleiros de Rodes.
Durante o Verão de 1501 os navios de Cabral, portadores de más notícias, começaram a chegar pouco a pouco. De treze navios, apenas seis chegavam a bom porto. Quatro haviam soçobrado nas paragens do cabo da Boa Esperança, «nesse furor de ventos que os lançou no

grande abismo do oceano, dando os corpos humanos como pasto aos peixes, sem dúvida os primeiros nesses mares desconhecidos*...» Glória sem significado, sobretudo quando comparada com outras decepções. Onde é que estavam os soberanos cristãos do Oriente, os seus cavalos e os seus elefantes, os aliados do grande projecto messiânico de D. Manuel? No coração das montanhas do continente africano, o Preste João parecia inacessível, os reis do Malabar adoravam os ídolos e encontravam-se aí tantos mouros como de Fez a Tunes. Mesmo assim, Cabral conduzia a Lisboa um membro da comunidade cristã de Cranganor, o padre José, um drávida íntegro e cheio de iniciativa - este confirmava que a comunidade representava apenas uma minoria de rito nestoriano, dependente do patriarca da Mesopotâmia. Quanto à carga de especiarias, mesmo sendo de qualidade medíocre, era suficiente para justificar a continuação do empreendimento.


Em Veneza havia quem não tivesse qualquer dúvida. «A cidade ressente-se de uma forma acentuada, comentava o analista Girolamo Priuli, e não há quem não se sinta espantado... Trata-se da pior novidade que a república de Veneza poderia receber, a de perder a sua liberdade no exterior...» Atribuía-lhe «mais importância do que a guerra contra os Turcos ou do que qualquer outra que ainda pudesse vir a surgir.» Desde o início do ano que Domenico Pisani havia posto em campo os seus informadores: Matteo, o Cretense, e Angelo Trevisani que o informavam por intermédio dos Affaitadi, uma companhia de Cremona que se instalara em Lisboa.
No Conselho Régio, a exploração da rota marítima da Índia havia sido posta em causa desde o regresso de Cabral. Sempre latente desde a época do infante D. Henrique, a contestação despertava. Tendo-se já censurado ao Infante só ter descoberto desertos, não iria D. Manuel descobrir apenas quimeras? Enquanto havia quem fosse partidário da continuação da aventura, outros mediam a temeridade da aventura em termos da hostilidade dos muçulmanos e da falta de conhecimentos acerca da região. Uma coisa era explorar novos territórios, trocar bugigangas contra mercadorias de valor, como se fazia em África com populações dóceis; outra coisa muito diferente era correr o risco
Nota: * Barros, 1/5 - 2.

de perder corpos e bens a guerrear no fim do mundo por alguns sacos de pimenta. Quanto aos idólatras da Índia, como é que seria possível convertê-los pela força das armas, quando S. Tomé, um apóstolo de Cristo, não fora capaz de os converter pela palavra?


Debruçados sobre o planisfério com ilustrações que representavam o mundo na altura conhecido, estes últimos sentiam-se tomados de uma vertigem perante a imensidão dos mares e o traçado das rotas que pareciam fazer duas vezes a volta da Terra. E no entanto não passava de uma imagem pintada, uma representação plana de uma realidade onde se misturavam o furor dos elementos, o calor abrasador do sol e as multidões estranhas e hostis. Não se sabe qual foi a atitude do Almirante, que era o único membro do Conselho a conhecer aquilo de que se estava a falar. A posição que ele adoptou mais tarde permite-nos supor que ele pretendia tirar «honra e proveito» da descoberta da Índia, mas que não apoiava o projecto messiânico de D. Manuel nem o plano estratégico que devia conduzir os Portugueses até Jerusalém.
D. Manuel não teve em conta as advertências dos Conselhos Régios que se sucederam durante o Verão. Opunha-lhes a sua fidelidade ao ideal do infante D. Henrique e às tradições da sua dinastia. Em finais de Julho anunciara aos Reis Católicos o envio de uma quarta e poderosa armada na rota do oceano Índico.
Qualquer que tenha sido a posição de D. Vasco, beneficiou da parte do rei de uma segunda vaga de benesses. Para acalmar a sua impaciência em tomar posse de Sines, que ainda continuava nas mãos do mestre de Santiago, a 22 de Setembro, D. Manuel fez-lhe doação de uma renda anual de mil cruzados de ouro, a título de indemnização, pagáveis em quatro prestações, com início no princípio do ano de 1501, de que seria beneficiário ele e os seus descendentes. Isto representava a condenação de qualquer esperança sobre Sines num futuro imediato. Uma rixa já havia oposto os partidários do Almirante aos do capitão, na qual um escravo negro fora ferido, o que valera a D. Vasco ter de entregar a soma de 1400 reais para o resgate dos cativos no Magrebe.
Um outro favor real concedia ao Almirante o privilégio de comandar qualquer frota que ele quisesse escolher, que partisse para a índia. Esta decisão foi explorada muito a propósito por altura da

composição das duas esquadras que deviam constituir a armada de

1502. Uma tinha por missão exigir do samorim reparação pela chacina dos portugueses que tinham ficado na feitoria e pela perda das suas mercadorias, e em seguida negociar um acordo comercial com os outros reis do Malabar. A outra devia permanecer nas águas da Índia para proteger os portugueses estabelecidos em terra e impedir que os zambucos carregados de especiarias atingissem o mar Vermelho. Se D. Manuel ainda não havia escolhido o chefe da primeira, decidira confiar a segunda a Vicente Sodré, um fidalgo da sua casa que era afinal de contas o jovem tio materno de D. Vasco e companheiro da sua infância. Cavaleiro da Ordem de Cristo, alcaide-mor da cidade de Tomar, tinha a seu cargo mandar celebrar missas além-mar, segundo o voto do infante D. Henrique. O rei queria honrar este servidor que sempre lhe fora fiel. Pediu a Pedro Álvares Cabral para comandar o conjunto da armada, mas deparou com uma recusa. Cabral não suportava Vicente Sodré e não aceitava que, tendo recebido instruções diferentes pudesse, contestar a sua autoridade no decorrer da expedição.
Terá sido D. Manuel que tentou resolver a situação propondo o cargo a Vasco da Gama? Terá sido o Almirante que no último momento fez valer a prioridade que lhe era concedida pelo seu título? As prerrogativas de Vicente Sodré foram ampliadas devido ao facto da nomeação do seu sobrinho: todos os capitães receberam ordens para lhe obedecer se acontecesse separarem-se do navio do Almirante, a quem deveria suceder em caso de falecimento ou de incapacidade deste último. Naquela altura, a personalidade de D. Vasco, o seu carácter intratável e os seus conhecimentos de navegação empurravam-no para uma missão que poderia vir a ser perigosa.
Em vésperas de começar o Inverno, reinava uma intensa actividade nos estaleiros do Tejo, onde se equipavam vinte navios e uma caravela prefabricada que devia ser montada em Moçambique. A 30 de Janeiro de 1502, D. Vasco foi proclamado oficialmente Almirante da Índia no decorrer de uma missa solene na Sé de Lisboa. Envergando uma capa de cetim escarlate à lafrançaise, orlada de arminho, com um chapéu a condizer e uma corrente de ouro que lhe pendia do pescoço, jurou fidelidade ao rei e aos seus descendentes na presença dos dignitários do Reino e dos embaixadores estrangeiros.

De joelhos diante do seu soberano, recebeu uma espada com a mão direita, o estandarte real com a esquerda, e um anel que D. Manuel retirou do seu próprio dedo para lho colocar.


A 1 de Fevereiro, a corte deslocou-se com grande pompa a Belém onde a armada se preparava para levantar ferro. D. Vasco recordava possivelmente a cerimónia austera que precedera a sua primeira viagem. Como acontecera aquando da partida de Pedro Álvares Cabral, depois da missa na ermida e da procissão das relíquias, as velas foram içadas ao som de trombetas e címbalos, que abafavam o ruído das orações e das lamentações. Das barcas que haviam invadido o estuário, todas ornamentadas com estandartes, respondiam adufes e gaitas, «de tal modo que mais parecia um campo de flores do que o mar, com a flor desta juventude que embarcava*...»
O Almirante comandava a São Jerónimo, que descia o Tejo à frente de oito grandes naus e de uma caravela. Era seguido por Vicente Sodré com as três naus e as duas caravelas da segunda esquadra. A multidão apinhada na margem soletrava os nomes à sua passagem. Nomes de santos: São Gabriel e São Pantaleão, Santiago, São Pedro e São Paulo, Santa Maria do Faial, Santa Helena e Santa Marta;
nomes de mulheres: Flor de La Mar, Esmeralda, Julioa e Leonarda, e também Leitoa Nova e Batecabelo.
Era a expedição da última oportunidade. D. Manuel confessara ao embaixador veneziano que não voltaria a desafiar o destino, se esta expedição viesse a ser um malogro. O Almirante estava decidido a ter êxito, a evitar a todo o custo enterrar para sempre aquilo que deveria ser a sua glória. Por muito elevado que fosse o preço. Esquecendo honras e desventuras, saiu a barra do Tejo e encontrou-se finalmente a navegar no cintilar sombrio do mar Tenebroso.
A 15 de Fevereiro a armada passava ao largo das ilhas Selvagens, e pouco depois de Cabo Verde. A 28 fundeou na ilha de Goreia, onde foi celebrada missa, e a 2 de Março em Bezeguiche. A 6 rumou para o mar alto, deixando de navegar junto à costa. O Almirante conseguiu não perder de vista nenhuma das suas catorze velas, que navegaram em conserva durante os oitenta e sete dias que durou a travessia. Este lapso de tempo implicava uma escala na ilha dos
Nota: Barros, 1/5-1

Papagaios Vermelhos, nome que ainda se dava à costa brasileira, porque nenhum caso de escorbuto foi assinalado. Poucos acidentes foram de lamentar, um mastro quebrado, duas embarcações que se abalroaram. Em meados de Maio, a aproximação do cabo da Boa Esperança reacendera o medo das tripulações e a vigilância dos capitães. O desastre dos quatro navios de Cabral que haviam naufragado estava na memória de todos. «Parecia que a mais escura das noites caía sobre eles, de tal modo que não conseguiam ver-se uns aos outros e ainda menos conseguiam fazer-se ouvir por causa do uivar do vento*». Piedosas invocações misturavam-se com as pragas e as ordens, e eram lançadas relíquias às vagas para conjurar a sorte. Mas nesse ano nenhum navio naufragou. A 30 de Maio o Almirante ordenou que todos estivessem atentos, porque, se as aves aparecessem, anunciavam a terra onde dormiriam nessa noite. A 3 de Junho, onze das quinze embarcações estavam reunidas a su da embocadura de Sardwana River (27° 30’). Pela terceira vez D. Vasco havia dobrado o cabo pela rota mais curta, poupando as suas tripulações ao desvio pela zona gelada da Antárctida, enquanto os navios da outra esquadra enfrentavam as geadas e o nevoeiro cerrado para evitarem os escolhos e as correntes que bordejavam a costa.


Sem aguardar os que se tinham perdido e que viriam a ser encontrados mais tarde, o Almirante preparou a escala seguinte. Quatro navios sob o seu comando aproaram a Sofala, enquanto os outros rumaram a Moçambique onde toda a frota se devia agrupar. As datas haviam sido calculadas com grande precisão: a passagem do cabo antes do Inverno austral, a entrada no canal de Moçambique no momento exacto em que as correntes se tornavam favoráveis. A partir de 10 de Junho, a esquadra de D. Vasco lançou âncora ao largo de Sofala.
Ao sul do delta do Zambeze estendia-se o reino do Monomotapa que regurgitava de minas de ouro. Uma delas situava-se a montante de um rio que desaguava em Sofala. Dizia-se que era a mina do rei Salomão e que era possível extrair dois milhões de meticais por ano. O rio havia sido reconhecido por Nicolau Coelho e visitado por Cabral. Do local onde se encontravam ancorados avistavam-se os fumos que se erguiam como apelos para que entrassem na enseada.
Nota: * Barros, 1/4-11.

Depois de um reconhecimento em chalupas armadas e do acordo do chefe local, D. Vasco enviou três navios, onde seguia um dos seus feitores, Rodrigo Reinei, que conseguiu trocar anéis de cobre, espelhos e panos de lã por um pouco de ouro. Mas o mercado parecia pouco activo, por causa da guerra que opunha a cidade de Sofala à de Quíloa, de cujo jugo se tentava libertar. Ao deixar o porto, o navio de João da Fonseca encalhou num recife e foi queimado na maré baixa.


Nos primeiros dias de Julho, as velas começaram a agrupar-se nas águas de Moçambique. Os primeiros a chegar haviam conseguido um acordo com as autoridades locais. Desembarcavam livremente para buscar água e madeiras, carregar galinhas e limões. O Almirante reencontrava-se com os seus dois jovens tios Vicente e Brás Sodré, os seus cunhados Álvaro de Ataíde e Lopo Mendes de Vasconcelos, e o seu afilhado Gaspar, entre outros, sem contar com os dois navios que se haviam perdido nas paragens do cabo da Boa Esperança. Faltavam ainda dois à chamada, vindo a reunir-se a eles mais tarde. A caravela prefabricada foi montada e lançada à água. Depois de terem sido limpas e calafetadas com breu, todas as embarcações se fizeram de vela para Quíloa a 9 de Julho.
Ao largo da actual Tanzania, a ilha de Quíloa abrigava o mais importante sultanato da costa africana. Fundada por persas que haviam emigrado em finais do século X, e mais tarde integrada nos circuitos do grande comércio islâmico, a cidade tornara-se no principal mercado de ouro, de marfim e de escravos que eram trazidos do interior pelas pistas da selva. Dominada por casas de pedra com vários andares, possuía uma muralha que a protegia dos ataques dos Bantos. Cabral fora mal recebido quando aí chegara. O Almirante assumiu uma posição de força, aproximando os seus navios o mais possível da margem. Na primeira barca que veio ao seu encontro, os portugueses tiveram a surpresa de reconhecer Luís de Moura, um degredado que aí fora deixado por Cabral e que já compreendia a língua suaíli.
Trazia uma carta de João da Nova, escrita para dar notícias da índia ao primeiro capitão português que passasse por ali. Luís de Moura foi encarregado de transmitir ao emir Ibrahim, sultão de Quíloa, uma mensagem do Almirante solicitando uma audiência. O relato das negociações é-nos fornecido pelo próprio D. Vasco, numa das raras cartas da sua autoria que chegaram até aos nossos dias:

«Não queria ver-me, e comportava-se para comigo de uma maneira muito descortês...» Com efeito, o sultão respondera que se sentia muito doente para receber os cristãos. D. Vasco não esperou que passasse sequer um dia para reunir o conselho dos capitães e desembarcar em chalupas à frente de mais de trezentos homens, todos armados com arcabuzes, seguindo até à praia fronteira à residência de Ibrahim. Tendo chegado a terra, mandou-o buscar «de uma maneira ainda mais descortês», conforme ele próprio descreve. O sultão foi obrigado a dirigir-se a bordo da chalupa onde se encontrava o Almirante. Instalado nos tapetes que guarneciam a popa, foi-lhe dado escolher entre a paz e a guerra. Nesses primeiros anos, e porque ignoravam os modos da diplomacia oriental, os Portugueses adoptavam uma atitude radical: ao aliado leal ofereciam uma amizade sem limites, e um ódio inesgotável àquele que não o fosse.


Ibrahim só tinha como solução escolher a paz. Aceitou ser vassalo do rei de Portugal, comprometendo-se a entregar todos os anos dez grandes pérolas para a rainha e a enviar um tributo de 2600 meticais de ouro, reduzidos a 1500 depois de muito regateio. Foram entregues de imediato ao Almirante mil meticais, juntamente com um refém muito bem escolhido, uma vez que se tratava de Mohammed «Anconi», um dignitário rival de Ibrahim, que não se apressou a pagar a diferença do tributo, na esperança de que os portugueses o desembaraçassem dele, condenando-o à morte. Mohammed viu-se obrigado a pagar os 500 meticais em dívida dos seus próprios cofres para conseguir ser libertado. Este foi o primeiro tributo pago ao rei de Portugal por uma metrópole do oceano Índico. No entanto, nestas regiões o tributo não possuía o mesmo significado que lhe era atribuído no Ocidente: definia um acordo pontual sem implicar qualquer elo de dependência, não tendo também o termo «vassalo» o mesmo significado.
Ibrahim recebeu peças de escarlata e de veludo carmesim, bem como um estandarte bordado a ouro com as armas do rei de Portugal que mandou içar na parte alta da cidade, acima das suas próprias auriflamas, para assinalar às frotas portuguesas de passagem que se encontravam em país amigo. Os habitantes de Quíloa haviam tido tanto medo de ser exterminados que não se mostraram avaros em manifestações de regozijo. O acordo foi concluído ao som dos tambores africanos, numa orgia de carneiros e de galinhas.

Datada de 20 de Julho de 1502, a carta de D. Vasco de que citámos algumas passagens iria ser deixada em Quíloa, destinada a «todos os capitães do meu rei e senhor». Pedia-lhes para respeitarem a paz a que se comprometera em nome de D. Manuel, enquanto Quíloa mantivesse a sua parte do acordo, «como é de uso fazer-se para com os vassalos do dito senhor». Esta carta testemunha não só a sua intransigência como também uma gestão minuciosa dos navios que tinha a seu cargo: «Ordeno-vos que não vos demoreis aqui e que sigais para Melinde; e se aí não me encontrardes segui até Angediva, e se eu aí não estiver, continuai até Cochim*...» Ordenava-lhes que navegassem lentamente, para que não chegassem à Índia antes dele, e de entregar a presente carta aos mouros de Quíloa, depois de a terem lido, para que ainda pudesse ser de utilidade aos capitães que por ali passassem.


A 29 de Julho, ao sair de Quíloa, as esquadras de D. Vasco e dos Sodré encontraram uma terceira, a do seu sobrinho Estêvão da Gama que deixara Lisboa no dia 1 de Abril. Comandava cinco navios, dos quais um fora armado por D. Álvaro e dois por negociantes italianos -Bartolomeo Marchionni e Gian Francesco Affaitadi.
Afastadas para o largo pêlos ventos de monção, as três esquadras não conseguiram aportar a Melinde. A 12 de Agosto tomaram o rumo da índia.
O Almirante tinha motivos para se encontrar satisfeito. Do castelo da popa contemplava os seus barcos que se espraiavam pelo horizonte em movimento, todos de velas enfunadas. Mesmo considerando que ainda faltavam duas naus à chamada, sentia-se maravilhado ao pensar que, depois de terem percorrido tantos milhares de léguas, de desertos de água e de tormentas, haviam sido exactos no seu encontro na costa africana. Rumavam todos para nordeste, navegando no mar da Arábia que deviam atravessar sem problemas. Desde finais de Agosto, o azul sedoso da água mudou para verde, contrastando com a areia do cordão litoral que anunciava a costa indiana, e as serpentes-marinhas surgiram na espuma dos sulcos dos navios. Aproaram a norte na direcção de Angediva, para uma escala de duas
Nota: * Brito Rebelo, Navegadores doc. 73.

semanas. No dia seguinte ao da sua chegada, um dos dois navios de Estêvão da Gama juntou-se à armada.


Esta reconstituía-se pouco a pouco, com a chegada de duas embarcações que andavam perdidas. No entanto a Santa Cruz., que perdera a monção, devia esperar em Moçambique pela do ano seguinte.
Nos primeiros dias de Setembro as âncoras foram lançadas a norte de Cananor. Nas lagunas que haviam submerso a antiga cidade de Eli anichavam-se pequenos portos. Com uma altura de duzentos e cinquenta metros, o promontório que dominava o local assinalava também a primeira e a última escala dos navios que iam carregar especiarias nos portos do Malabar. Encontravam-se aí entrepostos de víveres - arroz e peixe seco, óleo de coco e bananas em abundância. Fora reunido tudo o que era necessário para reparar os navios: a madeira das montanhas, resistentes telas para as velas, originárias do Guzarate, e esses cordames que não apodreciam, que os mercadores de Cananor importavam das Maldivas. O promontório de Eli era o melhor posto de observação para avistar os navios vindos do mar Vermelho. Ventos de monção e correntes marinhas conjugavam-se para atrair as embarcações para os seus ancoradouros, e numerosas eram as que chegavam na corrente de Setembro.
Nas imediações do estaleiro onde se acabava de reconstruir o mastro da Esmeralda reunia-se cerca de um milhar de homens, tornando-se necessário conter a sua impaciência. Tendo embarcado quase todos com o intuito de enriquecer, morriam de tédio nos lânguidos pântanos de Eli onde as proezas dos elefantes já não conseguiam distraí-los. Quanto aos capitães, estavam prontos a obedecerem às ordens do Almirante, tanto mais que o desejo de vingar a chacina dos portugueses da feitoria de Calecute lhes fornecia um virtuoso pretexto para se entregarem à perseguição dos zambucos. Saíam todos os dias e divertiam-se a aterrorizar tudo o que passava à sua frente disparando tiros de bombarda. Na companhia dos seus tios Sodré, do seu sobrinho e dos seus cunhados Vasco reencontrava o entusiasmo de uma juventude turbulenta, quando «ia aos mouros» nas praias de Sines. Seria a embriaguez de uma travessia realizada com êxito, ou a alegre excitação de se encontrarem todos juntos, longe das restrições morais? A emulação vingadora que se apoderara dos capitães e dos seus homens ia levá-los para lá das leis da guerra e manchar para sempre a sua memória.

A 29 de Setembro foi anunciada uma presa importante. Uma grande embarcação vinda do mar Vermelho dirigia-se para Calecute. O Almirante fez-se imediatamente ao mar com parte da sua frota. Depois de uma salva de intimação com as bombardas, a São Gabriel veio abordar o navio. Encontravam-se a bordo mais de duzentas e cinquenta pessoas, das quais a maioria eram mulheres e crianças que regressavam de uma peregrinação a Meca. A embarcação chamava-se Miri, um nome que indicava ser propriedade do sultão do Cairo, na altura senhor de Jeda, o porto das cidades santas. Fora armada pelo seu agente em Calecute, um certo Jauhar al-Faqih, que apareceu na ponte, rodeado por uma dezena de outros mercadores marítimos dos mais poderosos da cidade malabar. Deram a entender de imediato que não queriam combater, embora o seu navio estivesse armado. Estavam convencidos de que os tesouros em ouro e pedras preciosas que transportavam seriam suficientes para resgatar as suas vidas. O Almirante não hesitou nem um instante. Foi de imediato conferenciar com Jauhar al-Faqih, popa contra popa. O negociante propôs-lhe o fornecimento de um carregamento de especiarias para toda a armada, sob condição de não pôr obstáculos a que a embarcação seguisse para Calecute, o que o Almirante recusou. Jauhar alFaqih propôs então o carregamento das quatro maiores naus portuguesas em troca da sua liberdade, da liberdade de uma das suas mulheres e de um dos seus netos. Além disso, faria todos os esforços para convencer o samorim a conceder plena reparação pêlos prejuízos sofridos com a pilhagem da feitoria de Calecute, e de fazer a paz com os Portugueses. Oferecia-se como refém enquanto o seu neto fosse negociar em Calecute e regressasse com uma resposta favorável. Se ele não mantivesse a sua palavra, o Almirante poderia fazer dele o que entendesse. D. Vasco não lhe quis dar ouvidos, exigindo que os negociantes que se encontravam a bordo lhe entregassem de imediato as suas próprias riquezas. Cada um só deu aquilo que quis, o que no entanto foi suficiente para encher seis chalupas com jarros repletos de ashrafi e de ducados de ouro, pérolas e jóias, sem contar com as peças de tecidos preciosos. Enquanto se afastavam, o Almirante deu ordem aos bombardeiros para queimarem o Miri, disparando sobre as velas pelouros em brasa.


Tendo-se perdido as instruções que D. Vasco recebera do rei, não se sabe a quem atribuir a opção pela violência. A mensagem de João

da Nova que lhe fora entregue em Quíloa ter-lhe-ia dado motivos para a sua intransigência? Não teria sido igualmente ditada pela sua própria natureza, a de um «grande executor de punições, em qualquer situação, para o bem da justiça»? Se tivesse aceite as propostas de Jauhar al-Faqih, teria obtido sem qualquer dúvida um carregamento de especiarias, o que não impediria outras negociações; estabeleceria igualmente uma abertura propícia a negociações que permitiriam aos Portugueses inserir-se no comércio das especiarias. Deixou-se arrebatar pela desconfiança e pelo respeito das leis das represálias, tais como eram praticadas pêlos corsários, que habitualmente puniam toda uma comunidade sem distinguir os culpados dos inocentes. Este hábito cruel adaptava-se como uma luva ao rancor que sentia pêlos que o haviam humilhado três anos antes, e que presentemente se encontravam à sua mercê.


Os Mouros conseguiram apagar rapidamente as chamas e empunharam as suas armas - lanças, arcos e flechas, e imensas pedras que lhes serviam de lastro. Tinham decidido que «era preferível morrerem a combater do que se renderem». Quando os portugueses se aproximaram para reacender o fogo, foram acolhidos com pedras lançadas tanto pelas mulheres como pêlos homens. As chalupas só dispunham de pequenas peças de artilharia que não faziam mais do que arranhar

o casco.
Durante todo este tempo, as mulheres tentavam desesperadamente demover os seus agressores. Colocavam-se na amurada da embarcação, exibindo «grandes ornamentos em ouro, prata e pedras preciosas. Gritavam em voz alta e chamavam o Almirante agitando a cabeça e mostrando que lhe entregariam tudo, se ele quisesse salvar-lhes a vida... Algumas pegavam nos seus filhos de tenra idade e erguiam-nos nos braços, e nós compreendíamos que elas nos pediam para termos piedade daqueles inocentes*...»


«O Almirante observava tudo por uma seteira». Ele próprio era observado por um certo Tomé Lopes, escrivão a bordo de um navio da esquadra de Estêvão da Gama, que viria a fazer o mais comovente relato deste trágico episódio. Observava que os mouros estavam na disposição de pagar um pesado resgate «e que essa soma teria permitido
Nota: Tomé Lopes, em Viagens de Vasco da Gama, pp. 201-282.

libertar todos os cristãos que se encontravam prisioneiros no reino de Fez, depois do que ainda teriam sobrado grandes riquezas para o rei nosso senhor...» O corsário mais ávido teria ficado seduzido por tais ofertas, mas o Almirante foi inflexível. Vendo que «ele não lhes queria conceder a graça de os poupar», os sitiados «prepararam-se para vender a vida o mais caro possível». Em conjunto organizaram um acampamento na ponte, protegido por almofadas e cestos de vime, e causaram grandes estragos com pedradas e flechas entre os portugueses que tentavam aproximar-se.


O dia 3 de Outubro é uma data de que Tomé Lopes se «recordaria para o resto da sua vida», porque foi o seu navio que recebeu os sinais de uma bandeira agitada a bordo de uma chalupa que se encontrava de vigia. Era comandada por um capitão italiano, Giovanni Buonagrazia, e tripulado por uma quarentena de homens. Pegaram em poucas armas porque acreditavam que se encontravam perante adversários sem defesa. Mas quando lançaram os ganchos de abordagem à amurada da proa do Miri, foram bruscamente lançados contra o casco, de tal modo os seus defensores se esforçavam por apertar os dois navios um contra o outro, para que o agressor servisse de escudo contra os tiros das bombardas. Os mouros tinham consciência da sua vantagem, porque a sua embarcação era muito mais alta do que a dos portugueses, que eles martelavam com pedradas e flechas. Batiam-se «como danados e como loucos enfurecidos», relata Tomé Lopes, e parecia que não sentiam os ferimentos. Avançavam contra as lanças pontiagudas, e retiravam as flechas da sua própria carne para as lançarem novamente sobre o assaltante.
Os mouros surpreendiam os portugueses tanto pelo seu ardor como pêlos seus efectivos. Por vezes parecia que desistiam, para voltarem a surgir, ainda mais numerosos, das entranhas do seu navio, de tal modo que conseguiram penetrar no castelo de proa do navio onde uma quinzena de portugueses, todos feridos, se protegiam debaixo das velas. Os outros haviam-se lançado à água com o desespero e tinham nadado até às chalupas. A confusão prolongou-se no entanto até ao cair da noite. Tomé Lopes e Giovanni Buonagrazia haviam ficado a combater quase sozinhos, até que este último perdeu o peitoral da sua curta couraça cujos laços haviam sido arrancados. Já os mouros entravam com grandes gritos de vitória. Levantara-se

vento. As vagas erguiam-se como uma cortina ribombando entre o navio em combate e os da armada que cruzavam ao largo, sem nada saberem do resultado da batalha.


Foi no entanto a Jóia quem o salvou no último instante. Conseguiu aproximar-se simulando que ia executar uma segunda abordagem, o que teve como resultado obrigar os mouros a abandonar a embarcação portuguesa que tinham começado a invadir. O Almirante passou para a Leonarda para conduzir a última manobra. Tomou posição com uma meia dúzia de barcos em volta do Miri, que continuava a sua rota oscilando sobre as vagas. Este continuou assim cercado durante quatro dias e quatro noites, até que foi tomado de assalto por causa de uma traição. O Almirante aguardaria este momento? Um mouro aproximou-se a nado, oferecendo-se para bloquear o leme debaixo de água se a sua vida fosse poupada. O que aliás foi feito. «Foi então que, com muita crueldade e sem qualquer piedade, o Almirante mandou queimar aquela embarcação com todas as gentes que nela se encontravam», diz sobriamente Tomé Lopes. Houve sem dúvida conversações de última hora, porque um piloto corcunda foi poupado, bem como uma vintena de crianças. Foram conduzidos à nave almirante e baptizados de imediato. Aqueles que conseguiram sobreviver à viagem de regresso foram engrossar o cortejo dos mendigos junto à ermida de Belém.
Quando se aperceberam da sua situação desesperada, os mercadores haviam lançado ao mar o tesouro que se tinham recusado entregar aos portugueses. Embora se investigasse a espuma das vagas palmo a palmo, à luz dos archotes, nada flutuou dos tesouros lançados à água. No decorrer dos dias seguintes, as gentes de Eli acorreram às praias para apanhar os objectos rejeitados pelo mar.
Os cronistas da época medieval, tanto na Europa como na Ásia, tinham por costume descrever sem qualquer pudor atrocidades e represálias. As que vitimaram a embarcação dos peregrinos não foram consideradas como um acto de guerra. Permaneceram na memória de várias gerações, e Tomé Lopes, que foi delas testemunha, não dissimulou o terror que elas lhe inspiraram. Horror partilhado, sem qualquer dúvida, pelas populações muçulmanas de Cananor, que haviam assistido ao suplício nas suas águas dos peregrinos de Meca. O rei de Eli, que não demonstrara o menor interesse nem por Cabral

nem por João da Nova, apressou-se a convidar o Almirante a encontrar-se com ele no porto de Cananor. A sua inquietação era confirmada pelo relato do seu embaixador, o mesmo que Cabral recebera a bordo e que voltara com a esquadra de Gama. Havia encontrado em Lisboa o enviado de Veneza que o prevenira contra os Portugueses e o aconselhara a apoiar-se no poderio da Sereníssima República em vez de confiar naqueles que só conseguiam financiar as suas expedições com os bens dos estrangeiros e conquistar pela força aquilo que não eram capazes de conseguir pela arte do negócio. A presença em Cananor de um agente dos Marchionni e a recente estada do veneziano Benvenuto del Pau deviam dar uma certa verosimilhança a tais propósitos.


Foi grande a alegria a bordo por encontrar os portugueses deixados em Cananor por João da Nova no ano precedente - Paio Rodrigues, agente de D. Álvaro, e o feitor de Bartolomeo Marchionni. Os dois haviam estabelecido em conjunto um pequeno negócio no bairro dos mercadores, misturados com outros estrangeiros. Com o auxílio deles, o Almirante preparou a visita real. Como as suas instruções não o autorizavam a pôr pé em terra, pelo receio de ser capturado, foi construído um largo molhe de madeira nas águas do porto, que avançava até ao nível do navio almirante, e, na extremidade desse molhe, erguido um pavilhão de panos de algodão pintado. Foram içados estandartes;

as armas, polidas; e a popa, atapetada de veludo verde e carmesim. O rei de Eli avançou em liteira ao longo da margem, escoltado pêlos seus portadores de sombreiros e por dois elefantes de parada, e seguido por várias centenas de naires de broquel vermelho. A meio caminho deteve-se num quiosque onde aguardou a chegada de D. Vasco. Quando o navio almirante chegou ao nível do molhe, o rajá foi escoltado até ao pavilhão sob a protecção de trinta naires, enquanto o Almirante surgia em grande aparato no castelo da popa. O encontro foi saudado pelas trombetas, os címbalos e as salvas da artilharia portuguesa, enquanto que os naires executavam danças guerreiras, fazendo malabarismos com os seus dardos. As conversações começaram depois de terem sido trocados presentes, mas o soberano, alegando a sua idade avançada e a sua saúde débil, evitou rapidamente as dificudades de uma discussão. Invocou como pretextos para se retirar o incómodo causado pelo calor e a sua falta de capacidade para tratar

de assuntos comerciais, garantindo ao seu interlocutor que o recomendaria aos mercadores muçulmanos que dominavam o negócio das especiarias.
Isto significava colocar os portugueses perante uma realidade que eles dificilmente conseguiam conceber: o rei de Eli não era, como D. Manuel, um soberano que se envolvesse nos negócios. Contentava-se em receber os seus direitos, sem qualquer possibilidade de intervenção num domínio que não era o seu, nem fixar o preço de bens de terceiros. A separação dos domínios económico e político era mais acentuada em Cananor do que em Calecute. O soberano hindu reinava sobre o território, enquanto o chefe da comunidade muçulmana tinha poderes absolutos sobre os negócios marítimos. Este «rei do alto mar» (ali râja*) não era um estrangeiro, mas um mouro da região, que viria mais tarde a desempenhar um papel considerável na organização da resistência à expansão portuguesa.
Perante o Almirante, os mercadores marítimos de Cananor marcaram a força da sua posição adoptando uma atitude mais dura do que a do rei. Quiseram impor um leilão, porque as mercadorias portuguesas eram demasiado medíocres para encontrarem interessados. Esta atitude desencadeou o furor do Almirante, que expulsou os negociadores. Solicitado uma segunda vez, mas fatigado com manobras dilatórias que ele desconfiava que iriam durar até à sua partida, decidiu apressar as coisas. Mandou dizer ao rajá de Eli que não se deixava enganar pela sua desenvoltura e que via perfeitamente que ele pouco se preocupava em estar em paz com Portugal. Não era verdade que havia delegado nos seus piores inimigos, «esses muçulmanos que alimentavam um ódio secular contra os cristãos»? Já que o rajá se recusava a negociar directamente com ele, prometia devolver-lhe no dia seguinte os poucos sacos de especiarias já carregados e simultaneamente igual número de tiros de bombarda.
Transtornado com a brutalidade desta mensagem, Paio Rodrigues dirigiu-se a bordo do navio almirante para oferecer os seus serviços como mediador. D. Vasco ordenou-lhe que não voltasse a terra porque se haviam quebrado todas as relações com o rei. Paio Rodrigues recusou-se a abandonar os bens de D. Álvaro, seu senhor; conseguiu
Nota: * Ali râja significa «alto mar» em malaiala.

que lhe fosse confiada uma carta, na qual o Almirante colocava sob a protecção do rajá de Eli os cristãos da pequena feitoria, ameaçando que faria pagar «aos seus pagãos» o menor atentado perpetrado contra as suas pessoas ou contra a sua honra.


A habilidade de Paio Rodrigues permitiu-lhe negociar o seu próprio futuro com o rei de Eli, tomando as devidas precauções em relação a D. Vasco. Uma mensagem de paz foi enviada à frota portuguesa, contendo uma ameaça velada de que D. Manuel seria informado no caso de se verificarem novos incidentes. Por seu lado, o samorim enviava emissários portadores de ofertas de apaziguamento, convidando o Almirante a lançar âncora ao largo de Calecute.
D. Vasco parecia possuído pelo demónio da violência, ou talvez antes pela terrível Nemesis, filha da noite e irmã do Destino, a quem os Antigos haviam confiado a execução das punições. Só invocando esta antiga paixão conseguiremos compreender a justificação que ele dava para acalmar a sua própria consciência. Depois da exterminação dos peregrinos de Meca não houve nada que conseguisse parar a engrenagem funesta. A 17 de Outubro, ao largo de Pandarane, enviou uma mensagem ao samorim anunciando a sua chegada e exigindo um novo acordo baseado nos bens saqueados dois anos antes. Dava-lhe até ao dia seguinte para responder. Como não via chegar nada, apoderou-se de um zambuco onde uma das crianças escapadas do Miri reconheceu dois dos assassinos dos portugueses de Calecute, que foram imediatamente enforcados num mastro. Um terceiro foi morto a golpes de lança, denunciado por esses mesmos rapazes como tendo tomado parte na pilhagem da feitoria portuguesa.
Em finais de Outubro a armada fundeou ao largo de Calecute. Um emissário do samorim apresentou-se de imediato para lhe dar as boas-vindas e para propor a assinatura de um tratado esquecendo o passado. Esta atitude não contava com o ressentimento do Amirante. Antes de iniciar qualquer negociação exigiu a saída de todos os residentes oriundos do mundo árabe, porque «desde o início do mundo os Mouros sempre foram inimigos dos cristãos e os cristãos inimigos dos Mouros», o que aos seus olhos condenava qualquer perspectiva de paz. Sabia sem dúvida que uma tal exigência era ina| ceitável, e que uma recusa lhe daria a oportunidade para finalizar a

ruptura. Poderemos pensar que ela teria correspondido ao seu desejo, tanto mais que Gonçalo Gil Barbosa, que acabara de passar um ano em Cochim, lhe havia feito chegar às mãos uma carta em que denunciava as pressões exercidas pelo samorim sobre os outros reis do Malabar, para que desencorajassem definitivamente os Portugueses de aí voltarem.


Enquanto as almadias iam e vinham do palácio real ao navio almirante, D. Vasco fervia de impaciência. Descobrindo por toda a parte os sinais de uma armadilha, atacou quatro barcos de pesca que haviam saído confíadamente do porto; encontraram apenas odres de mel, uma bacia de água doce e algumas nozes de coco. Fiel à estratégia dos reféns, conservou os homens para eventuais represálias. Esta agressão levou ao cúmulo a irritação do samorim. Mandou dizer ao Almirante que não lhe devia nada, nem em bens nem em homens, e que o saque do Miri já havia pago tudo mais de dez vezes. Quanto aos muçulmanos oriundos do mundo árabe, expulsá-los estava fora de questão, uma vez que desde há séculos que eles enriqueciam a cidade. Competia a ele, samorim, pôr as condições, e se o Almirante não queria confiar na sua palavra, devia abandonar o local de imediato, sem fundear em mais nenhum porto do Malabar.
Esta mensagem foi recebida por D. Vasco como um insulto, o que o levou a responder com uma intimação. Se o samorim não desse notícias até ao dia seguinte quando o Sol estivesse no seu zénite, a cidade seria bombardeada. Nessa mesma intimação alargava-se em considerações indelicadas, afirmando entre outras coisas que, se D. Manuel quisesse, podia fazer de qualquer coqueiro um rei de Calecute. Depois de ter sondado a margem e colocado balizas, mandou avançar toda a armada para uma posição tão próxima da cidade quanto possível. Cabos fixados do lado da água e do lado da praia permitiriam às bombardas disparar a partir das popas que foram voltadas para a margem. O navio almirante e três outras grandes embarcações permaneceram ao largo.
A noite caíra. Por detrás dos coqueiros que ocultavam parcialmente a praia, D. Vasco avistava o brilho das lanternas que iluminavam os preparativos da defesa - trincheiras cavadas na areia e pequenos redutos. Pela manhã, trinta e quatro mouros que se encontravam prisioneiros foram distribuídos pêlos navios. O Almirante mandou-lhes perguntar se

queriam morrer como cristãos ou na sua própria fé. «A maior parte pediu para ser baptizada. Disse-lhes que aquilo não bastava para se tornarem cristãos, acreditando salvar desse modo as suas vidas, e que de qualquer modo iam morrer. Comportaram-se então como se morressem na fé de Deus Todo-Poderoso - só Ele sabe que É». Uma hora depois de ter expirado o prazo do ultimato, quando o pavilhão da Leitoa Nova foi hasteado no cesto da gávea, foram todos enforcados nas vergas «bem alto para poderem ser avistados.»


A multidão reunira-se na praia para os reconhecer. «Enquanto observavam tudo com estupefacção, relata Tomé Lopes, a nau do Almirante disparou um tiro de bombarda de grande calibre, e uma caravela fez o mesmo. Os tiros caíram no meio das gentes... Os outros navios dispararam também e em pouco tempo a praia ficou vazia... Alguns que não eram suficientemente rápidos para conseguirem fugir deixavam-se cair na areia, para os vermos em seguida levantar-se e fugir, e alguns rolar na praia como serpentes. Ao vê-los fugir, zombávamos deles em grandes gritos, e foram suficientemente amáveis despejar a praia de imediato.»
O bombardeamento durou até à noite, sem grandes resultados sobre as palmeiras e as palhotas da margem e tendo como única resposta o tiro de duas ou três más peças de artilharia. D. Vasco ordenou que os enforcados fossem descidos, e os seus corpos lançados ao mar, depois de lhes ter sido cortada a cabeça, as mãos e os pés. Foram amontoados numa almadia que foi rebocada por uma chalupa até à praia. Na popa encontrava-se cravada uma flecha onde fora presa uma carta em malaiala. Nela podiam-se ler as seguintes palavras do Almirante:
«Cheguei a este porto com boas mercadorias para vender, querendo negociar e pagar em mercadorias. Agora envio-vos este presente que também se destina ao vosso rei. Se quiserdes a nossa amizade, deveis pagar por inteiro o que haveis tomado neste porto... e pagareis ainda a pólvora e as balas que nos obrigásteis a gastar. Se fizerdes tal coisa, seremos amigos de imediato.»
Durante toda a noite as gentes vinham até à praia «como alucinados. Chegava um deles a correr, via as cabeças e voltava a partir em corrida. Nessa noite ninguém conseguiu dormir por causa do grande barulho que vinha de terra e pêlos cânticos sobre os corpos ; dos enforcados que o mar havia lançado à praia.»

No dia seguinte, logo ao nascer do Sol, a armada ajustou as suas bombardas mais alto para visar as ricas casas de pedra que dominavam a cidade. Ao meio-diajá haviam sido efectuados mais de cem disparos, pondo a população em fuga. O resto do dia foi passado a pilhar e queimar um zambuco. Os portugueses jantaram à luz das chamas. A armada rumou ao Sul, deixando a esquadra de Vicente Sodré a patrulhar ao longo da costa. A 7 de Novembro entrava em Cochim, tendo apresado alguns zambucos durante o seu trajecto.


Depois de tanto tumulto, incêndios e medo, passar a entrada da laguna de Cochim significava entrar num mundo completamente diferente. A multidão encontrava-se apinhada à sombra dos coqueiros, nas ilhas e nas pontas que marcavam a embocadura dos cursos de água. Nunca vira uma armada tão numerosa. Naus e caravelas deslizavam impulsionadas pelo velame enfunado como um manto, seguidas pelo rasto cintilante da sua esteira. Dominavam as sampanas e os butres, as velas arruçadas das barcas de pesca, e as chalandras cobertas de palmas, cujas proas em pente faziam lembrar as das gôndolas.
Nas praias da ilha de Matanchéri, Gonçalo Gil e Lourenço Moreno não conseguiam dominar a sua alegria e orgulho. Saltaram rapidamente para uma almadia para irem saudar o Almirante. Traziam-lhe novas que certamente o iriam alegrar. As notícias dos danos infligidos em Calecutejá havia chegado a Cochim. Só se falava de casas desmoronadas, de palmeiras decapitadas e de navios incendiados à deriva no mar. Gonçalo Gil informava o Almirante sobre a hostilidade dos mercadores de Cochim, o que refreava o grande interesse que o rei Goda Varma tinha na aliança com os Portugueses. Explicava-lhe que desde a subida ao trono do novo samorim as ameaças se tinham acumulado. Um passado tumultuoso de lutas dinásticas dava a Calecute o pretexto de reacender uma guerra destinada a conquistar certos locais de peregrinação, fonte de prestígio e de lucro, e de controlar completamente a rede dos rios que conduziam os barcos de pimenta até à laguna.
Como acontecia em Cananor, os «mouros da região» dominavam o negócio. Gonçalo Gil citava os nomes de Mammali e de Cherian Marakkar, que pertenciam a uma família poderosa. O comércio da pimenta estava nas suas mãos. Os seus agentes trocavam-na no sopé das montanhas contra o arroz que os seus navios iam buscar todos os

anos aos portos do Choromândel. Associado ao grande comércio guzarate, Cherian tinha interesses em Malaca e em Ceilão, de onde trazia a canela que ele revendia com lucros que chegavam a atingir os 300 por cento. Estava equipado para carregar elefantes de guerra que transportava até aos portos de Bisnaga e do Guzarate. Os Marakkar gozavam do privilégio de usar um turbante de seda e de albergar o rei hindu na sua própria casa quando ele visitava o porto. As suas reticências em negociar com os portugueses atrasam as negociações, mas o preço da paz com Cochim valia bem alguns dias de paciência. O Almirante sabia que depois das resistências de Cananor e da ruptura com Calecute, Cochim era o porto da última oportunidade, um dos únicos a partir de onde se tornava possível explorar as rivalidades políticas.


Foi o Almirante quem pediu audiência ao rei. Rodeado pêlos seus naires e com os seus elefantes, ostentando uma tiara de pedrarias, apareceu uma primeira vez na margem da laguna, mas o cortejo foi dispersado por uma chuvada diluviana. Uma entrevista menos aparatosa foi organizada para mais tarde. Quatro grandes zambucos haviam sido amarrados uns aos outros e recobertos de pranchas para permitir a Goda Varma ter acesso à popa da caravela onde D. Vasco o recebeu com a maior deferência. Em nome de D. Manuel ofereceu-lhe gomis e outras peças de louça de cobre, bem como um trono de prata cinzelada. Em troca recebeu jóias e um bezoar - uma pedra mágica que neutralizava os venenos. O gesto de confiança do rei, que não tivera receio de se colocar nas mãos do temível Almirante, teve como resultado permitir que fosse reiniciadas as negociações, conduzindo a um acordo cujas cláusulas permaneceram incontestadas durante longo tempo. O essencial das vantagens obtidas por D. Vasco foi a introdução de uma parte de 20 por cento de cobre por bare (163 kg) no pagamento da pimenta, até essa altura tradicionalmente adquirida em moeda de ouro. As outras especiarias foram negociadas em função do preço da canela, que na altura regulava o mercado.
A cânfora, o pau-brasil e o aloés, a noz-moscada, algumas pérolas e peças de tecido de seda guarnecida a ouro e a prata, tamarindos e mirobálamas foram trocados por mercadorias portuguesas - alúmen (270 fanões o bare), mercúrio (1000) e açafrão (10 000). Os mercadores de Cochim não quiseram ouvir falar do resto, nem sequer do

coral que estava de tal modo alterado pela humidade que foi vendido em saldo a baixos preços.


Na calma vegetal da laguna, o carregamento das naus arrastou-se por quase três meses, com curtos períodos de actividade seguidos de longas pausas. Negociações intermináveis mascaravam a má vontade dos comerciantes em aplicarem os acordos concluídos pelo rajá. As tripulações tinham então o tempo livre suficiente para observarem a actividade do porto, para se maravilharem com a actuação dos elefantes, treinados em todas as manobras. Especialistas em descarregar as grandes quantidades de madeira que desciam os rios, também sabiam executar habilidades para grande alegria de todos. Os portugueses nem sequer se atreviam a penetrar na rede entrelaçada de canais que cintilava para lá dos coqueiros. Receavam penetrar nos arcanos do mundo pagão, sobretudo quando ouviam o som repentino das conchas na entrada dos templos e o arrebatamento dos oboés e dos tambores. E se o seu olhar resvalava pêlos corpos morenos das mulheres, pêlos seus cabelos entrançados de flores, sabiam que não eram cristãs e que severas proibições lhes proibiam favores que só era possível alcançar à base de artimanhas.
Os cristãos de S. Tomé chegavam em grupos, desejosos de conhecerem melhor os portugueses. Alguns vinham dos vales dos Gates, onde eram proprietários de uma grande parte das terras da pimenta, outros de Mangalor, a norte do monte Eli, ou de Coulão, onde diziam que tinham mais de trezentas igrejas. Ainda desfrutavam aí de alguns privilégios, apesar da concorrência crescente dos mercadores muçulmanos. Adquiriam confiança pouco a pouco, ofereciam galinhas e frutos, e até mesmo uma vara de justiça para D. Manuel em sinal de submissão. Comparavam as suas orações e os seus ritos com os dos seus irmãos latinos, sem se esquecerem de lhes propor o fornecimento de pimenta. O Almirante enviou dois navios a Coulão e a Kayankulam, onde o cristão Matias se ocupou do seu carregamento. O Almirante só fazia breves aparições na laguna. Deixando a maior parte da frota em Cochim, multiplicava os combates contra os paraus e os zambucos que o samorim lançava contra ele. Com os seus tios Sodré e o seu sobrinho Estêvão da Gama passava a costa a pente fino e era visto todos os dias a incendiar embarcações.

O samorim tinha enviado os seus mensageiros brâmanes aos principais rajás do Malabar, procurando conseguir uma aliança contra os Portugueses. Recomendava aos que não possuíam forças armadas suficientes que fizessem arrastar indefinidamente qualquer negociação, e de não ceder de modo nenhum a respeito do preço das especiarias, para conseguir reter os portugueses na Índia e deixar que se fechasse sobre eles a armadilha da monção. Nessa altura, as suas embarcações ver-se-iam forçadas a aproximar-se das costas, e os navios mais ligeiros teriam de se abrigar nos rios, onde seria fácil incendiá-los. Os argumentos do samorim não foram suficientemente fortes para impedir o rei de Cochim de jogar a cartada portuguesa, mesmo que, segundo parece, os Marakkar se tenham sentido tentados por esta estratégia para atrasar o carregamento dos navios portugueses. Quanto ao rajá de Eli, não contente de ter garantido a Paio Rodrigues as suas boas intenções, enviou um embaixador ao Almirante, pedindo-lhe insistentemente que lhe enviasse três navios que ele mandaria carregar aos preços fixados em Cochim.


Nos primeiros dias de Janeiro, o samorim tentou uma última negociação. Simulando que era enviado pelo seu próprio chefe, um brâmane apresentou-se a D. Vasco. Bem fornecido de diamantes e de pérolas, pretendia querer submeter-se a Portugal. Enquanto carregava especiarias por sua própria conta, esforçava-se por convencer o Almirante da boa vontade do samorim, afirmando que ele se encontrava pronto a indemnizar pêlos prejuízos causados em 1500, pondo como única condição subtrair as riquezas que haviam sido tomadas no Miri. Conseguiu atrair D. Vasco para as águas de Calecute mas rapidamente foi considerado suspeito de traição. As negociações que ele havia encetado no palácio apresentavam atrasos inquietantes. A exigência do samorim que pedia o envio a terra de um fidalgo português como delegado, D. Vasco respondeu que nem aos seus pequenos grumetes faria correr um risco desses. Acrescentou que se o brâmane não regressasse no dia seguinte, mandaria enforcar o seu filho e o naire que o acompanhava, os quais tinham ficado a bordo como reféns.
Durante a noite mais de duzentos zambucos atacaram a Flor de la Mar, navio onde se encontrava o Almirante. Eram acompanhados por paraus, essas pequenas galeras armadas para combate que chegavam a transportar cerca de quarenta remadores. Gerou-se na

escuridão um furioso combate corpo a corpo em que os portugueses lutavam na proporção de um contra vinte. Distinguiam com dificuldade as cotas de seda dos naires e os uniformes vermelhos dos guerreiros muçulmanos que surgiam no meio de uma nuvem de flechas à luz dos clarões das bombardas. Pela primeira vez os zambucos encontravam-se equipados com canhões eficazes que abriram doze rombos na Flor de La Mar. Os seus mergulhadores tentaram sabotá-la ensarilhando as suas âncoras, mas no dia seguinte Vicente e Brás Sodré, regressados de Cananor, libertaram-na desta situação difícil. Naires e mouros foram postos em fuga. Uns procuravam alcançar a costa, enquanto outros se lançavam ao mar, perseguidos pelas chalupas portuguesas e liquidados com flechas e lanças.


O Almirante aproximou-se da margem. Quando chegou à distância do arremesso de uma pedra, mandou disparar as suas bombardas. Depois de o fumo se ter dissipado, os habitantes de Calecute viram que no mastro grande balouçavam os corpos do naire e do filho do brâmane. Esta punição foi sentida em toda a região como um sacrilégio infamante. Tomé Lopes não ignorava, o que aliás também aconteceria com D. Vasco, que os brâmanes eram personagens sagradas, respeitadas por todos os bandidos e por todos os guerreiros da Índia.
No entanto, este escândalo não impediu que os Portugueses ganhassem o jogo da concorrência. No início de Fevereiro, o Almirante regressava a Cochim onde o carregamento se encontrava finalmente concluído. O bloqueio da laguna havia forçado os mercadores a ceder. Diogo Fernandes Correia substituía Gonçalo Gil Barbosa, que fora nomeado feitor em Cananor, enquanto Lourenço Moreno era reconduzido nas suas funções de escrivão. A feitoria foi instalada na ilha de Matanchéri, onde já se erguia uma sinagoga. Os Portugueses haviam descoberto a antiga comunidade judaica que se fora constituindo por vagas sucessivas desde a conquista de Jerusalém pelo imperador romano Tito (70) até à recente tomada de Granada (1492). As suas actividades comerciais encontravam-se em decadência, mas a sinagoga conservava as placas de cobre testemunhando os privilégios que outrora lhe haviam sido concedidos pêlos imperadores do Querala. O rajá de Cochim respeitava a antiga tradição. O ghetto ficava contíguo ao seu palácio, que protegia ao mesmo tempo judeus e cristãos. Vigiava assim os recém-chegados, com receio de que a

sua ignorância sobre os valores indianos pudesse perturbar a ordem pública. Dois mouros acabavam de ser empalados por ordem do rajá, por terem vendido uma vaca aos portugueses. D. Vasco mandou afixar em todos os navios uma ordem para que não fossem comprados bovinos, sob pena de os infractores serem chicoteados.


Escoltado pêlos Sodré, o Almirante saiu de Cochim com dez das treze naus carregadas. Ao largo de Pandarane foram atacados por cerca de trinta zambucos, postos em debandada depois de uma furiosa batalha. Entre tudo o que foi saqueado encontravam-se seis grandes vasos de porcelana da China, uma grande quantidade de escarradores de prata e de queimadores de perfume, e um «monstruoso» ídolo com olhos de esmeralda, que devia pesar cerca de quinze quilos,
O Almirante recebeu em Cananor as satisfações que lhe haviam sido recusadas por ocasião da sua primeira estada. Os acordos de Cochim haviam amolecido as resistências anteriores. Os preços foram fixados; o gengibre, carregado; a feitoria, instalada. O rajá de Eli cedeu um terreno afastado da cidade, na ponta rochosa que dominava o porto. Nesse terreno existiam algumas palhotas de pescadores que foram evacuadas. Os coqueiros foram abatidos e os seus troncos e folhas utilizados para construir uma povoação fortificada com uma paliçada que atravessava a ponta em toda a sua largura. No interior da paliçada havia uma segunda linha com um aterro de entulho, onde se construiu um caminho de ronda, sobranceiro aos tectos de folhas de palma dos armazéns e ao estábulo do elefante. Gonçalo Gil Barbosa foi investido nas funções de feitor, tendo o seu sobrinho Duarte como intérprete. Auxiliado por vinte homens, devia comprar e armazenar o gengibre, a pimenta e o cravo, o anil e as plantas medicinais. Devia também comprar cordame e materiais para as embarcações, armazenar o arroz e o peixe seco, o açúcar, as nozes e o óleo de coco, a fim de satisfazer as necessidades das armadas que a partir dessa altura deveriam ali efectuar a sua primeira e última escalas na índia. Foram fixadas as remunerações dos colaboradores indianos do feitor. Parte da artilharia foi desembarcada e montada no novo perímetro. O conjunto era terminado por uma porta de passagem estreita que devia ser fechada todas as noites e cuja chave foi confiada aos funcionários reais. Esta instalação teve a concordância

do rajá, que via com satisfação os seus hóspedes instalarem o seu domínio a uma distância conveniente das populações autóctones. Ninguém estava autorizado a dirigir-se à ponta, salvo para transportar víveres ou para negociar mercadorias. Seis naires guardavam as imediações da falésia e deviam manter-se à disposição do feitor. Foram dadas todas as instruções necessárias para tentar evitar os incêndios que a má vontade dos muçulmanos fazia com que fossem de recear de um modo muito especial. A esquadra dos Sodré ficava no Malabar para proteger os estabelecimentos portugueses e os rajás que lhes davam asilo.


O Almirante deixou Cananor em finais de Fevereiro - depois do dia 23, data do último documento que ele assinou. A estratégia do samorim conseguira retardá-lo na Índia. Escapava-se antes de ficar prisioneiro da monção seguinte, mas demasiado tarde para a evitar nas costas africanas. Para ganhar tempo, D. Vasco optou por um atalho audacioso; em vez de atingir Melinde seguindo a rota das Somálias, rumou directamente a Moçambique. Este percurso não foi inspirado pêlos pilotos árabes que só navegavam em linha recta, seguindo os paralelos para em seguida continuarem ao longo das costas. Traçou uma diagonal quase que perfeita, tocando as terras que então descobriu: algumas das Seychelles e o pequeno arquipélago que ainda tem o seu nome, embora corrompido, as «ilhas Almirantes».
As tripulações haviam mergulhado num estado de indolência. As naus vogavam a abarrotar de especiarias, docemente embaladas pelo ondular contínuo do oceano. As ondas haviam lavado o sangue das batalhas. Contemplando as águas sedosas rasgadas pela quilha das embarcações, cada um calculava já a sua parte dos lucros. Fundeava-

-se à pressa nas ilhas desertas, encastoadas nas águas azul-turquesas das lagunas. Cruzava-se um recife encimado por uma palmeira, e terras arborizadas onde teria sido agradável permanecer durante algum tempo para caçar aves estranhas com as bestas. Por vezes, ao cair da noite, parecia que se abordavam outras ilhas surgidas no horizonte. Miragens de castelos e de torres construíam um porto, florestas abriam-

-se sobre as pradarias douradas do Sol poente. Ilhas que não passavam de nuvens desfazendo-se na noite.
A armada ficou imobilizada numa calmaria ao largo de outras terras durante onze dias. Eram as Comores ou a costa norte de

Madagáscar? Aqui e ali erguiam-se colunas de fumo que revelavam a presença de gente, mas o Almirante recusou-se a desembarcar. A 12 de Abril a frota ancorava finalmente em Moçambique. As condições lastimosas em que se encontravam os navios iria fazer com que ficassem aí retidos durante mais de dois meses. A madeira dos cascos estava a ser devorada de tal modo pêlos teredéns que foram necessárias milhares de cunhas para clafetar os buracos. Os indígenas vieram auxiliar de boa vontade, talvez para agradecer ao Almirante que lhes oferecera um tesouro: a água de um poço que mandara cavar na ilha, de tal modo se encontrava cansado de enviar chalupas a terra para trazerem água.


A monção erguia-se no sentido contrário à rota de regresso. Em Maio e em Junho só se verificaram falsas partidas seguidas de regressos precipitados por causa de reparações que haviam sido feitas demasiado à pressa. As naus tomavam o caminho de Portugal em pequenas esquadras, à medida que iam estando em condições. A São Gabriel e a Santo António foram as primeiras a partir para anunciarem ao rei o sucesso da expedição e o valor de cerca de 30 000 quintais de especiarias que haviam sido carregadas na Índia.
Finalmente a esquadra do Almirante fez-se ao largo mas a Flor de la Mar e a Leonarda metiam tanta água que alguns dias depois foi necessário regressarem a Moçambique. Enquanto estavam em reparação, D. Vasco não perdia tempo e multiplicava as sondagens e os reconhecimentos em terra. Conseguiram partir novamente a 20 de Maio com um mar já bastante cavado. Na noite de 28, depois da Salve Regina, a Leonarda abalroou com tanta violência a nau em que se encontrava Tomé Lopes que lhe arrancou parte do castelo da proa. Engatadas uma na outra, as enxárcias emaranhadas, as naus «batiam uma na outra com a violência que lhes era transmitida pelo mar, e partiu-se muita madeira do encastelamento. Era uma coisa muito aterradora e bastante dolorosa de ouvir e de ver, porque o mar estava encapelado e com um aspecto medonho. Quando os aprestos do mastro de proa se desembaraçaram, a Leonarda deslizou ao longo da nossa nau, arrancou a amurada de bombordo e bateu-nos tão violentamente na zona onde se encontra instalada a antena que, se não houvesse uma curva, tinha-nos cortado em dois até à quilha... a nau abriu-se neste ponto; o suporte do cadernal partiu-se e a maior parte

do cordame desse lado foi cortado; a vela rasgou-se e o mastro de mezena desmoronou-se...» Foi um combate desesperado na noite negra, durante a qual as invocações e as orações não interrompiam a manobra.


«Quando as duas naus se conseguiram afastar uma da outra, vários dos nossos cadernais foram cortados... os poucos homens que permaneceram na nossa embarcação começaram todos, corajosamente, a lutar com todas as suas forças: enquanto uns procuravam reparar o costado, outros, munidos de selhas e tachos, esvaziavam a água da ponte. Treze dos nossos homens haviam passado para a outra nau, porque era maior e receavam que a nossa se afundasse. Alguns dos nossos inspeccionaram toda a nau com luzes, e quando verificámos que continuava estanque na zona do porão, a nossa coragem aumentou. Como o mar estava muito encapelado, a nossa situação era muito difícil, e não conseguíamos amurar do mesmo bordo que o Almirante e as outras naus, porque era o bordo onde se encontrava o rombo da nossa nau e, quando nos inclinávamos sobre esse lado, metíamos muita água. Fazíamos sinais desesperados com tochas para as outras naus, pedindo-lhes para não partirem sem nós...» Aqueles que haviam conseguido aproximar-se propunham-lhes a utilização de chalupas, admirados por ver que continuavam a flutuar num mar tão bravo. «Todos nós tivemos consciência do milagre», acrescenta Tomé Lopes, «e fizemos todos um voto e uma promessa: quando chegássemos a Lisboa, e antes de descer a terra, iríamos todos em peregrinação a Nossa Senhora da Vida, mandaríamos celebrar em sua honra uma missa solene, e oferecer-Lhe-íamos um quadro representando o milagre das duas naus, e todos nós, os peregrinos, faríamos jejum nesse local para celebrar o milagre.»
Mais uma vez foi necessário regressar a Moçambique. Três navios voltaram a partir a 16 de Junho, e o Almirante levantou ferro a 22 com o resto da frota. Velas e cascos haviam sido reparados, mas os porões só continham víveres em mau estado. Sacudidas pelas mudanças brutais dos ventos, as embarcações dobraram o cabo da Boa Esperança por volta de 18 de Julho, com as velas todas ferradas, a uma distância da costa de quinze léguas apenas.
Todos os escrivães de bordo exprimiram o seu alívio por se encontrarem novamente no mar Tenebroso. Dentro em pouco foi reconhecida

a Ursa Menor no meio do formigueiro de estrelas que se avistavam nos céus. A corrente levava-os na direcção do Rio Grande, mas o sofrimento ainda não havia terminado. A alternância de calmarias e de tempestades desvanecia a esperança de um regresso próximo. Uma vez que as embarcações não podiam tocar em terra, o escorbuto atacou, tendo-se seguido a fome. Na esquadra do Almirante chegaram a comer os cães e gatos de bordo. Na nave de Tomé Lopes «...começámos a fazer com as migalhas de bolacha uma papa que era amarga como fel, da qual um terço era de caganitas de ratos. Além disso, era cozida sem óleo nem mel, numa água que não tinha necessidade de outros condimentos, porque cheirava como um cão morto. Mas tínhamos tanta fome que a comíamos mesmo assim.»


Encontraram-se quase todos na ilha Terceira, nos Açores, a última escala da viagem à Índia, desde que D. Vasco havia descoberto o caminho marítimo. Escala de reparação tanto para as naus como para os homens. As tripulações empanturravam-se de carne e de lacticínios e também se sucumbia ao conforto prodigalizado pêlos frades franciscanos Queimava-se o calçado corroído pelo sal e as camisas manchadas pelo sangue dos combates. Sobre os corpos macilentos ajustavam-se os fatos comprados aos mercadores flamengos estabelecidos nas ilhas. Era importante ter uma bela aparência ao chegar a | Portugal, nem que fosse para ser reconhecido pela própria mulher:
\ «Jesus! Tão negro e tão queimado! Já não te quero, já não te quero!», exclamava uma delas num auto da época. «Mas vens ao menos rico?», i perguntava de imediato*.
| «Os navios da Índia, Deus os leve e Deus os traga a bom porto», | afirma um velho ditado português. No Outono de 1503, depois de

tantos tumutos e tormentas, faltava um único à chamada.


Nos primeiros dias de Outubro, uma após outra, as naus da índia iam subindo o Tejo na euforia das salvas e do repicar dos sinos. A maior parte acompanhava a nau almirante que fundeou no dia 10 em Belém, onde os fidalgos da Corte tinham vindo ao seu encontro. Subiram a bordo para visitar o interior antes de escoltarem D. Vasco até ao palácio. O Almirante seguia à cabeça do cortejo, precedido por
Nota: Gil Vicente. Auto da Índia.

um pajem que levava numa bandeja os quinze mil meticais de ouro do tributo de Quíloa e os contratos de especiarias negociados no Malabar. Tendo sido já abençoado com o nascimento do Infante D. João a 6 de Junho do ano anterior, D. Manuel não via limites para a sua glória crescente. Recebeu este primeiro tributo de um príncipe muçulmano do oceano Índico como uma consagração da missão divina de que ele se acreditava investido. Mandou fazer com este tributo uma custódia, desenhada por Gil Vicente, que ainda hoje se pode admirar no Museu de Arte Antiga de Lisboa.
O Almirante entregou a D. Manuel a sua parte do espólio - o ouro, as pedrarias, os tecidos preciosos que lhe pertenciam de direito, bem como um quinto do saque tomado dos zambucos destruídos. O resto foi partilhado entre os capitães e as suas tripulações, sendo a parte dos defuntos entregue às suas famílias.
Desde a chegada das duas naus que haviam partido à frente D. Manuel sabia que haviam sido contabilizados em Moçambique cerca de 30 000 quintais de especiarias*, ou seja:

Pimenta: 24 000 quintais Cravo: 500 quintais Canela: 2500 quintais Gengibre: 300 quintais Pau-brasil: 1000 quintais Noz-moscada e outros: 15 quintais
D. Vasco confirmou que, apesar dos prejuízos causados pelas tempestades, os porões haviam sido carregados com o maior cuidado, e um peso quase idêntico havia sido descarregado em Lisboa, ou seja, 28450 quintais.
Desta fonte de riqueza cada um tinha a sua parte, pertencendo a parte de leão ao rei, não só por ter armado as naus da Coroa, mas igualmente por causa dos fretes pagos pêlos outros participantes. Os mercadores que haviam investido na esquadra de Estêvão da Gama estavam a soldo à lira, ou seja, proporcionais ao principal. Segundo parece, terão tido problemas sérios com o Almirante que se opunha a que guardassem as mercadorias que não fossem vendidas. Matteo de Bergamo informava os seus patrões de que D. Vasco se baseara nas instruções reais para lhes recusar a metade do saque do Miri, apesar da
Nota: Trata-se do quintal português, avaliado em 50.4 kg para a pimenta e 58,7 kg para as outras especiarias.

sua participação nos combates: «Nem sequer conseguimos falar desse espólio... foi-nos dito que era assunto que não nos dizia respeito.»


Todos os navegadores podiam beneficiar de um sistema concebido para compensar o monopólio real da pimenta, criando uma associação entre o rei e os seus súbditos. Além do soldo e da ração, cada navegador tinha uma quintalada, ou seja, uma licença de importação que lhe permitia fazer entrar em Portugal uma certa quantidade de pimenta calculada de acordo com o seu estatuto, tendo direito ao lucro da sua venda. Alguns meses depois do regresso de uma armada, os feitores reais entregavam-lhes aquilo que lhes era devido, depois de terem deduzido os direitos da Coroa - «de quarto e de vintena» (25 por cento + 5 por cento) ou «de metade» (50 por cento). Os mais humildes dos marinheiros embarcados e mesmo os próprios escravos beneficiavam de uma quintalada mas na sua maioria eram demasiado pobres para beneficiarem dos favores que o rei acreditava ter-lhes concedido e revendiam os seus direitos a companheiros mais afortunados ou mais poupados.
D, Vasco reunira o maior carregamento de especiarias que alguma vez havia sido trazido da Índia, ou seja, 1512 toneladas, o que justificava só por si o preço da sua «descoberta». Além disso, havia dado provas dos seus talentos como capitão. Pela primeira vez nenhum navio havia naufragado. A rota havia sido executada sem falhas, o desafio do cabo da Boa Esperança enfrentado por duas vezes, sendo l dobrado o mais próximo possível da costa - uma proeza que nessa | época seria o único a conseguir realizar Igualmente pela primeira vez, correra o risco de atravessar o oceano Índico segundo uma diagonal, passando junto a ilhas até então desconhecidas. Conseguira dominar as suas tripulações e manter a coesão de três esquadras apesar da | turbulência dos seus capitães. Seria apenas pelo pavor que inspirava a ira de um carácter impiedoso? Ou pela autoridade natural que lhe dava uma saúde robusta, um espírito prático e uma inquebrantável confiança em si mesmo que ele sabia compartilhar? Certamente seria : também por esse espírito de família que se estendia ao mais humilde dos seus grumetes e o fortalecia com um desejo de vingança obstinado em relação a todos aqueles que atacassem os seus.
É no decorrer desta segunda viagem que D. Vasco realiza aquilo que virá a ser designado por carreira da Índia - conseguindo planear

as suas escalas. O cálculo do tempo de navegação é essencial para salvaguardar as tripulações do escorbuto e prever as paragens para reparar forças e navios. Estas escalas pontuam a rota da Índia: as ilhas de Cabo Verde ou Bezeguiche no Senegal, Vera Cruz no Brasil, a aguada de São Brás e sobretudo Moçambique, que o Almirante acaba de equipar com um poço de água doce e que passará a ser o ponto de escala dos navios depois das tempestades da África Austral. Ao largo da Índia, a ilha de Angediva representa um outro ponto importante. Em Cananor foi estabelecida uma feitoria com o consentimento do rajá local; não abrigará apenas as cargas de gengibre, mas igualmente os víveres e o material náutico necessários para a longa viagem de regresso. Uma última escala é organizada nos Açores, na ilha Terceira, que lhe virá a dever a sua fortuna. No que diz respeito ao plano técnico, o único erro de D. Vasco terá sido o de deixar a Índia no final de Fevereiro, demasiado tarde para evitar as mortais tormentas da monção contrária.


Nos confins marítimos da imensa Índia, as intervenções do Almirante pareciam marginais. No microcosmo local foram consideradas como actos de pirataria dos quais ainda não se sonhava com as consequências, mas que se souberam explorar com fins políticos. Em Cochim havia sido esboçado um acordo em relação a Calecute, o inimigo comum. Os contratos haviam sido asperamente discutidos e já colocados em execução. D. Vasco havia alargado e confirmado as suas boas relações com as comunidades cristãs; havia entrado em contacto com a de Coulão, que se encontrava em posição de fornecer a pimenta, no caso de os mercadores muçulmanos não cumprirem os seus compromissos.
No entanto D. Vasco continuava a não conhecer essa Índia cujo caminho marítimo tinha aberto aos povos do Ocidente. O que é que ele havia adquirido durante essa segunda estada, passada quase que inteiramente a bordo dos seus navios? Um conhecimento seguro das técnicas de combate naval dos seus adversários, uma visão truncada da sociedade através de algumas personagens - reis, mercadores e reféns encontrados fora do seu meio natural; todas as coisas que não podem ser comparadas à lenta iniciação da experiência quotidiana, que parecia ter já influenciado um Paio Rodrigues ou um Gonçalo Gil Barbosa. De modo nenhum frustrado pela sua ignorância a

respeito das tradições, o Almirante desprezara os seus conselhos ou optara por os ridicularizar para melhor inspirar um terror que ele acreditava ser salutar. A sua brutalidade e as suas repetidas faltas de diplomacia tiveram como efeito imediato um estado de guerra declarada com as forças de Calecute, o que viria a entravar os empreendimentos portugueses durante mais de dez anos. De momento D. Vasco tinha razões para se encontrar satisfeito. Conforme havia notado Gian Francesco Affaitato, «a todos os sítios onde ia, pela amizade ou pela força, conseguia sempre fazer tudo aquilo que queria.»


Um provérbio espanhol diz que os pecados antigos têm longas sombras. Para os homens de hoje, o trágico incêndio do Miri domina todas as peripécias da expedição de 1502. O mesmo já não aconteceu com os contemporâneos, mesmo que alguns tenham manifestado uma certa emoção. Havia muitos que pensavam, à semelhança de Maquiavel, que o fim justifica os meios. Para um homem como D. Vasco, o serviço do rei transformava as represálias num dever sagrado. Aqueles que tinham de executar as punições, sacrificando inocentes consideravam que se tratava da consequência dos seus próprios pecados, mas que teriam de dar contas a Deus. Entretanto corriam rumores em Lisboa de que D. Manuel estaria ressentido com o Almirante.
CAPÍTULO IX

Feitorias e fortalezas




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