Graham greene



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O Agente Secreto

GRAHAM GREENE



NOTA BIBLIOGRÁFICA
Romancista inglês. Foi também ensaísta, homem de teatro, jornalista e ainda figura empenhada em causas políticas e religiosas. Nasceu em 1904 e viria a morrer em 1991 na Suíça. Começou a escrever contos fantásticos e fábulas aos 14 anos, mas o tédio e um sentimento da futilidade das coisas, invadem-no. Atravessa um período de desespero em que se arrisca, por exemplo, a jogar roleta russa. O pai consegue convencê-lo, atitude corajosa e pouco comum para a época, a fazer uma cura psicanalítica o que lhe trará, além do mais, a consciência da força dos sonhos e do inconsciente, saber que transporta para a sua criação literária. Frequenta a universidade, em Oxford, onde obtém em 1925 um diploma de História moderna. Adere ao Partido Comunista Britânico, o que o levará a que nos anos 50 lhe seja negado visto de entrada nos EUA. Mas em 1962 converte-se ao catolicismo casa-se com Vivien Dayrell-Browning, também ela recém-convertida. Faria a guerra como agente do Foreign Office e foi colocado como informador na Serra Leoa. A partir daí, a sua vida desenrolar-se-á sob o signo do desenraizamento; serão, aliás, as suas constantes deslocações e erráncias que lhe trazem material e enquadramentos literários.

O Agente Secreto foi publicado em 1939 e pertence à série que o próprio Greene classificava de divertimentos. Inspirado pela Guerra de Espanha, o leitor é convidado a descobrir através das aventuras de Mr. D., ecos da sua própria história. Romance de espionagem, cheio de ação e suspense. Mr. D., professor de línguas românicas, torna-se emissário dos republicanos espanhóis e parte para Inglaterra a fim de encontrar carvão, tal como o agente do partido adversário. Os acontecimentos vão precipitar-se em um ritmo frenético. No meio deles, mais por piedade do que por amor, liga-se a Rose Cullen e a seguir a Else, com quem partilha o reconforto de um estar confiante. Mas ela será assassinada, e Mr. D transforma-se, passa de perseguido a justiceiro, talvez ingloriamente...



Capítulo um
As gaivotas pairavam no céu de Dover. Destacavam-se como flocos desprendidos da neblina e voltavam à cidade escondida, ao mesmo tempo que, ao longe, se ouvia o murmúrio de uma sirene, utros navios corresponderam e logo um coro de lamentações se levantou - pela morte de quem? O navio avançava a meia velocidade, no amargor da tarde de outono. Lembrava a D. uma carreta funerária rodando lenta e discretamente para o “jardim da paz”, uma carreta que o condutor guia cuidadosamente para não sacudir o caixão, como se os solavancos do caminho pudessem incomodar o corpo. Por entre as plumas da chaminé soavam gritos histéricos de mulher.

O bar da terceira classe estava completamente cheio: um grupo de jogadores de rugbi regressava a Inglaterra e os rapazes, com as suas gravatas listradas, acotovelavam-se ruidosamente para alcançar os copos. D. nem sempre entendia as palavras que eles gritavam: era calão? Era um dialeto? Precisaria ainda de algum tempo para se lembrar completamente da língua inglesa. Outrora, a havia falado perfeitamente, mas agora os seus conhecimentos tinham-se tornado muito literários. Tentou isolar-se - ele, homem de meia-idade, com o seu bigode farto, uma cicatriz no queixo e, na testa, uma ruga de preocupações, permanente como um hábito - mas não era naquele bar que poderia pôr-se à parte. Sentiu um cotovelo golpeando-lhe as costas e uma boca que exalava um hálito de cerveja engarrafada. Aquela gente assombrava-o, ninguém diria, ao vê-los tão contentes por entre a fumaça dos cigarros, que havia naquele momento uma guerra - e não só no país de onde ele vinha, mas também ali, a meia milha de Dover! D. transportava a guerra com ele. Nunca pudera compreender como as pessoas não o sentiam.

- Deixem passar, deixem passar!... - gritou um dos jogadores dirigindo-se ao homem do bar.

Alguém lhe apanhou o copo, berrando:

- Fora de jogo!

- Mêée! - responderam todos em coro.

- Com sua licença, com sua licença - ia dizendo D.

E esgueirou-se para fora. Levantou a gola do impermeável e subiu ao convés do navio repassado de frígido nevoeiro, no céu as gaivotas de Dover vibravam os seus grasnos lúgubres. Começou a andar de um lado para o outro, para se aquecer, junto da amurada, a cabeça baixa, os olhos fixos nas tábuas do pavimento, em que via, em uma quase alucinação, um mapa sulcado de trincheiras, de posições insustentáveis, de salientes, de mortos; de um ponto entre os seus olhos descolavam bombardeiros e no seu cérebro estremeciam montanhas sob a explosão de granadas.

Deste perambular no convés do navio inglês, que deslizando imperceptivelmente entrava no porto de Dover, não lhe vinha a menor impressão de segurança. O perigo fazia parte dele próprio. E não como um sobretudo que pode se deixar em casa, mas como se fosse a própria pele. Morre-se com esta pele que só a podridão da morte nos despe. Só podemos confiar em nós. No cadáver de um amigo, debaixo da sua camisa, encontrou uma medalha benzida, um outro amigo pertenceu a uma organização cujas iniciais eram falsas. E, assim, calcorreava de ponta a ponta este convés da terceira classe, de trás para diante e de diante para trás, até ao limite em que os seus passos eram interrompidos por um letreiro: “Reservado aos passageiros de primeira classe”. Houvera um tempo em que a distinção de classes o teria magoado como um insulto, agora as classes sociais estavam muito subdivididas para que a coisa tivesse ainda qualquer significado. Olhou para o convés da primeira classe. Só havia ali, no frio, um homem, também de gola levantada, que, encostado à amurada, olhava para Dover.

D. voltou para trás, os aviões recomeçaram a voar ao ritmo regular dos seus passos. Ninguém pode estar seguro senão de si próprio e, mesmo assim, há momentos em que nos perguntamos se não será ilusório esse sentimento escasso de segurança. Eles já não têm confiança em você, sobretudo porque acreditaram no amigo que usava uma medalha de santidade, pelo que lhes dizia respeito, eles tiveram razão - e quem pode dizer se não terão também razão quanto a você? Você... você é um monte de preconceitos, a ideologia é uma coisa complexa em que as heresias se infiltram... D. não tinha certeza que, mesmo naquele instante, não estava sendo vigiado. Durante alguns minutos sentiu-se oprimido por uma sensação de desconfiança universal. Em um dos bolsos interiores, muito próximos ao peito, levava aquilo a que se costuma chamar “cartas credenciais” - mas crédito já não era sinônimo de confiança.

Voltou lentamente para trás - como se levasse até onde possível a corrente da sua prisão. Uma voz fresca de mulher gritou no nevoeiro: “Quero, mais um! Quero beber mais um!” Em algum lugar, sabia-se lá onde, soou um ruído de vidros se quebrando. Alguém chorava atrás de uma das lanchas salva-vidas, para onde quer que fosse, tudo lhe parecia estranho. Seguiu cuidadosamente a curva do turco em frente e descobriu uma criança encolhida a um canto. De pé, diante do pequeno, D. mirou-o demoradamente. Esta criança não tinha para ele nenhuma realidade - era semelhante àquelas escritas tão ilegíveis que nem sequer tentamos ler. Perguntou-se se na verdade nunca mais seria capaz de partilhar da comoção de alguém. E perguntou ao pequeno com indiferente doçura:

- Que você tem?

- Dei uma cabeçada.

- Está sozinho?

- Foi meu pai que me pôs aqui.

- Por ter dado uma cabeçada?

A criança parou de chorar. Começou a tossir por causa do nevoeiro que lhe arranhava a garganta. Na defensiva, D. sentiu um olhar negro que o fitava do fundo da cavidade aberta entre a lancha e a amurada. Deu meia-volta e recomeçou a andar; pensou que não devia ter falado com a criança que, provavelmente, estava aos cuidado de um pai ou de uma mãe. Avançou até à barreira “Reservado aos passageiros de primeira classe” e olhou para o espaço proibido. O outro homem, por entre o nevoeiro, arrastava até ao fim a corrente da sua prisão. D. viu-lhe primeiro o vinco elegante das calças, depois a gola de pele do sobretudo e, finalmente, a cara. Ambos se miraram através da barreira frágil. Apanhados de surpresa, nada encontraram para dizer. Além disso, nunca tinham se falado: estavam separados por iniciais diferentes, um certo número de mortos. Tinham-se entrevisto em um corredor muitos anos atrás, depois outra vez em uma estação de trem e, por fim, em um aeroporto. D. nem sequer se lembrava do nome dele.

O outro foi o primeiro a recomeçar o passeio, era grande, fino como um prego, abafado em um sobretudo espesso, com um ar ágil e nervoso. Caminhava depressa, com as pernas rígidas mas que, visivelmente, também eram elásticas. Tinha o aspecto de quem sabe o que vai fazer. D. pensou: “talvez vá tentar me roubar, talvez até me matar”. Tinha certamente muito mais apoios, amigos e dinheiro do que ele. Levava cartas de recomendação para lordes e ministros - ele próprio usara, outrora, antes da República, um título... conde ou marquês... D. já não se lembrava precisamente do que era. Era lamentável esta viagem de ambos no mesmo paquete e o seu encontro, assim, na barreira que separava as duas classes, dois agentes secretos à procura da mesma coisa.

A sirene soltou um novo grito de angústia e, de repente, emergindo do nevoeiro como caras a mostrando-se nas janelas, surgiram navios, luzes, um trecho do molhe. Destacavam-se de um conjunto compacto. A máquina foi esmorecendo e depois parou. D. ouviu o flip-flap da água contra o costado do navio e teve a impressão de que vogavam de lado. Alguém, invisível, gritou - um grito que parecia saído do próprio mar. Deslizando lateralmente, o navio foi-se aproximando do cais. Era a chegada, afinal muito simples. Uma multidão de pessoas com bagagens foi repelida pelos marinheiros que pareciam querer demolir o navio.

Começaram então a escoar-se os passageiros com as suas malas repletas de etiquetas de hotéis suíços e de pensões de Biarritz. D. deixou a multidão sair. Toda a sua bagagem consistia em uma maleta de couro com uma escova de cabelo e um pente, uma escova de dentes e alguns objetos. Perdera o hábito do pijama já que este era inútil quando se está sujeito a ter de saltar da cama, devido às bombas, duas vezes por noite.

Para a fiscalização dos passaportes a fila dos passageiros dívidiu-se em duas alas: estrangeiros e súditos britânicos. Os estrangeiros não eram muito numerosos; a alguns passos de D. O homem alto da primeira classe tiritava um pouco sob o sobretudo forrado de pele, pálido e delicado, não era homem para este hangar devassado por todos os ventos do enorme cais. Mas passou rapidamente: tinha bastado uma simples olhadela para os seus papéis. Estava munido de um atestado de autenticidade como as obras de arte antiga - pensou D., sem azedume, era um objeto de museu. Todas as pessoas deste lado do canal lhe pareciam peças de museu - as suas vidas armazenadas em grandes casas frias como as galerias de arte abertas ao público, em que pendem das paredes enjoativos quadros antigos e dormem nos corredores velhas cômodas de embutidos.

D. sentiu-se bruscamente imobilizado. Um homem muito amável, de farto bigode louro, perguntava-lhe:

- O senhor diz que esta fotografia é sua?

- Decerto - respondeu ele.

E olhou para baixo. Nunca lhe tinha passado pela cabeça olhar para o passaporte. Não o via - sabe-se lá! - há muitos anos. Viu o rosto de um desconhecido de um homem mais novo e, evidentemente, muito mais feliz do que ele - um homem que tinha sorrido para a máquina fotográfica.

- É uma fotografia antiga - explicou ele.

Tirara-a antes de ter sido preso, antes da execução da sua mulher, antes do raid aéreo de 23 de Dezembro em que estivera enterrado em uma cave durante cinquenta e seis horas. Como explicar todas estas coisas ao funcionário da alfândega?

- Há quanto tempo foi tirada?

- Talvez dois anos.

- Mas agora o senhor tem o cabelo grisalho.

- É mesmo?!

- Tenha a bondade de se afastar um pouco - pediu o detetive - e deixar passar os outros passageiros.

Falava delicadamente e sem pressa. É porque este país é uma ilha. Na terra de D. já teriam chamado soldados, pensado imediatamente que ele era um espião e conduzido em voz alta um interrogatório febril e interminável. O detetive aproximou-se dele a ponto de lhe tocar.

- Sinto atrasá-lo - disse. - Queira por favor entrar para aqui por um momento.

Abriu uma porta. D. entrou. Viu uma mesa, duas cadeiras e uma fotografia de Eduardo VII a inaugurar a carreira de um trem expresso que tinha o nome de Alexandra; caras da época, no alto de grandes colarinhos brancos de goma, arvoravam sorrisos estereotipados, o maquinista da locomotiva ia de chapéu de coco.

- Estou desolado com este incidente - disse o detetive. - O seu passaporte parece-me perfeitamente correto, mas esta fotografia... Basta-lhe olhar para o espelho para ver a diferença!

Olhou para o único espelho que ali havia - a chaminé da locomotiva e a barba de Eduardo VII não lhe permitiam ver-se muito bem - e teve de confessar que o detetive tinha razão. Tinha realmente um ar muito diferente.

- Na verdade, não pensava que tivesse mudado tanto.

O detetive observava-o atentamente. Sim, lá estava o D. de outros tempos, lembrava-se agora, fora precisamente há três anos. Tinha então quarenta e dois anos e não parecia. A mulher acompanhara-o ao fotógrafo e ele tencionava pedir seis meses de licença na Universidade para viajar - com ela, claro. A guerra civil eclodira três dias depois. Estivera seis meses em uma prisão militar, a mulher fora fuzilada: um erro, não uma atrocidade - e depois... todos sabem até que ponto a guerra transforma um homem... e isto foi antes da guerra. Rira por causa de uma história engraçada uma história em que se falava de abacaxis, eram as primeiras férias, depois de muitos anos, que iam passar juntos. Estavam casados há quinze anos. Lembrava-se agora perfeitamente da máquina fotográfica antiquada, do desaparecimento do fotógrafo por baixo de um pano negro... Da mulher apenas conservava uma imagem vaga. Sentira uma grande paixão por ela e era-lhe penoso recordá-la.

- Tem outros papéis? - perguntou o detetive. - Há alguém em Londres que o conheça? O seu embaixador?

- Oh, não. Sou apenas uma pessoa sem importância.

- Viagem de lazer?

- Não. Tenho algumas cartas comerciais de apresentação. - Sorriu ao detetive, mas as cartas podiam muito bem ser falsas. Não sentia cólera. O bigode grisalho, as rugas profundas aos cantos da boca - tudo isso era novo, como a cicatriz do queixo. Palpou-a.

- Como sabe, estamos em guerra.

Perguntava-se o que fazia o outro naquele momento. Não tinha perdido tempo. Talvez até tivesse um carro à espera. Chegaria a Londres muito antes dele, o que provocaria aborrecimentos do diabo. Sem dúvida recebera instruções para impedir que qualquer agente do outro partido interviesse nas compras de carvão. Antes da descoberta da eletricidade chamava-se correntemente ao carvão “o diamante negro”. De fato, no seu país o carvão era tão precioso como o diamante e não tardaria a ser tão raro como este.

- Note - disse o detetive - que o seu passaporte está perfeitamente em ordem. Talvez possa me dizer onde vai instalar-se em Londres, o endereço?

- Não faço a menor idéia.

O detetive píscou-lhe o olho - tão rapidamente que D. mal acreditou no que viu.

- Dê-me uma direção qualquer - disse ele.

- Ah, bem... Existe um hotel, não é verdade, que se chama Ritz?

- Existe, mas no seu lugar escolheria um mais barato.

- Bristol. Há um Bristol em toda a parte.

- Na Inglaterra não.

- Então onde lhe parece que um homem como eu se hospedaria?

- Strand Palace.

- Muito bem.

Com um sorriso, o detetive devolveu-lhe o passaporte.

- Desculpe-me, mas temos de ser desconfiados. Tem de andar depressa se não quer perder o trem.

“Desconfiar! - pensou D. - Era então aquilo que nesta ilha chamavam, desconfiar? Como lhes invejava este sentimento de segurança!”

Por causa do atraso, D. voltou para o fim da fila. Os rapazes do rugbi já deviam estar na plataforma de onde o trem ia partir; quanto ao seu compatriota, estava convencido de que não tivera de esperar. Uma voz de mulher dizia:

- Oh, tenho uma porção de coisas a declarar.

Era uma voz dura, já a ouvira no bar a reclamar “mais um”. Olhou para ela sem grande interesse; tinha chegado a uma altura da vida em que, pelo que respeita às mulheres, ou somos desequilibrados ou indiferentes, aquela podia ser sua filha.

- Tenho uma garrafa de brandy, mas já está aberta - dizia a garota.

Enquanto esperava a sua vez, D. pensou vagamente que ela não devia beber tanto. A voz não a favorecia na mentira: não era do tipo de mulher que bebe muito. Perguntava-se se ela teria estado a beber na terceira classe, estava bem vestida, como um manequim de alta costura.

Entretanto, ela continuava:

- Tenho também uma garrafa de calvados igualmente aberta.

D. sentiu-se fatigado. Quando acabariam com aquilo e o deixariam passar? Ela era muito nova, loira e inutilmente arrogante. Tinha o ar das crianças a quem falta tudo o que desejam verdadeiramente e estão resolvidas a alcançar seja o que for, quer o desejem ou não.

- Ah, sim - disse ela, - isso também é brandy. Já o teria declarado se tivesse me dado tempo. Como vê, também está aberta.

- Tenha paciência - disse o homem da alfândega - mas tem de pagar direitos sobre uma parte destas bebidas.

- Não há direito!

- Se quiser, mostre-lhe as pautas.

A discussão eternizava-se. Veio outro que, depois de examinar o saco de D., o deixou passar.

- O trem para Londres? - perguntou.

- Já partiu. Terá de esperar pelo das sete e dez.

A garota gritava, encolerizada:

- O meu pai é do Conselho de Administração da Companhia!

- Isso nada tem a ver com a alfândega.

- É Lord Benditch.

- Se quer levar estas garrafas terá de pagar vinte e sete xelins e seis pence.

Era então a filha de Lord Benditch! Esperou-a à saída para vê-la melhor. Viria ele a ter com Lord Benditch tantas dificuldades como o funcionário da alfândega tivera com a sua filha? Eram tantas as coisas que dependiam de Benditch: se o magnata se decidisse a vender aos outros o carvão a preços aceitáveis, eles poderiam resistir durante anos, se não, a guerra acabaria talvez antes da Primavera.

Parecia que ela obtivera o que queria - um presságio? - quando se dirigiu para a porta que dava para o cais coberto de nevoeiro. Tinha o ar de dominar todo o mundo. A noite havia chegado antes de tempo, uma lâmpada mortiça pendia perto de um quiosque de livros e uma zona de bagagens estava encostada a uma placa que indicava Horlicks. Era impossível ver a plataforma imediata e, assim, este entroncamento do grande porto de mar - era como D. O considerava - poderia não ser senão uma daquelas estações rurais, implantada entre os campos, que os trens rápidos atravessam sem parar.

- Bolas! - exclamou a garoto. - Já partiu.

D. informou-a:

- Há outro daqui a hora e meia.

Sentia, à medida que ia falando, que o seu inglês lhe acudia, como se nele se infiltrasse o idioma do país, de mistura com o nevoeiro e o odor da fumarada. Não compreenderia que ali se falasse outra língua.

- É o que eles querem - replicou a garota. - Com este nevoeiro vamos chegar atrasadíssimos.

- Tenho de chegar esta noite a Londres.

- Eu também.

- Talvez o nevoeiro vá passando à medida que nos afastarmos do mar.

Mas ela afastou-se e pôs-se a passear nervosamente na plataforma gelada. Desapareceu atrás do quiosque de livros para voltar pouco depois mordiscando um bolo. Ofereceu-lhe outro, como se ele estivesse enjaulado:

- Quer um?

- Muito obrigado.

Ele aceitou com ar solene e começou a comer: era a hospitalidade inglesa.

- Vou ver se encontro um carro - disse ela. - Não estou para esperar uma hora neste buraco imundo. Talvez haja menos nevoeiro depois de nos afastarmos do mar (ela tinha ouvido, portanto, o que ele dissera). - Atirou o resto do bolo na direção da linha, em uma atitude de ilusionista: um bolo... desapareceu o bolo! Perguntou: - Quer uma carona?

E como o visse hesitar:

- Estou sóbria como um juiz.

- Muito obrigado, não era nisso que eu estava pensando. Perguntava-me apenas se será mais rápido.

- Claro que é mais rápido que o trem daqui a hora e meia.

- Nesse caso, aceito.

Bruscamente - tinham ambos avançado até à borda da plataforma - surgiu, de modo estranho, aos pés dela um homem com o rosto enfarruscada que disse:

- O minha senhora, eu não estou no Jardim Zoológico.

Ela baixou os olhos sem surpresa:

- E quem disse que estava?

- Atirarando bolos dessa maneira...

Ela irritou-se:

- Não diga asneiras.

- Agressão - rosnou o homem. - Podia queixar-me, minha senhora, era um projétil.

- Qual projétil, era um bolo!

Ergueu-se apoiado em uma das mãos e em um pé. O seu rosto aproximou-se.

- Eu lhe direi o que é - ameaçou a voz.

D. interveio:

- Não foi a senhora que atirou o bolo. Fui eu. Pode queixar-se de mim se quiser. Chamo-me D., Strand Hotel, Londres... - Pegou... como se chamaria ela?... pegou-lhe no braço e conduziu-a para a saída.

- Sabe - disse a garota -, não valia realmente a pena ter se incomodado.

- Ficou sabendo o meu nome.

- Ah, o meu, se também quer saber, é Cullen, Rose Cullen. Um nome hediondo, mas que quer? O meu pai tem a mania das rosas. Foi ele quem inventou, não sei se é assim que se diz, a “Marquesa de Pompadour”. Como também gosta de prostitutas, das prostitutas reais, temos uma casa que se chama Gwyn Cottage.

Tiveram sorte com o carro. Próximo da estação havia uma garagem tão bem iluminada que, mesmo com nevoeiro, se vislumbrava a cinquenta metros. Encontraram aí um carro de aluguel: um velho Packard.

D. disse:

- É uma coincidência curiosa! Tenho um negócio a tratar com Lord Benditch.

- Não me admira. Não encontro ninguém que não tenha negócios a tratar com ele.

Ela conduzia lentamente, em uma direção que supunha ser a de Londres, com solavancos nas passagens de nível.

- Não corremos o risco de nos perder se seguirmos a linha do trem.

- Viaja sempre em terceira classe? - perguntou ele.

- Gosto de escolher os companheiros de viagem. Na terceira classe não me arrisco a encontrar as pessoas que têm negócios com o meu pai.

- Eu estava lá.

Ela exclamou:

- Valha-me Deus! O porto.

Engatou uma marcha ré audaciosa e voltou em sentido contrário, no meio do nevoeiro ouviam-se ruídos metálicos de freios e o vociferar dos homens. Refizeram, às apalpadelas, o caminho já percorrido e atacaram uma subida.

- Está claro - disse ela -, se tivéssemos sido escoteiros não nos teríamos enganado, os escoteiros sabem que se desce sempre da terra para o lado do mar.

No alto da colina o nevoeiro tornou-se menos denso, viam-se farrapos do céu cinzento e frio da tarde, sebes semelhantes a cristas de aço e, por toda parte, reinava o silêncio. Um cordeiro corria e saltava na erva que orlava a estrada. De repente, a duzentos metros, apareceu uma luz. Estava ali a paz.

- Como devem ser felizes neste país!

- Felizes? Porquê?

- Esta segurança...

Lembrou-se do detetive que lhe tinha piscado amigavelmente o olho e lhe dissera “temos de ser desconfiados”.

- Nem tanto como pensa - disse ela com a sua voz fresca e desenvolta de criança mal-educada...

- Oh, não, não!... - explicava-se laboriosamente. - Passei dois anos na guerra. Habituei-me a seguir em uma estrada como esta muito, muito lentamente, sempre pronto a parar para me deitar em qualquer parte, na primeira valeta, quando se ouvia um avião.



- Bem, suponho que estava lutando por qualquer coisa. Não é assim?

- Não me lembro. Um dos efeitos do medo, ao fim de certo tempo, é o de destruir em nós toda a capacidade emotiva. Creio que nunca mais serei capaz de sentir alguma coisa senão o medo. Nenhum de nós pode amar ou odiar seja o que for. É um fato estatístico: nascem agora muito poucas crianças no nosso país.

- E, no entanto, a sua guerra continua. Deve existir uma razão. É preciso ser capaz de sentir para se conseguir acabar com uma guerra. Às vezes penso que não nos livramos dela porque ainda temos medo. Se deixarmos de senti-lo, teremos perdido toda a sensibilidade. Nenhum de nós está em condições de gozar uma paz.

Como uma ilha, surgiu repentinamente diante deles uma pequena aldeia - uma velha igreja, algumas sepulturas e uma hospedaria.

- Se eu fosse a senhora, a senhora que possui isto, não a invejaria. Queria falar destas coisas banais e tranquilas... da estranha irrealidade de uma estrada que se pode seguir até além de todos os horizontes.- Não é preciso uma guerra para nos tirar o gosto de tudo. O dinheiro, os pais e outras coisas, podem conduzir-nos ao mesmo resultado.

Ele disse tristemente:

- Afinal, a senhora é nova... e muito bonita.

- Oh! Raios! - exclamou ela. - Vai começar a fazer-me a corte?

- Não, claro que não! Como disse, sou incapaz de sentir. E, além disso, sou velho.

Soou bruscamente uma detonação. O carro ziguezagueou e D. levantou os braços, para proteger o rosto. Depois o carro parou.

- Furou um pneu - disse ela.

Ele baixou os braços.

- Desculpe. São coisas que ainda me assustam. - As suas mãos tremiam. - o medo!

- Não há nada neste país que possa causar-lhe medo.

- Não tenho certeza.

Levava a guerra no coração. “Se me dessem tempo... pensava ele infectaria tudo, até isto. Devia andar com uma campainha como os leprosos de antigamente.”

- Não seja melodramático - disse ela -, os melodramas horrorizam-me.

Pôs o carro em movimento e seguiram aos solavancos.

- Havemos de encontrar uma hospedaria, uma garagem ou qualquer outra coisa. Está muito frio para mudarmos aqui este maldito pneu. - Pouco depois, acrescentou: - O nevoeiro está mais denso.

- Parece-lhe que podemos continuar assim, com um pneu em baixo?

- Não tenha medo.

A desculpar-se, ele explicou:

- É que, veja, tenho um assunto importante para tratar em Londres.

Ela voltou o rosto para ele - uma cara franzina, atormentada, absurdamente jovem. Lembrou-lhe uma menina aborrecida em uma reunião de crianças. Não devia ter mais de vinte anos, poderia ser sua filha.

- Você parece um poço de mistérios - disse ela. - Se a sua intenção é pôr-me de boca aberta, espantada...

- Não.


- É um truque que já passou de moda.

- Já o experimentaram muitas vezes com você?

- Não as contei - replicou ela.

Parecia-lhe infinitamente triste que uma garota tão nova exibisse tanta impostura. Talvez por já estar mais velho achava que a mocidade deve ser uma estação de... Meu Deus! Digamos de esperança. Assegurou-lhe com doçura:

- Não, não tenho nada de misterioso. Sou apenas um homem de negócios.

- Não me diga que também você tem dinheiro em barda?

- Ah, não! Sou o representante de uma firma bastante pequena.

Bruscamente ela sorriu e, sem comoção, ele pensou: “Poderia dizer-se que é linda.”

- Casado? - perguntou ela.

- Sim e não.

- Separados, então?

- Sim. Ela morreu.

Diante deles o nevoeiro tornou-se alvacento. Abrandaram e entraram, sempre aos solavancos, em uma zona povoada de vozes humanas e luzes mortiças.

Uma voz aguda gritava:

- Eu bem tinha dito à Sally que havíamos de chegar aqui.

Deram depois com uma grande janela envidraçada. Ouvia-se uma música suave e uma voz cava e baixa que cantava: eu sei que só és minha quando só e abandonada.

- Regressamos à civilização - disse a garota sombriamente.

- Poderemos mudar o pneu aqui?

- Espero que sim.

Abriu a porta, saiu e foi imediatamente engolida pelo nevoeiro, a luz e a multidão. Ele ficou só no carro. Agora, com o motor parado, o frio era glacial. Tentou pensar no que ia fazer. Primeiro, havia recebido instruções para se hospedar em uma certa casa da Rua de Bloomsbury - casa com um número, que provavelmente havia sido escolhida para que os seus amigos pudessem vigiá-lo melhor. A seguir, depois de amanhã, devia encontrar-se com Lord Benditch. Não eram mendigos, podiam pagar bem o carvão que precisavam e até dar um suplemento quando a guerra acabasse. Entre as minas de Benditch havia muitas encerradas: a oportunidade era excelente para ambos. Fora prevenido de que não seria prudente pedir a intervenção da embaixada. Não podiam fiar-se no embaixador nem no adido comercial, mas supunha-se que o secretário era leal. A situação era, porém, desesperadamente confusa - e, na verdade, era muito possível que o próprio secretário trabalhasse para os rebeldes. Fosse como fosse, o negócio devia ser discretamente conduzido. Ninguém tinha previsto a complicação que o esperava a bordo, na travessia da Mancha. Isso podia ser o prelúdio, sabe-se lá de quê - desde a oferta de preços mais elevados, até ao roubo e, possívelmente, ao assassínio. Enfim, havia que contar com aquele desconhecido pela frente, no nevoeiro.

De repente, D. pensou em apagar as luzes do carro. Sentado no escuro, retirou do bolso interior do colete as credenciais. Hesitou um momento e meteu-as por dentro da luva. Subitamente, a porta do carro abriu-se e a garota perguntou:

- Porque diabo apagou você as luzes do carro? Fiquei doida para encontrá-lo. - Reacendeu as luzes e acrescentou: - O mecânico não estava mas foram procurar um...

- Então, temos que esperar?

- Tenho fome.

Ele saiu cautelosamente do carro, perguntando-se se devia convidar a garota para jantar. Queria evitar todas as despesas supérfluas.

- Podemos ir jantar?

- Decerto. Tem dinheiro? Dei tudo quanto tinha pelo carro.

- Tenho dinheiro. Quer jantar comigo?

- Já tinha pensado nesse convite.

Seguiu-a até uma casa... um hotel... não sabia ao certo. Este gênero de estabelecimentos do tempo em que ele vinha a Inglaterra, ao Museu Britânico, como estudante. Uma casa velha de estilo Tudor - via-se perfeitamente que era Tudor autêntico - cheia de cadeirões e sofás, com um bar no lugar onde seria de esperar ver uma estante com livros. Um homem de monóculo apoderou-se de uma das mãos da garota, a esquerda, e apertou-a:

- Rose! Pois é a Rose! - E logo a seguir: - Desculpe-me, creio que é o Mority Crooldiam que ali está.

Afastou-se rapidamente.

- Você o conhece-o? - perguntou D.

- É o gerente. Não sabia que ele estava por aqui. Teve, em tempos, uma baiúca na Avenida Western. - E acrescentou desprezivelmente: - Que mundo, bem! Porque não volta para a sua guerra?

Mas não era preciso. Na verdade, tinha trazido a guerra consigo: a infeção começava a atuar. Depois do vestíbulo e sala, na casa de jantar, sentado à primeira mesa, lobrigou o outro agente. Sentiu a mão tremer, como acontecia sempre antes de um bombardeio aéreo; ninguém pode viver durante seis meses em uma prisão, sempre à espera do momento em que vai ser fuzilado, sem sair de lá completamente dominado pelo medo. Perguntou:

- Não poderíamos ir jantar em outro lugar? Há gente demais aqui!

Aquele medo era evidentemente absurdo mas, ao ver à mesa as costas estreitas e curvadas do homem, sentia-se tão exposto como no fosso de uma fortaleza entre um muro branco e o pelotão de execução.

- Não há outro. Porque não gosta deste restaurante? - Olhando desconfiadamente para ele: - E porque acha que há muita gente? Não me diga que vai recomeçar...

- Não, não... é que me parecia...

- Vou lavar as mãos, volto já.

- Está bem.

- Não demoro nada.

Logo que ela saiu, D. procurou com o olhar o banheiro dos homens. Precisava de água fria e de um momento para meditar. Estava mais nervoso do que no navio - enervara-se por uma coisa sem importância: o estouro de um pneu. Atravessou a sala para falar com o gerente de monóculo. A casa, apesar do nevoeiro, ou graças a ele, fazia bom negócio. De Londres e de Dover, chegavam constantemente carros guinchando como loucos. Encontrou gerente conversando com uma senhora de cabelos brancos.

- Exatamente desta altura... - dizia ele. - Tenho aqui a fotografia dele, se quiser vê-la... Pensei imediatamente no seu marido...

Procurava outras caras, ao mesmo tempo que falava; as suas palavras ficavam imponderáveis; a sua cara magra e morena, de traços rígidos, como convém à máscara de um militar com anos de serviço nas forças armadas, tinha a expressão de um animal à venda na vitrina de um estabelecimento.

- Perdão... - disse D.

- Naturalmente não tenho o menor empenho em vendê-lo... - Virou-se e compôs um sorriso radiante. - - Creio que já nos vimos, mas não sei onde?

Tinha na mão a fotografia de um fox de pêlo-de-arame.

- Linhas excelentes. Robusto. Dentes... - ia dizendo à senhora.

- Queria perguntar-lhe...

- Desculpe, meu caro. Parece-me que está ali o Tony. - E escapou-se.

A senhora, com voz cortante, explicou:

- Não perca tempo fazendo-lhe perguntas. Se quer ir ao banheiro, é no térreo.

Os lavabos não eram certamente do tempo dos Tudores - todos de esmalte e mármores negros. Tirou o casaco e pendurou-o em um cabide; estava só. Encheu o lavatório com água fria. Era do que os seus nervos precisavam: a água fria, na nuca, teve o efeito de um choque elétrico. Estava de tal modo tenso que se voltou bruscamente quando um homem entrou, como se fosse alguém que conhecia. Era apenas o motorista de um dos carros. Tornou a meter a cabeça na água gelada. Procurou depois, às apalpadelas, uma toalha com que limpou os olhos. Agora estava mais calmo. A sua mão já não tremia quando se voltou para dizer:

- Porque você estava mexendo no meu casaco?

- Eu? Que idéia é essa? - perguntou o motorista. - Estava pendurando a minha samarra. Está à procura de confusão?

- Parece-me - replicou D. - que era você quem procurava qualquer coisa no meu casaco.

- Chame a polícia se quiser.

- Para quê, se não há testemunhas?

- Chame a polícia ou peça desculpas. - o motorista era um gorila, com mais de um metro e oitenta. Avançou com ar ameaçador. - - A minha vontade era partir-lhe a cara. O estupor de um estrangeiro que anda aqui comendo nosso pão e que acha...

D. replicou gentilmente:

- É possível que me tenha enganado.

Estava muito intrigado. Aquele homem, afinal, podia ser apenas um simples ladrão... nada de grave, portanto...

- É possível que tenha se enganado! É possível que eu lhe parta a cara. Se é assim que se pede desculpa na sua terra...

D. deteve-o no mesmo tom:

- Pedirei todas as desculpas nos termos que exigir. - A guerra também faz perder o sentimento da humilhação.

- Não tem coragem para lutar? - fanfarronou o motorista.

- Lutar para quê? Você é o mais forte e o mais novo...

- Podia bem com uma dúzia de pulhas como você.

- Acredito.

- Estará por acaso gozando comigo?

Tinha um olho estrábico que dava a impressão de olhar para um público, ao mesmo tempo que falava com o adversário. “Quem sabe”, - pensava D. - “se ele não teria um público.”

- Se lhe dei essa impressão, renovo as minhas desculpas.

- Sou homem para obrigá-lo a me lamber as botas.

- Não duvido.

Estaria o homem um pouco embriagado? Teria sido mandado por alguém para provocá-lo? D. permanecia encostado ao lavatório e sentia-se tomado por uma pequena náusea de apreensão. Detestava a violência física: matar um homem a tiros, ou ser morto, eram acto mecânicos que se opunham à vontade de viver ou ao receio de sofrer. Mas os murros eram outra coisa; os murros são humilhantes. Quando se é esmurrado, fica-se em posição aviltante em relação ao que bate. Detestava esta espécie de violência como detestava certas promiscuidades. Era mais forte do que ele: tinha medo.

- Continua a gozar comigo?

- Não pense nisso, não tive essa intenção. - O pedantismo da sua pronúncia pareceu enfurecer o outro.

- Fale inglês que se entenda, ou leva já um murro!

- Sou estrangeiro.

- Nem saberá o que é quando eu o tiver esmurrado bem.

O homem aproximou-se mais: tinha os punhos cerrados, pendentes ao longo do corpo, prontos a entrar em ação, como duas massas de carne seca. Tinha, ao mesmo tempo, o ar de quem se esforçava por perder a cabeça.

- Então? - rosnou. - Mexa-se, mostre os punhos. Não será tão covarde que fique quieto.

- E porque não? - replicou D. - Não quero lutar. Deixe-me passar. Tenho lá em cima uma senhora à minha espera.

- Ela pode ficar com os restos depois de eu ajustar contas consigo. Vou ensinar-lhe o que acontece a quem chama de ladrão às pessoas honradas.

O motorista devia ser canhoto, era o punho esquerdo que levantava.

D. espalmou-se contra o lavatório. Ia acontecer o pior. Por momentos, sentiu-se regressar ao pátio da prisão, quando o guarda se aproximava brandindo a matraca. Se tivesse um revólver, atiraria. Estava disposto a cometer todos os crimes para evitar aquele contato físico. Fechou os olhos e apoiou a cabeça para trás, de encontro ao espelho. Estava sem defesa, não sabia servir-se dos punhos. Ouviu então a voz do gerente:

- Então, meu caro, o que é isso?

D. endireitou-se. O motorista tinha recuado em uma atitude exagerada de correção. Com os olhos fixos nele, D. replicou calmamente:

- É uma coisa que me dá às vezes... como se diz em inglês? Vertigens!



- Miss Cullen pediu-me para vir à sua procura. Quer que veja se há lá em cima algum médico?

- Não vale a pena, isto não é nada.

À saída do banheiro D. perguntou ao gerente:

- Conhece este motorista?

- Nunca o vi. Não podemos ter uma ficha de cada cliente. Porquê?

- Tenho a impressão de que tentou meter as mãos no bolso do meu casaco.

O olhar do outro gelou por trás do monóculo.

- Absolutamente improvável, meu caro. Não quero que me tome por pedante, mas a verdade é que a nossa clientela é selecionada. Deve ter se enganado. Miss Cullen decerto confirmará o que lhe digo. - E acrescentou, com simulada indiferença: - Conhece Míss Cullen há muito tempo?

- Não. Em Dover ela foi bastante amável e ofereceu-me carona.

- Ah, compreendo. - E, no alto da escada, safou-se mais uma vez: - Miss Cullen espera-o na sala de jantar.

Entrou. Alguém com uma camisola de lã de gola alta, tocava piano, e uma mulher de voz grave cantava melancolicamente. Passou ao lado do outro, que continuava sentado à sua mesa.

- Que lhe aconteceu? - perguntou a garota. - Achei que tinha me abandonado. O que tem? Parece que viu um fantasma!

Do lugar em que ficou, D. não podia ver... Lembrava-se agora do nome dele. Explicou suavemente:

- Fui atacado... quer dizer, estive para ser atacado. Lá em baixo, nos lavabos...

- Porque me conta essas histórias? Quer se passar por um cara misterioso? Gosto mais da Branca de Neve.

- Tem razão - disse ele -, mas que quer! Tinha de arranjar uma desculpa.

- Além disso, não creio que você acredite nessas coisas que diz. Não creio que um bombardeio o deixe assim tão fora de si.

- Decerto que não. Resumamos a coisa: sou apenas um cara que não é bom para amigo, e mais nada.

- Se ao menos deixasse de ser melodramático. Já lhe disse que detesto os melodramas.

- Às vezes as coisas acontecem assim mesmo. Quer ver? Há um homem sentado na primeira mesa, em frente a você, na entrada. Não olhe já. Quer apostar comigo que neste momento ele está olhando para nós?

- Está mesmo. E isso que tem?

- Observa-me.

- A explicação pode ser outra. Talvez seja para mim que ele olha.

- Porquê?

- São coisas que acontecem.

- Ah, sim, sim - disse ele precipitadamente... - Naturalmente, compreendo muito bem...

Recuou um pouco e observou-a melhor: a boca melancólica, a pele transparente. Sentiu de repente uma antipatia absurda por Lord Benditch. Se fosse ele o pai desta pequena não a deixaria andar assim aos tombos. A mulher de voz grave cantava uma canção estúpida de amor desgraçado.
Era uma maneira de falar que eu desconhecia.

Era sonhar acordada, mas o meu coração ardia.

Eu acreditava quando dizia que me amava,

que me dava seu coração, mas só mo emprestava.
Os clientes pousavam os copos e escutavam como se aquilo fosse a verdadeira poesia. Até a garota deixou de comer durante um momento. Este enternecimento sobre o próprio eu irritou D. era um vício a que ninguém do seu país, de um ou outro lado da trincheira, podia entregar-se.
Não digo que você minta, é esse o amor de agora.

E eu não quero morrer como as amantes de outrora.
D. pensou que tudo aquilo talvez representasse o espírito do século, qualquer que fosse o sentido destas palavras: quase preferia a cela da prisão, a lei da evasão, a casa bombardeada, o inimigo batendo à porta. Olhava sombriamente para a garota. Há alguns anos atrás teria tentado escrever-lhe um poema, alguma coisa melhor do que.
Sonhava acordada, começo a compreender.

Tratava-se apenas de uma nova maneira de falar que tive de aprender.
A garota comentou:

- É estúpido e vulgar, mas tem um certo encanto.

Um criado aproximou-se da mesa.

- O senhor que está ao lado da porta de entrada mandou entregar-lhe este papel.

- Para um homem que desembarcou esta tarde... - estranhou ela.

D. leu. O bilhete era curto e conciso, embora não especificasse a mercadoria em causa.

- Suponho - disse ele - que você não acreditaria se lhe dissesse que acabam de me oferecer duas mil libras.

- Por que havia de me dizer?

- Tem razão.

Chamou o criado e perguntou-lhe:

- Pode me dizer se esse senhor que mandou o bilhete tem um motorista, um homem muito alto com um olho torto?

- Vou saber.

- Não há dúvida que você representa muito bem o papel de homem misterioso.

Teve subitamente a impressão de que ela tinha tornado a beber demais.

- Se não for com cuidado, nunca mais chegaremos a Londres.

O criado regressou e disse:

- É esse mesmo o motorista daquele senhor.

- Viu se ele era canhoto?

- Oh! - disse ela. - Acabe com isso, basta!

- Não tenho a menor intenção de impressioná-la - replicou ele brandamente. - É uma coisa que nada tem com você. Os acontecimentos precipitam-se... eu preciso saber. - Deu uma gorjeta ao criado. - Devolva este bilhete àquele senhor.

- Não tem resposta?

- Não.


- Podia ser delicado - disse ela - e escrever: “obrigado pela oferta”.

- Não quero que conheça a minha letra. Podia imitá-la.

- Desisto - disse ela. - É você quem ganha a partida.

- Não beba mais...

A voz da cantora calara-se como uma emissão radiofônica. O último som fora um gemido com uma cauda de vibrações. Alguns pares começaram a dançar.
- Ainda temos de andar muitos quilômetros.

- Porque temos de nos apressar? Se for preciso, podemos passar aqui a noite.

- Sim, você pode. Mas eu, seja como for, tenho de chegar a Londres.

- Porquê?

- Os meus patrões não compreenderiam o meu atraso.

Estava certo de que eles deviam ter programado os seus movimentos, o encontro com L. e a oferta de dinheiro. Nenhum dos serviços que prestara os convenceria de que não podia ser comprado como qualquer outro quando chegassem ao seu preço. Além disso, reconhecia melancolicamente, eles próprios têm as suas tarifas: outros tinham se vendido e revendido muitas vezes aos seus chefes.

O gerente assestava o monóculo na direção de Rose Cullen para convidá-la para dançar. D., preocupado, pensava: “Isto vai durar toda a noite, não conseguirei arrancá-la daqui.” Os pares dançantes volteavam lentamente, ao compasso da mesma melodia triste. O gerente enlaçava solidamente a garota, a mão direita espalmada nas suas costas; enfiara a outra no bolso com uma desenvoltura que a D. pareceu insolente e falava com ar grave olhando de quando em quando na direção de D. Quando passaram perto de si, ouviu duas palavras: “Ter cuidado.” A garota parecia escutar atentamente, mas os pés mal lhe obedeciam: devia estar ainda mais embriagada do que ele supunha.

Perguntou-se se teriam mudado o pneu. Se o carro estivesse pronto, talvez depois daquela dança conseguisse persuadi-la... Levantou-se e saiu da sala de jantar. L. tinha no prato um escalope de vitela; cortava a carne em pedaços muito pequenos - devia ser homem de digestão difícil. D. sentiu-se menos nervoso: parecia que o fato de ter recusado aquele dinheiro o colocara em uma posição mais forte do que a do adversário. Quanto ao motorista, era provável que não viesse provocá-lo outra vez.

O nevoeiro dissipara-se um pouco. Distinguiu na esplanada meia dúzia de carros: um Daimer, um Mercedes, dois Morris, o velho Packard e um Cadillac pequeno e escarlate. O pneu tinha sido trocado.

Pensou: “Se pudéssemos partir imediatamente enquanto o outro janta...“ Bruscamente ouviu uma voz que não podia ser senão a de L., que lhe dizia no seu idioma:

- Perdão, precisava dizer-lhe duas palavras...

Ao vê-lo assim, de pé entre os carros, D. invejou-o um pouco. O ar dele! Era o produto de uma seleção de quinhentos anos de apuramento, uma seleção que o conduzira ao meio próprio que lhe convinha e lhe tinha dado aquela segurança, embora obsidiado pelos vícios ancestrais e pelos gostos do passado.

- Porque não? - replicou D. - Porque não havemos de discutir um pouco?

Ao mesmo tempo reconhecia o encanto do homem, daqueles que em uma recepção são distinguidos com uma conversa a sós pelo convidado de honra.

- Não posso deixar de pensar - disse L. - que você não compreende a situação.

Sorriu, como a desaprovar esta declaração que, ao cabo de dois anos de guerra, podia parecer impertinente.

- Quero dizer... que você é realmente um dos nossos.

- Não senti isso enquanto estive preso.

À sua maneira, o homem era honesto: transmitia uma sensação de verdade.

- Avalio bem o que terá sofrido - disse ele. - Vi algumas das nossas prisões. Mas, sabe? As coisas têm melhorado. O pior momento é sempre o do princípio de uma guerra. Além disso, nada adianta falarmos de atrocidades. Você também conhece as prisões dos seus. Há culpas de um lado e do outro. E continuará a haver, suponho, até que um alcance a vitória.

- Esse argumento já é velho. A menos que nos rendamos, só estaremos prolongando a guerra. Essa é que é a verdade. E este argumento não significa muito para um homem que acabou de perder a mulher.

- Foi um acidente horrível. Como sabe... não sei se lhe disseram... mandamos fuzilar o comandante. O que eu lhe queria fazer compreender... - Tinha um nariz alongado, como os que se vêem nas galerias de pintura, nos velhos quadros envernizados. Delgado e elegante como era, podia trazer à cinta uma espada tão flexível como ele. - é isto. Se vocês vencerem, que mundo será esse para homens como o meu amigo? Nunca terão confiança em você, você é um burguês. Estou convencido de que até neste momento eles desconfiam. Por outro lado, você também não tem confiança neles. Acredita por acaso que encontrará entre essa gente, a gente que destruiu o Museu Nacional e os quadros de Z., um só homem que se interesse pelos seus trabalhos?

E acrescentou com uma voz doce, como se falasse em uma academia oficial.

- Refiro-me ao manuscrito de Berna.

- Não é por mim que me bato - protestou D.

Ocorreu-lhe que, se não tivesse havido guerra, ele e este homem podiam ser amigos. A aristocracia deixa nascer de tempos em tempos um indivíduo sensível e atormentado que se interessa pela cultura e pelas belas-artes - um mecenas.

- Quem diria! - disse ele. - Você é um idealista, muito mais do que eu. As minhas razões são naturalmente suspeitas. Confiscaram-me os bens... - E com um sorriso vagamente doloroso que sugeria que não duvidava de que seria compreendido pelo seu interlocutor: - E creio que queimaram a minha coleção de quadros e os meus manuscritos. Não tinha nada, aliás, que pudesse interessá-lo, mas havia entre os manuscritos um dos primeiros da Cidade de Deus de Santo Agostinho...

D. tinha a sensação de ser tentado por um demônio dotado de gosto e personalidade admiráveis. Não soube que responder. O outro continuou:

- Não me queixo. As guerras destroem horrível e inexoravelmente muito mais do que amamos... as minhas coleções, a sua mulher...

Por mais extraordinário que fosse, L. não sentiu o despropósito. Esperava, ao contrário, o assentimento de D. - aquele nariz alongado, aquela boca muito sensível, aquele corpo extenso e delicado de diletante... Não fazia a menor idéia do que representa o amor de um ser humano. A sua casa - que eles tinham queimado - devia parecer um museu, com móveis antigos e uma galeria com uma vedação de cordões protegendo os quadros nos dias em que o público os visitava. Era provável que soubesse apreciar o manuscrito de Berna, mas ignorava completamente que esse manuscrito nada significa comparado à mulher amada. A sua conversa de falaciosa simpatia foi ter a este beco:

- Ambos sofremos muito.

Como admitir que, mesmo por um momento, ele tivesse podido passar por um amigo! Valia realmente a pena destruir uma civilização se, destruindo-a, se obstasse a que o governo viesse a cair nas mãos de... supunha que se chamassem civilizados. Que espécie de mundo seria esse? Um mundo repleto de objetos arrumados, conservados, etiquetados: “É proibido tocar nos objetos expostos.” Nada de fé religiosa, apenas uma lenga-lenga de cânticos gregorianos e de cerimônias pitorescas. Imagens miraculosas que sangram ou que meneiam a cabeça em certos aniversários e que se guardariam cautelosamente como curiosidades: as superstições são interessantes. Haveria excelentes bibliotecas, mas não haveria livros novos. D. preferia a desconfiança, a barbárie, as traições... até o caos. A sua “época” é que era, afinal, a Idade das Trevas. Interrompeu-o:

- Não vale a pena continuar esta conversa. Não temos nada de comum, nem um manuscrito.

Talvez fosse isso o que ele tinha, a muito custo, salvo da morte e da guerra; os requintes e a cultura são coisas perigosas, capazes de destroçar o coração humano.

- Gostava que me ouvisse - disse L.

- Estaríamos perdendo tempo.

O outro sorriu:

- Não imagina como fiquei contente por saber que, pelo menos você, concluiu o seu trabalho sobre o manuscrito de Berna antes desta... desta... lamentável guerra.

- É coisa que a mim não parece assim tão importante.

- Ah! - exclamou L. - Mas isso é uma traição.

Tornou a sorrir, agora pensativamente. No caso dele não fora a guerra que o insensibilizara; de sensibilidade ele nunca tivera senão uma leve camada de verniz reservada a fins culturais. O seu lugar era entre as coisas mortas.

E acrescentou em tom mais ligeiro:

- Entrego-o ao seu destino. Não me quererá mal por isso, não é verdade?

- Isso, o quê?

- Isso que vai acontecer agora.

E afastou-se, grande, frágil, cortês, como um professor de arte que, depois de ver os quadros de um pintor, chegasse à conclusão de que este não tinha grande talento: um pouco triste, de uma tristeza que ocultava a irritabilidade.

D. esperou um momento e entrou depois no vestíbulo. Através das portas envidraçadas da sala de jantar tornou a ver os ombros estreitos de L. que se curvava sobre os restos do escalope de vitela.

A garota não estava à mesa, tinha-se juntado a outro grupo. Quase encostado ao seu ouvido reluzia um monóculo: o gerente fazia-lhe confidências. D. ouvia as suas risadas e a mesma voz dura que já tinha notado no bar da terceira classe do navio: “Quero mais um. Vou beber mais um!” Tinha certamente. Mas fora tão amável com ele que não ousava dizer nada: dera-lhe um bolo na plataforma gelada da estação, oferecera-lhe um lugar no carro, depois abandonava-o no meio do caminho. Assumiu a atitude absurda dos da sua classe: capaz de dar uma libra a um mendigo e de esquecer todas as misérias que não se metessem pelos olhos adentro. Na verdade, ela pertencia à mesma raça de L. E, ao pensar nisto, lembrou-se de repente dos seus camaradas que naquele momento estariam em uma fila à espera de um pão, ou gelados em quartos sem aquecimento.

Não podia ser verdade que a guerra só deixasse o medo como única emoção. Ele ainda sentia em certo grau, a cólera e o desapontamento. Virou-se bruscamente, regressou à esplanada e abriu a porta do carro. O guarda do parque de estacionamento aproximou-se e perguntou:

- A senhora?...



- Miss Cullen passará aqui a noite - respondeu ele. - Diga-lhe que deixo o carro amanhã na casa de Lord Benditch.

E arrancou. Dirigia prudentemente, sem excessos de velocidade. Não era hora para ser detido pela polícia por falta de carta de motorista. Uma placa assinalava: “Londres, 45 milhas”. Com um pouco de sorte chegaria antes da meia-noite. Começava a perguntar-se qual seria a missão de L. O bilhete que recebera dele nada lhe tinha revelado, dizia apenas: “Está disposto a receber duas mil libras?” Por outro lado, vira o motorista vasculhando os seus bolsos. Se eram as cartas credenciais que ele procurava era porque sabiam o que vinha fazer na Inglaterra - sem esses papéis não teria a menor aceitação junto dos vendedores de carvão ingleses. Mas, no seu país, apenas cinco pessoas estavam cientes do assunto, e todas, sem exceção, faziam parte do governo. Sim, tornava-se evidente que o povo estava sendo vendido pelos chefes. D. perguntava-se se seria o velho ministro liberal, aquele que tinha protestado contra as execuções. Ou seria o jovem e ambicioso ministro do Interior que julgava ter mais chances de êxito com a ditadura. Afinal, podia ser qualquer um; era impossível confiar em quem quer que fosse. Havia em todo o mundo pessoas como ele, que não aceitavam a idéia de se deixar corromper, simplesmente porque isso lhes tornaria a vida impossível. E não tanto por uma questão de moralidade mas mais por uma questão de consciência.

Outro poste indicador assinalou 40 milhas.

Mas L. estaria ali unicamente para impedir a compra, ou teria também o outro partido uma necessidade imperiosa de carvão? Eram eles que ocupavam as regiões mineiras das montanhas; havia então alguma verdade nos boatos que corriam acerca dos mineiros se recusarem a descer às minas. Notou atrás dele faróis que se aproximavam... estendeu a mão para fora e fez sinal ao carro para ultrapassá-lo. Este pôs-se ao seu lado; era um Daimler. Reconheceu o motorista: era o mesmo que tinha tentado roubá-lo.

D. carregou no acelerador. O outro carro não cedeu e avançaram ambos, lado a lado, a toda a velocidade, através do nevoeiro. Porquê? Quereriam matá-lo? Na Inglaterra era coisa que parecia pouco provável, mas há dois anos que estava habituado a ver realizados os improváveis. É impossível estar enterrado durante cinquenta e seis horas no porão de uma casa bombardeada e sair de lá, quando se sai, convencido de que a violência não existe.

A corrida não durou mais de dois minutos. O indicador do seu velocímetro foi às sessenta milhas; forçou o motor a subir até às sessenta e duas, sessenta e três; durante algum tempo alcançou mesmo as sessenta e cinco, mas o velho Packard não podia rivalizar com o Daimler. O outro carro hesitou e, durante uma fração de segundo, deixou-se ultrapassar. Porém, não tardou a reagir, lançando-se a oitenta à hora. Passou, perdeu-se no nevoeiro e, de repente, atravessou-se na estrada para bloquear o Packard. D. freou bruscamente. O improvável parecia prestes a realizar-se... iam matá-lo. Refletiu pausadamente, sentado no seu lugar, à espera, tentando avaliar as consequências... a publicidade do caso seria uma catástrofe para o outro partido; a sua morte podia ser muito mais preciosa do que tinha sido a sua vida. Há tempos publicara uma versão de um poema da Idade Média, mas o que ia acontecer agora era muito mais importante.

Ouviu uma voz:

- Pegamos o miserável!

Para sua grande surpresa, não foram nem L. nem o motorista que lhe apareceram à porta do carro - era o gerente. E, contudo, via perfeitamente a sua silhueta magra, encarniçada, agitando-se por entre o nevoeiro. Por acaso o gerente seria um deles? A situação era absurda. Perguntou:

- Que quer?

- Que quero? Esse carro é de Miss Cullen.

Não. Afinal, estavam na Inglaterra - não haveria violência, não estava em perigo. Uma explicação desagradável e mais nada. Que vantagem poderia L. tirar deste incidente? Levá-lo a uma delegacia de polícia? Certamente que ela não apresentaria queixa. Na pior das hipóteses, tudo se reduziria a umas horas de atraso.

- Deixei um recado para Miss Cullen - disse ele. - Preveni-a de que lhe deixaria o carro na casa do seu pai.

- Malandro! - exclamou o gerente. - Pensa que pode safar-se assim com as malas de uma senhora... uma senhora como Miss Cullen! E as jóias!

- Não pensei nas malas.

- Mas aposto que pensou nas jóias. Vamos, saia daí.

Não havia nada a fazer. Saiu. Em algum lugar, atrás deles, dois ou três carros buzinavam furiosamente. O gerente exclamou:

- Trate de desimpedir a estrada, meu velho. Eu tomo conta do malandro.

Agarrou D. pelos colarinhos.

- É inútil - disse ele. - Estou pronto a dar todas as explicações a Miss Cullen ou à polícia.

Os outros carros passaram. A alguns metros surgiu o motorista. De pé, junto do Daimler, L. falava com alguém que estava dentro do carro.

- Está convencido que é muito esperto, hem? - disse o gerente. - Míss Cullen é uma garota extraordinária, incapaz de apresentar queixa. - O seu monóculo tremia furiosamente. De repente, aproximou o rosto até quase tocar na de D. e acrescentou: - Não julgue que vai abusar da bondade dela.

Um dos seus olhos, de um azul estranho e mortiço, que parecia de peixe, não deixava transparecer qualquer comoção.

- Estou com pressa - replicou D. - Trate de me levar junto de Miss Cullen ou à polícia.

- Estes estrangeiros - disse o gerente - que vêm ao nosso país... iludir a confiança das nossas garotas... O que você precisa é de uma boa lição.

- Aquele seu amigo que está ali também é um estrangeiro.

- Mas é um homem decente.

- Não compreendo o que pretende fazer.

- Se eu fizesse o que quero, levava-o à polícia, mas a Rose... Miss Cullen, não quer apresentar queixa...

Percebia-se no seu hálito que tinha bebido muito whisky.

- Vai ser melhor tratado do que merecia... um castigo de homem para homem.

- Quer dizer... que vão me bater? São três contra um!

- Não, vamos dar-lhe oportunidade para se defenderes, e será só um. Vai ser este homem que você chamou de ladrão... você que não passa de um reles gatuno... vai ser ele quem te partirá a cara.

D., horrorizado, replicou:

- Se é um duelo que querem, podemos bater-nos à pistola, ele e eu.

- Neste país não se pratica esse gênero de assassínio.

- E encarregam alguém de bater por vocês!

- Já viu perfeitamente que eu tenho um braço aleijado.

Tirou a mão do bolso e agitou-a no ar; enluvada de dedos rígidos, parecia a mão de uma boneca.

- Recuso-me a lutar - exclamou D.

- Isso é com você.

O motorista avançou de esguelha. Tinha tirado o boné e despido a samarra. Não se dera ao trabalho de tirar o casaco - um casaco azul, amarrotado, vulgar.

- Ele tem menos vinte anos do que eu - disse D.

- Não estamos em um clube desportivo - replicou o gerente. - É um ajuste de contas. Vamos, tire o casaco...

O motorista, de punhos cerrados, esperava. D. despiu lentamente o sobretudo, dominado pelo horror dos contatos físicos via o guarda da prisão brandindo a matraca, pressentia a provação aviltante. Subitamente, teve a sensação de que chegava outro carro. Correu para o meio da estrada e pôs-se a acenar com os braços.

- Pelo amor de Deus... estes homens... - gritou.

Era um Morris Minor. Ao volante, um homem enfezado, tímido e uma mulher grande, de cinzento, ao seu lado. Ela olhava, descontente, para o grupo estranho que obstruía a estrada.

- Que há?... Que aconteceu? - perguntou o homem.

- Bêbado.. - disse a mulher.

O gerente avançou para eles; voltara a colocar o monóculo no olho de peixe morto.

- Não é nada, meu velho. Eu sou o capitão Currie. Conhecem?... O do Hotel Tudor. Foi este homem que roubou um carro.

- Querem que vamos chamar a polícia? - perguntou a mulher.

- Não. A dona do carro, uma garota extraordinária como há poucas, nega-se a apresentar queixa. Estávamos só dando uma lição neste malandro.

- Então não precisam de mim para nada - disse o homem. - Prefiro não me meter nessas coisas...

- Um estrangeiro - acrescentou o gerente. - Lábia não lhe falta...

- Olha, um estrangeiro - disse a mulher franzindo os lábios. - Vamos embora, querido, vamos embora.

E o carro desapareceu no nevoeiro.

- E agora - disse o gerente -, quer ou não defender-se? Não é necessário ter medo. Somos homens leais.

O motorista propôs:

- É melhor sairmos da estrada. Aqui estão constantemente passando carros.

- Não saio daqui - respondeu D.

- Muito bem.

O motorista tocou-lhe na cara, de leve. Automaticamente, as mãos de D. ergueram-se em um gesto de defesa. Então o motorista socou-o na boca, com o olho vesgo olhando para o outro lado; esta particularidade dava-lhe um ar de desinteresse horrível, como se ele, para derrotá-lo, não precisasse senão de metade da sua vontade. Continuou a socar sem técnica, ao acaso, menos empenhado em uma vitória rápida do que em machucar e fazer correr sangue. A D. as mãos não lhe serviam de nada: não tentava sequer retribuir os socos, o espírito sempre torturado pelo horror e pelo aviltamento da luta física; ignorava os gestos de defesa. Entretanto, o motorista martelava-o. Desesperado, pensava: “Não terão remédio senão acabar com isto, não lhes convém matarem-me.” Um soco mais lançou-o por terra. O gerente gritou-lhe:

- Levante-ze, estupor! Não faça fita.

Quando se ergueu, D. teve a impressão de ver o seu saco nas mãos de L. “Graças a Deus”, pensou “escondi os papéis a tempo. Não hão-de bater-me tanto que me façam perder as luvas.” o motorista esperou que ele se levantasse e depois, sob uma saraivada de murros, levou-o até à beira da estrada. Recuou um passo e esperou, escarnecendo-o. D. tinha a vista toldada, a boca escorrendo sangue e o coração aos pulos. Pensava com uma espécie de satisfação: “Brutos, imbecis, vão acabar por me matar.” Era uma solução que valia a pena. juntando as últimas forças, reagiu e esmurrou às cegas o ventre do motorista. Ouviu a voz do gerente exclamar: “Oh, o malandro! Um golpe baixo! Acabe com ele.” Um soco que lhe pareceu um coice atirou-o por terra outra vez. Teve a sensação estranha de ouvir uma voz contar: “sete, oito, nove ... “.

Um deles tinha-lhe desabotoado o casaco. Por momentos sentiu-se outra vez em casa, enterrado no porão, sob os escombros, com um gato morto ao lado. Depois voltou lentamente a uma noção menos irreal das coisas e sentiu uns dedos na camisa à procura de qualquer coisa. Viu o vulto do motorista, muito encorpado, muito perto dele, e teve um sentimento de triunfo. Na verdade, era ele o vencedor da batalha. Ergueu os olhos para o motorista com um sorriso trocista.

- Como ele está? - perguntou o gerente.

- Perfeitamente, senhor - respondeu o motorista.

- Esperemos que isto lhe sirva de lição.

D. levantou-se com dificuldade: viu, surpreso, que o gerente estava embaraçado pouco à vontade - como um professor que, depois de ter castigado um aluno, reconhece que a situação se tornou menos clara. Voltou as costas a D., dizendo:

- Vamos embora. Eu levo o carro de Míss Cullen.

- Pode dar-me uma carona?

- Uma carona?! Vá para o diabo. Nunca!... Sirva-se das pernas.

- Diga então ao seu amigo para me dar o sobretudo.

- Vá buscá-lo se quiser.

D. seguiu a beira da estrada até ao lugar em que se encontrava o sobretudo. Não se lembrava de tê-lo deixado ali, tão perto do carro de L., junto do qual estava também o seu saco de viagem. Baixou-se e, quando penosamente se erguia outra vez, avistou a garota que, pelo visto, estivera sentada no banco de trás do Daimler de L. Mais uma vez sentiu uma desconfiança que parecia abarcar toda a humanidade - também ela seria uma agente? Mas era naturalmente absurdo: ela ainda estava embriagada, não tinha percebido, o que se tinha passado, mais do que aquele ridículo capitão Currie. O fecho do seu saco de viagem estava aberto; costumava emperrar sempre que se abria e quem quer que tivesse mexido nele não tivera tempo de fechá-lo. Ergueu o saco até à altura da janela do carro e disse:

- Como vê, são pessoas minuciosas. Mas não encontraram o que procuravam.

Ela olhava para ele, através do vidro, com um ar de repugnância e ele notou, então, que ainda sangrava bastante.

- Não incomode Miss Cullen - disse o gerente.

D. explicava brandamente:

- São apenas alguns dentes quebrados. Um homem da minha idade está na idade de perder os dentes. É possível que nos tornemos a ver em Gwyn Cottage.

Ela tinha um ar irremediavelmente alienado e olhava-o sem compreender. D. levou a mão ao chapéu, mas não tinha chapéu: devia tê-lo deixado cair na estrada em qualquer parte. Então disse:

- Apresento-lhe agora as minhas desculpas. Tenho de fazer uma grande caminhada. Mas garanto-lhe, muito seriamente, que deve desconfiar desta gente.

E pôs-se a andar na direção de Londres. Ainda ouviu atrás de si, no escuro, a voz indignada do capitão Currie que gritava qualquer coisa em que distinguiu a palavra “diabólico”. Continuou a caminhar com a impressão de que o dia tinha sido longo mas, no conjunto, satisfatório.

Nada fora inesperado: era a atmosfera em que tinha vivido durante dois anos; se encontrasse em uma ilha deserta, teria esperado que, de uma ou outra maneira, a sua presença infectasse de violência a própria solidão. Não se escapava de uma guerra mudando de país. Apenas se muda de meios técnicos: os punhos em lugar das bombas, o espião ratoneiro em vez de tiros de artilharia. Só no sono escapava à violência; os seus sonhos reconstituíam quase invariavelmente imagens pacíficas do passado. Compensação? O cumprimento de um voto? A sua própria psicologia já não o interessava. Sonhava com salas de conferências, com a mulher, por vezes com comidas e bebidas, frequentemente com flores.

Para evitar os carros, seguiu pela beira da estrada. Um lençol branco de silêncio cobria o mundo; por vezes passava à beira de uma casa rústica e negra, cercada de galinheiros. Perguntou-se que iria L. fazer agora; não lhe restava muito tempo e hoje nada conseguiria, exceto que já sabia naturalmente que ele ia encontrar com Benditch. Tinha cometido a imprudência de falar disso à garota - mas como imaginar que eles viriam a encontrar-se? As preocupações práticas absorveram-no, afastando a fadiga e as dores. As horas passavam rapidamente; avançava como um autómato. Só depois de ter refletido durante muito tempo começou a pensar nos pés que lhe doíam e na possibilidade de fazer o resto do percurso de carro. Pouco depois, ouviu atrás de si o roncar de um caminhão vencendo lentamente a subida. E, quando se pôs no meio da estrada fazendo-lhe sinais, este homem de meia-idade, esfarrapado e dolorido, aparentava uma estranha boa disposição.




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