Harry potter and the deathly hallows



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Digitalização e Revisão: Vick









Título original

HARRY POTTER

AND THE DEATHLY HALLOWS

Primeira publicação na Grã-Bretanha em 2007 pela Bloomsbury Publishing Plc,

36 Soho Square, Londres, W1D 3QY


Copyright © 2007 J. K. Rowling
O direito moral de J. K. Rowling foi assegurado por ela.
Foto da autora: JP Masclet, 2007

Arte de capa: Mary GrandPré © 2007 Warner Bros.

Design: Mary GrandPé and David Saylor
Direitos para a língua portuguesa reservados com exclusividade para o Brasil à

EDITORA ROCCO LTDA.

Rio de Janeiro, RJ
Printed in Brazil/Impresso no Brasil
CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte.

Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.



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Este livro

é dedicado

a sete pessoas:

a Neil,


a Jessica,

a David,

a Kenzie,

a Di,


a Anne,

e a você,

que acompanhou

Harry


até o

fim.
Ah, desgraça inerentes à raça!

o grito torturante da morte

e o golpe que atingiu a veia,

o sangramento inestancável, a dor,

a maldição insuportável.


Mas há uma cura dentro

e não fora de casa, não

vinda de outros mas deles próprios

por sua disputa sangrenta. Apelamos a vós.

deuses da sombria terra.
Ouvi bem-aventurados poderes soterrâneos –

atendei o nosso apelo, socorrei-nos

Favorecei os filhos, dai-lhes a vitória.
Ésquilo, As coéforas

A morte é apenas uma travessia do mundo, tal como os amigos que atravessam o mar e permanecem vivos uns nos outros. Porque sen­tem necessidade de estar presentes, para amar e viver o que é oni­presente. Nesse espelho divino vêem-se face a face; e sua conversa é livre e pura. Este é o consolo dos amigos e embora se diga que mor­rem, sua amizade e convívio estão, no melhor sentido, sempre pre­sentes, porque são imortais.


William Penn, More Fruits of Solitude

CAPÍTULO UM

A ASCENSÃO DO

LORDE DAS TREVAS

OS DOIS HOMENS SE MATERIALIZARAM inesperadamente, a poucos metros de distância, na estreita ruazinha iluminada pelo luar. Por um momento eles ficaram imóveis, as varinhas apontadas para o peito um do outro; então, reconhecendo-se, guardaram a varinha sob a capa e começaram a andar apressados na mesma direção.

— Novidades? — perguntou o mais alto dos dois.

— As melhores — respondeu Severo Snape.

A rua era ladeada por um silvado, à esquerda, e por uma sebe alta e cuidadosamente aparada, à direita. As longas capas dos homens esvoaçavam ao redor dos tornozelos enquanto eles caminhavam.

— Pensei que fosse me atrasar — disse Yaxley, suas feições grossei­ras desaparecendo e reaparecendo à sombra dos galhos de árvores que se interpunham ao luar. — Foi um pouco mais complicado do que imaginei. Mas acho que ele ficará satisfeito. Você tem certeza de que será bem recebido?

Snape assentiu sem, contudo, dar explicações.

Os homens viraram para um largo caminho de entrada, à direi­ta. A alta sebe margeava e se estendia para além do impressionante portão de ferro trabalhado que barrava a entrada. Em silêncio, ambos ergueram o braço esquerdo numa espécie de saudação e atravessa­ram o portão, como se o metal escuro fosse apenas fumaça.

As sebes de teixo abafaram os passos dos homens. Ouviu-se um farfalhar à direita. Yaxley tornou a sacar a varinha, apontando-a por cima da cabeça do seu companheiro, mas a fonte do ruído fora ape­nas um pavão alvíssimo, que caminhava, majestoso, ao longo do topo da sebe.

— Ele sempre soube viver, o Lúcio. Pavões... — Com um bufo de desdém, Yaxley tornou a guardar a varinha sob a capa.

Um belo casarão se destacou nas trevas, no final do caminho reto, as luzes faiscando nas janelas em formato de losango do andar térreo. Em algum lugar no jardim escuro, atrás dos arbustos, uma fonte jorrava. O saibro começou a estalar sob os pés, quando Snape e Yaxley apressaram o passo em direção à porta da frente, que se abriu à sua aproximação, embora ninguém parecesse tê-la aberto.

O hall de entrada era grande, mal iluminado e suntuosamente decorado, e um magnífico tapete cobria quase todo o piso de pedra. Os olhos dos rostos pálidos nos retratos das paredes acompanharam Snape e Yaxley assim que eles passaram. Os dois homens se detive­ram à frente de uma pesada porta de madeira que levava a outro cômodo, hesitaram o tempo de uma pulsação, então Snape girou a maçaneta de bronze.

A sala estava cheia de pessoas silenciosas, sentadas a uma com­prida mesa ornamentada. Os móveis que habitualmente a guarneciam tinham sido empurrados descuidadamente contra as paredes. A iluminação provinha das chamas vivas de uma bela lareira, cujo con­sole de mármore era encimado por um espelho dourado. Snape e Yaxley pararam um instante à entrada. À medida que seus olhos se acostumaram à penumbra, sua atenção foi atraída para o detalhe mais estranho da cena: o vulto de uma pessoa aparentemente desa­cordada suspensa de cabeça para baixo sobre a mesa, girando lenta­mente como se estivesse presa por uma corda invisível, e se refletin­do no espelho e na superfície nua e lustrosa da mesa. Nenhuma das pessoas sentadas à roda dessa visão singular a encarava, exceto um jovem pálido que estava praticamente embaixo. Parecia incapaz de se conter e erguia os olhos a todo instante.

— Yaxley, Snape — falou uma voz aguda e clara da cabeceira da mesa —, vocês estão praticamente atrasados.

O dono da voz estava sentado defronte à lareira, de modo que, a princípio, os recém-chegados tiveram dificuldade em distinguir mais que a sua silhueta. À medida que se aproximaram, porém, seu rosto se destacou na obscuridade, imberbe, ofídico, com fendas estreitas no lugar das narinas e olhos vermelhos e brilhantes de pupilas ver­ticais. Era tão pálido que parecia emitir uma aura perolada.

— Severo, aqui — disse Voldemort, indicando a cadeira imediata­mente à sua direita. — Yaxley, ao lado de Dolohov.

Os dois homens ocuparam os lugares designados. Os olhares da maioria dos que estavam à mesa seguiram Snape, e foi a ele que Voldemort se dirigiu primeiro.

— E então?

— Milorde, a Ordem da Fênix pretende transferir Harry Potter do lugar seguro em que está, no sábado, ao anoitecer.

O interesse ao redor da mesa se intensificou perceptivelmente. Alguns enrijeceram, outros se mexeram, todos atentos a Snape e Voldemort.

— Sábado... ao anoitecer — repetiu Voldemort. Seus olhos verme­lhos se fixaram nos olhos pretos de Snape com tanta intensidade que alguns dos observadores desviaram o olhar, aparentemente receosos de serem atingidos pela ferocidade daquela fixidez. Snape, no entan­to, sustentou esse olhar calmamente, e, após um momento, os lábios descarnados de Voldemort se curvaram num aparente sorriso.

— Bom. Muito bom. E essa informação veio de...?

— Da fonte sobre a qual conversamos — disse Snape.

— Milorde.

Yaxley tinha se inclinado para a frente procurando ver Voldemort e Snape. Todos os rostos se voltaram para ele.

— Milorde, eu ouvi coisa diferente.

Yaxley aguardou, mas Voldemort não objetou, então ele prosseguiu.

— Dawlish, o auror, deixou escapar que Potter não será transferi­do até o dia trinta à noite, na véspera do seu aniversário de dezesse­te anos.

Snape sorriu.

— Minha fonte informou que planejam divulgar uma pista falsa; deve ser essa. Sem dúvida, lançaram em Dawlish um Feitiço para Confundir. Não seria a primeira vez, todos conhecem a sua suscetibilidade a feitiços.

— Posso lhe assegurar, Milorde, que Dawlish me pareceu muito seguro do que dizia — contrapôs Yaxley.

— Se foi confundido, é óbvio que parecerá seguro — disse Snape. — Garanto a você, Yaxley, que a Seção de Aurores não irá participar da proteção de Harry Potter. A Ordem acredita que estamos infiltrados no Ministério.

— Então, pelo menos nisso a Ordem acertou, hein? — comentou um homem atarracado, a pouca distância de Yaxley, dando uma risadinha sibilada que ecoou pela mesa.

Voldemort não riu. Seu olhar se desviou para o alto, para o corpo que girava vagarosamente, e ele pareceu se alhear.

— Milorde — continuou Yaxley —, Dawlish acredita que vão usar um destacamento inteiro de aurores na transferência do garoto...

Voldemort ergueu a mão grande e branca, e Yaxley calou-se imedia­tamente, observando, rancoroso, o Lorde se dirigir outra vez a Snape.

— E em seguida, onde irão esconder o garoto?

— Na casa de um dos membros da Ordem — respondeu Snape. -O lugar, segundo a minha fonte, recebeu toda a proteção que a Ordem e o Ministério juntos puderam lhe dar. Acredito que seja mínima a chance de pormos as mãos nele uma vez que chegue ao destino, Milorde, a não ser, é claro, que o Ministério tenha caído antes de sábado, o que, talvez, nos desse a oportunidade de descobrir e desfazer um número suficiente de feitiços, e passar pelos demais.

— E então, Yaxley? — interpelou-o Voldemort, a luz das chamas se refletindo estranhamente em seus olhos vermelhos. — O Ministério terá caído até sábado?

Mais uma vez, todas as cabeças se viraram. Yaxley empertigou-se.

— Milorde, a esse respeito tenho boas notícias. Consegui, com dificuldade e após muito esforço, lançar uma Maldição Imperius em Pio Thicknesse.

Muitos dos que estavam próximos de Yaxley pareceram impres­sionados; seu vizinho, Dolohov, um homem de cara triste e torta, deu-lhe um tapinha nas costas.

— É um começo — disse Voldemort —, mas Thicknesse é apenas um homem, Scrimgeour precisa estar cercado por gente nossa para eu agir. Um atentado malsucedido à vida do ministro me causará um enorme atraso.

— É verdade, Milorde, mas o senhor sabe que, na função de chefe do Departamento de Execução das Leis da Magia, Thicknesse tem contato freqüente não só com o próprio ministro como também com os chefes dos outros departamentos do Ministério. Acho que será fácil dominar os demais, agora que temos um funcionário gra­duado sob controle, e então todos podem trabalhar juntos para der­rubar Scrimgeour.

— Isso se o nosso amigo Thicknesse não for descoberto antes de ter convertido o resto — afirmou Voldemort. — De qualquer forma, é pouco provável que o Ministério seja meu antes de sábado. Se não pudermos pôr a mão no garoto no lugar de destino, então teremos que fazer isso durante a transferência.

— Nesse particular, estamos em posição vantajosa, Milorde -disse Yaxley, que parecia decidido a receber alguma aprovação. — Já plantamos várias pessoas no Departamento de Transportes Mágicos. Se Potter aparatar ou usar a Rede de Flu, saberemos imediatamente.

— Ele não fará nenhum dos dois — disse Snape. — A Ordem está evitando qualquer forma de transporte controlada ou regulada pelo Ministério, desconfiam de tudo que esteja ligado àquele lugar.

— Tanto melhor — disse Voldemort. — Ele terá que se deslocar em campo aberto. Será muitíssimo mais fácil apanhá-lo.

Mais uma vez Voldemort ergueu o olhar para o corpo que gira­va vagarosamente, então prosseguiu:

— Cuidarei do garoto pessoalmente. Cometeram-se erros demais com relação a Harry Potter. Alguns foram meus. Que Potter ainda viva deve-se mais aos meus erros do que aos seus êxitos.

As pessoas em volta da mesa fitaram Voldemort apreensivas, cada qual deixando transparecer o medo de ser responsabilizada por Harry Potter ainda estar vivo. Voldemort, no entanto, parecia estar falando mais consigo mesmo do que com os demais, ainda atento ao corpo inconsciente no alto.

— Por ter sido descuidado, fui frustrado pela sorte e a ocasião, essas destruidoras dos planos, a não ser os mais bem traçados. Mas aprendi. Agora compreendo coisas que antes não compreendia. Eu é que devo matar Harry Potter, e assim farei.

Nisso, e em aparente resposta às suas palavras, ouviu-se um lamento repentino, um grito terrível e prolongado de infelicidade e dor. Muitos ao redor da mesa olharam para baixo, assustados, pois o som parecia vir do chão.

— Rabicho? — chamou Voldemort, sem alterar o seu tom de voz, baixo e reflexivo, e sem tirar os olhos do corpo que girava no alto. -Já não lhe disse para manter essa escória calada?

— Disse, M-Milorde — falou um homenzinho sentado na se­gunda metade da mesa, tão encolhido que, à primeira vista, sua cadeira parecia estar desocupada. E, levantando-se de um salto, saiu correndo da sala, deixando em seu rastro apenas um estranho brilho prateado.

— Como eu ia dizendo — continuou Voldemort, olhando mais uma vez para os rostos tensos dos seus seguidores —, agora com­preendo melhor. Precisarei, por exemplo, pedir emprestada a vari­nha de um de vocês antes de sair para matar Potter.

Os rostos à sua volta expressaram apenas incredulidade; como se ele tivesse anunciado que queria um braço deles emprestado.

— Nenhum voluntário? — perguntou Voldemort. — Vejamos... Lúcio, não vejo razão para você continuar a ter uma varinha.

Lúcio Malfoy ergueu a cabeça. Sua pele parecia amarela e cerosa à luz das chamas, e tinha os olhos encovados e sombrios. Quando falou, sua voz saiu rouca.

— Milorde?

— Sua varinha, Lúcio. Preciso de sua varinha. -Eu...

Malfoy olhou de esguelha para sua mulher. Narcisa tinha o olhar fixo à frente, tão pálida quanto o marido, os longos cabelos louros descendo pelas costas, mas, sob a mesa, seus dedos finos apertaram brevemente o pulso dele. Ao seu toque, Malfoy enfiou a mão nas vestes e tirou uma varinha que passou a Voldemort, que a ergueu diante dos olhos vermelhos e examinou-a detidamente.

— De que é?

— Olmo, Milorde — sussurrou Malfoy.

— E o núcleo?

— Dragão... fibra do coração.

— Ótimo — aprovou Voldemort. E, sacando a própria varinha, comparou os comprimentos.

Lúcio Malfoy fez um movimento involuntário; por uma fração de segundo, pareceu que esperava receber a varinha de Voldemort em troca da sua. O gesto não passou despercebido ao Lorde, cujos olhos se arregalaram maliciosamente.

— Dar-lhe a minha varinha, Lúcio? Minha varinha? Alguns dos presentes riram.

— Dei-lhe a liberdade, Lúcio, não é suficiente? Mas tenho nota­do que você e sua família ultimamente parecem menos felizes... alguma coisa na minha presença em sua casa os incomoda, Lúcio?

— Nada... nada, Milorde.

— Quanta mentira, Lúcio...

A voz suave parecia silvar, mesmo quando a boca cruel parava de mexer. Um ou dois bruxos mal conseguiram refrear um tremor quando o silvo foi se intensificando; ouviu-se uma coisa pesada des­lizar pelo chão embaixo da mesa.

A enorme cobra apareceu e subiu vagarosamente pela cadeira de Voldemort. Foi emergindo, como se fosse interminável, e parou sobre os ombros do mestre: o pescoço do réptil tinha a grossura de uma coxa masculina; seus olhos com as pupilas verticais não pisca­vam. Voldemort acariciou-a, distraído, com seus dedos longos e finos, ainda encarando Lúcio Malfoy.

— Por que os Malfoy parecem tão infelizes com a própria sorte? Será que o meu retorno, minha ascensão ao poder, não é exatamen­te o que disseram desejar durante tantos anos?

— Sem dúvida, Milorde — respondeu Lúcio Malfoy. Sua mão tre­meu quando secou o suor sobre o lábio superior. — É o que desejá­vamos... desejamos.

A esquerda de Malfoy, sua mulher fez um aceno rígido e estranho com a cabeça, evitando olhar para Voldemort e a cobra. À direita, seu filho Draco, que estivera mirando o corpo inerte no teto, lançou um brevíssimo olhar a Voldemort, aterrorizado de encarar o bruxo.

— Milorde — disse uma mulher morena na outra metade da mesa, sua voz embargada pela emoção —, é uma honra tê-lo aqui, na casa de nossa família. Não pode haver prazer maior.

Estava sentada ao lado da irmã, tão diferente desta na aparência, com seus cabelos negros e olhos de pálpebras pesadas, quanto o era no porte e na atitude; enquanto Narcisa sentava-se dura e impassí­vel, Belatriz se curvava para Voldemort, porque meras palavras não podiam demonstrar o seu desejo de maior proximidade.

— Não pode haver prazer maior — repetiu Voldemort, a cabeça ligeiramente inclinada para o lado, estudando Belatriz. — Isso signi­fica muito, Belatriz, vindo de você.

O rosto da mulher enrubesceu, seus olhos lacrimejaram de prazer.

— Milorde sabe que apenas digo a verdade!

— Não pode haver prazer maior... mesmo comparado ao feliz evento que, segundo soube, houve em sua família esta semana?

Belatriz fitou-o, os lábios entreabertos, nitidamente confusa.

— Eu não sei a que está se referindo, Milorde.

— Estou falando de sua sobrinha. E de vocês também, Lúcio e Narcisa. Ela acabou de casar com o lobisomem Remo Lupin. A famí­lia deve estar muito orgulhosa.

Gargalhadas debochadas explodiram à mesa. Muitos se curva­ram para trocar olhares divertidos; alguns socaram a mesa com os punhos. A cobra, incomodada com o barulho, escancarou a boca e silvou irritada, mas os Comensais da Morte nem a ouviram, tão exultantes estavam com a humilhação de Belatriz e dos Malfoy. O rosto da mulher, há pouco rosado de felicidade, tingiu-se de feias manchas vermelhas.

— Ela não é nossa sobrinha, Milorde — disse em meio às gargalha­das. — Nós, Narcisa e eu, nunca mais pusemos os olhos em nossa irmã depois que ela casou com aquele sangue-ruim. A fedelha não tem a menor ligação conosco, nem qualquer fera com quem se case.

— E você, Draco, que diz? — perguntou Voldemort, e, embora falasse baixo, sua voz ressoou claramente em meio aos assobios e caçoadas. — Vai bancar a babá dos filhotes?

A hilaridade aumentou; Draco Malfoy olhou aterrorizado para o pai, que contemplava o próprio colo, e seu olhar cruzou com o de sua mãe. Ela balançou a cabeça quase imperceptivelmente, depois retomou seu olhar fixo na parede oposta.

— Já chega — disse Voldemort, acariciando a cobra raivosa. — Basta. E as risadas pararam imediatamente.

— Muitas das nossas árvores genealógicas mais tradicionais, com o tempo, se tornaram bichadas — disse, enquanto Belatriz o mirava, ofegante e súplice. — Vocês precisam podar as suas, para mantê-las saudáveis, não? Cortem fora as partes que ameaçam a saúde do resto.

— Com certeza, Milorde — sussurrou Belatriz, mais uma vez com os olhos marejados de gratidão. — Na primeira oportunidade!

— Você a terá — respondeu Voldemort. — E, tal como fazem na família, façam no mundo também... vamos extirpar o câncer que nos infecta até restarem apenas os que têm o sangue verdadeiramen­te puro.

Voldemort ergueu a varinha de Lúcio Malfoy, apontou-a direta­mente para a figura que girava lentamente, suspensa sobre a mesa, e fez um gesto quase imperceptível. O vulto recuperou os movimen­tos com um gemido e começou a lutar contra invisíveis grilhões.

— Você está reconhecendo a nossa convidada, Severo? — indagou Voldemort.

De baixo para cima, Snape ergueu os olhos para o rosto pendu­rado. Todos os Comensais agora olhavam para a prisioneira, como se tivessem recebido permissão para manifestar sua curiosidade. Quando girou para o lado da lareira, a mulher disse, com a voz entrecortada de terror:

— Severo, me ajude!

— Ah, sim — respondeu Snape enquanto o rosto da prisioneira continuava a virar para o outro lado.

— E você, Draco? — perguntou Voldemort, acariciando o focinho da cobra com a mão livre. Draco sacudiu a cabeça com um movi­mento brusco. Agora que a mulher acordara, ele parecia incapaz de continuar encarando-a.

— Mas você não teria se matriculado no curso dela — disse Voldemort. — Para os que não sabem, estamos reunidos aqui esta noite para nos despedir de Caridade Burbage que, até recentemente, lecionava na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts!

Ouviram-se breves sons de assentimento ao redor da mesa. Uma mulher corpulenta e curvada, de dentes pontiagudos, soltou uma gargalhada.

— Sim... a profª Burbage ensinava às crianças bruxas tudo a res­peito dos trouxas... e como se assemelham a nós...

Um dos Comensais da Morte cuspiu no chão. Em seu giro, Caridade Burbage tornou a encarar Snape.

— Severo... por favor... por favor...

— Silêncio — ordenou Voldemort, com outro breve movimento da varinha de Lúcio, e Caridade silenciou como se tivesse sido amor­daçada. — Não contente em corromper e poluir as mentes das crian­ças bruxas, na semana passada, a profª Burbage escreveu uma apai­xonada defesa dos sangues-ruins no Profeta Diário. Os bruxos, disse ela, devem aceitar esses ladrões do seu saber e magia. A diluição dos puros-sangues é, segundo Burbage, uma circunstância extremamen­te desejável... Ela defende que todos casemos com trouxas... ou, sem dúvida, com lobisomens...

Desta vez ninguém riu: não havia como deixar de perceber a raiva e o desprezo na voz de Voldemort. Pela terceira vez, Caridade Burbage encarou Snape. Lágrimas escorriam dos seus olhos para os cabelos. Snape retribuiu seu olhar, totalmente impassível, enquanto ela ia girando o rosto para longe dele.

Avada Kedavra.

O lampejo de luz verde iluminou todos os cantos da sala. Caridade caiu estrondosamente sobre a mesa, que tremeu e estalou. Vários Comensais pularam para trás ainda sentados. Draco caiu da cadeira para o chão.

— Jantar, Nagini — disse Voldemort com suavidade, e a grande cobra deslizou sinuosamente dos ombros dele para a lustrosa mesa de madeira.



CAPÍTULO DOIS

IN MEMORIAM

Harry sangrava. Segurando a mão direita com a esquerda, e xin­gando baixinho, ele empurrou a porta do quarto com o ombro. Ouviu um barulho de porcelana quebrando; pisara em uma xícara de chá frio que alguém deixara do lado de fora, à porta do quarto. — Que m...?

Ele olhou para os lados; o corredor da rua dos Alfeneiros n° 4 estava deserto. A xícara de chá era, possivelmente, a idéia de arma­dilha inteligente imaginada por Duda. Harry manteve a mão ensan­güentada no alto, juntou os cacos da xícara com a outra mão e atirou-os na cesta abarrotada de lixo que entreviu pela porta de seu quarto. Depois caminhou pesadamente até o banheiro para pôr o dedo sob a água da torneira.

Era uma idiotice sem sentido e incrivelmente irritante que ainda lhe faltassem quatro dias para poder realizar feitiços... mas tinha de admitir que esse feio corte no dedo o derrotaria. Nunca aprendera a curar ferimentos e, agora que lhe ocorria pensar nisso — particular­mente à luz dos seus planos imediatos —, parecia-lhe uma séria lacu­na em sua educação bruxa. Anotando mentalmente para perguntar a Hermione como se fazia, ele usou um grande chumaço de papel higiênico para secar o melhor que pôde o chá derramado, antes de voltar para o quarto e bater a porta.

Harry gastara a manhã inteira esvaziando seu malão de viagem pela primeira vez desde que o arrumara havia seis anos. Nos primei­ros anos de escola, ele simplesmente limpara uns três quartos do seu conteúdo e os repusera ou atualizara, deixando no fundo uma cama­da de lixo — penas usadas, olhos secos de besouro, meias sem par que não lhe serviam mais. Minutos antes, Harry metera a mão nesse entulho, sentira uma dor lancinante no quarto dedo da mão direita e, ao puxá-la, viu que estava coberta de sangue.

Continuou, então, um pouco mais cauteloso. Tornando a se ajoelhar ao lado do malão, apalpou o fundo, retirou um velho bro­che que piscava fracamente, ora Apóie CEDRICO DIGGORY ora POTTER FEDE, um bisbilhoscópio rachado e gasto e um medalhão de ouro contendo um bilhete assinado por R.A.B., e finalmente descobriu o gume afiado que o ferira. Reconheceu-o sem hesitação. Era um caco de uns cinco centímetros do espelho encantado que Sirius, seu fale­cido padrinho, tinha lhe dado. Harry separou-o e apalpou o malão à procura do resto, mas nada mais restara do último presente do padrinho exceto o vidro moído, agora grudado, na última camada de destroços, como purpurina.

Harry sentou e examinou o caco pontiagudo em que se cortara, mas não viu nada além do reflexo do seu brilhante olho verde. Colocou, então, o fragmento sobre o Profeta Diário daquela manhã, que continuava intocado em sua cama, e tentou estancar o repenti­no fluxo de amargas lembranças, as pontadas de remorso e saudade que a descoberta do espelho partido tinha ocasionado, ao atacar o resto do lixo dentro do malão.

Levou mais uma hora para esvaziá-lo completamente, jogar fora os objetos inúteis e separar os demais em pilhas, de acordo com as suas futuras necessidades. Suas vestes de escola e de quadribol, cal­deirão, pergaminho, penas e a maior parte dos livros de estudo foram empilhados a um canto para serem deixados em casa. Ficou imaginando o que os tios fariam com aquilo; provavelmente quei­mariam tudo na calada da noite, como se fossem provas de um crime hediondo. Suas roupas de trouxa, Capa da Invisibilidade, estojo para preparo de poções, certos livros, o álbum de fotos que Hagrid um dia lhe dera, um maço de cartas e sua varinha foram rearrumados em uma velha mochila. No bolso frontal, guardou o mapa do maroto e o medalhão com o bilhete assinado por R.A.B. O medalhão recebera esse lugar de honra não porque fosse valioso -sob qualquer ângulo normal, era imprestável —, mas pelo que lhe custara obtê-lo.

Restou uma avantajada pilha de jornais sobre sua escrivaninha, ao lado da alvíssima coruja Edwiges: um exemplar para cada um dos dias desse verão que Harry passara na rua dos Alfeneiros.

Levantou-se, então, do chão, espreguiçou-se e se dirigiu à escriva­ninha. Edwiges não fez o menor movimento quando ele começou a folhear os jornais e atirar um a um na montanha de lixo acumulado; a coruja cochilava, ou fingia cochilar; estava zangada com Harry por causa do pouco tempo que, no momento, ele a deixava fora da gaiola.

Quase no fim da pilha de jornais, Harry desacelerou à procura de uma certa edição que ele sabia ter chegado logo depois do seu regres­so à rua dos Alfeneiros, para passar o verão; lembrava-se de que havia uma pequena nota na primeira página sobre o pedido de demissão de Caridade Burbage, a professora de Estudos dos Trouxas em Hogwarts. Finalmente encontrou-a. Abrindo-a à página dez, sentou-se à cadeira da escrivaninha e releu o artigo que estivera procurando.

EM MEMÓRIA DE ALVO DUMBLEDORE

Elifas Doge


Conheci Alvo Dumbledore aos onze anos de idade, em nosso primeiro dia em Hogwarts. Sem dúvida o nosso interesse mútuo se deveu ao fato de ambos nos sentirmos deslocados. Eu contraíra varíola de dragão pouco antes de chegar à escola, e, embora não ofereces­se mais contágio, o meu rosto marcado e verdoso não animava ninguém a se aproximar de mim. Por sua vez, Alvo chegara a Hogwarts carregando o peso de uma indesejável notoriedade. Menos de um ano antes, seu pai, Percival, fora condenado por um ataque selvagem, e amplamente comentado, a três rapazes trouxas.

Alvo jamais tentou negar que o pai (que morreria em Azkaban) cometera o crime; muito ao contrário, quando reuni coragem para lhe perguntar, ele me confirmou que sabia que o pai era culpado. E se recusava a acrescentar o que fosse sobre o triste caso, embora muitos tentassem fazê-lo falar. Alguns até se dispunham a elogiar a atitude do pai, presumindo que Alvo também odiasse trouxas. Não poderiam estar mais enganados: todos que conheceram Alvo atestariam que ele jamais revelou a mais remota tendência antitrouxa. Na realidade, seu decisivo apoio aos direitos dessa comunidade conquistou-lhe muitos inimigos nos anos que se seguiram.

Em questão de meses, no entanto, a fama pessoal de Alvo começou a eclipsar a do pai. Ao terminar o primeiro ano de Hogwarts, deixara de ser conhecido como o filho do homem que odiava trouxas, e ganhou a reputação de ser o aluno mais brilhante que a escola já vira. Aqueles que tinham o privilégio de ser seus amigos se beneficiavam do seu exemplo, além de ajuda e estímulo, que sempre distribuía com generosidade. Mais adiante na vida, ele me confessaria que já naquela época sabia que o seu maior prazer era ensinar.

Alvo não só ganhou todos os prêmios importantes que a escola oferecia, bem como não tardou a se corresponder regularmente com as personalidades mais notáveis do mundo da magia contemporânea, inclusive Nicolau Flamel, o famoso alquimista, Batilda Bagshot, a renomada historiadora, e o teórico da magia Adalberto Waffling. Vários dos seus artigos foram acolhidos por publicações cultas como a Transfiguração Hoje, Desafios nos Encantamentos, O Preparador de Poções. A carreira futura de Dumbledore provavelmente seria meteórica, e a única dúvida era se chegaria a ministro da Magia. Embora futuramente se previsse com freqüência que ele estava às vésperas de assumir o cargo, Dumbledore nunca teve ambições ministeriais.

Três anos depois de começarmos a estudar em Hogwarts, seu irmão chegou à esco­la. Não se pareciam; Aberforth nunca foi dado a leituras e, ao contrário de Alvo, prefe­ria resolver suas diferenças com duelos em vez de discuti-las racionalmente. É, porém, um engano insinuar, como alguns têm feito, que os irmãos não fossem amigos. Davam-se tão bem quanto dois garotos, assim diferentes, poderiam se dar. E, para fazer justiça a Aberforth, deve-se admitir que viver à sombra de Alvo não pode ter sido uma experiên­cia muito confortável. Ser continuamente ofuscado era um risco ocupacional que acom­panhava seus amigos, e não pode ter sido muito mais prazeroso para um irmão.

Quando Alvo e eu concluímos os estudos em Hogwarts, pretendíamos fazer juntos a viagem pelo mundo, então tradicional, para visitar e observar os bruxos estrangeiros, antes de seguir cada qual a sua carreira. Interveio, porém, a tragédia. Na véspera de nossa viagem, a mãe de Alvo, Kendra, faleceu, legando ao filho mais velho a tarefa de chefiar e sustentar sozinho a família. Adiei a minha partida tempo suficiente para pres­tar as últimas homenagens a Kendra, então iniciei a viagem, solitário. Com um irmão e uma irmã mais jovens para cuidar, e o pouco dinheiro herdado, já não havia possibili­dade de Alvo me acompanhar.

Aquele foi o período de nossas vidas em que mantivemos menos contato. Escrevi a Alvo, narrando, talvez insensivelmente, as maravilhas da minha viagem, desde o episó­dio em que escapei por um triz de quimeras na Grécia até as minhas experiências com alquimistas egípcios. As cartas dele me contavam alguma coisa de sua vida diária, que eu percebia ser monótona e frustrante para um bruxo tão genial. Absorto em minhas pró­prias experiências, foi com horror que soube, quase no fim do ano de viagens, que outra tragédia se abatera sobre a família: a morte de sua irmã Ariana.

Embora Ariana não gozasse de boa saúde havia tempo, o golpe tão próximo à morte da mãe afetou profundamente os dois irmãos. Todos os que eram mais chegados a Alvo — e incluo-me entre esses felizardos — concordam que a morte de Ariana e o senti­mento de responsabilidade do irmão por esse desfecho (ainda que ele não fosse culpado) marcaram-no para sempre.

Quando regressei, encontrei um rapaz que passara por sofrimentos de um homem mais velho. Alvo tornou-se mais reservado do que antes e muito menos alegre. Para aumentar sua infelicidade, a morte de Ariana não conduzira a uma aproximação maior entre Alvo e Aberforth, mas a um afastamento. (Com o tempo isso se resolveria — nos últimos anos eles restabeleceram se não uma relação íntima, ao menos cordial.) Desde então, porém, ele raramente falava dos pais ou de Ariana, e seus amigos aprenderam a não mencioná-los.

Outros escritores descreverão os triunfos dos anos seguintes. As inúmeras contribui­ções de Dumbledore ao acervo de conhecimentos sobre magia, inclusive a descoberta dos doze usos para o sangue de dragão, beneficiarão as futuras gerações, do mesmo modo que a sabedoria que demonstrou nos muitos julgamentos que realizou durante o mandato de presidente da Suprema Corte dos Bruxos. Dizem, ainda hoje, que nenhum duelo de magia jamais se igualou ao que foi travado entre Dumbledore e Grindelwald, em 1945. Os presentes descreveram o terror e o assombro que sentiram ao observar aqueles dois bruxos extraordinários combaterem. A vitória de Dumbledore e suas conse­qüências para o mundo bruxo são consideradas um marco na história da magia, compa­rável à introdução do Estatuto Internacional de Sigilo em Magia ou à queda d'Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado.

Alvo Dumbledore jamais demonstrava orgulho ou vaidade; sempre encontrava o que elogiar em qualquer pessoa, por mais insignificante ou miserável que fosse, e acre­dito que as perdas que sofreu na juventude o dotaram de grande humanidade e solida­riedade. Sentirei saudades de sua amizade mais do que poderia reconhecer, mas a minha perda é desprezível se a compararmos à do mundo dos bruxos. É indiscutível que ele foi o mais inspirador e o mais querido diretor de Hogwarts. Ele morreu como viveu: sempre trabalhando para o bem maior e, até a sua hora final, tão disposto a estender a mão ao garotinho com varíola de dragão quanto no dia em que o conheci.

Harry terminou a leitura, mas continuou a contemplar a foto que acompanhava o obituário. Dumbledore exibia o seu conhecido sorriso bondoso, mas, ao olhar por cima dos oclinhos de meia-lua, dava a impressão, mesmo em jornal, de ver o íntimo de Harry cuja tristeza mesclou-se com uma sensação de humilhação.

Tinha achado que conhecia Dumbledore muito bem, mas, depois da leitura do obituário, fora forçado a admitir que pouco sabia dele. Jamais imaginara uma única vez a infância ou a juventu­de do mestre; era como se ele tivesse ganhado existência quando Harry o conhecera, venerável, de barbas e cabelos prateados, e idoso. A idéia de um Dumbledore adolescente era simplesmente esquisita, o mesmo que imaginar uma Hermione burra ou um explosivim amigável.

Nunca pensara em indagar a Dumbledore sobre o seu passado. Sem dúvida, teria sido constrangedor, e até impertinente, mas era de conhecimento geral que Dumbledore travara um lendário duelo com Grindelwald, e Harry nem sequer pensara em perguntar ao mestre como fora este e outros feitos famosos. Não, eles sempre dis­cutiam Harry, o passado de Harry, o futuro de Harry, os planos de Harry... e a impressão de Harry agora, apesar de seu futuro tão peri­goso e incerto, era que ele perdera insubstituíveis oportunidades de perguntar mais a Dumbledore sobre ele mesmo, embora a única pergunta pessoal que fizera ao mestre tenha sido, também, a única que, desconfiava, Dumbledore não respondera com sinceridade:

O que é que o senhor vê quando se olha no espelho?

Eu? Eu me vejo segurando um par de grossas meias de lã.

Após alguns minutos de reflexão, Harry retirou o obituário do Profeta, dobrou a folha cuidadosamente e guardou-a no primeiro volume de Prática da magia defensiva e seu uso contra as Artes das Trevas. Em seguida, atirou o resto do jornal no monte de lixo e virou-se para encarar o quarto. Estava muito mais arrumado. As únicas coisas fora de lugar eram a edição do dia do Profeta Diário, ainda sobre a cama, e, em cima dela, o caco de espelho.

Harry atravessou o quarto, empurrou o caco para o lado e abriu o jornal. Tinha apenas corrido os olhos pela manchete ao tirar o exem­plar enrolado das garras da coruja entregadora, mais cedo naquela manhã, abandonando-o em seguida ao reparar que nada havia sobre Voldemort. Harry tinha certeza de que o Ministério contava que o Profeta omitisse as notícias sobre o bruxo das trevas. Foi somente neste momento, portanto, que reparou no que deixara escapar.

Na metade inferior da primeira página, havia uma manchete no alto de uma foto de Dumbledore caminhando com um ar preocupa­do: DUMBLEDORE — ENFIM A VERDADE?

Na próxima semana, a chocante verdade sobre o gênio imperfeito que muitos conside­ram o maior bruxo de sua geração.

Desfazendo a imagem popular de serena e venerável sabedoria, Rita Skeeter reve­la a infância perturbada, a juventude rebelde, as rixas intermináveis e os segredos ver­gonhosos que Dumbledore levou para o túmulo. POR QUE o homem indicado para minis­tro da Magia se contentou com o simples cargo de diretor de escola? QUAL era a real finalidade da organização secreta conhecida como a Ordem da Fênix? COMO Dumbledore realmente encontrou a morte?

As respostas a essas perguntas e muitas outras são examinadas em uma nova e explosiva biografia A vida e as mentiras de Alvo Dumbledore, de autoria de Rita Skeeter, entrevistada com exclusividade por Betty Braithwaite, na página 13 deste número.

Harry rasgou a cinta do jornal e abriu-o à página treze. O artigo estava encimado pela foto de outro rosto conhecido: uma mulher com óculos enfeitados com pedrinhas, cabelos louros bem ondula­dos, os dentes à mostra no que, sem dúvida, se supunha ser um sor­riso cativante, agitando os dedos para ele. Fazendo o possível para ignorar a imagem nauseante, Harry leu.

Rita Skeeter é muito mais simpática e sensível em pessoa do que os seus já famosos e ferozes retratos a bico-de-pena poderiam sugerir. Recebendo-me à entrada de sua casa aconchegante, ela me conduz diretamente à cozinha para uma xícara de chá, uma fatia de bolo inglês e, nem é preciso dizer, um caldeirão fumegando com fofocas frescas.

"Naturalmente, Dumbledore é o sonho de qualquer biógrafo", diz Skeeter, "com sua vida longa e plena. Tenho certeza que o meu livro será o primeiro de muitos outros."

Skeeter certamente agiu com rapidez. Seu livro de novecentos páginas foi concluí­do apenas quatro semanas após a misteriosa morte de Dumbledore, em junho. Pergunto-lhe como conseguiu esse feito de velocidade.

"Ah, quando se é jornalista de longa data, trabalhar com prazos curtos é uma segunda natureza. Eu sabia que o mundo dos bruxos exigia uma história completa e que­ria ser a primeira a satisfazer essa demanda."

Menciono os comentários recentes e amplamente divulgados de Elifas Doge, con­selheiro especial da Suprema Corte dos Bruxos, o Wizengamot, e amigo de longa data de Alvo Dumbledore, de que "o livro da Skeeter contém menos fatos do que um cartão de sapos de chocolate".

Skeeter joga a cabeça para trás dando uma gargalhada.

"Querido Doguinho! Lembro-me de tê-lo entrevistado há alguns anos sobre os direi­tos dos sereianos, que Deus o abençoe. Completamente gagá, parecia achar que estáva­mos sentados no fundo do lago Windermere, e não parava de recomendar que eu tives­se cuidado com as trutas."

Contudo, as acusações de imprecisão feitas por Elifas Doge encontraram eco em muitos lugares. Será que Skeeter julga que quatro breves semanas foram suficientes para captar um retrato de corpo inteiro da longa e extraordinária vida de Dumbledore?

"Ah, minha cara", responde ela, abrindo um largo sorriso e me dando um tapinha afetuoso na mão, "você conhece tão bem quanto eu a quantidade de informações que pode gerar uma bolsa cheia de galeões, uma recusa em aceitar um 'não' e uma pena de repetição-rápida! As pessoas fizeram fila para despejar as sujeiras de Dumbledore. Nem todas achavam que ele fosse tão maravilhoso assim, sabe — ele pisou um bom número de calos de gente importante. Mas o velho Doguinho esquivo pode descer do seu hipogrifo, porque tive acesso a uma fonte que faria jornalistas negociarem as próprias varinhas para obter, alguém que jamais fez declarações públicas e que foi íntimo de Dumbledore durante a fase mais turbulenta e perturbada de sua juventude."

A publicidade que antecede o lançamento da biografia de Skeeter certamente suge­re que o livro reserva surpresas para os que acreditam que Dumbledore levou uma vida sem pecados. Perguntei-lhe quais foram os maiores que descobriu.

"Francamente, Betty, não vou revelar todos os destaques antes de as pessoas com­prarem o livro!", ri-se Skeeter. "Mas posso prometer que alguém que ainda pense que Dumbledore era alvo como suas barbas vai acordar assustado! Digamos apenas que nin­guém que o tenha ouvido vociferar contra Você-Sabe-Quem sonharia que ele próprio lidou com as Artes das Trevas na juventude! E, para um bruxo que passou o resto da vida pedindo tolerância, ele não era exatamente indulgente quando mais moço! Sim, senhora, Alvo Dumbledore teve um passado sombrio, isso para não mencionar sua família muito suspeita, que ele tanto se esforçou por ocultar."

Pergunto se Skeeter está se referindo ao irmão de Dumbledore, Aberforth, cuja con­denação pela Suprema Corte dos Bruxos por mau uso da magia causou um pequeno escândalo há quinze anos.

"Ah, Aberforth é apenas o topo da estrumeira", ri-se Skeeter. "Não, não, estou falando de coisa muito pior do que a predileção de um irmão por bodes, pior mesmo do que a mutilação de um trouxa pelo pai, coisas que Dumbledore não pôde abafar, os dois foram condenados. Não, estou me referindo à mãe e à irmã que me intrigaram, uma pequena pesquisa desenterrou um verdadeiro ninho de maldades — mas, como digo, você terá que esperar pelos capítulos de nove a doze para conhecer os detalhes. O que posso adiantar agora é que ninguém estranhe que Dumbledore nunca tenha contado como fra­turou o nariz."

Apesar dos torpes segredos de família, será que Skeeter nega a genialidade que conduziu Dumbledore a tantas descobertas em magia?

"Ele tinha cabeça", admite ela, "embora muitos agora questionem se realmente mereceu sozinho o crédito por suas supostas realizações. No capítulo dezesseis, transcre­vo a afirmação de Ivor Dillonsby de que ele já teria descoberto oito usos para o sangue de dragão quando Dumbledore 'tomou emprestado' os seus estudos."

Atrevo-me a replicar que a importância de algumas realizações de Dumbledore não pode ser negada. E a famosa vitória sobre Grindelwald?

"Ah, foi bom você ter mencionado o Grindelwald", responde Skeeter, com um sor­riso irresistível. "Acho que aqueles cujos olhos umedecem de emoção com a magnífica vitória de Dumbledore devem se preparar para uma bomba — ou talvez uma bomba de bosta. Realmente fede bastante. Só posso alertar para a dúvida com relação ao duelo espetacular que nos conta a lenda. Depois de lerem o meu livro, as pessoas talvez sejam obrigadas a concluir que Grindelwald simplesmente conjurou um lenço branco na ponta da varinha e se entregou!"

Skeeter se recusa a revelar outros detalhes sobre o intrigante assunto, portanto, abordamos a relação que, sem dúvida, mais fascina os seus leitores.

"Ah, sim", diz Skeeter, assentindo energicamente, "dedico um capítulo inteiro à relação Potter-Dumbledore. Há quem a considere doentia e até sinistra. Repito mais uma vez, os seus leitores terão de comprar o meu livro para saber a história completa, mas, pelo que ouço dizer, é ponto pacífico que Dumbledore tomou um interesse anormal por Potter. Se isso realmente visava o bem do garoto — é o que veremos. Certamente não é segredo que Potter tem tido uma adolescência excepcionalmente perturbada."

Perguntei se Skeeter ainda mantém contato com Harry Potter, a quem entrevistou, com sucesso, no ano anterior: um furo de reportagem em que Potter falou exclusivamen­te de sua certeza sobre o retorno de Você-Sabe-Quem.

"Ah, sim, construímos um forte vínculo", diz Skeeter. "O coitado do Potter tem pou­cos amigos verdadeiros, e nos conhecemos em um dos momentos de maior desafio de sua vida — o Torneio Tribruxo. Provavelmente sou uma das poucas pessoas vivas que podem afirmar conhecer o real Harry Potter."

A resposta nos leva diretamente aos muitos boatos que continuam a circular sobre as últimas horas de vida de Dumbledore. Será que Skeeter acredita que Potter estava pre­sente quando ele morreu?

"Bem, não quero falar demais — está tudo no livro —, mas testemunhas oculares no castelo de Hogwarts viram Potter saindo de cena instantes depois de Dumbledore cair, saltar ou ser empurrado. Mais tarde, o garoto prestou depoimento acusando Severo Snape, um homem com quem ele tinha conhecida inimizade. Será que as coisas são como parecem ser? Caberá à comunidade bruxa julgar — depois de ler o meu livro."

A essa nota intrigante, eu me despeço. Não há dúvida de que Skeeter escreveu um bestseller de ocasião. Enquanto isso, as legiões de admiradores de Dumbledore talvez estejam apreensivas com o que em breve será divulgado sobre o seu herói.
Harry chegou ao fim do artigo, mas continuou a olhar atônito para o papel. A repugnância e a fúria o acometeram como um vômi­to; ele amassou o jornal e atirou-o, com toda a força, contra a parede, onde a bola foi se juntar ao monte de lixo que já transbordava da lata.

Começou a caminhar às cegas pelo quarto, abrindo gavetas vazias e erguendo os livros para, em seguida, repô-los nas mesmas pilhas, quase inconsciente do que fazia, enquanto frases esparsas da entrevista com Rita ecoavam em sua cabeça: um capítulo inteiro à rela­ção Potter-Dumbledore... há quem a considere doentia e até sinistra... ele próprio lidou com as Artes das Trevas na juventude... tive acesso a uma fonte que faria jornalistas negociarem as próprias varinhas para obter...

— Mentiras! — berrou Harry, e pela janela viu o dono da casa ao lado, que parara para religar o cortador de grama, erguer os olhos, nervoso.

O garoto sentou-se com força na cama. O caco de espelho sal­tou para longe; ele o apanhou e examinou entre os dedos pensan­do, pensando em Dumbledore e nas mentiras com que Rita Skeeter o difamava...

Um lampejo azul intenso. Harry congelou, o dedo cortado escorregou pela ponta do espelho. Fora imaginação, devia ter sido. Ele espiou por cima do ombro, mas a parede continuava da cor pês­sego enjoativo que tia Petúnia escolhera; não havia nada azul ali para ser refletido. Harry tornou a examinar o fragmento de espelho e nada viu, exceto o seu olho muito verde encarando-o.

Imaginara o lampejo, não havia outra explicação; imaginara porque estivera pensando no diretor falecido. Se havia uma certeza era que os olhos muito azuis de Alvo Dumbledore jamais o perscrutariam outra vez.




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