Giovanni reale



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3) Passando ao plano ontológico seguinte, assistimos ao nasci mento do cosmo físico: aqui, o princípio material adquire um adensamento e uma força tais de sorte a produzir a dimensão do sensível e a gerar o mundo do vir-a-ser (como veremos mais adiante).

Mas - e esse é o ponto mais importante a ressaltar - também no plano do sensível mostra-se um “intermediário”, a partir de uma ótica diferente. Com efeito, os seres matemáticos são “intermediá rios” entre dois diferentes gêneros de ser, ou seja, entre um ser eterno

2. Sobre esse problema ver Krãmer, Platone..., pp. 164 e 1 76s.; Reale, Platone..., pp. 427ss.

que não vem-a-ser em nenhum sentido (não nasce, não morre, não cresce, não diminui, não muda) e um ser que nasce e vem-ao-ser em todos os sentidos. Como já explicamos acima, os seres matemáticos são múltiplos como os sensíveis; além disso, são intermédios também como intermediários, na medida em que tornam possível e explicam o modo de articular-se do inteligível no sensível (como mais adiante veremos). Ao invés, o mundo sensível é “intermédio” se for conside rado em função de uma ótica que inclui também o não-ser entre os graus da escala hierárquica, como o seguinte esquema ilustra de maneira sintética e sinótica:

1) Ser inteligível e eterno: Idéias, seres matemáticos (ser em sentido pleno)

2) ser que nasce, morre, vem-ao-ser (ser em sentido apenas parcial e não pleno).

3) não-ser

É justamente nessa ótica que Platão, na República, qualifica o mundo físico, que é ser em devir, como “intermédio” entre ser puro e não-ser.

Porque falou Platão dessa maneira?

Parmênides não tinha dúvidas: o que é múltiplo e relativo, muda e devém, não é; não é no sentido forte do termo, ou seja, é nada. Em conseqüência, no não-ser e no nada tateia a “opinião” ou doxa, que é própria dos mortais e que, crendo no vir-a-ser do ser, condena-o ao não-ser. Mas, como já a propósito do mundo ideal (que, no entanto, fora identificado com o ser absoluto e interpretado como uma cate goria de origem eleática), Platão modificara a palavra de Parmênides e introduzira um não-ser como “diverso” para poder explicar a mul tiplicidade ideal, assim também, a propósito do mundo sensível, ele foi obrigado a modificar (e não menos radicalmente) a palavra de Parmênides e a conceder aos fenômenos, para poder explicá-los, uma realidade própria e um ser próprio.

Vimos já como a tentativa de Parmênides de explicar os fenôme nos se rompesse nas suas mãos porque, no mesmo instante em que

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tentava repor os fenômenos no leito do ser, não os salvava, mas inteiramente os destruía (aplicado aos fenômenos, o ser eleático os absolutizava, imobilizava e reduzia ao absolutamente idêntico) Platão, ao contrário (justamente em conseqüência da sua “segunda navega ção”) compreende que o ser do mundo sensível e fenomênico subsis te, mas é outro estruturalmente com relação ao “ser verdadeiro”, ao “ser que é verdadeiramente”. Para Platão, é claro que o ser do mundo sensível é um ser de alguma maneira partido, dividido, condicionado pelo não-ser; mas é do mesmo modo claro para ele que não se trata de maneira alguma do absoluto não-ser, ou seja, do nada, ou de algo totalmente privado da marca metafísica do ser. Igualmente claro para Platão é que, se o conhecimento verdadeiro (a verdade) diz respeito somente ao mundo ideal e ao ser verdadeiro, a opinião (doxa) gira em torno de alguma coisa que é de alguma maneira (na medida em que espelha algo da verdade) e que não pode referir-se ao não-ser em sentido absoluto, porque do não-ser não há conhecimento, mas igno rância



Eis, pois, a resposta platônica ao problema: o ser do sensível é um “intermédio” (11ETa entre o puro ser e o não-ser. O mundo sensível, mundo do vir-a-ser, não é ser (o ser verdadeiro e absoluto), mas tem ser e o tem pela sua participação ao mundo das Idéias (isto é, ao ser verdadeiro): tem, por assim dizer, um ser tomado de emprés timo

Leiamos a passagem que exprime esta concepção e que é funda mental para se entender Platão corretamente. Depois de ter explicado, analisando as formas do conhecimento, como o opinar não possa referir-se nem ao ser nem ao não-ser (porque do ser há ciência e não opinião, e do não-ser há ignorância), mas diga respeito a algo de “intermédio”, o filósofo escreve:

- Fica-nos por encontrar, ao que parece, o que participa de ambos, a saber do ser e do não-ser, e que não se poderia chamar justamente com nenhum dos dois nomes. Assim, quando se apresente, poderemos dizer que é o opinável, atribuindo aos extremos os lugares extremos e aos intermédios os lugares intermédios. Ou acaso não é assim?

- Assim é.

- Posto isso, direi: diga-me e responda-me aquele bom homem que não crê num Belo em si e em nenhuma Idéia do Belo que permaneça sempre idêntica a si mesma, mas somente admite muitas coisas belas os muitos fenômenos empíricos; responda-me aquele amante de espetáculos me ramente fenomênicosj que não suporta de maneira nenhuma que alguém diga que o Belo é Uno, e assim também o Justo e as outras coisas as outras Idéias. A respeito dessas muitas coisas belas diremos: ó bom homem, acaso haverá alguma que não apareça também feia? E dentre as justas acaso haverá alguma que não apareça também injusta? E dentre as coisas santas haverá alguma que não apareça tam bém ímpia?

- Não, disse ele, mas é necessário que essas coisas belas possam, de alguma maneira, parecer também feias, e assim das outras sobre as quais interrogas.

- E o que pensas das muitas coisas duplas? Acaso as coisas duplas não são tão metades quanto duplas?

- Sim.


- E assim as grandes e as pequenas, as leves e as pesadas, devem ser chamadas assim em vez do nome contrário?

Não, disse; a cada uma convém igualmente os dois contrários.

- Mas então, cada uma dessas muitas coisas é ou não é aquilo que dizemos que é?

- Elas se parecem com essas frases com duplo sentido que se dizem nos banquetes ou então à adivinhação dos meninos sobre o eunuco que atira algo no morcego e na qual é preciso adivinhar com que o atinge e onde o atinge com efeito, também essas coisas podem ser entendidas em duplo sentido e não se pode pensar com certeza se é ou não é, nem que é ambas as coisas ou que não é nenhuma das duas.

- Então, disse eu, sabes como tratá-las ou colocá-las em posição me lhor que a intermediária entre o ser e o não-ser (IiETa otlaíaç TE xai TO pi) ETvaO? Com efeito, elas não têm mais obscuridade que o nada porque não são o não-ser em grau superior, nem são mais claras do que o ser porque não são ser em grau maior.

5. A charada soava aproximadamente assim: há um homem que não é homem ( eunuco), que lança uma pedra que não é pedra ( pedra-pomes), a um pássaro que não é um pássaro ( morcego), sobre uma planta que não é uma planta ( cana). A evocação dessa charada sugere de maneira esplêndida a fundamental ambigüidade do pETa do sensível, que é, ao mesmo tempo, ser e não-ser e não é nem ser (puro) nem não-ser.

3. Cf. volume 1, pp. 1 l3ss.

4. Cf. República, V, 477 a ss.

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- É veríssimo, disse ele.

- Encontramos, portanto, ao que parece, que as muitas opiniões que a multidão tem em torno ao belo e ao resto giram como intermédias entre o não-ser e o puro ser

2. O Demiurgo e o seu papel metafisico

Se entendermos bem o sentido da página que acabamos de ler, compreenderemos também as razões pelas quais Platão não pôde explicar o cosmo físico por simples dedução dos Princípios primeiros e supremos e do mundo das Idéias, mas julgou necessário introduzir a Inteligência divina como causa metafísica originária Com efeito, para ele o ser na dimensão do vir-a-ser implica a causa específica da Inteligência produtora e tudo o que ela postula. Eis como (no mag nífico prelúdio teorético ao grande discurso cosmológico do Timeu Platão resume seu pensamento em quatro axiomas.

6. Repiíblica, V, 478 e-479 d. É oportuno observar que o não-ser, do qual fala Platão nesta página, poderia parecer o nada (o não-ser em sentido absoluto). Todavia, o texto e o contexto levam a crer que Platão indica, antes, o Princípio material oposto (a Díade sensível), que, como sabemos, é assimilado ao não-ser, dado que, para o nosso filósofo, o ser é um “misto”, que depende da de-terminação e de-limitação do indeterminado e ilimitado (e tal é, ao invés, a Díade de grande-e-pequeno, que é, justamente, i-limitada). Deve-se notar, ademais, as alusões (que destacamos em itálico) ao Uno (que se explica nas Idéias) em oposição às coisas fenoménico-sensíveis, du plas, grandes e pequenas (alusão à Díade de grande-e-pequeno da qual participam); e deve-se prestar atenção também à afirmação inicial de que o ser sensível intermédio “participa de ambas”, ou seja, “do ser e do não-ser”; mas é evidente que o “participar” ao não-ser só é possível se é algo (justamente o in-determinado e o i-limitado). Em conclusão, essa página resulta muito mais clara, se a “ser” e “não-ser” damos aqueles significados específicos, que Platão na sua metafísica lhes dá, e que refletem de ma neira perfeita a sua protologia.

7. Sobre esse tema encontra-se um amplo tratamento in Reale, Platone..., pp.

425-622, ao qual nos referiremos outras vezes.

8. A rica bibliografia publicada nos últimos decênios sobre o Timeu (que foi por muito tempo o diálogo mais lido de Platão) encontra-se em H. Cherniss, Plato (/950 1957), “Lustrum”, 4 (1959), pp. 208-227; L. Brisson, Platon /958-1975, “Lustrum”, 20 (1977), pp. 286s.; L. Brisson, Platon 1975-1980, “Lustrum”, 25 (1983), pp. 295ss. (com as relativas remissões). O mais amplo tratamento da base metafísica do diálogo encontra-se in Reale, Platone..., pp. 509-622; nas pp. 509ss. encontram-se outras im portantes indicações bibliográficas.

1) O ser que é sempre (o ser inteligível) não está sujeito à gera ção e ao devir, porque permanece sempre nas mesmas condições; ele é captado pela inteligência por meio do raciocínio.

2) O devir, que continuamente se engendra não é nunca um verdadeiro ser justamente porque está em contínua mudança; ele é objeto de opinião, ou seja, é captado mediante a percepção sensorial, distinta da razão.

3) Tudo o que está sujeito ao processo da geração exige uma causa porque, para ser engendrada toda coisa tem necessidade de uma causa que produza a geração. Essa causa é um Demiurgo, um Art(fice, jle dizer, uma causa eficiente.

4) O Demiurgo, ou seja, o Artífice produz sempre alguma coisa contemplando previamente algo como ponto de referência, ou seja, tomando-o como modelo. Mas o Artífice poderia referir-se a dois tipos de modelo: a) ao que existe sempre e da mesma maneira (ou seja, ao tipo de ser do qual se falou no primeiro axioma), b) ou a alguma coisa sujeita à geração (ou seja, ao tipo de realidade do qual se falou no segundo axioma). Se o Artífice toma como modelo o ser eterno, o que produz é belo; se, pelo contrário, toma como modelo algo que foi gerado, o que produz não é belo. Eis o texto:

Segundo a minha opinião é preciso distinguir em primeiro lugar o seguinte:

O que é o que é sempre e não está sujeito à geração?

E o que é o que sempre é engendrado e nunca é ser?

O primeiro é apreendido pelo pensamento juntamente com o racio cínio, porque permanece sempre idêntico.

O segundo, ao contrário, é objeto da opinião juntamente com a sensação sem a razão, porque é engendrado e perece e nunca é verdadeira mente ser.

Ora, tudo o que é engendrado é necessariamente engendrado por alguma causa. Com efeito, é impossível que possa nascer sem uma causa.

E quando o Artífice ( de qualquer coisa, contemplando sempre o que é idêntico, serve-se dele como exemplar e realiza a sua idéia e a sua virtualidade, tudo o que assim é produzido é necessariamente belo:

mas o que ele realizar utilizando um modelo sujeito à geração não será belo

Sobre o fundamento desses quatro axiomas, Platão constrói o edifício metafísico e cosmo-ontológico de todo o tratado cosmológico

9. Timeu, 27 e-28b.

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do Timeu e, ao mesmo tempo, fundamenta a estrutura gnosiológica e a justificação da metodologia adotada. Sendo o cosmo o objeto da discus são que se desenrola no Timeu, é necessário estabelecer, antes de tudo, se ele é um “ser que é sempre”, ou seja, um ser do tipo do qual nos falou o primeiro axioma, ou se é uma “realidade engendrada”, a saber, o tipo de realidade da qual fala o segundo axioma. Ora, todas as coisas que constituem este mundo são perceptíveis com os sentidos. Mas tudo o que é perceptível com os sentidos e é opinável, como se estabeleceu no segundo axioma, gerado em razão da sua natureza e sujeito ao vir-a-ser. Além disso, com fundamento no terceiro axioma, este mundo, enquanto é gerado, deve ser gerado por uma causa. No entanto, encontrar de maneira adequada essa causa do universo é difícil; e, uma vez encon trada, é também difícil fazê-la compreender por todos os homens (pelas razões acima explicadas). Finalmente, com fundamento no quarto axio ma, podemos estabelecer perfeitamente o modelo para o qual olhou o Demiurgo que construiu este mundo. Com efeito, o axioma estabeleceu que, se este mundo é belo, o Demiurgo, ao construí-lo, contemplou necessariamente um modelo eterno; se, ao invés, não fosse belo (mas somente nesse caso), o Demiurgo teria usado um modelo engendrado. Ora, é demonstrável claramente que o mundo é belo; logo, justamente por isso, o Demiurgo olhou necessariamente para um modelo eterno. Mais ainda, sendo o mundo a mais bela das realidades engendradas, o seu Demiurgo é, conseqüentemente, o melhor dos artífices, ou seja, é, como veremos, o Artífice que imitou e realizou o Bem no maior grau possível. Eis as palavras de Platão:

- Ora, no que diz respeito ao céu na sua totalidade - ou ao mundo ou, se encontrarmos outro nome mais apropriado chamemo-lo assim - devemos considerar o que em primeiro lugar se considera a respeito de qualquer coisa:

1 se ele existiu sempre, não tendo nenhum princípio de geração, ou então: se foi gerado, começando a partir de um principio. Ora, ele foi gerado. De fato, é visível e tangível e tem um corpo; mas todas as coisas desse tipo são sensíveis e o que é sensível é apreendido pela opinião por meio da sensação, é engendrado e está sujeito ao vir-a-ser. Ora, dissemos que o que é gerado é necessariamente gerado por uma causa. No entanto, é trabalhoso descobrir o autor e pai deste universo e é impossível falar dele a todos. E a propósito do universo devemos ainda indagar a que tipo de modelo o seu autor olhou ao fabricá-lo: se ao modelo que está sempre da mesma maneira e é idêntico ou se ao modelo que é gerado. Mas, se este mundo é belo e o Artífice é bom (àyai3óç),

é evidente que ele contemplou o modelo eterno; se, ao contrário, o Artífice não

é bom, o que não é permitido nem mesmo supor, ele olhou o modelo gerado.

Ora, é evidente a todos que ele contemplou o modelo eterno: com efeito, o

universo é a mais bela dentre as coisas que foram geradas (xáXMoTo TC3V

yEyovóTcav), e o Artífice é a melhor das causas (àplaToç TC.v aiTíWV)

Portanto, existe um ser puro que só podemos captar com a inte ligência e é justamente esse que o Demiurgo contempla como modelo para poder realizar o mundo sensível e sujeito ao devir. Assim, o cosmo sensível é uma “imagem”, realizada pelo Demiurgo, de uma realidade meta-sensível.

Se, portanto, o Universo é assim gerado, foi realizado pelo Artífice olhando o que se compreende com a razão e com a inteligência, e que sempre permanece da mesma maneira. Mas, se é assim, é absolutamente necessário que este cosmo seja imagem de alguma coisa’

Essa concepção do puro ser como “modelo” e do vir-a-ser como “imagem” do modelo e a necessidade de uma causa eficiente (o Demiurgo ou Artífice) para fundar e justificar essa relação, constituem um fundamental eixo de sustenta ção da doutrina escrita de Platão, que encontra justamente no Timeu sua expressão mais amadurecida e mais completa. E é exatamente sobre essa estrutura metafísica que se apóia a estrutura gnosiológica de todo o tratado cosmológico: o modelo ori ginário, enquanto puro ser, é objeto de ciência, que alcança verdades incontrovertíveis; a imagem desse modelo (e, portanto, o nosso cosmo físico que é justamente “imagem”) é objeto de opinião; essa pode ser bem fundamentada, mas não atinge certezas epistemológicas e, portan to, é “mito” no sentido de narração plausível, como acima explicamos.

3. O Princípio material do mundo sensível, seu papel metafísico e seus nexos com a Díade

A importante distinção metafísica entre ser inteligível, imutável e eterno das Idéias, entendido como “paradigma” ou “modelo”, e ser sensível em contínuo devir, entendido como imagem daquele exige,

10. Timeu, 28 b-29ª.

I Timeu, 29 a-b.

134 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL

DEMIURGO E COSMOLOGIA

para ser justificada e fundada, um Princípio material que tenha a função de recipiente e de substrato da imagem.

Com efeito, Platão dissera no Filebo, com notável exatidão, que toda a realidade - em todos os níveis - é um “misto” que implica uma conjunção sintética bipolar de dois princípios opostos (limitei ilimitado); mas também explicara que, enquanto na esfera do inteli gível o “misto” é estrutural e ah aeterno, na esfera do sensível o “misto” requer uma causa que o realize (exatamente a Inteligência demiúrgica). Evidentemente, o motivo da intervenção necessária da Inteligência demiúrgica depende do fato que, enquanto na esfera do inteligível os dois Princípios opostos que formam o “misto” são, ambos, de caráter inteligível, na esfera do sensível, ao contrário, não é assim. Com efeito, o Princípio material assume tal espessura de sorte a in troduzir justamente a dimensão do sensível e, por conseguinte, surge uma natureza tal que, não obstante a tendência a reunir-se com o Princípio oposto e a disponibilidade a deixar-se dominar por ele em ampla medida, somente a intervenção da Inteligência demiúrgica pode levar a cabo a mediação. Além disso, e justamente em razão desse plus que a dimensão sensível comporta, o Princípio material que constitui o mundo sensível não pode ser reduzido totalmente à estrutura do Prin cípio ideal e exatamente por esse motivo dá origem a um ser-em-devir (a uma forma de ser intennediária entre puro ser e não-ser)’

Mas há ainda dois pontos importantes que devem ser bem assi nalados para compreendermos essa complexa concepção de Platão.

a) O Princípio material participa de modo bastante complexo (por intermédio da Inteligência demiúrgica) do inteligível, pois que essa participação, que consiste na recepção da marca das imagens derivadas das Idéias, acontece de modo “inefável e maravilhoso” (TpóTrov Ttv?x úOppaGTov xa auI.taoTóv) ou seja, por meio de uma complicada mediação de caráter numérico e geométrico como teremos ocasião de ver ao menos parcialmente.

b) Além disso, deve-se ter bem presente o que já implicitamente assinalamos, a saber: o que o Princípio material recebe e com o qual se “mistura” não são as próprias Idéias de modo direto, mas são as

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“imagens das realidades que sempre são”, as “imitações dos seres eternos” e, portanto, imagens ou aparências de outras realidades’ ou seja, as imagens das Idéias obtidas pela mediação dos seres matemá ticos.



Mas, primeiramente, vejamos quais são as características essen ciais do Princípio material sensível, e quais suas relações com a Díade das “Doutrinas não-escritas”.

1) Platão sublinha, de maneira muito acentuada, que o gênero da realidade inteligível “que é sempre da mesma maneira, não gerado e imperecível” e que, como tal, exerce a função de modelo, justamente em razão da sua estrutura ontológica, não acolhe outra coisa que venha de fora, nem “passa numa outra coisa”. E, ao contrário, insiste em que a realidade sensível, cópia ou imagem sensível do modelo inteligível, é gerada e está em movimento contínuo, “nasce em qual quer lugar e novamente perece num lugar”. Conseqüentemente, é necessário admitir outro gênero de realidade: a “espacialidade” ou chora ( que forma o “lugar” (TóTroç) ou a “sede” ( para todas as realidades que nascem e perecem, justamente porque o que nasce e perece nasce em algum lugar no qual e a partir do qual depois perece. Eis algumas afirmações:

É necessário admitir que há um gênero de realidade que é sempre da mesma maneira, não-gerada e não-perecível e que não recebe de fora outra realidade nem passa em outra realidade, não é visível nem perceptível pelos sentidos e que somente à inteligência cabe contemplar. E é necessário admitir que, homônima àquela e a ela semelhante, há uma segunda forma de realidade que é sensível, engendrada, em movimento contínuo, que nasce em algum lugar (-róTroç) e num lugar perece e que é compreendida pela opinião acompanhada de sensação. E necessário enfim admitir que há um terceiro gênero, o do espaço (Xc que é sempre e não está sujeito à corrupção, que proporciona uma localização (‘ a tudo o que está sujeito à geração; e esse é apreendido sem os sentidos, com um raciocínio espúrio, e dificilmente pode-se crer nele’

14. Cf. Timeu, 50 c, 51 a, 52 c.

15. Timeu, 51 e-52b. Note-se como Platão, aqui, especifica o que na passagem da República lida acima era indicado como ignorância, ou seja, não-conhecimento do não-ser (que corresponde ao Princípio material aqui tratado). De fato, ele a) não é cognoscível pelos sentidos; b) é cognoscível somente com um raciocínio espúrio, ou

12. Cf. supra, a nota 6.

13. Timeu, 50 c.

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Ora, observa depois Platão, referindo-se justamente a essa reali dade, nós temos a tendência a conferir-lhe um alcance superior à sua natureza, estendendo-a a todos os seres e a ela atribuímos erronea mente uma função onicompreensiva. De fato, sustentamos que uma coisa, para ser, deve encontrar-se justamente “em algum lugar” e “o que não está na terra e em algum lugar no céu não é nada” Mas a verdade, ao contrário, é a seguinte: as coisas que ocupam espaço são somente as realidades geradas, ou seja, as realidades sensíveis e não as realidades inteligíveis em si e por si. Assim, as coisas que ocupam espaço são somente imitações ou imagens das Idéias, não as próprias Idéias.

Por conseguinte, o status ontológico das imagens que se realizam no sensível (coincidindo perfeitamente com o do “misto” do qual fala o Filebo) implica a) o ser do qual é aparição ou manifestação e, portanto, imagem e ao qual se refere como a seu modelo (isto é, as Idéias), e h) um substrato, ou seja, uma base sobre a qual se apóia, justamente a espacialidade da qual falamos e que se torna necessária como substrato do que nasce. Por isso, enquanto tal, a chora “é sempre, e não sujeita à corrupção”, já que é a condição necessária para que tudo o que é gerado possa existir (é aquilo que, se fosse removido, eliminaria toda forma de geração)’

2) Para caracterizar o princípio material sensível, Platão apre senta, além da conotação conceptual da “espacialidade” (Xc tam bém a de “receptáculo” de tudo o que é gerado (úTroSoXT TraVX O “receptáculo” é uma realidade que permanece sempre idêntica na sua estrutura amorfa. Recebe, com efeito, todas as coisas e é plasmável de várias maneiras justamente porque é um realidade amorfa (carente de uma estrutura formal própria) e nunca assume definitivamente as formas que sucessivamente recebe e, por isso, pode continuar a rece ber continuamente outras. E comparável a um material que é plasmável

seja, bastardo” (Àoytoí.o TI’JL võq); e) é dificilmente acreditável. Com efeito, conhecemos (seja sensivelmente, seja racionaliflente) o que é detcrn,,nado, enquanto o Princípio material é in-determinodo, pelo que só é cognoscível com raciocínio bastar do”.

cada vez em formas diferentes e aparece justamente sob aquelas formas. As coisas que entram e saem do receptáculo são imagens das realidades eternas (imitações dos paradigmas das Idéias) e nele entrando, o pIas mam e nele imprimem uma marca como com um metal (por exemplo, o ouro) e o material é plasmado pelas formas que recebe.



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