Herculano Pires Parapsicologia Hoje e Amanhã



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6.
Carington e a Parassociologia


A nova forma de cultura a que alude Pitirim Sorokin não pode ser inteira ou absolutamente nova. Sua novidade está na reformulação das bases atuais da Teoria Geral do Conhecimento. Mas essa reformulação, por sua vez, será apoiada em elementos fundamentais da cultura atual. Elementos que, como a pedra rejeitada da parábola, vão agora servir para construção de um edifício amplo e mais arejado, de um novo templo do saber, para usarmos essa expressão mística bem adequada às fases de renovação.

Esses elementos são justamente aqueles que foram postos de lado pelo desenvolvimento do racionalismo iluminista como resíduos de um passado místico: os conceitos de uma realidade não-física e da sobrevivência espiritual do homem. Aos dados que apresentamos no capítulo anterior, justificando a tese da dialética-palingenésica, podemos acrescentar os da doutrina parapsicológica de Whately Carington, que realizou experiências de importância substancial no Laboratório de Psicologia da Universidade de Cambridge sobre a transmissão telepática de desenhos, como vimos anteriormente.

Carington era desses parapsicólogos que não têm medo de palavras. Para ele não havia palavras feias no dicionário. Por isso não teve dúvidas em aceitar a dicotomia espírito-matéria para tentar uma explicação dos fenômenos observados. E graças a essa coragem ofereceu à Parapsicologia uma contribuição das mais fecundas. Preocuparam-lhe sobretudo os desvios de percepção no processo extra-sensorial. E a investigação nesse sentido revelou-lhe coisas curiosas, induzindo-o a uma medida de economia de hipóteses: a redução de toda a ESP (percepção extra-sensorial) a uma forma única, a telepatia precognitiva.

O próprio Carington admitiu que “forçava a mão” para fazer essa temerária redução. Mas partindo do princípio de que é preferível trabalhar com firmeza em âmbito menor, atreveu-se a realizá-la. Ao mesmo tempo, porém, que economizava em hipótese, quanto às modalidades dos fenômenos, via-se obrigado a esbanjar no sentido interpretativo. Essa contradição é plenamente justificável, pois se a simples existência da telepatia já lhe acarretava tantas preocupações de ordem qualitativa, que dizer da multiplicidade de ESP, que o obrigaria a esforços muito maiores?

Carington verificou que o objeto telepático em si, e portanto o objeto material, “nada tinha a ver com o fenômeno”. Quer isso dizer que a transmissão telepática se efetuava de mente a mente, sem qualquer relação com o mundo objetivo. Vejamos como isso aconteceu. Carington abria um dicionário, tomava a primeira palavra utilizável para o caso, fazia um desenho e o afixava em seu gabinete. O sensitivo captava, à distância, não aquele desenho, mas o que seria feito no dia seguinte. Entretanto, nem o próprio Carington sabia qual ia ser esse novo desenho que dependia da palavra a lhe ser novamente oferecida pelo dicionário. Era um caso típico de precognição.

A única maneira de explicar essa ocorrência, encontrada por Carington, foi a hipótese do associacionismo paranormal. Essa hipótese consistia na existência de um sistema de relações inconscientes que permitia o processo telepático, não como simples transmissão e recepção de mensagens, mas como uma forma de comunhão mental. Assim, quando o percipiente se dispunha a receber as mensagens de Carington, sua mente comungava com a do experimentador e todas as ocorrências ligadas ou associadas à experimentação em marcha se lhe tornavam acessíveis.

A conseqüência lógica dessa hipótese era a admissão da existência de entidades psíquicas que Carington designou por psícon e sensa. A mente, e portanto o espírito humano, seriam uma estrutura de átomos extrafísicos: os sensa produzidos sensorialmente pelo contato com o mundo exterior; e os psícon, imagens sutis daqueles, de natureza puramente mental. O espírito voltava a ser o feixe de imagens de Berkeley. Nada mais justo que esse feixe, uma vez ocorrida a morte do indivíduo humano, subsistisse no plano extrafísico. Desapareciam os sensa mas sobreviviam os psícon.

Partindo daí, Carington sustentou a hipótese da sobrevivência da estrutura psicônica após a morte do homem. E acrescentou que essa estrutura – o espírito liberto do corpo – poderia entrar em relação com outras estruturas da mesma natureza e conseqüentemente comunicar-se com os vivos através dos processos mediúnicos. Analisando, por exemplo, o livro Raymond, de Sir Oliver Lodge, declarou não haver nada de estranho em que o filho de Lodge, morto na guerra de 1918, revelasse ao pai a existência de um mundo extrafísico semelhante ao mundo físico. E isso porque os psícon de Raymond haviam sido formados pelos sensa da sua vida física.

A doutrina de Carington, mesmo que desprezemos as suas ilações metafísicas, contribuiu para abrir novas perspectivas à investigação dos fenômenos psi. A rigidez esquemática do processo de transmissão telepática, semelhante ao das transmissões telegráficas, foi substituída pelo dinamismo da associação do conhecimento paranormal. O processo de ESP se revelou mais complexo do que parecia até então. As novas experiências, que ainda agora se desenvolvem nessa orientação nova da hipótese de Carington, poderão decidir por uma reformulação fecunda de muitos aspectos da problemática parapsicológica.

Mas voltando à tese da dialética-palingenésica, vemos que Carington contribuiu para a sua formulação abrindo as perspectivas para a elaboração de uma verdadeira Parassociologia. As entidades psíquicas de Carington, como estruturas psicônicas, em inter-relações fora do plano material e ao mesmo tempo com suas possibilidades de relações com as estruturas mergulhadas neste plano – caso de Raymond, por exemplo – ampliam o campo sociológico levando-nos de volta à cosmossociologia de que falava Durkheim a respeito das cidades gregas, onde homens e deuses conviviam naturalmente. Carington abriu, dessa maneira, na Parapsicologia, a possibilidade de uma Parassociologia que virá fortalecer a tese da dialética-palingenésica.

Na verdade essa Parassociologia já é, há muito tempo, uma realidade social desconhecida pelas Ciências. No mundo inteiro os homens vivem em permanente relação com criaturas espirituais. O próprio Positivismo não pôde escapar ao reconhecimento de que os mortos governam os vivos, embora apenas através da dinâmica cultural. Carington, à maneira de Rhine, nada mais faz que dar forma científica a uma realidade natural e universalmente reconhecida. Essa realidade só é nova para as Ciências.

Há alguns anos, o sociólogo Gilberto Freyre propunha, em artigo na revista O Cruzeiro, a criação de uma sociologia do sobrenatural para explicar relações extra-humanas. Alegava que mesmo admitindo-se apenas a existência imaginária de entidades espirituais não se podiam negar as suas relações com os homens e a sua influência na vida social. Essa tese das relações imaginárias lembra a influência mitológica na dinâmica social. A teoria de Carington oferece a essas relações a possibilidade de uma efetivação no plano da realidade pesquisada e demonstrada pelas Ciências.




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