Gilles Deleuze diferença e repetiçÃo tradução Luiz Orlandi Roberto Machado



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Capítulo II

A REPETIÇÃO PARA SI MESMA

A repetição: alguma coisa mudou


A repetição nada muda no objeto que se repete, mas muda alguma coisa no espírito que a contempla: esta célebre tese de Hume leva-nos ao âmago do problema. Como a repetição mudaria alguma coisa no caso ou no elemento que se repete, visto que ela, de direito, implica uma perfeita independência de cada apresentação? A regra de descontinuidade ou de instantaneidade na repetição é assim formulada: um não aparece sem que o outro tenha desaparecido. Assim, o estado da matéria como mens momentanea. Mas como seria possível dizer "o segundo", "o terceiro" e "é o mesmo", visto que a repetição se desfaz à medida que se faz? Ela não tem em si. Em compensação, ela muda algo no espírito que a contempla. É esta a essência da modificação. Como exemplo, Hume toma uma repetição de caso do tipo AB, AB, AB, A... Cada caso, cada seqüência objetiva AB é independente da outra. A repetição (mas, justamente, não se pode falar ainda de repetição) nada muda no objeto, no estado de coisas AB. En; compensação, uma mudança se produz no espírito que contempla: uma diferença, algo de novo no espírito. Quando A aparece, aguardo agora o aparecimento de B. Está aí o para-si da repetição, como uma subjetividade originária que deve entrar necessariamente em sua constituição? O paradoxo da repetição não está no fato de que não se pode falar em repetição a não ser pela diferença ou mudança que ela introduz no espírito que a contempla? A não ser por uma diferença que o espírito transvasa à repetição?

Primeira síntese do tempo: o presente vivo


Em que consiste esta mudança? Hume explica que os casos idênticos ou semelhantes independentes se fundem na imaginação. A imaginação se define aqui como um poder de contração: placa sensível, ela retém um quando o outro aparece. Ela contrai os casos, os elementos, os abalos, os instantes homogêneos e os funde numa impressão qualitativa interna de determinado peso. Quando A aparece, aguardamos B com uma força correspondente à impressão qualitativa de todos os AB contraídos. É preciso notar, sobretudo, que não se trata de uma memória nem de uma operação do entendimento: a contração não é uma reflexão. Propriamente falando, ela forma uma síntese do tempo. Uma sucessão de instantes não faz o tempo; ela também o desfaz; nele, ela somente marca o ponto de nascimento, sempre abortado. O tempo só se constitui na síntese originária que incide sobre a repetição dos instantes. Esta síntese contrai uns nos outros os instantes sucessivos independentes. Ela constitui, desse modo, o presente vivido, o presente vivo; e é neste presente que o tempo se desenrola. É a ele que pertence o passado e o futuro: o passado, na medida em que os instantes precedentes são retidos na contração; o futuro, porque a expectativa é antecipação nesta mesma contração. O passado e o futuro não designam instantes, distintos de um instante supostamente presente, mas as dimensões do próprio presente, na medida em que ele contrai os instantes. O presente não tem de sair de si para ir do passado ao futuro. O presente vivo vai, pois, do passado ao futuro que ele constitui no tempo, isto é, também do particular ao geral, dos particulares que ele envolve na contração ao geral que ele desenvolve no campo de sua expectativa la diferença produzida no espírito é a própria generalidade, na medida em que ela forma uma regra viva do futuro). Sob todos os aspectos, esta síntese deve ser denominada síntese passiva. Constituinte, nem por isso ela é ativa. Não é feita pelo espírito, mas se faz no espírito que contempla, precedendo toda memória e toda reflexão. O tempo é subjetivo, mas é a subjetividade de um sujeito passivo. A síntese passiva, ou contração, é essencialmente assimétrica: vai do passado ao futuro no presente; portanto, do particular ao geral e, assim, orienta a flecha do tempo.

Considerando a repetição no objeto, permanecemos aquém das condições que tornam possível uma idéia de repetição. Mas, considerando a mudança no sujeito, já nos encontramos além, diante da forma geral da diferença. A constituição ideal da repetição também implica uma espécie de movimento retroativo entre estes dois limites. Ela se tece entre os dois. É este movimento que Hume analisa profundamente, quando mostra que os casos contraídos ou fundidos na imaginação não permanecem menos distintos na memória ou no entendimento. Não que se retorne ao estado da matéria, que não produz um caso sem que o outro tenha desaparecido. Mas, a partir da impressão qualitativa da imaginação, a memória reconstitui os casos particulares como distintos, conservando-os no "espaço de tempo" que lhe é próprio. O passado, então, não é mais o passado imediato da retenção, mas o passado reflexivo da representação, a particularidade refletida e reproduzida. Em correlação, o futuro deixa também de ser o futuro imediato da antecipação para tornar-se o futuro reflexivo da previsão, a generalidade refletida do entendimento (o entendimento proporciona a expectativa da imaginação em relação ao número de casos semelhantes distintos observados e lembrados). Quer dizer que as sínteses ativas da memória e do entendimento se superpõem à síntese passiva da imaginação e se apoiam nela. A constituição da repetição já implica três instâncias: este em-si que a deixa impensável ou que a desfaz à medida que ela se faz; o para-si da síntese passiva; e, fundada nesta, a representação refletida de um "para-nós" nas sínteses ativas. O associacionismo tem uma sutileza insubstituível. Não é de admirar que Bergson reencontre as análises de Hume quando se depara com um problema análogo: quatro horas soam... Cada batida, cada abalo ou excitação é logicamente independente do outro, mens momentanea. Mas nós os contraímos numa impressão qualitativa interna, longe de toda lembrança ou cálculo distinto, neste presente vivo, nesta síntese passiva que é a duração. Depois, nós os restituímos a um espaço auxiliar, a um tempo derivado, em que podemos reproduzi-los, refleti-los, contá-los como impressões-exteriores quantificáveis38.



Sem dúvida, o exemplo de Bergson não é o mesmo de Hume. Um designa uma repetição fechada, o outro, aberta. Além disso, um designa uma repetição de elementos do tipo A A A A (tic, tic, tic, tic), o outro, uma repetição de casos, AB AB AB A... (tic-tac, tic-tac, tic.tac, tic...). A principal distinção destas formas repousa no seguinte: na segunda, a diferença não aparece apenas na contração dos elementos em geral, existindo também em cada caso particular, entre dois elementos determinados e reunidos por uma relação de oposição. A função da oposição, aqui, é de limitar de direito a repetição elementar, de fechá-la sobre o grupo mais simples, de reduzi-la ao mínimo de dois (sendo o tac um tic invertido). A diferença parece, pois, abandonar sua primeira figura de generalidade; ela se distribui no particular que se repete, mas para suscitar novas generalidades vivas. A repetição acha-se encerrada no "caso", reduzida a dois, mas abre-se um novo infinito, que é a repetição dos próprios casos. Portanto, seria falso acreditar que toda repetição de caso é, por natureza, aberta, como acreditar que toda repetição de elementos é fechada. A repetição dos casos só é aberta passando pelo fechamento de uma oposição binária entre elementos; inversamente, a repetição dos elementos só é fechada ao remeter a estruturas de casos, nas quais ela mesma, em seu conjunto, desempenha o papel de um dos dois elementos opostos: não só quatro é uma generalidade em relação às quatro badaladas, mas "quatro horas" entra em duelo com a meia-hora precedente ou subseqüente e, até mesmo, no horizonte do universo perceptivo, com as quatro horas invertidas da manhã e da tarde. As duas formas de repetição remetem sempre uma à outra na síntese passiva: a dos casos supõe a dos elementos, mas a dos elementos se ultrapassa necessariamente na dos casos (de onde a tendência natural da síntese passiva em sentir o tic-tic como um tic-tac).


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