Globalização, educação e direito



Baixar 115.79 Kb.
Página1/6
Encontro18.12.2017
Tamanho115.79 Kb.
  1   2   3   4   5   6



Globalização, educação e direito

Edivaldo M. Boaventura,

Docente e Livre e Doutor em Direito, Mestre e Ph.D. em Administração Educacional, ex-Juiz do Trabalho, Procurador Autárquico, professor titular da Universidade Federal da Bahia (Ufba) e da Universidade Salvador (Unifacs)

Sumário: 1. Concepção da educação global e planetária; 2. Por que da educação global; 3. As aberturas da educação global; 3.1 Direitos humanos e educação planetária;3.2 Por uma cultura da paz; 3.3 Direito ao meio ambiente; 3.4 A sustentabilidade do desenvolvimento; 3.5 Educação global para a compreensão internacional; 4 Educação planetária frente à globalização.


A escola projetada para os próximos anos deve favorecer a compreensão das múltiplas dimensões das realidades contemporâneas atuais e futuras. A escola regular, formal e pública é o núcleo da educação básica, como direito social garantido pelo Estado. Desse patamar, parte-se para outras formas de educação, a exemplo da educação ambiental, em um mundo que encurta pela comunicação e se integra em uma comunidade internacional em blocos de nações cada vez mais liberalizadas. Projeta-se, assim, uma educação em dimensão planetária para um mundo que se globaliza. Elegem-se algumas alternativas como se fossem janelas de amplos cenários: direitos humanos, cultura da paz, direito a um meio ambiente equilibrado, desenvolvimento sustentável e compreensão internacional.

Nessa perspectiva planetária, admite-se que a escola está e não devia se encontrar tão presa às amarras, ideologias e indisposições do Estado-nação. A ilustração mais clara é o ensino da disciplina História voltado para vitórias passadas sobre vizinhos, sejam franceses e germanos, brasileiros e paraguaios. Considere-se o currículo como um instrumento em busca da paz e da conquista de direitos humanos, tanto do homem – infante, criança, jovem, adolescente, adulto e idoso – como da mulher, cidadã prestante com acesso às carreiras e com garantido sucesso às ocupações do mercado de trabalho. Em face da globalização, é preciso fazer crescer o sentimento distributivo da justiça social e da educação compensatória E a educação ambiental passa a ser exercitada formalmente na escola e fora da sala de aula. O ecoturismo ocupa-se das unidades de conservação, sejam os parques nacionais (PN), unidades de preservação ambiental (APA, estações ecológicas, lagos, rios cênicos e litorais. Essa educação relativa ao meio ambiente induz o respeito aos animais, às árvores, como nomeia a Bíblia, aos seres da natureza.. Na perspectiva ambientalista, não existe “ mato”, como conjunto de plantas desprezíveis ou “terreno inculto onde só medram plantas agrestes.”

A educação relativa ao meio ambiente afetou a concepção do desenvolvimento, antes entendido como aumento das quantidades globais – renda, produto, poupança, investimento – e uso intensivo dos recursos naturais. Uso intensivo que causou e continua provocando enormes desastres ecológicos, devastações, desmatamentos, extinções de espécies vegetais e animais. A educação global, planetária ou mundial enfatiza o desenvolvimento sustentado. Crescer sem depredar é considerar a sustentabilidade do meio ambiente ( BOAVENTURA, 1998).

Dimensionando a educação na perspectiva planetária, procura-se, preliminarmente, 1) precisar a concepção da educação global; em seguida, 2) questionar e justificar os seus propósitos; 3) dimensionar as aberturas de aprendizagem; para, enfim, 4) encarar a educação planetária em face do processo crescente e inevitável da globalização.

1) Concepção da educação global ou planetária

Como corrente de pensamento e ação, a educação global repousa em convicções e crenças fiéis a valores humanos. Possibilita uma compreensão internacional do mundo atual e futuro, de seus problemas e desafios. Educação global, como preferem os norte-americanos, ou educação planetária, como denominam os canadenses (SELBY, 1993), implica em um exame preliminar do vocábulo. Gérard Lucas, professor da Universidade do Québec, em Montréal ( UQAM), optou por Educação Planetária de preferência a Educação Global. Justifica a escolha em face de ser o vocábulo global, derivado de globo, planeta terra, um conceito em francês ligado à idéia de totalidade, como em “método global” de leitura. Aliás, como é também em português. A expressão inglesa Global Education, já bastante utilizada no Brasil, corresponde melhor em francês à Éducation Planétaire. Além dessa ponderação etimológica que ajuda a compreensão do vocábulo, o enfoque desenvolvido por Lucas compreende cinco volets ( janelas): direitos humanos, paz, meio ambiente, desenvolvimento sustentado e compreensão internacional (BOAVENTURA, 1996, p. 47-49).

Precisando a concepção da palavra, o dicionário de Renald Legendre (1993, p. 448-449), define educação global como “ Educação que tem por finalidade favorecer nas pessoas a compreensão das múltiplas dimensões do mundo atual e futuro e a participação eficaz nos desafios inerentes. “ Traduzindo-se livremente o verbete, complementa-se a definição:
A educação global se apoia nos princípios do universalismo, da diversidade, adotando um enfoque sistêmico das realidades complexas, relações e interações, nas perspetivas histórica e planetária. Caracteriza-se por visar uma melhor compreensão dos diferentes sistemas interligados: físicos, biológicos, sociais, econômicos, políticos e informáticos, dando uma atenção especial às diferentes culturas e civilizações. Propõe o desenvolvimento de habilidades ligadas à educação cívica e visa o reforço de uma real democracia tendo por fim desenvolver um agir responsável referente às realidades políticas, concernente ao domínio público. Em síntese, para um mundo global, onde vive uma comunidade global, deve-se desenvolver uma cidadania igualmente global.. Para tanto, a educação global propugna pela adaptação dos currículos escolares às novas realidades contemporâneas. (p.448)

Legendre informa que o movimento da educação global é contemporâneo da educação ambiental e da educação ciência-técnica-sociedade (S.T.S), que envolve os seus objetivos. A educação ambiental liga-se a essa perspectiva global, da qual privilegia um aspecto particular, a saber, a relação com o ambiente biofísico. Inscreve-se na visão global das realidades contemporâneas e da educação. Tal preocupação holística não é incompatível com a especificidade da educação ambiental. Na representação gráfica, ilustrativa desses relacionamentos, em um ciclo maior, encontra-se a educação global que envolve a ambiental, seguindo-se do ciclo menor da educação ciência-técnica-sociedade (S.T.S.). No centro, figura, como síntese, a ciência-tecnologia-sociedade-meio ambiente. A concepção de Legendre leva a considerar a contribuição de outros canadenses.

Conforme Claude Lessart, Febienne Desroches e Cataline Ferrer ( 1997), a educação na perspectiva planetária constitui uma maneira de adaptá-la às transformações econômicas, emergentes da sociedade nesse início de século, bem assim, é uma tentativa de enumerar e clarificar valores capazes de fundamentar um projeto educativo para mutações em pleno curso. Esses e outros canadenses ao apresentar a educação nesse enfoque indagam se a escola deve se restringir à finalidade de simples formadora de mão-de-obra requerida pela sociedade. Pelo visto, apelam para uma inspiração com base na pedagogia da resistência ou na conscientização de Paulo Freire. Assim, os valores previstos podem ser relacionados com a democracia.

Contribuição canadense se efetiva com M. Hrimech & F. Jutras ( 1997) discutem o problema de uma educação na perspectiva planetária e mundial globalizante. C. Corbo (1997) pondera o problema da identidade, a herança comum e raízes da pobreza. Lucie Sauvé (1997) tem desenvolvidos estudos referentes à educação ambiental ou como se diz no Canadá “ educação relativa ao meio ambiente”. D. Misgeld ( 1997) “ afirma que uma educação dentro da perspectiva mundial deve transcender as realizações alcançadas em sistemas de educação estabelecidos em praticamente todas as sociedades” .

Além dos estudiosos, o Canadá mantém o Instituto Internacional para Educação Global da Universidade de Toranto, conforme Edivaldo Boaventura e Paulo Perissé ( 1999, p. 84-85): “ é um dos centros mais reconhecidos mundialmente na área. Criado em 1992, o Instituto mantém um intenso programa de ensino, consultoria, desenvolvimento de currículo e pesquisa com o objetivo de contribuir para o crescimento da Educação Global no Canadá e internacionalmente.” Dentro de sua programação, discute questões de cidadania, desenvolvimento, eqüidade, saúde, paz, justiça social e sustentação ambiental. Os seus direcionamentos englobam o pessoal, o local, o regional, o biorregional, o nacional e o planetário.



2. Por que da educação global

É bem o momento de se indagar: por que uma educação na escala planetária?

Há inúmeras respostas. Os povos como as nações estão integrados em redes crescentes de interdependência. A escola do século XXI deve ajudar a abrir a mente e pensar mundialmente. Para tanto, despreza-se o paradigma mecânico pelo paradigma sistêmico. É preciso estabelecer as ligações de interdependência, isto é, uma interação forte entre os povos pelos valores e uma educação que aproxime o Oriente do Ocidente.

A educação em um perspectiva mundial não se constitui em uma disciplina didática, mas influencia métodos e conteúdos desse mesmo ensino e da aprendizagem. Dentro dessa mundialização, os alunos desenvolvem um conhecimento crítico dos desafios, uma tomada de consciência da interdependência mundial que lhes permite acrescer habilidades para tratar dessas questões. O impacto do Mercosul na educação brasileiro estimulando a aprendizagem efetiva da língua castelhana é um exemplo bem próximo. A imprensa tem mostrado com freqüência a publicidade de cursos de espanhol. Um anúncio insiste: “ É mais fácil falar espanhol do que convencer os vizinhos a aprender português” , publicado na Folha de S. Paulo (1998). Uma matéria sobre cursos no exterior titula-se “ “ Globalização dá uma força para o espanhol”, assinada por Tiago Décimo (1998), abre com a sugestiva chamada: “ Falado por 400 milhões de pessoas no mundo, o idioma de Cervantes atrai suecos e brasileiros”. Depois do inglês, o espanhol é a segunda língua européia mais falada no mundo e o português, a terceira.( BOAVENTURA, 1998)

Um dos efeitos dessa abordagem é, sem dúvida, a renovação dos currículos à base de novas realidades contemporâneas. A escola projetada para os próximos anos deve intensificar a compreensão pela comunicação dos idiomas modernos, pelas ligações e interações entre culturas diferenciadas e pelos valores de uma educação que os aproximem. Para tanto, são desprezados os paradigmas mecânicos e exigidas as abordagens pluri e multidisciplinar.

Essa preocupação holística, diminuindo as poderosas vinculações da educação com o Estado nacional, permite adquirir valores que tornarão prioritários a justiça social para os habitantes do mundo inteiro, a busca da paz , os direitos humanos e as estratégias de desenvolvimento econômico, social e cultural, benéficas para homens e mulheres.

Acredita-se que na escala global, mundial, planetária ou holística, conforme as especificações dessas denominações, os alunos estejam aptos a se afirmarem como cidadãos responsáveis e empenhados na criação de um futuro aceitável para si, para a comunidade e para todos os habitantes do planeta. As nações, como as pessoas, estão interligadas em crescentes redes de interdependências, sendo as mais usais as telefônicas, televisivas e internáuticas. Redes que terminaram por derrubar as fronteiras e barreiras internas como na Comunidade Européia.
As transformações na velocidade dos meios de comunicação e da informação é acelerada pela concorrência entre jornal, rádio, televisão e internet. Os meios de comunicação e a economia são crescentemente submetidos ao liberalismo das relações sociais e econômicas. Busca-se flexibilizar a economia tanto no processo de trabalho , como na acumulação de bens e sua distribuição para o consumo. Organização que se caracteriza pelo estabelecimento de redes, alianças e parcerias que conduzem à formação de fortes blocos econômicos de nações. A privatização conduz à liberalização da economia, cujos investimentos e financiamentos ultrapassam as fronteiras nacionais. Mas globalização que faz aparecer problemas como a deteriorização do meio ambiente, o desrespeito aos direitos do homem e da mulher, guerras localizadas, emigração para diferentes países em diversos continentes, acarretando desafios culturais, lingüísticos e de costumes. Dentre todos esses problemas, sobressai a violência urbana sob todas as formas. Precisa-se, então, de uma educação que estimule a solução pacífica dos conflitos como resposta ou compensação.
A educação escolar não pode permanecer com currículos fechados aos problemas trazidos pela globalização. As alternativas pedagógicas propostas aos alunos não devem ser as mesmas dos últimos anos. O impacto que a educação está sofrendo em termos de limitações nacionais é considerável. O interesse da aprendizagem transpõe fronteiras. Educar o cidadão responsável no tempo da mundialização faz apelo à compreensão internacional.

3. As aberturas da educação global.



  1   2   3   4   5   6


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal