Há 24 anos, meu trabalho é com adolescentes (Ensino Médio), em um Colégio Estadual



Baixar 65.23 Kb.
Encontro01.01.2018
Tamanho65.23 Kb.




  1. INTRODUÇÃO

Há 24 anos, meu trabalho é com adolescentes (Ensino Médio), em um Colégio Estadual. Nesse meio tempo, já tive experiências, as mais diversas, com outras faixas etárias em uma escola particular (tanto em aulas de Educação Física, com jogos desportivos, recreativos, psicomotores, como, até mesmo, dança-educação), onde me foi dada a oportunidade de vivenciar aulas desde a Educação Infantil, passando pelo Ensino Fundamental, Ensino Médio e Ensino Supletivo. Também tive doze anos de experiência em natação, com as mais variadas faixas etárias. Atualmente além do Ensino Médio, trabalho com outro grupo Supletivo (6ª a 9ª anos), desta vez em escola pública, onde percebo a mesma problemática que já venho observando em muitos dos meus adolescentes que não experimentaram grandes possibilidades de movimento.

Ao longo desse tempo, percebi o quão difícil é, principalmente para os adultos, viverem integralmente sua corporeidade. Dentre estes, ocupam lugar de destaque as meninas com as quais trabalhei no Ensino Supletivo (particular) – chegaram à vida adulta sem conhecerem a si mesmas, suas possibilidades, seus potenciais.

Pesquisar corporeidade surgiu de uma necessidade particular de entender seu real conceito e abrangência (afinal, o que é essa tal corporeidade?), ao que percebi, com o início de minha busca, que “essa tal corporeidade” iria ajudar, e muito, no trabalho com meus adolescentes e meus “supletivandos”.

É interessante perceber, junto ao Ensino Médio, como a Rede Pública de Ensino apresenta discrepâncias em seu atendimento às necessidades de movimento de seus educandos – ao mesmo tempo em que vemos chegar às nossas turmas alunos que visivelmente receberam ótimas oportunidades para explorar seu potencial motriz, também vemos chegar até nós outros que aparentam estar “dentro de casulos”, incapacitados de realmente relacionarem-se com o outro e com o mundo, incapacitados de descobrirem o seu Ser-no-Mundo.

Fala-se muito de corpo hoje em dia, mas poucos realmente entendem o que vem a ser a real práxis do viver deste corpo. O termo corporeidade entrou em nossa linguagem, como se possuísse uma simbologia de fácil interpretação, nos levando a um único pensamento. O que é o corpo? É meramente uma máquina bioquímica que responde aos comandos de um “computador central”, chamado cérebro? Ou é o instrumento de expressão de um ser desejante, que se coloca no mundo e para o mundo através de sua corporeidade?

Logo que ingressei em minha Pós em Psicomotricidade, já querendo pesquisar acerca da tal corporeidade, indaguei a um de nossos professores sobre a possível indicação de uma bibliografia ao que ele respondeu-me – “Comece estudando Wallon...” Logo após, nos foi ministrado qual teórico? WALLON!!

Ao estudar Wallon, pude perceber as semelhanças entre o desenvolvimento da corporeidade e as etapas de desenvolvimento da criança por ele descritas. Assim como Wallon, Piaget e Vygotsky adentram por este caminho também, cada um com suas características marcantes, sejam genéticas ou sociais, o que me levou a crer que, na realidade, o desenvolvimento da corporeidade é o desenvolvimento para a vida e, por que não dizer, da própria vida.

E, qual não foi minha surpresa ao deparar-me com os ensinamentos trazidos pela disciplina Fundamentos da Psicanálise! Tudo que vi sobre o desenvolvimento do Eu com os autores construtivistas cabe perfeitamente dentro das teorias apresentadas. É bem verdade que a Psicanálise possui um aprofundamento maior em determinadas questões, pois, afinal, se não o fosse, não seria a Psicanálise... Mas, enfim, em minha visão, tudo isso é Corporeidade!


  1. UM POUQUINO DE WALLON

Para Wallon, “o homem é um ser geneticamente social” – tem toda a estrutura para ser um ser humano, mas lhe falta o alimento cultural, que é composto pela linguagem e pela própria cultura em si – se não lhe for dado esse alimento, ele não se tornará humano.

Sendo assim, o processo de desenvolvimento da criança, da construção do seu Eu, em minha visão de Wallon, deverá ser um grande processo de “alimentação cultural”, no qual o Outro e o Meio-Ambiente possuem um papel primordial.

Segundo Wallon, o sujeito constrói-se nas suas interações com o meio1, sendo que o Outro é um parceiro perpétuo na vida psíquica2 do indivíduo e a dominância do caráter afetivo e, conseqüentemente, das relações com o mundo humano, correspondem às etapas que se prestam à construção do Eu, num permanente processo de integração e diferenciação3.

De acordo com essa teoria, então, o processo de desenvolvimento da criança é um processo de diferenciação, que leva a criança de ser indiferenciado a diferenciado, considerando os domínios afetivo, cognitivo e motor. A psicogênese walloniana nos diz que esse é um processo que tem origem no nascimento, é realizado entre o orgânico e o social, é dinâmico e complexo.

Wallon admite o organismo como condição primeira do pensamento, afinal toda função psíquica supõe um equipamento orgânico. Adverte, contudo, que não lhe constitui uma razão suficiente, já que o objeto da ação mental vem do exterior, isto é, do grupo ou ambiente no qual o indivíduo se insere. Entre os fatores de natureza orgânica e os de natureza social as fronteiras são tênues, é uma complexa relação de determinação recíproca. O homem é determinado fisiológica e socialmente, sujeito, portanto, a uma dupla história, a de suas disposições internas e a das situações exteriores que encontra ao longo de sua existência. (Galvão, 2005: 29).
O processo começa com o ser indiferenciado – a criança se percebe misturada ao meio, ou melhor, ela não se percebe, pois não sabe o que ela é nem o que ela não é – o Eu e o Outro estão misturados, indiferenciados. Através dos estágios do desenvolvimento, com o alimento cultural adequado, a criança irá conquistando sua diferenciação – o tornar-se indivíduo, ou seja, não dividido, mas um todo, um Ser-no-Mundo, uno, em um processo não linear, que comporta avanços, retrocessos, estagnações, contradições, conflitos. Onde toda a atividade infantil está relacionada aos campos funcionais (emoção, cognição, movimento) que se tornam predominantes, um em relação aos outros, dependendo do estágio, e que dependem estritamente do tal “alimento cultural”, fornecido pelo Outro.

Cada um dos estágios que se sucedem nesse processo está ligado ao amadurecimento do sistema nervoso, sendo que a seqüência de maturação é igual para todas as crianças, independente de cultura e estímulos. O que vai variar é a duração que, esta sim, irá depender da cultura em que a criança está inserida e dos estímulos fornecidos à mesma, tendo a ver com as condições materiais do desenvolvimento, ou seja, com os contextos do desenvolvimento desta criança, onde os campos funcionais se manifestam, devendo-se levar em conta, dentro destes contextos, os aspectos físicos do espaço, a linguagem, as pessoas próximas e os conhecimentos próprios de cada cultura.

Esses estágios de desenvolvimento se tornam visíveis pelo tipo de relação que a criança estabelece com o meio-ambiente (a cada idade a criança estabelece um tipo de relação particular com seu meio) e este meio, para a criança, é dinâmico, apesar de ser o mesmo – a cada estágio, mudam as possibilidades de relação que ela tem em relação a ele, portanto sua visão do mesmo passa a ser diferente, sob uma nova perspectiva – a criança mudou, alcançou mais um passo em seu desenvolvimento e ela mesma dá o dinamismo ao meio. Valendo ressaltar que nada nunca desaparece – o aprendido anteriormente continua e o novo vai-se somando – os novos conhecimentos vão-se somando aos antigos e tudo vai-se reorganizando para um vir-a-ser no mundo de um sujeito desejante.

Quando o sujeito é desejante, ele é grandemente movido pela emoção.

Ah! A emoção!...

A emoção é extremamente importante para Wallon, considerada, mesmo, fundamental como constituidora do que nós somos – um misto de emoção, inteligência e movimento (daí, seus campos funcionais).

A emoção tem papel importantíssimo na filogênese, na medida em que move os homens a construírem ritos que garantam sua sobrevivência frente às adversidades, e na ontogênese, na medida em que move o indivíduo em suas relações com o Outro e com o Meio, na medida em que o leva a reações profundas, muito maiores que ele próprio.

É a emoção que faz a ponte entre o primitivo e o humanizado, é dela que nasce a consciência, a razão.

Nós somos um todo – não apenas corpo e alma – mas um conjunto que nos compõe. E Wallon busca explicar esta união de emoção, inteligência e movimento, sempre em relação ao Outro – o responsável pelas modificações que ocorrem neste conjunto, a cada instante, pois, na realidade, o Eu é uma mistura de todos os Outros que fazem parte de sua vida.


  1. O DESENVOLVIMENTO DO EGO

Para Winnicott, o bebê nasce em um estado de dependência absoluta. Já Freud nos fala de um estado de desamparo, tanto fisiológico, quanto afetivo. O que compensa esse desamparo são a onipotência (que vem daquilo que seus pais irão depositar nele) e o narcisismo (que começa nos espelhos – no espelho que é a mãe, cujos olhos cintilantes e sorriso receptivo refletem o encanto pelo filho...4 [...] Quando as coisas dão certo, a criança começa a adquirir sobre si a idéia de que é especial e adorável e capaz de desfrutar e um exibicionismo saudável e a grandiosidade.5).



Kohut ressaltava o aspecto saudável do narcisismo, por entender que fenômenos como a adoração de pais pelos filhos, a empolgação do filho por si mesmo e por seu mundo, e as esperanças, aspirações, ambições e ideais “normais” pertenciam ao âmbito do narcisismo positivo. Por esse modelo, à medida que se desenrola o desenvolvimento, o narcisismo não é substituído pelo objeto de amor, mas sim temperado por uma desilusão gradual, de modo que na maturidade ele continua a motivar a boa auto-estima e metas “realistas”. O “narcisismo secundário” e a incapacidade de seguir uma linha de amor-próprio moderado resultam de “feridas narcísicas”, que quase sempre decorrem de desconsideração ou abuso dos pais.(HOLMES, 2005:11).
A medida que o desenvolvimento avança, a grandiosidade (ou onipotência) e o exibicionismo infantil precisam ser temperados com a realidade e a autoconsciência.6 Essa onipotência deverá ser abandonada gradualmente, com o auxilio da mãe, que deverá desiludir a criança aos poucos, caso contrário, sem o abandono do narcisismo, necessário na primeira infância, deixando de lado as fantasias primitivas, a criança não conseguirá lidar com essa mesma onipotência.

O desenvolvimento do Eu não se faz sem traumas, os quais são necessários, pois os mesmos servem para estruturar esse Eu. O trauma é positivo no sentido de estabelecer limites para a onipotência. A criança se torna uma unidade quando percebe que não é o centro do mundo – quando consegue separar o Eu do não Eu. Ela utiliza a unidade do Outro como espelho para perceber sua própria unidade, pois o Eu só se constitui a partir do Outro. Assim, o sujeito tem que ser psiquicamente criado, inventado. E a desilusão gradual provoca o fato de a criança querer falar, porque a linguagem é muito mais eficaz na interação com o mundo, com o não Eu.

A relação entre o individuo o os objetos do mundo se faz dentro da fantasia – é por meio dela que reconhecemos e compreendemos o mundo. A fantasia dá cor e molda o comportamento, os pensamentos e os sentimentos, estando em constante transformação7. A fantasia nada mais é que o objeto que foi incluído na esfera do Eu, capturado narcisicamente (eu amo o que se parece comigo).

...o narcisismo, da primeira infância é substituído no adulto pela devoção a um ideal do ego erigido dentro de si próprio. (FREUD, 1976:20)
Nas escolhas de objetos, aparece o Ideal de Eu, colocando-se lá na frente a vontade de recuperar-se o narcisismo primário, onipotente – vindo dos pais (imposto de fora), é formado pelas primeiras identificações da criança com o não Eu, não importando seu conteúdo, mas sua função. O Ideal de Eu é dinâmico, pois, no decorrer da vida, de acordo com as novas identificações, novos ideais irão surgindo, abandonando-se os antigos.

O ego é, primeiro e acima de tudo, um ego corporal; não é simplesmente uma entidade de superfície, mas é, ele próprio, a projeção de uma superfície. Se quisermos encontrar uma analogia anatômica para ele, poderemos identificá-lo melhor com o “homúnculo cortical” dos anatomistas, que fica de cabeça para baixo no córtex... (FREUD, 1976: 40).
O Ego é uma projeção da superfície corporal, mas ele não corresponde exatamente ao exato desse corpo – ele não corresponde somente ao que o corpo informa (através da extero e da propriocepção) – sendo, no entanto, ele (o Ego) que determina as ações desse indivíduo. Sendo assim, não há ação sem propósito – se não consciente, será inconsciente. Isso porque o próprio Ego também é uma parte do Id, que é o inconsciente.

...o ego é aquela parte do id que foi modificada pela influencia direta do mundo externo[...]. Alem disso, o ego procura ampliar influencia do mundo externo ao ide às tendências deste. [...] A importância do ego se manifesta no fato de que, normalmente, o controle sobre as abordagens à motilidade compete a ele. (FREUD, 1976: 39).


O Ego Corporal representa o corpo no psiquismo, mas também depende do próprio corpo para se formar, assim, o corpo participa integralmente do psiquismo, no sentido da união corpo/mente.

O corpo não se reduz somente à fisiologia – o próprio desenho de cada corpo, entre diferentes indivíduos, possui diferenças de um para o outro, sendo, primordialmente, um corpo de ação, que tem efeito sobre o psiquismo. Por outro lado, o Ego Corporal também sofre os efeitos de todo o psiquismo – assim como o corpo é fundamental na estruturação do psiquismo, o psiquismo modela o corpo. A maneira como se lida com o corpo depende dessa interação corpo/mente, os quais não podem agir separadamente, mas apenas se completando. Em sendo assim, tanto Imagem quanto Esquema Corporal sofrem alterações de acordo com o psiquismo, sendo o Outro, na verdade, quem constitui o Eu, pois o Eu dependo do Outro desde o início.

A sexualidade mapeia o corpo, sendo de grande importância a visão (estádio do espelho), na formação da Imagem e do Esquema corporal, mas o que é mais forte são os estímulos da manipulação, que causam as sensações e, por conseqüência, a erotização. O corpo é mapeado pela sexualidade, existindo um lugar especial no qual a libido vai-se fixar. O mapeamento corporal é necessário para diferenciar o Eu do não Eu.

Desse modo, existem pessoas que utilizam o corpo diferentemente de outras, devido aos primeiros investimentos feitos sobre seus corpos, onde pode ter havido uma erotização seletiva, com determinadas partes assumindo maior importância que outras, trazendo a manifestação de diferentes elementos lingüísticos, que é o que faz a fusão entre a imagem visual e o psiquismo. Nesse caso, não interessa o que o espelho mostra, mas o que a pessoa vê.

Não se pode falar em subjetividade sem Ego formado como uma unidade, mas, até isso, é uma “fantasia”, pois, como o Ego se constitui à partir do Outro, ele é multifacetado, possuindo uma multiplicidade de “caras”.

Como o indivíduo se vê à partir do Outro – o que ele quer que o Outro veja nele – sempre ocorre uma identificação, que se continua no decorrer de toda a vida, sempre acrescentando algo mais ao Ego.

Cada maneira de ser, de cada indivíduo, representa diferentes arranjos possíveis desse ser. Como o Eu só se constitui à partir do Outro, então, Imagem e Esquema corporal não têm que coincidir um com o outro, onde a Imagem nem sequer coincide com a fisiologia do corpo, podendo surgir diferentes identidades corporais.

A identificação primária (com os pais) estabelece a matriz do Ego, que irá, então, se acrescentando de novas experiências, através da vida, com o Outro.




  1. AFINAL, O QUE É ESSA TAL CORPOREIDADE?

Corporeidade...

O que é? De onde vem? O que é essa tal corporeidade, tão em voga nos dias de hoje?...

O que é o corpo – meramente uma máquina bioquímica que responde aos comandos do cérebro? Ou é meio de expressão de um ser desejante, que se coloca no mundo e para o mundo, em um processo de ser-no-mundo, através de sua corporeidade?

Sabemos já, de muito, que o homem não é apenas um mero conjunto de circuitos que reage a reflexos e instintos. A linguagem é a chave, simultaneamente natural e cultural. Entretanto, o homem não se comunica unicamente através da linguagem verbal, mas, também através de gestos, movimentos, olhares, forma de caminhar, sentar, ou seja, através de uma linguagem corporal.

O corpo percorre uma história tecida de palavras, ações, afetos, contatos, sensações. É um corpo pessoal, individual e, também, nesse corpo está o corpo familiar e social. (Buchelder, 1996, p. 82).
Não, o homem não pode ser visto apenas como mente ou como corpo, separados, estanques – um ser é o resultado de tudo aquilo pelo qual passa, desde sua concepção até a morte...

Segundo MOLCHO (2007), desde o ventre de sua mãe, o feto percebe o balanço que o movimenta lá dentro – um movimento de embalo que nos acompanha por toda a vida – o embalar para dormir, o balanço no parquinho, a cadeira de balanço... Além disso, percebe o ritmo do coração de sua mãe, que também tem efeito calmante. Interessante é perceber que o bebê demonstra, com sua movimentação dentro do útero, através de chutes e inquietação, quando percebe que o movimento ou o ritmo não estão adequados, como quando, por exemplo, a mãe deixa de movimentar-se por longo período (para ele, movimento significa vida) ou o deixa exposto a ritmos pesados como “heavy metal” – ele dá sinais de que não está contente – ele reage e se comunica...

Nunca ouvimos falar tanto de corpo como nos dias de hoje. O corpo, o nosso corpo, o corpo que vivemos não é um objeto diante de nós ou um objeto entre outros objetos – eu não me sirvo de meu corpo, eu sou meu corpo8.

O corpo, como sujeito no mundo, é criativo e se humaniza através de suas interações – são suas formas preenchendo espaço e determinando significados a cada movimento, são suas vivências corporais fazendo a história e mudando o rumo da humanidade.

O corpo se define simplesmente por ser, por ocupar um espaço – o corpo faz parte do mundo, se relaciona com ele, interage com as coisas do mundo e também com outros corpos. São corpos fazedores e transformadores de um mundo, corpos vivos, em um tempo e em um espaço, experimentando todas as possibilidades que lhes são de direito9.
Espalhando-se no mundo, o olhar descobre o outro e com ele comunga existência. O olhar incorpora a distância; dá carne ao que o toque não alcança, ao visível que habita meu horizonte, às imagens da minha fantasia. O olhar estabelece relações, mas não se apropria; desvela o mundo, mas não o reduz. (FREITAS, 1999: 13).
Através do nosso corpo é que nos abrimos para o Outro e para o Mundo, ...tenho consciência de meu corpo através do mundo... e ...tenho consciência do mundo devido a meu corpo...10, e é aí que tem lugar a nossa liberdade. O corpo é o lugar do prazer, mas também da dor, do sofrimento, do amor e da esperança – da emoção – experiência que nos mostra a nós mesmos como seres abertos para o Outro.

Gonçalves (2005: 13/14) nos diz que:



... o homem vive em um determinado contexto social com o qual interage de forma dinâmica, pois, ao mesmo tempo em que atua na realidade modificando-a, esta atua sobre ele, influenciando e, até, podemos dizer, direcionando suas formas de pensar, sentir e agir. Assim, as concepções que o homem desenvolve a respeito de sua corporalidade e suas formas de comportar-se corporalmente estão ligadas a condicionamentos sociais e culturais. A cultura imprime suas marcas no indivíduo ditando normas e fixando ideais nas dimensões intelectual, afetiva moral e física [...]. O corpo de cada indivíduo de um grupo cultural revela, assim, não somente sua singularidade pessoal, mas também tudo aquilo que caracteriza esse grupo como unidade. Cada corpo expressa a história acumulada de uma sociedade que nele marca seus valores, suas leis, suas crenças e seus sentimentos, que estão na base da vida social.
Gonçalves (2005) também nos diz que são as experiências, que se constituem da ação recíproca do homem e do mundo, que determinam ao homem sua forma peculiar de ser, ao mesmo tempo em que fornecem os contornos que delimitam seus diversos mundos. É o homem, como uma unidade, que pensa, sente e age. Não existindo pensamento separado de ação e sentimento nem ação sem pensamento e sentimento. O que marca o humano são as relações dialéticas entre seu corpo, sua alma e o mundo no qual se manifestam – relações que transformam o corpo humano numa corporeidade, ou seja, numa unidade expressiva da existência11.

Mas, afinal, o que é corporeidade?

Corporeidade, como nos diz Santin (2003, p. 11) é não apenas TER um corpo, mas SER um corpo, realizando a autoconstrução corporal da consciência de si e da expressividade em suas relações, vivendo o corpo como um trabalho e lazer, como gesto, harmonia, arte e espetáculo.

Corporeidade é a forma de o homem ser-no-mundo, através de seu corpo, é a expressão de ser do ser humano. É movimento, é gesto, é expressividade, é presença. Segundo Santin (2003, p. 35) Merleau-Ponty descreve essa presença do homem como corporeidade, não enquanto o homem se reduz ao conceito de corpo material, mas enquanto fenômeno corporal, isto é, enquanto expressividade, palavra e linguagem. O homem instaura sua presença [...] como corporeidade. A presença é marcada pela postura.[...] O homem é movimento, o movimento que se torna gesto, o gesto que fala, que instaura a presença expressiva, comunicativa e criadora. A motricidade do homem acompanha a sua corporeidade e uma não se distingue da outra.

O ser humano é corporeidade. Para deixar mais claro, pode-se dizer que todo indivíduo se percebe e se sente como corporeidade. O fundamento da presença humana acontece na corporeidade, significante e expressiva, que é direcionada ao Outro e influenciada por ele, em um processo onde a pessoa se constrói ao construir suas relações (que são impregnadas de sentimento), com o Outro e com o Mundo. Na medida em que vivemos nossa corporeidade, nos tornamos significativos para nós mesmos e para os outros – assim, o mundo do Eu e do Outro transforma-se na gênese da vida e da convivência expressiva – somos significantes para nós e para o outro, o que produz comunicação.

Quando o homem fala, é o corpo falando e, pela corporeidade, ele dá testemunho de sua condição de corpo. O corpo expressa, mesmo quando quer ocultar, não somente sua história individual, mas também a história acumulada de uma sociedade que nele imprimiu códigos.

Segundo Freire (1991, p. 63), a corporeidade integra tudo o que o homem é e pode manifestar neste mundo: espírito, alma, sangue, ossos, nervos, cérebro etc. A corporeidade é mais do que um homem só: é cada um e todos os outros. Pela corporeidade ele dá registro de sua existência e cumpre sua condição fundamental de ser-no-mundo. E ser-no-mundo com o corpo, como bem nos diz Gonçalves (2005), significa estar aberto ao mundo e, ao mesmo tempo, vivenciar o corpo na intimidade do Eu: sua beleza, plasticidade, movimento, prazer, dor, harmonia, cansaço, recolhimento e contemplação. Significa ser vulnerável e estar condicionado às limitações que o corpo impõe pela sua fragilidade. Significa a presença viva do prazer e da dor, do amor e do ódio, da alegria e da depressão, do isolamento e do comprometimento, busca e abertura de possibilidades, penetrar no mundo e, a todo momento, criar o novo. Significa a presença viva da temporalidade que se concretiza, primeiro por um crescer de possibilidades, ao atuar no mundo e, depois, por uma consciência progressiva das limitações que o ciclo de nossa vida nos impõe.

Corporeidade é um conceito que exprime a totalidade do ser humano, enquanto ser vivo. É preciso sentir o Mundo, o Outro e o Eu como totalidade una e complexa dentro do mundo, como parte dele.

Desta forma, sendo o corpo a maneira de sermos no mundo, pensar corporeidade justifica-se pelo fato de SERMOS o nosso corpo, portanto, toda a expressão do corpo está relacionada a uma significação da própria existência. Assim, podemos dizer que corporeidade é a experiência de integrar espaço corporal e espaço de ação – o corpo que fala a fala de sua alma.


  1. CONCLUSÃO

Corporeidade foi, é e sempre será o modo do homem ser-no-mundoum ser desejante, que experimenta e se expressa através de seu corpo.

O homem é um ser único, individualizado, peculiar, diferenciado, que interage com o mundo e com outros, justamente para a construção dessa diferenciação. E é nesta interação que podemos perceber os campos da funcionalidade atuando: sentir, pensar, agir.

O corpo, enquanto corpo humano e desejante, se utiliza do alimento cultural para compor sua corporeidade, que é modificada e adaptada de acordo com sua cultura e seu momento histórico e social, onde se encontram seus contextos de desenvolvimento.

A criança experimenta o mundo através de sua corporeidade, movida pela emoção, influenciada pelos outros que encontra no decorrer de sua vida, sujeita, também, a crises e contradições de sua própria cultura. Crises estas que modificam, confirmam e delineiam a sua forma de expressão, em seus estágios de desenvolvimento, produzindo, a cada vez, uma nova corporeidade, um novo Eu, um novo Ego, de um ser-no-mundo único, individualizado, e que tem em sua posse todo o material necessário para ser expressivo e criativo. Mas... por que alguns não o são?...

Ao adquirir minhas pequenas gotas de conhecimento sobre os Fundamentos da Psicanálise, percebi que, talvez, possa entender um pouco melhor o comportamento e as atitudes de alguns de meus alunos, os quais, aparentemente, são assombrados por seus fantasmas. Principalmente aqueles que se recusam a fazer qualquer tipo de atividade e “fogem” da aula por “não saber fazer”... Que se recusam a se mostrar, tanto para si, quanto para os outros...


Num ensaio publicado pela primeira vez em 1922, Karl Abrahan concentrou-se no “narcisismo negativo”, no qual, paradoxalmente, os pacientes não se mostram tão satisfeitos consigo mesmos, mas se encontram em um estado constante de auto-instisfação ansiosa. Nos narcisistas negativos, o viés “narcísico” é eles serem tão preocupados com eles próprios quanto seus primos grandiosos, estando, porém, presos ao ódio por si mesmos e não ao amor-próprio. [...] Para esses pacientes. O “eu ideal” é tão distante do “eu real” que tentar alcançá-lo pode parecer fútil – o ideal está longe demais até para ser ansiado.(HOLMES, 2005: 16/17)
Estariam, eles, vivenciando um “negativismo narcísico”?

A maioria de meus alunos vem de comunidades carentes, onde os pais, também na maioria das vezes, têm uma prole em grande quantidade e, pelas vicissitudes da vida que levam, assim como os locais em que residem, não permitem que dêem a atenção adequada a seus filhos. Além da violência a que são expostos a cada dia, em função da própria comunidade...



O modelo de crescimento da mente de Erik Erikson nos diz que, em sua primeira fase, no primeiro ano de vida, onde deveria haver um sentimento seguro de um eu criativo em relação a um outro receptivo, na inexistência da sintonia dos pais, a criança pode ter sentimentos de vazio interior, pavor, insignificância, impotência e atravessar períodos de raiva inconsolável12. Na segunda fase, segundo ano de vida, deveria haver um investimento narcísico em seus poderes crescentes, mas o genitor estafado, deprimido, agressivo, intratável, oprimido ou ressentido, que deprecia ou não nota a necessidade do filho de se irradiar [...] leva ao início da vergonha e da decepção consigo tão característica dos feridos em seu narcisismo13. Na terceira fase, no terceiro ano de vida, onde ocorrem os primórdios da frustração ideal, o “Nom” (e Non) du Père – o nome e o não do pai – impõem limites ao narcisismo, mas também ajudam a criança a sentir-se parte do clã dos pais e, aliás, da humanidade. O narcisismo individual passa a se incluir no narcisismo social. Sem esse processo, a grandiosidade e a negação da realidade ameaçam persistir14. Já na quarta fase, que engloba toda a adolescência:
Os adolescentes sadios têm heróis, esperanças, ambições, crenças fervorosas e sonhos secretos. O adolescente com narcisismo ferido e desesperançado, e deprimido, vê o mundo condenado, oprimido pela morte, e até o desfia com um comportamento de risco ou afastando-se dele numa rejeição regressiva. O corpo torna-se fonte de prazer e orgulho ou então um estorvo odiado que não consegue igualar-se aos ideais impossíveis. Uma torrente de energia criativa assinala a convicção em si mesmo, que nessa fase não precisa ser avaliada nem comparada. A raiva e a destrutividade expressam sentimentos narcísicos por não se ter encontrado um espelho ideal. (HOLMES, 2005:60/61).
Seria, o casulo em que se encontram, resultado de relações desfavoráveis com os pais?...

BIBLIOGRAFIA
Anotações das aulas da Disciplina Fundamentos da Psicanálise, ministrada pelo Professor ALEXANDRE JORDÃO, no Curso de Pós-graduação em Psicomotricidade – Educação e Clínica, na Uni IBMR, em julho de 2007.
BAPTISTA, Ana Luiza. A expressão corporal na prática da Arteterapia. Espaço terapêutico das artes. Artigo disponível em http://www.incorporarte.psc.br/exprescorp.html
BUCHELDER, Mario. A Poética do Desmascaramento: os caminhos da cura. São Paulo: Agora, 1996.
FREIRE, João Batista. De Corpo e Alma: o discurso da Psicomotricidade. 3ª edição, São Paulo: Summus, 1991.
FREITAS, Giovanina G. O Esquema Corporal, A Imagem Corporal, A Consciência Corporal e a Corporeidade. 2ª edição, Ijuí: UNIJUI, 1999.
FREUD, Sigmund. O ego e o Id in Edição Standard das Obras Psicológicas Completas, Vol. XIX, Rio de Janeiro: Imago, 1976.
GONÇALVES, Maria Augusta Salin. Sentir, pensar, agir: corporeidade e educação. 8ª edição, Campinas: Papirus, 2005.
GALVÃO, Isabel. Henri Wallon: uma concepção dialética do desenvolvimento infantil. 14ª edição, Petrópolis: Vozes, 2005.

HOLMES, Jeremy. Narcisismo in Coleção Conceitos da Psicanálise. Vol 4. Rio de Janeiro: Relume Dumará: Ediouro; São Paulo: Segmento Duetto, 2005.


MELO, Sonia Martins de. Corpos no Espelho: a percepção doa corporeidade em professoras, Campinas: Mercado das Letras, 2004.
MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da Percepção. São Paulo: Martins Fontes, 1971.
MOLCHO, Samy. A Linguagem corporal da Criança. São Paulo: Gente, 2007.
SÁ, Olga de. Corpo e Corporeidade, Revista Ângulo, FATEA, Lorena, S P, 2006.

Artigo disponível em http://www.fatea.br/angulo/angulo_94/angulo94_artigos02.htm


SANTIN, Silvino. Educação Física: uma abordagem filosófica da corporeidade, 2ª edição Ijuí, RS: UNIJUÍ, 2003.
SANTOS, Ângela Brêtas Gomes dos. Henri Wallon. In: Aulas expositivas da Disciplina DESENVOLVIMENTO PSICOMOTOR I, no Curso de Pós-Garduação em Psicomotricidade, RJ, IBMR, Maio/2006.
SEGAL, Julia. Fantasia in Coleção Conceitos da Psicanálise. Vol 4. Rio de Janeiro: Relume Dumará: Ediouro; São Paulo: Segmento Duetto, 2005.
VERDERI, Érica. Dança e Corporeidade, Cooperativa do Fitness, 2006.

Artigo disponível em http://www.cdof.com.br/danca2.htm





1 Galvão, 2005: 11.

2 Ibdem: 56.

3 Ibdem: 45.

4 HOLMES, 2005: 05.

5 Ibdem: 44.

6 Ibdem: 46.

7 SEGAL, 2005: segunda capa.

8 Sá – A Expressão Corporal na Arteterapia.

9 Verderi – Dança e Corporeidade.

10 Merleau-Ponty, 1971: 95.

11 Freitas, 1999: 52

12 HOLMES, 2005:58/59.

13 Ibdem: 59.

14 Ibdem: 60.


Compartilhe com seus amigos:


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal