Herculano Pires Parapsicologia Hoje e Amanhã



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11.
Hiperestesia e hipermnesia


Há pessoas que se perdem facilmente no caminho por falta de senso de orientação. Assim, há estudiosos, pesquisadores e expositores de Parapsicologia que facilmente se perdem nos seus trabalhos por falta do mesmo senso. Mas há também os que se fazem de perdidos por mera conveniência. É o caso dos sacerdotes hipnotizadores e malabaristas que tudo fazem para confundir os leigos e aturdir o povo, com o objetivo único de defender as suas posições religiosas, ameaçadas pela evolução das Ciências psicológicas. O outro caso, o das pessoas que de boa-fé se extraviam no caminho, pode ser explicado por uma imagem de Rhine: são exploradores que se esquecem do largo mar, entretidos com os seixos da praia.

Os fenômenos de hiperestesia e de hipermnesia têm servido para muitas confusões teóricas em Parapsicologia. O Padre Oscar Gonzalez Quevedo S. J., em seu livro A Face Oculta da Mente, deu grande ênfase aos casos de hiperestesia para acentuar que os fenômenos de percepção extra-sensorial podem ser puramente fisiológicos, e portanto sensoriais. Antes dele, centenas de pesquisadores e estudiosos do passado, particularmente na fase metapsíquica, firmaram os pés nesse mesmo terreno e no da hipermnesia, com o mesmo fim, mas com a diferença de serem mais coerentes, pois eram materialistas. Todo o esforço do P. Quevedo se concentra na tentativa de explicação fisiológica dos fenômenos paranormais. Isso o coloca ao lado das correntes materialistas da Parapsicologia e em especial da corrente soviética. O simples título de seu último livro, As Forças Físicas da Mente, no momento em que Rhine demonstra que a mente não é física, prova que esse padre é mais materialista do que Marx e Buchner.

A hiperestesia constituiu uma hipótese importante no início do movimento metapsíquico, pois parecia capaz de explicar de maneira natural ocorrências paranormais que eram interpretadas como sobrenaturais. Hoje, nesse sentido, não passa de uma hipótese superada. Sabemos que a hiperestesia é uma condição fisiológica de psi. E que essa condição pode existir em tal intensidade que antecipe com percepções hiperestésicas as manifestações extra-sensoriais. Aumentada a capacidade estésica dos nossos sentidos, por influência de fatores diversos, temos a nossa percepção aumentada. Compreende-se que esse fenômeno deva corresponder a uma preparação fisiológica maior ou menor, perceptível ou não, do estado de transe, considerado, como sustenta Amadou, “o estado psicofisiológico necessário para o exercício da função psi”.

Podemos colocar a hiperestesia como a primeira fase de um processo de dissociação psíquica que nos leva do simples abrandamento da tensão, de que falava Janet, até ao êxtase. Temos assim uma seqüência gradual bem definida: hiperestesia – hipermnesia – transe – êxtase, verificando-se em cada um destes graus do estado paranormal uma seqüência também de graus de intensidade. O êxtase é, dentro desse esquema, o extremo oposto da simples distração. Bozzano demonstrou a possibilidade de transmitirmos mensagens telepáticas e psicográficas inconscientemente – e até mesmo de projetarmos o nosso eu à distância – durante simples instantes de distração, de sonolência ou alheamento. (Veja-se Da Mente à Mente, Ernesto Bozzano, Ed. Europa, Verona, 1946).

Amadou acrescenta ao que acima citamos que o transe é necessário, mas não suficiente para o exercício da função psi. O mesmo acontece com o estado hiperestésico. O indivíduo pode estar distraído ou sonolento sem ter a sua percepção aumentada. Isso nos mostra que a relação de continente e conteúdo é a mesma, tanto no plano físico quanto no psíquico. E isto insere, ao mesmo tempo, a simples distração no contexto dos estados paranormais. Ela é, embora fugaz, um instante de situação intermediária, de terra-de-ninguém entre o estado de vigília e o sono, entre a fase normal de integração psíquica e a anormal de desintegração. Do que se deduz facilmente que o aumento de nossas percepções normais, o estado hiperestésico, é o primeiro passo no campo da percepção extra-sensorial. Em hipnologia considera-se a distração como um momento do estado hipnótico natural.

Querer reduzir fenômenos típicos de ESP a simples casos de hiperestesia, a esta altura do desenvolvimento das pesquisas parapsicológicas, é um pouco mais do que simples temeridade. Mas esta redução arbitrária interessa particularmente aos que desejam negar qualquer possibilidade de fenômenos extrafísicos, única forma possível de transformar a Parapsicologia em nova arma do materialismo ou do teologismo contra os movimentos espiritualistas livres, como o Espiritismo e a Teosofia. A hiperestesia, fase larval do transe, é utilizada como possível explicação nova – apesar de centenária – dos fenômenos mediúnicos. Basta isso para compreendermos o retrocesso a que o afã hiperestésico do P. Quevedo pretende levar a Parapsicologia, com ares de inovação científica, devolvendo-a do limiar da prova da sobrevivência, em que já se encontra, ao rés do chão do intermúndio psicofisiológico.

Daí também a sua insistência na velha e superada tese, aliás psicológica – e da mais simplória escola de psicologia de todos os tempos, que é o condutismo norte-americano, derivado do reflexionismo russo – de que a linguagem do corpo, que é a mímica inconsciente, pode explicar os casos de telepatia. Watson, pai do condutismo, também chamado psicologia sem alma, sustentava a inexistência do pensamento. O que há é apenas reflexo, segundo a sua teoria do arco-reflexo, pela qual o organismo excitado pelo meio físico deflagra a sensação em arco que vai ao centro nervoso e volta à expressão mímica em forma de resposta. O P. Quevedo cria então a sua teoria reflexionista a que chama, ingênua ou ironicamente, de hiperestesia direta do pensamento. Nada mais nada menos que a velha teoria de Chevreul, endossada no Brasil pelo ateísmo e o materialismo irredutíveis do Professor Silva Mello, de que o pensamento é captado por videntes charlatães na mímica inconsciente dos seus próprios fregueses (Veja-se Mistérios e Realidades deste e do Outro Mundo e Religião: Prós e Contras, A. da Silva Mello, Editora Civilização Brasileira, Rio, 1960 e 1963, respectivamente) .

Essas teorias, que se referem apenas aos reflexos do pensamento no processo fisiológico, serviram para a construção de hipóteses e teorias mirabolantes que reduziriam todo o psiquismo a um novo tipo de mecanicismo materialista. Com elas estamos mais próximos da Cibernética do que da Parapsicologia, mais integrados na concepção do homem robô do que na do homem espírito. Mas o P. Quevedo não se contenta com esse retrocesso histórico e espiritual e insiste em afundar um pouco mais: vai ao cumberlandismo, com o qual explica, ao mesmo tempo, o mistério dos cavalos de Elberfeld e as comunicações mediúnicas. A teoria provém do nome do prestidigitador inglês Cumberland, pai da telepatia de teatro ou falsa telepatia. E tudo isso depois que as pesquisas parapsicológicas já demonstraram a absoluta independência do processo telepático no tocante às relações pessoais, a sua efetivação a grandes distâncias através de estepes e oceanos.

Graças a esses malabarismos o P. Quevedo consegue chegar a esta definição de Parapsicologia: “... é a ciência que tem por objeto a constatação e análise dos fenômenos à primeira vista inexplicáveis, mas possivelmente resultado de faculdades humanas”. Como se vê, definição indefinida, que bem revela a sua posição pseudocientífica. Quais os fenômenos inexplicáveis em causa? E como fazer-se essa antecipação dos resultados da análise, em termos de possibilidade? Nem científica, nem filosófica e nem mesmo teologicamente essa definição pode ser aceita. É um simples palpite, uma opinião comum. Não foi à toa que Pitágoras afirmou ser a Terra a morada da opinião (Veja-se A Face Oculta da Mente, do referido autor, com todas as autorizações eclesiásticas, Edições Loyola, São Paulo, 1964).

A hiperestesia leva à hipermnesia, ou seja, ao aumento do poder mnemônico, ao aumento da memória, como já vimos no esquema do processo paranormal. O P. Quevedo, nesse mesmo livro, cujo título pode ser mais bem compreendido como A Face Oculta do Padre, descamba para a Pantomnesia, que seria mais bem expressa pelo termo Pantomímica, segundo o equivalente teológico da modesta teoria científica da hipermnesia. Não é fácil admitirmos o que o padre afirma no subtítulo do cap. 9.° do seu livro: Você pode se lembrar de tudo. Mas o aumento do poder mnemônico, em determinadas pessoas e em circunstâncias especiais, é fato comprovado. E dele se serve o padre, dando-lhe a amplitude universal da Pantomímica para explicar o que a hiperestesia não conseguiu esclarecer e particularmente tentar explicar a xenoglossia, ou faculdade de falar línguas estranhas sem conhecê-las. Essa faculdade admirável, bem como a psicografia literária – ainda longe de serem estudadas e investigadas pela Parapsicologia – são parapsicologicamente explicadas pelo padre como simples questões de memória-inconsciente. Mas como o inconsciente, nesse caso, deve ser também onisciente, o autor chega a esta conclusão pseudocientífica, sacada sem a menor contemplação para com os critérios da pesquisa científica: “O inconsciente é mais inteligente que o consciente”.

Nenhuma atenção para o problema das relações dinâmicas do consciente com a inconsciente. Nada sobre a natureza específica de um e outro ou da natureza una de ambos. Nada sobre o que se entende por inteligência, problema sério em Psicologia e que parece não existir para o padre. O que interessa é a conclusão apressada, mecanicista e portanto simplória, não para a finalidade científica do conhecer, mas para a finalidade sectária do dogmatizar. A hiperestesia passa rapidamente à categoria universal de uma Pantomímica e o inconsciente é arvorado, segundo as expressões textuais do autor, em gênio desconhecido. E apesar de todas essas incoerências, dessa ingênua charlatanice, desse malabarismo simplório, o livro e os cursos do autor se propagaram entre nós e encontraram acolhida num grande jornal diário e em algumas universidades e escolas superiores.

Diante disso, é claro que não podíamos subtrair-nos ao dever de enfrentar, num livro de esclarecimento e orientação da matéria, o rápido exame que acabamos de fazer das estranhas e absurdas teorias do P. Quevedo, lançadas como semeadura de joio nos trigais incipientes de nossa formação parapsicológica. Exame, aliás, de apenas alguns tópicos do calhamaço com que ele desacatou os nossos foros de cultura, não obstante tenha recebido a resposta sensata de um curso organizado pelo Instituto Paulista de Parapsicologia, dado por seis professores universitários no grande auditório da Associação Paulista de Medicina.

Ao lado das teorias citadas devemos ainda referir a do Professor Cesário Morey Hossri, da Faculdade de Filosofia de Santos, divulgada em seus cursos naquele estabelecimento de ensino superior da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e através de dois grandes jornais diários de São Paulo. Trata-se de uma teoria não menos estranha: a do canhoto corrigido ou do ambidestrismo. Podemos resumi-la nestas explicações textuais do autor: “Aproximadamente 10% dos indivíduos nascem canhotos e, devido à aversão do meio social ao canhotismo, cerca de 90% são corrigidos; supomos que esta agressão à personalidade ocasiona uma defasagem nas conexões nervosas dos hemisférios cerebrais direito e esquerdo, vindo isto a provocar, posteriormente, o aparecimento do fenômeno alucinatório de ‘ver’ e ‘ouvir’ fantasmas (alucinações visuais ou auditivas, ou ambas ao mesmo tempo)”.

O Professor Hossri formula ainda uma teoria da personalidade paranormal, na qual inclui o ambidestrismo como uma das características dessa personalidade. Em primeiro lugar parece-nos prematura essa tentativa de caracterização. Existiria uma personalidade paranormal? A própria expressão paranormal, como se sabe, foi elaborada para suprir uma deficiência do nosso conhecimento no campo do psiquismo. O paranormal é apenas o normal não conhecido, ou não-habitual, o inabitual de Richet que substitui as antigas expressões de supranormal ou sobrenatural. Por outro lado, os fenômenos paranormais não exigem nenhum tipo especial de personalidade para se produzirem. Os tipos mais diversos, às vezes aparentemente inadequados (por exemplo: indivíduos de aspecto grosseiro, abrutalhado, demasiado apegado às coisas materiais) são sujeitos iguais ou melhores que outros mais delicados e sensíveis, e portanto aparentemente mais adequados. As pesquisas realizadas a respeito, nos Estados Unidos e na Inglaterra, não deram até agora nenhum resultado aceitável.

Rhine trata do assunto em The New World of the Mind referindo-se às experiências de Stuart, no Laboratório de Parapsicologia da Universidade de Duke, e às de Humphrey e da Dra. Schmeidler. Todas essas tentativas encontraram dificuldades insuperáveis para uma classificação. E isso por uma razão fundamental: psi parece igualmente distribuída, como o bom-senso no Discurso do Método, de Descartes. Todos a possuem, embora das mais diversas maneiras. Por exemplo, nas experiências de Humphrey os sujeitos foram divididos em dois grupos: introvertidos e extrovertidos, segundo os testes de desenhos a que eram submetidos. Houve diferenças sensíveis entre os grupos: nas experiências de clarividência, os extrovertidos obtiveram resultados positivos e os introvertidos resultados negativos.

Mas isso apenas demonstrou uma diferença de sentido no desvio da percepção e não a falta de percepção em qualquer dos grupos. O indivíduo negativo oferece desvios negativos, sem deixar de ser dotado de psi. Rhine chega à conclusão de que as funções psi, sendo de natureza fundamental e portanto anterior aos progressos do desenvolvimento da razão e da civilização, constituiriam uma espécie de substrato comum da humanidade, não susceptível de avaliação no contexto da personalidade. Assim, a colocação do problema em termos de personalidade parece-nos insustentável, pelo menos até agora.

Em segundo lugar devemos considerar a falta absoluta de dados que nos demonstrem, de maneira convincente, a existência de qualquer relação entre os problemas de canhotismo e o exercício das funções psi. E porque essa relação, ao invés de outras como, por exemplo, as de natureza sexual, muito mais chocantes para todos os indivíduos? Qual o motivo por que a simples correção do canhotismo produziria essa defasagem dos hemisférios cerebrais, e o atrofiamento das pernas, o nariz de papagaio, a boca torta não fazem o mesmo? O fato de o hemisfério direito dirigir a motilidade esquerda e vice-versa não explica essa suposta defasagem. E como explicar-se que a possível defasagem dos hemisférios produziria os fenômenos de vidência e audiência? Mas o autor vai muito mais longe, chegando mesmo a afirmar que essa defasagem produz os fenômenos de psikapa. O problema se complica e nenhuma explicação é dada. O que Hossri nos oferece é simplesmente a afirmação gratuita de um fato em que as únicas conexões possíveis são mesmo as dos hemisférios, que a sua teoria, por sinal, torna avariadas.

Uma das mais famosas e discutidas médiuns do mundo, Eusápia Paladino, que converteu Cesare Lombroso de feroz adversário dos fenômenos mediúnicos em seu admirador, defensor e pesquisador, não era canhota. Nunca se corrigira. E ficava canhota em transe. Como se teria produzido a desconexão dos seus hemisférios? Aliás, Lombroso nos conta, a seu respeito, o seguinte:

A Condessa de A. (em Veneza, segundo o Professor Faihofer) costurou uma bolsa com uma moeda por baixo das roupas e foi à sessão com a idéia de que a bolsa seria descosturada e transportada, o que realmente aconteceu. Outra vez compareceu com uma jóia oculta na cabeleira esperando que fosse transportada para a cabeça de Eusápia, a quem desejava dá-la, e logo que assim pensou, o transporte realizou-se. Como veremos, os médiuns em transe possuem forças musculares e intelectuais de que não dispõem no seu estado normal, que só podemos explicar, às vezes, pela transmissão de pensamento dos presentes, e em geral exigem uma explicação especial, como o auxílio dos defuntos. Estes transmitem, durante o transe, algumas de suas mais singulares faculdades aos médiuns, como o canhotismo a Eusápia, a levitação e a incombustibilidade a Home, que podia pegar uma brasa sem se queimar e transmitir essa insensibilidade a outras pessoas”. (Veja-se Fenomeni Ipnotici e Spiritici, de Lombroso, tradução brasileira de Carlos Imbassahy, Editora Lake, São Paulo, 1960.)

Temos aí o testemunho de um sábio: Eusápia virava canhota algumas vezes, quando a entidade comunicante havia sido canhota em vida. E nas sessões realizadas com ela verificaram-se, como vemos na descrição de Lombroso, fenômenos subjetivos e objetivos perfeitamente conjugados. Bastava a Condessa de A. pensar e o transporte dos objetos se verificava. Como tanto se caluniou esta extraordinária sensitiva (pequena mulher analfabeta e rude, acusada das fraudes mais sutis) é bom lembrarmos que Lombroso só aceitou a realidade dos fenômenos quando Eusápia lhe deu a materialização de sua própria mãe, como ele mesmo nos conta no livro acima citado: “Eu pensei fortemente em rever minha mãe; a mesa logo assentiu ao meu desejo não expresso e logo apareceu a imagem de minha mãe”. E noutro trecho, capítulo oitavo da segunda parte do livro: “Pude verificar uma vez a aparição completa de minha mãe”. Tudo isso sem canhotismo corrigido e sem qualquer defasagem dos hemisférios cerebrais.

As relações psicofisiológicas são evidentes em todos os processos de produção fenomênica, tanto subjetiva quanto objetiva, mas sempre mais acentuadas no campo de psikapa. Rhine estuda essas relações em seus livros já citados. Muito antes dele, os metapsiquistas empenharam-se nesse estudo realizando importantes pesquisas a respeito. Schrenck-Notzing, à maneira de Geley e Osty, interessou-se pelas relações de conjunto entre o médium e os assistentes, em referência aos fenômenos. Tratando, por exemplo, da exteriorização de forças biopsíquicas e do aparecimento de formações ectoplásmicas, lembra o famoso pesquisador alemão:

Morselli, Ochorowicz e Crawford supõem que o médium, em contato físico com os assistentes (formação de correntes) possui a faculdade de emprestar dos mesmos certas quantidades de energia, que reline às suas próprias, de maneira que podemos f alar de criações psicofísicas coletivas”. (Veja-se Les Phénomènes Physiques de la Mediunité, de Albert Von Schrenck-Notzing, Payot, Paris, 1925.)

Enrico Morselli realizou tentativas de controle com dinamômetros da perda de forças dos assistentes e também do aumento de forças dos mesmos, durante os trabalhos. Essas relações existem, como hoje novamente se constatam nas experiências parapsicológicas. Mas não podem ser utilizadas para a formação de teorias gratuitas, sem as pesquisas minuciosas que esse tipo de teoria do Professor Hossri exige particularmente, e sem que tenham, portanto, um precedente de hipóteses com exame e prova. Por outro lado é necessário que um problema dessa natureza seja submetido previamente a especialistas em fisiologia cerebral. Malabarismos como os do P. Quevedo, levados afoitamente a sério nos nossos próprios meios universitários, ou precipitações como a do Professor Hossri (com forte conteúdo susceptível de ridículo) comprometem o desenvolvimento da Parapsicologia no Brasil.

Os exageros no tocante à hiperestesia e à hipermnesia agradam especialmente àqueles que pretendem reduzir toda a fenomenologia paranormal ao plano fisiológico. Mas a teoria do ambidestrismo nem chega a produzir esse efeito de proselitismo. Dificilmente um estudioso sério de problemas psicológicos pode admitir que fenômenos paranormais sejam reduzidos a uma questão de manuseio. Mas no plano da divulgação pura e simples ou da iniciação aos conhecimentos parapsicológicos, e particularmente no plano do ensino universitário, em que essas hipóteses foram amplamente semeadas, os seus efeitos são desastrosos. Encerrando aqui esta primeira parte do nosso livro, esperamos haver contribuído para que o problema parapsicológico seja colocado, entre nós, de maneira mais objetiva e mais livre, sem as implicações deformantes a que acima nos referimos.

Agora que as nossas editoras se empenham na tradução das obras fundamentais de Rhine e das obras informativas de Amadou e outros, é possível que o ambiente se modifique mais rapidamente. De qualquer maneira, temos de advertir quanto às próprias traduções. O aparecimento do primeiro livro de Rhine em português foi decepcionante. O título original de The Reach of the Mind, corretamente traduzido em espanhol para El Alcance de la Mente, aparece em nossa língua desta maneira ambígua: O Alcance do Espírito. E o pior é que em todo o texto a palavra inglesa mind conserva a tradução errada de espírito.

Rhine não trata do espírito no sentido metafísico que damos à palavra, mas da mente no sentido psicológico de conjunto das funções cerebrais. Ele chega mesmo a declarar que, embora admitindo a natureza extrafísica da mente – por força dos resultados das numerosas experiências realizadas – não é espírita nem espiritualista. É apenas um cientista que admite, à maneira de Einstein, Compton, Eddington e outros, a necessidade de rompermos a concepção organocêntrica do homem, como já rompemos a geocêntrica do Universo.

Felizmente o segundo livro de Rhine em português traz o título certo: Novas Fronteiras da Mente (New Frontiers of the Mind). Justifica-se o caso da tradução francesa por falta da palavra mente nessa língua. Mas no italiano, em que também se fez a confusão, como no português, ela é injustificável, a menos que as traduções tenham sido feitas do francês e não dos originais ingleses. Psicologicamente a palavra mente tem hoje o sentido específico a que atrás nos referimos.

Enganam-se os que pensam que nos dedicamos à Parapsicologia para defender nossos princípios, nossa posição filosófica. Consideramos essa atitude como desonesta. Nossa posição filosófica é suficientemente sólida para sustentar-se por si mesma. A Parapsicologia invadiu a nossa área e tivemos de examinar os seus propósitos. Felizmente eram honestos e pudemos estabelecer uma convivência harmoniosa.

No campo da Parapsicologia estamos em nosso próprio elemento. Os outros é que chegaram depois, e muitos como arrivistas mal intencionados. Podemos dizer sem receio que o terreno é nosso, de direito e de fato. Como Tertuliano no caso das escrituras sagradas, podemos evocar a figura jurídica do usucapião em nosso favor. Muito antes de Rhine e McDougal já estávamos nesse terreno, com Kardec, Richet, Crookes e outros. E sempre com ampla liberdade, por imperativo exclusivo da consciência e na busca livre da verdade, sem preconceitos nem interesses secundários. Continuamos, pois, em nossa posição, agora na boa companhia dos parapsicólogos honestos.

Antes de encerrar esta parte voltamos ao problema do canhotismo, em virtude do aparecimento do livro Destros e Canhotos do Professor José Quadros França (Edições Melhoramentos, São Paulo, 1969). Esse livro confirma a absoluta carência brasileira de estudos e dados estatísticos a respeito. Hossri supõe, como vimos, 10% de canhotos na população, mas França informa que as estatísticas norte-americanas acusam a média de 12,5% equivalente a 125 canhotos em cada 1.000 pessoas. Hossri supõe 90% de canhotos corrigidos e França declara: “Não encontramos aqui no Brasil levantamentos estatísticos sobre o fenômeno”.

No tocante aos efeitos da correção do canhotismo o Professor França se limita ao problema da gagueira e a conseqüências psíquicas ainda não comprovadas, apenas supostas. Referindo-se a estudo do Dr. Werner Kemper publicado no n.° 51 da Revista Brasileira de Medicina (novembro de 1951), França examina a fragilidade das teorias científicas ali expostas sobre o canhotismo. Tudo isto vem confirmar a temeridade da hipótese de qualquer relação entre a correção do canhotismo e o desenvolvimento das funções psi.



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