Giovanni reale



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De uma série de indícios convergentes que se encontram no Fedro infere-se claramente em que consistem exatamente as “coisas de maior valor” (T T0 que o filósofo não confia aos escritos. Trata- se justamente das coisas que são capazes de “socorrer” (í3oni3eTv) os escritos em última instância e das quais unicamente depende a solidez, a clareza e a completude do raciocínio e que, em última análise coincidem, no sentido mais elevado, com os primeiros e su premos Princípios.

Mas, enquanto Platão no Fedro diz isto por meio de vários tipos de acenos, no excursus contido na Carta Vil’ afirma-o de maneira mais explícita. Os autotestemunhos contidos nesse excursus são ver dadeiramente exemplares e apresentados de modo articulado, que se desenvolve nos seguintes pontos:

a) Em primeiro lugar, Platão explica em que consistia a “prova” à qual submetia aqueles que se aproximavam da filosofia, a fim de certificar-se se eram ou não capazes de praticá-la de modo correto.

b) Logo em seguida, esclarece os péssimos resultados da “prova” aplicada ao tirano Dionísio de Siracusa, que insistira com ele para que retomasse à sua corte exatamente para dele aprender a filosofia. Ora, depois de ter ouvido apenas uma lição oral de Platão, Dionísio julgou poder redigir justamente o que diz respeito às “coisas maiores”,

10. Fedro, 278 b-e.

1. Fedro, 278 c.

12. Carta VII, 340 b-345 c. Ver a minha tradução com o texto grego in KrAmer, Platone.., pp. 346-357; para um comentário ver Krãmer, Piatone pp. 44ss.; pp. 105- 113; Szlezák, Platon..., pp. 386-405; Reale, Platone..., pp. 05-121.

9. Fedro, 275 c-d.

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justamente aquelas com relação às quais Platão negava firmemente a

conveniência e a utilidade do texto escrito, pelo fato de exigirem uma série de discussões feitas com perseverança e em estreita comunhão entre o que ensina e o que aprende. E é justamente por meio dessa constante aplicação e comunhão de pesquisa e de vida que se alcança a verdade que se ilumina na alma e depois alimenta-se por si mesma. Não é conveniente escrever sobre essas coisas que são exatamente as “maiores”, porque os poucos que poderiam aproveitar-se de tal escri to são capazes de encontrar a verdade por si mesmos, com breves indicações que lhes são dadas na comunhão de vida e de pesquisa; ao contrário, mostra-se assaz prejudicial pelas reações que provocariam em numerosas pessoas que, não entendendo aquelas coisas, as ridicu larizariam e desprezariam, ou ficariam cheios de presunção pensando ter entendido o que de nenhuma maneira são capazes de entender.

c) Para fazer compreender melhor essas razões, Platão invoca alguns argumentos gnosiológicos fundamentais, tendo em vista de monstrar quão complexo seja o caminho que conduz à verdade e como, conseqüentemente, a maioria se perca de diversas maneiras por esses caminhos. Somente os poucos que possuem uma natureza boa podem percorrer esse caminho em todos os sentidos e alcançar o conhecimento “daquilo que tem uma natureza boa”. Mas para os homens que têm essa natureza afim às coisas que se procuram, o texto escrito não é necessário; enquanto aos outros homens que não têm “boa natureza” é totalmente inútil escrever sobre coisas supe riores à sua capacidade, pois nem mesmo Linceu poderia comunicar a visão a homens deste tipo.

d) Em conclusão, quem pretendeu escrever sobre aquelas coisas mais elevadas, a saber, sobre os “Princípios primeiros e supremos da realidade”, como Dionísio tentou fazê-lo (e outros como ele) não o fez por boas razões, mas somente movido por más intenções.

Eis algumas das passagens mais significativas do excursus da Carta VII que impõem um modelo de todo peculiar para reler Platão:

Posso dizer o seguinte sobre todos aqueles que escreveram ou que es creverão: todos os que afirmam saber as coisas sobre as quais medito, seja por tê-las ouvido de mim, seja por tê-las ouvido de outros, seja por tê-las descoberto sozinhos, não é possível, segundo meu parecer, que tenham enten dido algo desse objeto. Sobre essas coisas não existe um texto escrito meu

nem existirá jamais (oõxouv 1Óv yE TrEpi CZ E oúyypexl.I O16è l.X1 y

De nenhuma maneira o conhecimento dessas coisas é comunicável como o dos outros conhecimentos, mas, depois de muitas discussões sobre elas e depois de uma comunidade de vida, subitamente, como luz que se acende de uma faísca, ele nasce na alma e alimenta-se de si mesmo.

De qualquer maneira, de uma coisa tenho certeza: se essas coisas deves sem ser escritas ou ser ditas eu o faria do melhor modo possível, e sentiria muito se fossem mal escritas. Se, ao contrário, acreditasse que se deveriam escrever e que se poderiam comunicar de modo adequado à maioria, que coisa de mais bela poderia eu fazer na minha vida do que escrever uma doutrina tão útil aos homens e trazer à luz aos olhos de todos a natureza das coisas? Mas, não creio que um tratado escrito e uma comunicação sobre esses temas seja um beneficio para os homens, a não ser para aqueles pou cos capazes de encontrar a verdade sozinhos, com poucas indicações que lhes forem dadas, enquanto os outros se encheriam, alguns de um desprezo injusto e inconveniente, outros, ao contrário, de uma presunção soberba e vazia, convencidos de ter aprendido coisas magníficas’

Portanto, todo homem sério evita escrever coisas sérias para não abandoná-las à aversão e à incapacidade de compreensão dos homens. Em suma, de tudo isto deve-se concluir que, ao vermos obras escritas de alguém, seja leis de legisladores ou escritos de outro tipo, as coisas escritas não eram para tal autor as mais sérias (oTrouBaióTaTa) sendo ele sério, pois essas estarão depositadas na parte mais bela dele; ao contrário, se consigna por escrito aqueles pensamentos que são para ele verdadeiramente os mais sérios, “então certamente” não os deuses, mas os mortais “fizeram-no perder o juí zo,,

Sobre o que compreende o “todo” (Tà 6Àov), “as coisas maio res” (T .t “o falso e o verdadeiro de todo o ser” (Tà 4.1Ef3oÇ ta xai àXrlO ‘rí’jç 6Xr ot’ioíaç), “as coisas mais sérias” (T oTrouSatóTaTa), ou seja, “os Princípios supremos da realidade” (T TrEpi pÚGEC.ç txpa xai ‘rrpe Platão não quis escrever nem desejou que algum dos seus discípulos escrevesse. Segundo a sua opinião, para a maioria o discurso escrito sobre esses temas seria danoso, em razão dos motivos que explicamos; por outro lado, para

13. Carta VII, 341 c-e.

14. Carta VII, 344 c-d.

15. Estas expressões tão significativas encontram-se na Carta VII, 341 a; 341 b;

344 b; 344 d.

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OS POUCOS que seriam capazes de entendê-lo seria inútil, não só pelos motivos já expostos, mas também pelo fato de que as verdades supre- mas se resumem em poucas proposições (êv PpaxuTáTOtç), de sorte que quem as compreendeu grava-as na própria alma e não as esquece nunca. Assim, a função hipomnemática (ou do trazer à memória) que é para Platão a função verdadeira e própria exercida pelo texto escri to, seria nesse caso completamente inútil:

não há perigo de que alguém esqueça essas coisas, uma vez que tenham sido bem compreendidas pela alma, pois que se reduzem a proposi ções extremamente breves ( PpaXuTáTo

4. As linhas essenciais das “Doutrinas não-escritas” de Platão que nos chegaram através da tradição indireta

Todos terão compreendido a importância excepeional que a tra dição indireta assume, na medida em que ela nos conduz ao conhe cimento das linhas essenciais das doutrinas que Platão reservou para a dimensão da “oralidade” no interior da Academia.

O próprio Aristóteles diz-nos que esses ensinamentos que Platão comunicava só por meio da “oralidade” eram chamados “doutrinas não-escritas” (ypapa Só’y . E Simplício refere-nos, citando Alexandre de Afrodísia:

Diz Alexandre: “Segundo Platão, os Princípios de todas as coisas e das próprias Idéias são o Uno e a Díade indeterminada, que ele chamava grande- e-pequeno, como também Aristóteles lembra nos livros Sobre o Bem, Mas isto se poderia saber também de Espêusipo e de Xenócrates e dos outros que assis tiram ao curso Sobre o Bem de Platão. Com efeito, todos registraram por escri to e consen’aram a opinião de Piarão, e dizem que ele usa esses Princípios’

E ainda Simplício menciona também “Heráclides”, “Estieu” e “ou tros discípulos” que escreveram o pensamento “não-escrito” de Platão.

16. Carta VII, 344 d-e.

17. Aristóteles, Física, A 2, 209 b 11-17 (Gaiser, Tes!. Plai., 54 A Krãmer, 4).

18. Simplício, In Ansi. Phys., p. 15!, 6-9 Diels (Gaiser, Test. Piar., 8 Krãrner, 2).

19. Siniplício, In Ansi. Phys., p. 453 Diels (Gaiser, Tcst. Piar., 23 B Krãmer, 3).

Mas há mais. Platão, ao mesmo tempo em que recusou consignar por escrito essas suas doutrinas orais, aceitou apresentá-las em públi co fora da Academia ao menos numa lição ou num ciclo de lições orais, cujo resultado porém foi exatamente aquele que ele afirmava seria provocado pelos seus eventuais escritos sobre tais temas; com efeito, despertou incompreensões, e portanto desprezo e reprovação, como nos diz esse importantíssimo testemunho:

Como Aristóteles Costumava contar, essa era a impressão experimentada pela maioria dos que assistiram à Conferência de Platão Sobre o Bem. De fato, todos os que lá foram pensavam poder aprender algo sobre os bens considerados humanos como a riqueza, a saúde, a força e, em geral, uma felicidade maravilhosa. Mas quando se viu que os discursos tratavam de coisas matemáticas, números, geometria e astronomia e, finalmente, susten tavam que existe um Bem, uma Unidade, penso que tudo isto pareceu com pletamente paradoxal. Assim sendo, uns desprezaram a conferência, outros a censuraram

Portanto, há uma certeza incontestável acerca da existência de exatas “Doutrinas não-escritas” de Platão. Mas como é possível jus tificar e resgatar os escritos dos seus alunos sobre essas doutrinas, a partir do momento em que Platão pronunciou uma veredicto categó rico contra todos os escritos do passado e do futuro sobre esses te mas? A resposta ao problema não é tão difícil, quanto à primeira vista poderia parecer. Com efeito, Platão não diz que as suas “Doutrinas não-escritas” não sejam por si mesmas passíveis de serem escritas (ao contrário, diz claramente que ele mesmo poderia escrevê-las melhor); mas que era inútil e mesmo nocivo expô-Ias a um público inadequado e incapaz de compreendê-las. Ele reprova sobretudo os escritos sobre as suas doutrinas orais produzidos por aqueles que, como o tirano Dionísio, não possuíam idoneidade, preparação e conhecimentos ade quados

Ora, entre os que não entenderam essas doutrinas não se pode incluir de maneira alguma seus melhores discípulos, exatamente aque les dos quais chegaram até nós escritos e testemunhos sobre essa

20. Aristóxeno, Harm. eiem., 11, 39-40 Da Rios (Gaiser, Tesi. PIat., 7 Krãmer 1).

2!. Carta Vil, 340 b-d; 34! c-e; 344 d.

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questão. Platão mesmo nos fornece o juízo positivo mais claro e mais indubitável sobre esses discípulos, dizendo-nos que eles compreende ram bem as doutrinas em questão; e os opõe a tipos como Dionísio, como resulta dessas suas afirmações:

Pois bem, se as considerava tolices, então estará em oposição com muitas testemunhas que sustentam o contrário e que, sobre essas coisas poderiam ser juízes de muito maior autoridade do que Dionísio

Claro que os discípulos que escreveram sobre as “Doutrinas não- escritas” do Mestre não procuraram fazer aquilo que Platão conside rava impossível objetiva e estruturalmente, mas fizeram simplesmen te aquilo que ele considerava ineficaz, inútil e sobretudo perigoso para a incompreensão da maioria. Em suma, as proibições de Platão de escrever sobre certas doutrinas não eram de caráter puramente teorético, mas enraizavam-se em convicções de caráter prevalentemente ético-educativo e pedagógico hauridas em Sócrates; apoiavam-se na convicção da supremacia da dimensão da “oralidade” sobre a da “escritura”. Mas os discípulos de Platão estavam já distantes de Sócrates o suficiente para não se sentirem indissoluvelmente presos àquelas convicções e, portanto, para julgar que podiam consignar por escrito toda a filosofia, sem restrições ou limites. Tanto mais que a cultura escrita estava adquirindo uma nítida primazia e quem não tinha sido discípulo direto de Sócrates não podia sentir os efeitos do choque entre as duas culturas tais como Platão os sentiu. De qualquer maneira, a maior parte dos melhores discípulos de Platão não escre veu as “Doutrinas não-escritas” para difundi-las em meio a um públi co desadaptado e inadequado, como fizeram todos aqueles que Platão censura, mas provavelmente para fazê-las circular só no interior do grupo dos acadêmicos.

Mas há mais.

Os discípulos de Platão, transgredindo, no sentido que acabamos de explicar, a grande proibição de escrever sobre as suas “Doutrinas não-escritas”, transmitiram-nos as chaves que nos permitem abrir as portas que, depois de duas gerações, ficariam fechadas para sempre e para todos. Prestaram, pois, um grande serviço aos pósteros e à

história. Por conseguinte, a tradição indireta deve ser considerada, como veremos, um documento fundamental juntamente com os diá logos

5. Como se deve entender o termo “esotérico” referido ao pensamento não-escrito de Platão

Desde algum tempo os estudiosos introduziram, para designar essas “Doutrinas não-escritas”, o termo “esotérico”, distiguindo um Platão “esotérico” de um Platão “exotérico”. “Exotérico” significa o pensamento que Platão destinava com seus escritos também àqueles que estavam “fora” da Escola (“exotérico” deriva de E que signi fica “fora”). Ao contrário, “esotérico” significa o pensamento que Platão reservava somente ao círculo dos alunos no interior, dentro da Escola (esotérico deriva de que quer dizer dentro). Mas, no passado, “esotérico” era entendido de modo bastante vago, e indicava genericamente uma doutrina destinada a permanecer envolta em mis terioso segredo, como uma espécie de metafilosofia para iniciados

Segundo nosso parecer, já Hegel fez justiça uma vez para sempre contra esse modo de entender o Platão “esotérico”, numa página a nosso ver exemplar: “Uma dificuldade poderia nascer da distin ção que se costuma fazer entre filosofia esotérica e exotérica. Tennemann afirma: ‘Platão valeu-se do direito de que goza todo pen sador, de comunicar somente a parte das suas descobertas que julgava oportuno e de comunicá-la somente àqueles que julgava capazes de acolhê-la. Também Aristóteles tinha uma filosofia esotérica e uma filosofia exotérica, com a diferença, porém, de que nele a distinção - dizia respeito somente à forma, e em Platão também à matéria’. To lices! Pareceria quase que o filósofo possui seus pensamentos como coisas exteriores: ao contrário, a idéia filosófica é algo de muito diferente, ela é que possui o homem. Quando os filósofos falam de temas filosóficos devem exprimir-se segundo as suas idéias e não

23. Cf. Reale, Platone..., passim.

24. Na época moderna foi, sobretudo, W. Tennemann, System der plaronischen Philosophie, Leipzig 1792-1795, quem difundiu essa concepção, e justamente a ele refere-se Hegel, na passagem que transcrevemos em seguida.

22. Carta VII, 345 b.

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podem guardá-las no bolso. Se, com alguns, falam de maneira extrínseca, todavia nos seus discursos está sempre contida a idéia, por pouco que a matéria tratada tenha conteúdo. Para entregar um objeto externo não é preciso muito, mas para comunicar idéias é necessário capacidade e essa permanece sempre de alguma maneira esotérica, de modo que não há nunca o puramente exotérico nos filósofos”

Ora, o Platão das “Doutrinas não-escritas” é um Platão “esotérico”, mas num sentido completamente diferente. Explica Gaiser: “Chaman do essa teoria dos Princípios de Platão nas ‘Doutrinas não-escritas’ quero dizer que Platão pretendia falar dessas coisas somente no círculo restrito dos discípulos que, depois de uma longa e intensa preparação matemático-dialética, eram capazes de captá-las de maneira adequada. Não se deve entender, ao contrário, um segredo artificioso, tal como se encontra em conventículos de culto religioso, ou em ligas sectárias ou grupos de elite”

Em resumo: “Esotérico” deve ser entendido no sentido de “intra- acadêmico”, isto é, como qualificativo de “doutrinas professadas no interior da Academia” e reservadas aos discípulos da própria Academia.

Portanto, o sentido peculiar da dimensão “esotérica” platônica é o mesmo que caracteriza a escolha da oralidade dialética para expri mir a doutrina dos primeiros Princípios. A via de acesso ao esotérico coincidia com o durissimo tirocínio educativo do qual falam expres samente também a República e as Leis A República fala mesmo (como veremos) de um tirocínio que dura até os cinqüenta anos. De outra parte, os Princípios supremos que conferem o sentido último às coisas são na verdade acessíveis ao homem só por meio de um tiro cínio muito longo, ou seja, caminhando pela “longa via do ser”, sem esperanças de encontrar atalhos.

Entendido nesse sentido exato, o termo “esotérico” aplicado às “Doutrinas não-escritas” de Platão escapa inteiramente às criticas de

25. O. W. F. Hegel, Voriesungen über die Geschic/,te der Philosophie, in: Sãmt/iche Werke..., herausgegeben VOfl H. Glockner, Vierte Auflage der Jubilãumsausgabe, Stuttgart-Bad Cannstatt 1965, vol. 18, pp. I79s. (trad. italiana de E. Codignole e O. Sauna, La Nuova Italia, Florença, vol. II, pp. 161s.).

26. K. Gaiser, La teoria dei Principi in Platone, in “Elenchos”, 1 (1980), p. 48, agora in Gaiser, La metafisica dei/a abria..., p. 192.

27. Cf. República, livros VI e VII, passim; Leis, XII, 960 b ss.

Hegel. Ao contrário, no caso de Platão verifica-se justamente aquilo que diz Hegel, a saber que “quando os filósofos falam de temas filosóficos devem exprimir-se segundo as suas idéias e não podem guardá-las no bolso. Se, com alguns, falam de maneira extrínseca, todavia nos seus discursos está sempre contida a idéia, por pouco que a matéria tratada tenha conteúdo”. De fato, como veremos, em seus discursos exotéricos dirigidos a um vasto público fora da Escola, ainda que se exprima sobre problemas particulares de maneira em certo sentido extrínseca, manifestou as suas concepções por alusões e com contínuas indicações. Em suma, em Platão não existe nunca o puramente exotérico. Porém, sem a tradição indireta não poderíamos reconstruir e compreender o esotérico que há nos diálogos, porque está entrelaçado de vários modos com o exotérico e mesmo oculto sob as alusões demasiado complexas e sob as mais variadas indicações.

6. Significação, alcance e finalidade dos escritos platônicos

Sobre o fundamento de tudo que acima foi dito é evidente que se impõe a necessidade de rever os escritos platônicos segundo uma nova ótica. Soluções diferentes, mais articuladas, mais complexas e também mais construtivas delineiam-se para o antigo problema “o que é e o que significa o escrito platônico”

Devemos recordar, em primeiro lugar, que a forma dialógica na qual são redigidos quase todos os escritos de Platão tem sua matriz na forma do filosofar socrático. Filosofar para Sócrates significa examinar, provar, curar e purificar a alma: e, segundo o seu parecer, isto só pode realizar-se através do diálogo vivo (ou seja, na dimensão da “oralidade”), que confronta imediatamente alma com alma e permite pôr em prática o método irônico-maiêutico. Platão, no entanto, julgou possível seguir uma via média ou seja, acreditou poder realizar uma mediação válida (embora parcialmente e nos limites que assinalamos). Com efeito, po deria haver um escrito em prosa (um oúyypaiiita) que, renunciando

28. Para a bibliografia sobre este tema, ver o volume V.

29. Sobre o significado desse termo e sobre a sua refer6ncia aos diálogos de Platão, ver Szlezák, Platon..., pp. 376-385.

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à rigidez da exposição dogmática e ao discurso de exibição dos so fistas e dos retóricos, procurasse reproduzir o espírito socrático sem sacrificá-lo inteiramente.

Tratava-se de buscar reproduzir no escrito o discurso “socrático” imitando sua peculiaridade, isto é, reproduzindo seu interrogar sem descanso, com todas as suspensões da dúvida, com os cortes impre vistos que impelem maieuticamente a encontrar a verdade sem nunca revelá-la inteiramente no sentido sistemático, mas solicitando a alma a encontrá-la, com as rupturas dramáticas que abrem estruturalmente perspectivas ulteriores de pesquisa: fazendo, enfim, uso de uma dinâ mica especificamente socrática. Nasce, assim, o diálogo socrático que vem a tomar-se mesmo um gênero literário adotado pelos discí pulos de Sócrates e depois também pelos filósofos seguintes, do qual Platão foi provavelmente o criador. Em todo caso, ele foi certamente o representante desse gênero literário muito superior a todos os outros e, mesmo, o único representante, pois somente nele se pode réconhe cer a natureza autêntica do filosofar socrático, que nos outros escri tores degenerou em maneirismo. Mas mesmo sobre o diálogo assim concebido pesa o juízo acima examinado proferido por Platão no Pedro. Isto significa que, para Platão, as verdades supremas da filo sofia, isto é, as coisas de maior valor, não podem de nenhuma ma neira ser confiadas à escritura em nenhuma de suas formas, nem mesmo a dialógica, mas somente à oralidade dialética. Portanto, os diálogos alcançam algumas finalidades que Platão tinha em vista como filósofo, mas não todas (e justamente não as mais elevadas).

Em síntese, podemos dizer o seguinte:

a) Nos primeiros diálogos, que são os que mais se aproximam do espírito socrático, Platão se propõe finalidades protréticas, educativas e morais, análogas às que o próprio Sócrates tinha em vista com o seu filosofar moral. A purificação da alma das falsas opiniões, a prepa ração maiêutica à verdade e a discussão com fins educativos são, sem dúvida, constantes que se encontram em todos os escritos platônicos. Mas nos diálogos da juventude elas estão certamente em primeiro plano e constituem os objetivos principais. Mais tarde atenuam-se, mas permanecem como uma constante.

b) Os diálogos platônicos nunca têm por objetivo espelhar coló quios que realmente tiveram lugar, mas representam modelos de

colóquios ideais, ou seja, modelos de comunicação filosófica coroada de êxito ou então concluída sem êxito. Essa idealização do colóquio implica uma fixação mais exata de uma metodologia, que acaba as sumindo claramente uma função regulativa, provavelmente com vín culos muito exatos com respeito às discussões que se desenrolavam na Academia. Em particular, os diálogos apresentam discussões dia- léticas magistralmente orquestradas, nas quais o método doélenchos, isto é, o método de procura da verdade por meio da refutação do adversário, alcança algumas vezes a perfeição.

c) Na exposição das doutrinas contidas nos “autotestemunhos” do Fedro e da Carta V vimos como Platão atribuía ao escrito uma exata função “hipomnemática”. Por conseguinte, o escrito deveria fixar e pôr à disposição do autor e dos outros um material conceitual adquirido por outro caminho, isto é, em discussões antes realizadas e, portanto, na dimensão antecedente da oralidade. Essa função “rememorativa” aparece em primeiro plano a partir do momento em que os diálogos platônicos adquirem uma notável espessura doutrinal e, portanto, sobretudo no arco dos diálogos que vai da República (e em parte também dos diálogos precedentes) às Leis. Além disso lembremo-nos de que os escritos, como já mostramos, são úteis para “rememorar” uma série de doutrinas, mas, pelos motivos que acima explicamos, não as doutrinas mais elevadas, referentes aos Princípios supremos da realidade. No entanto, os escritos fazem referências precisas, ao menos com várias alusões e sinalações, a essas doutrinas supremas destinadas a permanecer não-escritas porque não têm ne cessidade de meios rememorativos (na medida em que se resumem a “brevíssimas proposições” que, uma vez bem compreendidas, não se podem mais esquecer). Trata-se, pois, de alusões que bem podem ser chamadas “alusões hipomnemáticas”, válidas apenas para quem co nhecesse a doutrina conseguida mediante outro meio de comunica ção, e não mais do que isso



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