Giovanni reale



Baixar 1.81 Mb.
Página7/46
Encontro13.06.2018
Tamanho1.81 Mb.
1   2   3   4   5   6   7   8   9   10   ...   46

Eis as motivações, de notável importância, aduzidas por Platão:

Afirmar que a Inteligência é causa e ordenadora de todas as coisas significa afirmar que ela dispõe todas as coisas da melhor maneira possível. Isto implica que a “Inteligência” e o “Bem” sejam articulados estruturalmente, e que não se possa falar da primeira sem falar do segundo. Afirmar a Inteligência como causa implica eo ipso afirmar o melhor (o Bem) como condição do nascer, do perecer e do ser das coisas. Em particular, ao sustentar a tese da Inteligência or denadora, Anaxágoras deveria ter explicado o critério do melhor em função do qual a Inteligência opera; e, sobre o fundamento desse critério, deveria ter explicado as condições, isto é, o modo de agir, de sofrer a ação e de ser da terra, do sol, da lua e dos astros, seus movimentos e as relações entre esses movimentos, numa palavra, os diversos fenômenos. Em resumo, deveria ter explicado como os vá rios fenômenos sejam estruturados em função do melhor e, portanto, segundo um conhecimento exato do melhor e do pior. Mas Anaxágoras não fez isso. Introduziu a Inteligência, mas não lhe atribuiu o papel acima indicado; continuou a atribuir o papel de causa aos elementos físicos (ar, éter, água, e assim por diante), em vez de atribuí-lo ao “melhor”. Mas, se esses elementos físicos são necessários para pro duzir a constituição do uníverso, não são, porém, a “causa verdadei ra” e não podem ser com ela confundidos.

Em resumo: Anaxágoras cometeu o mesmo erro que cometeria quem sustentasse que Sócrates faz tudo aquilo que faz com a inteli gência, mas quisesse em seguida explicar a “causa” pela qual ele se dirigiu ao cárcere e lá permaneceu, invocando os seus Órgãos locomotores, seus ossos, seus nervos e assim por diante, e não a verdadeira causa que foi a escolha do “justo” e do “melhor”, feita com a Inteligência. E evidente que, se Sócrates não possuísse os Órgãos físicos não poderia fazer as coisas que desejasse fazer; toda via, ele agia por meio dos órgãos, mas não por causa dos órgãos. A “verdadeira causa”, ou seja, a “causa real” (Tà aTTtov T ÓVTI) é a sua inteligência que opera em função do melhor.

Por conseguinte, Inteligência e elementos físicos não são sufici entes para “ligar” e “manter juntas” as coisas: é necessário alcançar outra dimensão que nos conduza ao conhecimento da “causa verda deira” (Tô aÏTIOV T ôvTt), exatamente aquilo ao qual a Inteligência se refere. E essa a dimensão do inteligível só alcançável com um

52

PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A SEGUNDA NAVEGAÇÃo-



53

método diferente do método seguido pelos físicos e para o qual Platão, a essa altura, aponta com a grande metáfora da “segunda navegação”, que representa o símbolo mais grandioso do filosofar. Eis o texto exemplar:

- Isto saber, articular a Inteligência com os elementos físicos e não com o melhor significa dizer que não se é capaz de distinguir que uma coisa

é a causa verdadeira e outra é aquilo sem o qual jamais a causa poderia ser causa. Parece-me que a maioria, andando a tatear como na escuridão, usando um nome que lhe não convém, designa o meio como se fosse a causa. Em conseqüência alguém, colocando um vórtice em torno da terra, supõe que ela permaneça firme em razão do céu, enquanto outros colocam debaixo dela o ar como apoio, como se a terra fosse uma arca achatada. Mas aquela força pela qual a terra, o ar e o céu têm atualmente a melhor posição possível nem a procuram nem acreditam que haja uma força divina, mas pensam ter encon trado um Atlas mais poderoso, mais imortal e mais capaz de sustentar o universo, nem pensam que é o bem e o laço do bem o que verdadeiramente liga e mantém todas as coisas. Com todo o prazer me tornaria discípulo de quem quer que fosse para poder aprender algo sobre essa causa. No entanto, já que fiquei sem ela e não me foi possível descobri-la por mim mesmo nem aprendê-la com outro, tive de empreender uma segunda navegação ( uXoOç) para andar à busca da causa; queres, Cebes, que te exponha quanto trabalhei nisso?

- Quero sim, e muito, respondeu

3. A grande metáfora da “segunda navegação” como símbolo do acesso ao supra-sensível

“Segunda navegação” é uma expressão tirada da linguagem dos marinheiros, e a sua significação parece ser fornecida por Eustáquio que, referindo-se a Pausânias, explica: “Chama-se ‘segunda navega ção’ aquela que se leva adiante com remos quando se fica sem ven tos” A “primeira navegação”, feita com velas ao vento, correspon

3. Fédon, 99 b-d.

4. Eustáquio, In Odyss., p. 1453. Essa belíssima imagem da segunda navegação (ãtúi- i-rXoóç), que, justamente no sentido metafórico no qual Plano a usou, as sumimos como chave de leitura para a interpretação do pensamento de Platão, e tam bém para o antes e para o depois de Platão, foi apreciada por numerosos críticos. Em geral

deria àquela levada a cabo seguindo os naturalistas e o seu método; a “segunda navegação”, feita com remos e sendo muito mais cansa tiva e exigente, corresponde ao novo tipo de método, que leva à conquista da esfera do supra-sensível. As velas ao vento dos físicos eram os sentidos e as sensações, os remos da “segunda navegação” são os raciocínios e os postulados. justamente sobre eles se funda o novo método. Eis esse novo método:

Sócrates então disse: “Depois disso, como estivesse cansado de investi gar as coisas dessa maneira, pareceu-me que deveria ficar atento para que não me acontecesse o que acontece aos que contemplam e observam o sol durante um eclipse, pois alguns estragam a vista se não contemplam a sua imagem na água ou em algo semelhante. Pensei nisso e temi que também minha alma

se tornasse completamente cega se olhasse as coisas com os olhos ou procu rasse tocá-las com cada um dos outros sentidos. Pareceu-me então que deve ria refugiar-me nos pensamentos e neles considerar a verdade das coisas.

Talvez a comparação que fiz não seja perfeitamente exata, pois que não admito que quem considera as coisas nos pensamentos as considere em ima gens mais do que aquele que as considera nas experiências. Em todo caso, foi nessa direção que me lancei e, cada vez, tomando como hipótese a idéia que considero a mais sólida, considero verdadeiro o que concorda com ela, ram o com relação às causas como com relação a tudo mais: e o que não concorda julgo que não é verdadeiro”

Desta maneira, torna-se muito clara a mensagem de Platão: o tipo de método dos naturalistas, fundado sobre os sentidos, não escla rece, mas torna obscuro o conhecimento. O novo tipo de método deverá fundar-se sobre os logoi e, por meio deles, deverá procurar

foi bem compreendida, com a única exceção (até agora) de A. A. Long, o qual escreve:

“Reale thinks that Plato’s deureros plous is second’ and superior to the method of the phiszkoi, exemplified by Anaxagoras; but that cannot be right (cf. W. J. Goodrich, CR 17 383). Nor does it, as such, consist in the scoperta dei soprasensibile e delle ldee (...) but in ínToípsvoç i?CáQTOTE Àóyot ão / )Cp(V(J ippeJpEVíoTaTou eival (Phd. 100 a)” ( Classical Review”, 32 p. 40). Mas Long está errado porque, justamente a frase que cita, diz o que eu digo: de fato, as “hipóteses” das quais fala este texto são exatamente as que as Idéias introduzem e, portanto, o meta-sensível como, de resto, todo o Fédon confirma, e como os textos que apresentamos compro vam de maneira clara e indubitável. Que o leitor veja as análises que apresentamos em Plarone..., pp. 147-167 (ver também a nossa precedente tradução com comentário do Fédon, Ed. La Scuola, Brescia 1986’°, passirn.

5. Fédon, 99 d-lOOa.

54

PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL



A “SEGUNDA NAVEGAÇÃO”

captar a verdade das coisas. Eis em que consiste essa “verdade das coisas”:

- Quero explicar-te mais claramente as coisas que digo porque creio que ainda não me compreendes.

- Por Zeus, não o bastante! disse Cebes.

- E, no entanto, disse Sócrates, com isso não digo nada de novo, mas digo as mesmas coisas que em outras ocasiões e também no raciocínio pre cedente, não me canso de repetir. Disponho-me, com efeito, a mostrar-te qual seja o tipo de causa em torno do qual apliquei meus esforços e, por isso, retomo às coisas já tão conhecidas e a partir delas recomeço, estabelecendo como fundamento que exista um Belo em si e por si, um Bom em si e por si, um Grande em si e por si, e assim por diante

Considera então, disse-lhe, se as conseqüências que derivo dessas hipóteses são, para ti, as mesmas que para mim. Parece-me que, se há algu tna coisa de belo além do belo em si, por nenhuma outra razão é belo senão porque participa do belo em si; e assim das outras coisas. Concordas com essa causa?

- Concordo, disse ele.

- Sendo assim, não compreendo mais e não posso conhecer as outras causas, as causas dos sábios; e se alguém me diz que uma coisa é bela em razão da sua cor viva, ou por causa da sua figura ou por qualquer coisa dessas, eu as cumprimento e as deixo partir, pois em todas elas acabo me confundindo. Tenho para mim, com singeleza, sem artifício e talvez ingenua mente, que nenhuma outra razão faz bela tal coisa a não ser a presença daquele Belo em si ou a comunhão com ele ou qualquer outra nwneira de se estabelecer essa relação. Com efeito, sobre o modo dessa relação não é hora de insistir, mas afirmo simplesmente que todas as coisas belas são belas em razão da Beleza. Isso me parece o que de mais sólido posso responder a mim mesmo e a outro qualquer. Não te parece também a ti?

Parece-me.

- E não te parece, também, que todas as coisas grandes sejam grandes em razão da Grandeza, e que as maiores sejam maiores igualmente em razão da Grandeza e as menores sejam menores em razão da Pequenez?

- Sim.

- Portanto, se alguém afirma que um é maior do que outro pela cabeça e que o menor é menor pela mesma razão, não poderíeis admiti-lo, mas lhe dirias francamente que não admites que uma coisa seja maior do que outra por nenhuma outra razão senão em razão da Grandeza e é justamente a Grandeza que faz com que ela seja maior; e que o menor por nenhuma outra razão é menor senão em razão da Pequenez e é justamente a Pequenez que



55

faz com que e/e seja menor. Isso dirias com temor de que, se dissesses que alguém é maior ou menor em razão da cabeça, não te fosse objetado que é impossível que o maior seja maior e o menor seja menor pela mesma razão e que é também impossível que pela cabeça, que é pequena, o maior seja maior, pois seria algo prodigioso que algo fosse grande em razão de alguma coisa que é pequena. Acaso não temerias essas objeções?

- Eu sim, disse Cebes sorrindo.

E não temerias também, acrescentou Sócrates, afirmar que dez é maior do que oito em razão do dois e por essa causa supera o oito, e não pela Pluralidade e em razão da Pluralidade? E que dois côvados é maior que um côvado em razão da outra metade e não em razão da Grandeza? Pois esse temor é o mesmo de antes.

- Sem dúvida, respondeu ele.

- E então? Acaso não evitarias dizer que, somando o um ao uni ou então dividindo o um, a soma ou a divisão sejam a causa que faz com que o um se tome dois? E não exclamarias em alta voz que não conheces outra maneira pela qual alguma coisa possa vir à existência senão participando da essência própria da realidade da qual aquela coisa participa e, no nosso caso, não tens outra causa para explicar a gênese do dois a não ser essa, a saber, a participação à Dualidade; e, além disso, que devem participar dessa Dualidade as coisas que querem tornar-se duas, e da Unidade tudo o que quer ser um. Saudarás e mandarás embora essas divisões, essas somas e todas as outras invenções engenhosas, deixando que as usem nas suas respos tas aqueles que são mais sábios do que tu. Tu porém, temendo como se costuma dizer, a tua própria sombra e a tua inexperiência, apoiando-te na solidez dessa hipótese, responderás da maneira como foi explicado

4. As duas fases da “segunda navegação”: a teoria das Idéias e a doutrina dos Princípios

O benefício da “segunda navegação”, como vimos, é a descober ta de um novo tipo de “causa”, que consiste nas realidades puramente inteligíveis. O que se ganha com o postular a existência dessas rea lidados é a explicação de todas as coisas exatamente em função de tais realidades, e a exclusão de que o sensível e o físico possam ser considerados no nível da “causa verdadeira” e, em conseqüência, a

6. Fédon, 100 a-I0I d.

56 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSíVEL

A “SEGUNDA NAVEGAÇÃO”

57

redução do sensível ao nível de meio e de instrumento mediante os quais a “causa verdadeira” se realiza. Portanto, as coisas belas se explicarão não pelos elementos físicos (cor, figura e coisas semelhan tes), mas em função da Beleza-em-si; as coisas pequenas e grandes não se explicarão por algumas partes das próprias coisas físicas que se comparam, mas em função da Grandeza-em-si e da Pequenez-em si; que dez seja mais do que oito se explicará não em razão do dois, mas pela Pluralidade; e os modos com os quais se obtém o dois e o um se explicarão não por meio das operações físicas de “soma” e “divisão”, mas por meio da participação à Dualidade e à Unidade, como acabamos de ler na longa passagem citada.



A primeira fase da “segunda navegação” consiste em tomar por base o postulado mais sólido que consiste em admitir as realidades inteligíveis como “causas verdadeiras” e, assim, considerar como verdadeiras as coisas que estão de acordo com esse postulado e como não-verdadeiras aquelas que não estão de acordo com ele (e em rejeitar pois todas as realidades físicas que erradamente são tidas como “causas verdadeiras”).

Nesse ponto termina a primeira fase da “segunda navegação”, justamente com o aceno positivo que alude ao Uno na nova dimen são, ou seja, com um chamado àquele que será, como haveremos de ver, o ponto focal das “Doutrinas não-escritas”.

Muito mais forte, no entanto, é o chamado à protologia que Platão faz no texto subseqüente.

Que fazer se alguém atacar o próprio postulado sobre o qual se apóia a teoria das Idéias? Antes de responder, ou seja, antes de refutar as objeções, deverão ser examinadas todas as conseqüências que derivam do postulado, a fim de verificar se concordam ou não entre si. E, a fim de justificar o postulado, é necessário buscar um postu lado ainda mais elevado e é necessário proceder dessa maneira até que se obtenha o postulado adequado, ísto é, o exato postulado que não tem mais necessidade de nenhum outro:

... Se alguém, pois, quisesse ficar preso ao mesmo postulado, deves deixar que fale e não responderás até que não tenhas considerado todas as conseqüências que derivam do postulado, para verificares se concordam ou não entre si; e quando, depois disso, viesses a dar razão do próprio postulado, deverias fazê-lo procedendo da mesma maneira, isto é, estabelecendo um

postulado ( ulterior, aquele que te parece o melhor entre os que são os mais elevados, e assim procedendo até que chegues a algo suficiente ( rt ixavàv)

A tradição indireta refere-nos que, acima das Idéias, Platão colo cava justamente os Princípios primeiros e supremos. Mas é o próprio Platão que, no nosso texto, na passagem imediatamente seguinte à que acaba de ser citada, usa justamente o termo “Princípio” ( na única maneira alusiva que lhe permitia a sua opção de não consig nar por escrito tal doutrina, ou seja, dando ao discurso uma signifi cação muito geral e, no entanto, muito indicativa:

Se queres descobrir alguma coisa dos seres, não farás confusão como fazem aqueles que díscutem os prós e os contras de todas as coisas e que, juntamente, põem em discussão o princípio (àpxt’i) e as conseqüências que derivam dele! De fato, eles não falam e não se dão cuidado do princípio porque, com a sua sabedoria, embora misturando juntamente todas as coisas, são, ao mesmo tempo, capazes de agradar a si mesmos. Mas, se és um filósofo, acredito que farás o que te digo

E como se não bastasse, todo o procedimento argumentativo do diálogo, que se apóia justamente sobre o postulado das Idéias, conclui reiterando de modo impressionante o seguinte:

- Na verdade, disse Símias, eu também não tenho motivo de não acre ditar, fundando-me naquilo que foi dito, mas, pela amplitude do argumento sobre o qual discutimos e pelo pouco apreço que nutro pela fraqueza humana, vejo-me obrigado a conservar ainda, dentro de mim, um pouco de desconfi ança com relação às coisas que foram ditas.

- Não somente dizes bem, ó Símias, mas fazes bem em dizê-lo, respon deu Sócrates. E também os postulados ( que estabelecemos por primeiro, mesmo que vos pareçam dignos de fé, devem ser, no entanto, reexaminados com maior exatidão. E se os aprofundardes suficientemente (ixavôç), como acredito que o fareis, podereis compreendê-los tanto quanto é possível a um homem, E se isso se vos tornar claro, nada mais deveis investigar

Evidentemente, apenas os Princípios supremos podem ser tais que, uma vez alcançados, não é necessário buscar nada mais alto.

7. Fédon, 101 d-e.

8. Fédon, 101 e-102 a.

9. Fédon, 107 a-b.

58 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL

A “SEGUNDA NAVEGAÇÃO”

59

Nas passagens citadas, Platão indica exatamente qual seja o pla no que, em virtude da sua opção ético-pedagógico-moral, ele quis manter na dimensão da oralidade, ou seja, as “coisas de maior valor” que o filósofo, justamente por ser tal, não consigna nos seus escritos. A penúltima das passagens lidas acima, depois de ter falado do “Prin cípio” e de como deva ser tratado, conclui justamente com a explicitação do termo “filósofo”, dizendo de maneira indubitavelmen te emblemática: “Mas, se és filósofo, acredito que farás o que digo”. E o filósofo (como vimos no Pedro) é aquele que confia não ao escrito, mas apenas à ora/idade as coisas de maior valor, ou seja a doutrina dos Princípios primeiros e supremos à qual aqui se remete.



5. Os três grandes pontos focais da filosofia de Platão: teoria das Idéias, dos Princípios e do Demiurgo

A passagem central do Fédon que resumimos e interpretamos apresenta verdadeiramente o projeto que engloba todo o quadro da metafísica platônica; e enfatiza particularmente os três pontos focais da metafísica e de todo o pensamento de Platão. Esses três pontos focais são, exatamente a) a teoria das idéias, b) a teoria dos primei ros Princípios e c) a doutrina do Demiurgo. A teoria das Idéias funda-se expressamente numa inferência metaempírica exemplar; a teoria dos Princípios é lembrada com alusões numerosas; a doutrina do Demiurgo é expressa amplamente por meio da questão da Inteli gência que ordena e governa o cosmo, com a indicação do modo no qual é fundada (diferentemente do que fez Anaxágoras), isto é, em conexão com o Bem, primeiro e supremo Princípio.

Mas a compreensão desses três pontos focais e, por conseguinte, do sentido global do pensamento platônico é bastante difícil; disto Platão advertiu os leitores da sua obra da maneira mais explícita.

a) Sobre a teoria das Idéias, ele escreveu que a maioria encontra muitas dificuldades para compreendê-la e, por isso, sustenta que elas não existem e, se existem, são incompreensíveis à natureza humana. O homem capaz de entendê-las e de comunicá-las aos outros deve possuir uma natureza verdadeiramente excepeional. Eis as palavras que Platão pôs nos lábios de Parmênídes, como protagonista do diálogo homônimo:

- No entanto, Sócrates, disse Parmênides, as Idéias implicam necessa riamente essas dificuldades e ainda muitas outras além dessas, se tais Idéias dos seres existem e se são definidas como algo em si; de modo que, quem ouve encontra dificuldade e objeta que essas Idéias não existem ou então que, mesmo se necessariamente existissem, seria também necessário que fossem incognoscíveis à natureza humana; quem isso afirmasse pareceria afirmar algo concreto e, como há pouco dizíamos, seria extraordinariamente difícil convencê-lo. E deveria ser um homem de excelene natureza aquele que fosse capaz de compreender que, de cada coisa existe um gênero e uma essência em si e por si; mas, deveria ser um homem ainda mais maravilhoso aquele que fosse capaz de ensinar essas coisas, depois de examiná-las adequada mente.

Concordo contigo, ó Parmênides, disse Sócrates; com efeito, falas sem dúvida da maneira como eu penso’°.

b) Já sabemos o que Platão pensava acerca da teoria dos Princí pios: apenas poucos a compreendem, e esses poucos compreendem-

-na sobretudo na dimensão da oralidade dialética. Para esses poucos que compreendem o escrito seria inútil e, para a maioria dos homens, danoso, em razão das incompreensões e conseqüências que isso im plica. Escreve Platão:

Sobre essas coisas não existe um escrito meu e nunca existirá’

c) Sobre a concepção do Demiurgo, Platão manifestou convic ções inteiramente análogas àquelas expressas pela teoria das Idéias:

É muito dijícil encontrar o Artífice e Paí deste universo e é impossível falar a todos acerca dele’

É impossível falar dele a todos não pelas razões esotéricas que valem para a teoria dos Princípios e que já conhecemos, mas porque, com o problema do Demiurgo, se entra na questão da crença ou descrença na existência de um Deus, questão com a qual o homem sempre lutou. Sempre houve (e, provavelmente sempre haverá) o “ter rível” homem de turno (o cientista de turno) que nega uma Inteligên cia divina ordenadora do Universo; por isso é necessário ao que nela crê que não se limite a repetir as convicções dos predecessores favo

O. Parmênides, 134 e- 135 b.

li. Carta VII, 34! e.

12. Timeu, 28 c.

60 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSIVEL

ráveis à existência de uma Inteligência divina, mas, juntamente com eles, afronte o risco das oposições e das censuras. Eis o que Platão diz no Fi/ebo:

Sócrates - Devemos afirmar, Protarco, que todas as coisas no seu conjunto e o que é chamado o todo sejam regidos em virtude do irracional, do casual e do fortuito ou, ao contrário, como diziam nossos predecessores, que são governados por uma Inteligência e por uma admirável sabedoria ordenadora?

Protarco - Não é a mesma coisa, ó maravilhoso Sócrates. Com efeito, o que acabas de dizer não me parece coisa santa. Mas afirmar, ao contrário, que uma Inteligência ordena todas as coisas, eis o que é digno do espetáculo do cosmo, do sol, da lua, dos astros e de toda a revolução celeste e, sobre isto, jamais poderei pensar ou dizer diferentemente.

Sócrates - Queres, portanto, que concordemos com os nossos prede cessores em dizer que assim estão as coisas e que não apenas estamos con vencidos de que se deva repetir sem perigo os ditos dos outros, mas também que corremos com e/es o risco e com eles participamos da repreensão quan do um homem temível venha afirmar que as coisas não estão dispostas dessa maneira, mas permanecem em desordem?

Protarco - E como não haveria de querer?

Na nossa exposição iremos pela seguinte ordem: primeiro falare mos das Idéias, em seguida dos Princípios e, finalmente, do Demiurgo,

que pressupõe a ambos. Solicitamos ao leitor que siga com atenção

o que diremos a respeito, pois da compreensão desses temas depende

a compreensão não só da metafísica de Platão, mas também das outras

dimensões do seu pensamento na sua significação fundamental’

13. Filebo, 28 d-29 a.

14. Recordemos ao leitor que uma pormenorizada documentação de tudo o que dizemos encontra-se no’nosso Platone, passim.

II. A TEO1UA PLATÔNICA DAS IDÉIAS E ALGUNS PROBLEMAS UGADOS A ELA

1. Algumas observações sobre o termo “Idéia” e sobre o seu significado

Para enfrentar o problema que nos dispomos a tratar, deve-se ter presente, primeiramente, que o vocábulo “Idéia” é a tradução dos termos gregos iS e eTSo Infelizmente a tradução (nesse caso, transliteração) não é feliz porque, na linguagem moderna, “Idéia” assumiu um sentido estranho ao sentido platônico. A tradução exata do termo seria “forma”, pelas razões que haveremos de compreender nas páginas seguintes. De fato, nós, modernos, entendemos por “Idéia” um conceito, um pensamento, unia representação mental, enfim, algo que nos transporta ao plano psicológico e noológico; ao contrário, Platão entendia por “Idéia”, em certo sentido, algo que constitui o objeto específico do pensamento, para o qual o pensamento está vol tado de maneira pura, aquilo sem o qual o pensamento não seria pensamento: em suma, a Idéia platônica não é de modo algum um puro ser de razão e sim um ser e mesmo aquele ser que é absoluta mente, o ser verdadeiro.



Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4   5   6   7   8   9   10   ...   46


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal