Herculano Pires Parapsicologia Hoje e Amanhã



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3.
Da profecia à precognição


Em seus estudos sobre as origens e a história das religiões, John Murphy, da Universidade de Manchester, adotou o método cultural que distingue os sucessivos horizontes históricos da evolução religiosa. O primeiro horizonte é o primitivo; o segundo, o anímico, o terceiro, o agrícola; o quarto, o do aparecimento do espírito de civilização; e o quinto, que nos interessa neste capítulo, é o horizonte profético. Nessa fase da evolução religiosa do homem, acentua Murphy, um dos fatos característicos é o aparecimento das grandes individualidades, como os profetas hebreus e os fundadores de religiões. Podemos falar, assim, de um período histórico caracterizado pelo desenvolvimento e a influência civilizadora da profecia. Murphy assinala em seu estudo que: “O homem é o produto da evolução, tanto no tocante ao corpo quanto ao espírito”.

A profecia aparece como uma conseqüência da evolução humana e ao mesmo tempo como uma exigência e uma condição dessa evolução. Estamos eqüidistantes das explicações, ambas simplistas, da teologia e da psiquiatria. Embora Murphy não se interesse pela profecia em si, ele a explica como o desenvolvimento do espírito de civilização que liberta o homem das formas primárias de pensar, ligadas aos horizontes primitivo e anímico e já modificadas na fase de desenvolvimento agrícola. A maior capacidade de formar conceitos, de elaborar uma concepção geral do mundo e da conduta humana, de formular preceitos éticos e orientar as coletividades são para ele as condições fundamentais da individualidade profética.

Embora o sentido etimológico de profecia seja o anúncio do futuro, a tradição religiosa consagra-lhe outro. A profecia, como se vê especificamente nos casos de Jesus e de Maomé, bem como no tocante aos profetas bíblicos, é ao mesmo tempo a revelação de ensinamentos divinos e de acontecimentos futuros. No Cristianismo a profecia assume importância fundamental, pois é a pedra de toque da legitimidade do Messias e a própria base da Revelação. A interpretação teológica da profecia tirou-lhe a naturalidade, convertendo-a numa manifestação mística de cunho sobrenatural. Se isso lhe deu, na antigüidade e na fase medieval, extraordinário prestígio, serviu ao mesmo tempo para desprestigiá-la na época moderna, com o desenvolvimento do pensamento positivo. A profecia passou subitamente para a categoria das superstições, e o que é pior, das manifestações de desequilíbrio ou de perturbação psíquica. O profeta desceu da condição de individualidade superior para a de louco. Daí os livros e as teses como a de Binet Sanglé (La Folie de Jesus), interpretando o próprio Cristo como um teomegalômano-histeróide.

Essa e outras teses são ainda do agrado de intelectuais que se orgulham da firmeza e da clareza positivas de suas convicções, relegando ao lixo do passado as grandes concepções que representam a matriz histórica do espírito contemporâneo. Mas na proporção em que este mesmo espírito se desenvolve, as interpretações do tipo Binet Sanglé vão caindo no passado, para usarmos uma expressão de René Hubert, e rapidamente se transformam em objetos de museu. No caso particular da profecia temos agora a assinalar, além do reconhecimento da sua importância no processo de evolução humana, o reconhecimento científico da sua existência como uma faculdade humana natural, suscetível de experimentação.

Já os Profs. Gustave Geley e Eugênio Osty haviam verificado, através de numerosas experiências do Instituto de Metapsíquica de Paris, na primeira metade do século, confirmando as conclusões anteriores de Frederic Myers, William Crookes, Charles Richet e outros, a possibilidade de comprovação científica da profecia. Agora são as investigações rigorosamente científicas da Parapsicologia, seguidas de experimentações minuciosas, que vêm dar à profecia o direito à cidadania no mundo das Ciências. Com a designação técnica de precognição, implicando a existência da cognição ou percepção extra-sensorial, e ao mesmo tempo a existência da retrocognição, também cientificamente comprovada, a profecia é atualmente uma faculdade humana (e ao que parece também das espécies animais) reconhecida e admitida pela investigação científica em plano universitário e universal.

Chegamos assim, através do estudo de uma faculdade mental ou psíquica (pois o psiquismo, neste caso, não se conforma aos limites de uma definição mentalista) a uma convalidação da hipótese da dialética palingenésica de que tratamos nos capítulos anteriores. O próprio desenvolvimento histórico da profecia, nos termos propostos por Murphy, implica essa dialética. Surgindo naturalmente do processo evolutivo para firmar-se como a característica de uma fase longa e decisiva da história humana, a profecia se revela como uma forma de superação das limitações positivas de espaço e tempo.

A existência dessa faculdade no reino animal, longe de prejudicar, reforça e confirma a natureza dialética do seu desenvolvimento. Ela surge primeiramente como a tese do psiquismo natural que se desenvolve na elaboração das categorias racionais da mente, e por fim eclode na síntese da precognição. Com esta, o homem supera o espaço e o tempo, o que vale dizer que supera a História, revelando existir, em si mesmo e no Universo, um conteúdo que, segundo a expressão do Professor Rhine, “transcende a Física”.

Murphy delimita o horizonte profético no espaço e no tempo, dando-lhe, de acordo com os seus antecessores na formulação do método cultural, uma posição concreta no processo histórico. Esse horizonte está, segundo afirma, “quase inteiramente limitado ao período que vai do século IX ao século III antes de Cristo, e dentro do Fértil Crescente, como se chama às vezes o espaço que vai da Grécia e do Egito, passando pela Palestina e Mesopotâmia, até à Índia e à China”. Temos assim a geografia e a cronologia do desenvolvimento profético. Mas geográfica e temporalmente localizada a profecia se apresenta como um rompimento dos limites em que se desenvolve, exercendo suas funções psi além do espaço e do tempo.

As experiências de precognição, como as de telepatia, demonstram que não apenas o tempo, mas também o espaço “nada representam para a percepção extra-sensorial”. Quando propomos, portanto, a Palingenesia como uma síntese dialética do processo histórico, não se pode levantar a objeção de que a Ciência não vai além dos limites de espaço e tempo. Rhine responde que esses limites pertencem à Física e que a Parapsicologia “é o primeiro novo mundo da Ciência a transcendê-los”. Com a prova científica da profecia o homem afirma a sua transcendência. O mundo em que ele se encontra já não se limita ao aqui e ao agora, mas se abre indefinidamente sobre o amanhã, essa categoria filosófica espiritual que se opõe ao exclusivismo das categorias existenciais.

A precognição é uma das perspectivas mais desnorteantes da Parapsicologia, porque a verificação científica da sua realidade parece contradizer e invalidar toda a nossa concepção atual do Homem e do Universo. Entretanto, quando a encaramos como um simples aspecto da realidade transcendente que escapou ao empirismo científico, compreendemos que ela não contradiz nem invalida, mas amplia e enriquece a nossa cosmovisão. Se podemos profetizar é que podemos ver no futuro. Isso demonstra que não estamos limitados ao dia-a-dia, à rotina das contingências e das circunstâncias, mas que podemos elevar-nos acima dela. Só o preconceito cultural do fisicismo pode repelir essa nova perspectiva do Homem no Universo.




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