Herculano Pires Parapsicologia Hoje e Amanhã



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4.
Imanência e transcendência


Ao colocar o problema da transcendência do homem, ou melhor, da sua natureza transcendente, no capítulo anterior, colocamos conseqüentemente o problema da transcendência dos fenômenos psi. A ruptura das categorias de tempo e espaço, que verificamos nos fenômenos de precognição, apresenta certas semelhanças com a ruptura das leis físicas nos fenômenos de levitação de objetos à distância, ectoplasmia fantasmal ou ideoplástica, voz direta ou ruídos sem causa aparente. As primeiras objeções formuladas – não ao estudo e à observação desses fenômenos objetivos, mas à sua própria possibilidade de existência –, basearam-se no aspecto transcendente dos mesmos.

Posteriormente as investigações de William Crookes, Charles Richet e particularmente as de Richet e Imoda, na Itália, e as de Crawford, na Irlanda, mostraram a natureza imanente desses fenômenos. A teoria da alavanca psíquica, de Crawford, comprovada por experiências e fotografias, revelou a existência de um liame material entre o sensitivo e o objeto levitado, de maneira que a lei de gravidade não foi sequer arranhada. Restaram, entretanto, as questões de ordem fisiológica, até hoje não explicadas nem suficientemente investigadas.

Verifica-se nos dois casos, mais uma vez, aquilo que poderíamos chamar de condicionamento dialético. Tanto nos fenômenos subjetivos, quanto nos objetivos, podemos ver nitidamente a oposição dialética do imanente e do transcendente, que produz a síntese fenomênica. No caso da ectoplasmia, por exemplo, a ação direta do sensitivo através da emissão fisiológica da alavanca psíquica é puramente mecânica. Foi providencial que os estudos e as experiências a respeito tivessem sido feitas por um fisiologista como Richet e um catedrático de mecânica aplicada como o Professor Crawford, da Universidade de Belfast. Mas como explicar a emissão ectoplásmica, e particularmente as causas psicofisiológicas desse processo? Gustave Geley admitiu, o que fez também Crawford, a existência de controladores espirituais, ou seja, de agentes extrafísicos. Não aceitando essa explicação teríamos de procurar outra, e de qualquer maneira chegaríamos, como aconteceu com Carl Jung, a uma conclusão transcendente.

No caso particular da precognição, de que tratamos no capítulo anterior, surgiu entre os parapsicólogos uma curiosa controvérsia. Não se tratava de negar o fenômeno, suficientemente demonstrado, mas de negar, através dele, a psicocinesia. Esta, como já vimos, é a ação da mente sobre a matéria. Assim, quando as experiências de Rhine provavam que a mente do sensitivo agia sobre os dados lançados à mesa por uma máquina especial, alguns parapsicólogos levantavam a hipótese, inicialmente formulada por Nash, de que o sensitivo antevira pela precognição o resultado do jogo. O curioso, neste caso, é a tentativa de negar o fenômeno objetivo para ressalva das leis físicas, embora se fosse obrigado a admitir o fato transcendente da precognição. Mais uma vez, como se vê, a transcendência se impõe.

A intervenção de Carl Jung – se assim podemos dizer – nos debates parapsicológicos, foi antes de natureza filosófica do que psicológica. Não quis ele negar a validade das pesquisas, mas a validade da interpretação. Jung entendeu que os fenômenos psi, não estando sujeitos aos limites de tempo e espaço, são de natureza transcendente, não comportando nenhum enquadramento nas categorias lógicas de causa e efeito. Sua proposição é a da existência de uma ordem não-causal no Universo, regida pela sincronicidade. Uma volta ao problema colocado por David Hume, mas agora em forma de transcendência, delimitando-se as áreas de causalidade de sincronicidade nos planos da dicotomia platônica de sensível e inteligível.

Todas essas discussões cabem apenas no campo científico, que se apresenta, como sabemos, dividido segundo o esquema platônico. As ciências se interessam pelo objetivo, mas reconhecem, embora como epifenômeno, a existência do subjetivo em forma psicológica e cultural. A própria natureza epifenomênica do subjetivo o condena perante a investigação científica. É natural, portanto, que ao encarar o problema da ação subjetiva nos fenômenos objetivos, apareça logo a reserva e a repulsa ao transcendente. No campo filosófico, entretanto, as perspectivas são outras.

Poderíamos começar por uma pergunta ingênua: qual a natureza da vida? Se admitirmos a vida como epifenômeno (posição típica do materialismo) ela nada mais será do que um efeito das ações e reações íntimas da matéria. Mas, nesse caso, restará o problema da causa dessas ações e reações. E se admitirmos a vida como o resultado dialético da ação de um princípio não-físico sobre a matéria (espiritualismo), reconheceremos a natureza vital, e portanto normal, do paranormal. Quer dizer: a dualidade imanente-transcendente que caracteriza os fenômenos psi não é propriamente uma característica destes, mas de todos os fenômenos ou do universal. Tendemos assim para a aceitação do númeno kantiano e fazemos a eliminação espinosiana do sobrenatural para reconhecermos em tudo apenas a Natureza.

De uma maneira ou de outra, com o epifenômeno ou com o númeno, não conseguimos fugir ao transcendente. Porque o próprio epifenômeno, como o indica a etimologia do termo, é um processo de transcendência reconhecido na sociologia marxista como superestrutura. Assim, ao contrário do que pretende o próprio Professor Joseph Banks Rhine em suas digressões filosóficas e políticas sobre as conseqüências da investigação parapsicológica, a prova científica da existência de psi não nega a validade do Materialismo Histórico, mas apenas delimita essa validade no plano do imanente. Não sendo possível, nem mesmo para o materialismo científico e filosófico, negar o transcendente, que sempre subsiste, será forçoso reconhecer a sua presença e a sua importância no processo histórico. Esse reconhecimento não invalida, mas amplia e enriquece as conclusões da observação e da experimentação na matéria (Ciências físicas).

Reafirma-se, portanto, através desse curioso problema do imanente e do transcendente nos fenômenos psi, a tese da dialética-palingenésica. Transcendente e imanente mostram-se de maneira clara, porque ainda não suficientemente fundidos, quando estudamos a fase pré-histórica do Mitológico. Posteriormente, na História, o imanente se sobrepõe ao transcendente na elaboração da síntese. Esta, entretanto, só se verifica no plano da Palingenesia, no momento em que o Mito e a História se fundem, para que imanente e transcendente de novo transpareçam na Natureza através da Vida. E então, só então, na realidade palingenésica, o agora existencial revela o seu verdadeiro sentido, ou seja, como quer o relativismo-crítico, o presente como síntese do passado e do futuro.

Cada vez que nos defrontamos com o agora no processo palingenésico, estamos ao mesmo tempo diante do ontem e do amanhã. No agora somos o resultado do que éramos no ontem, realizamos a essência que, segundo Sartre, lá se encontrava “em suspenso”. Mas, por outro lado, temos novamente “em suspenso” a essência que realizaremos no amanhã. Isto está mais de acordo com a concepção existencial do homem como projeto, concepção que Sartre limitou ao transcurso de uma única existência, por isso mesmo frustrada.

Assim, a frustração sartreana do homem, “essa paixão inútil”, não é uma realidade objetiva nem subjetiva, mas apenas uma limitação mental do filósofo. Numa perspectiva palingenésica, Sartre poderia enxergar o futuro do homem dentro das próprias condições dialéticas do Marxismo, dessa Filosofia que ele considera a única do século, mas cujas raízes hegelianas autorizam a volta ao espírito.



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