Herculano Pires Parapsicologia Hoje e Amanhã



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2.
O processo palingenésico


A propósito da tese de Mariotti escreve-nos erudito leitor: “Ao contrário de abrir novas perspectivas na concepção do mundo, a volta à palingenesia, proposta por Mariotti, representaria simples retrocesso histórico à metafísica estóica”. Defendendo ardorosamente o Materialismo-Histórico, o leitor insiste no caráter retrógrado da posição idealista, que lhe parece “uma fuga romântica à realidade histórica”, fuga essa que permite “a volta, em pleno século de conquista do espaço, a superstições soterradas nos escombros do mundo helenístico”.

Não entendemos por que estranho motivo a volta à concepção palingenésica seria um retrocesso histórico, enquanto a volta ao atomismo de Leucipo e Demócrito representa evidente progresso que permitiu a investigação cósmica. O temor da volta às velhas superstições, ou mesmo às concepções ingênuas do passado, tem sempre marcado as fases de grande desenvolvimento intelectual. Mas apesar dele a volta sempre se afirmou como uma espécie de necessidade histórica. O próprio materialismo-dialético nada mais é que uma readaptação conceptual, não apenas da dialética hegeliana, mas das próprias concepções dos fisiólogos gregos. Nada demais que voltássemos aos estóicos, cuja metafísica se enraíza profundamente em Heráclito, tão querido e exaltado pelos materialistas dialéticos.

Os escombros do mundo helenístico são extraordinariamente fecundos e deles podem brotar, não apenas os cogumelos venenosos das explosões atômicas, mas também os que fornecem alimento e vida ao pensamento moderno. Neste caso, como demonstra Humberto Mariotti em seu livro Parapsicologia y Materialismo Histórico (e sopesamos o verbo demonstrar antes de usá-lo) encontra-se a concepção palingenésica do mundo, que constitui o centro da metafísica estóica. É evidente que não tratamos de uma simples volta, de um retrocesso puro e simples, mas de um retorno cíclico à maneira dos que verificamos, por exemplo, no caso atômico, na própria questão da dialética-materialista ou ainda no caso da concepção comunista da sociedade.

Pede-nos o leitor, por outro lado, “um maior esclarecimento do processo dialético da história em bases palingenésicas”. Pareceu-lhe confusa a proposição de que o mitológico e o histórico podem apresentar-se como a forma de contradição da qual resultaria a síntese palingenésica: “mesmo porque – acentua – a palingenesia não seria uma síntese, mas apenas um momento de volta, de regresso ao estado anterior”. Antes de tudo devemos assinalar que não há, no processo dialético, um momento de volta puro e simples, pois toda volta só pode verificar-se como resultado do choque ou da fusão das proposições contraditórias. Não há “regresso ao estado anterior”, mas avanço qualitativo ou enriquecimento histórico, segundo o velho símbolo hindu da “serpente que morde a ponta da cauda”.

No plano do desenvolvimento histórico encontramos duas fases que se opõem, não apenas em sentido cronológico, mas também e principalmente em sentido qualitativo e portanto significativo. A primeira dessas fases é a mitológica, em que vemos a humanidade sair de uma espécie de “indiferenciação psíquica”, correspondente aos períodos primitivos de sua evolução, para tentar a racionalização do mundo através do pensamento mítico, ainda densamente impregnado das emoções primárias. Huntersteiner realizou um belo trabalho, a que deu o título de Fisiologia do Mito, mostrando a natureza específica do mito, regido por uma lei fundamental que é a metamorfose. A esta lei, que parece antes imaginária que real, se opõe a concepção progressiva da história, estruturada numa seqüência racional de causa e efeito.

A oposição do mitológico ao histórico é o que poderíamos dizer: um fato evidente por si mesmo. Quando remontamos, por exemplo, à história chinesa antiga – história que não é história, mas apenas mitologia – e vemos o tumulto das dinastias partir da nebulosa divina e nela perder-se, compreendemos claramente a natureza indiferenciada da fase mitológica. Somente a partir da concepção histórica judaica, desenvolvida pelo Cristianismo, a seqüência dos eventos se define como um processo, e o que é mais importante, de natureza teleológica. Os acontecimentos se delineiam e se encadeiam com precisão cronológica, objetivando sempre um fim, e o processo antes confuso se esclarece e adquire significação. Impõe-se a analogia spenceriana entre o desenvolvimento coletivo e o desenvolvimento individual do homem, a partir da indiferenciação psíquica infantil para as fases de diferenciação progressiva e definição racional do amadurecimento orgânico e psíquico.

O mitológico, numa interpretação dialética, apresenta-se como a tese ou proposição inicial da qual se desdobrará fatalmente a antítese. E isso tanto mais se afirma quando analisamos a natureza sincrética do mitológico, onde não há fronteiras entre o humano e o divino, o temporal e o eterno, o cronológico e a duração. Podemos dizer que a duração ainda não foi segmentada, segundo a explicação bergsoniana. É por isso que a lei do mito é a metamorfose. Não há sucessão cronológica, mas apenas variações na duração. A tese contém em si mesma os germes do desenvolvimento futuro, os elementos que se definirão na fase histórica sob o impacto do deus Marduc da razão, que partirá o caos em dois pedaços para produzir o cosmos.

O processo dialético, entretanto, não se interrompe. Uma vez colocada a oposição, a tese se desenvolve na antítese, mas terá fatalmente de resultar na síntese. A separação dos elementos fundamentais da tese, na produção natural e necessária da antítese, não foi casual, mas causal e por isso mesmo teleológica. Regida por uma causa, dirigia-se a um fim. E este fim, implícito na própria dialética, é o desenvolvimento ou a realização de um estado superior em que os elementos rejeitados pela antítese voltam a incorporar-se no processo, aparentemente interrompido.

Não há outra fase que possamos considerar como uma possibilidade pós-histórica senão a palingenésica. Somente nesta se torna possível a realização da síntese, nos termos da filosofia de Charles Bonnet e de Ballanche ou ainda do próprio Schopenhauer. Eis o momento em que a reencarnação, como um processo não apenas individual, mas coletivo, se impõe nas dimensões estóicas, aclarada pelas conquistas científicas da atualidade. Num mundo de renovações cíclicas, como vemos no desenvolvimento dos reinos naturais – aos quais pertencemos – seria estranho que apenas a Humanidade seguisse um sistema linear de evolução através da História. A constatação do processo palingenésico no plano social surge como um novo fator de reintegração do homem no complexo da evolução universal.

É evidente que ao considerar a sucessão das gerações vegetais e animais não se leva em conta apenas o elemento físico. Este é informado e impelido pelo elã vital de Bergson. Esse elã, por sua vez, não é apenas vital, mas também anímico e mental, como as primeiras experiências parapsicológicas já demonstraram, confirmando as anteriores pesquisas espíritas e metapsíquicas. A palingenesia não é, assim, apenas uma forma de conservação e renovação da matéria, mas um processo de desenvolvimento das potencialidades anímicas das coisas e dos seres – um avanço do inconsciente ao consciente – como Gustave Geley demonstrou em sua obra famosa




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