Guimar de a mão e a luva



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Guiomar de A mão e a luva: razão e emoção
Ana Lúcia Richa
As relações amorosas, com suas incríveis peripécias de conquistas e casamentos envolvendo complicadas tramas sentimentais, sociais, políticas e econômicas, estão entre os temas mais recorrentes da literatura. Neste universo, as inclinações do coração nem sempre estão em primeiro plano, especialmente para a mulher, que, apesar de ter sua imagem culturalmente ligada, entre outras coisas, à emocionalidade, à submissão e à modéstia, tradicionalmente encontra possibilidades de colocação social justamente no casamento.

Enquanto o tema se repete e as histórias se aproximam, as sucessivas gerações trazem novas abordagens, novas implicações para os conflitos, novos ambientes e personagens e, principalmente, novas soluções narrativas. O embate entre o casamento definido pela escolha amorosa ou racional esteve em foco na trama de A mão e a Luva, criada por Machado de Assis, e será observada neste estudo, assim como sua construção narrativa. Também será observada a proximidade deste romance com A princesa de Clèves, escrito dois séculos antes por Madame de Lafayette.



A mão e a luva é o segundo romance de Machado de Assis. Foi publicado em vinte folhetins em O Globo, no Rio de Janeiro, entre 26 de setembro a 3 de novembro de 1874. Em dezembro deste mesmo ano, apareceu publicado em livro e trazia na Advertência uma ressalva do autor comentando o padecimento do estilo com um método sujeito às urgências da publicação diária, “um pouco fora dos hábitos do autor”1..

De acordo com Ubiratan Machado, no livro Machado de Assis: roteiro de consagração, a repercussão foi menor que a de Ressurreição, contando apenas com algumas notas, duas breves resenhas sem assinatura, em Vida Fluminense, e uma crítica feita por Araucarius, pseudônimo do cônego Fernandes Pinheiro, em O Novo Mundo2. Machado de Assis já gozava de certo prestígio quando escreveu A mão e a luva: em 1867, recebera a Ordem da Rosa, no grau de cavaleiro, era ajudante do diretor do Diário Oficial e chefe da seção da Secretaria de Agricultura como primeiro-oficial.

Apesar de ser tratado como o segundo romance do autor, vale ressaltar que, na “Advertência de 1874”, o autor classifica a obra como novela, provavelmente em razão do tamanho e da limitação do objeto ao desenho de alguns caracteres, como ele mesmo admite. Nas palavras do autor: “Convém dizer que o desenho de tais caracteres, – o de Guiomar, sobretudo, – foi o meu objeto principal, se não exclusivo, servindo-me a ação apenas de tela em que lancei os contornos dos perfis. Incompletos embora, terão saído naturais e verdadeiros?”3 Em A mão e a luva, Machado continua a explorar o romance como espaço de contraste de caracteres, como fez em Ressurreição e deixou explícito na advertência da primeira edição: “Não quis fazer romance de costumes; tentei o esboço de uma situação e o contraste de dous caracteres;(...)”4

Seguimos a preocupação do autor em A mão e a luva, por isso, neste ensaio, desejamos identificar as várias facetas de Guiomar. Facetas muitas vezes contraditórias, porque, ao invés de um narrador distanciado, encontramos um narrador que assume a perspectiva dos pretendentes da moça para apresentá-la. E ainda, ao final da trama, abre espaço para que a própria heroína se descreva. Neste trabalho, portanto, pretendemos acompanhar o percurso narrativo que conduz às diversas formas de apresentação da personagem Guiomar durante o momento decisivo de sua via, a escolha de um marido.


1. Guiomar e as mulheres de Machado
Machado de Assis recua 20 anos para contar a história de A mão e a luva que começa em 1853. Nessa época, já havia sido declarada a maioridade de Pedro II e o Brasil vive um período de paz interna e construção nacional. Entretanto, a política não é tratada senão como tema incidental na candidatura de Luís Alves e nas suas perspectivas de ascensão social.

O clima de A mão e a luva, como nos outros romances, é o das camadas mais altas da sociedade, instalada em bairros nobres como Botafogo. A vida social aparece com as vantagens e os divertimentos da corte, teatros e reuniões familiares, o desfrutar das chácaras, as leituras em voga, um pouco de piano e o chiquismo da rua do Ouvidor.

Guiomar, personagem principal do romance, é uma jovem de origem humilde que depois da morte dos pais foi adotada pela madrinha, uma baronesa viúva. O breve romance gira em torno da definição do casamento da heroína que deve escolher entre três pretendentes: o primeiro é Estevão, rapaz romântico e fraco; o segundo é Jorge, jovem sem muita expressão e sobrinho da baronesa, a quem Guiomar deve sua posição social; o terceiro é Luís Alves, homem forte e ambicioso que arrebata o coração da moça. Além deles, participa da trama Mrs. Oswald, viúva inglesa que é dama de companhia da baronesa. Longe da romântica escolha motivada pelo amor, Machado trouxe para este romance o jogo de interesses do casamento, que não envolve somente as partes, mas principalmente os familiares e agregados.

Ingrid Stein, no livro Figuras femininas em Machado de Assis, destaca que o casamento na segunda metade do século XIX representava a maior aspiração para a maior parte das moças, já que era a única chance de obtenção de um status social mais elevado. É relevante observar que a esfera de poder de decisão e a influência feminina estavam restritas quase que exclusivamente a casa, inclusive a possibilidade de realização da mulher ocorria majoritariamente através de seu marido e filhos. Dessa forma, o casamento era um evento essencial na vida da mulher, através do qual ela conseguia status e função social.

Therezinha Mucci Xavier, no livro A personagem feminina do romance de Machado de Assis, chama atenção para que não se encontra, com raras exceções, nas personagens femininas machadianas o amor grato, devoto e puro. Iaiá, Guiomar, Virgília, a adúltera, Sofia, a faceira, e Capitu, de honra duvidosa, todas essas mulheres têm um ponto de contato, o egoísmo, que não lhes permite amar desprendidamente.
O egoísmo das figuras femininas de Machado de Assis está intrinsecamente ligado à luta de querer elevar-se, à ambição da mulher, muitas vezes vinda do meio humilde, de fixar-se na burguesia. Daí o egoísmo também direcionar os casamentos, muitas vezes pragmatistas e decididos futilmente, mas estritamente indispensável à realização plena da mulher5.
Os pretendentes de Guiomar, como os homens da época, tinham possibilidades de ascensão pelos próprios meios. Estevão estuda Direito e, em seguida, se torna advogado. Jorge tem a possibilidade de fazer carreira pública graças ao nome deixado pelo pai e à influência da tia, mas vive usufruindo a vida de herdeiro. Luís Alves é advogado e caminha para uma carreira pública. Ao contrário da situação da mulher, o casamento para o homem, embora fosse aconselhável, não tinha importância vital.

Guiomar cogita ser professora, porque, como mulher sem bens, não se casando, teria de trabalhar para se sustentar. Guiomar encara essa necessidade com vergonha. É com acanhamento que comunica à madrinha a necessidade de trabalhar:


– (...) mas a cada qual cabe uma obrigação, que se deve cumprir. A minha é...é ganhar o pão.

Estas últimas palavras passaram-lhe pelos lábios como que à força. O rubor subiu-lhe às faces; dissera-se que a alma cobria o rosto com vergonha6.


O narrador assinala que isso representava para Guiomar sujeitar-se à mediocridade. Entretanto, não descartamos o calculo da moça que declaradamente contava com a ternura da madrinha. Therezinha Mucci Xavier, ressalta que o acanhamento de Guiomar está em acordo com o contexto da mulher da época que tinha a sua participação na vida econômica considerada como um desvio do normal, como uma infração da ordem natural das cosas. Entretanto, se as mulheres da classe alta, que são quase todas as personagens principais de machado, tinham sua atuação ligadas à vida doméstica e social, o mesmo não ocorria com as mulheres das camadas mais baixas. Além do exemplo da Guiomar na infância e juventude, temos a Mrs Oswald que trabalha para a baronesa, em Memórias Póstumas de Brás Cubas, temos D. Plácida.

Para Guiomar, era uma opção que a envergonharia, mas, para Luís Garcia, de Iaiá Garcia, dar uma profissão à filha, mestra de piano, era o melhor que poderia fazer para garantir seu futuro. A formação intelectual parece não ser uma prioridade entre as personagens principais de Machado. Therezinha Mucci Xavier defende que a preocupação em dar uma profissão às filhas era das famílias que tinham que lutar pela subsistência. Assim mesmo, o magistério era quase que a única opção considerada digna para as moças.


Guiomar, de A mão e a luva, aspira a ser professora como meio de subsistência. Sua mãe, que mal lhe ensinou ler escrever, ambicionava vê-la médica: “hás de ser a minha doutora”. Com a morte de Henriqueta (filha da baronesa), Guiomar estabelece-se na casa da madrinha, não mais se preocupando com aprimoramento intelectual, bastando-lhe as atividades artísticas: tocar piano, ler romances. O que ela cobiçava era o luxo, o lustre de seu nome, os quais poderiam fazê-la, mais que a ciência, triunfar. É interessante notar como o autor faz uma de suas personagens despertar a ambição de uma carreira médica para sua filha, como a mãe de Guiomar, se as mulheres de nosso país tiveram somente acesso aos estudos de medicina cinco anos após a publicação do romance. O ideal de professora, todavia, era mais fácil de se alcançar, pois já haviam sido instaladas as primeiras Escolas Normais (1835, em Niterói; 1836, na Bahia; 1846, em São Paulo)7.
Vale lembrar que o primeiros romance de Machado de Assis é publicado em 1872 e o último, em 1908. Nesses 36 anos, passando os olhos pelas principais personagens femininas dos nove romances, constata-se uma mínima variação de suas atividades. Em Ressurreição, Cecília, Raquel e Lívia se ocupavam com tocar piano, ler, ir ao teatro e outros divertimentos e eventos sociais. Guiomar, Mrs Oswald e a baronesa de A mão e a luva tinham ocupações semelhantes. No terceiro romance, encontramos duas personagens antagônicas: Helena, a protagonista, era laboriosa, culta e prendada, assumiu a casa quando D. Úrsula ficou doente, lia e desenhava com arte; ao passo que Eugênia gastava seu tempo tocando piano, indo a teatros e bailes. Em Iaiá Garcia, Luís Garcia possuía meios para isentar Iaiá e Estela da luta pela sobrevivência e Valéria era uma viúva rica.

Nos romances da segunda fase, não existe mudança significativa. Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, apesar de Marcela e D. Plácida precisarem trabalhar, Virgília, que é a personagem feminina principal, é apresentada como “(...) ignorante, pueril, cheia de uns ímpetos misteriosos; muita preguiça (...)”8. Em Quincas Borba, Sofia só valoriza teatros, passeios, vestidos, jóias e compras. Capitu é tratada mais na infância, as vê-se que sua mãe, D. Fortunata, se dedica a casa. A condição de viúva de D. Glória, mãe de Bentinho, faz com que ela seja a administradora dos bens da família – como a baronesa, madrinha de Guiomar. Em Esaú e Jacó, Flora, Natividade, D. Cláudia e Perpétua não têm atividades que as diferenciem das anteriores. D. Carmo, de Memorial de Aires, se dedica aos filhos postiços enquanto Fidélia gasta seu tempo com o piano e a pintura.

Dessa forma, a saída de Guiomar do colégio e o preenchimento de seu tempo com o piano, com a leitura de romances, com os passeios e os eventos sociais marcam sua passagem para a classe social alta, em que ela, mesmo depois do casamento, deseja se manter. Ingrid Stein classifica diversas personagens femininas dos romances de Machado como sendo extremamente ambiciosas; Guiomar pertence ao grupo. Contudo, a pesquisadora ressalva que essas personagens, como a maior parte das mulheres da segunda metade do século XIX, não têm a possibilidade de realizar por si só suas aspirações, elas convergem suas próprias ambições e energias para a carreira de seus maridos, filhos e até amantes. Apesar de jovem, Guiomar é perspicaz o bastante para saber que a melhor maneira de realizar sua ambição de sucesso social seria através de um casamento adequado. Percebe que Estevão não lhe daria mais que a promessa de uma vida sentimental, ao passo que Jorge não oferecia mais que uma vida “vegetativa”. Entretanto, Luís Alves:
fazia perceber à moça que ele nascera para vencer e que a sua ambição tinha verdadeiramente asas, ao mesmo tempo que as tinha ou parecia tê-las o coração. Demais, o primeiro passo do homem público estava dado; ele ia entrar em cheio na estrada que leva os fortes à glória. Em torno dele ia fazer-se aquela luz, que era a ambição da moça, a atmosfera, que ela almejava respirar9.
Nas palavras do narrador novamente: “Ela queria um homem que, ao pé de um coração juvenil e capaz de amar, sentisse dentro em si a força bastante para subi-la aonde a vissem todos os olhos.”10 A ascensão social e política de Luís Alves seria também a de Guiomar como sua esposa. Acompanhando o raciocínio de Ingrid Stein, “era o auge do que uma mulher poderia almejar.”11

Este é um assunto que retorna em outras obras do autor. Em Memórias póstumas de Brás Cubas, Virgília pede ao noivo que a faça baronesa e ele a promete fazê-la marquesa. Virgília se realizaria inclusive através do amante Brás Cubas que decide cuidar da carreira política e um dos motivos é justamente fazer Virgília “(...) ufanar-se quando visse luzir o meu nome...”12. Em Quincas Borba, Sofia usa de todos os meios para atrair Rubião e seduzi-lo a continuar apoiando os empreendimentos de seu marido, Cristiano Palha. Natividade, de Esaú e Jacó, é presenteada pelo marido, ao completar quarenta anos, com o título de baronesa. E para Natividade, inclusive os filhos são veículos para sua realização. O narrador não deixa de apontar sua reação de felicidade à esperança de que os filhos fossem “grandes”, depois da previsão da cabocla. No mesmo livro, vê-se D. Cláudia, agindo com determinação para alcançar a glória política do marido, participando de suas decisões e usando inclusive o baile da ilha como oportunidade de promovê-lo. Até Helena, que não pode ser considerada ambiciosa, é capaz de dizer: “O casamento não é uma solução, penso eu; é um ponto de partida. O marido fará a mulher.”13

Não apenas a mulher dependia deste jogo: afinal, desde muito tempo, o casamento se tornou a mais estável forma de realização de alianças, especialmente políticas e econômicas. Portanto, todo o grupo social participava ativamente do agenciamento das uniões. Machado de Assis, ao tratar do casamento de Guiomar, não despreza os diversos desejos e interesses das outras personagens envolvidas na trama. Da parte de Guiomar, vemos que era ambiciosa e que desejava gozar da distinção social; entretanto, para ela, pesava tanto ou mais a necessidade do rompimento de sua situação de agregada, tanto que sente repulsa à idéia de se ver obrigada a casar com o sobrinho da baronesa. Portanto, todos os cálculos de Guiomar eram no sentido de, através do casamento com Luís Alves, superar a relação de favor implícita em sua associação com a baronesa, que seria mantida no casamento com Jorge. Guiomar tenta manter seu status, mesmo independente da baronesa. O caminho era unir-se a Luís Alves: ela precisava do lustre do seu nome14.

O advogado, por sua vez, além de amar à sua maneira, contava com Guiomar como uma “força nova”15, já que ser bem casado, ou melhor, parecer bem casado era essencial para um homem que entrara para a vida pública. Jorge tendia para o gosto da união com uma esposa bela e querida, mas não esquecia a conveniência da não divisão da herança da tia, afinal “possuir era seu único ofício”16. Estevão transformara Guiomar em seu objetivo de vida, sem atentar para a falta de inclinação da moça para ele e muito menos para o fato de pertencer a uma outra esfera social – a moça tornou-se inatingível para ele no momento em que foi considerada filha da baronesa.

Depois dos pretendentes, a mais interessada na articulação que levaria ao casamento de Guiomar era Mrs. Oswald. Talvez ela estivesse mais envolvida com o jogo do que a própria madrinha da moça. A baronesa era a única realmente guiada apenas pelo coração, seu desejo era a felicidade da afilhada e do sobrinho. A união dos dois lhe traria felicidade apenas na medida em que acreditava no amor entre eles. Tal esperança era alimentada por Mrs. Oswald. A inglesa, sim, tinha razões que ultrapassavam o carinho por Guiomar, a amizade e a gratidão à família. A inglesa não tinha qualquer interesse pecuniário; por outro lado, a demonstração de sagacidade e habilidade para exercer uma “diplomacia doméstica”17, que resultasse no desfecho feliz de uma operação delicada, era a chance de conseguir o reconhecimento, a gratidão e o estreitamento dos laços com a baronesa – ponto essencial na sua condição de agregada, ainda inferior à situação de Guiomar.

Percebemos, então, que, na pintura do caráter de Guiomar, Machado não economizou na tinta da ambição nem da inteligência, tampouco da força. Apesar de ser jovem, Guiomar possui uma grande capacidade de percepção da realidade e muita vontade e empenho no sentido de atingir seus objetivos. O que faz H. Pereira da Silva criticar o excesso de maturidade do pensamento da moça18 e Agrippino Grieco não entender o amor de Guiomar nascido do cálculo19.

É preciso notar que uma grande parte das personagens femininas de Machado de Assis apresenta uma postura altiva em relação às masculinas e, principalmente, demonstram certo empenho em realizar sua vontade. De acordo com Therezinha Mucci Xavier, no livro A personagem feminina no romance de Machado de Assis:
Os principais atributos do papel feminino que predominaram no século XIX foram a passividade, dependência, emocionalidade. No que se refere aos parâmetros exigidos como ideais para a mulher tradicional, (...) além de outros, ressalta o amor, o casamento, a virgindade, a modéstia, a submissão voluntária. Esses foram os valores que a civilização liberal cristã-burguesa ofereceu à mulher20.
Apesar de algumas vezes vermos as mulheres machadianas com uma imagem de fragilidades, frivolidade, como belas e vaidosas, elas não tiveram a vontade anulada nem cultivaram o espírito de sacrifício e abnegação. Arrisca-se a dizer que, muitas vezes, são apresentadas com características mais marcantes que as masculinas, com atitudes seguras e cheias de força moral.

Fazendo um sobrevôo pelos nove romances, percebemos que Guiomar não está sozinha na sua postura altiva.

Em Ressurreição, conhecemos Félix, homem desconfiado a ponto de ter “dúvidas póstumas”, e Lívia, mulher viúva e rica, o que a coloca em uma situação de maior experiência e com certa liberdade social. No início da trama, Félix não a deixa falar e ela parece suportar com resignação suas decisões. No final, ela abandona a atitude de donzela fragilizada e toma a frente no rompimento dos laços amorosos. Helena, usando docilidade e inteligência, consegue exercer influência em todos. Está sempre trabalhando para a harmonia: conduz Estácio ao casamento com Eugênia, procura organizar o seu próprio, ajuda D. Úrsula e olha pelo pai. Iaiá Garcia manipula Jorge, Estela e Procópio Dias com o objetivo de manter a paz e a alegria de seu pai. Iaiá demonstra grande habilidade no jogo de relações sociais que a cerca, perdendo apenas para Guiomar porque, ao contrário da heroína de A mão e a luva, acaba se apaixonando e sofrendo. Para Therezinha Mucci Xavier, “ela reflete a influência moderna, casando-se por amor e não pelo lustre de família.”21

Em Memórias póstumas de Brás Cubas, Virgília casa-se com quem promete lhe fazer marquesa. Consegue de Lobo Neves a consideração pública e de Brás Cubas, o amor. Marcela é independente e manipula seus amantes para conseguir presentes, jóias e dinheiro. Até Eugênia tem uma postura altiva para com Brás Cubas por não aceitar seu amor por compaixão. Em Quincas Borba, Sofia aceita ser uma peça fundamental do jogo armado por Palha e desempenha seu papel mantendo Rubião em suas mãos. Em Dom Casmurro é o próprio Bentinho quem retrata Capitu com forte, corajosa, independente e como capaz de manipulá-lo. Ao mesmo tempo, ele se coloca como fraco, dependente de sua mãe e a ela devotado. Para os parâmetros da época, quem assume as características tradicionalmente masculinas, então, parece ser Capitu.

Passando a Esaú e Jacó, encontra-se Flora, uma criatura dividida e com grande dificuldade de optar. Mas vale ressaltar, sua postura não acontece em decorrência de qualquer motivo exterior ou imposição social; não escolhe porque isso representa alguma perda. Por outro lado, D. Cláudia é forte e resoluta, emprestando sua vontade e razão a Batista. E Natividade cria seus gêmeos para serem “grandes”. No último romance de Machado, observamos com D. Carmo uma outra forma de influência: ela é a esposa amorosa que promove o marido com afeto. Também é preciso falar da vontade firme de Fidélia. Ela rompe com o pai que não deseja vê-la casada com o filho de um inimigo.

Como Estela, Iaiá Garcia, Capitu e Virgília, Guiomar é dotada de inteligência, força de vontade e iniciativa para a concretização de seus planos, o que leva o narrador de A mão e a luva a definir as atitudes de Guiomar, mais de uma vez como a “expressão de um gênio imperioso e voluntário”22.

Ressaltamos que isto está longe de ser uma reprovação por parte do narrador. O comportamento da heroína, que parece condenável, foi apresentado como sendo justamente o recomendável. Roberto Schwarz, em Ao vencedor as batatas, chama atenção que em A mão e a luva “a terminologia do cinismo e da virtude é levada a coincidir, e o comportamento condenado é exatamente o que convém”23. É em Guiomar que esse antagonismo é mais fortemente apresentado. Ela procura de todas as formas substituir a filha perdida da baronesa, mas com afeto sincero. Caso dissimule, é com o intuito de evitar aflição de quem a ama. Até seus cálculos não se opõem ao seu coração:
Guiomar amava deveras. Mas até que ponto era involuntário aquele sentimento? Era-o até o ponto de lhe não diminuirmos a força de suas faculdades afetivas. Até aí só; daí por diante entrava a fria eleição do espírito. Eu não a quero dar como uma alma que a paixão desatina e cega, nem fazê-la morrer de um amor silencioso e tímido. Nada disso era, nem faria. Sua natureza exigia e amava essas flores do coração, mas não havia esperar que as fosse colher em sítios agrestes e nus, nem nos ramos do arbusto modesto plantado em frente de janelas rústicas. Ela queria-as belas e viçosas, mas em vaso de Sèvres, posto sobre móvel raro, entre duas janelas urbanas, flanqueando o dito vaso e as ditas flores pelas cortinas de caxemira, que deviam arrastar as pontas da alcatifa do chão24.
Todas essas atitudes e traços de Guiomar que seriam reprováveis são anuladas, ou melhor, positivadas pelo narrador25. Guiomar é desenhada, antes de tudo, como uma personagem positiva, é a heroína que vence pela razão e que se encontra em desvantagem num mundo fechado, onde o cálculo é sua única arma de defesa.
2. Guiomar e seus pretendentes
Seguindo seu intuito de delinear em especial o caráter de Guiomar, Machado de Assis faz com que o narrador esclareça as boas intenções da moça em atitudes duvidosas. O autor ainda faz com que o narrador mostre características da heroína somente visíveis através da perspectiva de cada um de seus pretendentes.

Estevão é apresentado como um apaixonado “chorão”. Já no primeiro capítulo é traçado o perfil do rapaz que será reafirmado por todo o livro: “Estevão, dotado de extrema sensibilidade, e não menor fraqueza de ânimo, afetuoso e bom, não daquela bondade varonil, que é apanágio de uma alma forte, mas dessa outra bondade mole e de cera, que vai a mercê de todas as circunstâncias (...).”26

O rapaz é a representação do amor romântico. Tal associação ainda é reforçada ao colocá-lo lendo justamente Werther, no início da trama. Entretanto, sua fraqueza de espírito, muitas vezes reafirmada durante o romance, está clara especialmente por nem conseguir ser completamente romântico. Estevão esquece a amada quanto está de volta em São Paulo e nunca consegue levar até o fim seus planos de morrer por amor. Sua postura é, inclusive, classificada como infantil: “Ele foi daqui com os olhos enxutos, distraindo-se dos tédios da viagem com alguma pilhéria de rapaz, – rapaz outra vez, como dantes.”27; e adiante: “Estevão era mais ou menos o mesmo homem de dous anos antes. Vinha cheirando aos cueiros da academia (...).”28 Estevão em seu romantismo cego ainda é ridicularizado. Umas das passagens mais explícitas é a resposta de Guiomar à sua romântica declaração: “– Dou-lhe um conselho, seja homem, vença-se a si próprio; seu grande defeito é ter ficado com alma de criança.”29

Apenas sob a perspectiva deste jovem romântico, o narrador encontra espaço para falar da beleza superior de Guiomar.


(...) um perfil correto e puro, como de escultura antiga. Via-lhe a face cor de leite, sobre a qual se destacava a cor escura dos cabelos, (...) a graça do talhe, que devia ser elegante, dessa elegância que nasce com a criatura ou se apura com a educação, sem nada pedir ou pedindo pouco à tesoura da costureira.(...)

Valia a pena, entretanto, contemplar aqueles grandes olhos castanhos, meio velados pelas longas, finas e bastas pestanas, não maviosos nem quebrados, como ele os cuidara ver, mas de uma beleza severa, casta e fria. Valia a pena admirar como eles comunicavam a todo o rosto e a toda a figura um ar de majestade tranqüila e senhora de si (...), tanto a arte parecia haver colaborado com a natureza naquela criatura, meia estátua e meia mulher. (...)

Estevão, apanhado em flagrante delito de admiração, não da flor mas da mão que a sustinha, – uma deliciosa mão, que devia ser por força a que se perdeu da Vênus de Milo.30
E se sua descrição deixa transparecer algo de musa idealizada e inatingível, lembremos que é apenas a esta Guiomar que o rapaz tem acesso. Guiomar não lhe dava qualquer esperança, era a imaginação que “multiplicava os zeros”31.

Jorge era o pretendente mais repelido pela moça e Machado nos faz acompanhá-la em sua repugnância, pintando um rapaz não feio, mas em que “a arte estragava um pouco a obra da natureza”, com modos pomposos, arrumado com excessivo esmero e, por fim, com olhos que “seriam mais belos, se ele não os movesse com afetação, às vezes feminina”32. Era “um homem, cuja ridiculez compensava algumas qualidades boas.”33

O sobrinho da baronesa vivia da herança de seus pais, não conhecendo outra ocupação. O que oferecia a Guiomar não era mais que uma vida vegetativa e inexpressiva, oferecia a perpetuação de sua situação de favor para com a família da baronesa colocando em evidência a faceta que Guiomar mais tentava esquecer: sua situação de agregada. A partir deste instante, aflora a razão das angústias de Guiomar e a justificativa de seu comportamento calculista. Jorge coloca em dúvida se seria conveniente ao lustre da família casar-se com a moça, o que a baronesa descarta, tomando-a como filha. Também é partindo da gratidão de Guiomar à baronesa que Mrs. Oswald arquiteta seu plano: “O plano consistia em ir Jorge pedir a moça à baronesa, em presença dela própria. A Baronesa, que nutria o desejo de os ver casados, não deixaria de fazer pesar seu voto na balança (...).”34 Jorge, da sua confortável posição de quem presta o favor ao agregado, compreende onde Mrs. Oswald quer chegar e executa o plano, consciente da sua situação favorável. O resultado da intriga é o sentimento de humilhação de Guiomar, que há bastante tempo não é uma “simples herdeira da pobreza de seus pais”35, ela age e responde à situação como uma aristocrata:
Nenhuma consulta, nenhuma autorização prévia; parecia-lhe que a tratavam como ente absolutamente passivo, (...).

(...) não esquecia os benefícios recebidos, mas quisera que lhos não lembrassem por meio de uma violência: faze-lo, era o mesmo que lançar-lhos em rosto.

– Não! Murmurava enfim a moça, forçar-me, reduzir-me à condição de simples serva, nunca36.
Luís Alves é o ultimo a se declarar pretendente, na trama. Inicialmente o caráter do rapaz é revelado em comparação ao de Estevão, que chega a ser cômico em contraste com a inteligência clara e a força valorizadas em Luís Alves e Guiomar. Desde sua primeira descrição, quando ainda era estudante de Direito, o narrador assinala a diferença dos rapazes. Luís “tinha o seu grão de egoísmo, e se não era incapaz de afeições, sabia regê-las, moderá-las, e sobretudo guiá-las ao seu próprio interesse.”37 Durante a trama, esta racionalidade, superior aos sentimentos, vai sendo reafirmada:
Luís Alves admirou-se de o ver; não foi com um espanto de seis dias, como devera ser, mas de quarenta e oito horas, quando muito. Que admira? A preocupação de Luís Alves por aqueles dias era a candidatura eleitoral (...). Ora, em boa razão, um homem que está prestes a ser inscrito nas tábuas do Parlamento, não pode cogitar muito dos amores de um rapaz, ainda que o rapaz seja amigo e os amores verdadeiros38.
Da metade para o final do romance, o foco do narrador é cada vez mais recorrente sobre Luís Alves. Revela-se um homem que conhece os códigos de comportamento social e sabe usá-los em seu favor, como nesta passagem: “toda a arte em suma de tratar os homens, de os atrair e de os namorar, que ele aprendera cedo e que lhe devia aproveitar mais tarde na vida pública.”39 À inteligência vão se somando outros atributos como a observação, o cálculo, a presença de espírito e, ainda, a capacidade de dissimulação e domínio dos sentimentos. Estamos diante do espelho de Guiomar, e não poderia ser diferente, ou não seriam a mão e a luva.

Se o cálculo e a dissimulação estão associados à moça desde o princípio, é a partir do momento que o advogado torna-se pretendente que a ambição da moça torna-se explícita: “– Não há dúvida; é uma ambiciosa.”40 E logo adiante ele próprio será definido assim: “Amor um pouco sossegado, não louco e cego como o de Estevão, não pueril e lascivo como o de Jorge, um meio-termo entre um e outro, – como podia havê-lo no coração de um ambicioso.”41 (nosso grifo) Sabemos que ele é o escolhido de Guiomar, pois, “em torno dele ia fazer-se aquela luz, que era a ambição da moça, a atmosfera, que ela almejava respirar.”42. A partir daí, aparecem várias aproximações textuais entre Luís e Guiomar, algo que não ocorre em relação aos outros dois pretendentes:





“Ela queria um homem que (...) sentisse dentro de si a força bastante para subi-la aonde a vissem todos os olhos.” (ASSIS, 1975, p.130)

“Estava Luís Alves deputado”.(ASSIS, 1975, p.135)

“No rosto de Guiomar podemos nós ler (...) a expressão de um gênio imperioso e voluntário.” (DE ASSIS, 1975, p.124)

“Luís Alves compreendera toda a expressão nos olhos de Guiomar; era, porém, homem frio e resoluto.” (DE ASSIS, 1975, p.126)

“A primeira impressão fora profunda, mas Guiomar tinha força bastante para dominar-se e fechar todo o sentimento no coração.” (DE ASSIS, 1975, p.134)

“Esta presença de espírito de Luís Alves ia muito com o gênio de Guiomar; era um laço de simpatia.” (DE ASSIS, 1975, p.126 §540) e “Nem o gesto da moça, nem a surpresa das outras pessoas perturbou o advogado; Luís Alves inclinou-se para o mocho, como a consertá-lo”. (DE ASSIS, 1975, p.133-134)

“Guiomar amava deveras. (...) Era-o até o ponto de lhe não diminuirmos a força de suas faculdades afetivas. Até aí só; daí por diante entrava a fria eleição do espírito.” (DE ASSIS, 1975, p.138, nosso grifo)

“Esta incerteza abalou-o mais do que ele supunha; e foi, sem dúvida, a primeira ocasião em que sentiu que a amava deveras, ainda que o seu amor fosse como ele mesmo: plácido e senhor de si.” (DE ASSIS, 1975, p.135, nosso grifo)

Por fim, se Guiomar inúmeras vezes é flagrada utilizando o cálculo, Luís Alves prende-se ao método. Ambos análogos na representação da racionalidade dessas personagens, na expressão de sua capacidade de participar ativamente do jogo de interesses do ambiente social em que vivem. As semelhanças narradas até o final colocam os dois em harmonia e prepara o desfecho inevitável em que as duas ambições se uniram e “trocaram o ósculo fraternal43 (nosso grifo).

Vale ressaltar que, além do narrador assumir a perspectiva dos pretendentes para nos mostrar várias facetas de Guiomar, ele ainda cede lugar à própria moça para que se apresente por ela mesma:


  • (...) Nunca vulgarizei meu espírito. (...)

Saiba pois que sou muito senhora da minha vontade, mas pouco amiga de a exprimir, quero que me adivinhem e obedeçam; sou também um pouco altiva, às vezes caprichosa, e por cima de tudo isto tenho um coração exigente.44
Guiomar era uma jovem solteira e, ainda, agregada, categoria social típica do século XIX brasileiro e personagem contumaz no romance machadiano, cuja figuração maior encontra-se no agregado José Dias, em Dom Casmurro. Não é verdade que, em alguma medida, ao apresentá-la pela perspectiva de seus pretendentes, o narrador está ratificando sua condição social? Por isso mesmo, destacamos esta passagem, pois a auto-apresentação de Guiomar acompanha justamente o momento em que, por esforço da própria heroína, ocorre a superação dessa condição: ela se casará com o pretendente que ela escolheu, deixará de ser agregada e não perderá status social. Mais que um contraste de caracteres, vemos assim surgir no romance o percurso de “emancipação” de Guiomar.

A apresentação de Guiomar por tantas facetas torna complexa sua compreensão. H. Pereira da Silva, ao criticar o excesso de maturidade do pensamento da moça, e Agrippino Grieco, ao não entender o amor de Guiomar nascido dos cálculos, mostram que não houve uma sensibilidade para perceber a forma de apresentação da personagem neste romance. Como personagem de ficção, Guiomar não pode ser avaliada por sua equivalência a uma jovem da segunda metade do século XIX, mas por seu estado de desenho de caráter, que apesar de pintado não convencionalmente pelo autor, não é inverossímil.

Existe, de fato, uma excessiva preocupação em desvendar Guiomar, tendo o narrador não apenas a preocupação de mostrar suas características e ações, mas inclusive de interpretá-las para o leitor. Lembremos que Anatol Rosenfeld, em “Literatura e personagem”, aponta esse detalhamento que constrói a aparência de verdade como aquilo que mais caracteriza a ficção: “É paradoxalmente esta intensa ‘aparência’ de realidade que revela a intenção ficcional ou mimética. (...) É porém a personagem que com mais nitidez torna patente a ficção, e através dela a camada imaginária se adensa e se cristaliza.”45


3. Guiomar e a princesa
Curiosamente, encontramos na estória de Guiomar ecos da trama do romance A princesa de Clèves, de Madame de Lafayette. Dois século antes de Machado de Assis, a escritora francesa abordou o conflituoso tema da escolha de um casamento pela razão e não pelo amor e o quanto este evento estava relacionado com a colocação social de uma moça.

O romance francês é publicado em 1678, na revista Mercure Galant, sem a assinatura da autora. Teve várias reedições e adaptações para teatro e cinema. Como pano de fundo ocorre a descrição complexa das relações pessoais na corte de Henrique II, na França do século XVI. O livro é tomado pelo desenrolar da trama de interesses pessoais e políticos, onde está em jogo favoritismo e poder, que se estabelecem através das associações, da ligação à pessoa certa. São verdadeiros grupos de força que se formam na corte de Henrique II, onde o casamento e a galantaria aparecem como meio eficaz de estabelecer posição social.


A ambição e a galantaria eram a alma da corte e ocupavam igualmente a atenção dos homens e das mulheres. Havia tantos interesses e cabalas, com a participação das senhoras, que o amor sempre se misturava aos negócios e os negócios ao amor. Ninguém se sentia tranqüilo ou indiferente. Pensava-se em se elevar, em agradar, em servir ou prejudicar. Ninguém conhecia tédio ou ociosidade: havia sempre prazeres ou intrigas. As senhoras se apegavam particularmente à rainha, à rainha-delfina, à rainha de Navarra, à irmã do rei ou à duquesa de Valentinois46.
A princesa é uma jovem de 16 anos, de beleza perfeita e severamente educada pela mãe, casa-se com um fidalgo que a ama perdidamente, enquanto ela apenas o estima. Pouco tempo depois desse casamento definido pela razão, a jovem apaixona-se por um nobre sedutor que a corteja insistentemente. Tal sentimento leva a princesa a um profundo conflito consigo mesma, com seu marido e com a sociedade.

A princesa de Clèves é apresentada como alguém que não conhece o código da vida na corte, ou, pelo menos, que não sabe manipulá-lo: “Havia assim uma espécie de agitação sem desordem na corte que a tornava agradável, mas também perigosa a uma pessoa jovem.”47 Inicialmente, a responsável pela direção de seu comportamento e pela instrução a respeito da corte é sua mãe, a Senhora de Chartres. Entretanto, sua morte deixa a princesa sem o apoio necessário para a vida na corte. A incapacidade da princesa de lidar com o complexo jogo de interesses, ao mesmo tempo políticos e amorosos, chega à conseqüência máxima de confessar-se ao marido apaixonada por outro homem.


– Pois bem – disse ela, caindo de joelhos –, vou fazer uma confissão que nunca se fez a um marido. Mas a inocência de meu comportamento e de minhas intenções me dá força. É verdade que tenho motivos para afastar da corte e desejo evitar os perigos que às vezes rondam as pessoas da minha idade. Jamais dei provas de fraqueza. Nem as aparentaria se ganhasse a liberdade de me afastar ou se ainda tivesse minha mãe para me valer. Por mais arriscada que seja esta minha resolução, tomo-a com alegria para me conservar digna de meu marido. Peço-lhe mil perdões se tenho sentimentos que o desagradam. Ao menos, nunca o desagradarei pelos meus atos. Pense que para fazer o que faço é preciso muita amizade e estima por um marido como jamais se teve. Tenha piedade de mim, ama-me ainda, se puder48.
O conflito da princesa é algo tomado como bastante estranho às práticas amorosas usuais da corte. Sobre o amor, a paixão e a inclinação, havia praticamente um acordo tácito de que poderiam ser satisfeitos independente do casamento. O prenúncio da falta de sucesso do casamento do príncipe de Clèves é justamente o fato de ele acreditar que conseguiria mais que a união com um bom partido, conseguiria a felicidade no amor. Da mesma forma, a culpa da princesa é justamente por não corresponder ao marido: “Ela não sabia o que responder. (...) O príncipe percebia o quanto ela estava longe de nutrir por ele sentimentos que poderiam satisfazê-lo.”49 E mais adiante: “A senhora é minha mulher, amo-a como se fosse uma amante e a vejo, no entanto, amar outro.”50

O casamento é apresentado como o objetivo maior de todas as mulheres da corte, inclusive da senhorita de Chartres. Mas este casamento devia ser com um homem de expressão, de preferência com um primogênito de uma casa ilustre, ou seja, devia ser uma união de conveniência social. Parece não haver muita distancia da corte francesa de Henrique II para a alta sociedade carioca do segundo reinado.

Como em A mão e a luva, o romance de Madame de Lafayette traz a representação da complexa relação pessoal em um ambiente fechado em que estão em relevo o favoritismo, o poder e em que o casamento é uma arma e não uma experiência amorosa. Ressalta-se, ainda, que tanto a princesa como Guiomar estabelecem um percurso rumo à independência: Guiomar trabalha no rompimento dos laços de favor que a ligam à baronesa, alcançando a imposição de sua vontade e o estabelecimento de uma situação social favorável; a princesa caminha em direção à construção de sua interioridade e sua autodireção, independentemente da mãe ou do marido.

Ao mesmo tempo são personagens antagônicas, não apenas porque, ao contrário da princesa, Guiomar consegue aliar o amor à razão no casamento com Luís Alves. Mas, porque a princesa, além de agir com insegurança em sociedade, ela progressivamente, durante a trama, vai se afastando do ambiente da corte em um movimento de rejeição de participação do seu jogo. Por sua vez, Guiomar, conhece muito bem os códigos do mundo em que vive e os manipula. Ela também está em um mundo fechado e sabe que precisa estabelecer as ligações devidas para romper com sua situação de agregada. É capaz de calcular tão bem as ações essenciais à realização de seu objetivo que agencia seu próprio casamento: “um bom negócio”, tanto para ela quanto para o noivo.

Com relação às soluções narrativas também é possível estabelecer um curioso paralelo. A princesa de Clèves é considerado o primeiro romance moderno da literatura francesa e é caracterizado como um romance psicológico. Ao contrário de interromper a ação para que as personagens se analisassem, Madame de Lafayette faz com que esses momentos se tornem parte da progressão da trama e essenciais para o desenrolar da narrativa. O narrador onisciente, relator de fatos e ações, muitas vezes abandona esta postura para cuidar do universo interior das personagens. E, já a caminho do final do romance, quando a tensão é maior e os conflitos da princesa parecem se tornar mais complexos, o narrador se mistura ao pensamento das personagens chegando a passar da terceira para a primeira pessoa em algumas passagens:
Espantou-se de não haver ainda pensado como era pouco verossímil que um homem como o senhor de Nemours, considerado leviano no trato com as mulheres, fosse capaz de afeto sincero e durável. Achou que era quase impossível se contentar com sua paixão. Mas, perguntava-se, que farei se me apaixonar? Sofrerei? Corresponderei? Quero me comprometer com uma galantaria? Enganar o senhor de Clèves? Enganar a mim mesma? Expor-me, enfim, aos cruéis arrependimentos e às dores morais do amor? Fui vencida e ultrapassada por uma inclinação que me arrasta contra a vontade. Todas as minhas resoluções são inúteis. Planejei ontem tudo o que faria hoje e faço hoje o contrário do que resolvi ontem. Tenho de evitar a presença do senhor de Nemours. Tenho de ir para o campo, por mais estranha que a viagem pareça. Se o senhor de Clèves se obstinar em impedir a viagem ou em conhecer os motivos, talvez lhe dê o desgosto, e a mim também, de contar a verdade.

Manteve-se nessa determinação e ficou em casa toda a tarde(...)51.


Paralelamente, em A mão e a luva, vemos o narrador emprestar seu lugar aos pretendentes e a própria Guiomar na apresentação da moça. À medida que os outros personagens ganham definição, logo conhecemos mais uma faceta da heroína, somente revelada na perspectiva da personagem em foco. E, assim, conhecemos a Guiomar como perfeita musa romântica; em seguida como agregada que deseja romper os laços de favor; e como a mulher ideal para um homem público forte, ambicioso e de futuro. Tal configuração da personagem que a princípio pareceria fragmentária tem, ao contrário do que se espera, um efeito harmonioso ao longo do romance, em decorrência do fato de serem, na verdade, quadros diferentes de uma mesma mulher, vista por mais de um ângulo, inclusive por ela mesma. Machado cumpre a promessa do prefácio de tomar como objeto principal a pintura do caráter de Guiomar. A ação que se desenrola sobre o agenciamento do casamento da afilhada da baronesa “cabe como uma luva” para que o autor lançasse os contornos dos perfis e mostrasse o percurso de um caráter forte a caminho da sua libertação.

Como foi visto, Guiomar faz parte de um instigante grupo de personagens femininas de Machado de Assis, entretanto vale assinalar que a complexidade de sua construção a coloca no rol de importantes personagens femininas da literatura, do qual faz parte justamente a princesa de Clèves. Arrisca-se a dizer que, agora, é Machado de Assis e Madame de Lafayette que se aproximam, aceitando o desafio de voltar ao tema das ligações amorosas e de falar de todas as implicações que podem cercar o casamento de uma jovem. Os cenários sociais pintados curiosamente se aproximam muito, apesar de estarem separados por dois séculos. Ambos os autores conseguiram sensíveis abordagens e novas soluções narrativas, que fazem das obras objetos obrigatórios no estudo do romance.


Referência Bibliográfica
ASSIS, Joaquim Maria Machado de. A mão e a luva. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Brasília: INL, 1975.
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______. Dom Casmurro. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Brasília: INL, 1975.
______. Quincas Borba. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Brasília: INL, 1975.
______. Esaú e Jacó. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Brasília: INL, 1975.
______. Memorial de Aires. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Brasília: INL, 1975.
GRIECO, Agrippino. Machado de Assis. Rio de Janeiro: Conquista, 1960.
LAFAYETTE, Madame de. A princesa de Clèves. Rio de Janeiro: Record, 2004.
MACHADO, Ubiratan. Machado de Assis: roteiro de consagração. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2003.
ROSENFELD, Anatol. “Literatura e Personagem”. CÂNDIDO, Antônio, ROSENFELD, Anatol, PRADO, Décio de Almeida e GOMES, Paulo Emílio Salles. A personagem de ficção. São Paulo: Ed. Perspectiva, 1976.
SCHWARZ, Roberto. Ao Vencedor as Batatas. São Paulo: Duas cidades, 1977.
SILVA, H. Pereira da. Sobre os romances de Machado de Assis (ensaio crítico). Rio de Janeiro: Sociedade Editora e Gráfica Ltda, s/d.
STEIN, Ingrid. Figuras femininas em Machado de Assis. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1984.
XAVIER, Therezinha Mucci. A personagem feminina no romance de Machado de Assis. Rio de Janeiro: Presença, 1986.


1 Machado de Assis. A mão e a luva. Rio de Janeiro/Brasília: Civilização Brasileira/INL, 1975, p. 57.

2 Ubiratan Machado. Machado de Assis: roteiro da consagração. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2003, p. 14.

3 Machado de Assis. op. cit., 1975, p. 57.

4 Machado de Assis. Ressurreição. Rio de Janeiro/Brasília: Civilização Brasileira/INL, 1975, p. 61.

5 Therezinha Mucci Xavier. A personagem feminina no romance de Machado de Assis. Rio de Janeiro: Presença, 1986, p. 50.

6 Machado de Assis. A mão e a luva. Rio de Janeiro/Brasília: Civilização Brasileira/INL, 1975, p. 83.

7 Therezinha Mucci Xavier. Op. cit., p. 27.

8 Machado de Assis. Memórias póstumas de Brás Cubas. Rio de Janeiro/Brasília: Civilização Brasileira/INL, 1977, p. 152.

9 Machado de Assis. A mão e a luva. Rio de Janeiro/Brasília: Civilização Brasileira/INL, 1975, p. 138.

10 Idem, p. 130.

11 Ingrid Stein. Figuras Femininas em Machado de Assis. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1984, p. 66.

12 Machado de Assis. Memórias póstumas de Brás Cubas. Rio de Janeiro/Brasília: Civilização Brasileira/INL, 1977, p. 242.

13 Machado de Assis. Helena. Rio de Janeiro/Brasília: Civilização Brasileira/INL, 1975, p. 104.

14 Machado de Assis. A mão e a luva. Rio de Janeiro/Brasília: Civilização Brasileira/INL, 1975, p. 162.

15 Idem, p. 162.

16 Ibidem, p. 131.

17 Idem, p. 128.

18 “Guiomar pensa com muita maturidade. Faz lembrar Helena que, com dezesseis anos, encontra uma definição para o medo, superior a de qualquer grande psicólogo (...)”. (H. Pereira da Silva. Sobre os romances de Machado de Assis (ensaio crítico). Rio de Janeiro: Sociedade Editora e Gráfica ltda., s/d, p. 26.)

19 “E a conversão brusca de Guiomar, que vai dos cálculos à paixão desbordante, não é apresentada com as nuanças necessárias.” (Agripino Grieco. Machado de Assis. Rio de Janeiro: Conquista, 1960, p.39)

20 Therezinha Mucci Xavier. Op. cit., p. 31.

21 Idem, p. 39.

22 Machado de Assis. A mão e a luva. Rio de Janeiro/Brasília: Civilização Brasileira/INL, 1975, p. 124.

23 Roberto Schwarz. Ao vencedor as batatas. São Paulo: Duas cidades, 1977, p. 74.

24 Machado de Assis. A mão e a luva. Rio de Janeiro/Brasília: Civilização Brasileira/INL, 1975, p. 138.

25 Neste estudo, apenas assinalamos esta atitude do narrador. As reflexões sobre esta postura e a reação de seu público leitor ficarão para trabalhos futuros. Entretanto sugerimos ver o livro Os Leitores de Machado de Assis, de Helio de Seixas Guimarães (São Paulo: Edusp/Nankin Editorial, 2004).

26 Machado de Assis. A mão e a luva. Rio de Janeiro/Brasília: Civilização Brasileira/INL, 1975, p. 61.

27 Idem, p. 64.

28 Ibidem, p. 66.

29 Idem, p. 99.

30 Ibidem, p. 70, 72 e 74.

31 Idem, p. 94.

32 Ibidem, p. 93.

33 Idem, p. 108.

34 Ibidem, p. 139.

35 Idem, p. 79.

36 Ibidem, p. 147.

37 Idem, p. 61.

38 Ibidem, p. 118-9.

39 Idem, p. 122.

40 Ibidem, p. 120.

41 Idem, p. 124-5.

42 Ibidem, p. 138.

43 Idem, p. 162.

44 Ibidem, p. 158.

45 Anatol Rosenfeld. “Literatura e personagem”. In. A personagem de ficção. São Paulo: Perspectiva, 1976, p. 20-1.

46 Madame de Lafayette. A Princesa de Clèves. Rio de Janeiro: Record, 2004, p. 34-5.

47 Idem, p. 35.

48 Ibidem, p. 122.

49 Idem, p. 41.

50 Ibidem, p. 153.

51 Idem, p. 119.





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