Giovanni reale



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âmbito do pensamento antigo, verifica-se, de maneira surpreendente, que a filosofia platônica constitui o mais significativo eixo de susten tação do modo de pensar dos gregos. O próprio Aristóteles, como

Depois de 399, Platão foi para Megara com alguns outros socráticos, como hós pedes de Euclides (provavelmente para evitar possíveis perseguições que lhe poderiam sobrevir pelo fato de ter feito parte do círculo socrático). Mas não deve ter estado muito tempo em Megara.

Diógenes Laércio informa-nos: “... foi a Cirene, juntar-se a Teodoro, o mate mático, depois à Itália, com os pitagóricos Filolau e Eurito. E daí ao Egito, avistar-se com os profetas Platão tinha decidido encontrar-se também com os magos, mas as guerras da Asia o constrangeram a renunciar a isso” (III, 6-7). Das viagens a Cirene e ao Egito não temos confirmação na Carta VII, enquanto sabemos com certeza da viagem à Itália, em 388 a.C., em tomo aos quarenta anos, e das sucessivas viagens.

Foi, certamente, o desejo de conhecer a comunidade dos pitagóricos que o levou à Itália (conheceu, com efeito, Arquita, como sabemos pela Carta VII, 338 c). Durante essa viagem, Platão foi convidado a ir à Sicília, a Siracusa, pelo tirano Dionísio 1. Platão certamente esperava inculcar no tirano o ideal do rei-filósofo (que já expusera no Górgias, obra, muito provavelmente, anterior à viagem). Em Siracusa, Platão logo entmu em conflito com o tirano e com a corte (justamente por sustentar os princípios expressos no Górgias); mas estreitou forte vínculo de amizade com Díon, parente do tirano, no qual Platão acreditou encontrar um discípulo capaz de se tomar rei-filósofo. Dionísio irritou-se com Platão a ponto - diz Diógenes Laércio (III, 19) - de vendê

-lo como escravo a um embaixador espartano em Egina (mas, talvez, mais simplesmen te, forçado a desembarcar em Egina, que estava em guerra com Atenas, Platão tenha sido detido como escravo). Felizmente, foi resgatado por Anicérides de Cirene, que se encontrava em Egina (Diógenes Laércio, III, 20).

Ao retomar a Atenas, fundou a Academia (num ginásio situado no parque dedi cado ao herói Academo, de onde o nome Academia), e o Ménon é, provavelmente, a primeira manifestação da nova Escola. A Academia firmou-se muito depressa e atraiu jovens e também homens ilustres em grande número.

Em 367, Pistão dirigiu-se uma segunda vez à Sicília. Dionísio 1 morrera e suce dera-lhe o filho Dionísio II, que, segundo Díon, mais do que o pai poderia favorecer às intenções de PIstão. Mas Dionísio II revelou-se da mesma cepa do pai. Exilou Díon, acusando-o de tramar contra ele, e manteve Platão quase como um prisioneiro. Depois, empenhado em uma guerra, Dionísio deixou, enfim, que Platão retomasse a Atenas.

Em 361, PIstão, voltou uma terceira vez à Sicília. Tendo retomado a Atenas, encontrou Díon, que aí se refugiara, o qual o convenceu a acolher um novo e empe rihado convite de Dionisio (que queria novamente o filósofo na corte, a fim de com pletar a sua preparação filosófica), esperando que, desse modo, Dionisio o readmitisse também em Siracusa. Mas foi um erro acreditar que OS sentimentos de Dionísio tinham mudado. Platão teria, certamente, corrido grande risco se não fossem as intervenções de Arquita e dos habitantes de Tarento para salvá-lo. (Díon conseguirá, em 357, tomar o poder em Siracusa, mas não por muito tempo: de fato, foi morto em 353.)

haveremos de mostrar, depende estruturalmente de Platão e, como veremos no quarto volume, após a era helenística e durante seis sé culos, tudo o que de mais significativo proveio dos gregos depende, direta ou indiretamente, de repensamentos e desenvolvimentos do pensamento de Platão. Sem contar a influência que Platão exerceu na antigüidade tardia sobre os Padres da Igreja, que, exatamente em Platão, foram buscar as mais importantes categorias metafísicas, a fim de elaborar e exprimir racionalmente a grande mensagem espiri tual contida na fé dos cristãos. Em resumo, a filosofia de Platão foi, para usar uma terminologia moderna, por mais de um milênio, a mais “influente” e a mais estimulante.

Qual a razão fundamental de tudo isto?

Em certo sentido, o próprio Platão respondeu a esta pergunta: ele ensinou-nos a olhar a realidade com novos olhos (ou seja com a visão do espírito e da alma e a interpretá-la em uma nova dimensão e com um novo método que recolhe todas as instâncias postas sucessivamen te pela especulação precedente, fundindo-as e unificando-as, elevan Em 360, Platão voltou a Atenas e aí permaneceu na direção da Academia até a

morte, ocorrida em 347 a.C.

Os escritos de Platão chegaram-nos integralmente. A ordem que lhes foi dada (trabalho levado a termo pelo gramático Trásilo, mas iniciado antes dele) baseia-se no próprio conteúdo dos escritos. Os trinta e seis escritos foram subdivididos nas seguintes nove tetralogias:

1: Eutífron, Apologia de Sócrares, Críton, Fédon;

II: Crátilo, Teeteto, Sofista, Político;

III. Parmênides, Fílebo, Banquete, Fedro;

IV: Alcibíades 1, Alcibíades II, Hiparco, Amantes;

V: Teages, Cármides, Laques, Lisis;

VI: Eutidemo, Protágoras, Górgias, Mênon;

VII: J-Iípias menor, Hípias maior, Jon, Menexeno;

VIII: Clitofonte, República, Timeu, O

IX: Minoxe, Leis, Epínomis, Cartas.

Recordemos, enfim, que a paginação dos vários diálogos à qual todos 05 estudio sos se remetem é a da edição quinhentesca de Stephanus, reproduzida à margem em todas as edições e traduções modernas.

Para evitar que o nosso texto se tome pesado, no curso da exposição citaremos, normalmente, só as obras às quais nos referiremos explicitamente, e forneceremos uma rica e articulada bibliografia no volume V. Para uma visão adequada, pedimos ao leitor que a ela se remeta.

2. Banquete, 219 a; República, VII, 519 b.

10 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL

“ESCRITURA” E “ORALIDADE” SEGUNDO PLATÃO ii

do-se a um novo plano de pesquisa alcançado com a que ele mesmo denominou a “segunda navegação” ( rrXoüç) metáfora ver dadeiramente emblemática à qual freqüentemente aludimos no pri meiro volume e que chegou o momento de explicar.

No entanto, antes de enfrentar este problema, é necessário resol ver uma série de complexas questões preliminares, de caráter me todológico e epistemológico, que se impõem em relação ao nosso filósofo mais do que em relação a qualquer outro dos pensadores antigos.

A primeira questão a ser tratada é a de compreender qual foi o critério com o qual (a partir dos inícios do século XIX) Platão foi lido e interpretado e por que motivos esse critério desgastou-se grande- mente, de sorte a doravante impor-se em larga medida um critério novo e alternativo.

Podemos resumir num raciocínio muito simples o critério tradi cional.

a) O texto escrito é, geralmente, a expressão mais plena e signi ficativa do pensamento do seu autor; isto é verdade, em particular, no caso de Platão, dotado de extraordinárias capacidades, seja como pensador seja como escritor.

b) Além disso, chegaram até nós todos os escritos que os antigos citam como sendo de Platão e que são considerados autênticos (caso praticamente único para os autores da era clássica).

c) Por conseguinte, é possível extrair com segurança, de todos os seus escritos à nossa disposição, todo o seu pensamento.

Este raciocínio, que convenceu por tanto tempo a imensa maioria dos estudiosos, hoje mostra-se infundado e errado justamente na sua premissa maior, e está certo somente no segundo ponto, que perma nece até hoje plenamente confirmado; mas, desfazendo-se a premissa

maior, desfazem-se inteiramente também as conclusões e, por conse guinte, todo o raciocínio. Com efeito, dois fatos importantes, que hoje vieram ao primeiro plano, desmentem o primeiro ponto. a) Nos autotestemunhos do Fedro, Platão diz expressamente que o filósofo não consigna por escrito as coisas de “maior valor” (T T1

3. Fédon, 99 c-d.

4. Fedro, 278 d.

que são justamente as que tornam um homem filósofo; e confirma largamente essa afirmação na Carta VII. b) Existe uma tradição indi reta que atesta a existência de “Doutrinas não-escritas” de Platão e transmite seus principais conteúdos.

Por conseguinte, tanto Platão com as afinnações explícitas feitas sobre os seus escritos, como os seus discípulos que nos informaram da existência e dos principais conteúdos das “Doutrinas não-escritas” comprovam, de modo irrefutável, que os escritos não são para Platão a expressão plena e a comunicação mais significativa do seu pensa mento e que, em conseqüência, mesmo possuindo nós todos os escri tos de Platão, de todos esses escritos não podemos extrair todo o seu pensamento, e a leitura e a interpretação dos diálogos devem ser levadas a cabo numa nova ótica.

Examinemos, em primeiro lugar, esses dois importantes fatos que os estudos mais recentes trouxeram a plena luz e que impõem a necessidade de introduzir um critério novo e mais adequado para ler e compreender Platão

5. A necessidade de introduzir um novo critério e um novo modelo para ler e entender Platão (parcialmente iniciado por Robin, Heinrich Gomperz e, sobretudo, por J. Stenzel) foi apresentada de maneira sistemática pela primeira vez pela Escola de Tübingen, particularmente com as seguintes obras: H. Krãmer, Arete bei Piaron und Aristoteles. Zum Wesen und zur Geschichte der piatonischen Ontologie, Heidelberg 1959 (Amsterdam 19672); K. Gaiser, Platons Ungeschriebene Lehre. Siudien zur systematischen und geschichtlichen Begründung der Wissenschaften in der Plaionischen Schule. Com o acréscimo: Testimonia Plaionica. Queilentexte zur Schuie und mündiichen Lehre Platons, Stuttgart 1963 (19682); H. Kiitmer, Platone e i Jondamenti dei/a metafisica. Saggio sul/a teoria dei principi e sulie doitrine non scrilte di Platone con una raceolia dei documenti fondamentali in edizione bilingue e bibliografia, Introdu ção e tradução de G. Reale, Milão 1982 (19872; esta obra foi composta por Krãmer a nosso convite); K. Gaiser, Plarone come scrittorefilosofico, Nápoles 1984; ainda de Gaiser, La metafisica de/la sioria in Platone, introdução e tradução de G. Reale, Vita e Pensiero, Milão 1988. Veja-se ainda: Th. A. Szlezák, Platon und die Schrifihichkeit der Philosophie, Berlim 1985 (introdução e tradução de G. Reale, Vita e Pensiero, Milão 1988); O. Reale, Per una nuova interpretazione di Platone. Rileitura de/la metafisica dei grandi dialoghi a/la luce de//e “Dotirine non scritte”, Milão 1987 (a primeira edição é de 1984, mas publicada como esboço provisório e parcial). A obra de L. Robin, à qual acima nos referimos, é a célebre La Théoríe P/atonícienne des Idées ei des Nombres d’apr Aristote, Paris 1908 (Hildesheim 1963); de Stenzel, ver sobretudo: Zahl und Gestalt bei Platon und Aristoteles, Leipzig-Berlim 1924 (Darmstadt l959 de Heinrich Gomperz é interessantíssimo o breve artigo (mas com perspectivas

l2 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL

“ESCRITURA” E “ORAL1DADE” SEGUNDO PLATÃO 13

2. O juízo de Platão sobre os escritos no “Fedro”

O modelo que constituiu o ponto de referência da maior parte dos estudos modernos sobre Platão formou-se em parte no decurso do século XVII, mas foi F. D. Schleiermacher que o consolidou e impôs no início do século XIX A tese hermenêutica fundamental desse

muito amplas): Platons philosophisches System, in AA.VV., Proceedings ofthe Seventh International Congress of Philosophy, Londres 1931, pp. 426-431 (reimpresso em versão inglesa em Gomperz, Philosophi cal Siudies, Boston 1953, pp. 119-124). Muito sugestivo, pela perspectiva que nos interessa, é: J. N. Findlay, Plato. The Written and Unwritten Doctrines, Londres 1974. Cf. ademais: C. J. de Vogel, Rethinking Plato and P!atonism, Leiden 1986. Toda a bibliografia sobre o tema encontra-se em Krãmer, Platone..., pp. 418ss.

Entre OS estudiosos que contribuíram de diversos modos para uma articulação do modelo de interpretação tradicional, três merecem particular menção: D. Ross, Plato’s Theory of Ideas, Oxford 1951(19522); Ph. Merlen, From Platonism to Neoplatonism, Haia 1953 (19682, reimpressão 1975), e, numerosos artigos agora recolhidos in: Kleine philosophische Schriften, Hildesheim-Nova lorque 1976; C. J. de Vogel, numerosos ensaios agora recolhidos in: Philosophia. Part 1: Siudies in Greek Philosophy, Van Gorcum, Assen 1970, pp. 153-292. São obras a serem relidas com muita atenção; à luz do novo paradigma, mostram-se muito fecundas.

Destaque particular merecem, em nossa opinião, os últimos ensaios sobre Platão publicados por H. G. Gadamer, em particular: Platons ungeschriebene Dialekiik, in AA.VV., !dee und Zahl. Studien zur platonischen Philosophíe, Heidelberg 1968, pp. 121-147, muitas vezes reeditado, e agora também traduzido em italiano: H. G. Gadamer, Studi platonici, 2 vois., Marietti, Casale Monferrato 1983/1984 (preparado por G. Moretto, vol. 2, pp. 121-147; esses dois volumes contêm todos OS escritos de Gadamer sobre Platão).

Recordemos, enfim, que a numeração das Testimonia Platonica à qual nos refe riremos é a já clássica de Gaiser; junto com esta citaremos, porém, também a de Krãmer, que se encontra em Platone..., pp. 358ss., que traz, junto com os textos gregos, também a nossa tradução.

6. De F. Schleiermacher ver-se-á sobretudo a Einleitung à grandiosa série de traduções da obra de Platão (1804ss.), hoje republicada também em K. Gaiser (org.), Zehn Beitrãge zum Platonverstãndnis, Hildesheim 1969, pp. 1-32. Para a compreensão dessa Einleitung são fundamentais as páginas de Krãmer, Platone..., pp. 33-149, e, Reale, Platone..., pp. 71 -87 e passim. Recordemos que a tese de Schleiermacher cons titui um verdadeiro modelo hermenêutico só na medida em que projeta e defende de maneira sistemática a autonomia dos escritos platônicos; todo o resto entra, ao invés, na complexa articulação desse modelo, que na idade moderna teve grande quantidade de complexas variantes, embora permanecendo sempre fixo o ponto da autonomia dos escritos. Recordemos ainda que as numerosas críticas feitas (no curso do século XIX e na primeira metade do século XX) a Schleiermacher não se referiam à tese de base,

modelo está centrada na convicção da autonomia dos escritos platôni cos, e sobre a pretensão de monopólio reivindicada a seu favor, com total (ou, ao menos, assaz significativo) prejuízo da tradição indireta, nela compreendida a que remonta ao discípulos imediatos que muitas vezes ouviram Platão e com ele viveram na Academia por longo tempo. No entanto, essa convicção é desmentida pelo próprio Platão no Fedro e na Carta Vi!, onde explica com a maior exatidão como os escritos devem ser entendidos de maneira limitada, pela razão de que não po dem comunicar ao leitor algumas coisas essenciais, seja do ponto de vista do método, seja do ponto de vista do conteúdo.

Não deve surpreender-nos o fato de que o modelo do qual fala mos tenha convencido os estudiosos por largo tempo e de modo avassalador, não obstante os autotestemunhos de Platão. A idade moderna é a expressão mais típica de uma cultura globalmente tun dada sobre a escritura, considerada como o medium por excelência de toda forma de saber. Só nos últimos decênios nasceu e se difundiu largamente um tipo diferente de cultura fundado em vários tipos de comunicação audiovisual dos mass-media que levanta grandes pro blemas quanto à função e natureza da própria comunicação. Vivemos hoje num tempo no qual ocorre o choque entre duas culturas; e isto torna-nos sensíveis à compreensão de uma situação análoga em certo sentido (embora diferente sob muitos pontos de vista) na qual Platão se encontrou e somente a partir da qual torna-se bem compreensível seu juízo sobre a escritura. Com efeito, Platão viveu em um momento no qual a dimensão da “oralidade”, que constituíra o eixo de susten tação da cultura antiga, perdia importância em favor da dimensão da “escritura”, que se tornava predominante. Mais ainda, Platão experi mentou o choque entre as duas culturas de modo bastante intenso e, sob certo aspecto, extremo: de um lado, teve como mestre Sócrates, que encarnou de maneira paradigmática e num sentido global o modelo da cultura fundada sobre a “oralidade”; de outro, captou poderosa mente as instâncias dos defensores da cultura fundada na “escritura”, ele mesmo possuindo dotes de escritor dentre os maiores da antigüi dade e de todos os tempos. Hoje, por conseguinte, estamos em con mas às suas complexas articulações. Para a demonstração disso remetemos ao nosso

Platone..., passim.

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PLATÂÓ E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL



“ESCRITURA” E “ORALIDADE” SEGUNDO PLATÃO 15

dições de entender muito melhor do que no passado o sentido que pode ter o choque entre duas diferentes culturas e de entender por que um escritor tão notável pudesse convencer-se do alcance limitado da função comunicativa da “escritura”. Estamos em condições de com preender exatamente seus “autotestemunhos” contidos no Fedro, en quanto no passado se tentou de várias maneiras reduzir sua densidade hermenêutica e mudar sua significação.

Na verdade, também no passado, um ou outro tinham compreen dido que os autotestemunhos do Fedro deveriam ser tomados muito a sério. Tratou-se, porém, de casos isolados, enquanto a comunidade dos estudiosos seguiu outro caminho. Talvez o exemplo mais belo e significativo seja o que nos é oferecido nada menos do que por F. Nietzsche. Tomando posição justamente contra a tese de F. Schleiermacher, que sustentava serem os escritos o meio para condu zir à ciência aquele que ainda não a possuía e, portanto, constituírem o meio que melhor se aproxima do ensinamento oral, Nietzsche es crevia: “Toda a hipótese saber, de Schleiennacherl está em contra dição com a explicação que se encontra no Fedro, e se apóia numa falsa interpretação. Com efeito, Platão diz que o escrito possui a sua significação somente para aquele que já sabe, como meio de recurso à memória. Portanto, o escrito mais perfeito deve imitar a forma do ensinamento oral exatamente com o fim de fazer lembrar o modo como aquele que conhece tornou-se cognoscente. O escrito deve ser ‘um tesouro para o recurso à memória’ para quem escreve e para seus companheiros filósofos. Ao invés, para Schleiermacher o escrito deve ser o meio que é o melhor em segundo grau para conduzir aquele que não sabe ao saber. A totalidade dos escritos tem uma finalidade geral própria de ensino e de educação. Mas, de acordo com Platão, o es crito em geral não tem uma finalidade de ensino e de educação, e sim a finalidade de avivar a memória daquele que já é educado e já possui o conhecimento. A explicação da passagem do Fedro pressu põe a existência da Academia, e os escritos são meios para ajudar a memória daqueles que são membros da Academia”

Nietzsche tinha razão, e os estudos mais recentes o demonstra ram em todos os pormenores; mais ainda, a passagem do Fedro afir ma sem rodeios que o filósofo só é verdadeiramente tal tão-somente e na medida em que não confia aos escritos, e sim ao discurso oral “as coisas de maior valor”. Eis o raciocínio de Platão, muito bem articulado, que se desdobra da maneira seguinte

a) a escritura não aumenta o saber dos homens, mas aumenta a aparência do saber (ou seja a opinião): além disso, não fortalece a memória, mas oferece apenas meios para “trazer memória” coisas já sabidas.

b) O escrito é sem alma, não é capaz de falar ativamente; além disso, ele é incapaz de ajudar-se e defender-se sozinho contra as críticas, mas exige sempre a intervenção ativa do seu autor.

c) Muito melhor e muito mais poderoso do que o discurso con fiado à escritura é o discurso vivo e animado, mantido na dimensão da oralidade e, por meio da ciência, gravado na alma de quem apren de; o discurso escrito é como uma “imagem”, isto é, uma cópia, do discurso levado a cabo na dimensão da oralidade.

d) A escritura implica uma parte notável de “jogo”, enquanto a oralidade implica uma grande “seriedade”; e embora esse jogo possa ser muito bonito em certos escritos, muito mais belo é o empenho que a oralidade dialética exige em torno aos mesmos temas dos quais os escritos tratam, e muito mais válidos são os resultados que ela alcança.

e) O escrito, para ser conduzido segundo a regra da arte, implica um conhecimento da verdade dialeticamente fundada e, ao mesmo tempo, um conhecimento da alma daquele a quem é dirigido. A con seqüente estruturação do discurso (que deverá ser simples ou comple xo conforme a capacidade de a alma à qual é dirigido recebê-lo). Não obstante, o escritor deve ter bem presente que no escrito não podem existir grande solidez e clareza, exatamente porque nele há uma gran de parte de jogo; o escrito não pode ensinar e fazer com que se aprenda de maneira adequada; pode apenas ajudar a trazer à memória

7. F. Níetzsche, Gesammelie Werke. Vierter Band: Vortrãge, Schriften und Vorlesungen 1871-1876, Musarion Ausgabe, Munique, p. 370. Nietzsche critica tam bém outras teses de Schleiermacher, mas justamente a crítica deste ponto demonstra a sua extraordinária e ampla compreensão do problema de fundo.

8. Pedro, 274 b-278 e. Ver a minha tradução com o texto grego in Krãmer, Platone..., pp. 336-347; para uma interpretação e um comentário analítico ver: Krãmer, Platone..., pp. 36ss.; Szlezák, Platon..., pp. 7-48; Reale, Platone..., pp. 89-106; cf. também Gaiser, Platone come scrittore..., pp. 77-101.

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  • ESCRITURA” E ORALIDADE” SEGUNDO PLATÃO

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as coisas já sabidas. Com efeito, a clareza, a completude e a seriedade estão unidas apenas à oralidade dialética.

f) Escritor e filósofo é aquele que compõe obras conhecendo a verdade e que, portanto, é capaz de socorrê-las e de defendê-las quando isso é necessário, estando em condições de demonstrar em que sentido as coisas escritas são de “menor valor” (Tt paõÀa) com respeito às coisas de “nwior valor” (T Tl que ele possui, mas que não tem intenção de confiar aos escritos, reservando-as à oralidade.

Eis duas passagens das mais significativas do Fedro que ilustram perfeitamente o sentido de “meio hipomnemático” que Platão dava aos escritos e o alcance limitado que lhes atribuía tanto na forma como nos conteúdos:

Sócrates Por conseguinte, quem julgasse poder transmitir uma arte com a escritura e quem a recebesse convencido de que poderá extrair daque les sinais escritos alguma coisa de claro e sólido, deveria ser grandemente ingênuo e ignorar, na verdade, o vaticínio de Amon, se considera que os discursos consignados por escrito são alguma coisa mais do que um meio para trazer à memória ( o de quem já sabe as coisas das quais trata o escrito.

Fedro - Certamente

Sócrates - Já nos divertimos bastante com o que se refere aos discur sos. Mas tu deves procurar Lísias e dizer-lhe que nós dois, tendo descido à fonte e ao santuário das Ninfas, ouvimos discursos que nos ordenavam dizer a Lísias e a quem quer que componha discursos, a Homero e a qualquer outro que tenha composto poesia com música ou sem música, a Sólon e a quem quer que haja composto discursos políticos denominando-os leis: Se compôs essas obras conhecendo a verdade e está em condição de socorrê-las ( quando defende as coisas que escreveu e, ao falar, possa demonstrar a de bilidade (paõÀa) do texto escrito, então, um homem assim deve ser chama do não com o nome que têm aqueles que citamos, mas com um nome deri vado do objeto ao qual se aplicou seriamente”.

Fedro - E que nome é esse que lhe dás?

Sócrates Chamá-lo sábio, Fedro, parece-me exagerado, pois tal nome convém somente a um deus; mas chamá-lo filósofo, ou seja, amante da sa bedoria, ou com algum outro nome desse tipo, seria mais próprio e mais conveniente para ele.

Fedro - E de nenhuma maneira seria fora de propósito.

Sócrates - Ao contrário, aquele que não possui nada de mais valor (Ttç.LId.TEpa) do que aquelas coisas que compôs ou escreveu, passando muito tempo em girá-las de um lado e de outro, colando ou separando uma parte da outra, não o chamarás com razão poeta, fazedor de discursos ou redator de leis?

Fedro - Sem dúvida

3. Os autotestemuribos contidos na “Carta V



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