Herculano Pires Parapsicologia Hoje e Amanhã



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Segunda Parte
Parapsicologia Amanhã




1.
Palingenesia: síntese dialética


Em livro há pouco publicado em Buenos Aires, pela Editorial Victor Hugo, Humberto Mariotti estuda o Materialismo Histórico à luz da Parapsicologia, concluindo pela evidente abertura de perspectivas ontológicas na Ciência contemporânea, graças às investigações da fenomenologia paranormal. Mariotti já teve um de seus livros traduzido para o português e publicado no Brasil. Trata-se de Dialética e Metapsíquica, resultante de um debate com o marxista Emílio Troise.

O que ressalta de mais importante neste novo estudo de Mariotti é a sua negação da validade da concepção materialista da História – sem negar a realidade do processo dialético – e a afirmação da importância da palingenesia como um conteúdo histórico que somente a investigação parapsicológica poderá revelar, através do método científico de investigação e experimentação.

Para os que conhecem a maneira cautelosa por que a Parapsicologia avança, passo a passo, nas suas investigações, pode parecer temerária a afirmação de Mariotti. Para os que, porém, sabem ligar historicamente a Parapsicologia à Metapsíquica – o que Mariotti faz com extraordinária lucidez – não há nenhuma temeridade no seu procedimento. Tanto mais que ele não se lança à formulação de qualquer hipótese, limitando-se a mostrar a possibilidade, já revelada pelas conquistas parapsicológicas, de um novo acesso à problemática ontológica no plano científico.

Esse acesso decorre naturalmente da constatação científica das faculdades paranormais. Aliás, o próprio Professor Joseph Banks Rhine alude ao problema, em seu famoso livro The New World of the Mind, ao referir-se às pesquisas universitárias realizadas por sua esposa, a Profª Louise Rhine. Bem antes, ainda no plano histórico da Metapsíquica, Ernesto Bozzano afirmara que a prova científica da percepção extra-sensorial implicava, de maneira logicamente irrevogável, a existência de estâncias ontológicas desconhecidas, capazes de sustentar a validade das teorias metafísicas do homem.

As provas científicas da Metapsíquica foram rejeitadas, não pela negação dos fatos observados ou da validade dos experimentos, mas pela perplexidade que provocaram. Entendeu-se que os fenômenos estudados por William Crookes, Charles Richet, Eugênio Osty, Gustave Geley, Schrenck-Notzing, Alexandre Aksakof, Oliver Lodge e tantos outros eram intrinsecamente impossíveis. A objeção, como se vê, era filosófica e não científica. Robert Amadou, atualmente, em seu livro La Parapsychologie, lembra que os metapsiquistas poderiam responder, à maneira de Galileu, que apesar da impossibilidade alegada os fatos existem. E tanto isso é certo que a Parapsicologia está hoje refazendo meticulosamente, no plano da investigação universitária, em âmbito mundial, os caminhos já feitos pela Metapsíquica. Através do método quantitativo de investigação o procedimento qualitativo da Metapsíquica se comprova. E como acentua Jan Ehrenwald, exige mesmo a volta ao exame qualitativo.

Por falar em Ehrenwald, é bom lembrar que esse psiquiatra propõe, no seu livro sobre a telepatia, a conjugação de três métodos para a investigação dos fenômenos telepáticos, em sua ocorrência no plano patológico. Entende Ehrenwald que as estâncias psicanalíticas da personalidade podem revelar novos aspectos, à luz da investigação parapsicológica. E para tanto afirma a conveniência de se conjugar, nos casos possíveis, os métodos qualitativo e quantitativo e o método significativo da interpretação psicanalítica. Vê-se, assim, que as novas perspectivas ontológicas de Mariotti são uma realidade que se revela também na clínica psiquiátrica.

Mas o que importa, no tocante à palingenesia, é a negação da validade materialista da concepção dialética da História. Lembra Mariotti que a dialética hegeliana não se compadece com nenhuma forma de materialismo, sendo, pelo contrário, a própria lei da negação da negação aplicada ao materialismo. Quando se coloca a ênfase do processo histórico, não no seu aspecto material, considerado em si, mas na sua dinâmica, ou seja, no seu processo dialético, o problema se desloca, sob o ponto de vista lógico, para a Metafísica. Passamos a lidar com o abstrato e a reconhecer imediatamente os fundamentos imateriais do processo histórico.

Diante disso Mariotti releva a importância da investigação ontológica, nas perspectivas que se abrem através da Parapsicologia, para a reformulação da concepção dialética num sentido de volta às proposições hegelianas. De nossa parte entendemos que não cabe apenas à Parapsicologia, mas também à Física Nuclear um papel fundamental nesse terreno. Por mais que Bertrand Russel procure salvar a concepção materialista, sustentando que a negação científica da matéria não implica a negação das leis físicas, é evidente que o rótulo que se mantenha para essas leis nada importa e nada significa. A realidade científica atual é a da colocação do problema ontológico entre duas séries de perspectivas que se abrem, cada vez mais amplamente, nas Ciências da Natureza e nas Ciências do Homem, com a negação do organocentrismo e a possibilidade do reconhecimento de formas de vida além das que se manifestam nos organismos materiais.

Essa possibilidade abriria, por sua vez, perspectivas extrafísicas para a interpretação do processo histórico. E se a palingenesia puder comprovar-se, como supõe Mariotti, pelo prosseguimento da investigação parapsicológica, teríamos a possibilidade de encarar o problema dos ciclos históricos através do retorno de personagens e circunstâncias ao cenário existencial, uma vez que a precedência histórica da essência, negando também a validade da concepção sartreana, se afirmaria filosoficamente através da Ciência. Aliás, é bom lembrar que, para Sartre, a existência precede a essência apenas no tocante ao homem.

As novas perspectivas históricas reafirmariam os pressupostos hegelianos, oferecendo-nos estas dimensões dialéticas, inteiramente renovadoras das nossas concepções do homem e do universo: o mitológico e o histórico se apresentariam como a tese e a antítese do processo do desenvolvimento humano, que resultaria na síntese da palingenesia. Eis os caminhos que o livro de Mariotti nos aponta e que parecem corresponder precisamente a esta fase de superação cultural que estamos vivendo. Por outro lado essa superação, por sua própria natureza de síntese dialética, não invalidaria o materialismo e o existencialismo, limitando-se a determinar os marcos de validade circunstancial em que os mesmos devem colocar-se, ou seja, dando a cada uma dessas concepções filosóficas o seu lugar no amplo contexto palingenésico.

Dessa maneira teríamos o materialismo histórico situado no plano existencial como a visão objetiva do processo metafísico que determina as transformações sociais. Uma espécie de visão fenomenológica, de natureza descritiva. O existencialismo sartreano (hoje considerado pelo próprio Sartre como um enclave do Marxismo) corresponderia a uma visão objetiva e circunstancial de cada avatar da essência, que se renova e se enriquece no aqui e no agora das etapas da evolução palingenésica.

Mariotti nos mostra o sentido filosófico da revolução parapsicológica nas Ciências. Podemos repetir com Sir Oliver Lodge que se trata de uma revolução copérnica, como veremos mais adiante. Não há motivo para nos admirarmos com a oposição de certos setores ao desenvolvimento da Parapsicologia. Todas as forças conservadoras do processo histórico reagem diante dessa ameaça de desintegração, embora parcial, da cultura atual, da estrutura do conhecimento, segundo a lei de equilíbrio que determina a existência do instinto de conservação nos organismos vivos e nos grupos sociais.




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