Herculano Pires Parapsicologia Hoje e Amanhã



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8.
Psi e as transformações sociais


Procuremos examinar a dualidade sociológica das implicações de psi a que já nos referimos. De um lado temos as implicações na vida normal ou cotidiana. À primeira vista são ocorrências de segunda importância, sem maiores conseqüências para a vida social. Na verdade elas não somente influem na conduta dos indivíduos e dos grupos, mas determinam essa conduta. Os arquétipos coletivos de Jung, os instintos do eu de Freud; a vontade de poder de Nietzche; a compensação de Adler e outras hipóteses do gênero bastariam para mostrar a importância da percepção extra-sensorial na conduta. Aliás, toda a Psicologia moderna e o desenvolvimento da Psicologia Social são suficientes para advertir-nos quanto à necessidade de uma investigação a respeito dessas influências.

Não queremos substituir as hipóteses psicológicas acima mencionadas pelas hipóteses parapsicológicas. Pelo contrário, servimo-nos delas para exemplificar as implicações de psi na conduta. Toda a História se apresenta repleta de episódios nesse sentido. Das profecias trágicas de Cassandra, em Tróia, aos augúrios oraculares da Grécia e Roma, até às vozes de Joana D'Arc, as intuições de Napoleão e as previsões de Lenin, há toda uma seqüência de fatos paranormais balizando o processo histórico. O mesmo se dá no plano individual. O homem que pressente a queda de um avião e troca a sua passagem no aeroporto, movido por um impulso do qual a seguir se arrepende, mas graças ao qual salva a sua vida, há de compreender que psi foi de importância fundamental para a sua conduta num momento decisivo.

Tanto no plano da Psicologia Individual quanto no plano da Psicologia Coletiva ou de grupo e no plano mais vasto da Psicologia Social as implicações de psi não são apenas admissíveis, mas sobretudo evidentes e altamente significativas. O chamado momento psicológico nada mais é que o deflagrar de um processo coletivo de psi. Isto é mais fácil de compreender quando nos lembramos que as investigações parapsicológicas não se restringem ao psiquismo humano, tendo demonstrado como os grupos animais se conduzem através de suas funções psi. A percepção extra-sensorial, como um radar orgânico individual, produz a conjugação necessária no plano coletivo para que um grande conjunto se forme, em termos gestálticos, orientando a conduta de toda uma coletividade e decidindo os rumos da História. Humberto Mariotti lembra, a propósito, as fases culminantes da Revolução Francesa e da Revolução Russa, mas podemos lembrar também as proposições teóricas de Kurt Lewin sobre a conduta de grupos em momentos de tensão coletiva. Nesses momentos, poderíamos dizer com Carington, entidades psicônicas individuais se agrupam formando entidades sociais.

Voltando aos arquétipos coletivos de Jung, devemos lembrar o estudo clássico de Mannheim em Ideologia e Utopia. As aspirações ideológicas têm o seu momento de deflagrar, que tanto pode ser favorável como negativo. Nos dois casos acima citados, o da Revolução Francesa e o da Revolução Russa, o momento de deflagrar foi positivo. Os materialistas atribuem o sucesso às condições objetivas, mas dificilmente poderiam mostrar como e porque essas condições se formaram e chegaram a um ponto favorável. Mannheim acentua: “O aparecimento e o desaparecimento de problemas em nosso horizonte intelectual são governados por um princípio ainda obscuro. A própria ascensão e o desaparecimento de sistemas completos de conhecimento podem ser reduzidos, em última análise, a determinados fatores, tornando-se, assim, explicáveis. (...) Da mesma forma, deveria a Sociologia do Conhecimento procurar investigar as condições em que problemas e disciplinas se formam e desaparecem”.

O reconhecimento da existência das funções psi em âmbito individual e coletivo desloca o problema das transformações sociais do plano das simples condições materiais para o das condições psíquicas ou psicossociais. Compreendemos então que há algum motivo não descoberto, não percebido, para que, em dado momento, a revolução social se alastre e chegue a triunfar “no elo mais fraco da cadeia imperialista”, enquanto nos elos mais fortes se torna impossível. Compreendemos que as condições econômicas e sociais não são suficientes por si mesmas, pois as transformações só se realizam, de maneira pacífica ou violenta, nos momentos em que as funções psi atingiram uma fase culminante de percepção da nova realidade que se aproxima. Trata-se de um caso de precognição coletiva.

Tudo isso ocorre, como vemos, no plano da vida normal, no processo natural do desenvolvimento de fatos sociais. Até aqui não intervêm as hipóteses de Carington sobre a existência de uma parassociologia do intermúndio, ou seja, de um processo de relações extrafísicas entre entidades psicônicas sobreviventes à morte do corpo e as criaturas humanas. Ao admitirmos, porém, esse processo mediúnico de relações passamos a outra série de conseqüências. As funções psi assumem, nesse caso, importância muito maior, nos termos da proposição de Mariotti sobre a dialética palingenésica. A sobrevivência do espírito na forma de entidades psicônicas proposta por Carington ou na forma mentalista de Price e outros, esta simples sobrevivência implica novos e muito mais vastos processos de relação social através do tempo. E a hipótese palingenésica, conseqüência lógica da hipótese de Carington, oferece-nos então a perspectiva de uma continuidade histórica que podemos chamar de conseqüente.

Vejamos as decorrências disso. Se admitimos, como explicava Ernesto Bozzano, a existência no homem de uma percepção extra-sensorial e de uma possibilidade, também, de ação extrafísica, é evidente que admitimos a sua natureza transcendente. Rompemos a concepção organocêntrica a que continuamos apegados após o rompimento da concepção geocêntrica. De certa maneira a tendência centralizadora do pensamento, que foi superada pelo heliocentrismo no plano cósmico, refugiou-se no organocentrismo biológico, ou seja, expulso da Astronomia, escondeu-se na Biologia. A descoberta científica das funções psi vem atacar essa tendência no seu último reduto, revelando a possibilidade de vida e de atividades vitais fora dos organismos físicos. O homem transcende a si mesmo, projeta-se fora das suas condições imediatas de vida. As estruturas psicônicas vivem e agem independentemente de seus antigos organismos físicos.

É claro que dessa simples projeção resultam conseqüências numerosas e da mais elevada significação. Se a vida humana, como a de todos os outros organismos, não se extingue com a perda do instrumento orgânico, e se a concepção palingenésica admite a volta das entidades psicônicas à vida orgânica, desaparece a solução de continuidade do processo histórico, tanto para os indivíduos que dele participam quanto para as coletividades. O agora existencial tem importância não apenas agora e não somente para este indivíduo que o vive, mas também no futuro e para aquele indivíduo que lá se apresentará, embora noutra forma e noutras condições. Refletindo sobre isto percebemos o mundo novo de responsabilidades e esperanças que a dialética palingenésica nos descortina.

O “princípio ainda obscuro” a que se refere Mannhein torna-se claro diante dos resultados ainda incipientes da investigação parapsicológica. As relações sociais formam um contexto muito mais amplo do que o visível no plano material. A Sociologia do Conhecimento só poderá penetrar além do contexto visível quando levar em consideração a existência das relações psi e o fato da sua importância básica para o desenvolvimento da cultura. As transformações sociais e culturais mostram-se regidas, à luz da Parapsicologia, por leis psíquicas ainda desconhecidas, mas que já se tornaram acessíveis à pesquisa cientifica. Psi pode encerrar o segredo dos fatores obscuros que precipitam as revoluções culturais e políticas.

Compreendemos melhor esse problema quando nos lembramos da tese gestáltica de que não vivemos na realidade concreta, mas numa realidade psíquica. O nosso mundo – o mundo humano das relações sociais – não coincide com o mundo físico. Todos os psiquiatras e psicoterapeutas sabem quanto têm de lutar para integrar seus clientes até mesmo na factícia realidade social, que na verdade é psicológica.

Vivemos no mundo dos nossos anseios, das nossas ilusões, das nossas esperanças e dos nossos desesperos muitas vezes sem razão. Essa imensa rede psíquica estendida sobre a realidade física é regida por suas próprias leis que, em geral, independem das leis físicas no processo da dinâmica social.



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