Herculano Pires Parapsicologia Hoje e Amanhã



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10.
Pesquisas e controle


Como se realiza a investigação experimental em Parapsicologia? E qual o procedimento seguido para o controle estatístico dos resultados? Essas são duas perguntas que ocorrem a todo estudante, depois dos primeiros contatos com a nova disciplina científica. Em linhas gerais, ambas estão respondidas desde que o estudante tomou conhecimento da realidade paranormal, porque a Parapsicologia, como todos sabem, é um ramo das Ciências que teve, como primeira tarefa, provar a existência do seu objeto. Mas as linhas gerais não satisfazem à curiosidade do estudante, tanto mais quando ele tem a pretensão de, mais hoje, mais amanhã, dedicar-se à pesquisa, participar de algumas experiências ou pelo menos poder explicar como elas se processam.

Antes de tudo e para fazermos justiça ao grande injustiçado que tem sido Charles Richet, autor do Tratado de Metapsíquica, Prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina em 1913, convém lembrar que foi precisamente ele, o campeão do método qualitativo nas experimentações do paranormal, o primeiro a aplicar também o método quantitativo. Isso ocorreu em 1884. Richet realizou 2.997 experiências com cartas de baralho, obtendo 789 resultados positivos, quando as probabilidades eram de 732. A diferença não foi, como se costuma dizer, significativa. Muitas críticas foram feitas ao seu procedimento. Apesar disso, Richet fez observações interessantes que são válidas até hoje, como a referente à existência de uma influência da fadiga na percepção extra-sensorial.

O trabalho de Richet a respeito foi publicado na Revista Filosófica (Revue Philosophique), tomo XVIII, pág. 609, de dezembro de 1884. Intitula-se: “A sugestão mental e o cálculo de probabilidades”. Curioso notar, de passagem, que a denominação dada por Richet ao fenômeno reapareceu em nossos dias numa obra importante do Professor Vassiliev, Catedrático também de Fisiologia da Universidade de Leningrado, sobre as suas experiências telepáticas. Depois de Richet coube ao físico inglês Sir Oliver Lodge sugerir um processo matemático para avaliação dos resultados de experiências telepáticas, feitas também com cartas de baralho, em 1885.

Mas o cálculo de probabilidades, que é elemento fundamental do controle estatístico das experiências, está vinculado historicamente às cartas de baralho e ao jogo de dados. Galileu Galilei, Pierre Fermat e Blaise Pascal, que criaram essa forma de cálculo, utilizaram-se dos dados como excelente material para suas experiências. Assim como no jogo de dados, também no referente ao baralho, o cálculo de probabilidades serviu para a explicação de muitos problemas aparentemente ocasionais ou casuais dos resultados das partidas. E isso de tal maneira que, bem equacionada a situação, um especialista poderá determinar as razões matemáticas da ruína de um jogador obstinado. Veja-se, a respeito, as explicações de Émile Borel em Traité du Calcul des Probabilités et ses Aplications.

Esses antecedentes históricos, aparentemente sem importância, mostram que o cálculo de probabilidades estava, por assim dizer, predestinado a servir para a comprovação dos fenômenos paranormais. Por outro lado explicam a razão da sua utilização em experiências elaboradas com dados e cartas de baralho. Como sabemos, Rhine e sua equipe, na Duke University, racionalizaram a aplicação desses instrumentos através da criação das chamadas cartas Zener e dos dados especiais para fins experimentais. A propósito, convém lembrar que Fermat e Pascal consideravam os dados, segundo Borel, desdeque bem fabricados, como cubos perfeitos, constituídos de substâncias homogêneas em que os sinais numéricos das faces não comprometem, por sua leveza, a simetria necessária. Esta observação responde, com antecedência de três séculos – pois Fermat e Pascal realizaram seus trabalhos na primeira metade do século dezessete –, a algumas objeções que ainda hoje se pretendem levantar à aplicação dos dados. Tanto mais que os dados de Rhine são especialmente preparados para as experiências.

Outra objeção a que Borel responde com absoluta segurança é a de que o cálculo de probabilidades é puramente abstrato e pode provar qualquer coisa que o especialista desejar. Como adverte Amadou, essa objeção revela apenas que o seu formulador ignora por completo o que se chama cálculo de probabilidades. Borel recorre a um exemplo do matemático inglês Lord Keynes para mostrar que o referido cálculo, como todos os demais, sendo de natureza subjetiva apresenta resultados objetivos em suas aplicações a casos concretos. Por outro lado, Keynes demonstra que os erros no cálculo de probabilidades decorrem da falta de conhecimento exato, pelo calculador, do caso concreto a que o aplica. E Borel acrescenta que a probabilidade, em certos casos, pode igualar à unidade, equivalente portanto à certeza. O valor da probabilidade é relativo à exatidão dos dados postos em equação.

Por isso mesmo as cartas de baralho aplicadas às experiências de Parapsicologia, como vimos nos casos de Zener e de Soal (cartas de cinco figuras geométricas e de cinco figuras de animais, respectivamente) reduzem ao mínimo os números a serem apreciados e estabelecem com absoluta segurança e clareza a probabilidade de acerto por acaso. E por isso também os dados de Rhine, especialmente fabricados para a experimentação científica, lançados por meio mecânico e tendo os resultados de cada jogo registrados fotograficamente, excluem as dificuldades habituais do cálculo, dando-lhe a segurança requerida para a exata verificação dos resultados da experiência. Aliás, como observam Rhine, Soal, Carington e Amadou, o controle estatístico demonstra unicamente que os fenômenos estudados não podem ser atribuídos ao acaso. O problema da natureza dos fenômenos, de suas causas reais, depende do processo científico de exclusão de hipóteses.

Esclarecidos estes aspectos fundamentais da investigação experimental em Parapsicologia, podemos passar ao exame de alguns casos concretos. Comecemos pelo mais discutido dos fenômenos: o de psicocinesia. O próprio Rhine nos ofereceu em O Alcance da Mente vários exemplos de experiências com dados, realizadas a partir de 1934. A escolha dos dados não foi preconcebida. Ocorreu por acaso. Um jovem jogador de dados chamou a atenção de Rhine, no próprio laboratório, para a crença de muitas pessoas de que podem agir mentalmente sobre os resultados. “Vimos – escreveu Rhine – que o lançamento de dados era o procedimento ideal indicado para os ensaios de laboratório sobre a hipótese da psicocinesia”. Uma das razões principais era o interesse dos sujets, já naturalmente assegurado. A outra era a aplicabilidade das diversas formas de controle experimental.

Rhine ofereceu-nos o seguinte exemplo de uma série típica de experiência com dados. Explicava-se ao sujet o objetivo da experiência. Dava-se-lhe um copo e um par de dados. Escolhia-se, por exemplo, um resultado a ser alcançado: o número 7. Pedia-se ao sujet que sacudisse o copo e lançasse os dados sobre uma mesa com toalha. Os resultados eram proclamados em voz alta, depois de atentamente verificados por duas ou mais pessoas previamente escaladas, e o controlador, que podia ser o próprio experimentador, os registrava. Todos os acertos eram assinalados por um círculo em redor. As combinações 6 mais 1, 5 mais 2, 4 mais 3, eram as únicas possíveis, como se sabe. Isso facilitava a verificação dos resultados. Cada série se constituía de 12 lançamentos dos dados. Depois de cada série, os acertos eram computados e fazia-se o cálculo de probabilidades.

Este é apenas um exemplo de experiência rudimentar. Posteriormente os lançamentos foram se complicando. Fizeram-se experiências planejadas com minúcias, aplicando-se maior número de dados. Mais tarde, como sabemos, foram feitos dados especiais com materiais diversos, como madeira, chumbo, aço, materiais plásticos, etc., e inventados aparelhos especiais para o lançamento. Por fim aplicou-se a máquina elétrica, dotada de controle fotográfico dos resultados, jogando-se com grande número de dados. Fazem-se experiências com sessenta e mais dados, objetivando-se os mais variados resultados. Há também as experiências de localização, determinando-se mentalmente que os dados sejam lançados de um lado ou de outro da mesa, quando a máquina só poderia lançá-los na parte central.

Dado este exemplo simples, que pela sua própria simplicidade revela o mecanismo da experiência de psicocinesia com dados, passemos a um caso concreto de percepção extra-sensorial. Tomamos um caso de investigação com as cartas Zener realizado por Naum Kreiman e Dora Ivnisk, relatado por ambos no n° 3, fevereiro e março de 1964, volume primeiro dos “Cuadernos de Parapsicologia”, de Buenos Aires. Foram realizadas duas experiências: uma de 50 jogos, em sete sessões, com 6 e 8 jogos por sessão; e outra de 40 jogos, em cinco sessões, com 8 jogos por sessão. Cada jogo consta das retiradas de cartas de um maço de 25. Assim, uma sessão com 8 jogos é aquela em que se utiliza oito vezes o maço.

Em setembro de 1963 os experimentadores conheceram a Srta. I. F., que lhes contou haver acertado numerosas vezes em números de rifa e que geralmente predizia a data de recepção de correspondência de seus amigos e parentes. Convidada a realizar experiências com as cartas Zener, aceitou. Os experimentadores tiveram o cuidado de não utilizá-la apenas como sujeito, para não coagi-la, submetendo-a a uma situação de cobaia. Dessa maneira a Srta. I. F. agiu também como experimentadora. Essa precaução é de grande valor nas experiências e concorda com as observações de Soal quanto à necessidade de não exercer nenhuma forma de constrangimento sobre o sujeito.

Nas duas experiências foi empregado o sistema do maço cerrado, embaralhado ao acaso e cortado sem que o sujeito o veja. O maço cerrado é um maço compacto de 25 cartas Zener colocado de face voltada para baixo sobre a mesa e tendo o dorso coberto por cartão ou papel branco. O sujeito deve adivinhar as cartas em sua ordem no maço, começando pela de cima ou pela de baixo. Nos primeiros jogos, os resultados favoreciam a posição + 1, ou seja, o sujeito percebia a carta seguinte, e não a que devia perceber. Por sinal que esses resultados estavam de acordo com a sua informação de que acertava em números de rifa e previa a chegada de correspondência. A própria Srta. I. F. declarou: “O passado não me interessa, só me interessa o futuro.” Mas, na quarta sessão, comentando os resultados referentes à carta 0, que é a carta a ser adivinhada, disse: “No começo não acerto muito, preciso esquentar, porque os meus maiores acertos se verificam nos últimos jogos de cada sessão.” Na sexta sessão, declarou que os seus maiores acertos se davam através de respostas espontâneas. Em todas as sessões houve o cuidado de evitar o cansaço do sujeito.

Vejamos o resultado da quarta sessão, realizada a 26 de novembro de 63: a Srta. I. F. acertou 37 vezes na carta 1. Isso, em oito jogos. Resultado demasiado variável, mas significativo quanto à possibilidade de acertos. Os resultados totais da experiência foram os seguintes: carta 0, obtidos 257 acertos, com apenas 7 além dos previstos como prováveis por acaso; carta + 1, 234 acertos, com menos 6 do que os previstos e portanto aquém dos prováveis acasos; carta – 1, 209 acertos, com menos 31 do que os previstos por acaso.

A avaliação matemática destes resultados escapa à compreensão dos leigos no assunto, pois exige a aplicação da chamada hipótese binômia, para cálculo dos desvios de percepção. Nos resultados acima, o chamado desvio standard, designado pelas iniciais DS, acusou 14,14 para as cartas 0; 13,85 para as cartas + 1; e 13,85 para as cartas – 1. A hipótese binômia (tendo por base a fórmula de Bernoulli) acusa a razão crítica, designada pelas iniciais RC, de 2,23. Este resultado acusa um desvio negativo, para carta – 1, que, segundo os experimentadores “coincide de certa maneira como as referências do sujeito sobre o passado e o futuro.”

Convém esclarecer que o desvio negativo é o desvio inferior aos resultados prováveis por acaso. É por isso que esse desvio concordava com a declaração da Srta. I. F. de que o passado não lhe interessava, mas somente o futuro. O segundo experimento, de 40 jogos, realizado de acordo com as regras do anterior, não deu melhores resultados. A Srta. I. F. teve a oportunidade de dar, ao lado das respostas espontâneas em voz alta e anotadas pelo experimentador, respostas não-espontâneas que ela mesma registrava numa folha de papel aparte, sem a intenção de coincidir com a carta objetivo. Todos os resultados desse experimento não excederam as probabilidades do acaso, de maneira que não houve maior interesse.

Como se vê, a técnica das experiências é relativamente fácil e pode variar de acordo com as circunstâncias e os objetivos a atingir. É necessário, porém, que cada experiência seja bem planejada, em seus mínimos detalhes. No caso que examinamos o sujet foi colocado numa ponta da mesa e o operador na outra ponta. Entre os dois havia uma divisão de madeira, que não permitia ao sujet ver o operador. Além disso, o maço de cartas estava cerrado, ou seja, empilhado, de maneira que ninguém conhecia a ordem das cartas. Não era uma experiência de telepatia, mas de clarividência. O operador indicava por onde a percipiente devia começar, se pela carta de baixo ou de cima, e esta começava a responder. O operador anotava as respostas. Os resultados eram conhecidos depois de cada jogo.

Devemos deixar bem clara a estrutura da experiência, que pode ser dada nos seguintes termos: cada experiência constitui-se de jogos, sendo para cada jogo o uso total de 25 cartas; cada jogo, por sua vez, constitui-se de cinco ensaios, que são as cinco cartas tiradas sucessivamente, ou apenas percebidas no maço cerrado. O número de jogos depende do plano elaborado pelo experimentador. Como as figuras do baralho Zener ou do baralho Soal são apenas cinco, a probabilidade de acertar, em cada ensaio, por acaso, é apenas uma. O desvio é a quantidade de acertos a mais ou a menos que a probabilidade de acasos. Assim, quando um percipiente acerta num jogo 20 vezes, o que já aconteceu em diversas ocasiões, o desvio positivo é 15, pois dos vinte acertos devemos eliminar os cinco do acaso provável. Quando, em vez de acertar tanto, o percipiente acerta apenas 4 vezes, há um desvio negativo de 1.

O desvio standard é uma forma matemática de desvio que ocorre de maneira progressiva. Num jogo de cinco ensaios, com 15 acertos pelo percipiente, temos o desvio positivo de 10 e o desvio standard de 2. Dividindo o primeiro pelo segundo, temos a razão crítica de 5. A fórmula matemática do desvio standard indica que esse desvio aumenta na proporção da raiz-quadrada do número de ensaios. A probabilidade da ocorrência de acertos por acaso em grandes experiências implica o aparecimento da razão crítica por acaso. Existe uma tabela especial com os valores dessa razão que permite encontrar prontamente a probabilidade de acaso sem necessidade de grandes cálculos.

A razão crítica, estatisticamente chamada valor t, é a diferença entre o desvio verificado, ou seja, entre o número de acertos e o desvio standard, ou seja, os resultados previstos, que em português podemos chamar desvio tipo. Na tábua ou tabela da razão crítica o valor 5, que consideramos acima num jogo de cinco ensaios, indica uma probabilidade por acaso de apenas 1 em 3 milhões.

Como se vê, o controle estatístico da investigação experimental em Parapsicologia requer conhecimentos especializados. O método está hoje completamente desenvolvido e a sua aplicação aos resultados das experiências assegurou a plena validade das mesmas do ponto de vista das exigências científicas. Desde que as experiências sejam planejadas e executadas com o necessário rigor e o tratamento estatístico procedido por especialistas, como ocorre em todos os grandes centros de pesquisa, os resultados obtidos não podem deixar a menor dúvida. Essa a razão porque a Parapsicologia é hoje uma disciplina científica positiva, admitida e exercida em todos os grandes centros universitários.

O Professor José Fernandes, Catedrático jubilado de Física das Universidades de Buenos Aires e La Plata, parapsicólogo de renome mundial, informa em seu livro Parapsicologia Experimental que nas experiências com o sensitivo Ronald W. na Sociedade Argentina de Parapsicologia, verificou-se por várias vezes o resultado de 100%, ou seja, 25 acertos em cada jogo de 25 cartas. Casos como esses, também verificados na Europa e nos EUA, dão a esperança de grande certeza em experiências bem realizadas, em condições adequadas. Com isso, temos também a possibilidade de controle das funções psi.

No tocante a esse controle é, porém, conveniente não alimentarmos ilusões. As funções psi decorrem de processos bastante sutis de percepção cortical em condições psicofisiológicas apropriadas. Essas condições não correspondem às situações habituais dos sujets na vida cotidiana. É necessário desenvolver nestes o processo de adaptação a essas condições, para que as funções psi sejam exercidas com segurança. Acreditamos que as possibilidades de generalização do uso das funções psi dependam das condições gerais de vida e cultura numa civilização menos conflitiva e agressiva do que a nossa. Em suma: trata-se de possibilidade para o futuro.



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