Genserico Encarnação Júnior



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JORNALEGO
Nº 13, em 30 de Agosto de 2002.
Conto, ensaio, artigo, drama, tragicomédia ou grito de desespero.


Epílogo

Eta mundo maluco! Tá tudo muito mudado! Tudo de cabeça pra baixo, de ponta-cabeça, de pernas pro ar! Onde já se viu começar um texto pelo epílogo!


É a ressaca depois do porre de capitalismo. O trabalho cedeu espaço ao capital. A produção deu lugar às finanças. O crescimento econômico não é mais antídoto para a convulsão social nem esperança de melhor distribuição de renda. O excedente econômico vai para o narcotráfico, armamentos e outros setores marginais, onde o grande retorno é garantido. A superpopulação infla as zonas urbanas de desempregados. Se ainda não chegamos a essa situação, estamos caminhando celeremente nesta direção.
A solução? Como mudar o rumo ou sair dessa? São as perguntas patéticas que se formulam. Assim termina, inconclusa, a nossa história que, paradoxalmente, aqui começa (!).

O Fim

Enquanto isso, num tempo nem tão futuro assim, na cidade de São Sebastião:


- Querida, pegue dinheiro trocado e não se esqueça de nossos coletes à prova de bala. Até a casa de sua mãe, temos que atravessar, no mínimo, cinco territórios da federação do tráfico. Dois reais por pedágio são dez pra lá, dez pra cá. Não basta o que eu pago todo dia pra ir ao trabalho, pra levar as crianças pra escola, fora “o” dos assaltos! Estamos presos e indefesos nesses edifícios gradeados e em nossos carros blindados. Vida de merda!
Não muito longe dali:
- Querido, por favor, não se irrite. “É a parte que nos coube nesse latifúndio”. Vivemos nesta favela porque não temos alternativas. Quando minha família veio do nordeste, à procura de emprego, foi aqui que conseguiram ficar. E era um tempo bom! Por mais que tenha piorado ainda é melhor do que os grotões secos onde meus pais viviam. Foi aqui que me educaram e conseguiram me ver formada. Agora é nossa vez de segurar a barra. Você desempregado! Não temos a quem apelar, nem sequer à polícia. Somos vítimas dos dois lados, da sociedade organizada e dessa organização criminosa, que se instalou em nossa volta e até dentro de nossas casas. Vida de merda!
A situação chegou a um ponto que os governos não controlam mais. Mas que governos? Que justiça? Que parlamentos? Os últimos governos federais ainda insistem em manter esta política neoliberal, imposta pelos donos do mundo. Essa Alca para ser mais eficiente só falta nos transformar em mais uma estrelinha na bandeira listrada. Estrela tão grande quanto toda a constelação deles! Os fundamentos econômicos continuam bem aplicados, está tudo azeitado, como manda o figurino, mas o desemprego campeia e a economia continua estagnada desde a década de 80. Já lá se vão mais de 30 anos!
A população favelada multiplicou-se, hoje é a maior parte da população da cidade. A dualidade social exacerbou-se. São dois segmentos diferenciados pelas características econômicas, sociais e culturais. A cidade partiu-se. De um lado a pobreza, a miséria, a economia informal, a oferta da droga, os agentes da violência e o público de nossas superlotadas prisões de “segurança máxima”. De outro lado, a riqueza, a classe média alta, a economia formal, a demanda da droga, a política e a polícia. Ambos os lados vítimas da situação a que chegamos.
No começo, as facções criminosas não existiam como organizações. Depois aprenderam técnicas de administração e até mesmo de guerrilha urbana e criaram esta federação, espécie de mercado comum. Coisa de primeiro mundo! Não competem mais entre si, cartelizaram-se, não se eliminam mutuamente. “Tá tudo dominado”.
A tomada de poder na cidade foi uma simples decisão conjunta dos líderes das facções que antes se digladiavam. O controle total da situação foi favorecido com a debilidade e a insensibilidade das forças de repressão ao crime, o poder político fragilizado e a conseqüente falta de autonomia do estado organizado. As grandes oportunidades de emprego são oferecidas pelo tráfico, não mais pela economia formal. A comunidade criminosa é legião. Não há saída, são inexpugnáveis os comandos da violência e do narcotráfico e seus cinturões da segurança e miséria. Miséria da grande maioria silenciosa da população periférica, acuada, inocentemente usada como cordão sanitário e escudo do crime.
Este capítulo, por ter o futuro como cenário, foi composto como obra de ficção destoando do que lhe precede, paradoxalmente, a seguir (?). É, portanto, coerente com a necessidade de um grande esforço de imaginação, de criação, de exercício prospectivo para o qual o leitor é levado, na tentativa de transformar o grito de desespero em um hurra à esperança.

A Transição

A glamorização da favela foi um expediente que permitiu a manutenção de cada segmento em seu espaço sem grandes conflitos. O doutor, a madame e sua prole iam às quadras da escola de samba, enquanto os homens favelados serviam na construção civil e as mulheres como empregadas domésticas. Harmoniosa convivência!


Favela amarela, ironia da vida. Conceição, eu me lembro muito bem, vivia no morro a sonhar, com as coisas que o morro não tem. Foi então que lá em cima apareceu... E a lua furando nosso zinco salpicava de estrelas nosso chão. Ave Maria no morro. Mangueira teu cenário é uma beleza, que a natureza criou.
O malandro descia o morro enfatiotado no seu terno de linho branco, chapéu palhinha, anel no dedo e gravata vermelha amarrada no gogó. Era decantado em versos de samba pelo povo do asfalto. Embora trouxesse consigo uma navalha, que usava quando conveniente na disputa de uma “pequena”, a violência mais grossa ficava circunscrita ao morro. Folclórica convivência!
E os bolsões de miséria continuaram se alastrando, crescendo, disseminando-se. O mais que fizeram foi jogar “pra escanteio” algumas dessas aglomerações, na intenção desumana de apagá-las dos cartões postais. Catacumba, Praia do Pinto e Pasmado saíram do cenário da Zona Sul. Em seu lugar entrou Cidade de Deus na Zona Oeste.
Nos tempos de hoje a violência alastrou-se, bateu em cheio, de cara, com as classes média e alta do asfalto, as grandes beneficiárias do modelo exclusivista de desenvolvimento. O veículo foi a droga, de aceitação fácil nas classes mais abonadas, pela sociedade afluente consumidora compulsiva de modismos nacionais e estrangeiros. Alvos fáceis de um efeito demonstração exacerbado pela publicidade. O prosseguimento da tendência foi facilitado pelo crescimento e adensamento populacional nas grandes cidades, pela inculcação do pensamento mercadológico, globalizante e tecnicista. Com a droga a violência desce o morro. A convivência inicial dá lugar ao medo. Os morros se transformam em cidadelas invencíveis. Os grandes aglomerados miseráveis guardam em seu ventre os centros do poder marginal. O asfalto fica espremido entre o morro e o mar e se tranca em fortalezas de “segurança máxima”, gradeadas, vigiadas, guardadas pelos mais eficientes equipamentos eletrônicos de segurança.
Os grandes recursos financeiros e as armas de penúltima geração estão na mão do tráfico, com os quais o poder formal não tem condições de competir. O grande complexo industrial-militar do império hegemônico fabrica as armas de ponta e desova as superadas no narcotráfico, no contrabando e até servem às guerrilhas em países periféricos que o próprio poder imperial combate.

O Começo



Nos tempos de antanho, na reestruturação da cidade maravilhosa em expansão coube-lhes, inicialmente, o que hoje é o morro da Providência, por trás da Central. Embrião das favelas. Esse nome foi inspirado numa planta do sertão baiano, que refletia a luz do sol nascente nas gotas premonitórias de veneno, semelhantes ao orvalho, em suas folhas de vegetação da caatinga, embelezando, para as tropas federais, o povoado de Canudos. De volta pra casa, destruídos Antônio Conselheiro e seus asseclas miseráveis, a tropa vencedora, também miserável, construiu seus barracos com folhas de zinco ou de latas, que também reluziam ao sol. Daí o nome favela; infeliz transposição poética! A arquitetura de Canudos foi assim também transposta para os morros da Cidade Maravilhosa.
A política econômica adotada desde sempre disseminou esse processo perverso por toda a cidade e por todas as regiões metropolitanas do país.




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