Goya – Los Caprichos Fashion is that by which the fantastic becomes for a moment universal



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Ensaio para uma definição das fronteiras do período Gótico


O sonho da razão produz monstros

GOYA – Los Caprichos


Fashion is that by which the fantastic becomes for a moment universal.

OSCAR WILDE





Por




Hugo Renato Freitas Xavier



Preâmbulo
Se considerarmos que todo o discurso não mais é que uma elaboração individual e, portanto, subjectiva, teremos que aceitar o ensaio como uma das melhores categorias da ficção.

Com efeito o ensaio não mais é que uma elaboração de conhecimentos subjectivos de forma a convir uma interpretação também ela subjectiva, porque pessoal, e que se pretende escudar por detrás de uma aparência de um qualquer rigor científico que nunca poderá ser totalmente verdadeiro...


* * *
Na medida do que foi anteriormente estipulado teremos que concordar que o mais que um ensaio pode aspirar será o ter várias opiniões coincidentes com a que expressa. Só assim o ensaio poderá estar próximo de universalidade que deseja.

Hugo Renato Freitas Xavier




Introdução

O objectivo do presente estudo reside numa tentativa de discutir, primeiramente, se estamos perante uma individualidade que delimite como género o gótico. Numa segunda fase discutir-se-á da influência do gótico na génese dos géneros mais comuns da dita literatura popular.

Como ponto de partida para a nossa discussão estará sempre a um nível subliminar a História das ideias, nessa perspectiva tenhamos presente a evolução da ideia de Natureza que seguiremos a partir da obra de Robert Lenoble1.

A nossa pesquisa centra-se essencialmente na literatura anglo-americana num período que abrange aproximadamente desde a segunda metade do século XVIII até à época edwardiana.

Escusado será dizer que sempre que seja necessário o campo de estudos estender-se-á a outros espaços (frequentemente a França) para demonstrar relações intra e intergenéricas; por sua vez o mesmo campo alargar-se-á sempre que viável ao espaço português – sobre as ligações gótico-literatura portuguesa debruçar-se-á um dos apêndices do estudo.

Os conceitos com os quais trabalharemos em estreita ligação são desde já explicados numa primeira abordagem:




  • - MARAVILHOSO:

O maravilhoso ou meta-empírico estende as suas raízes ao imaginário mediterrâneo, tem relações muito profundas com o humor. É, na sua actualização, no mundo moderno, frequentes vezes associado ao mundo infantil. Tendo sofrido a forte influência do catolicismo dominante o maravilhoso liga-se igualmente ao mundo angelical. As temáticas do maravilhoso têm por efeito essencial o espanto e nunca o medo.

Festa: o carnaval.



  • - FANTÁSTICO

O fantástico de base correlato ao imaginário germânico; como o maravilhoso se liga ao humor o fantástico liga-se ao erótico. As mitologias do norte-europeu ligadas ao “mundo adulto” versam geralmente temas como o amor e a morte (entenda-se por morte a morte das mortes, i.e., a perda da alma2). Sob influência do protestantismo o fantástico relaciona-se directamente com o demoníaco.

Festa: o “Halloween”.



  • - SURREAL

O surreal conjuga o maravilhoso e o fantástico, bem como os seus ‘companheiros’ humor e erotismo, trabalha antecipando (falamos é óbvio do primeiro surrealismo – Lautéamont) o trabalho de Jung, debruçando-se como tal sobre todas as facetas do sobrenatural – o inconsciente individual e colectivo.





  • - SOBRENATURAL:

Por sobrenatural (no literário) entenderemos – seguindo Jung – todas as estruturas míticas que constituem a forma de organização do nosso entendimento do real. Sendo que, a nível literário, as organizações do individual estão estreitamente ligadas ao símbolismo.


Queríamos ainda fazer notar que o imaginário do período vitoriano trabalha sobre uma aparência maravilhosa um conteúdo fantástico – veja-se a poesia de Christina Rossetti ou o imaginário pré-rafaelita...

Usar-se-á uma denominação geral para todos os tipos de literatura que surgem – segundo a nossa opinião – a partir do gótico na era Vitoriana: literatura escapista.

Salienta-se desde já que as definições apresentadas correspondem a uma interpretação individual e, como tal, perfeitamente discutível.
Capítulo primeiro:
Instauração de um género?

Prima quaestio

Uma das questões que com maior frequência se nos depara ao tratar o Gótico é a de discernir se este faz de algum modo parte do Romantismo ou se, por outra, representa um género à parte.

É uma falsa questão que sentimos precisão de resolver de imediato: com efeito se olharmos para a primeira manifestação Gótica em Inglaterra depara-se-nos, primeiro, não uma obra em prosa e, segundo, não uma obra originalmente Inglesa. Estamos perante a tradução da balada de Lenore de Gotfried August Bürger. E quem é Bürger? – simplesmente um dos fundadores da balada Romântica Alemã.

A balada de Lenore foi traduzida sucessivamente por alguns dos nomes que haveriam de ser dos maiores cultores do Gótico: assim temos que foi traduzida por Walpole, Scott e Mathew “monk” Lewis. É aliás a partir dessa tradução que Scott inicia a sua carreira como ‘recolector’ de baladas medievais – muitas delas obviamente forjadas.

É pois interessante verificar que as raízes do Gótico estão não na prosa mas na poesia, poesia essa que até então monopolizara quasi exclusivamente todo o elemento sobrenatural fosse ele fantástico ou maravilhoso. E, se quisermos um exemplo de como essa facção do gótico enquanto poesia teve influência a nível de todo o Romantismo Europeu, basta que confrontemos a escola dos denominados “Graveyard Poets” cujo expoente foi Edward Young com casos vários do Ultra-Romantismo (veja-se o noivado do sepulcro de Soares de Passos3, tão próximo da temática de Lenore).

A conclusão evidente é de que o Gótico funciona um pouco como pré-Romantismo.


Secunda quaestio

A segunda questão sobre a qual queríamos ponderar reside na génese temática sobre que radica o Gótico.

Que movimentos e/ou géneros antecedem, então, o período Gótico – uma vez que determinámos considerar o Gótico como prelúdio do Romantismo, passaremos a dividir este movimento em períodos.

Observemos o problema segundo este prisma: depois de um domínio completo do neoclassicismo e do rigor e ordem que caracterizam o paradigma racionalista do Iluminismo entramos numa fase de contra-resposta, geralmente denominada no meio Inglês como período Sentimentalista – em honra é claro dessa obra prima do ridículo literário que é The Man of Feeling de Henry MacKensie.

Ora, sabendo nós que ao longo da evolução literária e intelectual da humanidade todas as correntes de pensamento se articulam entre racional e emocional, natural e artificial, perfeição e imperfeição... vimos a verificar que o sentimentalismo é, afinal, o primeiro momento de reacção violenta ao neoclassicismo, é portanto, também, o primeiro momento de introdução de algo que se aproxima do Romantismo.

Consideremos pois o esquema seguinte, não esquecendo que a transição entre o neoclassicismo e o romantismo traz consigo a instauração do romance (novel), da prosa ficcional, como tipo dominante e dominador de toda a literatura:

Não estamos igualmente a falar de temáticas como as que Punter4 usa para caracterizar toda a individualidade do género gótico (essas funcionam numa percepção do género em si) mas de temáticas que funcionem face a movimentos outros.


1ª Influência



2ª Influência

3ª Influência

Clássica(de organiza-ção mítica, segue o paradigma da história clássica)



Sentimen- talismo

(The Man Of Feeling

e algumas obras de Richardson)

Gótico

Por influência do Romantis-mo Alemão
Importação do elemento Fantástico

Romance






Processo por camadas Inter-influentes





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