Giovanni reale



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d) Platão chega a negar ao discurso escrito a capacidade de “co municar” eficazmente as doutrinas, reservando-a ao discurso oral.

30. Essas alusões são muito numerosas. Algumas das mais significativas são recolhidas por Krãmer, PIatone.., Apêndice II, pp. 358ss. (sob o título: “1 rimandi degli scritti platonici ai ‘nOn scritto”), com texto grego e tradução minha. Cf. também Reale, Platorte..., passim.

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PLATÁO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL



‘ESCRITURA” E “ORALIDADE” SEGUNDO PLATÃO 29

Todavia, as funções hipomnemáticas não seriam evidentemente pos síveis se, na verdade, a função comunicativa estivesse inteiramente ausente do escrito. Não obstante as decididas afirmações que lemos no Fedro, é claro que o escrito platônico é também um instrumento de comunicação filosófica. Mesmo que o autor o negue expressamen te, de fato, no entanto, acaba por admiti-lo e mesmo por demonstrá lo, na medida em que escreveu e no modo com que o fez.

e) Além disso, “os procedimentos didáticos do escritor Platão põem em movimento um processo cognoscitivo que chega a seu fim não nos escritos, mas na atividade de ensinamento oral da Acade mia” Portanto, “somente se cairmos na conta de que os diálogos platônicos remetem, nas suas particularidades e em geral, a uma jus tificação de amplo alcance que não está explícita na obra escrita, mas é pressuposta em todas as suas partes, podemos compreendê-los”

O círculo no qual, com o escrito, Platão parece encerrar o leitor, remete muitas vezes, justamente através dos seus raios, a um “não-

-escrito” que forma como que um círculo mais amplo que engloba e delimita o círculo do escrito.

t) Uma confirmação dessa perspectiva é dada pela contribuição recente de Szlezák que, partindo justamente do exame dos diálogos e permanecendo no seu âmbito (sem entrar no mérito das “Doutrinas não-escritas” a nós transmitidas pela tradição indireta) demonstra que o “socorro” oral, que deve ser levado ao escrito e do qual fala o Fedro, constitui justamente a estrutura de sustenta ção de todos os escritos platônicos, a partir já dos escritos da juventude. Platão “con cebe desde o princípio o escrito filosófico como um escrito não-

-autárquico, ou seja, como escrito que, do ponto de vista do conteúdo deve ser transcendido se se quer compreendê-lo plenamente. O livro do filósofo deve ter a justificação dos seus argumentos além dele mesmo” As demonstrações analíticas fornecidas por Szlezák são particularmente notáveis porque demonstram como esse “socorro” deva realizar-se em níveis diferentes e, além disso, de maneira muito

31. Kramer, Platone..., p. 148.

32. Gaiser, Platone come scrittore..., p. 46.

33. Szlezák, Platon p. 66; cf. também pp. 328ss.

ampla. Em alguns níveis, esses “socorros” encontram-se nas partes posteriores do próprio escrito; em outros níveis, supõem doutrinas que se encontram presentes em outros diálogos; mas o socorro que conduz aos fundamentos últimos não se encontra nos diálogos e é exatamente aquele que Platão não quis consignar por escrito, e que a tradição indireta trouxe até nós.

7. O “socorro” que a tradição indireta presta aos escritos platônicos

Somente a partir do início do nosso século, começou-se a com preender que a tradição indireta pode trazer uma série de “socorros” aos diálogos platônicos, mas somente aos últimos diálogos. Por sua vez, as pesquisas mais avançadas dos últimos anos mostraram de maneira sempre mais convincente como muitas passagens obscuras dos diálogos intermédios resultam perfeitamente compreensíveis so mente com o “socorro” das “Doutrinas não-escritas”. Deve-se, por tanto, concluir que, desde a fundação da Academia, Platão já possuía um quadro das “Doutrinas não-escritas” e uma concepção exata das relações entre “escritura” e “oralidade”. Por conseguinte, todos os diálogos mais significativos de Platão, que sempre foram considera dos pontos essenciais de referência para poder reconstruir o seu pen samento, subentendem o quadro teorético geral das “Doutrinas não- escritas”.

Então, o “socorro” que a tradição indireta traz aos diálogos pla tônicos consiste nisso: tendo presentes as “Doutrinas não-escritas” que permanecem como fundo, as partes centrais de muitos desses Diálogos, que no passado ficaram sem explicações exatas ou foram explicadas somente de modo parcial ou forçado, tornam-se claras e perfeitamente inteligíveis sobre bases exatas objetivas e históricas, ou seja, na medida em que aqueles que tinham ouvido diretamente Platão nos fornecem as chaves para elas.

Concluindo: no âmbito do novo modelo interpretativo a perda da autarquia dos diálogos devida à valorização da tradição indireta não significa perda do seu valor, mas, ao contrário, significa um incre mento do seu valor, porque os diálogos são iluminados na sua zona

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LI. OS GRANDES PROBLEMAS QUE OCUPARAM OS INTÉRPRETES

de sombra, ficam mais claros, mais ricos de instâncias e de tensões DE PLATÃO E SUA SOLUÇÃO MAIS PLAUSÍVEL À LUZ DOS

e voltados para horizontes mais amplos. Além disso, o plus que nos NOVOS ESTUDOS

é revelado pela tradição indireta se reduz a um discurso muito breve.

O discurso sobre os “fundamentos últimos” que nos é transmitido

pela tradição indireta é, com efeito, um discurso sempre muito breve:

é como o trajeto último da subida de um cume, que é o mais breve,

mas, ao mesmo tempo, o mais exigente. Os escritos platônicos nos 1. A questão da unidade e do sistema no pensamento de Platão

fazem subir toda a montanha, mas não nos fazem alcançar o cume;

ao contrário, a tradição indireta nos dá a condição de alcançar tam- Seguindo a linha desse novo modelo de interpretação de Platão,

bém o cume é possível resolver toda uma série de problemas, até agora sem solu

ção.


O maior problema que ocupou os intérpretes de Platão desde a

antigüidade até hoje consiste na reconstrução da unidade do pensa

mento platônico e em alcançar uma visão sintética e orgânica que

ordene o complexo material conceitual que os diálogos nos oferecem,

no qual se entrecruzam perspectivas múltiplas de gênero diverso,

instâncias aporéticas e problemáticas, referências a dimensões dife

rentes, disfarces irônicos muitas vezes desconcertantes, provocações

surpreendentes. Leibniz, que viveu numa época na qual a plurissecular

interpretação neoplatônica (que se mantivera prevalentemente sobre a

base de uma leitura alegórica dos diálogos) estava já em processo de

radical dissolução, escrevia: “Se alguém reduzisse Platão a um siste

ina prestaria um grande serviço ao gênero humano”.

E esse justamente, na verdade, o grande enigma que é preciso

resolver para se poder penetrar o pensamento platônico e para

compreendê-lo profundamente.

Pois bem, a tradição indireta, na medida em que nos revela quais

fossem para Platão os fundamentos supremos do real e em que nos

indica os nexos que unem todas as realidades ao Princípio supremo,

preenche em boa parte essa lacuna que os diálogos apresentam e

ajuda a resolver o enigma. Com efeito, de quanto se depreende dos

testemunhos que chegaram até nós, não há dúvida de que Platão

tivesse em vista apresentar um sistema capaz de abarcar o real na sua

inteireza e nas suas partes essenciais. E, não obstante esses testemu

1. G. W. Leibniz, Die philosophischen Schriften, ed. C. J. Oerhardt, vol. I

34. É exatamente iSSO que, na via aberta pela Escola de Ttibingen, fizemos Berlim 1887 (19782), p. 637.

flOSS() Platone... passim.

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PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL



OS GRANDES PROBLEMAS DOS INTÉRPRETES DE PLATÃO 33

nhos sejam incompletos e muito sintéticos, eles nos permitem recons truir as linhas essenciais e os nexos estruturais de tal sistema. Mas, já que essa descoberta torna obsoletas de um só golpe toda uma série de interpretações que foram dadas de Platão (e, de modo particular, as interpretações de tipo cético, problematicista, existencialista e anti- metafísico), é necessário determinar exatamente em que sentido se deva entender o termo “sistema” referido ao pensamento de Platão. Não se deve entendê-lo em sentido hegeliano ou neo-idealista, mas sim naquele sentido que, desde as suas origens com os pré-socráticos, a filosofia grega revelou como traço definitivo e como propriedade essencial do pensamento filosófico. Explicar significa uni-ficar, em função de conceitos de base que implicam um vínculo estrutural entre si e que se referem a um conceito supremo que os engloba. Portanto, “sistema” é uma conexão orgânica de conceitos em função de um conceito-chave (ou de alguns conceitos-chave). Naturalmente, enten dido dessa maneira, o “sistema” não tem nada a ver com rigidez sistematizante e estreitezas dogmáticas, mas apresenta-se como um projeto do eixo de sustentação principal das pesquisas, dos eixos de sustentação com ele conexos e das suas implicações

Parece-nos exato o que Kr explicou a esse respeito: “ o projeto era considerado elástico e flexível e estava aberto fundamen talmente a ampliações, seja no conjunto, seja em pormenores. Pode- se falar, pois, de uma instância, não dogmática, mas heurística que permaneceu mesmo em alguns pontos particulares em estado de es boço e, portanto, de sistema aberto; porém, não certamente de um anti-sistema de fragmentos de teorias sem conexões exatas. Ao invés, deve-se levar certamente em conta a tendência à totalização e a um projeto geral coerente e consistente” Por sua vez, Gaiser insiste de maneira análoga: “Com a qualificação de ‘sistemática’ quero dizer que com esta teoria se tinha em vista e se punha por obra uma com posição completa, uma síntese universal, um apanhado especulativo sinótico de cada conhecimento adquirido em todos os âmbitos possí veis do real. Essa qualificação porém, não quer dizer que se tratasse

2. Ver, para ter uma idéia de como a questão do “sistema” é, em geral, mal entendida, E. N. Tigerstedt, Interpreting Plato, Uppsala 1977.

3. Kramer, Platone..., pp. 1 77s.

de um complexo de proposições ngidamente fechado, escolástico, estabelecido de uma vez por todas. Há até hoje em cada ciência, e isso vale para a ontologia no seu conjunto, o tipo do sistema vivente- dinâmico que é ‘aberto’ na medida em que procura representar a realidade sempre e somente de modo hipotético e dialético. Compre endido corretamente, o sistema platônico não exclui, antes acolhe um constante desenvolvimento ulterior: mesmo se a concepção funda mental, semelhante a um núcleo de cristalização, permaneceu sem mudança por longo tempo, era sempre possível integrar novos conhe cimentos singulares no sistema complexivo”

A tradição indireta, revelando-nos as linhas essenciais das “Dou trinas não-escritas” e oferecendo-nos aquele plus que falta nos diálo gos, faz-nos conhecer justamente o eixo de sustentação (o conceito supremo ou os conceitos supremos) que organiza e uni-fica de modo notável os vários conceitos apresentados pelos diálogos.

Mas isso haveremos de vê-lo com amplitude mais adiante.

2. A questão da ironia e sua função nos diálogos platônicos

O que foi dito por Leibniz a propósito do problema da reconstru ção do sistema platônico, Goethe repetia-o com razão e com palavras semelhantes a respeito da ironia: “Quem soubesse explicar-nos que coisa homens como Platão disseram com seriedade, por brincadeira ou de modo meio brincalhão, e o que disseram por convicção ou então simplesmente por modo de dizer, certamente nos prestaria um serviço extraordinário e traria uma contribuição infinitamente valiosa à nossa cultura”

Na realidade, juntamente com o diálogo socrático, Platão devia retomar também a “ironia” e introduzi-la nos seus escritos como um constitutivo essencial, com todas as dificuldades e com todos os pro blemas que ela traz consigo. Em Sócrates, a ironia consistia num jogo hábil conduzido sobretudo com a máscara da ignorância em todas as

4. Gaiser, La teoria..., pp. 48s.; La metafisica dei/a sioria..., pp. 192s.

5. J. W. Goethe, Piato, ais Mitgerwsse einer chrístiichen Ofjenbarung in Goethes Werke, XXXII (na coleção “Deutsche National-Litteratur. Historisch-kritische Ausgabe” 113. Bd.), p. 140.

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OS GRANDES PROBLEMAS DOS INTÉRPRETES DE PLATÂO 35

suas variantes polimorfas e policrômicas, a fim de desmascarar a ignorância do presunçoso interlocutor. Como é sabido, no variado jogo das simulações, Sócrates chegava mesmo a fingir que acolhia idéias e métodos do adversário como se fossem dele e os levava ao extremo para poder fazer emergir facilmente os pontos débeis e refutá los, algumas vezes fazendo uso da lógica própria àqueles métodos Ora, em Platão encontramos ambos estes aspectos da ironia. O pri meiro, porém, que é um tanto acentuado nos primeiros diálogos, pouco a pouco vai reduzindo o seu mordente e o seu alcance na medida em que os diálogos se enriquecem com conteúdos de doutrina e na me dida em que, neles, o momento construtivo prevalece sobre o momen to aporético. Ao invés, o segundo tende a ampliar-se e a tornar-se sempre mais complexo, até atingir sua intensidade máxima em diálo gos muito importantes como, por exemplo, o Parmênides. E justa mente esse aspecto da ironia platônica que dificulta a interpretação de certos diálogos, porque o filósofo não mostra expressamente reconhe cível a ficção irônica como tal e muda de máscara sem nunca deixá la cair. A ironia platônica tem um profundo valor metodológico cujas raízes estão na maiêutica socrática: o leitor dos diálogos é envolvido nas invenções e no jogo das ficções com a finalidade de obter o seu empenho total e assim fazer saltar desde dentro a centelha da verdade.

Portanto, a ironia platônica nada tem a ver, como Jaspers justa mente acentuou na sua reconstrução do pensamento platônico, com a visão niilista que segue o caminho da pura negação e coincide com o ridículo que fere e aniquila. Ao contrário, a ironia platônica implica a posse de algo positivo, que não é expresso diretamente com o fim de evitar a incompreensão de quem não é capaz de entender. “A ironia filosófica - escreve Jaspers - ao invés, é a expressão da certeza de um conteúdo originário. Perplexa diante da univocidade da necessidade racional e da multiplicidade dos significados que os fe nômenos possuem, ela quereria captar o verdadeiro não falando, mas suscitando. Quereria dar um sinal da verdade escondida, enquan to a ironia niilista é vazia. No torvelinho dos fenômenos, quereria levar, com um autêntico descobrimento, à presença inefável da sua verdade, enquanto a ironia vazia, através do torvelinho, nos faz cair

no nada. A ironia filosófica é pudor de toda verdade direta. Ela im pede toda incompreensão total imediata”. Com a sua ironia - diz ainda Jaspers - “parece que Platão tenha querido dizer: aqueles que não podem compreender devem compreender erradamente”

Pois bem, acolhendo o novo modelo interpretativo, não poucos diálogos deixam de ser enigmas, e se pode compreender o que Platão disse de fato seriamente e por convicção. As indicações exatas que se extraem da tradição indireta lançam muita luz sobre muitos diálogos e, sobretudo, sobre as partes enigmáticas dos diálogos (que algumas vezes alcançam objetivamente os limites do não-decifrável) e ofere cem a chave para compreender o jogo irônico, para fazer cair a máscara e para identificar de fato a mensagem filosófica platônica. Em todo caso, a interpretação pan-irônica dos diálogos platônicos à qual, ao fim e ao cabo, a ironia tudo arrasta inclusive a si mesma, não se pode mais propor à luz da revalorização da tradição indireta, ao passo que o jogo irônico descobre afinal sua seriedade filosófica e seus fins construtivos.

3. A questão crucial da “evolução” do pensamento de Platão

A propósito da questão crucial da evolução do pensamento pla tônico, Theodor Gomperz escrevia em fins do século XIX:

“Concedamo-nos, por um momento, o luxo de um belo sonho. Supo nhamos que um dos discípulos íntimos de Platão, por exemplo, seu sobrinho Espêusipo tivesse feito o que não exigiria mais do que um quarto de hora dos seus ócios e que o teria tornado, de modo inestimável, benemérito da história da filosofia: isto é, que ele tivesse registrado sobre uma tabuinha a lista, por ordem de data, dos escritos do seu tio, e que uma cópia dessa lista tivesse chegado até nós. Nesse caso possuiríamos o melhor auxílio para o estudo do desenvolvimen to espiritual de Platão” Gomperz observa que isso não supriria a falta de um diário, de um rico epistolário, de notícias sobre as suas

7. K. Jaspers, Die grossen Philosophen, Munique 1957, pp. 267 s. (trad. italiana de F. Costa, 1 grandijulosofi, Longanesi, Milão 1973, pp. 357s.).

8. Th. Gomperz, Griechische Denker, Leipzig 1896-1897; trad. italiana de L. Bandini, Pensatorj greci, vol. III, La Nuova Italia, Florença 1953 p. 49.

6. Cf. volume 1, pp. 307-310.

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OS GRANDES PROBLEMAS DOS INTÉRPRETES DE PLATÃO 37

conversações; além disso, o ponto de vista diretivo que diz respeito ao desenvolvimento cronológico e o que diz respeito à continuidade dos conteúdos doutrinais disputariam sempre a primazia; todavia, um catálogo daquele tipo poderia resolver os maiores problemas, dado que o pensamento de Platão é um contínuo progredir.

Pois bem, essa convicção se considera hoje em parte superada sobre o fundamento de tudo o que acima ficou dito sobre as relações entre “escritura” e “oralidade” em Platão; em todo caso, ela é redimensionada segundo o modo estrutural. Mas, para entender bem esse problema e as soluções que hoje sempre mais se impõem, é necessário expor com exatidão alguns dos seus traços essenciais.

O conceito de “evolução” do pensamento de Platão foi introdu zido por Hermann em 1 839v, numa obra que assinalou uma inflexão essencial nos estudos platônicos, articulando de maneira nova o modelo interpretativo proposto por Schleiermacher. A tese encontrou acolhi da excepeional, e a concepção da evolução do pensamento platônico tornou-se um verdadeiro e próprio cânon hermenêutico, inclusive pelo fato de ter recebido algumas confirmações importantes apoiadas na aplicação do método da análise estilística e da estilística lingüística e ainda com o auxílio dos refinados métodos da filologia moderna.

O ponto de partida foram as Leis, que sabemos terem sido cer tamente o último escrito de Platão. Com uma, determinação acurada das caracteristicas estilísticas dessa obra procurou-se estabelecer que escritos correspondessem a tais características. Daqui foi possível con cluir (com o auxílio também de critérios colaterais de vários tipos), que os escritos do último periodo seguem provavelmente a seguinte ordem: Teeteto, Parmênides, Sofista, Político, Filebo, Timeu, Crítias, Leis. Ulteriormente foi possível estabelecer que a República pertence à fase central da produção platônica, sendo precedida pelo Banquete e pelo Fédon, e seguida pelo Pedro. Igualmente foi possível dar como certo que um grupo de diálogos representa o período de amadureci mento e de passagem da fase juvenil a uma fase de maior originali dade: o Górgias pertence verossimilmente ao período imediatamente anterior à primeira viagem à Itália, e o Mênon ao período imediata-

9. K. F. Herniann, Geschi chie und Systern der platonischen Philosophie, Heidelberg

mente seguinte. A esse período de amadurecimento pertence prova velmente também o Crátilo. O Protágoras é talvez a coroa da primei ra atividade. Os outros diálogos, sobretudo os mais breves, são, com certeza, escritos da juventude, o que é confirmado pela temática es pecificamente socrática neles discutida. Alguns deles podem ter sido retocados no período da maturidade.

Eis as conclusões que, do ponto de vista teorético e doutrinal, em ser inferidas dessa ordem dos diálogos e que ilustram o esque ma também por nós adotado no passado.

Primeiramente, Platão dedicou-se a uma problemática prevalen temente ética (ético-política), partindo exatamente da posição à qual Sócrates chegara. Em seguida, e justamente no aprofundar em todas as direções a problemática ético-política, ele compreendeu a necessi dade de reavaliar as instâncias da filosofia da physis: entendeu que a justificação última da ética não pode provir da própria ética, mas somente de um conhecimento do ser e do cosmo do qual o homem é parte. Mas a recuperação das instâncias ontocosmológicas dos físi cos deu-se de modo originalíssimo e, mais ainda, por meio de uma autêntica revolução do pensamento, com a descoberta do supra-sen sível (do ser supra-físico). A descoberta do ser supra-sensível e das suas categorias desencadeou um processo de revisão de toda uma série de problemas antigos e deu origem, por outro lado, a toda uma série de novos problemas que Platão incansavelmente tematizou e aprofundou pouco a pouco nos diálogos da maturidade e da velhice. A conquista do conceito de supra-sensível deu novo sentido à psyché socrática e ao socrático “cuidado da alma”; deu um outro sentido ao homem e ao seu destino, um outro sentido à Divindade, ao cosmo e à verdade. Do alto dos horizontes alcançados com a descoberta do supra-sensível, Platão pôde harmonizar a antítese entre Heráclito e Parmênides, fundamentar a intuição teleológica de Anaxágoras, resol ver muitas aporias do eleatismo, dar ao pitagorismo um novo sentido. Na fase da maturidade, as instâncias eleáticas tornaram-se mesmo de tal modo urgentes que não somente inspiraram todo um diálogo como o Parmênides, mas até levaram, como antes dissemos, a uma substi tuição de Sócrates como protagonista. De fato, no Sofista e no Polí tico, o verdadeiro protagonista será um Estrangeiro de Eléia. Final mente, na fase da velhice, alçaram-se ao primeiro plano as instâncias

1839.


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OS GRANDES PROBLEMAS DOS INTÉRPRETES DE PLATÃO 39

pitagóricas (de resto, sempre presentes e ativas de muitos modos do Górgias em diante) a tal ponto que, na grande síntese final cosmo ontológica do Timeu, Platão escolheu como protagonista exatamente o pitagónco Timeu. Segundo a maioria dos estudiosos (incluindo aqueles que primeiramente as tinham reavaliado), as “Doutrinas não- escritas” teriam levado a termo a parábola evolutiva de Platão.

Essa parábola típica que brevemente esboçamos tem, naturalmente, uma série de variantes (e até mesmo bastante notáveis) nos diversos intérpretes. Deve-se notar que muitos estudiosos acreditaram poder descobrir nos diálogos posteriores à República expressões de crises, de superações, de “autocríticas”, de “autocorreções” de diverso gênero do pensamento platônico originário, sobretudo no que diz respeito à dou trina central, ou seja, à doutrina das Idéias. Convém notar como o problema das relações entre evolução e sistema foi resolvido de maneira diversa, a maioria das vezes com a tendência a conferir a primazia à evolução exatamente como cânon hermenêutico, com prejuízo do siste ma, vale dizer, com prejuízo da unidade do pensamento platônico’°.

Ora, aceitando-se o novo modelo interpretativo, a reconstrução genética do pensamento platônico recebe, juntamente com todas as pretensões que ela acolhe, um redimensionamento drástico, porque justamente os pressupostos sobre os quais se apóia são submetidos a uma séria crítica. Será oportuno recordar em grandes linhas os pontos focais dessa questão.

a) Deve-se observar em primeiro lugar que o estudo dos diálogos platônicos em chave genética pode alcançar resultados merecedores de atenção no que diz respeito ao aspecto do Platão escritor, mas não, ao mesmo tempo, ao aspecto do Platão pensador. Com efeito, o es critor Platão está longe de coincidir sistemática e globalmente com o pensador Platão, como fica claro do que acima foi dito e como se mostrará com exatidão a partir das observações a seguir.

b) A interpretação genética aplica, sem de nenhum modo demonstrá-lo, o princípio segundo o qual Platão possuía somente o



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