Giovanni reale



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lO. Além do trabalho de l-lermann, citado na nota precedente, foram decisivos os trabalhos de L. Campbell e, sobretudo, a conspícua obra de W. Lutoslawskf, The Origin and Growth of Plato’s Logic, Londres 19052 (1 897 O mais recente trabalho sobre o tema é: H. Thesleff, Studies in P(atonic Chronoiogy, Helsinki 1982.

nível de doutrina e de consciência teorética que exprime nos diálogos sucessivamente escritos.

c) As finalidades diversas e os diversos objetivos que inspiram os vários diálogos impõem, por razões de natureza estrutural, níveis diferentes de exposição doutrinal, ou seja, um mais ou um menos em quantidade e qualidade de doutrinas, que produz um espaçamento notável no jogo das inferências sobre as quais se apóia o método genético. Alguns diálogos, por exemplo, apresentam um conteúdo doutrinal menor simplesmente pelo fato de que eles têm em vista fins mais limitados com relação a outros, adaptando, além disso, esses fins à medida dos personagens.

d) Além disso, no Fedro, como acima vimos, Platão diz clara mente que o momento de elaboração oral da doutrina vinha em pri meiro lugar, e só em um segundo momento eram fixadas nos escritos as doutrinas (ou ao menos algumas dentre elas) estabelecidas através da discussão oral, e isso com propósitos hipomnemáticos. A esse respeito é fácil salientar uma mobilidade de limites entre escrito e não-escrito. Platão, com o passar dos anos, viu-se impelido a escrever sempre mais e deteve-se somente diante das “coisas de maior valor”, isto é, diante das doutrinas que, pelas razões acima explicadas, deve riam permanecer definitivamente “não-escritas”.

e) Ademais, ele fez uma série de referências a essas “Doutrinas não-escritas”, inequívocas para os leitores e os intérpretes que não estejam indevidamente munidos de pré-conceitos tradicionais.

f) Portanto, as conclusões são evidentes. Quando Platão compu nha os diálogos, movia-se num horizonte de pensamento mais amplo do que aquele que ia fixando por escrito. A reavaliação correta da tradição indireta permite reconstruir, em boa medida, esse horizonte de pensamento.

E uma vez comprovado que o núcleo essencial das “Doutrinas não-escritas” remonta a uma época muito anterior à que se pensava no passado, segue-se evidentemente que a questão da evolução do pensamento platônico será formulada de modo inteiramente novo, ou seja, exatamente sobre os fundamentos das relações entre a obra es crita e o ensinamento oral, vale dizer, sobre os fundamentos das re lações entre as duas tradições que chegaram até nós, levando-se em conta todas as circunstâncias acima indicadas.

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PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL



OS GRANDES PROBLEMAS DOS INTÉRPRETES DE PLATÃO 41

g) Em todo caso, será necessário distinguir diferentes níveis da parábola evolutiva: o do Platão pensador, o do Platão escritor, em geral; e o da estrutura das relações entre escritura e ora/idade que, em certa medida, pouco a pouco se estreitam.

4. “Mito” e “logos” em Platão

Outro problema de enorme alcance, ao lado dos que acabamos de examinar, é constituído pelo fato de Platão revalorizar o “mito” ao lado do “logos” e, a partir do Górgias até os diálogos tardios, atribuir- lhe uma importância assaz notável.

Como se explica isso? Como, afinal, a filosofia volta a retomar o mito do qual procurara, de várias maneiras, libertar-se? Trata-se de uma involução, de uma abdicação parcial da filosofia das suas prer rogativas próprias, de uma renúncia à coerência ou, em último caso, de uma desconfiança de si? Em suma, qual o sentido do mito em Platão? As respostas a esse problema foram as mais diversas. As soluções extremas vieram de Hegel e da escola de Heidegger.

A propósito, Hegel escrevia: “O mito é uma forma de exposição que, na medida em que é mais antiga, suscita sempre imagens sensí veis adaptadas à representação, não ao pensamento; mas isso atesta a impotência do pensamento que ainda não sabe manter-se por si mesmo e, portanto, não é ainda pensamento livre. O mito faz parte da pedagogia do gênero humano porque estimula e atrai a ocupar-se do conteúdo. Mas, como o pensamento está nele contaminado com formas sensíveis, ele não pode exprimir o que o pensamento deseja exprimir. Quando o conceito amadurece não tem necessidade de mi tos”. Portanto, o mito platônico pertenceria à forma exterior e à repre sentação; o conceito filosófico deve ser sempre separado do mito, pois só se mistura com ele quando ainda não está de todo amadurecido. Logo, o mito em Platão teria um valor (filosoficamente) negativo.

Ao invés, a escola de Heidegger chegou a conclusões diame tralmente opostas. Ela apontou no mito a expressão mais autêntica da

metafísica platônica; o logos, que domina na teoria das Idéias, mos tra-se capaz de captar o ser, mas incapaz de explicar a vida: o mito vem em socorro justamente para explicar a vida e, de certa maneira, supera o logos e se faz mito-logia. Na mito-logia dever-se-ia procurar o sentido mais autêntico do platonismo’

Entre esses dois extremos situa-se, naturalmente, urna gama bas tante variada de soluções intermediárias’

O problema, segundo o nosso parecer, só encontra solução se descobrirmos as razões exatas que levaram Platão a repropor o mito. E essas razões são identificáveis na revalorização de algumas teses fundamentais do orfismo e da sua tendência mística e, em geral, no poderoso afirmar-se da componente religiosa a partir do Górgias. Em suma, o mito em Platão renasce não apenas como expressão de fan tasia, mas, antes, como expressão daquela que poderemos denominar fé (Platão usa no Fédon o termo esperança, Àrriç)’

Com efeito, o discurso filosófico platônico sobre alguns temas escatológicos na maior parte dos diálogos, do Górgias em diante, torna-se uma espécie de fé acompanhada de razões: o mito procura um esclarecimento no logos, e o logos um complemento no mito. A força da “fé” que se explicita no mito Platão confia ora a tarefa de transportar e elevar o espírito humano a âmbitos e esferas de visões superiores que a razão dialética, sozinha, tem dificuldade em alcan çar, mas que pode conquistar mediatamente; ora, ao invés, Platão confia à força do mito a tarefa, no momento em que a razão alcançou seus limites extremos, de superar intuitivamente esses limites e de coroar e completar esse esforço da razão, elevando o espírito a uma visão ou, ao menos, a uma tensão transcendente.

Eis o que responde expressamente Platão às negações racionalistas do valor do mito usado nesse sentido, dirigindo-se a Cálicles e aos campeões da sofística hiper-racionalista:

Essa estória (i.é, o mito de além-túmulo) parecerá a ti que seja uma dessas lendas que as velhinhas contam e a desprezarás; na verdade, não seria absurdo desprezar tais coisas se buscando (i.é, puramente com a razão) pu

12. Cf. W. Hirsch, Platons Weg zum Mythos, Berlim 1971.

13. Ver a bibliografia no volume V.

14. Fédon. 67 b-c; 68 a: 114 c.

11. Hegel, Vorlesungen über die Geschichte der Philosophie, cit., pp. 1 88s. (trad.

ital., pp. 171s.).

PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL

déssemos encontrar outras melhores e mais verdadeiras. Mas considera bem que vós três, que sois os mais sábios entre todos os gregos, tu, Polo e Górgias, não sabeis demonstrar que se deva viver uma vida diferente dessa vida que nos parece útil também do lado de lá’

Além disso deve-se notar partícularmente que o mito, do qual Platão faz uso metódico, é essencialmente diverso do mito pré-filo sófico que ainda não conhecia o logos. Trata-se de um mito que não somente é expressão de fé, como dizíamos, mais do que de espanto fantástico, mas é igualmente, um mito que não subordina o logos a si, mas estimula o logos e o fecunda no sentido que já explicamos, sendo um mito que, em certo sentido, enriquece o logos. Em suma, é um mito que, ao ser criado, é despojado pelo logos dos seus ele mentos puramente fantásticos para manter somente seus poderes alu sivos e intuitivos. A exemplificação mais clara do que afirmamos encontra-se numa passagem do Fédon que segue imediatamente a narração de um dos mais grandiosos mitos escatológicos com que Platão procurou representar o destino das almas no além:

Sem dúvida, obstinar-se em pretender que essas coisas sejam exatamen te como as descrevi não convém a um homem sensato: mas afirmar que isso ou algo parecido a isso aconteça com as nossas almas ou com as suas mo radas, desde que se concluiu que a alma é imortal, eis o que me parece convenha e valha a pena arriscar a quem assim pense. Com efeito, o risco é belo e convém com essas crenças fazer um encantamento sobre si mesmo; é por essa razão que há tempos eu me demoro nesse mito’

Mas o problema é ainda mais complexo na medida em que o mito em Platão apresenta outras significações além daquela ora con siderada, ligada sobretudo a problemáticas escatológicas. Um segun do e notável significado é, com efeito, o de narração provável que diz respeito a todas as coisas sujeitas à geração. O logos, na sua pureza, pode aplicar-se apenas ao ser que não muda; ao contrário, ao ser mutável não se poderá aplicar o logos, mas a opinião verdadeira ou, justamente, o mito provável. Com efeito, explica Platão, entre o conhecimento e as coisas das quais temos conhecimento existe uma afinidade estrutural. Os raciocínios e os discursos que têm por objeto

05 GRANDES PROBLEMAS DOS INTÉRPRETES DE PLATÂO

o ser estável e firme são também estáveis e imutáveis e captam a

verdade pura; ao invés, os raciocínios e discursos que têm por objeto

a realidade sujeita à geração são verossímeis e fundados na crença. E eis o ponto ao qual se deve prestar bem atenção: exatamente

na medida em que o cosmo em devir é uma “imagem” do ser puro, que é “modelo originário”, ele é cognoscível de alguma maneira; e justamente sobre esse seu ser “imagem” funda-se o diferente alcance cognoscitivo com respeito ao modelo’

As conclusões de Platão são, pois, as seguintes: com respeito ao universo fisico (que não é puro ser, mas a sua imagem), não é pos sível fazer raciocínios veritativos em sentido absoluto, mas é possível fazer somente alguns raciocínios verossímeis. Nesse âmbito, a natu reza humana deve contentar-se com o “mito”, no sentido de “narração provável”, pois, em razão da própria natureza do objeto da pesquisa, não é possível ir mais além:

Portanto, 6 Sócrates, não te deves maravilhar se, depois de muitas coisas por muitos enunciadas em torno aos Deuses e à origem do universo, não conseguimos apresentar raciocínios exatos em tudo e por tudo coerentes com eles mesmos. Mas, se apresentarmos raciocínios verossímejs tanto como qual quer outro, então devemos ficar satisfeitos com eles, lembrando-nos de que tanto eu que falo quanto vós que julgais temos uma natureza humana; assim, acolhendo em tomo a essas coisas o mito (narração) provável (T6v EixóTa iOÚov), convém que não avancemos além disso’

Por conseguinte, toda a cosmologia e toda a física são, nesse sentido, “mito”

Mas há outros significados do mito em Platão. Algumas vezes o nosso filósofo o apresenta mesmo com uma esconjura de caráter tipicamente mágico. Foi justamente salientado que, com isto, “ele pretende caracterizar a particular força persuasiva do discurso poéti co-mítico, que é capaz de alcançar não somente as camadas racionais, mas também as camadas emotivas da alma”

Mais ainda, em certos casos Platão entende por mito toda espécie de exposição narrativa de temas filosóficos que não tenha puramente

17. Cf. Timeu, 29 b.c. Ver Reale, Platone..., pp. 519-521.

18. Ti.neu, 29 c-d.

19. Gaiser, Platone come scrittore..., p. 44; sobre esse caráter do mito cf. Fédon,

1)4 d (ver o texto citado acima); Leis, X, 903 b.

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IS. Górgias, 527 a-b. 16.Fédon, !

44 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL

OS GRANDES PROBLEMAS DOS INTÉRPRETES DE PLATÃO 45

a forma dialética (e, portanto, todos os seus diálogos ou grande parte dos mesmos)

O leitor terá compreendido a enorme importância do mito para Platão. Se quiséssemos resumir com um mínimo denominador co mum o que acabamos de explicar, poderíamos dizer que, para o nosso filósofo, falar por mitos (l.1ui é um exprimir-se por ima gens, o que permanece Válido em vários níveis, na medida em que pensamos não só por conceitos, mas também por imagens.

O mito platônico na sua forma e no seu poder mais elevados é um pensar-por-imagens não somente na dimensão fisico-cosmológica, mas também na dimensão escatológica e mesmo metafísica, como teremos ocasião de ver. O iu torna-se, dessa maneira, uma das cifras emblemáticas do espírito humano à qual Platão conferiu, de fato, amplo relevo.

5. O caráter poliédrico e polivalente da filosofia platônica

Ao compreender e expor a filosofia platônica, os intérpretes se guiram, em geral, dois caminhos opostos. Alguns expuseram-na de maneira sistemática, inspirando-se em esquemas que prevaleceram de Aristóteles em diante ou, mesmo, no esquema hegeliano (como, por exemplo, Zeller, que organizou sua exposição do platonismo segundo o esquema dialético triádico Idéia-Natureza-Espírito). Outros, ao con trário, depois da descoberta de critérios que permitiram fixar uma sucessão, ainda que aproximativa, dos diálogos mais importantes, e com a convicção de que o pensamento platônico tenha sofrido uma profunda evolução, da qual já falamos, preferiram expor cada diálogo separadamente. Mas o primeiro método acaba por transformar-se num leito de Procusto, na medida em que obriga a amputar numerosas partes do pensamento platônico, a fim de poder sistematizá-lo. O segundo, ao invés, acaba por ser essencialmente dispersivo e, no fim, em lugar de resolver, escamoteia o problema da leitura de Platão. Com efeito, para ser esclarecedora, a leitura de um filósofo deve individuar algumas cifras, algumas chaves e, em suma, algumas cons tantes e as idéias de base em torno das quais elas giram.

Procuraremos seguir uma terceira via que avança no meio das outras duas, tentando recuperar o “sistema” no sentido que acima foi explicado. Platão revelou pouco a pouco, no curso dos séculos, faces diversas: talvez seja justamente essa diversidade de faces que pode desvelar-lhe o pensamento.

a) Já a partir dos filósofos da Academia, começou-se a ler Platão em chave metafísica e gnosiológica, apontando na teoria das Idéias e dos Princípios supremos o fuicro do platonismo. b) Em seguida, com o neoplatonismo, pensou-se encontrar a mensagem platônica mais autêntica na temática religiosa, na ânsia do divino e, em geral, na dimensão mística, temas intensamente presentes na maior parte dos diálogos. c) Essas duas interpretações são as que perduraram de vá rias maneiras até os tempos modernos, até que, no nosso século, surgiu uma terceira interpretação, original e sugestiva, que apontou a essência do platonismo na temática política, ou melhor, ético-políti co-educativa, temática transcurada no passado, ao menos no que diz respeito à sua justa importância.

Acreditamos que o verdadeiro Platão não se encontre em nenhu ma dessas três perspectivas tomadas separadamente como sendo a única válida, mas deva encontrar-se, ao contrário, nas três direções juntamente e na dinâmica que lhes é própria. Com efeito, as três propostas de leitura iluminam três faces efetivas da poliédrica e polivalente especulação platônica, três dimensões ou três componen tes ou, ainda, três linhas de força que constantemente vêm à tona, de cada escrito ou de todos juntos, acentuadas ou orientadas de diversas maneiras.

É certo que a teoria das Idéias, com todas as suas implicações metafísicas, lógicas e gnosiológicas, em particular nos diálogos da maturidade e da velhice, está no centro da especulação platônica. Mas é igualmente verdadeiro que Platão não é o metafísico abstrato: a metafísica das Idéias tem também um profundo sentido religioso e o próprio processo cognoscitivo é apresentado como conversão, sendo o Amor que eleva à Idéia suprema apresentado como força de ascen são que conduz à contemplação mística. Finalmente, é verdade que Platão não fixou na contemplação o estádio no qual o filósofo deve acabar seu itinerário, uma vez que prescreveu ao filósofo, depois de ter visto o verdadeiro, voltar para salvar também os outros e para

20. Cf. Fedro, 276 e.

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PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSIV



empenhar-se politicamente na construção de um Estado justo, dent do qual é possível uma vida justa; e veremos como ele, na Carta V apontou expressamente no empenho político a paixão fundamental sua vida.

Exporemos e interpretaremos segundo essas três dimensões pensamento platônico. Todavia, o ponto-chave, ou seja, o eixo sustentação em tomo do qual essas três dimensões se articulam p manece a protologia revelada nas “Doutrinas não-escritas”. Consigi da à dimensão da oralidade e transmitida a nós pela tradição indire a protologia, em certo sentido, forma uma quarta dimensão. No tanto, em outro sentido, situa-se num plano diferente e, portanto, r está ao lado das outras em condições de igualdade; ela constil (como veremos) o percurso final da metafísica, mas, ao mesmo te po, o vértice da dimensão ético-religiosa e da dimensão políti Portanto, a protologia é o vértice unitário geral, o que faz do ce plexo pensamento platônico um “sistema”, dando-lhe unidade estrutura. Por conseguinte, falaremos amplamente da protologia “não-escrito” seja como segundo percurso e vértice da metafís seja como vértice das duas outras componentes e, portanto, co pano de fundo de todos os temas, reconquistando, dessa manein unidade que dá o sentido supremo do pensamento platônico.

SEGUNDA SEÇÃO

A COMPONENTE METAFÍSICO-DIALÉTICA DO

PENSAMENTO PLATÔNICO

Úc O j Búo T( ÓVTWV, Tà èv

ópaTÓV. T6 6

estabeleçamos portanto E... duas espécies de seres:

uma visível, outra invisível”.

Platão, Fédon, 79 a

lampridem h o aut apud Mrgarcn aut BixocosciTeni, Opunu illtusopiiuo ncdelaca: nili luítius przclarius tuatral (em, cas pernas quas cd ciuicaa. luc reatquc perferrc, qu fugiuuuin exu lémque alibi viuin tolcrare. V ha caulas appellarc admodum et importu num. Q li quis dicat,me, nia h tem ofli ncruos, non potle facerc es qu mibi vifa flicrini , verum Emà dicai. Nihdominus tamen fiquis allirmarit peer hzc me Lacete quz facio balienui mente incellígentia (acere,non vcr O plimi deleâu. negligenter cerc Íupmé- que dixerit. lllud ením rnmirum eft noil poffediftinguac atque dlkcrncre,alialTt

cife caufaxn reuera : aaliud vera iUud quid- piam íine quo cauCa non (it caufa.quo qin- q .od g. dem in crrore mihi verlari videntur ii!, qui quafi in tenebris palpantes, ‘ alieno abucences, al1udeauI vocani. 1- “ D,.o g

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aticem tilam vircutem quz poculi rcs tp(as

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Reprodução de grande parte da página do Fédon que contém a célebre metáfora da “segunda navegação” (o ponto fulcral do platonismo). E tirada da célebre edição de H. Stephanus de 1578, cuja paginação e divisão em parágrafos (indicada no centro da coluna que divide o texto grego da tradução latina) são reproduzidas em todas as edições modernas como ponto de referência (Ver o frontispício dessa edição na p. 61).

1. Cf. Fédon, 96 a-102 a. Para uma pormenorizada análise remetemos aos nosso Platone..., pp. 47-177, onde apresentamos a mais ampla e pormenorizada análise que dessa passagem foi feita até agora.

2. W. Goodrich, On Phaedo 96 a-102 a and on lhe 6EÚTEPOS rrÀoOç 99 d, in Classical Review”, 17 (l903), pp. 381-484 e 18 (1904), pp. 5-li.

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1. A “SEGUNDA NAVEGAÇÃO” COMO PASSAGEM DA

IWESTIGAÇÃO FÍSICA DOS PRÉ-SOCRÁTICOS AO PLANO METAFÍSICO

1. O encontro com os fisicos e a verificação da inconsistência da sua doutrina

Uma das passagens mais famosas e mais grandiosas que Platão nos deixou nos seus escritos é, sem dúvida, a passagem central do FédonL Os estudiosos o reconheceram desde muito, destacando o fato de que ela constitui, na literatura européia, a primeira descrição “de uma história espiritual apresentada através das suas várias fases, assim como a primeira afirmação clara da visão teleológica e ideal” De maneira ainda melhor, poder-se-ia dizer que ela constitui a primeira exploração e demonstração racionais da existência de uma realidade supra-sensível e transcendente. Segundo nosso pare cer, seria lícito afirmar que esta passagem constitui, pelas razões que aduziremos adiante, a “magna charta” da metafLsica ocidental.

Vamos, pois, examiná-la nos seus conceitos fundamentais e nos seus trechos-chave.

As questões metafisicas mais importantes e a possibilidade da sua solução permanecem ligadas aos grandes problemas da geração, da corrupção e do ser das coisas e estão particularmente articuladas com a individuação da “causa” que está no seu fundamento. O problema de fundo é o seguinte: por que as coisas nascem, por que se corrompem, por que são? Pois bem, Platão diz (pela boca de Sócrates) ter partido, quando jovem, justamente destes problemas de fundo, procurando ad quirir a sabedoria que diz respeito à “investigação sobre a natureza”, vem a ser, àquele tipo de investigação do qual se ocupavam os primei ros filósofos, examinando muitas vezes, de um ângulo e de outro, as

50 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL

A “SEGUNDA NAVEGAÇÃO”

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soluções que esses filósofos propuseram para tais questões. Ao se apoia rem sobre o método desse tipo de investigação, as respostas a tais problemas acabam por ser de caráter puramente físico. Por exemplo, a vida nasceria em razão dos processos aos quais se submetem o calor e o frio; o pensamento, além disso, seria produzido pelo sangue (como afirmava, por exemplo, Empédocles), ou ainda, pelo ar (como pensa vam, por exemplo, Anaxímenes e Diógenes de Apolônia) ou pelo fogo (como supunha, por exemplo, Heráclito) ou pelo cérebro enten dido como órgão físico (como pensava, por exemplo, Alemeón). E inteiramente análogas são as respostas que os físicos dão aos vários problemas concernentes à corrupção e, em geral, aos fenômenos do céu e da terra.



Mas os exames repetidos dos diversos tipos de resposta apresen tados para esses problemas oferecem, segundo Platão, um resultado completamente insatisfatório: aquilo que antes se sabia claramente acaba obscurecendo-se exatamente como conseqüência dessas inves tigações. Os filósofos da natureza fazem-nos compreender, em pro porções aumentadas, a inconsistência dos fundamentos de caráter naturalístico (sobre os quais se apóia também a opinião comum) e suas contradições; e justamente essas proporções aumentadas mani festam a incapacidade de uma convicção desse tipo para explicar adequadamente as coisas.

2. O encontro com Anaxágoras e a verificação da insuficiência da teoria da Inteligência cósmica por ele proposta

Antes de afrontar o novo tipo de investigação que conduz à so lução dos problemas levantados, Platão examina a concepção da In teligência apresentada por Anaxágoras, que poderia ter fornecido uma imporiante contribuição exatamente para a solução daqueles proble mas, mas que falhou inteiramente pelos motivos que haveremos de ver. Anaxágoras teve razão ao afirmar que a Inteligência é a causa de tudo, mas não conseguiu dar a essa afirmação um fundamento ade quado e uma necessária consistência, justamente porque não o permi tia o método de investigação dos naturalistas, por ele seguido.



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