Guia de estudos de filosofia



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Bibliografia

ARANHA, M. Lúcia de A. & MARINS, M. Helena P. Filosofando: introdução à filosofia. São Paulo: Moderna, 1986.

PLATÃO. Fedro. In Diálogos I ( Mênon – Banquete – Fedro) Tradução de Jorge Paleikat. Rio de janeiro: Ediouro, 1971.

JAPIASSU, Hilton. Vocabulário. In: Rezende, Antonio (org.). Curso de filosofia. Rio de Janeiro: Zahar/Seaf, 1986

Kant, Immanuel. Prefácio à segunda edição da Crítica da razão pura. In: Os Pensadores. São Paulo: Abril,1974. V. XXV.

SIMON, M. Célia. O positivismo de Comte. In Rezende, Antonio (org.) Curso de Filosofia. Rio de janeiro: Zahar/ Seaf, 1986

2.1.2 A questão da ciência e a crítica ao positivismo
O positivismo estabeleceu critérios rígidos para a ciência, exigindo que ela se fundasse na observação dos fatos. A mesma exigência é estabelecida para a sociologia e, evidentemente , para qualquer outra ciência humana. Durkheim, ao desenvolver o método sociológico, recomendava que os fatos sociais fossem observados como coisas. Essa preocupação em tornar o sujeito das ciências humanas um objeto semelhante ao das ciências da natureza marcou com cores fortes a primeira tendência metodológica

A fenomenologia é uma filosofia e um método que têm como precursor Franz Brentano ( final do séc. XIX). Mas foi Edmund Husserl ( 1859 – 1938) quem formulou as principais linhas dessa nova abordagem do real, abrindo caminho de reflexão para filósofos como Heidegger, Jaspers, Sartre, Merleau – Ponty .

O esforço filosófico de Husserl está orientado para a discussão desta situação gerada pelo positivismo: a crise da filosofia, a crise das ciências e a crise das ciências humanas. Tornava-se urgente repensar os fundamentos e a racionalidade dessas disciplinas e mostrar que tanto a filosofia quanto as ci6encias humanas são viáveis . A proposta é um recomeço radical na ordem do saber.

Vamos retomar a clássica questão da relação sujeito-objeto, colocada desde a teoria do conhecimento cartesiana. O racionalismo enfatiza o papel atuante do sujeito que conhece , e o empirismo privilegia a determinação do objeto conhecido. O resultado dessa dicotomia , em ambos os casos, é a permanência do dualismo psicofísico, da separação corpo-espírito e homem-mundo.

A fenomenologia propõe a superação dessa dicotomia, afirmando que toda consciência é intencional. Isso significa que não há pura consciência separada do mundo, mas toda consciência tende para o mundo. Da mesma forma, não há objeto em si, independente de uma consciência que o perceba. Portanto, o objeto é um fenômeno, ou seja, etimologicamente, “algo que aparece” para uma consciência.

Segundo Husserl, “ a palavra intencionalidade não significa outra coisa senão esta particularidade fundamental da consciência de ser a consciência de alguma coisa”.

Portanto a primeira oposição que a fenomenologia faz ao positivismo é que não há fatos com a objetividade pretendida, pois não percebemos o mundo como um dado bruto, desprovido de significados; o mundo que percebo é um mundo para mim. Daí a importância dada ao sentido, à rede de significações que envolvem os objetos percebidos: a consciência “vive” imediatamente como doadora de sentido.

Exemplificando: segundo a terapia reflexológica behaviorista, a reeducação de uma criança manhosa consiste em descondicionar a resposta manha e substitui-la por outro comportamento socialmente adequado. Ao contrário, na análise fenomenológica, a manha não é , ela significa, e é pela emoção que a criança se exprime na totalidade do seu ser. Ela diz coisas com o choro, e esse choro precisa ser interpretado. Da mesma forma, a resposta que a criança dá a certos estímulos externos supõe também que os próprios estímulos nunca são idênticos para todas as pessoas, mas influenciam na medida em que são percebidos de maneira singular pela consciência que os atinge.

À relação mecânica E – R, estabelecida pelo behaviorismo, a fenomenologia contrapõe a oposição existente entre o sinal e o símbolo. Enquanto o sinal faz parte do mundo físico do ser, o símbolo é parte do mundo humano do sentido.( ARANHA & MARTINS, 1986, p. 187-191)
2.2. O problema da relação entre ciência e técnica: a racionalidade instrumental.
Se você ainda não leu, certamente já ouviu falar dos livros Admirável mundo novo ( Aldoux Huxley), 1984 e A revolução dos bichos ( George Orwell), Fahrenheit 451 ( Ray Bradbury) e Wallden II ( Burrhus F.Skinner). Todos descrevem sociedades futuras dominadas pela máquina e pela tecnologia , organizadas politicamente sob a força de regimes totalitários, em que o homem é constantemente manipulado , condicionado e dirigido a pensar , agir e sentir como um autômato , sem vontade própria e sem liberdade.

Nesses livros os autores passam uma visão extremamente pessimista de um mundo que resultou de um processo inexorável do avanço tecnológico e é comandado e administrado por entidades abstratas e dominadoras , do tipo Big Brother ( Grande Irmão), às quais os homens se submetem fanaticamente, docilmente e zelosamente.

Alguns filmes de ficção científica também veiculam uma visão sombria do mundo de amanhã. A sociedade parece Ter0-se tornado sucata de um tempo de opulência e de riqueza proporcionadas pela tecnologia. Esta mostra-se, no futuro, falida e desbaratada, fonte de miséria, fome, dor e mazelas para o g6enero humano. Exemplos de tais filmes são: Blade Runner, o caçador de andróides; a série Mad Max; The day after; Apocalipse now; O ovo da serpente; 1984; entre outros.

Por outro lado, não há como negar que a tecnologia exerce sobre o ser humano, materializada em produtos caros e sofisticados, atualmente verdadeiros símbolos do mundo moderno. Quem, ho9je, não nutre um desejo secreto de possuir um telefone celular e utilizá-lo dirigindo um veículo monitorado por um computador de bordo>? Quem já não ficou sem dinheiro no final de semana e dirigiu-se confortavelmente à cabine de um banco 24 Horas, aproveitando também para pagar algumas contas e efetuar aplicações financeiras ? Quem não se sente bem ao passar um final de semana acampado no meio do mato e sabendo que todo e qualquer recado será registrado em sua secretária eletrônica e que seus programas prediletos na tevê estarão gravados no videocassete>? Quem pode negar a sensação prazerosa de andar pelas ruas ouvindo no walkman suas músicas preferidas? Quem pode negar a economia de tempo e de locomoção que se obtém com a utilização do fax para enviar mensagens e documentos, especialmente em situações de urgência? Quem ainda não experimentou a praticidade de uma agenda eletrônica e de um notebook, companheiros diários dos profissionais que atuam nas mais diferentes áreas? Esses são apenas alguns poucos exemplos de inovações tecnológicas que fazem parte do cotidiano do homem moderno - ampliadas a cada dia pelas novas possibilidades da informática.

No entanto , é necessário registrar o incômodo causado nos bancos, quando se tem pressa e o sistema fica fora do ar; a dificuldade causada pelos inúmeros botões do controle remoto da televisão, do videocassete e do aparelho de som nos diferentes usuários de diferentes faixas etárias; o desconforto provocado pelo uso inicial do computador, geralmente acompanhado de perdas de arquivos importantes.

E nesse cenário no qual a tecnologia ocupa o lugar de destaque, surge a seguinte questão: a tecnologia escraviza ou liberta o ser humano? Atua contra ou a favor?



Ciência , técnica e tecnologia

Ciência, técnica e tecnologia são palavras relacionadas entre si ; ao se fazer referência a uma delas, inevitavelmente as demais surgem em cena.

A ciência é uma das formas de conhecimento elaboradas pelo ser humano para compreender racional e objetivamente o mundo com a finalidade de nele poder intervir em seu próprio benefício. Visa tornar a natureza inteligível ao apreender as regularidades existentes em um conjunto de fenômenos ; tais regularidades são expressas posteriormente em leis e teorias que traduzem o esforço do homem em conhecer e explicar tudo o que é - ou seja, tudo o que existe natural ou necessariamente. Técnica, assim como tecnologia, provém do grego techne, que significa “arte” ou “habilidade”. Embora procedam da mesma raiz etimológica, técnica e tecnologia têm sido empregadas em sentidos diversos.

Origem da ciência e da técnica

A origem da ci6encia e da técnica se encontra no medo que o ser humano sentiu no seu enfrentamento com a natureza e no desejo de poder , a fim de submet6e-la e utilizá- la a seu favor.

Aos primeiros seres humanos, diante das tempestades , dos raios e trovões, diante do temor despertado pelos animais ferozes que os rodeavam , só restava buscar poder para combater o poder maior e esmagador das forças naturais. Aos poucos, as soluções mágicas, as soluções míticas e os rituais religiosos foram substituídos por conhecimentos e habilidades utilizados na busca do poder do homem sobre a natureza. Ironicamente, na visão de Regis de Morais ( 1988: 49), o maior problema que hoje o homem enfrenta é “ não Ter poder sobre seu próprio poder: o homem perdeu o controle sobre suas possibilidades”.

Para Severino ( 1992:153), a origem da técnica também resulta da intervenção do homem na natureza. Enquanto a adaptação dos demais seres vivos à natureza resulta de um código genético previamente determinado, o ser humano cria meios e instrumentos que prolongam , agilizam e versatilizam os seus órgãos de sentidos e os membros de seu corpo , para retirar da natureza o que é necessário à sua sobrevivência, provocando também uma adaptação da natureza a si mesmo.

A ciência precede a técnica ou a técnica conduziu ao desenvolvimento das ci6encias? Para Vargas ( 1990: 3-12) , a técnica como um simples saber-fazer manual é uma atividade tão antiga quanto a própria linguagem, surgindo juntamente com ela “ na aurora da humanidade”.

A técnica evoluiu de um estado mítico, onde os segredos do saber-fazer instrumentos eram revelados aos homens pelos deuses, até o estado artesanal, onde o mestre , pessoa individual e autor dos processos técnicos passou a ensiná-la aos aprendizes, de geração a geração.

A ciência, na visão de Vargas, ao contrário do que aparenta, não nasceu juntamente com o homem, a exemplo da técnica. Como um saber teórico, concebida como tal pelos ocidentais, surgiu mais tarde com os filósofos gregos no século VI a.C., na Jônia. Com o Renascimento, e especialmente a partir do século XVII, com Galileu, surgiu a ciência moderna propriamente dita, e preparou a entrada em cena da tecnologia:



No início do século XVII, dois fatos cooperaram para o aparecimento da tecnologia como uma aproximação da técnica com a ciência moderna. O primeiro foi o aparecimento, na Europa, de uma crença de que tudo que pudesse ser feito pelo homem poderia sê-lo por intermédio de conhecimentos científicos. O segundo foi que a ciência experimental exigia, para seus experimentos, instrumentos de medida precisos que teriam de ser fabricados ou por cientistas com dotes artesanais ou por artesãos, informados pelas teorias científicas.

Essa, sem dúvida, foi a origem da tecnologia como utilização das teorias científicas na solução de problemas técnicos. [...] Os primeiros sucessos apareceram ao se explicar o funcionamento das máquinas a vapor por meio de teorias científicas para a construção de máquinas elétricas e confirmou-se com a eletrônica; não se sabe exatamente onde termina a ci6encia e começa a técnica ( Vargas, 1990:7).

O grande público, segundo Huisman e Vergez, freqüentemente confunde ciência e técnica, na medida em que a ci6encia geralmente só se torna por ele conhecida através de suas aplicações práticas. Para esses autores, a ciência consiste na descoberta das relações objetivas que existem no real. Já a técnica, em sentido amplo, é um conjunto de processos bem-definidos e destinados a produzir resultados considerados úteis.

A ciência procura despir o real dos gostos subjetivos e preferências individuais, enquanto a técnica coloca-se a serviço das necessidades , desejos e aspirações pessoais, num esforço para produzir o que deve ser, o que se deseja que seja e o que não é.

A ciência é um esforço para conhecer e explicar o que [é; revela as leis da natureza, as relações entre os fenômenos. Já a técnica utiliza o conhecimento dessas leis para obter um resultado desejado , configurando-se como saber aplicado.

Pra Huissman e Vergez, a história das ciências e das técnicas revela “a formação de técnicas eficazes positivas , adaptadas ao mundo real, bem antes de uma ci6encia positiva e racional se Ter construído” ( 1974:43).

Os povos primitivos tinham técnicas extremamente engenhosas , como as pirogas para a navegação , o arco e a flecha para a caça, e estavam longe de4 possuir qualquer tipo de conhecimento científico. No entanto, as primeiras técnicas se configuram como um prolongamento do instinto da adaptação biológica espont6anea e inconsciente do homem à natureza : “O instrumento naturalmente prolonga o órgão ( organon em grego significa instrumento’). O bastão prolonga o braço , o anzol imita o dedo recurvado , etc.” (Ibidem: 44).

Situações urgentes e emergenciais acabam por exigir a aplicação de processos empíricos descobertos casualmente antes de qualquer explicação científica de sua eficácia. Dessa maneira, a habilidade precede o saber. Porém a ciência não é uma extensão da técnica pré-científica espontânea; não se reduz à explicação de processos inicialmente implícitos em tais práticas: “ A ciência realmente rompe com a prática instintiva espontânea. Ela faz um recuo diante da técnica primitiva, analisa racionalmente seus processos , a fim de reformá-los” ( Ibidem: 45)

Os cientistas , movidos pela necessidade de conhecer , transformam em problemas teóricos as dificuldades e obstáculos que os técnicos encontram em suas atividades práticas. E os problemas incitam os cientistas a pesquisas desvinculadas da necessidade de soluções puramente práticas e imediatas . a atividade do cientista circunscreve-se “no plano da especulação desinteressada : o técnico quer agir , o sábio , antes de tudo, procura compreender “( Ibidem:46).



Técnica e ciência : como e por que

Ciência e técnica são interdependentes e quanto à isso há consenso pacífico entre os autores que abordam a questão. Regis de Morais ( 1988: 50) afirma:

Numa linguagem mais em voga hoje, diríamos que a técnica nos dá o como ( ou o know – how) enquanto a ciência procura nos oferecer o porquê. [...]

Seria interessante riscarmos de vez dois conceitos quiméricos: “ ciência pura” e “técnica inconsciente”. Nos dias atuais, ciência e técnica são atividades absolutamente interdependentes e, até certo ponto, fundidas.

Huisman e Vergez ( 1974:47) escrevem:



A proveitosa interdependência entre ciência e técnica faz-se observar claramente. O técnico torna-se o homem que adapta a ciência à prática. Na indústria, o termo técnico tende a tomar um sentido particular. Ele designa o auxiliar, o subordinado ao engenheiro. Assim, cada um encontra o seu lugar na “bela cadeia científica que transforma o desconhecido em útil. O sábio descobre , o engenheiro adapta e o técnico executa”. A ciência tornou-se, pois, a rainha da técnica. Todavia, não se deve desconhecer os serviços que a técnica , por sua vez, presta à ciência.
Heisenberger ( s/d:15), físico alemão falecido em 1976, diz que:

Em todo processo evolutivo que se estende ao longo dos últimos duzentos anos, a técnica tem sido ao mesmo tempo condição prévia e conseqüência da ciência. É sua condição prévia, porque amiúde uma expansão e aprofundamento da ciência só são possíveis graças a um aperfeiçoamento dos instrumentos de observação; recorde-se a invenção do telescópio e do microscópio e da descoberta dos raios X. É, por outro lado, conseqüência porque, em geral, a exploração técnica das forças da natureza só se torna possível graças a um profundo conhecimento do respectivo campo de experiência.

Nogare (1985:215) se posiciona da seguinte forma:



Técnica e ciência são estritamente interdependentes. Não somente porque a grande maioria das técnicas consiste na aplicação de descobertas científicas, mas também porque a ciência em seu exercício e resultados depende muitas vezes do uso de determinadas técnicas. Não se deve porém confundi-las porque a ciência pertence à categoria do saber, a técnica , à categoria do fazer. Não no sentido de que esta se reduza a uma pura atividade mecânica, mas porque constituída de um conjunto de normas destinadas a dirigir eficazmente a ação a uma determinada finalidade.

Esse sentido geral da técnica é restrito às normas que possibilitam e facilitam o domínio do homem sobre a natureza, ou seja, às técnicas de produção. Aí entram, por exemplo, as técnicas agrícolas, industriais, de automação, da cibernética, etc.


Bibliografia

HUISSMAN, Denis e VERGEZ, André. Curso moderno de filosofia: introdução à filosofia das ciências. Tradução de Lélia de Almeida Gonzalez. 5. Ed. Rio de janeiro: Freitas Bastos, 1974.

MORAIS, João Francisco Regis de. Filosofia da ciência e da tecnologia: introdução metodológica e crítica. 5. ed. Campinas: Papirus, 1988.

VARGAS, Milton. Dupla transferência: o caso da mecânica dos solos. Revista USP. São Paulo, n.7, p.3-12, set./out./nov./1990.

SEVERINO, Antonio J. A expressão histórico-cultural da filosofia. São Paulo: Feusp, 1989, mimeo.

________. Filosofia. São Paulo: Cortez, 1992.



SOUZA, Sonia Maria Ribeiro de. Um outro olhar: filosofia. São Paulo: FTD, 1995

apostila enviada por colaboração de Tainara Molin

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