Grandes nomes da história intelectual



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Encontro04.04.2018
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GRANDES NOMES DA HISTÓRIA INTELECTUAL


APRESENTAÇÃO
Marcos Antônio Lopes

   É bem provável que este livro provoque alguma estranheza. Nos dias que correm, fala-se com enorme timidez em História Intelectual, e na maior parte das vezes para referir-se a um setor específico deste vasto campo. Como veremos, nos diversos ensaios aqui reunidos, o conceito pode ser muito mais amplo do que uma definição esquemática, seja de Robert Darnton, seja de qualquer outro autor influente. De início, digamos apenas que a expressão História Intelectual vem ganhando espaço, numa acepção tão genérica quanto aquela que lhe faz concorrência e tende, muito provavelmente, a substituí-la.

   A História Intelectual, por muitos identificada sob o rótulo mais antigo de História das Idéias - campo de estudos extremamente vasto e de longa data dominado pela historiografia anglo-saxã -, conheceu diversas tendências e trilhou caminhos bastante diferenciados ao longo do século XX. É desconcertante o número de orientações teóricas surgidas no interior deste domínio. As concepções que delineiam o desenvolvimento da História Intelectual são quase tantas quantos são os historiadores. Diante de diferentes (e de divergentes) maneiras de conceber um objeto comum, esta rica coletânea permite-nos perceber a complexidade conceitual deste campo, além de demonstrar-nos a sua exuberância temática, expressa pela abordagem de um sem-número de autores e assuntos.

   A História Intelectual possui interesses muito diversificados e não há uma forma - ou fórmula - para defini-la com aquela convicção peculiar aos adeptos de um estatuto mais estrito de cientificidade da História. Nesta época de tantas incertezas cabe a regra de Montaigne: \"Seguros e convictos há apenas os loucos\". Ora, houve uma História Intelectual à maneira de Arthur Lovejoy, de Pierre Mesnard, de Lucien Febvre, de Sheldon Wolin, de Isaiah Berlin, da mesma forma que há uma História Intelectual à francesa - com destaque atual para os trabalhos de Jean-François Sirinelli, Michel Winock e Roger Chartier -, assim como há também uma História Intelectual ao sabor anglo-saxão, da qual são expressões culminantes, atualmente, nomes dos dois lados do Atlântico, como os norte-americanos Robert Darnton, Martin Jay, Dominique LaCapra e os ingleses Quentin Skinner, John Dunn e John Pocock. E mesmo entre estes e aqueles a concepção que se tem e que se teve de um objeto comum foi e tende a continuar sendo uma verdadeira Babel de contrastes. Pensando assim, parece não ser muito pertinente definir neste texto de apresentação a História Intelectual, até porque há extensos ensaios reunidos neste volume que \"ensaiaram\" esta tentativa. E os resultados, instigantes, desconcertantes, surpreendentes, levam a inúmeras direções. Apesar das muitas definições, a sensação que impera é a de uma paradoxal indefinição. E é este o aspecto que faz da História Intelectual uma seara estimulante e desafiadora.

   O conjunto de textos que apresentamos ao leitor não tem como alvo traçar um estado da arte da História Intelectual. Nosso propósito é o de realçar as suas especificidades atuais, especialmente quando analisada comparativamente a modalidades mais tradicionais da pesquisa histórica no Brasil. O que estes artigos demonstram com admirável clareza é a impressionante riqueza nas formas de abordagem das obras de pensamento, matéria-prima da História Intelectual. Certamente, os problemas e os desafios característicos da História Intelectual serão descortinados pelo leitor.

   Do ponto de vista de suas inserções profissionais nota-se logo a extrema diversidade institucional dos pesquisadores aqui reunidos. Essa dispersão do grupo assegura a esta obra coletiva um diferencial positivo quando pensamos em iniciativas desta natureza. Ora, coletâneas costumam ser a obra de \"líderes tribais\", de \"superiores de ordens\". A referida dispersão intelectual e geográfica dos pesquisadores deste livro liberta-nos desses ranços paroquianos ao demonstrar que, paralelamente a uma intensa atividade intelectual, não se trata de reafirmar as redes hierárquicas de um grupo fechado. Abstraindo estas questões, que fazem parte da cultura acadêmica em qualquer lugar do mundo, para muitos dos autores aqui reunidos foi decisiva a oportunidade de divulgar pesquisas numa área ainda vista com pouco interesse e até com desconfiança.

   \"História Intelectual, História dos Intelectuais? Isto é obra para filósofos ou professores de literatura!\" - parece ser bem o reflexo de nossa cultura historiográfica, em seu estágio atual. E é bom que se diga que louvamos os filósofos, e os professores de literatura, e que eles também se identificam e dialogam com o nosso gênero de História, razão pela qual se fazem presentes neste livro. Assim, ao desdém muitas vezes premeditado e ao desinteresse talvez calculado, procuramos contrapor uma gama considerável de trabalho e de reflexão.

   Desnecessário ressaltar que nosso mercado editorial ainda se encontra carente de obras desta natureza, e muito mais ainda quando se trata dos temas em foco, abordados por pesquisadores no Brasil. De fato, estudos de \"temas estrangeiros\" são raros no país, cuja cultura acadêmica direciona os pesquisadores a se dedicar quase exclusivamente a temas nacionais. Como enfatizou Luiz Costa Lima, \"... os raros estudos que desenvolvem temas ou autores não brasileiros, mesmo que sejam de qualidade, não são aproveitados, não recebem a divulgação adequada, se não são hostilizados\" (Caderno Mais!, 4.6.2000, p. 12). De mais a mais, autores estrangeiros desfrutam inegavelmente de maior valorização em nosso mercado editorial. Isto porque, entre outros fatores, há uma idéia muito difundida de que boa parte das pesquisas universitárias em ciências sociais no Brasil se afigura antes como obra de diletantes que de especialistas dedicados, estudos marcados pela intuição, pelo improviso e pela falta de rigor.

   Contra esta corrente, pretendemos afirmar que há algo mais para se ver em História. Entretanto, assumir ares imperialistas em defesa de um campo teórico e temático seria algo como servir do próprio veneno aos que torcem o nariz para a História Intelectual. Este espírito não é o que nos anima. A eloqüência natural dos textos deste livro deve demonstrar que a História Intelectual conquistará o espaço a que tem direito pelo trabalho que já realizou. Se a estranheza provocada pelo volume servir também de estimulante ao público leitor para a conquista de novas adesões ao gênero, a parte mais promissora de sua vocação estará cumprida. Entretanto, não podemos deixar que um texto de apresentação assuma as características de uma obra de circunstância, ainda que haja provas eloqüentes desse tipo de tratamento dispensado a projetos editoriais e de pesquisa que raramente atingem níveis de prioridade que ensejem divulgação e apoio efetivos.

   O conjunto dos textos é multifacetado, polifônico, cadenciado, e o livro assemelha-se a um dicionário de nomes próprios, com a vantagem natural do maior volume de seus verbetes, com microbiografias intelectuais dos personagens retratados, seguidas pelo aprofundamento de um ou mais aspectos de suas obras ou mesmo do conjunto delas. Organizada em blocos temáticos, a configuração da obra revela, de imediato, a variedade de interesses, bem como a diversidade de abordagens. Teorias da História, história da historiografia, história e literatura, história do imaginário, história das idéias políticas, história cultural, história das ciências são algumas das perspectivas aqui reunidas. Os temas são para lá de diversificados e é preciso evitar, numa coletânea de meia centena de textos, as muitas vezes estéreis apresentações individuais. De Heródoto e Tucídides a Michelet e a Marx, de Cícero e Plutarco a Dilthey e a Bloch, de Sêneca e Tácito a Ricoeur e a Foucault, de Gregório de Tours a Chrétien de Troyes e aos \"reis intelectuais\" portugueses do fim da Idade Média, de Rocha Pombo e Manoel Bomfim a Gilberto Freyre e a Francisco Iglésias, as análises em torno às obras dos ditos luminares da tradição intelectual do Ocidente e dos \"reconhecidamente\" autores menores e esquecidos da cultura luso-brasileira garantem a necessária originalidade e a devida relevância ao livro. Antecedem este amplo conjunto temático artigos que abordam o campo teórico-metodológico-historiográfico da História Intelectual.

   Os textos refletem pesquisas em avançados estágios de desenvolvimento. Reunimos num volume a atividade intelectual de pesquisadores em diferentes níveis de formação acadêmica e de experiência profissional. Desde o pesquisador que acaba de dar os últimos alinhavos em sua promissora dissertação a destacados professores já no topo da carreira acadêmica, os textos têm como virtude comum o fato de sugerir um campo fértil de possibilidades para a História Intelectual, propondo novas perspectivas para a pesquisa, apontando lacunas e, sobretudo, demonstrando a grande disposição ao diálogo com campos teóricos limítrofes.

   Com toda certeza, um projeto como este seria inimaginável se não pudéssemos contar com o apoio integral de um expressivo número de pesquisadores. Movidos por incomum espírito de cooperação e generosidade, eles não apenas cederam seus textos, mas acolheram a idéia com entusiasmo, apontando caminhos, sugerindo idéias, insuflando o ânimo necessário para que a obra tomasse corpo. Registre-se, portanto, este apoio que propiciou o ambiente necessário para que o projeto pudesse tomar a dimensão de um livro. Em especial, agradeço a Carlos Antonio Aguirre Rojas, Elias Thomé Saliba, Helenice Rodrigues da Silva, José Carlos Reis, Jurandir Malerba e Tereza Cristina Kirschner, estimuladores da primeira hora, cujos trabalhos foram o ponto de partida para a configuração da obra. A Sonia Lacerda e Fábio Joly devo a direta e valorosa colaboração, pelas traduções de textos, pelas idéias e sugestões e por tudo mais. Vânia Leite Fróes e os pesquisadores do Scriptorium - Laboratório de Estudos Medievais e Ibéricos da Universidade Federal Fluminense - acolheram com simpatia o convite para participar do livro com um relevante dossiê sobre os intelectuais da Idade Média. A eles fica o meu reconhecimento pela intervenção, por assim dizer, providencial.



   Por último, mas não menos importante, é preciso dizer que este livro não foi concebido como artefato neutro e inofensivo. Move-nos um ativismo intelectual da mais elevada extração, que nos leva à tentativa de encorajar o debate sobre temas da História Intelectual em nosso cenário historiográfico. Trata-se, com toda convicção, de habilitar e dar legitimidade a um gênero de História com fraca tradição e mínima ressonância no Brasil, como bem reconheceu um de nossos historiadores de maior expressão, Francisco Falcon. E temos nesta defesa da História Intelectual o principal elo unificador deste livro.

   Na firme confiança de que nossos intelectuais poderão contar com o interesse e a simpatia dos historiadores e de amplo público, esperamos que projetos desta natureza sejam iniciativas mais freqüentes entre nós, e que a História Intelectual conquiste, também, as suas cartas de nobreza.

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