Guia de estudos de filosofia



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A evolução dos paradigmas epistemológicos


Durante a Idade Antiga e a Idade Média prevaleceu o modo metafísico de pensar, segundo o qual busca-se conhecer e compreender os seres por meio da apreensão e inteligibilidade da essência de cada um deles.

Dá-se o nome de ser ou ente a tudo o que existe. Entende-se por essência a natureza própria de cada ser, isto é, aquilo que faz com que cada ente seja ele mesmo e não outro. Dessa maneira, a metafísica tem como objeto de estudo a essência e a existência do ser. Tudo ( ser ou ente) o que existe ( existência) , e existe de um modo particular, peculiar ( essência) , é alvo de investigação do pensamento metafísico.

Obs.: Metafísica: Do grego meta physica ( “depois dos tratados da física” ) , é a parte da filosofia que estuda o “ ser enquanto ser”, isto é , o ser independentemente de suas determinações particulares; estudo do ser absoluto e dos primeiros princípios. Exemplos de problemas metafísicos : a essência do universo (cosmologia racional); a existência da alma ( psicologia racional); a existência de Deus ( teologia racional ou teodicéia) ( Aranha e Martins, 1986:429). O termo metafísica é muitas vezes empregado como sinônimo de ontologia.


Idade Antiga - O pensamento grego

De volta ao passado , caminhando ao encontro dos filósofos gregos é possível perceber o predomínio de três tipos de problemas : cosmológico, antropológico e metafísico.

Entre os filósofos pré-socráticos , prevaleceu a necessidade de direcionar o conhecimento para a busca da origem ( arché) do universo. Desejavam conhecer e compreender de onde vinha o mundo ; quem ou o que o fez; do que era constituído. Voltaram a atenção para os problemas cosmológicos ( kosmos, “mundo”, “universo”).

Os sofistas, especialistas na arte de bem falar, tinham como finalidade preparar o homem grego para ser cidadão, político, isto é, um habitante da polis, capaz de argumentar e defender seus pontos de vista, no exercício cotidiano da democracia grega. Preocupavam-se em ensinar os homens a falar bem, independentemente da verdade ou falsidade de suas afirmações. É fácil perceber que o conceito de verdade se tornou relativo, impossibilitando a construção de toda e qualquer ciência.

Se de um lado o foco de atenção dos sofistas se dirigiu para os problemas antropológicos ( antropos, “homem”) , elegendo o ser humano como objeto de suas preocupações, de outro desvirtuaram a possibilidade de apreensão de conhecimentos verdadeiros, ao transformarem o homem na medida de todas as coisas.

Sócrates ( 479 – m399 a.C.), movido pela necessidade de superar o relativismo e o ceticismo dos sofistas e convencido da importância de fazer ciência fundamentada em verdades universais ( unus verus allia, “uma que se opõe a todas as outras”; “aquelas que têm validade em qualquer lugar, em qualquer tempo e para qualquer indivíduo”), resgatou o objeto de estudo dos sofistas ( o homem) e passou a examiná-lo utilizando um método que se processa em duas etapas : ironia e maiêutica.

Por meio de perguntas e respostas rápidas, Sócrates levava o seu interlocutor a reconhecer o seu falso conhecimento e sua ignorância: “ Só sei que nada sei”. Tal era o objetivo da ironia ( do grego maieutiqué/tecné, que quer dizer: “a arte de dar à luz” ) , Sócrates auxiliava os homens a darem à luz a verdade, fundamento possível de toda ciência.

Os pré - socráticos se detiveram no exame de problemas cosmológicos ; os sofistas e Sócrates, embora motivados por finalidades e objetivos absolutamente diversos, se voltaram para o estudo dos problemas antropológicos. Platão ( 420-348 a.C. ) e Aristóteles (358-322 a.C.) elegeram os problemas metafísicos como alvo da filosofia.

Platão e Aristóteles, também preocupados com a busca da verdade para fazer ciência e superar o domínio da opinião ( do grego, doxa), retomaram uma questão vital e polêmica instaurada por dois filósofos pré-socráticos: Heráclito de Éfeso e Parmênides de Eléia.

Para Heráclito (535-465 a.C.), a essência do universo reside no movimento. Diz ele: “O que existe não é o ser, mas o que vem a ser. Nada há de real, além do movimento. Tudo muda, nada permanece”. Dessa maneira, ele inviabilizou o conhecimento, já que não era possível estabelecer qualquer tipo de relação entre sujeito e objeto, ambos em constante mudança.

Para Parmênides (529-490 a.C.), a única realidade é o ser. Diz ele: “O ser é e não pode não ser. O ser é eterno, imóvel, sem começo e sem fim”. Dessa forma , só o ser existe e só o ser é real e só pode ser pensado e conhecido o que é real: o ser. Para Parmênides, o movimento é aparente e a realidade sensível , uma ilusão. Identifica ser e conhecer: só é possível conhecer aquilo que é.

Não é difícil perceber o problema metafísico que se estabeleceu com ambos os filósofos: a conciliação entre o devir ( constante vir-a-ser) e o ser, bem como o valor do duplo conhecimento, quer dos sentidos ( Heráclito) , quer da razão ( Parmênides).



Platão tentou superar essas dificuldades através do dualismo: propôs a existência de dois mundos, o mundo sensível, das aparências, domínio da opinião, onde viviam os homens, e o mundo das Idéias, eterno, imutável e verdadeiro, domínio da ciência, do qual o mundo sensível é apenas uma cópia imperfeita. Assim, as idéias se tronaram o único objeto possível de conhecimento.

A alma inteligente, enquanto unida ao corpo mortal, aos poucos lembra-se das idéias que 8um dia contemplou, ao tomar contato com o mundo sensível, através de um processo de recordação , de reminiscência. Quando purificada, após a morte, retorna ao mundo das idéias, única realidade possível e inquestionável, apreendida agora em caráter absoluto.

O conhecimento , para Platão, tem início no contato com os objetos sensíveis que permitem à alma inteligente ou à razão recordar-se das Idéias inatas e verdadeiras que um dia já contemplou. O processo chega ao final com a contemplação das Idéias.,

A realidade sem forma, sem cor, impalpável só pode ser contemplada pela inteligência, que é o guia da alma. E é na Idéia Eterna que reside a ciência perfeita, aquela que abarca toda a verdade. O pensamento de um Deus nutre-se de inteligência e de ciência puras. O mesmo se dá com todas as almas que procuram receber o alimento que lhes convém. Quando a alma, depois da evolução pela qual passa, chega a conhecer as essências, esse conhecimento das verdades puras a mergulha na maior das felicidades. Depois de haver contemplado essas essências , volta a alma ao seu ponto de partida. Mas, durante a revolução pela qual passou, ela pôde contemplar a Justiça, a Ciência - não que estas que conhecemos , sujeitas às mudanças e que se diferenciam segundo os objetos - mas a Ciência que tem por objeto o Ser dos Seres. Quando assim contemplou as essências, quando se saciou da sua sede de conhecimento, a alma mergulha novamente no interior do céu e volta ao seu pouso ( Platão, 1971: 226).

Ao eleger as idéias como objeto e fonte exclusiva do verdadeiro conhecimento, Platão abriu caminho para o idealismo ou racionalismo idealista, que vigorou a partir da Idade Moderna.


Obs. Idealismo:1. Doutrina que afirma a realidade das idéias , independentes e superiores ao mundo sensível ( Platão). 2. Idealismo transcendental : doutrina que define os fenômenos como simples representações , não como coisas em si ( Kant). 3. Doutrina que afirma que a realidade primeira [e o pensamento, todas as coisas materiais sendo simples produto do ato de pensar ( Japiassu, 1986:250)
Aristóteles, discípulo de Platão, perante a polêmica instaurada por Heráclito e Parmênides, optou por uma solução bastante diferente daquela adotada por seu mestre. As idéias ou essências não existem em um mundo à parte. Elas se encontram presentes em cada ser e podem ser conhecidas por meio da abstração, operação realizada pela intelig6encia a partir dos dados obtidos pelos sentidos por meio da percepção sensível.

Para Aristóteles, todo ser é composto por dois princípios : matéria e forma. Todo ser é, existe porque possui uma matéria , mas o que o diferencia dos demais seres é a forma, a essência , retirada de cada ente em particular pela razão. Tal processo é denominado por Aristóteles de abstração, que se segue ao conhecimento sensível, primeiro instrumento para a intelecção do ser em geral.

Além da matéria e forma, há dois outros princípios componentes do ser: ato, princípio de perfeição, pelo qual todo ser é; e pot6encia, princípio de imperfeição, pelo qual todo ser pode mudar, se transformar ou vir a ser.

O processo de conhecimento concebido por Aristóteles tem início com a percepção dos objetos sensíveis, múltiplos, imperfeitos e mutáveis. Deles, a inteligência abstrai a essência , una e imutável, subsídio teórico para elaboração de conceitos universais, objeto da ciência e fundamento do conhecimento racional, ponto de chegada da filosofia aristotélica.

Enquanto Platão enfatizava as idéias, Aristóteles reconheceu no mundo das coisas concretas o ponto de partida para o conhecimento do ser, reintegrando no mundo material as essências que Platão havia transformado em modelos ideais e reais de tudo o que existe. Assim, a teoria aristotélica se fundamenta no realismo ( do latim rés: “coisa”), tendência filosófica segundo a qual a realidade existe independentemente de o homem conhecê-la ou não, e o reconhecimento tem origem na experiência sensível , na percepção das coisas reais, concretas e particulares, nas quais se encontram alojadas as essências , extraídas pela razão para elaborar os conceitos universais que permitem a elaboração da ciência.



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